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1 de janeiro de 2008

Vivendo a Tese Onze

Neste texto, Richard Levins propõe uma leitura profundamente engajada da décima primeira tese sobre Feuerbach, convocando cientistas, intelectuais e ativistas a romperem a separação entre interpretação e transformação do mundo. A partir de sua trajetória como pesquisador marxista e militante ecossocialista, Levins discute o papel da ciência crítica na luta pela emancipação humana, articulando temas como ecologia, solidariedade, prática revolucionária e responsabilidade coletiva diante da crise planetária.

Richard Levins


Volume 59, Issue 08 (January)

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

—Karl Marx

Tradução / Quando menino, sempre imaginei que, quando crescesse, seria tanto um cientista quanto um "vermelho" [comunista]. Ao invés de me deparar com o problema de como conciliar a militância com a academia, minha dificuldade foi para separá-las.

Antes mesmo de me alfabetizar, meu avô lia para mim "Ciência e História para Meninas e Meninos", de Bad Bishop Brown's.1 Meu avô acreditava que todo trabalhador socialista deveria estar familiarizado, no mínimo, com cosmologia, evolução e história. Nunca separei história, na qual éramos participantes ativos, de ciência – da descoberta de como as coisas são. Minha família já tinha rompido com a religião organizada havia cinco gerações, mas meu pai me fazia estudar a Bíblia todas as sextas: porque era parte importante da cultura que nos rodeava (e importante para muitos), uma narrativa fascinante de como as ideias evoluem em condições mutáveis, e porque todo ateu deveria conhecê-la tão bem quanto os fiéis.

Em meu primeiro dia de escola, minha avó me estimulou a aprender tudo que pudessem me ensinar – mas não acreditar em tudo. Ela era muito consciente da "ciência racial" da Alemanha dos anos 1930 e das justificativas eugenistas e da supremacia masculina, que eram populares em nosso próprio país. Sua atitude vinha de seu conhecimento dos usos da ciência a serviço do poder e do privilégio, e da desconfiança genérica dos trabalhadores em relação à classe dominante. Seu conselho foi formativo para a minha postura na vida acadêmica: conscientemente na, mas não da, universidade

Cresci em um bairro de esquerda do Brooklyn, onde as escolas fechavam no Primeiro de Maio, e só fui conhecer pela primeira vez um eleitor do partido Republicano aos doze anos. Problemas de ciência, política e cultura eram debatidos em grupos no calçadão de Brighton Beach, e temperavam nossas conversas na hora da refeição. O compromisso político era uma certeza: como atuar perante esse compromisso era tema de acalorados debates.

Quando adolescente, quando comecei a me interessar por genética pela minha fascinação com o trabalho do cientista soviético Lysenko. No fim das contas, ele estava totalmente equivocado, especialmente por tentar chegar a conclusões biológicas a partir de princípios filosóficos. Entretanto, sua crítica à genética de seu tempo me conduziu à obra de Waddington, Schmalhausen e outros que ao invés de descartá-lo imediatamente, à moda Guerra Fria, responderam ao seu desafio desenvolvendo uma visão mais profunda da interação organismo-ambiente.

Minha esposa, Rosario Morales, me apresentou a Porto Rico em 1951 e os onze anos que passei ali deram uma perspectiva latino-americanista à minha compreensão de política. As vitórias da esquerda na América do Sul foram uma fonte de otimismo mesmo em tempos sombrios. A vigilância do FBI em Porto Rico me bloqueou dos empregos que procurei, então para ganhar a vida acabei como trabalhador rural em uma fazenda nas montanhas no lado ocidental da ilha.

Quando era estudante da Cornell University School of Agriculture, me ensinaram que o principal problema da agricultura nos Estados Unidos era o descarte dos excedentes das fazendas. Mas como um camponês em uma região pobre de Porto Rico, compreendi o significado da agricultura para a vida das pessoas. Essa experiência me apresentou às realidades da pobreza, e como ela debilita a saúde, reduz a expectativa de vida, limita oportunidades e brutaliza o desenvolvimento pessoal. Também conheci as formas específicas que o sexismo assume nas áreas rurais pobres. Combinei o trabalho de organização sindical nas plantações de café com o estudo. Rosario e eu escrevemos o programa agrário do Partido Comunista de Porto Rico, no qual aliamos análises econômicas e sociais amadorísticas com as primeiras intuições sobre os métodos de produção agroecológica, de diversificação, de conservação ambiental e de organização em cooperativas.

Fui a Cuba pela primeira vez em 1964, para ajudar no desenvolvimento das pesquisas de genética de populações na ilha e ver de perto a Revolução Cubana. Ao longo dos anos, me envolvi na contínua luta cubana pela agricultura ecológica e por uma via ecológica de desenvolvimento econômico que fosse justo, igualitário e sustentável. O pensamento progressista, tão forte na tradição socialista, assumia que os países subdesenvolvidos deveriam alcançar o nível de desenvolvimento dos países em uma única trajetória linear de modernização. Esse pensamento desprezava os críticos da trajetória high-tech do agronegócio industrial taxando-os de “idealistas”, sentimentalistas urbanos nostálgicos de uma idade de ouro rural bucólica que nunca existiu. Mas havia também uma visão alternativa: a de que cada sociedade cria suas próprias formas de se relacionar com a natureza, com seu padrão particular de uso da terra, com sua tecnologia adequada e seus próprios critérios de eficiência. Essa discussão se intensificou em Cuba nos anos 1970, de modo que ao chegar nos anos 1980 o modelo ecológico já havia basicamente ganhado o debate, ainda que sua implementação fosse demorar mais um tempo. O Período Especial, o momento de crise econômica após o colapso da União Soviética, quando materiais de alta tecnologia se tornaram indisponíveis, permitiu com que os ambientalistas por convicção recrutassem os ambientalistas por necessidade. Isso só foi possível porque os ambientalistas por convicção haviam preparado o caminho.

