2 de fevereiro de 1997

Da teoria econômica do socialismo

Fikret Adaman e Pat Devine



Tradução / As revoluções políticas de 1989-91 na Europa Central e Oriental e na antiga União Soviética criaram uma nova conjuntura histórica na qual o próprio futuro do projeto socialista foi questionado.1 Socialistas de todos os tipos foram afetados por uma profunda perda de confiança e rebaixamento de expectativas, incluindo aqueles que por muito tempo rejeitaram até mesmo o termo "socialismo realmente existente" como uma descrição aceitável da experiência soviética e da Europa Oriental. A razão subjacente para essa perda de confiança é que a conjuntura histórica coincide com uma profunda crise da teoria socialista, acima de tudo da teoria de uma economia socialista. 

O modelo marxista clássico de economia socialista pode ser caracterizado por meio de uma dicotomia; o capitalismo é separado socialismo segundo duas dimensões: propriedade e mecanismo de coordenação. Sob o socialismo, a propriedade privada capitalista dos meios de produção é substituída pela propriedade social; o funcionamento das forças de mercado é substituído pelo planejamento econômico socialista. A propriedade social permite que a exploração seja abolida; o planejamento econômico socialista permite que a anarquia da produção seja substituída pelo controle social consciente da economia. 

As duas dimensões estão ligadas entre si: as forças de mercado operam por meio da interação de numerosas decisões independentes quanto ao uso de parcelas discretas dos recursos produtivos da sociedade, que são de fato propriedade privada qualquer que seja a sua condição jurídica; o planejamento econômico envolve um único conjunto coordenado de decisões sobre o uso dos recursos produtivos da sociedade como um todo; ora, isto impede necessariamente que exista a propriedade privada e que a tomada de decisão seja fragmentada.2 

O modelo marxista clássico, entendido como planejamento centralizado de todas as decisões de produção, foi desacreditado pela experiência soviética. Ao mesmo tempo, o ressurgimento nos anos 1980 do debate sobre o cálculo econômico socialista, que se iniciara nas décadas de 1920 e 1930, forneceu subsídios teóricos para a tese de que o planejamento central, de fato qualquer planejamento econômico da sociedade como um todo, é necessariamente ineficiente e estritamente impossível. 

Assim, qualquer modelo econômico socialista atual deve levar em conta a experiência soviética e, ainda de modo mais importante, deve abordar as questões teóricas que foram identificadas no debate retomado do cálculo socialista. 3 Essas questões teóricas referentes à eficiência e/ou possibilidade do socialismo entram agora na pauta das preocupações mais gerais devido à ascensão da direita neoliberal, que postula a inconveniência de qualquer forma de ação coletiva e celebra a superioridade da “ordem espontânea” em relação à ação social consciente.4 

O debate sobre o cálculo econômico socialista 

O debate sobre a possibilidade de cálculo econômico racional em um sistema econômico socialista, definido como aquele no qual os meios de produção são de propriedade pública, foi efetivamente iniciado por Barone em 1908; ganhou força depois na literatura econômica alemã durante a década de 1920, mas foi continuado na literatura inglesa durante a década de 1930; depois disso, desapareceu na década de 1940, após o artigo de Bergson em 1948.5 Os dois lados principais do debate eram os economistas da escola austríaca, que negavam a possibilidade do cálculo racional sob o socialismo, e os economistas socialistas que pensavam dentro do paradigma neoclássico, mas que defendiam que tal cálculo era possível.

Subjacente ao debate não se encontravam apenas diferentes visões sobre qual sistema, capitalismo ou socialismo, seria desejável, mas também diferentes abordagens epistemológicas e metodológicas. Essas diferenças de abordagem ficaram, no entanto, amplamente implícitas na época; argumentou-se, ademais, que a corrente austríaca enquanto tal apenas se cristalizou como resultado do próprio debate e da reflexão subsequente sobre ele.6

No paradigma neoclássico, o conhecimento é conceituado como objetivo; as possibilidades de produção, os custos e as receitas são tomados como restrições objetivamente conhecidas, ou seja, como dadas para os agentes econômicos que tomam decisões maximizadoras. Na escola austríaca, pelo contrário, o conhecimento é conceituado como subjetivo. Em vez de ser acolhido como dado para o propósito da tomada de decisões, ele, enquanto conhecimento subjetivo – ou "tácito" –, deve ser descoberto por meio da ação, por meio da atividade empreendedora e competitiva no próprio mercado.

A ênfase na centralidade do processo de "descoberta" é a marca registrada da moderna escola austríaca e a base de sua posição reformulada no debate sobre a possibilidade de cálculo racional sob o socialismo, retomado nos anos 80. É o fundamento da alegação dos austríacos modernos quanto à impossibilidade de um sistema econômico socialista racional, que este, portanto, possa ser efetivado não apenas na história, mas, mais significativamente, até mesmo de modo teórico.

No debate, o papel do mercado como meio social que torna possível o cálculo econômico racional foi discutido sob três títulos: possibilidade do cálculo, motivação e descoberta. Em 1920, Mises argumentara que o cálculo econômico só é possível em um sistema de livre mercado, baseado na propriedade privada. Eis que é aí que se forma o valor de troca de todos os bens e serviços e se fornece aos agentes econômicos as informações necessárias – na forma de preços – para as suas decisões. 7

Descobriu-se, no entanto, que Barone já havia refutado o argumento de Mises ao demonstrar que uma economia socialista poderia alcançar o mesmo nível de eficiência de sua contraparte capitalista, desde que fosse possível resolver um conjunto de equações simultâneas, baseadas em funções de produção e utilidade, as quais descreveriam supostamente o comportamento interdependente dos agentes econômicos no sistema.8 A contribuição de Hayek, em 1935, em resposta a essa tese tem sido historicamente interpretada como um contra-argumento matemático. Embora a solução analítica de Barone seja concebível em teoria, seria impossível na prática, dada a quantidade de informação que teriam que ser coletadas centralmente e a escala do cálculo necessário para resolver o sistema de equações simultâneas.9 Lange respondeu ao argumento de Hayek produzindo um modelo seminal de socialismo de mercado, baseando-se em modelos descentralizados anteriormente conhecidos. 10

Nesse modelo, o departamento de planejamento central anuncia um conjunto inicial de preços para os bens de produção; os gerentes das empresas estatais tomam esses preços como dados (ou seja, como parâmetros) e seguem a regra de que devem procurar minimizar os custos, definindo o preço como igual ao custo marginal; as empresas contratam mão-de-obra fornecida pelos trabalhadores que buscam maximizar a sua utilidade, vendem mercadorias aos consumidores e estes as compram de acordo com suas demandas, maximizando também utilidade; as empresas compram e vendem bens de produção umas para as outras.

Com base nas informações fornecidas pelas firmas sobre os aumentos ou reduções nos estoques, os quais refletem excesso de oferta ou de demanda de bens de produção, o departamento de planejamento anuncia um novo conjunto de preços para esses bens; esse processo continua por meio de uma série de iterações até que a oferta e a demanda por todos os bens seja equalizada.11

O modelo de Lange incorpora mercados reais para bens de consumo e para a força de trabalho, assim como “falsos mercados de capitais” para bens de produção. Uma vez que o Estado possui os meios de produção, não há renda não auferida e os "lucros" são distribuídos pelo Estado de acordo com critérios democraticamente determinados. O modelo combina a eficiência alocativa do capitalismo idealizado pela teoria neoclássica, o qual é perfeitamente competitivo, mas dá origem a uma distribuição de renda socialista.

Embora a maior parte da discussão nas décadas de 1920 e 1930 tenha sido sobre o problema do cálculo socialista, alguma discussão sobre motivação também ocorreu. Hayek respondeu ao modelo de Lange enfatizando a relação entre propriedade, incentivos e eficiência econômica.12 Entretanto, os seus argumentos não produziram o impacto esperado por ele. No início dos anos 1940, a "avaliação padrão" do debate era que a escola socialista neoclássica tivera sucesso em refutar o desafio austríaco, de tal modo que parecia àqueles que se preocupavam com o tema que a economia socialista era realmente possível.

O problema do “agente e principal” 

Foi assim que as coisas permaneceram até a década de 1980, quando a moderna interpretação austríaca do debate começou a desafiar a tese que se tornara padrão. Nesse meio tempo, no entanto, a pesquisa no interior do paradigma neoclássico sobre o chamado problema “agente e principal” já havia começado. Embora não explicitamente relacionado aos modelos de socialismo, ela se tornou a base do tratamento do problema “motivação/incentivo” na pesquisa contemporânea sobre o socialismo de mercado. Um “agente” é uma pessoa que representa os interesses de seu “principal” em troca de uma recompensa; eis que os agentes podem ser gerentes e os principais podem ser diretores, acionistas ou o próprio Estado, embora estritamente falando o próprio Estado seja um agente para seu principal, a “sociedade”. Em um contexto de informação assimétrica, como aqueles que estão na posição de “principal” não possuem toda a informação disponível aos agentes, surge um problema de monitoramento. Os diretores em geral são incapazes de dizer se seus agentes estão atuando, em seu próprio nome, da maneira mais eficiente possível; eis que agentes podem tirar proveito dessa incerteza e perseguir os seus próprios interesses, que não são aqueles dos diretores.

O problema “agente e principal” aparece prontamente em qualquer modelo de socialismo descentralizado, pensado por meio da teoria neoclássica. Como o centro do sistema não pode monitorar perfeitamente o que cada empresa socialista faz, problemas de incentivo podem surgir. A dificuldade para o centro, então, é encontrar um esquema contratual ótimo entre si mesmo e a empresa ou, então, criar um conjunto de parâmetros que a empresa tem de tomar como dado. Estes parâmetros induziriam a empresa a se comportar de tal maneira que, ao maximizar os seus próprios interesses, atuasse também para a obtenção da máxima eficiência do ponto de vista social.

Deve-se notar que essa relação “agente e principal” é simétrica para as economias socialista e capitalista corporativa. O problema com o qual o principal socialista – o centro – tem que lidar é estruturalmente o mesmo que o enfrentado pelo principal capitalista – o acionista –, a saber, como induzir os seus agentes a agir adequadamente na busca de seus interesses. Existe agora uma literatura significativa sobre o desenho de mecanismos de “incentivos compatíveis” que atingem esse objetivo em maior ou menor extensão.13

No entanto, embora o problema seja estruturalmente o mesmo, ainda existe a questão de saber se o centro teria um incentivo igual ou semelhante ao dos acionistas para projetar e implementar mecanismos que sejam “compatíveis”. Como observado acima, os verdadeiros princípios socialistas implicam, estritamente falando, que as pessoas se consideram como constituintes da sociedade – e não como indivíduos. Tem sido argumentado, ademais, que os membros individuais da sociedade carecem do conhecimento que lhes permitiria monitorar o centro. Além disso, eles não têm incentivo para adquirir tal conhecimento, uma vez que o esforço envolvido seria desproporcional à diferença que a ação de qualquer indivíduo poderia fazer e, portanto, ao retorno que pudessem receber. Assim, as pessoas tenderiam a escapar dessa tarefa, já que todos confiariam em todos os outros e, consequentemente, não haveria assim qualquer monitoramento efetivo.

É sabido que os economistas neoclássicos vêm investigando precisamente esse problema no contexto do capitalismo corporativo. Talvez seja verdade que os eleitores individuais, em um contexto de socialismo de mercado, tenderiam a “pegar carona” nos “outros”, em vez de monitorar ativamente o centro. Ocorre que os resultados da teoria aplicadas aos mercados de capitais sugerem que os acionistas de uma empresa capitalista corporativa tender a ter um comportamento semelhante. Os acionistas que possuem frações insignificantes do total de ações de uma empresa têm pouco incentivo para monitorar o seu desempenho. Como Stiglitz bem coloca, “sempre há algum custo associado tanto à obtenção de informações para determinar se um gerente é um bom gerente, quanto para avaliar equipes alternativas de gerenciamento, em outras palavras, para votar de maneira inteligente, pois o benefício é bem insignificante”. 14

Assim, igualmente, os cidadãos socialistas e os acionistas capitalistas não têm incentivos para monitorar seus agentes. Em uma economia capitalista, uma solução possível para esse problema é fornecida pelas instituições financeiras intermediárias, as quais desempenham um papel positivo ao monitorar os administradores em nome dos acionistas. As instituições financeiras podem monitorar o desempenho gerencial e intervir em assembleias de acionistas ou em oferta pública de ações, embora a evidência empírica sugira que o mercado de controle corporativo está longe de ser eficiente.15 No entanto, se o monitoramento pelas instituições financeiras é possível em uma economia capitalista, é igualmente possível criar instituições intermediárias comparáveis em uma economia socialista de mercado.16

Assim, mesmo no interior do paradigma neoclássico, usualmente aplicado a uma economia capitalista corporativa, não há apoio teórico convincente para o argumento de que a propriedade privada é mais eficiente intrinsecamente ao lidar com o problema do “agente e principal” que, aliás, não deveria existir no caso da propriedade pública socialista. Em relação ao cálculo e à motivação, o socialismo de mercado neoclássico é teoricamente pelo menos tão eficiente quanto o capitalismo corporativo sob a ótica neoclássica.

