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21 de outubro de 2021

As utopias radicais de Ursula Le Guin continuam ressoando

Ursula K. Le Guin, nascida neste dia em 1929, usava a ficção científica para explorar as falhas da sociedade capitalista - e os mundos alternativos que poderíamos construir em seu lugar.

Nick Hubble

Jacobin

Ursula Le Guin fotografada em casa em dezembro de 2005. Foto: Dan Tuffs / Getty Images

Tradução / "[Vocês] não podem comprar a revolução, não podem fazer a revolução. Vocês só podem ser a revolução." Este é o cerne da mensagem que o anarquista Shevek proclama para uma manifestação em massa de trabalhadores sindicalistas e socialistas reunidos na Praça do Capitólio na cidade de Nio Esseia no planeta de Urras no clássico romance utópico publicado por Ursula le Guin em 1974, Os despossuídos.

Na minha opinião, em vez de tentar desvendar a mistura de anarquismo, taoísmo e feminismo que permeia a visão de mundo de Le Guin, é melhor começar com esta passagem endereçada diretamente ao leitor se quisermos pensar sobre a relevância contínua de Le Guin para os socialistas. A ênfase aqui não é apenas na responsabilidade moral pessoal, embora essa seja uma característica constante da filosofia de Le Guin, mas na necessidade imperativa de integrar valores individuais e coletivos, recusando binariedades e hierarquias de pensamento fáceis.

Longe de ser uma celebração do mundo natal anarquista de Shevek, Anarres, Os despossuídos representa aquilo que o crítico Tom Moylan chamou de uma “utopia crítica”, explorando as possibilidades e as limitações de tal sociedade. Uma das maneiras pelas quais o romance é capaz de expandir seu quadro de referência além de uma investigação interna de um possível modelo de sociedade anarquista é por meio do enredo paralelo da viagem de Shevek a Urras.

Quando Shevek pergunta aos socialistas de Nio Esseia o que Anarres (que eles vêem como sua “lua”) significa para eles, eles respondem que toda vez que olham para o céu noturno, eles são lembrados de que existe uma sociedade sem governo, sem polícia, e sem nenhuma exploração econômica e que ela não pode ser descartada como uma mera fantasia utópica. Em outras palavras, tanto Shevek quanto os leitores de Le Guin percebem que a política não gira apenas em torno da adoção de práticas corretas, mas também depende de significados simbólicos para os outros.

Le Guin teve uma longa carreira e toda a sua obra vale a leitura, mas os livros que cimentaram sua reputação foram escritos entre o final dos anos 1960 e meados dos anos 1970, durante um período de ansiedade da Guerra Fria e de aguda crise social e cultural nas sociedades ocidentais. Dentro desses contextos, romances como Os despossuídos e A mão esquerda da escuridão (1969) ganharam reconhecimento imediato pela clareza da visão pela qual diagnosticavam os males da época e ofereciam visões de valores e sociedades alternativos que pareciam alcançáveis através do trabalho duro e de um auto-exame convicto. Os romances foram rapidamente estabelecidos como clássicos do gênero, mas essa não é necessariamente uma vantagem a partir da perspectiva de hoje.

Em sua introdução a uma reedição recente de A mão esquerda da escuridão, China Miéville observa que “os livros mais azarados são aqueles que são ignorados ou esquecidos. Mas guarde um pensamento também para aqueles fadados a se tornarem clássicos. Um clássico é muitas vezes um volume que todos pensam que conhecem.” Existe algum desincentivo maior para se ler um livro do que o conhecimento de que ele é visto como uma obra valiosa e inovadora, importante para a sua época? Para Miéville, a desfamiliarização do gênero realizada no romance o torna inquestionavelmente um precursor das teorias e movimentos queer de gênero e fluidez sexual do nosso presente no século XXI, mas isso ainda deixa em aberto o pensamento de que poderia ser melhor ler livros mais recentes.

De qualquer maneira, como ele reconhece, A mão esquerda da escuridão nem sempre foi visto sob uma luz tão radical. O uso universal que Le Guin faz de pronomes masculinos para denotar uma sociedade sem uma divisão sexual permanente e, portanto, sem uma divisão de gênero, levou Joanna Russ, entre outros, a criticar o romance por na prática conter apenas homens. Por muitos anos, persistiu a ideia de que os romances de Le Guin eram sinceros e bem-intencionados, mas não estariam na vanguarda radical do campo.