Meu primeiro contato com o materialismo histórico se deu na adolescência, por meio dos trabalhos dos cientistas marxistas britânicos J. B. S. Haldane, J. D. Bernal, Joseph Needham e outros, que depois me levaram a Marx e Engels. Fui imediatamente fascinado pelo materialismo histórico, tanto intelectual quanto esteticamente. Uma visão dialética da natureza e da sociedade tem sido um tema importante da minha pesquisa desde então. Encantei-me com a ênfase dialética na totalidade, na conexão e no contexto, na mudança, na historicidade, na contradição, na irregularidade, na assimetria, e na multiplicidade de níveis dos fenômenos – um revigorante contraponto ao reducionismo dominante tanto à época quanto agora.

Um exemplo: quando Rosario me sugeriu que eu observasse a mosca drosófila na natureza – e não somente em frascos de laboratório -, comecei a trabalhar com a drosófila no bairro onde morávamos em Porto Rico. Minha pergunta era a seguinte: como as espécies de drosófila suportam os gradientes temporais e espaciais em seu meio? Comecei a examinar as muitas maneiras em que diferentes espécies de Drosophila reagiam a desafios ambientais semelhantes. Em um único dia, podia reunir Drosophila nos desertos de Guánica e na floresta tropical de nossa fazenda no topo da serra. Algumas espécies se adaptam fisiologicamente a altas temperaturas em dois ou três dias, com relativamente poucas diferenças genéticas na tolerância ao calor ao longo de um gradiente de 3.000 pés. Outras tinham subpopulações genéticas únicas para cada diferente hábitat. Outras se adaptam a só uma parte dos ambientes, onde permanecem. Uma das espécies do deserto tinha tanta tolerância ao calor que qualquer drosófila da floresta tropical, mas era muito melhor em buscar microhabitats frescos e úmidos e esconder-se neles depois das 8 da manhã. Essas descobertas levaram-me a descrever os conceitos da seleção por cogradiente, na qual o impacto direto do ambiente aumenta as diferenças genéticas entre as populações, e da seleção por contragradiente, em que as diferenças genéticas compensam o impacto direto do ambiente. Uma vez que em meu recorte a alta temperatura estava ligada a condições secas, a seleção natural atuava aumentando o tamanho das moscas em Guánica, enquanto o efeito da temperatura em seu desenvolvimento as deixava menores. A conclusão é que as moscas do deserto do nível do mar e as da floresta tropical tinham mais ou menos o mesmo tamanho em seus próprios habitats, mas as moscas de Guánica eram maiores quando cresciam à mesma temperatura que as do bosque tropical.

Neste trabalho, questionei o viés reducionista dominante na biologia ressaltando que os fenômenos ocorrem em diferentes níveis, cada um com suas próprias leis, mas conectados. Meu enfoque foi dialético: a interação nas adaptações nos níveis fisiológico, comportamental e genético. Minha preferência por processo, variabilidade e mudança orientou minha tese.

O problema era como as espécies podem se adaptar ao ambiente quando o ambiente não é sempre o mesmo. Quando comecei a trabalhar na tese, fiquei intrigado com a fácil suposição de que, frente a demandas conflitantes, por exemplo quando o ambiente favorece um tamanho pequeno em parte do tempo e um tamanho grande o resto do tempo, um organismo teria que adotar um estado intermediário como uma forma de compromisso. No entanto, esta é uma aplicação acrítica do lugar-comum liberal de que quando há visões opostas a verdade deve ficar em algum lugar no meio do caminho. Na minha pesquisa, o estudo dos padrões de adaptação foi uma tentativa de analisar quando uma posição intermediária é realmente a ideal e quando é a pior escolha possível. Em resumo, o que observei foi que quando as alternativas não são muito diferentes, uma posição intermediária é seguramente a ideal, mas quando elas são muito diferentes em comparação com a amplitude de tolerância da espécie, então é preferível um extremo ou, em alguns casos, uma mistura de extremos.

Trabalhos sobre seleção natural em genética de populações costumam quase sempre supor um ambiente constante, mas o que me interessava era sua mutabilidade. Propus que a “variação ambiental” deve ser uma resposta a muitas questões de ecologia evolutiva e que os organismos se adaptam não só a características ambientais específicas, tais como alta temperatura ou alcalinidade do solo, mas também ao padrão do ambiente: sua variabilidade, sua incerteza, suas discrepâncias, as correlações entre diferentes aspectos do ambiente. Além disso, esses padrões do meio não são simplesmente dados, exteriores ao organismo: os organismos selecionam, transformam e definem seus próprios ambientes.