A capacidade de descobrir do empreendedor 

No entanto, o desafio original à possibilidade do socialismo racional veio de Mises e Hayek, dois membros proeminentes da escola austríaca – que não é, como se sabe, neoclássica. Embora no debate histórico eles tenham focalizado também os problemas do cálculo e da motivação, a característica definidora da escola austríaca é seu conceito subjetivo de conhecimento e a consequente centralidade do processo de descoberta por meio da atividade empreendedora. Embora tenha sido afirmado por Dan Lavoie que a descoberta inerente ao processo de mercado estava já implícita nas contribuições dos anos 1920 e 1930 de Mises e Hayek,17 a completa articulação e expressão da questão da “descoberta” – assim como o desafio que apresenta à possibilidade do socialismo – foram desenvolvidos pelo revivescimento da escola austríaca moderna no debate nos anos oitenta.

Segundo a escola austríaca, tal como ela se cristalizou atualmente, o problema econômico não é, como sustenta a escola neoclássica, simplesmente uma questão de como alocar recursos limitados entre usos alternativos que são buscados por desejos ilimitados; ao contrário, o problema é como o conhecimento subjetivo, ou tácito, necessariamente fragmentado e disperso, pode ser socialmente mobilizado. Hayek expressa o argumento austríaco sobre a impossibilidade de uma análise objetiva dos dados existentes como se segue:

O caráter peculiar do problema de uma ordem econômica racional consiste precisamente no fato de que o conhecimento das circunstâncias que precisamos fazer uso nunca existe na forma concentrada ou integrada, mas apenas como fragmentos dispersos de conhecimento incompleto e frequentemente contraditório que todos os indivíduos separados possuem. 18 

A resposta austríaca é que a mobilização e coordenação destes conhecimentos incompletos e contraditórios ocorrem por meio das ações de empreendedores, competindo uns contra os outros no processo de mercado, descobrindo e aprendendo o que é e o que não é possível.19 Assim, no cenário da teoria austríaca, o nexo entre meios e fins da vida econômica não é predeterminado, mas está sujeito à ação criativa dos participantes do mercado. Assim, o problema econômico é considerado, não como otimizar o uso dos recursos disponíveis, mas como otimizar o uso do conhecimento.

Embora a natureza tácita do conhecimento e o processo de descoberta e, assim, de aprendizagem sejam centrais para todos os membros da escola austríaca, há alguma diferença nas visões dos autores que a ela pertencem. Como McNulty assinalou, enquanto o empreendedor misesiano e kirzneriano detecta e explora as oportunidades que os outros não perceberam dentro do leque existente das atividades econômicas, desempenhando, assim, um papel equilibrador, o empresário schumpeteriano desempenha um papel diferente, ou seja, desequilibrador, que interrompe o rol das atividades existentes e cria novas por meio da inovação. No processo de mercado, os dois tipos de empreendedores se complementam – um deles cria a mudança, o outro responde a ela. 20

O papel do cálculo (ou da computação) e da motivação (ou do incentivo) do mecanismo de mercado são comuns às escolas neoclássica e austríaca. O papel da descoberta e da aprendizagem, no entanto, é distintiva da escola austríaca. O processo cognitivo de descoberta inerente aos mercados é visto, tal como o processo do discurso humano por meio da linguagem, como um processo intrinsecamente social:

Tal como a conversação verbal, o diálogo do mercado depende do dar e receber específico desse modo de interação social, um processo criativo de interação no qual o conhecimento que emerge excede aquele detido por qualquer um dos participantes... A competição não é vista como uma atitude psicológica, mas como um processo criativo de aprendizagem entre as mentes atuantes... Existe, portanto, um processo comunicativo bidirecional que produz um tipo de inteligência social que depende, mas vai além, das inteligências individuais dos participantes do sistema.21 

É essa função de descoberta e de aprendizado, inerente como tal ao processo de mercado, o ponto crucial da escola austríaca, que, ademais, nitidamente a afasta da perspectiva neoclássica. Ele sustenta a afirmação da escola austríaca de que o socialismo de mercado postulado pela teoria neoclássica, assim como o planejamento central que defende, é impossível ou irracional, já que a descoberta e a mobilização eficientes do conhecimento subjetivo, necessariamente disperso, requerem um processo de mercado baseado na propriedade privada dos meios de produção.

Don Lavoie argumenta que os empreendedores, motivados por incentivos privados, direcionam os seus esforços para a obtenção de lucros potenciais e, ao fazê-lo, utilizam os seus conhecimentos dispersos para descobrir novas oportunidades: “O papel dos lucros não é primariamente motivar as pessoas a fazerem a coisa certa, mas consiste apenas em induzir a descoberta, por meio do próprio processo de interação mercantil, daquela coisa certa que deve ser feita. 22 A propriedade privada, segundo eles, não apenas induz tal esforço, mas também – e ainda mais importante – é uma condição necessária para que descoberta ocorra.

Agora, enquanto a objeção epistemológica austríaca ao paradigma neoclássico e, portanto, ipso facto ao socialismo neoclássico, pode ser convincente, isso ainda não estabelece a afirmação mais forte de que todas as formas de socialismo, por si só, são ineficientes. Portanto, o argumento de Janos Kornai de que há uma “afinidade” entre a propriedade privada e o processo de mercado deve ser aceito.23 Se o argumento de que a descoberta e o aprendizado só podem ocorrer por meio das operações inerentes ao processo de mercado – e que esse processo requer a propriedade privada – fosse verdadeiro, ele seria uma refutação convincente da possibilidade de toda forma possível de socialismo de mercado.

No entanto, mesmo aceitando esse argumento incorreto, a afirmação dos economistas austríacos acerca da superioridade do capitalismo só seria relevante no caso em que os empreendedores privados usassem apenas o seu próprio capital ou empregassem capital para o seu próprio uso. O caso do capitalismo corporativo moderno, no qual surge a questão da relação entre proprietários de capital como acionistas e atividade empreendedora dos gerentes, não tem sido amplamente explorado pelos austríacos.24 Isso abriu espaço para a construção de modelos do que pode ser chamado de "socialismo de mercado austríaco", que incorpora o empreendedorismo e o mercado de capitais com a finalidade precípua de resolver assim o problema da descoberta.

A relevância do debate para o socialismo 

Qualquer modelo de economia socialista deve lidar com os problemas relativos ao cálculo, à motivação e à descoberta das informações. O modelo soviético de planejamento centralizado e de comando administrativo acabou falhando em cada um desses três rótulos. Dentro do paradigma neoclássico, estabeleceu-se que os problemas do cálculo e da motivação podem ser devidamente tratados, isto é, dentro do critério da eficiência, com base tanto em empresas estatais como em base de empresas privadas. Dentro do paradigma austríaco, como vimos, o foco está na motivação e, acima de tudo, na descoberta. Em nossa opinião, a crítica austríaca do paradigma neoclássico e, com ele, do socialismo de mercado neoclássico – e, a fortiori, do planejamento central neoclássico – é esmagadora. O processo de mercado do capitalismo, tal como é apreendido pela teoria neoclássica, é essencialmente uma metáfora ruim que visa permitir apenas a análise dos estados de equilíbrio, assim como das propriedades estáticas do estado de bem-estar. O paradigma neoclássico nada contribui para uma compreensão do modo de operar do processo de mercado do capitalismo, assim como dos processos de mercado em geral.

A escola austríaca, ao contrário, oferece esclarecimentos efetivos sobre a operação das forças reais que operam no mercado capitalista, tais como conhecimento imperfeito, incerteza, mudança contínua, desequilíbrio endêmico e um processo infindável de descobertas. Qualquer modelo de economia socialista deve ser capaz de enfrentar o desafio austríaco, o qual foi reforçado pelo peso da experiência histórica. Eis que diz que o socialismo – e, assim, os modelos ou as sociedades reais que se pretendem socialistas – não é capaz de mobilizar e organizar de modo eficiente indivíduos dispersos, que formam crenças pessoais e subjetivas na experiência prática, chegando apenas a deter um conhecimento incompleto e contraditório das condições da própria ação.

No entanto, embora a visão austríaca seja obstinadamente insistente, ela é incompleta. O compromisso ideológico da escola austríaca com a propriedade privada e as forças de mercado a leva a subestimar a relevância de uma terceira – ainda que menor – contribuição para o debate histórico do cálculo econômico socialista, aquela que foi formulada por Maurice Dobb.

Dobb insistiu que o planejamento econômico, que visa sempre a coordenação ex-ante de grandes investimentos interdependentes, é uma característica definidora de economia socialista e é incompatível com a propriedade privada.25 Ele criticou os modelos descentralizados dos socialistas de mercado neoclássicos, alegando que eles procuravam meramente imitar o capitalismo tal como visto pelo prisma neoclássico – mas não em desenvolver um sistema qualitativamente novo. No entanto, sua contribuição foi amplamente ignorada pelos outros participantes do debate.

O argumento de Dobb era de que os economistas socialistas neoclássicos, tendo definido o socialismo apenas com base na propriedade legal dos meios de produção, estavam preocupados com a questão de alocar uma dada quantidade de recursos escassos entre vários usos alternativos. Eles se concentraram nas condições marginais para o equilíbrio estacionário e deram pouca ou nenhuma atenção aos problemas de coordenação e aos caminhos do crescimento de longo prazo. Dobb recusou-se a aceitar que a estrutura do debate deveria ser aquela estabelecida pelo problema da escassez e da necessidade de se chegar a uma avaliação relativa das alternativas para otimizar o uso de recursos escassos.

Criticou, então, os modelos descentralizados do tipo proposto por Lange por sua confiança no mecanismo de mercado, argumentando que “aqueles que sonham em casar o coletivismo com a anarquia econômica não devem, de qualquer modo, fingir que a descendência desse estranho casamento herdará apenas as virtudes do pais mal casados”. 26 Para Dobb, a capacidade de planejar a atividade econômica era a principal diferença entre uma economia de mercado capitalista e um sistema socialista. Segundo ele, “o contraste essencial se dá entre um sistema econômico em que as decisões multifacetadas, que regem a produção, são tomadas cada uma ignorando todas as outras e um sistema alternativo em que tais decisões são coordenadas e unificadas”. 27

Instabilidades e perdas da economia de mercado

O ponto defendido por Dobb dizia que o planejamento econômico permitiria que os dois principais inconvenientes do mecanismo de mercado – as instabilidades e as externalidades – fossem superados. Ele sustentou que o desequilíbrio em uma economia de mercado só é corrigido após o evento, com a consequência de que as flutuações econômicas são endêmicas e os recursos desperdiçados, enquanto o planejamento econômico permitiria que decisões, especialmente aquelas relacionadas a grandes investimentos interdependentes, fossem coordenadas antes de qualquer comprometimento dos recursos.

Tal como Dobb admitiu, essa coordenação ex-ante traria doistipos de vantagens. Primeiro, numa economia não planejada, o equilíbrio de mercado “só é alcançado por meio de flutuações incessantes, que são elas próprias condicionadas pelas incertezas inerentes à própria produção mercantil, pois cada decisão autônoma aí é necessariamente ‘cega’ em relação às decisões relacionadas”;1 já o planejamento permite que as incertezas decorrentes da natureza atomizada das tomadas de decisão individual sejam superadas. Em segundo lugar, o planejamento permite que as externalidades sejam levadas em consideração explicitamente e que as decisões interrelacionadas, como as que envolvem a infraestrutura, sejam coordenadas antes de serem implementadas.

Finalmente, Dobb argumentou que, com o planejamento, aquilo que aparece como “dado” no problema estático pode ser convertido em “variável” em uma estrutura dinâmica. Assim, seria possível tomar decisões sociais conscientes, não apenas sobre a taxa global de investimento, mas também sobre a distribuição do investimento entre indústria de bens de capital e de bens de consumo, sobre a escolha de técnicas, quanto a distribuição regional do investimento e assim por diante.

Foi visto que, durante o debate histórico, tanto os austríacos quanto Dobb criticaram a escola neoclássica do socialismo de mercado, embora a partir de diferentes perspectivas. Do ponto de vista de Dobb, a forma organizacional atomista de uma suposta economia de mercado necessariamente gera imperfeições de conhecimento. Argumentou, por isso mesmo, que essas imperfeições poderiam ser remediadas por uma agência de planejamento. Ele não abordou, entretanto, a percepção austríaca moderna do processo de descoberta e de aprendizagem por meio do qual o conhecimento tácito é socialmente mobilizado.

De acordo com a escola austríaca, em contraste, esse processo de descoberta e aprendizado requer necessariamente a atuação de empresários no mercado. Os austríacos aceitam que o atomismo característico da forma organizacional do mecanismo de mercado gera imperfeições de conhecimento, mas afirmam, nas palavras de Israel Kirzner, que “descrever o processo competitivo como desperdiçador porque corrige os erros somente depois que eles ocorreram parece similar a atribuir a doença ao remédio que produz a cura, ou até mesmo culpar o procedimento diagnóstico pela doença que ele identifica.2

A relevância do debate do cálculo econômico socialista para o socialismo contemporâneo vem das questões teóricas que levanta. Uma maneira de caracterizálas consiste em considerar dois tipos de imperfeições de conhecimento que devem ser levados em conta quando se pensa em sistemas econômicos alternativos: aquelas geradas pela natureza tácita do conhecimento disperso e aquelas geradas pela forma atomística inerente à organização do mercado.