Uma maneira de desafiar essa percepção residual de Le Guin como escritora de clássicos valiosos, mas embotados, é considerar um romance menos célebre escrito no mesmo período, A curva do sonho (1971). Em vez da abordagem comedida e repleta de nuances pela qual ela é geralmente conhecida, este livro é estruturado no estilo excêntrico e irrestrito de Philip K. Dick como um passeio selvagem por uma sequência de realidades em colapso.

O protagonista do romance, que atende pelo ressonante nome George Orr, tem sonhos indesejados que mudam a realidade. Seu psiquiatra, Haber, ao invés de tentar curá-lo, busca usar esse poder indiretamente para transformar o mundo para o benefício da humanidade. Claro, toda tentativa de transformação para o bem é sempre acompanhada por alguma consequência monstruosa inesperada.

[Os próximos 3 parágrafos apresentam detalhes do enredo que podem ser vistos como spoilers de A curva do sonho]

Por exemplo, ao tentar resolver o problema de superpopulação, Haber instrui Orr a sonhar com um mundo cheio de espaço por onde se mover – e então este sonha com uma pandemia e acorda para descobrir que “reduziu” a população mundial em seis bilhões de vidas. Como Haber começa a perceber, Orr só consegue sonhar com “conceitos utópicos baratos, ou talvez conceitos anti-utópicos carregados de cinismo”.

Por um lado, é uma piada às custas do homônimo de Orr, George Orwell: em uma das muitas histórias alternativas do livro, a Constituição dos EUA é reescrita em 1984 para formar um estado policial. No entanto, também há algo de valioso na resistência de Orr à vontade de poder de Haber. Quando este último exige a paz mundial, Orr sonha que alienígenas pousaram na lua, fazendo com que os povos da Terra se unam em oposição. Então, quando ordenado a sonhar que os alienígenas deixaram a lua, Orr sonha que eles invadem a Terra.

Os alienígenas telepatas ensinam a Orr que “tudo sonha”, até as pedras, e que, portanto, a única maneira de viver em harmonia com o que de outra forma seria o caos é sintonizar-se conscientemente com o todo. O romance termina com uma resolução digna de Philip K. Dick, na qual Orr, não mais atormentado pelos seus sonhos efetivos, agora está feliz trabalhando com o projeto de utensílios de cozinha alienígena. É difícil não ver esse final como uma brincadeira com a ideia de “trabalho alienado”: seria uma espécie de “negação da negação” se o trabalho fosse conduzido para benefício mútuo com alienígenas com os quais o trabalhador estivesse telepaticamente sintonizado.

A curva do sonho ilustra a importância de pensar sobre livros esteticamente, tanto quanto julgá-los ideologicamente. Como observou o crítico Fredric Jameson, o romance pode ser lido como uma expressão da ansiedade liberal em face da transformação revolucionária, mas, esteticamente, está preocupado com seu próprio processo de produção.

As tentativas mal sucedidas de Orr em sonhar com a Utopia refletem as tentativas de Le Guin de escrever a Utopia; um processo que é, dessa maneira, reconhecido como sendo impossível. Ainda assim, na própria maneira como o romance explora as contradições em se tentar produzir uma Utopia, a narrativa é escrita – e, de alguma forma, uma versão da Utopia acaba sendo produzida.

Embora nem Os despossuídos nem A mão esquerda da escuridão sejam simplesmente sátiras divertidas, compará-los com A curva do sonho abre algumas possibilidades para se pensar neles como mais do que apenas clássicos do seu tempo. Por exemplo, podemos enxergar a aparente incongruência no uso universal de pronomes masculinos em A mão esquerda da escuridão como uma exposição deliberada da impossibilidade de se narrar o gênero fora da estrutura binária à qual nossa linguagem frequentemente nos limita.

De maneira semelhante, Os despossuídos especificamente coloca em primeiro plano a impossibilidade temporal de se pensar o futuro no interior da mentalidade do presente. Em outro momento-chave de discurso em segunda pessoa falando diretamente ao leitor, Shevek diz ao embaixador terráqueo em Urras: “Você não compreende o que é o tempo”.