Independentemente do objeto de uma investigação (ecologia evolutiva, agricultura ou, mais recentemente, saúde pública), meu principal interesse sempre foi o de compreender a dinâmica de sistemas complexos. Além disso, meu compromisso político exige que eu questione a relevância do meu trabalho. Em um poema Brecht diz: “Realmente vivemos em uma época terrível… quando falar de árvores é quase um crime, porque é uma maneira de se calar sobre a injustiça”. Brecht, evidentemente, estava errado em relação às árvores: hoje em dia quando falamos de árvores não estamos ignorando a injustiça. Mas em uma coisa ele estava mesmo certo: a pesquisa acadêmica que é indiferente ao sofrimento humano é imoral.

Pobreza e opressão roubam anos de vida e saúde, encurtam os horizontes e podam talentos potenciais antes que eles possam florescer. Meu compromisso com as lutas dos pobres e oprimidos e meu interesse pela variabilidade se combinaram para focar minha atenção às vulnerabilidades sociais e fisiológicas das pessoas.

Tenho estudado a capacidade do corpo de se recuperar depois de sofrer de desnutrição, contaminação, insegurança ou acesso inadequado a serviços de saúde. O estresse continuado debilita os mecanismos estabilizadores dos corpos das populações oprimidas tornando-as mais vulneráveis a qualquer coisa, mesmo a pequenas diferenças em seus ambientes. Isto se mostra na maior variabilidade em pressão arterial, índice de massa corporal e expectativa de vida, quando se compara com resultados mais uniformes em populações privilegiadas.

Ao examinar os efeitos da pobreza, não basta analisar a predominância de doenças específicas em diferentes populações. Ao passo que certos patógenos ou contaminantes podem desencadear doenças específicas, as condições sociais criam uma vulnerabilidade mais difusa, que conectam doenças sem relação clínica. Por exemplo: desnutrição, infecção ou poluição podem romper as barreiras de proteção do intestino. Uma vez rompidas, por qualquer dessas razões, o intestino se torna um locus de invasão de contaminantes, micróbios ou alergênicos. Portanto, os problemas de nutrição, as doenças infecciosas, o estresse e substâncias tóxicas causam uma grande variedade de doenças aparentemente sem relação.

A noção dominante desde os anos 60 era que as doenças infecciosas desapareceriam com o desenvolvimento econômico. Na década de 90, contribuí para a criação em Harvard do Grupo para Doenças Novas e Reincidentes, que rejeitava essa ideia. Nosso argumento era em grande medida ecológico: a rápida adaptação de vetores a habitats variáveis, em transformação – de desmatamento, projetos de irrigação e deslocamento de populações, a guerras e fome. Também nos concentramos na igualmente rápida adaptação dos patógenos a pesticidas e antibióticos. Mas também criticamos o isolamento físico, institucional e intelectual da pesquisa médica em relação à patologia da flora e aos estudos veterinários, que poderiam ter mostrado mais rápido o padrão amplo de recrudescimento não só da malária, cólera e AIDS, mas também da febre suína africana, da leucemia felina, do vírus da “tristeza dos citros” e do vírus do mosaico do fumo. Devemos esperar por mudanças epidemiológicas com o crescimento das disparidades econômicas e com as mudanças no uso da terra, no desenvolvimento econômico, no assentamento humano e na demografia. A fé na eficácia dos antibióticos, vacinas e pesticidas contra os patógenos das plantas, dos animais e humanos é ingênua à luz da evolução adaptativa. As expectativas desenvolvimentistas de que o crescimento econômico levaria o resto do mundo à abundância e à eliminação das doenças infecciosas estão sendo desmentidas pelos fatos.

O ressurgimento das doenças infecciosas é apenas uma das muitas manifestações de uma crise mais geral: a síndrome de aflição ecossocial, uma crise (abrangente e multi nível) das relações disfuncionais no interior da nossa espécie e entre nossa espécie e o resto natureza. Essa crise integra em uma rede de ações e reações padrões de doenças, relações de produção e reprodução, demografia, o esgotamento e destruição temerária dos recursos naturais, a mudança no uso da terra e no assentamento humano, e a mudança climática global. É uma crise mais profunda do que as anteriores, chegando mais alto na atmosfera e mais profundamente na terra, mais disseminada no espaço e mais duradoura tempo, e penetrando em mais dimensões de nossas vidas. É a um só tempo uma crise geral da espécie humana e uma crise específica do capitalismo mundial. Por isso mesmo, é a preocupação número um tanto de minha investigação científica como de minha ação política.

A complexidade dessa síndrome mundial pode ser paralisante. Ainda assim, esquivar-se da complexidade fragmentando o sistema para tratar os problemas individualmente pode ser desastroso. Os grandes fracassos da tecnologia científica decorrem de uma visão reducionista dos problemas. Os cientistas agrícolas que propuseram a Revolução Verde sem levar em conta a evolução das pragas e a ecologia dos insetos, esperando, portanto, que os pesticidas fossem controlar as pragas, se surpreenderam que a pulverização de agrotóxicos levou ao aumento do problema das pragas. De forma semelhante, os antibióticos criam novos patógenos, o desenvolvimento econômico produz fome, e o controle de inundações gera inundações. Todos os problemas precisam ser resolvidos em sua rica complexidade. O estudo da complexidade torna-se também um problema prático urgente (não apenas teórico).