Com base nessa classificação, três abordagens alternativas que visam ou não esses dois tipos de imperfeição podem ser identificadas no debate. A escola neoclássica desconhece as duas formas de imperfeição.3 A escola austríaca admite a existência de ambos os tipos, mas argumenta que a descoberta e mobilização de conhecimento tácito por meio do processo de mercado requerem ação autônoma por parte dos agentes econômicos. Ora, isso impossibilita qualquer tentativa de coordenação ex-ante a fim de lidar com o segundo tipo de imperfeição. Finalmente, Dobb defende a coordenação exante da atividade econômica para lidar com as imperfeições do conhecimento intrínseco ao processo de mercado, mas não reconhece a natureza tácita da informação.

A análise até agora feita sugere que os modelos de economia socialista devem ser avaliados em termos (i) de sua capacidade de lidar com as questões do cálculo, da motivação e da descoberta, e (ii) da forma como lidam com as imperfeições do conhecimento que surgem da natureza tácita do conhecimento e da tomada de decisão atomizada que caracteriza o mecanismo de mercado. Se partirmos do pressuposto que o socialismo requer alguma forma de propriedade não capitalista, podemos identificar três candidatos contemporâneos ao posto de melhor alternativa ao capitalismo: os modelos de socialismo de mercado que envolvem mercados reais, em oposição ao que se pode denominar de falsos mercados; os modelos baseados em cálculo direto, sem mercados reais; e um modelo de planejamento participativo, no qual as forças de mercado são substituídas por uma combinação de mercado de trocas reais e de coordenação ex-ante dos grandes investimentos por meio de um processo de tomada de decisão participativo.

Contendentes contemporâneos: o socialismo de mercado

Os modelos contemporâneos de socialismo de mercado são baseados em empresas estatais ou em empresas pertencentes a várias instituições não estatais, mas não privadas, ou mesmo cooperativas de trabalhadores. Essas empresas operam em mercados reais de produtos e, às vezes, também em mercados reais de capital. Eles buscam combinar a eficiência supostamente inerente aos mercados com uma igualdade de renda associada aos valores socialistas. Nossa avaliação desses modelos enfocará a eficiência no uso do estoque de capital existente, a eficiência na alocação do investimento e a extensão em que os modelos incorporam considerações sociais mais amplas.

Sob cada um desses títulos, distinguiremos aqui os modelos que estão essencialmente dentro do paradigma neoclássico com relação aos seus pressupostos epistemológicos e metodológicos e aqueles que se enquadram no paradigma austríaco. Como regra geral, os modelos que reconhecem implícita ou explicitamente o problema da descoberta por meio da atividade empreendedora, podem eles ser caracterizados como tipos de um socialismo de mercado austríaco. Por outro lado, aqueles que não reconhecem esse problema podem identificados como tipos de um socialismo de mercado neoclássico4 .

Eficiência no uso do estoque de capital existente

As questões que surgem aqui dizem respeito ao cálculo, à motivação e ao problema associado de “agente e principal”. O modelo de “socialismo viável” de Alec Nove, talvez o mais célebre modelo de socialismo de mercado depois do modelo de Oskar Lange, prevê uma economia em lenta mudança na qual as empresas satisfazem as demandas de mercado com a capacidade pré-existente, procurando fazer investimentos incrementais, os quais são financiados pelos lucros retidos ou por créditos bancários. Elas, em suma, procuram sempre se adaptar às lentas mudanças na demanda e na tecnologia.5 Os preços emergentes nos mercados competitivos fornecem a base para o cálculo racional e esses próprios mercados fornecem a motivação para a eficiência.

O modelo de Nove cai essencialmente dentro do paradigma neoclássico, uma vez que o seu foco está no ajuste marginal, sem que seja atribuído qualquer papel para empreendedorismo ou para descoberta de informações. Assume-se que as maiores mudanças e os investimentos não marginais, juntamente com a regulação do comportamento empresarial, são feitos pelo Estado. Não há, entretanto, qualquer discussão de como isso deve ser feito ou como o conhecimento necessário às tomadas de decisões vem a ser descoberto. Assim, o problema de “agente e principal” não é discutido e o desafio teórico austríaco não é enfrentado. Além disso, as lições da experiência histórica em relação às tentativas reais de implementar versões do socialismo de mercado são, na maior parte, ignoradas.6

A maior parte dos trabalhos sobre o socialismo de mercado após o de Nove são denominados por Bardhan e Roemer como "modelos de quinta geração". 7 Eles se preocupam em analisar as propriedades de eficiência de uma economia composta por empresas não privadas que maximizam o lucro dentro de uma estrutura econômica concebida nos moldes da teoria neoclássica. Uma característica distintiva dessa geração de modelos é a aceitação do problema de “agente e principal” como uma dificuldade central que os socialistas de mercado precisam enfrentar. Trata-se, então, de pensar as várias formas de alocar direitos de propriedade de tal modo que pessoas auto interessadas ou mesmo egoístas possam atuar de maneira que resulte em um uso eficiente dos recursos.8 Deve-se notar que, dentro do paradigma neoclássico, o conceito de eficiência utilizado é o de “ótimo de Pareto”. Este, como se sabe, advém de uma definição técnica que se refere a uma situação em que, dadas certas suposições altamente restritivas, a utilidade de uma pessoa não pode ser aumentada sem que a utilidade de qualquer outra seja diminuída.

O modelo neoclássico atual mais cristalizado de socialismo de mercado é o de Bardhan e Roemer. Nele, o problema sobre como o principal pode monitorar o agente é explicitamente abordado.9 Eles propõem dois mecanismos, os quais conscientemente simulam os arranjos institucionais para disciplinar os administradores mais comuns encontrados no próprio capitalismo: o monitoramento centrado em bancos e um falso mercado de capitais.

O mecanismo centrado em bancos, que, aliás, tem muito em comum com a organização japonesa do “keiretsu”, consiste em formar um grupo corporativo que tem em seu núcleo um banco público como principal. As firmas que atuam como membros desse grupo são sociedades anônimas. Uma minoria das ações é de propriedade dos trabalhadores da empresa, pois o restante delas pertence ao banco nuclear do grupo, às outras empresas do grupo e à terceiros fora do grupo, tais como outras empresas, fundos de pensão ou governos locais. O banco nuclear é de propriedade do Estado, com participação majoritária de outras instituições financeiras. Assim, as empresas não seriam de propriedade direta do Estado, mas apenas indiretamente por meio do banco nuclear e de outras empresas do grupo.

O monitoramento seria realizado principalmente pelo banco nuclear, mas também pelos outros membros do grupo. Em geral, o grupo seria tecnologicamente inter-relacionado, de modo que, entre outras coisas, o banco nuclear “poderia se especializar em alguma área tecnológica relativamente estreita e bem definida, com o objetivo de monitorar e examinar seus empréstimos e participações acionárias nas empresas associadas”. 10

O monitoramento seria eficaz, uma vez que tanto o banco nuclear quanto as outras empresas do grupo deteriam a maior participação, assim como mais informações "internas" sobre cada uma das empresas do que acionistas ordinários em um sistema centrado no mercado de ações. Esse sistema, ademais, seria capaz de detectar e de agir com base nos primeiros sinais de futuros problemas mais facilmente do que um corpo difuso de acionistas. Além disso, ele seria mais propenso a ter uma visão mais ampla em matéria de riscos e de inovações”.11

Esse sistema seria capaz de monitorar efetivamente os agentes, mas teria ele também suficiente incentivo para fazer isso? O argumento deles é que eles o teriam, porque todas as firmas do grupo estariam interessadas no retorno de suas participações umas nas outras e o banco nuclear “desejaria manter sua reputação de credibilidade como monitor delegado em um sistema de monitoramento por delegação recíproca com um pequeno número de outros bancos. Ele “não desejaria perder o ativo intangível que acumulara especificamente em seu relacionamento de longo prazo com as empresas afiliadas”. 12

Modelos alternativos

O segundo mecanismo de monitoramento proposto vem a ser um falso mercado de capitais, ou seja, um “mercado de conchas”. De início, todos os cidadãos recebem uma dotação inicial igual de senhas, que só podem ser usadas para comprar ações de empresas, denominadas não em dinheiro, mas em cupons – ou em conchas. As ações não podem ser compradas ou vendidas por dinheiro, pois apenas podem ser negociadas a preços expressos em cupons. A participação acionária implica em um direito a uma parcela dos lucros da empresa. Os preços em cupons das participações, portanto, oscilarão tal como os preços das ações nas bolsas de valores capitalistas. As ações de empresas cuja administração está tendo um desempenho ruim, com consequentes lucros baixos, serão vendidas e seu preço em cupons cairá, e vice-versa. Assim, esse falso mercado de capitais “forneceria os mesmos sinais que fornece um mercado de ações capitalista”. 13

O monitoramento com base nesses sinais seria realizado pelo sistema bancário. As empresas são financiadas neste sistema por empréstimos de bancos públicos. Este mercado de conchas não é uma fonte de financiamento de capital, mas apenas um mercado de direitos de propriedade sobre os lucros das empresas. Se o preço em cupons relativo à participação em uma empresa começar a cair, os bancos teriam um incentivo para investigar o desempenho da administração da empresa, a fim de garantir que ela permanecesse suficientemente lucrativa para pagar seus empréstimos aos bancos.

É certo que o sistema de conchas poderia ser combinado com o monitoramento interno feito a partir do sistema “keiretsu”, centrado nos bancos. Eis que os sinais dados pelos preços em cupons referentes às ações podem influenciar a intensidade do monitoramento interno que é feito pelo banco nuclear. Assim, “poder-se-ia projetar um sistema que permitisse graus variados de influência de tal mercado de ações na alocação de capital e no monitoramento da empresa, dependendo da visão que se possa tersobre a eficiência desse mercado acionário. 14

Bardhan e Roemer reconhecem que em ambos os sistemas a questão da relação entre o Estado e os bancos continua sendo um problema. Eles consideram que a questão central é se os bancos teriam independência suficiente do Estado para poder agir com base em critérios econômicos – e não em critérios políticos. Argumentam, no entanto, que o modelo por eles proposto teria sucesso em remover as empresas da órbita do Estado sem conceder aos cidadãos individuais direitos desenfreados de propriedade privada.

As participações acionárias referente ao banco nuclear e as participações acionárias interligadas das empresas que participam de um grupo corporativo proporcionariam um amortecedor contra a influência política direta nas atividades das empresas. As ações do banco nuclear mantidas por outros bancos e instituições financeiras, ainda que minoritárias, tornariam mais difícil para o Estado pressionar o banco. Mesmo assim, Bardhan e Roemer recomendam que seja criada uma norma constitucional que limite estritamente as circunstâncias em que o Estado poderia usar sua participação majoritária para intervir nas operações dos bancos.

De modo paralelo a esses modelos baseados em formas de propriedade nãoestatais e não privadas, há um grupo de modelos baseados em cooperativas de trabalhadores ou em empresas administradas por eles. A análise neoclássica inicial da empresa administrada pelos trabalhadores identificou várias ineficiências decorrentes da suposição de que os trabalhadores buscam maximizar a renda por trabalhador enquanto os capitalistas maximizam os lucros.15

Os modelos contemporâneos dessa tradição se preocuparam em mostrar como essas ineficiências podiam ser superadas. Sertel demonstrou que as ineficiências não surgem quando um mercado de direitos de participação é introduzido, caso em que o comportamento de uma empresa administrada por trabalhadores torna-se idêntico ao de sua equivalente capitalista.16 Fleurbaey propõe um modelo baseado na democracia no local de trabalho no qual o financiamento externo indireto – com base na poupança doméstica canalizada por meio do sistema bancário – permite que a maioria das ineficiências tradicionais seja superada.17 Weisskopf desenvolve um modelo no qual as empresas autogeridas por trabalhadores obtêm ativos por meio da venda, entre outras coisas, de ações negociáveis sem direito a voto para fundos mútuos independentes. Então, analisa as propriedades de eficiência do modelo e conclui que:

é possível responder às várias linhas de crítica de modo a diminuir consideravelmente a força do argumento de que o modelo de socialismo de mercado que advogo será ineficiente. Não pretendo sugerir que será tão eficiente (por critérios convencionais de eficiência) quanto um modelo capitalista. Contra qualquer desvantagem de eficiência restante..., porém, deve ser levado em conta não apenas as suas contribuições para... os objetivos socialistas..., mas também certas vantagens de eficiência compensatórias.18

A conclusão de Weisskopf encapsula a essência da abordagem neoclássica do socialismo de mercado – esta analisa diferentes modos de alocar direitos de propriedade para contrariar o comportamento oportunista, voltado para o próprio interesse – e não da sociedade como um todo. Para tanto, cria modelos de acordos contratuais que são eficientes no sentido de Pareto. Os socialistas de mercado neoclássicos têm sido mais ou menos bem-sucedidos ao lidar, em seus próprios termos, com as questões do cálculo e da motivação em relação ao uso eficiente (no sentido de Pareto) do capital existente, mas não são capazes de abordar minimamente a questão da descoberta. Nem é de modo algum evidente, mesmo em princípio, que eles poderiam fazê-lo.

Contudo, há o modelo de Tidor Liska que procura lidar com a questão da descoberta no contexto do emprego da capacidade existente. E ele poderia ser considerado como um primeiro a ser classificado como modelo de socialismo de mercado austríaco. Esse autor procura substituir o “gerente socialista” pelo “empresário socialista”. O seu modelo se baseia na ideia de alugar unidades de produção de propriedade estatal a empresários privados por meio de um processo de licitação competitiva.19

Nessa proposta, o Estado possui os meios de produção existentes e toma decisões sobre investimentos. Mas os licitantes capazes de fazer os maiores lances decidem como os meios de produção existentes devem ser usados e o fazem com base em suas expectativas iniciais e no que eles descobrem ao empregá-los na produção. Quando o contrato expira, o processo de licitação é repetido e o empreendedor em operação deve ser capaz de fazer o lance mais alto ou deixar o negócio porque outro licitante foi capaz de fazer um lance vencedor. A ênfase está, portanto, nos "recursos humanos" dos empreendedores; ao final, são destes que resultam – supõe-se – um ganho excedente residual que os remunera. Assim, o modelo pode ser interpretado como uma tentativa de assegurar que a produção estatal e as unidades de produção sejam usadas de um modo empresarial de tal modo que o uso mais eficiente dos recursos é descoberto na prática.