O que experimentamos como o presente não é real ou estável: é o produto de uma mudança constante. Somente a realidade do passado e do futuro, mantida na memória e nas intenções humanas, torna o presente real. A ficção de Le Guin não só simboliza a possibilidade de mudanças para os leitores socialistas, portanto: ela também fornece uma ideia do próprio grau de trabalho mental necessário para compreendermos a diferença radical que seria acarretada por essas mudanças.

Sobre o autor

Nick Hubble é professor de inglês moderno e contemporâneo na Brunel University. Seu último trabalho, Growing Old with the Welfare State, foi publicado pela Bloomsbury.

12 de dezembro de 2020

Como a ficção científica deu forma ao socialismo

De William Morris a Ursula K. Le Guin e Iain M. Banks, a ficção científica forneceu uma saída para pensadores socialistas – oferecendo aos leitores uma ruptura com o realismo capitalista e nos permitindo imaginar um mundo muito diferente.

Nick Hubble

Jacobin

A ficção científica utópica oferece uma nova maneira de pensar a história. (Ilustração de Chris Moore)

Tradução / O mais recente romance de Kim Stanley Robinson, The ministry for the future (“O Ministério Pelo Futuro”), desafia o domínio do realismo capitalista no Norte Global, estabelecendo uma história futura especulativa na qual a ação coletiva traz o fim do capitalismo e salva o mundo das mudanças climáticas. Ao imaginar uma alternativa ao status quo, Robinson continua uma longa e honrosa tradição de autores de ficção científica de esquerda que escrevem ficção utópica.

A tradição remonta pelo menos a Notícias de Lugar Nenhum (1890) de William Morris, que fala de uma revolução proletária que conduz a uma sociedade ideal sem pobreza ou opressão. De maneiras diferentes, Robinson e Morris compartilham uma visão da humanidade vivendo através do trabalho como uma atividade social que opera tanto na natureza quanto contra a natureza. Todas essas obras, e as de outros romancistas utópicos socialistas famosos que vão de H. G. Wells a Iain M. Banks, promovem a causa do socialismo ao fornecer aos leitores representações radicais da vida pós-capitalista que raramente existem em outros lugares na mídia.

A ficção científica utópica não apenas nos apresenta um projeto para o futuro: ela também oferece uma nova maneira de pensar sobre a história. A contracapa da última edição do Tribune cita Marx no sentido de que “A história mundial seria de fato fácil de fazer se a luta fosse travada apenas em circunstâncias favoráveis.” E se houvesse uma maneira conceitual de reformular as circunstâncias em que nos encontramos? E se parássemos de pensar tanto sobre a história em relação ao passado e começássemos a pensar a partir da perspectiva do futuro?

Em seu Imagined Futures (“Futuros Imaginados”, 2019), Max Saunders descreve o surgimento na Grã-Bretanha do entreguerras (1918-1939) de uma “história futura”, uma história do presente e de seu futuro imediato escrita a partir do ponto de vista de um futuro distante imaginado. Um exemplo é o cientista e intelectual comunista J. B. S. Haldane, que escreveu uma seção de seu livro Daedalus; or, Science and the Future (“Dédalo: ou Ciência e o Futuro”, 1923) na forma de um ensaio onde um estudante de 2073 descreve como os desenvolvimentos biológicos, tal como o crescimento de embriões fora do corpo da mãe, se tornaram uma prática generalizada.

Haldane apresentou uma previsão da transformação completa das relações sexuais convencionais como uma simples questão de fato; ao adotar uma perspectiva futura e ver seu presente como um estágio da história que seria superado, ele se libertou da bússola moral restritiva da tradição e do passado.

A irmã de Haldane, Naomi Mitchison, aplicou uma lógica semelhante a sua ficção científica feminista. Sua descrição de We Have Been Warned (“Fomos Avisados”, 1935) como um “romance histórico sobre meus próprios tempos” implica que ela também estava pensando sobre seu presente pela perspectiva de uma sociedade mais progressista no futuro. A descrição do romance de uma tomada fascista da Inglaterra alertou os leitores sobre a necessidade de uma transformação das relações de classe e gênero, a fim de evitar esse destino e, em vez disso, trazer um futuro antecipado em que todos seriam iguais.