Esses são os interesses que informam meu trabalho político: dentro da esquerda, a minha tarefa tem sido argumentar que nossas relações com o resto da natureza não podem ser separadas da luta global pela libertação humana; e no movimento ambiental a minha tarefa tem sido questionar e desafiar o idealismo da “harmonia natural” da primeira fase do ambientalismo e insistir na necessidade de identificar as relações sociais que conduzem à disfuncionalidade atual. Ao mesmo tempo, minha política determinou minha ética científica. Acredito que estão erradas todas as teorias que promovam, justifiquem ou tolerem a injustiça.

Uma crítica, pela esquerda, da estrutura da vida intelectual é um contrapeso à cultura das universidades e fundações. O movimento antiguerra dos anos 1960 e 1970 levantou questões como a natureza da universidade como um órgão de dominação de classe e fez da própria comunidade intelectual um objeto de interesse tanto teórico quanto prático. Eu mesmo me uni à Science for the People (Ciência para o Povo), uma organização que começou em 1967 com uma greve de pesquisadores no MIT (Massachusetts Institute of Technology), como protesto contra a pesquisa militar no campus. Como membro, ajudei no questionamento à Revolução Verde e ao determinismo genético. A militância antiguerra também me levou ao Vietnã para investigar os crimes de guerra (especialmente o uso de desfolhantes) e a partir disso a organizar o Science for Vietnam (Ciência para o Vietnã). Denunciamos o uso do Agente Laranja (desfolhante usado na selva do Vietnã) que estava causando defeitos congênitos em camponeses vietnamitas. O agente de laranja era uma das mais cruéis formas de utilização de herbicidas químicos.

O movimento de independência de Porto Rico criou em mim uma consciência antiimperialista que me serviu bem em uma universidade que promove a “reforma estrutural” e outros eufemismos para imperialismo. O contundente feminismo classista de minha esposa é uma fonte constante de crítica ao elitismo e sexismo disseminados. O trabalho frequente com Cuba me mostra em cores vivas que há uma alternativa a uma sociedade competitiva, individualista e exploradora.

As organizações comunitárias, especialmente em comunidades marginalizadas, e o movimento de saúde das mulheres levantam questões que o mundo acadêmico prefere ignorar: as mães de Woburn percebendo que muitos de seus filhos do mesmo bairro tinham leucemia, as centenas de grupos de justiça ambiental que perceberam que o despejo de produtos tóxicos se concentravam em bairros negros e latinos, o Women’s Community Cancer Project e outros que insistem sobre as causas ambientais do câncer e outras doenças, enquanto os laboratórios universitários ficam à procura de “genes culpados”. Essas iniciativas me ajudaram a manter uma agenda alternativa para a teoria e a ação.

Dentro da universidade, tenho uma relação contraditória com a instituição e com os colegas, uma combinação de cooperação e conflito. Podemos compartilhar uma preocupação com as desigualdades na saúde e a pobreza persistente, mas divergimos quanto ao financiamento privado da pesquisa sobre patentes de moléculas e a respeito agências governamentais, como a AID (Agência para o Desenvolvimento Internacional), que promovem os objetivos do império.2

Nunca aspirei ao que se convencionou chamar de uma “carreira de sucesso” na academia. Não busco reconhecimento pessoal no sistema formal de premiação da comunidade científica e tento não compartilhar das expectativas comuns de minha comunidade profissional. Isso me dá uma ampla liberdade de escolha. Assim, quando recusei o convite para ser membro da National Academy of Science (Academia Nacional de Ciência) e recebi muitas cartas de apoio elogiando minha coragem, ou considerando-a uma decisão difícil, pude dizer francamente que não foi uma decisão difícil, mas apenas uma escolha política tomada coletivamente pelo grupo Ciência para o Povo de Chicago. Avaliamos que era mais útil posicionar-se publicamente contra a colaboração da Academia na Guerra do Vietnam do que unir-se à Academia e tentar influenciar suas ações a partir de dentro. Richard Lewontin já havia tentado, sem sucesso, esse caminho, e renunciado a sua filiação juntamente com Bruce Wallace.

A maior parte da minha pesquisa coloca os seus objetivos em dois níveis: o problema particular do momento e alguma questão teórica ou controversa fundamental. O estudo da adaptação à temperatura de moscas das frutas também foi um argumento para múltiplos níveis de causalidade. A Teoria do Nicho também foi uma incursão na interpenetração dos opostos (organismo e ambiente). A biogeografia tratava dos múltiplos níveis da dinâmica ecológica e evolutiva. O manejo ecológico das pragas também foi uma demanda por estratégias que levassem em consideração o todo sistêmico. O trabalho sobre doenças infecciosas novas e reincidentes aliava biologia e sociologia. Examinamos por que a comunidade de saúde pública ficou surpresa quando as doenças infecciosas não desapareceram. Foi, portanto, um exercício de autocrítica da ciência.