Eficiência na alocação do investimento

No entanto, embora o modelo de Liska aborde a questão da descoberta no contexto do uso da capacidade existente, como tal ela só pode surgir como uma questão fundamental quando as decisões de investimento são tomadas num contexto de mudança e incerteza radical. É por isso que os modelos neoclássicos do socialismo de mercado, dominados pela análise das propriedades de eficiência dos estados de equilíbrio em condições de certeza ou de risco calculável são incapazes de responder ao desafio austríaco moderno. Ora, este último, abraçando a incerteza radical, está mais preocupado com os problemas de motivação e da descoberta do que com os problemas de cálculo e motivação.20 A maioria dos modelos neoclássicos de socialismo de mercado simplesmente assume que o padrão de investimento gerado por forças de mercado perfeitamente competitivas é eficiente para, então, explorar as maneiras pelas quais esse padrão pode ser alcançado em uma economia composta por empresas que não são mais privadas.

Apesar disso, existem alguns modelos socialistas de mercado que tentam lidar explicitamente com as questões do empreendedorismo e da descoberta em um contexto dinâmico em que há incerteza. Tais projetos, portanto, podem ser considerados como legítimos modelos austríacos de socialismo de mercado. O modelo de Brus e Laski formula o que eles mesmos chamam de "socialismo de mercado propriamente dito". Eis que procura combinar, “de uma forma ou outra, a propriedade estatal” com “total independência das firmas e um verdadeiro empreendedorismo".

Este último tem de se fazer valer tanto num mercado de capitais real quanto em mercados reais de produtos e de força de trabalho. 21 No entanto, as condições que devem ser satisfeitas para alcançar esse resultado – note-se que o modelo replica de fato o capitalismo – são tais que tornam a retenção formal da propriedade estatal algo bem artificial e redundante. Assim, Brus e Laski concluem que “a lógica pura do mecanismo de mercado em sua completude parece indicar que a empresa não-estatal (ou seja, a empresa privada) vem a ser o constituinte mais natural do setor empresarial".22

Estrin pensa uma economia na qual as cooperativas de trabalhadores autogerenciadas podem tomar capital emprestado de companhias matrizes (holdings). As ações dessas companhias são de propriedade do governo e das próprias empresas autogeridas, mas elas, no entanto, maximizam lucro. Ele argumenta, por um lado, que as forças de trabalho existentes nas empresas autogestionadas devem arcar com os riscos da produção, mas, por outro lado, devem receber quaisquer excedentes residuais. Já a companhias matrizes devem desempenhar a função empreendedora de inovação, pesquisa e desenvolvimento, assim como de pesquisa de mercado. As matrizes administrariam o capital social criando e fechando empresas – no último caso, mesmo quando há oposição dos trabalhadores envolvidos.23

Schweickart propoz um modelo de "democracia econômica" em que a produção é feita por unidades gerenciadas por trabalhadores. Os mercados de bens de consumo e de produção, assim como os investimentos, são socialmente controlados. As empresas competem umas com as outras, obtendo recursos financeiros nos bancos comunitários regionais, e os aplicando em novas oportunidades à medida em que estas vão sendo descobertas. Schweickart afirma que “a democracia econômica prevê e, na verdade, requer a existência de empreendedores socialistas”, isto é, indivíduos ou coletivos dispostos a inovar, a assumir riscos, na esperança de fornecer novos bens e serviços ou ainda bens antigos de novas maneiras”. 24

O que esses modelos austríacos de socialismo de mercado têm em comum é a tentativa de imitar o mais próximo possível as instituições do capitalismo, mesmo se propõem diferentes formas de propriedade não capitalista. Quanto mais se aproximam desse desiderato, quanto mais incorporam um processo de descoberta e de mobilização do conhecimento tácito, mais se afastam da capacidade de lidar com as imperfeições do conhecimento decorrentes da tomada de decisão atomizada, a qual, como se sabe, é inerente ao funcionamento das forças do mercado.

Considerações sociais mais amplas 

Os modelos socialistas de mercado enfatizam a eficiência das forças de mercado mesmo se as interpretam de diferentes maneiras. Afirmam que a sua superioridade em relação ao capitalismo está principalmente na distribuição de renda bem mais igualitária, algo que apenas a propriedade não privada torna possível. No entanto, alguns socialistas de mercado também reconhecem que o funcionamento das forças de mercado é caracterizado por problemas de coordenação, externalidades e aversão ao risco. Por conseguinte, procuraram incorporar em seus modelos certas instituições e procedimentos que permitem ter em conta considerações sociais mais amplas do que aquelas que podem ser predicadas do funcionamento não regulamentado das forças do mercado competitivo. 25

Um modelo neoclássico recente de Ortuno-Ortin, Roemer e Silvestre explora maneiras diferentes de impulsionar padrões de investimento politicamente determinados. Isso é feito por meio de incentivos fiscais e taxas de juros que diferem entre setores.26 Desenvolveram um modelo de equilíbrio geral no qual o centro implementa um padrão predeterminado de investimento seja por meio de comandos diretos seja por meio de “planejamento indireto”. Este último é constituído por sinais paramétricos de mercado aos quais as empresas públicas respondem maximizado o lucro.27 Entretanto, o fator crucial a ser notado é que nesse modelo “o poder público tem informações completas sobre a tecnologia das firmas”; em consequência, a crítica austríaca aos pressupostos epistemológicos subjacentes ao paradigma neoclássico aplicam-se com força total.28

As tentativas do socialismo de mercado austríaco de levar em conta considerações sociais mais amplas do que aquelas permitidas pela operação das forças de mercado competitivas foram feitas por, entre outros autores, por Estrin e Winter e por Schweickart.

Estrin e Winter, no contexto de um modelo de empresas autogeridas e de matrizes (holdings) que maximizam lucro – antes desenvolvido por Estrin – defenderam o planejamento indicativo para reduzir as imperfeições do conhecimento associadas à coordenação ex-post das decisões atomizadas que resultam do mero funcionamento das forças de mercado.

Schweickart propõe que a taxa global de investimento seja decidida democraticamente por meio do processo político. Os bancos comunitários regionais, então, recebem alocações de parcelas dos fundos de investimento disponíveis para que passem a emprestar às empresas com base nas prioridades sociais acordadas. As empresas gerenciadas pelos trabalhadores, portanto, competiriam por esses fundos de investimento. Os bancos as alocariam principalmente com base na lucratividade esperada, mas também levariam em conta outros critérios politicamente determinados.29

Um modelo relacionado, que busca “a democratização do mercado dentro de uma estrutura de planejamento estratégico” foi proposto por Elson. 30 Essa autora argumenta que o processo de mercado não permite uma reflexão coletiva que ocorra antes da tomada de decisão por parte das unidades produtoras individuais. Como essa última prática fomenta a busca de objetivos individuais às expensas da cooperação de longo prazo, sugere que o mercado deve ser transformado ou "socializado" por novas instituições de regulação e controle democráticos

Em seu modelo, as empresas são de propriedade pública; há representantes dos consumidores e da comunidade local em seus conselhos, mas elas são autogeridas internamente. Um órgão “regulador de empresas públicas" desempenha as funções do mercado de capitais; os preços são fixados por meio de um diálogo entre as empresas e as “comissões de salários e preços”. Essa configuração, de acordo com Elson, mudaria a natureza antagônica das relações sociais entre compradores e vendedores, de tal modo que tornaria o processo de formação de preços mais público do que privado. Além disso, a operacionalidade do sistema seria reforçada pela criação de “redes de compradores-vendedores”, as quais facilitariam a troca de informações e garantiriam a divulgação de informações.

Contradições não resolvidas do socialismo de mercado

A maioria dos trabalhos modernos no campo da teoria econômica do socialismo consiste na elaboração de versões alternativas do socialismo de mercado. No entanto, a coerência do projeto socialista de mercado tem sido questionada, tanto por aqueles que acreditam que o capitalismo é intrinsecamente mais eficiente quanto por aqueles que acreditam que o socialismo envolve necessariamente planejamento econômico. O objetivo dos socialistas de mercado é combinar igualdade com eficiência, levando em consideração as considerações sociais mais amplas acima mencionadas. No entanto, existem tensões não resolvidas, de fato não resolvíveis, dentro do projeto socialista de mercado.

A fim de alcançar um grau maior de igualdade em relação àquele que se imagina possível sob o capitalismo, a propriedade privada é substituída nos modelos socialistas de mercado por várias formas de propriedade não privada. Para evitar as ineficiências associadas ao planejamento central e ao comando administrativo, ou às intervenções políticas do Estado, é requerido que as empresas se tornem mais ou menos autônomas. Assim, as decisões das empresas não privadas que compõem a economia são coordenadas, em diferentes graus, em diferentes modelos socialistas de mercado, pelas forças do mercado. No entanto, para que as propriedades de eficiência supostamente associadas às forças do mercado sejam plenamente realizadas é preciso que as empresas sejam mais do que autônomas.

Em consequência, a lógica do socialismo de mercado caminha inexoravelmente na direção do socialismo de mercado austríaco, isto é, do “socialismo de mercado propriamente dito” de Brus e Laski. Porém, como se sabe, o mecanismo de incentivo inerente às forças de mercado, atinentes ao sucesso ou ao fracasso competitivo, gera desigualdade. Esse problema, adicionado às considerações sociais mais amplas que os socialistas de mercado tendem a considerar importantes, cria pressões para limitar a autonomia das empresas e, portanto, o escopo do funcionamento das forças de mercado. As limitações à autonomia empresarial, por sua vez, recriam as próprias ineficiências que o projeto socialista de mercado se propõe a superar.1

Além dessas tensões – ou mesmo contradições – dentro do projeto socialista de mercado, há outras considerações que levam alguns socialistas a rejeitar o próprio conceito de socialismo de mercado. Em primeiro lugar, há o ponto de Dobb segundo o qual a tomada de decisão atomizada, feita por empresas autônomas por meio das forças de mercado, cria necessariamente imperfeições de conhecimento que resultam na “anarquia da produção”. Essa dificuldade, argumenta-se, pode ser superada pela coordenação ex-ante, planejada, das principais decisões interdependentes, mas não pelo planejamento indicativo defendido tanto por Estrin e Winter como por Elson, embora este último não tenha chegado a apontá-la. 2 Visto que, no final das contas, as empresas envolvidas no planejamento indicativo permanecem autônomas e agem atomisticamente, o próprio planejamento indicativo não pode superar a anarquia da produção inerente ao funcionamento das forças de mercado.

Em segundo lugar, muitos socialistas rejeitam a suposição comportamental admitida explicitamente nas propostas do socialismo de mercado, ou seja, de que as pessoas necessariamente agem de maneira egoísta, estreitamente com base em seu auto-interesse e de modo oportunista, argumentando que o comportamento é moldado pelas instituições sociais e que os arranjos econômicos socialistas devem encorajar o comportamento cooperativo ao invés de promover as relações sociais competitivas. Finalmente, permanece forte – e por boas razões – a crença de que as forças de mercado criam alienação, assim como uma sensação de desamparo, porque as pessoas ficam sujeitas a forças que estão além de seu próprio controle. Sustenta-se, então, que é adequado pensar em um sistema que promova a participação em um processo de autodeterminação individual e coletivo.

No entanto, apesar dessa crítica ao socialismo de mercado, na aparente ausência do que seria visto como uma alternativa convincente, a maioria dos socialistas, embora com relutância, voltaram-se para ele como a única maneira de sustentar qualquer projeto socialista global. Há, no entanto, duas outras abordagens contemporâneas dentro da teoria econômica do socialismo que agora serão discutidas: a alternativa da alocação direta e a do planejamento participativo.

Contendores contemporâneos: cálculo direto dos valores trabalho

Embora OskarLange, em seu célebre modelo de 1938, tenha empregado um falso mercado, na forma de um computador descentralizado, para resolver o problema de alocar bens de capital, em 1967, publicou uma contribuição ao Festschrift de Dobb, na qual argumentou que o computador eletrônico moderno poderia ser um substituto melhor do mercado.3 Lange afirma, então, que o seu seminal modelo de socialismo de mercado havia sido superado por desenvolvimentos teóricos e técnicos subsequentes. Os dois modelos modernos mais proeminentes de cálculo direto são os de Cockshott e Cottrill e de Albert e Hahnel.