Essa ideia – de que as necessidades da sociedade futura superam as das sociedades passadas e atuais – foi desenvolvida em um princípio ético por meio de uma analogia com a ação industrial. Mitchison observou que havia uma tendência pública de ver as greves em andamento ou campanhas políticas como atos agressivos ou hostis contra a ordem social existente; tais lutas só se tornavam retrospectivamente legítimas por meio da compreensão comum de que elas resultaram em melhorias nas condições de vida.

Portanto, argumentou-se na época, os socialistas deveriam representar os valores do futuro utópico como eticamente bons e as práticas da classe capitalista como um ato hostil contra essa “boa sociedade” do futuro. Esse senso de ficção científica de um futuro pelo qual vale a pena lutar, celebrado pela política cultural de esquerda dos anos 1930, sustentou a contribuição decisiva dos trabalhadores britânicos para a Segunda Guerra Mundial e levou em parte à eleição do governo trabalhista em 1945.

O modelo para esse futuro progressista em grande parte da ficção de esquerda do período entreguerras era a União Soviética pré-Julgamentos-Espetáculo (os Processos de Moscou), como representado em We Have Been Warned dpel perspectiva de mulheres trabalhadoras emancipadas que gozam do direito de controlar se e com quem elas têm filhos. (As contribuições de Mitchison para debates sobre libertação e controle de natalidade, no entanto, devem ser advertidas pela consciência de seu envolvimento com a Sociedade Eugênica.)

Em seu livro de não-ficção, The Moral Basis of Politics (“A Base Moral da Política”, 1938), Mitchison argumentou que a moralidade sexual tradicional estava enraizada em uma economia de escassez e que a liberdade e a igualdade só se tornariam a norma quando todas as necessidades materiais fossem satisfeitas. Ela, portanto, previu que o sucesso ou fracasso final da União Soviética dependeria de sua capacidade de estabelecer uma sociedade pós-escassez.

No final das contas, a URSS fracassou, mas a história desse fracasso é muito mais interessante e instrutiva do que jamais foi reconhecido pelos seus oponentes. O criativo documentário de Francis Spufford sobre essa tentativa soviética de atender a todas as necessidades cientificamente, Red Plenty (“Abundância Vermelha”, 2010), já foi descrito como o equivalente a um romance de ficção científica de Robinson ou Ursula Le Guin.

De forma mais geral, a ideia de uma sociedade utópica pós-escassez constitui a estrutura para o corpo mais robusto de ficção científica socialista nos últimos anos: a série Culture, de Iain M. Banks (1987–2012). Juntos, esses romances constituem um extenso exame sobre a ética da intervenção das forças socialistas destinadas a manobrar Estados tradicionalmente hierárquicos para emancipar seus povos. Ao escrever a partir da perspectiva histórica futura de inteligências artificiais chamada de “Minds” (ou “Mentes”), Banks retira do seu centro a ideologia liberal clássica que hoje domina as discussões sobre intervenções humanitárias e a substitui por uma análise fundamentada dos valores políticos em jogo.

O escopo desse tipo de space opera também funciona para demonstrar as limitações dos valores da classe dominante. Como o crítico Fredric Jameson apontou, o romance tradicional é uma forma literária burguesa estruturalmente dependente de uma resolução formal, como a entrada de uma das heroínas de Jane Austen em um contrato de casamento, que mantém as relações de propriedade e da ordem social.

Em contraste, a ficção científica é um gênero que ousadamente deseja ir além desse tipo de restrição. Ao deslocar a escala de ação dos confins da vida moderna, definida pelas circunstâncias do nascimento e oportunidades de trabalho, para um universo infinito, ela abre uma exploração de possibilidades individuais e sociais sem limites; depois de ver raios-C brilharem na escuridão próximos ao Portão Tannhäuser, não há como voltar à vida passiva do capitalismo tardio.

O que encontramos em mais de um século de ficção científica socialista é um guia para algumas das mudanças de perspectiva necessárias para nos libertarmos das restrições ideológicas do presente e continuarmos com a tarefa de fazer a história. Esses romances oferecem não apenas esperança e inspiração para tempos difíceis, mas também um renovado senso de admiração sobre o que uma verdadeira sociedade de iguais poderia alcançar.

Sobre o autor

Nick Hubble é professor de inglês moderno e contemporâneo na Brunel University. Seu último trabalho, Growing Old with the Welfare State, foi publicado pela Bloomsbury.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...