Sempre apreciei a matemática e vejo como uma de suas principais funções tornar óbvio aquilo que parecia obscuro. Emprego com regularidade uma espécie de matemática de nível médio em formas não convencionais para alcançar compreensão, mais do que uma previsão. Boa parte do trabalho de modelagem atual visa equações precisas que resultem em previsões precisas. Isto faz sentido na engenharia. No campo das políticas públicas, isso faz sentido para os assessores dos poderosos que imaginam ter o controle suficiente do mundo para otimizar ao máximo seus esforços e investimentos de recursos. Mas nós que estamos na oposição não temos tais ilusões. O melhor que podemos fazer é decidir onde pressionar o sistema. Para isso, uma matemática qualitativa é mais útil. Meu trabalho com dígrafos marcados (“análise de circuitos”) é uma dessas abordagens. Ao rejeitar a oposição entre análise qualitativa e quantitativa, e a noção de que o quantitativo é superior ao qualitativo, trabalhei principalmente com as ferramentas matemáticas que auxiliam a conceitualização de fenômenos complexos.

A militância política, é claro, atrai a atenção das agências de repressão. A esse respeito, eu tive sorte, já que experimentei apenas uma repressão relativamente leve. Outros não tiveram tanta sorte: carreiras perdidas, anos de prisão, ataques violentos, assédio contínuo até contra suas famílias, deportações. Alguns, em sua maioria dos movimentos de libertação porto-riquenhos, afro-americanos e nativo-americanos, assim como os cinco antiterroristas cubanos presos na Flórida, ainda são presos políticos.

A exploração mata e fere as pessoas. O racismo e o sexismo destroem a saúde e frustram vidas. Estudar a ganância, brutalidade e presunção do capitalismo tardio é doloroso e enfurecedor. Às vezes tenho que recitar “Ballad of Evil Genius” de Jonathan Swift:

Como o barqueiro do Tâmisa,
Passo remando a insultar.
Como o sábio de eterno riso
Gasto minha raiva em escárnio...
Ouçam-me bem:
Eu os enforcaria, se pudesse.

A pesquisa acadêmica e a militância me deram, em sua maior parte, uma vida agradável e gratificante, trabalhando no que entendo ser intelectualmente estimulante, socialmente útil e com as pessoas que eu amo.

Notas

1 John Montgomery Brown foi um bispo episcopal luterano do Sínodo do Missouri, excomungado quando se tornou marxista. Na década de 1930, ele publicou o periódico trimestral Heresy.
2 A AID realiza programas de saúde e desenvolvimento em países do terceiro mundo estrategicamente escolhidos. Seus programas separados às vezes são úteis e os participantes são motivados por preocupações humanitárias. Mas a agência também é uma organização terrorista, apoiando grupos contrarrevolucionários na Venezuela, Haiti e Cuba. Ela já apoiou o LEAP (Law Enforcement Assistance Program) que ensinou tortura a policiais uruguaios e brasileiros.

*

Como cientistas atuantes, vemos a mercantilização da ciência como a principal causa da alienação da maioria dos cientistas dos produtos de seu trabalho. Ela fica entre os insights poderosos da ciência e os avanços correspondentes no bem-estar humano, frequentemente produzindo resultados que contradizem os propósitos declarados. A continuação da fome no mundo moderno não é o resultado de um problema intratável que frustra nossos melhores esforços para alimentar as pessoas. Em vez disso, a agricultura no mundo capitalista está diretamente preocupada com o lucro e apenas indiretamente com a alimentação das pessoas. Da mesma forma, a organização dos cuidados de saúde é diretamente um empreendimento econômico e é apenas secundariamente influenciada pelas necessidades de saúde das pessoas. As irracionalidades de um mundo cientificamente sofisticado não vêm de falhas de inteligência, mas da persistência do capitalismo, que como um subproduto também aborta a inteligência humana.

—Richard Levins e Richard Lewontin, The Dialectical Biologist (Harvard University Press, 1985), p. 208.

Richard Levins é o chefe do programa de ecologia humana na Harvard School of Public Health e, mais recentemente, coautor, com Richard Lewontin, de Biology Under the Influence: Dialectical Essays on Ecology, Agriculture, and Health (Monthly Review Press, 2007), do qual este ensaio foi extraído. O autor é grato a Rosario Morales por sua assistência na conceituação e edição deste ensaio.

1 de novembro de 2002

Stephen Jay Gould - O que significa ser radical?

Uma reflexão sobre como Stephen Jay Gould incorporou uma abordagem radical — na ciência e na política — ao desafiar determinismos e narrativas convencionais, questionando as raízes da biologia e da sociedade.

Richard C. Lewontin e Richard Levins

Monthly Review
Monthly Review Volume 54, Number 6 (November 2002)

Tradução / No início deste ano, Stephen Jay Gould desenvolveu um câncer no pulmão que se alastrou tão rapidamente que já não havia qualquer esperança de sobrevivência. Faleceu em 20 de maio de 2002, aos 60 anos. Vinte anos antes escapara à morte por um mesotelioma, induzido, como supomos, por alguma exposição ao amianto. Ainda que a sua cura tenha sido completa, nunca perdeu a consciência da sua mortalidade dando a sensação, pelo menos aos seus amigos, de uma quase bem disposta aceitação do inevitável. Tendo sobrevivido a um câncer que foi provavelmente consequência de um envenenamento ambiental, sucumbiu a outro.