Cockshott e Cottrill levaram ao limite as possibilidades oferecidas pela tecnologia da informática para resolver o problema clássico da alocação direta dos recursos produtivos da sociedade de acordo com um conjunto democraticamente determinado de objetivos e de prioridades. Eles contrariaram o argumento aparentemente conclusivo de Alec Nove segundo o qual o cálculo envolvido na solução de um sistema matemático de entradas e saídas para uma economia moderna complexa seria impossível.4 Segundo os cálculos feitos, numa economia que consiste em um milhão de produtos distintos, um computador capaz de executar aproximadamente 200 milhões de operações por segundo, usando o método padrão de resolução de equações simultâneas, levariam 16.000 anos para calcular os valores trabalho de cada produto. Entretanto, como se sabe agora, usando um método de aproximação sucessiva, um computador da época forneceria uma solução correta, com quatro dígitos decimais de aproximação, em poucos minutos – ora, os computadores modernos operam ainda mais rapidamente.5

Cockshott e Cottrill desenvolveram, então, um algoritmo descentralizado para calcular e revisar o conteúdo em trabalho (direto e indireto) relativo a cada produto da economia. Eles defenderam a ideia de que um quase-mercado que opera com a diferença entre o conteúdo calculado em trabalho de cada produto e os cupons em trabalho que as pessoas estão dispostas a trocar pelos produtos fornece aos planejadores centrais informações com base nas quais eles podem ajustar as instruções de produção que devem ser emitidas aos produtores. No entanto, as informações que os planejadores centrais precisariam ter para fazer o sistema funcionar incluem “listas dos produtos que estão sendo produzidos... atualizações regulares sobre a tecnologia usada em cada processo de produção... os estoques disponíveis de cada tipo de matériaprima e cada modelo de máquina”; além disso, “com base em uma avaliação central das diferentes tecnologias de produção, o sistema de planejamento teria de escolher a intensidade mediante a qual cada tecnologia teria de ser usada”. 6

É assim que o modelo de Cockshott e Cottrill efetivamente descarta o argumento de que o cálculo direto é praticamente impossível. E, note-se, é disto que depende a plausibilidade da defesa feita por Nove do socialismo de mercado como a única forma “factível” de socialismo. Entretanto, tal raciocínio é feito com base no pressuposto epistemológico da teoria neoclássica; ademais, em nenhum lugar, são abordadas as questões da descoberta e do empreendedorismo.

Já Michael Albert e Robin Hahnel defendem o seu modelo de “economia participativa” partindo da seguinte pergunta:

Por que os trabalhadores de diferentes empresas e indústrias, assim como os consumidores de diferentes bairros e regiões, não podem coordenar os seus próprios esforços conjuntos de modo consciente, democraticamente e de maneira eficiente? (...) O que seria impossível em um procedimento de planejamento social, iterativo, em que trabalhadores e consumidores propõem e revisam as suas próprias atividades e decisões à luz de informações precisas sobre o que é eficiente e o que é justo?7 

A abordagem desses dois autores baseia-se em um procedimento de planejamento descentralizado e iterativo, por meio do qual conselhos de trabalhadores e conselhos de consumidores buscam alcançar o equilíbrio. Os conselhos de trabalhadores tomam decisões por meio de procedimentos de votação democrática; são organizados com base em “complexos balanceados de empregos”, os quais determinam que as pessoas devem realizar, rotativamente, uma sequência de tarefas durante certos períodos que sejam considerados razoáveis. Visa-se, assim, combinar os diferentes tipos de trabalho nas proporções em que é requerido serem eles realizados nas empresas e na sociedade como um todo. Eles são solicitados a maximizar as funções de utilidade de seus membros, levando em conta as condições objetivas de suas atividades e sujeitos à restrição de que sua contribuição para a produção deve exceder os custos sociais em que incorrem ao produzi-la. Da mesma forma, os conselhos de consumidores, nos quais as pessoas indicam seus pedidos de consumo de bens pessoais e públicos, são solicitados a elaborar as suas propostas de consumo para maximizar as funções de utilidade de seus membros, sujeito a uma restrição orçamentária.

O processo de alocação é feito por meio de conselhos de consumidores e de trabalhadores, os quais propõem e revisam as suas próprias atividades. Antes de iniciar essas atividades, os preços são ajustados de forma automatizada de acordo com os excessos de oferta e de demanda observados; o sistema funciona, pois, com base em um mecanismo que atualiza os sinais de preços. Assim, o modelo replica o procedimento iterativo de Lange – em sua versão ex-ante ao invés de ex-post – com duas novas dimensões: procura garantir um processo participativo de tomada de decisões ao propor que os conselhos de trabalhadores e consumidores determinam as suas próprias atividades; busca consolidar relações de produção não hierárquicas que promovam a equidade e a participação por meio instituição dos “complexos balanceados de empregos”.

Albert e Hahnel concentram-se no uso da capacidade existente, levando em conta tanto a questão “eficiência” quanto as considerações sociais mais amplas; não discutem, porém, a questão do investimento.8 O modelo de Cockshott e Cottrill trata formalmente o investimento, mas apenas sob o pressuposto neoclássico de que existe um conhecimento completo de todas as funções de produção. Nenhum modelo inspirado na teoria neoclássica aborda explicitamente as questões da descoberta e do empreendedorismo. Além disso, em adendos de cunho político, ambos rejeitam a democracia representativa, optando por vários procedimentos de pesquisa direta e de referendos, sem contemplar a interação e a negociação social frente a frente.

Assim, os modelos baseados no cálculo direto são capazes de lidar com o problema da determinação dos valores, mas não com o problema real da descoberta que aparece de fato nas economias reais. Eles operam dentro do paradigma epistemológico neoclássico em que o conhecimento é assumido como dado, objetiva e prontamente codificado para ser transmitido. Apesar de serem capazes, em princípio, de lidar com as imperfeições do conhecimento decorrentes da tomada de decisão atomizada, são incapazes de lidar com as imperfeições apontadas pelo paradigma epistemológico austríaco, no qual o conhecimento é tácito e tem que ser descoberto por meio do próprio processo por meio do qual a própria sociedade se move.

Contendentes contemporâneos: planejamento participativo

Os modelos de socialismo de mercado e os modelos baseados no cálculo direto, mesmo se são internamente coerentes, são construídos, essencialmente, dentro do paradigma neoclássico. Os modelos austríacos de socialismo de mercado, como já foi visto, são incoerentes ou acabam reproduzindo efetivamente um sistema baseado na propriedade privada capitalista. Além disso, a escola austríaca rejeita, em princípio, a possibilidade de lidar com as imperfeições do conhecimento que surgem da tomada de decisão atomizada.

Os autores deste texto defendem um sistema de planejamento participativo e, assim, propõem, para discussão, uma terceira alternativa contemporânea no interior da teoria econômica do socialismo. Argumenta-se nessa perspectiva que é necessário fazer uma mudança de paradigma no modo como as interações econômicas são conceituadas a fim de superar as duas fontes de imperfeição do conhecimento identificadas na avaliação anterior do debate do cálculo econômico socialista.

O sistema de planejamento participativo preconizado é aquele em que os valores sociais mantidos pelos indivíduos e pelos coletivos interagem e se moldam mutuamente por meio de um processo de cooperação e de negociação. Tal processo, afirma-se, permitiria que o conhecimento tácito fosse articulado e a vida econômica fosse conscientemente controlada e coordenada em um contexto que dispensa a coerção, seja aquela feita pelo Estado seja aquela posta pelas forças do mercado. Assim, o dilema apresentado por Alec Nove – como se sabe, ele afirmou que existem apenas duas dimensões nos arranjos sociais: “ou existem ligações horizontais (de mercado) ou existem ligações verticais (de hierarquia). Que outra dimensão existe? ”9 – pode ser transcendido.

As premissas da mudança de paradigma subjacente ao modelo de planejamento participativo precisam de atenção cuidadosa. A alegação austríaca é de que apenas os empresários que tomam decisões sobre o uso do capital privado têm acesso ao conhecimento tácito e, assim, ao incentivo, necessários à ação que leva à sua descoberta. A abordagem de planejamento participativo afirma que as pessoas em geral têm acesso ao conhecimento tácito e que elas podem descobrir e articular esse conhecimento, desde que estejam equipadas com a capacidade de analisar e avaliar as consequências de suas decisões. Assim, a participação generalizada na tomada de decisões permitiria a mobilização social do conhecimento tácito das pessoas em geral, em vez de confinar o processo de descoberta ao pequeno subconjunto de pessoas que têm acesso ao capital privado em uma economia capitalista.

Trocas de mercado e forças de mercado

Embora as formas participativas de organização econômica tenham uma longa história, a modelagem de uma possível economia socialista com base em planejamento participativo é relativamente nova.10 Um dos autores deste escrito, Pat Devine, desenvolveu um modelo em que a base da organização econômica é um processo de “coordenação negociada”. Esta última ocorre entre os representantes dos afetados pelas decisões envolvidas e é informada pela discussão participativa dos múltiplos interesses afetados. 11 No modelo de Devine, a distinção entre “mercado de troca” e “forças de mercado” é de crucial importância:

A troca de mercado envolve transações entre compradores e vendedores; ora, aquilo que é trocado consiste em estoques (inventários) ou bens e serviços produzidos por empresas que empregam a sua capacidade de produção já existente. As forças de mercado referem-se ao processo pelo qual as mudanças são realizadas na alocação de recursos. Elas atuam para decidir o tamanho relativo das diferentes indústrias e a distribuição geográfica da atividade econômica. Operam por meio da interação das decisões sobre investimento e desinvestimento que são tomadas independentemente uma da outra, de tal modo que a coordenação ocorre ex-post.12 

O processo de coordenação negociada é aquele em que a informação gerada pelas trocas de mercado sobre a rentabilidade das diferentes atividades não é rejeitada, mas usada de forma cooperativa e coordenada, em conjunto com outras informações quantitativas e qualitativas, para decidir o padrão de investimento. Assim, a troca de mercado coordena o uso da capacidade produtiva existente, mas as mudanças na estrutura da capacidade produtiva são negociadas e coordenadas ex-ante pelos afetados por elas. Consequentemente:

O modelo combina o planejamento com a descentralização, sem depender das forças do mercado. A alocação global de recursos é planejada no nível da sociedade como um todo. O grande investimento é coordenado centralmente, mas implementado de forma descentralizada. As unidades de produção sabem o que produzir com a capacidade existente para atender à demanda coletiva e individualmente determinada da sociedade. Mudanças na capacidade das unidades de produção são decididas nos órgãos de coordenação negociados pelos afetados por elas. O interesse social é definido em cada caso pelos interesses gerais e específicos envolvidos. As unidades de produção estão sob escrutínio público, o que as encoraja a operar eficientemente. Como as pessoas participam em todos os níveis das decisões econômicas que as afetam, elas provavelmente estarão comprometidas com a implementação efetiva dessas decisões.13 

Para Devine propriedade social é aquela que é detida por aqueles afetados pelo uso dos ativos em questão. Assim, em seu modelo, as empresas são de propriedade de seus trabalhadores, clientes, fornecedores, comunidades e regiões nas quais estão ocalizadas. Os interesses mais geraissão representados pela comissão de planejamento regional, nacional ou global, dependendo do alcance geográfico de suas operações, assim como de certos grupos com interesses especiais, tais como aqueles preocupados com o meio ambiente ou com a igualdade de oportunidades.14 Os preços seriam iguais aos custos médios de longo prazo, os quais dependeriam dos custos de mão-de-obra, dos insumos comprados, de uma taxa de depreciação, assim como um taxa de retorno do capital, sendo esta última determinada centralmente. As empresas competiriam por clientes, engajando-se em troca de mercado e gerando informações sobre a eficácia com que estão usando seus ativos:

Não haveria nenhuma tentativa de coordenar as transações ex-ante entre produtores e consumidores. O nível da capacidade de produção e a relação entre o nível dos pedidos e os estoques existentes em um setor da indústria como um todo indicariam se essa capacidade agregada precisa de expansão ou de contratação. Assim, a necessidade de mudanças na capacidade de produção de uma empresa específica surgiria como resultado de seu desempenho em relação ao das outras do seu setor e/ou como resultado de um desequilíbrio entre a oferta e a demanda agregada setorial. 15 

As mudanças na capacidade de produção seriam decididas por órgãos de coordenação que trabalhariam com base em negociação; eles seriam compostos por representantes dos proprietários sociais do ramo industrial em consideração, ou seja, das empresas do setor, das indústrias fornecedoras e dos clientes, assim como de membros da comissão de planejamento regional, nacional ou global relevantes; outros grupos com interesse legítimos no conjunto de decisões em questão poderiam também fazer parte de tais órgãos. Os organismos de coordenação por meio de negociação

teriam à sua disposição três tipos de informações quantitativas: primeiro, os dados contábeis sobre o desempenho de cada empresa, gerados pelo uso de sua capacidade existente (ou seja, por meio das trocas de mercado); segundo, as estimativas de mudanças esperadas na demanda ou nos custos em relação às atividades existentes; terceiro, as estimativas da demanda e os custos esperados em relação a inovações potenciais de produto ou processo. Eles também teriam acesso a dois tipos de informações qualitativas, fornecidas pelos representantes dos diferentes interesses que participam do processo de negociação: primeiro, os julgamentos sobre as razões subjacentes a qualquer desempenho diferenciado das empresas; segundo, os pontos de vista das pessoas afetadas sobre a situação econômica e social que prevalece nas comunidades e regiões nas quais o investimento ou o desinvestimento pode ocorrer, as prioridades de distribuição regional acordadas por meio do processo político democrático e as preocupações de outros interesses representados.16 

O modelo de planejamento participativo de Devine incorpora a troca de mercado, mas não as forças de mercado. Eis que as decisões de investimento interdependentes são tomadas por representantes de todas as pessoas afetadas por elas. Uma vez que a utilização da capacidade existente é decidida por empresas que realizam intercâmbios no mercado de forma descentralizada, o perigo de sobrecarga administrativa é minimizado.17 Assim, as decisões com alcance global, como aquelas relacionadas à redistribuição internacional da riqueza efetiva, ao padrão global da atividade econômica ou das atividades que têm consequências ecológicas globais, seriam negociadas em nível global.