A vida pública, intelectual e política de Steve Gould foi extraordinária, senão única. Primeiro, foi um biólogo evolucionário e historiador da ciência cujo trabalho intelectual teve um impacto maior na nossa visão do processo evolutivo. Segundo, foi, de longe, o divulgador científico mais amplamente conhecido. Terceiro, foi um ativista político consistente no apoio ao socialismo e na oposição a todas as formas de colonialismo e opressão. A figura que mais se lhe aproxima neste aspecto foi a do biólogo britânico da década de 30, J. B. S. Haldane, um dos fundadores da moderna teoria genética da evolução, um maravilhoso ensaísta sobre ciência para o público genérico, e um marxista peculiar, colunista no Daily Worker que acabou por se afastar do Partido Comunista devido à exigência de que o seu trabalho científico seguisse a doutrina partidária.

O que caracteriza o trabalho de Steve Gould é o seu radicalismo consistente. A palavra radical tornou-se sinônimo de extremista no uso corrente: a Monthly Review é uma publicação radical para os leitores do Progressive; Steve Gould submeteu-se a uma cirurgia radical quando os tumores foram removidos do seu cérebro; e um radical é alguém que está abertamente no campo da esquerda (ou da direita). Mas uma breve incursão ao Oxford English Dictionary recorda-nos que a origem da palavra radical é, de facto, radix , a palavra latina para raiz. Ser radical é considerar as coisas desde a sua raiz, ir à origem do paradigma, tentar reconstituir a ação e as ideias desde os primeiros princípios. O impulso para ser radical é o impulso para perguntar, “Como sei aquilo?” e “Porque estou a seguir este percurso ao invés de outro?” Steve Gould possuía esse impulso radical e seguia-o onde era importante. 

Primeiro, Steve era radical na sua ciência. A sua mais conhecida contribuição para a biologia evolucionária foi a teoria do equilíbrio pontuado que desenvolveu com o seu colega Niles Eldridge. A teoria padrão da mudança da forma de organismos no tempo evolutivo é que ela ocorre constantemente, paulatinamente e gradualmente com mudanças mais ou menos iguais a acontecerem em iguais intervalos de tempo. Esta parece ter sido a visão de Darwin, embora a prosa de Darwin no século XIX admita quase qualquer leitura. A genética moderna mostrou que qualquer mudança hereditária no desenvolvimento que seja provável sobreviver causará apenas uma ligeira alteração no organismo, que tais mutações ocorrem a uma taxa razoavelmente constante em períodos de tempo longos e que a força da seleção natural devidas a essas pequenas mudanças são também de pequena magnitude. Todos estes fatos apontam para uma mudança mais ou menos constante e lenta nas espécies durante longos períodos. 

Quando olhamos para registos fósseis, no entanto, as mudanças observadas são muito mais irregulares. Verificam-se maiores ou menores mudanças abruptas na forma entre fósseis que se sucedem no tempo geológico sem muita evidência dos supostos registos intermédios entre eles. A explicação usual é a de que os fósseis são relativamente raros e estamos apenas a observar instantâneos ocasionais da evolução real dos organismos. Esta é uma teoria perfeitamente coerente, mas Eldridge e Gould recuaram ao paradigma e questionaram se a taxa de mudança sob a seleção natural seria realmente constante como todos assumiam. Examinando algumas séries de fósseis com um registo temporal mais completo do que o normal, encontraram evidência de longos períodos de virtualmente nenhuma mudança pontuados por curtos períodos durante os quais parecia ocorrer a maior parte da mudança na forma. Eles generalizaram esta descoberta numa teoria em que a evolução ocorre repentina e abruptamente e apresentaram várias possíveis explicações, incluindo aquela em que muito da evolução verificou-se após súbitas grandes alterações no ambiente. Steve Gould foi mesmo mais longe na sua ênfase acerca da importância de grandes acontecimentos irregulares na história da vida. Deu grande importância às súbitas extinções em massa de espécies após colisões de grandes cometas com a Terra e na subsequente repovoação do mundo vivo a partir de um grupo restrito de espécies sobreviventes. Deve-se resistir à tentação de ver alguma conexão simples entre a teoria de Gould da evolução episódica e a sua adesão à teoria marxista das etapas históricas. A conexão é muito mais profunda. Ela reside no seu radicalismo. 