Em geral, no entanto, o princípio de subsidiariedade seria aplicado para assegurar que as decisões fossem negociadas no nível mais local, de tal modo que venham a ser consistentes com a participação de representantes de todos os principais interesses afetados. Como o processo de negociação seria contínuo, os envolvidos descobririam o conhecimento tácito necessário, ou seja, descobririam o que é possível e o que não é possível fazer e, portanto, seriam capazes de avaliar suas decisões passadas e de aprender com elas. Consequentemente

enquanto decisões interdependentes seriam coordenadas de modo exante sempre que possível, por meio de um processo de negociação que permite a descoberta e o aprendizado antes que os recursos fossem comprometidos, a implementação resultaria em novas descobertas e aprendizados ex-post que possibilitariam correção subsequente na próxima rodada de tomada de decisão. No entanto, esses processos integrados de tomada de decisão ex-ante e ex-post seriam baseados em negociação cooperativa, em vez de coerção ou competição.18 

Em resumo, o modelo de Devine dá grande importância à negociação e à interação, enfatizando o aspecto transformativo da participação. Procura promover a cooperação e o reconhecimento do interesse comum interdependente. Reconhece, ao mesmo tempo, que as pessoas têm interesses distintos e que estes precisam poder se manifestar no debate público; as pessoas, por sua vez, têm de poder articular e argumentar num contexto social que também incentiva o reconhecimento e o respeito pelos interesses dos outros.

Conclusões

A experiência histórica e teórica do século XX no tange às tentativas de construir ou de modelar sistemas econômicos socialistas têm sido variadas e ricas, mas prima facie desanimadoras. Tentamos tirar aqui algumas conclusões dessa experiência para informar a discussão contemporânea no campo da teoria econômica do socialismo. Modelos de uma economia socialista precisam ser capazes de lidar com os problemas do cálculo, da motivação e da descoberta; eles precisam abordar as imperfeições do conhecimento associadas tanto à natureza tácita do conhecimento quanto à tomada de decisão atomizada provindas das forças do mercado. Os três candidatos contemporâneos são o socialismo de mercado, aquele que propõe o cálculo direto dos valores de troca e aquele baseado no planejamento participativo.

Os modelos socialistas de mercado são de dois tipos: neoclássico e austríaco. Os modelos neoclássicos são basicamente estáticos e estão preocupados com as questões de incentivos e monitoramento. Eles são capazes de lidar com os problemas do cálculo e da motivação, mas não com os problemas da descoberta e do empreendedorismo. Os poucos modelos que discutem a questão do investimento assumem certeza ou o equivalente à certeza (risco). Os modelos neoclássicos não reconhecem a natureza tácita do conhecimento e são incapazes de lidar com a incerteza real. Tal como o paradigma neoclássico como um todo, eles não têm nada a nos dizer sobre as maneiras pelas quais as economias de mercado capitalistas realmente funcionam ou as economias de mercado socialistas podem funcionar.

Os modelos austríacos de socialismo de mercado procuram abordar os problemas de descoberta e empreendedorismo, bem como os do cálculo e dos incentivos. No entanto, eles são incoerentes já que imitam fortemente o capitalismo; eis que se baseiam, de fato, na propriedade privada. Além disso, embora possam ser capazes de lidar com o problema da mobilização do conhecimento tácito, eles são, por definição, incapazes de lidar com as imperfeições do conhecimento associadas à tomada de decisão atomizada. Assim, não incorporam o planejamento econômico, no sentido de uma coordenação ex-ante dos investimentos interdependentes mais importantes.

Os modelos de cálculo direto são capazes de resolver o problema formal do cálculo. Eis que os computadores modernos abriram espaço para os argumentos tecnocráticos que julgam poder dar conta da coleta e do processamento das informações econômicas. No entanto, esses modelos são incapazes de lidar com as questões do conhecimento tácito, da descoberta e do empreendedorismo. Para lidar com o investimento, eles têm que assumir que o conhecimento é certo ou pode ser reduzido ao probabilístico, de tal modo que a estrutura analítica desses modelos é essencialmente a mesma que a do paradigma neoclássico.

Se esta avaliação estiver correta, o planejamento participativo oferece a direção mais promissora para um trabalho futuro que faça progredir a teoria econômica do socialismo. É capaz de lidar com o problema de cálculo usando as informações quantitativas geradas por troca real de mercado e as informações qualitativas fornecidas por pessoas mais próximas e mais afetadas pelas decisões econômicas. Como o grande investimento não é realizado com base em decisões atomizadas, ele pode ser coordenado ex-ante.

Ao mesmo tempo, a natureza tácita do conhecimento é reconhecida. Um processo social de descoberta e mobilização por meio da participação generalizada e da coordenação negociada está no cerne do planejamento participativo. Assim, as imperfeições do conhecimento que surgem do conhecimento tácito e da tomada de decisão atomizada podem ser devidamente tratadas. O planejamento participativo é o único dos três modelos, candidatos contemporâneos à proeminência enquanto modelos de socialismo, que é capaz de resolver essa última questão.

Por que, então, o socialismo de mercado é tão predominante nas discussões contemporâneas da economia do socialismo? Uma explicação vem do fracasso da experiência do planejamento central no estilo soviético. Outro é o fascínio exercido pelo paradigma neoclássico – e um certo capital intelectual nele investido – que caracteriza a maioria dos economistas e até mesmo dos economistas socialistas.

No entanto, há uma terceira razão e ela talvez seja, em última análise, a mais reveladora. Modelos de cálculo direto e de planejamento participativo baseiam-se no pressuposto socialista tradicional de que as pessoas têm capacidade de reconhecer os seus próprios interesses, assim como os das outras, porque, em geral, eles são interdependentes. As pessoas, por isso, não estão preocupados apenas com os seus próprios, mas também com o bem geral. Os socialistas de mercado perderam a fé nessa suposição. De fato, muitos a considerariam perigosa, interpretando-a como uma crença na perfectibilidade dos seres humanos, com o corolário de que ela poderia ser usada para justificar a engenharia social. Com essa crença, os socialistas de mercado projetam seus modelos para lidar com os problemas de incentivo e monitoramento que surgem no contexto do comportamento oportunista, voltado para o interesse próprio característico do “gerente egoísta, do planejador e do diretor de qualquer banco público". 19

Nossa defesa do planejamento participativo, em contraste, baseia-se na insistência de que o socialismo deve ter uma dinâmica transformadora. Afinal de contas, Marx poderia estar certo quando esperava que o socialismo fosse criado com base no mais alto nível de desenvolvimento alcançado pelo capitalismo. Podemos hoje acrescentar que isso não significa apenas um alto nível de produtividade do trabalho, mas também um grau elevado de envolvimento na auto-organização, nas instituições da sociedade civil, nos processos democráticos participativos.

É por isso que a evolução em direção à política e à economia participativa deve envolver a abolição da divisão social do trabalho e a transformação da sociedade baseada na dominação de uma classe dominante, fundada esteja na propriedade privada ou na posição institucional na burocracia estatal, em outra que seja uma sociedade autogovernada, em que as pessoas, no decorrer de suas vidas, assumem sua parte justa no negócio de administrar as coisas, seja no nível micro, no nível macro ou em ambos.20 Não surpreende, pois, que a teoria econômica do socialismo esteja inseparavelmente ligada à teoria política do socialismo.

Notas:

1 Uma contribuição anterior se encontra em R. Blackburn, Fin de Siècle: Socialism After the Crash, New Left Review, 185, Jan.–Fev. 1991, pp. 5–66. 

2 Para tomar contato com uma versão moderna do argumento de que a propriedade privada e as forças de mercados se implicam mutuamente, veja-se J. Kornai, ‘The Affinity Between Ownership Forms and Coordination Mechanisms: The Common Experience of Reform in Socialist Countries’, Journal of Economic Perspectives, 1990.

3 Para tomar contato com discussões complementares ao argumento deste artigo, veja-se Pat Devine, Democracy and Economic Planning, Cambridge 1988; F. Adaman, A Critical Evaluation of the Economic Calculation Debate with Special Reference to Maurice Dobb’s Contribution, tese de PhD, University of Manchester 1992; P. Devine, Market Socialism or Participatory Planning?, Review of Radical Political Economics, 1992; F. Adaman and P. Devine, Socialist Renewal: Lessons from the Calculation Debate, Studies in Political Economy, 1994; e F. Adaman and P. Devine, The Economic Calculation Debate: Lessons for Socialists, Cambridge Journal of Economics, 1996.

4 Veja Friedrich Hayek, The Fatal Conceit, London 1988, p. 7.

5 Enrico Barone, The Ministry of Production in the Collectivist State, in F. Hayek, ed., Collectivist Economic Planning, London 1935; A. Bergson, Socialism, in H. Ellis, ed., A Survey of Contemporary Economics, New York, 1948.

6 Israel Kirzner, The Economic Calculation Debate: Lessons for Austrians, Review of Austrian Economics, 1988.

7 Ludwin Mises, ‘Economic Calculation in the Socialist Commonwealth’, 1920, in Hayek, Collectivist Economic Planning.

8 Barone, The Ministry of Production in the Collectivist State.

9 F. Hayek, The Nature and History of the Problem and The Present State of the Debate, in Hayek, Collectivist Economic Planning.

10 O. Lange, On the Economic Theory of Socialism, in B. Lippincott, ed., On the Economic Theory of Socialism, Minneapolis, 1938. Veja também F. Taylor, The Guidance of Production in a Socialist State, 1929, no mesmo volume; H. Dickenson, Price Formation in a Socialist Community, The Economic Journal, 1933; A. Lerner, Economic Theory and Socialist Economy, Review of Economic Studies, 1934.

11 O fato de que os preços sejam alterados com base nos movimentos dos níveis reais de estoque significa que a economia é coordenada ex-post. Ora, isto pode trazer ineficiências em um contexto neoclássico. Arrow e Hurwicz posteriormente aperfeiçoaram o modelo de Lange ao projetar um mecanismo de coordenação ex-ante no qual a troca de informações entre o departamento de planejamento e as empresas ocorre antes que o plano seja implementado. Veja K. Arrow e L. Hurwicz, Decentralization and computation in resource allocation, 1960, Arrow and Hurwicz, eds, Studies in Resource Allocation, Cambridge, 1977.

12 F. Hayek, Economics and Knowledge, 1937, and Socialist Calculation: The Competitive “Solution” , 1940, in Hayek, ed., Individualism and Economic Order, London 1949. 5

13 See, for instance, J. Ledyard, ‘Incentive Compatibility’, The New Palgrave: A Dictionary of Economics, London 1987.

14 J. Stiglitz, ‘Credit Markets and the Control of Capital’, Journal of Money, Credit and Banking, 1985, p. 136.

15 Veja-se, por exemplo, F. Scherer, Corporate Takeovers: The Efficiency Arguments, Journal of Economic Perspectives, 1988.

16 See P. Bardhan and J. Roemer, Market Socialism: A Case for Rejuvenation, Journal of Economic Perspectives, 1992. Este ponto, note-se aqui, será discutido melhor a frente.

17 D. Lavoie, Rivalry and Central Planning, Cambridge, 1985.

18 F. Hayek, The Uses of Knowledge in Society, 1945, Hayek, Individualism and Economic Order, p. 77.

19 Veja uma exposição geral em A. Schand, Free Market Morality: The Political Economy of the Austrian School, London 1989.

20 P. McNulty, Competition: Austrian Conceptions, The New Palgrave. Note-se que, em muitos aspectos de seus trabalhos, Schumpeter não pode ser considerado um membro da Escola Austríaca.

21 D. Lavoie, Computation, Incentives, and Discovery: The Cognitive Function of Markets in Market Socialism, in J. Prybyla, ed., Privatizing and Marketizing Socialism, Annals of the American Academy of Political and Social Science, London 1990.

22 Ibid., p. 78.

23 Kornai, The Affinity Between Ownership Forms and Coordination Mechanisms.

24 Observe que este “em grande parte inexplorado” não deve ser interpretado como “intocado”. Até mesmo os primeiros austríacos reconheceram o problema do capitalismo corporativo, mas simplesmente o ignoraram argumentando que os acionistas, animados pelo lucro, de alguma forma garantiriam que "empresários corporativos" agiriam no interesse dos acionistas. Como ficou claro acima na discussão do problema “agente e principal”, esta é uma suposição bastante ingênua.

25 M. Dobb, Economic Theory and the Problems of a Socialist Economy, The Economic Journal, 1933.

26 M. Dobb, Political Economy and Capitalism, London 1937, p. 279. 10

27 Ibid., p. 274.


1 M. Dobb, Economic Theory and Socialist Economy: A Reply, Review of Economic Studies, 1935, p. 535.

2 I. Kirzner, Competition and Entrepreneurship, Chicago 1973, p. 232.

3 Cuidado é necessário aqui. A abordagem neoclássica foi além da suposição de livro-texto de informação perfeita, igualmente disponível para todos. Muitas análises neoclássicas modernas estão relacionadas a situações em que a informação é distribuída assimetricamente. A informação é entendida como uma mercadoria que pode ser adquirida a um custo. O preço que as pessoas estão dispostas a pagar para obter uma certa quantidade de informação depende da satisfação que ela produzirá. À primeira vista, esta abordagem parece responder à crítica da escola austríaca. No entanto, como uma pessoa pode conhecer a satisfação que será obtida de uma informação? Um indivíduo só pode saber se a informação em si existe objetivamente e eles sabem disso com antecedência. No entanto, o verdadeiro problema colocado pela escola austríaca não é como obter informações já conhecidas, mas como descobrir o conhecimento tácito de que não há consciência pré-existente. Assim, o conceito dos neoclássicos de informação distribuída assimetricamente é categoricamente diferente do conhecimento tácito dos austríacos; o primeiro é conhecimento objetivado, este último está sujeito a um processo de descoberta e aprendizado. Veja S. Ioannides, The Market, Competition and Democracy: A Critique of Neo-Austrian Economics, Hants. 1992.