Outro aspecto do radicalismo de Gould em ciência foi a forma da sua abordagem geral à explicação evolucionária. A maioria dos biólogos preocupados com a história da vida e a sua atual distribuição geográfica e ecológica assume que a seleção natural é a causa de todas a características dos organismos vivos ou extintos sendo que a tarefa do biólogo, na medida em que tem de fornecer explicações, é aparecer com uma narrativa razoável da razão porquê certas características particulares de uma espécie foram favorecidas pela seleção natural. Se, quando a espécie humana perdeu a maior parte do seu pelo corporal ao evoluir dos seus ancestrais macacos, ainda assim manteve olhos castanhos, então olhos castanhos deve ser uma coisa boa. Uma grande ênfase dos escritos científicos de Steve Gould era no sentido de rejeitar este adaptacionismo Panglossiano simplista e voltar à diversidade fundamental dos processos biológicos na busca das causas da mudança evolutiva. Ele argumentou que a evolução foi resultado tanto de forças aleatórias como seletivas e que as características podem ser subprodutos físicos da seleção por outros atributos. Também argumentou fortemente a favor da contingência histórica da mudança evolutiva. Alguma coisa pode ser selecionada por alguma razão num determinado momento, e depois por uma razão completamente diferente em outro momento, de modo que o produto final é o resultado de toda a história de uma linha evolutiva e não pode tornar-se compreensível pelo seu significado adaptativo no presente. Deste modo, por exemplo, os humanos são como são porque os vertebrados terrestres reduziram muitas formas de barbatanas a quatro membros, os corações dos mamíferos tendem a posicionar à esquerda, enquanto os dos pássaros à direita, os ossos do ouvido interior eram parte do maxilar dos nossos antepassados reptilianos, e aconteceu uma seca na África oriental num tempo crucial da nossa história evolutiva. Portanto, se uma vida inteligente nos visitar vinda de algures do universo, não devemos esperar que tenham forma humana ou sofram de uma hierarquia sexista, ou tenha um posto de comando nas suas naves espaciais.

Gould enfatizou igualmente a importância de relações de desenvolvimento entre diferentes partes de um organismo. Um caso famoso foi o seu estudo do alce irlandês, enorme e extinto, com enormes chifres, muito maiores em proporção relativamente ao tamanho do animal do que é visto no moderno veado. A história adaptacionista inventada foi que os chifres de veados machos estão sob constante seleção natural para o seu aumento pois os machos usam-nos em combate com outros quando competem para aceder às fêmeas. O alce irlandês impulsionou a evolução desta forma de machismo demasiado longe e os seus chifres tornaram-se tão pesados que não puderam cumprir as tarefas da sua vida diária e extinguiu-se. O que Steve mostrou foi que para o veado em geral, espécies com um corpo maior possuem chifres que são mais do que proporcionais no tamanho – uma consequência da taxa de aumento diferencial do tamanho do corpo e do tamanho dos chifres durante o desenvolvimento. De fato, o alce irlandês tinha chifres exatamente do tamanho que seria de prever para a dimensão do seu corpo e nenhuma história especial de seleção natural é requerida.

Nenhum dos argumentos de Gould sobre a complexidade da evolução rejeita Darwin. Não existe nenhum novo paradigma mas sim uma perfeitamente respeitável “ciência normal” que acrescenta excelência ao esquema original darwiniano. Eles tipificam a sua regra radical para a compreensão: ir sempre aos processos biológicos básicos e ver aonde isso conduz.

A maior fama de Steve Gould não foi como biólogo mas como divulgador da ciência para o público leigo, em lições, ensaios e livros. A relação entre conhecimento científico e ação social é problemática. O conhecimento científico é esotérico, possuído e compreendido por uma pequena elite, ainda que o uso e controle desse conhecimento pelos poderes privados e públicos tenham enormes consequências para todos. De que modo pode existir nem que seja uma ilusão de um estado democrático quando conhecimento vital está nas mãos de uns poucos? A resposta imediata é que existem instrumentos de popularização da ciência, principalmente o jornalismo científico e os textos de divulgação científica, que criam um público informado. Mas essa popularização é em si mesma um instrumento de ofuscação e de pressão das agendas das elites.

Os jornalistas da ciência sofrem de uma dupla deficiência: primeiro, não importa o quanto são educados, inteligentes e motivados, eles têm que, no fim, acreditar no que os cientistas lhes dizem. Mesmo um biólogo tem que confiar no que um físico afirma sobre a mecânica quântica. Grande parte da reportagem científica começa com uma conferência de imprensa ou uma nota produzida por uma instituição científica. “Cientistas do Blackleg Institute anunciaram hoje a descoberta do gene da susceptibilidade à lesão motora.” Segundo, a mídia para a qual os repórteres científicos trabalham fazem imensa pressão para que escrevam notas dramáticas. Onde estará o editor que concede preciosos centímetros de coluna para um artigo sobre ciência cuja mensagem seria a de que é tudo muito complicado, que não é possível fazer previsões, que existem sérias dificuldades experimentais no caminho que se percorre para a descoberta da verdade, e que podemos nunca vir a saber a resposta? Terceiro, a natureza esotérica do conhecimento científico coloca barreiras retóricas quase insuperáveis entre mesmo o mais sábio jornalista e o leitor. Não é geralmente percebido que uma explanação transparente em termos acessíveis ao leitor leigo requer o mais profundo conhecimento possível do assunto por parte do redator. 

Os cientistas, e os seus biógrafos, que escrevem livros para um público leigo estão usualmente preocupados em abraçar acriticamente o romance da vida intelectual, as maravilhas da sua ciência, e a propagandear um ainda maior apoio ao seu trabalho. Onde está o coração empedernido que não possa ser cativado por Stephen Hawking e a sua aventura intelectual? Mesmo quando a intenção é simplesmente informar o público leigo sobre uma área do conhecimento científico, as complicações do atual estado da compreensão são tão grandes que a pressão para contar uma história simples e apelativa são irresistíveis.

Steve Gould foi uma excepção. Os seus trezentos ensaios sobre questões científicas, publicados na sua coluna mensal da Natural History Magazine, muitos dos quais amplamente divulgados em livros, combinam uma exata e sutil explicação dos problemas e achados científicos, com uma técnica de exposição que nem condescende com os seus leitores nem super-simplifica a ciência. Ele disserta sobre a verdade complexa de um modo que os seus leitores leigos o possam compreender, enquanto envolve a sua prosa com referências ao basebol, música coral, e arquitetura de templos. Claro que quando consideramos a escrita para uma audiência popular, temos que ser claros sobre o que queremos dizer por popular. O escritor uruguaio Eduardo Galeano pergunta o que queremos dizer com escrever para “o povo” quando a maior parte do nosso povo é iletrado. No norte há menor iliteracia formal, mas Gould escrevia para uma audiência altamente educada, mesmo que não especialista, para a qual música coral ou arquitetura de templos fornece metáforas mais cheias de significado do que as próprias ideias científicas.

A maior parte dos assuntos que Steve aborda pretende ser ilustrativo da complexidade e diversidade dos processos e produtos da evolução. Apesar da imensa diversidade de matérias sobre as quais ele escreveu, existiu uma linha unificadora: que a complexidade do mundo vivo não pode ser tratada como uma manifestação de algum grande princípio geral, mas que cada caso deve ser entendido por um exame completo e da compreensão das suas muitas relações causais. 

Na sua vida política Steve fez parte do movimento geral da esquerda. Foi ativo no movimento contra a guerra no Vietnã, no trabalho da Ciência para o Povo, e na Escola Marxista de Nova York (New York Marxist School). Identificava-se a si mesmo como marxista, mas, tal como o darwinismo, nunca é certo o que essa identificação implica. Apesar da nossa camaradagem estreita em muitas coisas ao longo de muitos anos, nunca tivemos uma discussão sobre a teoria marxista da história ou de economia política. Essencialmente, ao insistir na sua adesão a um ponto de vista marxista, ele aproveitou a oportunidade que lhe era oferecida pela sua imensa fama e legitimidade como um intelectual público para fazer uma difusão pública acerca da validade de uma análise marxista.

Ao nível das lutas políticas reais, a sua mais importante atividade foi no combate ao criacionismo e na campanha para destruir a legitimidade do determinismo biológico, incluindo a sociobiologia e o racismo. Argumentou perante o poder legislativo do estado do Arkansas que diferenças entre evolucionistas ou problemas evolucionistas não resolvidos não punham em causa a demonstração da evolução como um princípio organizador para entender a vida. Foi um dos autores originais do manifesto desafiando a pretensão da sociobiologia de que existe uma natureza humana derivada e determinada pela evolução que garante a perpetuação da guerra, do racismo, da desigualdade de sexos e do capitalismo empresarial. Através de toda a sua carreira continuou a atacar esta ideologia e mostrou a superficialidade das suas supostas raízes na genética e na evolução. A sua mais significativa contribuição para deslegitimação do determinismo biológico, no entanto, foi a sua muitíssimo lida exposição do racismo e da desonestidade de proeminentes cientistas, A falsa medida do homem (The Mismeasure of Man). Aqui, mais uma vez, Gould mostrou a importância de voltar ao paradigma.

Não contente simplesmente em evidenciar o preconceito de classe e o racismo expressos por biólogos, antropólogos e psicólogos americanos, ingleses e europeus anteriores à Segunda Guerra Mundial, ele examinou de fato os dados sobre os quais se baseavam as suas pretensões de cérebros maiores e mentes superiores dos europeus nórdicos. Em todos os casos as amostras haviam sido deliberadamente enviesadas, ou os dados mal representados ou mesmo inventados ou ainda as conclusões mal retiradas. Os dados consistentemente fraudulentos sobre o QI produzidos por Cyril Burt já haviam sido expostos por Leo Kamin, mas isto poderia ter sido rejeitado como uma patologia isolada num corpo saudável de investigação. A evidência produzida por Gould de dados difusos cozinhados por um conjunto de proeminentes investigadores mostrou à evidência que Burt não foi um caso aberrante mas antes típico. É amplamente aceito que compromissos ideológicos podem ter um efeito inconsciente nas direções de investigação e conclusões dos cientistas. Mas fraude deliberada e generalizada no interesse de uma agenda social? Que ataque mais radical sobre as instituições da ciência “objetiva” poderia ser imaginado?

Ser um radical no sentido que enforma este memorial não é fácil pois envolve um constante questionamento das bases das pretensões e ações, não apenas dos outros, mas também de nós próprios. Ninguém, nem mesmo Steve Gould, pôde reivindicar o sucesso em ser consistentemente radical, mas, como escreveu Rabbi Tarfon, “Não é nossa obrigação ter sucesso, nem tão pouco somos livres de desistir da luta.”

Richard C. Lewontin e Richard Levins são colegas e camaradas há 40 anos. São autores de The Dialectical Biologist (Harvard University Press, 1987), e Biology as Ideology: The Doctrine of DNA (HarperCollins, 1992). Lewontin é Research Professor de Biologia em Harvard e deu um curso conjunto com Steve Gould. Levins é responsável pelo programa de Ecologia Humana na Harvard School of Public Health .

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