4 Nenhum dos modelos que designamos como austríaco realmente querem se afigurar como tais. Nossa classificação é baseada na questão de saber se reconhecem ou não as questões de descoberta e empreendedorismo e incorporam processos institucionais para lidar com eles.

5 A. Nove, The Economics of Feasible Socialism, London 1983.

6 A experiência histórica mais relevante é a da Hungria com o seu “novo mecanismo econômico”, introduzido em 1968; veja J. Kornai, ‘The Hungarian Reform Process: Visions, Hopes, and Reality’, Journal of Economic Literature, 1986.

7 P. Bardhan and J. Roemer, Introduction, P. Bardhan e J. Roemer, eds, Market Socialism, New York 1993, p. 7. Stiglitz argumentou recentemente que os modelos de equilíbrio geral walrasiano e neoclássico são fatalmente defeituosos devido à sua incapacidade de lidar com situações caracterizadas por várias formas de informação imperfeita e estendeu essa crítica a modelos socialistas de mercado do tipo Lange, veja J. Stiglitz, Market Socialism and Neoclassical Economics, Bardhan and Roemer, Market Socialism. Roemer respondeu argumentando que a crítica de Stiglitz não se aplica ao socialismo de mercado de quinta geração, veja J. Roemer, An Anti-Hayekian Manifesto, New Left Review, 211, pp. 112–29. Concordamos com Roemer – e com efeito Stiglitz, embora ele não o diga explicitamente – que qualquer arranjo institucional concebido dentro do paradigma neoclássico para tratar os problemas decorrentes de conhecimento imperfeito em uma economia de mercado pode ser adaptado de forma igualmente eficaz a uma economia capitalista baseada em propriedade privada ou uma economia socialista de mercado baseada na propriedade não privada. No entanto, esses desenvolvimentos dentro do paradigma neoclássico, analisando a troca voluntária com base no comportamento maximizador, não abordam o desafio austríaco subjacente, com base na posição epistemológica distinta daquela escola. Para poder engajar-se na maximização do comportamento, os agentes econômicos devem saber qual será o resultado dos cursos alternativos de ação e como cada resultado afetará sua utilidade. É precisamente a possibilidade de possuir tal conhecimento que os austríacos disputam. Para eles, o conhecimento precisa ser descoberto por meio da ação. Veja-se a nota de número 30 no artigo de Ioannides, The Market, Competition and Democracy.

8 "A aparência do gerente egoísta, do planejador e do diretor do banco público está associada à visão, na argumentação da quinta geração, de que apenas um diretor que está prestes a realizar um grande ganho monetário monitorará adequadamente o seu agente", Bardhan and Roemer, Introduction, Market Socialism, p. 8.

9 Bardhan and Roemer, Market Socialism: A Case for Rejuvenation; Bardhan, On Tackling the Soft Budget Constraint in Market Socialism’, Bardhan e Roemer, Market Socialism; Roemer, Can There Be Socialism After Communism?, no mesmo volume; Roemer, A Future for Socialism, London 1994. Veja-se também o número especial de Politics and Society, Dezembro, 1994. Embora na Introdução ao Market Socialism, os autores se refiram à primeira escola austríaca, as discussões feitas estão inteiramente dentro do arcabouço neoclássico e se preocupam apenas com os problemas do cálculo e da motivação. Não há qualquer referência à escola austríaca moderna nem ao problema da descoberta. Isso é verdade em A Future for Socialism de Roemer e em seu An Anti-Hayekian Manifesto. Estamos, pois, bem confiantes em afirmar que o modelo de Roemer cai claramente na categoria de neoclássico.

10 Bardhan and Roemer, Market Socialism: A Case for Rejuvenation, p. 109.

11 Ibid.

12 Bardhan, On Tackling the Soft Budget Constraint in Market Socialism, p. 148.

13 Bardhan and Roemer, Market Socialism: A Case for Rejuvenation, p. 110.

14 Roemer, A Future for Socialism, p. 81.

15 As duas principais ineficiências identificadas são uma redução na produção de curto prazo em resposta a um aumento de preço e um grau sub-ótimo de intensidade de capital. Para uma pesquisa abrangente, veja-se J. Bonin and L. Putterman, Economics of Cooperation and the Labor-Managed Economy, New York, 1987.

16 See M. Sertel, Workers and Incentives, Amsterdam, 1982; M. Sertel, Workers Enterprises Are Not Perverse, European Economic Review, 1987; P. Kleindorfer and M. Sertel, The Economics of Workers Enterprises, D. Bös, ed., Public Policy and Economic Organization, London 1994.

17 M. Fleurbaey, Economic Democracy and Equality: A Proposal, in Bardhan and Roemer, Market Socialism.

18 T. Weisskopf, A Democratic Enterprise-Based Market Socialism, Bardhan and Roemer, Market Socialism p. 134; “critério de eficiência convencional” significa um ótimo de Pareto, tal como foi antes aqui definido.

19 Veja-se J. Barsony, Tidor Liska’s Concept of Socialist Entrepreneurship, Acta Oeconomica, 1982.

20 Tornou-se convencional distinguir entre certeza, risco e incerteza. O risco é uma situação na qual todos os resultados possíveis e suas probabilidades de ocorrência são conhecidos. Isso possibilita calcular um "valor esperado" de um curso de ação que pode ser maximizado como se fosse conhecido. A incerteza, ao contrário, é uma situação na qual nem todos os resultados possíveis nem suas probabilidades de ocorrência são conhecidos – simplesmente não sabemos, mas mesmo assim é preciso de acordo com a situação encontrada.

21 W. Brus and K. Laski, From Marx to the Market, Oxford 1989, pp. 105, 132.

22 Ibid., p. 149.

23 S. Estrin, Workers Cooperatives: Their Merits and Their Limitations, J. Le Grand and S. Estrin, eds, Market Socialism, Oxford, 1989.

24 D. Schweickart, ‘Economic Democracy: A Worthy Socialism That Would Really Work’, Science and Society, 1992, p. 28.

25 Veja-se, por exemplo, J. Roemer, The Possibility of Market Socialism, in D. Copp, J. Hampton and J. Roemer, eds, The Idea of Democracy, Cambridge 1993.

26 I. Ortuno-Ortin, J. Roemer, and J. Silvestre, Investment Planning in Market Socialism, in S. Bowles, H. Gintis, and B. Gustafsson, eds, Markets and Democracy: Participation, Accountability and Efficiency, Cambridge, 1993.

27 Efetivamente, este é o mesmo sistema defendido por Brus num primeiro modelo de socialismo de mercado; veja-se W. Brus, The Market in a Socialist Economy, London 1972.

28 J. Roemer and J. Silvestre, Investment Policy and Market Socialism, Bardhan and Roemer, Market Socialism, p. 109. Este capítulo citado é um sumário do modelo completo; veja-se Ortuno-Ortin, Roemer, and Silvestre, Investment Planning in Market Socialism.

29 Veja-se S. Estrin and D. Winter, Planning in a Market Socialist Economy, Le Grand and Estrin, Market Socialism; e Schweickart, Economic Democracy. Miller também propôs um modelo que busca levar em conta considerações sociais mais amplas essencialmente da mesma maneira que Schweickart. Em seu modelo, as cooperativas de trabalhadores obtêm capital de agências de investimento que equilibram a rentabilidade esperada em relação às necessidades de emprego, ambientais e outras necessidades da comunidade; veja-se D. Miller, Market, State, and Community, Oxford 1989.

30 D. Elson, Market Socialism or the Socialization of the Market?, New Left Review, 172, Nov.-dez., 1988, p. 33. Veja-se também H. Breitenbach, T. Burden, e D. Coates, Features of a Viable Socialism, Hemel Hempstead, 1990.


1 Kornai chama a atenção para essencialmente o mesmo argumento em suas reflexões sobre o funcionamento do novo mecanismo econômico húngaro; veja-se J. Kornai, The Dilemmas of a Socialist Economy: The Hungarian Experience, Cambridge Journal of Economics, 1980.

2 Elson concordou em conversa privada que, no final, as empresas em seu modelo são totalmente autônomas e tomam suas próprias decisões. Assim, o complexo conjunto de instituições destinadas a facilitar a troca de informações pode ser pensado como uma forma desenvolvida de planejamento indicativo. Para uma discussão detalhada do modelo de Elson veja-se Devine, Market Socialism or Participatory Planning?

3 O. Lange, ‘The Computer and the Market’, in C. Feinstein, ed., Socialism, Capitalism and Economic Growth, Cambridge 1967.

4 Nove, The Economics of Feasible Socialism.

5 W. Cockshott and A. Cottrill, Towards a New Socialism, Nottingham, 1993.

6 Ibid., pp. 127, 131.

7 M. Albert and R. Hahnel, The Political Economy of Participatory Economics, Princeton, 1991, p. 8.

8 Isto é certamente verdade com relação ao modelo formal deles, o qualse encontra no artigo The Political Economy of Participatory Economics. Há algumas indicações que as decisões de investimento aproximasse daquela encontra na versão popular, mas ela está aí resumida; veja-se M. Albert and R. Hahnel, Looking Forward, Boston, 1991.

9 Nove, The Economics of Feasible Socialism, p. 226.

10 Esta afirmação não deve ser interpretada, no entanto, como se dissesse que até recentemente esforços para modelar economias participativas estavam totalmente ausentes. O movimento sindicalista do tipo socialista das décadas de 1920 e 1930, que defendia o autogoverno não apenas no local de trabalho – e, ademais, organizado com base em associações –, mas se estendendo para toda a sociedade, pode certamente ser categorizado como uma importante tentativa pioneira; veja-se G.D.H. Cole, Guild Socialism Restated, London 1920. Uma linha similar de raciocínio foi desenvolvida por Karl Polanyi; para tomar ciência de uma discussão sobre esse tema, veja-se P. Rosner, Karl Polanyi on Socialist Accounting, in K. Polanyi-Levitt, ed., The Life and Work of Karl Polanyi, Montreal 1990.

11 Devine, Democracy and Economic Planning.

12 Devine, Market Socialism or Participatory Planning?, pp. 79–80.

13 Devine, Democracy and Economic Planning, p. 197.

14 A produção local em pequena escala, empreendida com base no trabalho autônomo, requer, obviamente, arranjos diferentes; veja ibid., pp. 229-30.

15 Adaman and Devine, ‘The Economic Calculation Debate’.

16 Ibid.

17 Foi o fracasso em apreciar a distinção entre troca de mercado e forças de mercado que levaram Blackburn em Fin de Siècle: Socialism After the Crash a desenvolver uma crítica ao modelo proposto baseada nesse equívoco fundamental. Para uma resposta detalhada à crítica de Blackburn, veja-se Devine, Market Socialism or Participatory Planning?

18 Adaman and Devine, The Economic Calculation Debate.

19 Bardhan and Roemer, Market Socialism, p. 8.

20 Veja-se P. Devine, Democracy and Economic Planning; and P. Devine, Socialism as Social Transformation, em M. Cagnani and A. Salsano, eds, Essays in Societal Alternatives: The Milano Papers, Montreal.

1 de junho de 1996

A esquerda e a política de identidade

O historiador Eric J. Hobsbawm defende que a política de identidade, ao centrar-se em grupos específicos, fragmenta o movimento de libertação e desvia a Esquerda do seu projeto fundamental e universalista de igualdade para todos os seres humanos.

Eric J. Hobsbawm

NLR I/217 • MAY/JUNE 1996

Tradução / Minha conferência trata de um tema surpreendentemente novo[1]. Estamos tão acostumados a termos como "identidade coletiva", "grupos de identidade", "política de identidade", ou, inclusive, "etnicidade", que custa recordar que só em data recente começaram a formar parte do vocabulário ou jargão atual do discurso político. Por exemplo, se consultássemos a Encyclopedia of the Social Sciences internacional, publicada em 1968 — ou seja, escrita em meados da década de 1960 —, não encontraríamos nenhuma entrada para o termo identidade, salvo uma que trata da identidade psicossocial, redigida por Erik Erikson, preocupado principalmente por temas tais como a chamada "crise de identidade" que sofrem os adolescentes quando tentam descobrir o que são, e um fragmento geral sobre a identificação dos eleitores. E quanto a etnia, no Oxford English Dictionary de princípios da década de 1970, ainda figura só como una palavra pouco comum que indica "o mundo e a superstição pagãs" e que aparece documentada com citações do século XVIII.

Em resumo, nos ocupamos de termos e conceitos que só começaram a ser utilizados realmente na década de 1960. O seu surgimento é mais facilmente seguido nos Estados Unidos, em parte porque sempre foi uma sociedade extraordinariamente interessada em monitorar a temperatura social e psicológica, pressão arterial e outros sintomas e principalmente porque a forma mais óbvia de identidade política, mas não a única, ou seja, a etnia, sempre foi central para a política estadunidense desde que este se converteu em um país de imigração massiva procedente de todos os pontos da Europa. Preliminarmente, pode-se dizer que que a nova etnia faz sua primeira aparição pública em 1963 com Beyond the Melting Pot, de Glazer e Moynihan, e que em 1972 se converte em um programa militante com The Rise of Unmeltable Ethnics, de Michael Novak. O primeiro, eu não preciso dizer, foi o trabalho de um professor judeu e um irlandês, atualmente senador democrata sênior por Nova York; o autor do segundo era um católico de origem eslovaca. No momento, você não precisa se preocupar muito sobre por que tudo isso aconteceu na década de 1960, mas deixe-me lembrá-lo que — pelo menos no cenário dos movimentos dos Estados Unidos, onde estes eventos ocorreram — esta década assistiu também ao surgimento de outras duas variantes da política de identidade: o movimento das mulheres contemporâneo (isto é, pós-sufragista) e o movimento gay.

Não pretendo dizer que antes da década de 1960 ninguém se fazia perguntas sobre sua identidade pública. Às vezes, em situações de incerteza, houve grupos que as fizeram; por exemplo, no cinturão industrial de Lorena, na França, cuja língua oficial e nacionalidade mudou cinco vezes em um século e cuja vida rural tornou-se industrial, semi-urbana, enquanto que suas fronteiras foram alteradas sete vezes no último século e meio. Não é de se estranhar que os habitantes dessa região dizem o seguinte: "Os berlinenses sabem que são berlinenses, os parisienses sabem que são parisienses, mas quem somos nós?". Ou, para citar outra entrevista: "Sou da Lorena, minha cultura é alemã, minha nacionalidade, francesa, e penso em nosso dialeto provincial"[2]. Na verdade, este tipo de situação só levou a problemas de identidade genuína quando as pessoas foram impedidas de manter identidades múltiplas, combinadas, que são naturais para a maioria de nós. Ou, mais ainda, quando estas se encontravam desligadas "das práticas culturais antigas e comuns a todos"[3]. No entanto, até os anos 1960, esses problemas de identidade incerta foram confinados a zonas de fronteira especiais da política. Eles ainda não eram centrais.

Parecem haver adquirido uma importância fundamental a partir da década de 1960. Por quê? Sem dúvida, encontramos razões particulares na política e instituições deste ou aquele país: assim, nos procedimentos peculiares impostos pela Constituição dos Estados Unidos, que deram lugar, por exemplo, aos juízos de direitos civis da década de 1950, que em um primeiro momento tiveram como protagonistas aos negros e depois se estenderam às mulheres, proporcionando um modelo para outros grupos de identidade. Poderíamos dizer que, sobretudo em países onde os partidos competem pelos votos, constituir-se como um grupo de identidade deste tipo pode aportar vantagens políticas concretas: por exemplo, discriminação positiva a favor dos membros do grupo, cotas em postos de trabalho, etc. Os Estados Unidos são de novo um exemplo a respeito, mas não o único. Por exemplo, na Índia, onde o governo se comprometeu a garantir a igualdade social, pode resultar realmente proveitoso declarar-se membro de uma casta baixa ou de um grupo tribal indígena com o fim de desfrutar do acesso extraordinário ao emprego garantido para tais grupos.

A negação da identidade múltipla

Mas, em minha opinião, o surgimento da política de identidade é uma conseqüência dos movimentos e transformações extraordinariamente rápidos e profundos da sociedade humana no terceiro quarto deste século, que tentei descrever e compreender na segunda parte da minha história da "Era dos Extremos: O breve século XX. Esta não é uma visão apenas minha. O sociólogo americano Daniel Bell, por exemplo, argumentou em 1975 que "a separação das estruturas de autoridade tradicional e as unidades sociais afetivas anteriores — historicamente nação e classe... tornam o apego étnico mais saliente".[4]

De fato, sabemos que tanto o Estado-nação quanto os antigos partidos e movimentos políticos de classe foram enfraquecidos como resultado dessas transformações. Mais do que isso, estamos vivendo – estamos vivendo — uma gigantesca "revolução cultural", uma "extraordinária dissolução das normas, texturas e valores sociais tradicionais, que deixou tantos habitantes do mundo desenvolvido órfãos e desamparados". Posso continuar citando a mim mesmo: "Nunca a palavra 'comunidade' foi usada de forma mais indiscriminada e vazia do que nas décadas em que as comunidades no sentido sociológico se tornaram difíceis de encontrar na vida real".[5] Homens e mulheres procuram grupos aos quais possam pertencer, com certeza e para sempre, em um mundo em que tudo mais está se movendo e mudando, em que nada mais é certo. E eles o encontram em um grupo de identidade. Daí o estranho paradoxo, que o brilhante, aliás, sociólogo caribenho de Harvard, Orlando Patterson, identificou: as pessoas escolhem pertencer a um grupo de identidade, mas "é uma escolha baseada na crença fortemente mantida e intensamente concebida de que o indivíduo não tem absolutamente nenhuma escolha a não ser pertencer a esse grupo específico"[6] Que é uma escolha às vezes pode ser demonstrado. O número de americanos que se declaram "índios americanos" ou "nativos americanos" quase quadruplicou entre 1960 e 1990, de cerca de meio milhão para cerca de dois milhões, o que é muito mais do que poderia ser explicado pela demografia normal; e incidentalmente, uma vez que 70 por cento dos "nativos americanos" se casam fora de sua raça, exatamente quem é um "nativo americano" etnicamente, está longe de ser claro.[7]

Então, o que entendemos por essa "identidade" coletiva, esse sentimento de pertencimento a um grupo primário, que é sua base? Chamo a atenção para quatro pontos.

Primeiro, as identidades coletivas são definidas negativamente; isto é, contra os outros. "Nós" nos reconhecemos como ‘nós’ porque somos diferentes de ‘Eles’. Se não houvesse ‘Eles’ de quem somos diferentes, não teríamos que nos perguntar quem ‘Nós’ éramos. Sem Outsiders não há Insiders. Em outras palavras, as identidades coletivas não se baseiam no que seus membros têm em comum — eles podem ter muito pouco em comum, exceto não serem os “Outros”. Sindicalistas e nacionalistas em Belfast, ou sérvios, croatas e bósnios muçulmanos, que de outra forma seriam indistinguíveis — eles falam a mesma língua, têm os mesmos estilos de vida, parecem e se comportam da mesma forma — insistem na única coisa que os divide, que passa a ser religião. Por outro lado, o que dá unidade como palestinos a uma população mista de muçulmanos de vários tipos, católicos romanos e gregos, ortodoxos gregos e outros que podem muito bem - como seus vizinhos no Líbano - lutar entre si em diferentes circunstâncias? Simplesmente que eles não são os israelenses, como a política israelense continuamente os lembra.

Claro, existem coletividades que se baseiam em características objetivas que seus membros têm em comum, incluindo gênero biológico ou características físicas politicamente sensíveis como cor da pele e assim por diante. No entanto, a maioria das identidades coletivas são como camisas em vez de pele, ou seja, são, pelo menos em teoria, opcionais, não inevitáveis. Apesar da moda atual de manipular nossos corpos, ainda é mais fácil vestir outra camisa do que outro braço. A maioria dos grupos de identidade não se baseia em semelhanças ou diferenças físicas objetivas, embora todos eles afirmem que são “naturais” e não socialmente construídos. Certamente todos os grupos étnicos o fazem.

Em segundo lugar, segue-se que na vida real as identidades, como as roupas, são intercambiáveis ou vestíveis em combinação, em vez de únicas e, por assim dizer, presas ao corpo. Pois, claro, como todo pesquisador de opinião sabe, ninguém tem uma e apenas uma identidade. Os seres humanos não podem ser descritos, mesmo para fins burocráticos, exceto por uma combinação de muitas características. Mas a política de identidade assume que uma entre as muitas identidades que todos temos é aquela que determina, ou pelo menos domina nossa política: ser mulher, se você é feminista, ser protestante, se você é sindicalista Antrim, ser catalão, se você é um nacionalista catalão, sendo homossexual se você está no movimento gay. E, claro, que você tem que se livrar dos outros, porque eles são incompatíveis com o seu ‘verdadeiro’ você. Assim, David Selbourne, um ideólogo multifacetado e denunciante geral, conclama firmemente “O judeu na Inglaterra” a “deixar de fingir ser inglês” e a reconhecer que sua identidade “real” é a de judeu. Isso é perigoso e absurdo. Não há incompatibilidade prática, a menos que uma autoridade externa lhe diga que você não pode ser ambos, ou a menos que seja fisicamente impossível ser ambos. Se eu quisesse ser simultânea e ecumenicamente um católico devoto, um judeu devoto e um budista devoto, por que não deveria? A única razão que me detém fisicamente é que as respectivas autoridades religiosas podem me dizer que não posso combiná-los, ou que pode ser impossível realizar todos os seus rituais porque alguns atrapalham os outros.

Normalmente, as pessoas não têm problemas em combinar identidades, e isso, é claro, é a base da política geral distinta da política de identidade seccional. Muitas vezes as pessoas nem se dão ao trabalho de escolher entre as identidades, seja porque ninguém pergunta, seja porque é muito complicado. Quando os habitantes dos EUA são solicitados a declarar suas origens étnicas, 54% se recusam ou não sabem responder. Em resumo, políticas de identidade exclusivas não vêm naturalmente para as pessoas. É mais provável que seja imposto a eles de fora - da maneira como os habitantes sérvios, croatas e muçulmanos da Bósnia que viveram juntos, socializaram e se casaram, foram forçados a se separar, ou de maneiras menos brutais.

A terceira coisa a dizer é que as identidades, ou sua expressão, não são fixas, mesmo supondo que você tenha optado por um de seus muitos eus potenciais, da mesma forma que Michael Portillo optou por ser britânico em vez de espanhol. Eles mudam e podem mudar, se necessário, mais de uma vez. Por exemplo, grupos não étnicos, cujos membros são todos ou a maioria negros ou judeus, podem se transformar em grupos conscientemente étnicos. Isso aconteceu com a Igreja Batista Cristã do Sul sob Martin Luther King. O oposto também é possível, como quando o Official ira se transformou de um nacionalista feniano em uma organização de classe, que agora é o Partido dos Trabalhadores e parte da coalizão do governo da República da Irlanda.

A quarta e última coisa a dizer sobre identidade é que ela depende do contexto, que pode mudar. Todos nós podemos pensar em membros pagos e de carteirinha da comunidade gay em Oxbridge da década de 1920 que, após a crise de 1929 e a ascensão de Hitler, mudaram, como eles gostavam de dizer, de Homintern para Comintern. Burgess e Blunt, por assim dizer, transferiram sua homossexualidade da esfera pública para a esfera privada. Ou, considere o caso do erudito clássico alemão protestante, Pater, um professor de clássicos em Londres, que repentinamente descobriu, depois de Hitler, que ele tinha que emigrar, porque, pelos padrões nazistas, ele era na verdade judeu - um fato que até naquele momento, ele não sabia. No entanto, ele havia se definido anteriormente, agora ele tinha que encontrar uma identidade diferente.

O universalismo da esquerda

O que tudo isso tem a ver com a esquerda? Grupos de identidade certamente não eram centrais para a esquerda. Basicamente, os movimentos sociais e políticos de massa da esquerda, isto é, aqueles inspirados pelas revoluções americana e francesa e pelo socialismo, eram de fato coalizões ou alianças de grupo, mas mantidas unidas não por objetivos específicos do grupo, mas por grandes causas universais através das quais cada grupo acreditava que seus objetivos particulares poderiam ser alcançados: a democracia, a República, o socialismo, o comunismo ou o que quer que fosse. Nosso próprio Partido Trabalhista em seus grandes dias era tanto o partido de uma classe quanto, entre outras coisas, das nações minoritárias e comunidades de imigrantes continentais da Grã-Bretanha. Era tudo isso, porque era um partido de igualdade e justiça social.

Não vamos interpretar mal sua pretensão de ser essencialmente baseada em classes. Os movimentos políticos trabalhistas e socialistas não foram, em nenhum lugar, movimentos essencialmente confinados ao proletariado no sentido marxista estrito. Exceto talvez na Grã-Bretanha, eles não poderiam ter se tornado movimentos tão vastos como se tornaram, porque nas décadas de 1880 e 1890, quando os partidos trabalhistas e socialistas de massa de repente apareceram em cena, como campos de jacintos na primavera, a classe trabalhadora industrial na maioria dos países era uma minoria bastante pequena e, de qualquer forma, muitos deles permaneceram fora da organização trabalhista socialista. Lembre-se que na época da Primeira Guerra Mundial os social-democratas representavam entre 30 e 47 por cento do eleitorado em países como Dinamarca, Suécia e Finlândia, que eram pouco industrializados, assim como na Alemanha. (A maior porcentagem de votos já alcançada pelo Partido Trabalhista neste país, em 1951, foi de 48 por cento.) Além disso, a defesa socialista da centralidade dos trabalhadores em seu movimento não era um caso seccional. Os sindicatos perseguiam os interesses seccionais dos assalariados, mas uma das razões pelas quais as relações entre os partidos trabalhistas e socialistas e os sindicatos a eles associados nunca foram isentas de problemas, foi precisamente que os objetivos do movimento eram mais amplos do que os do sindicatos. O argumento socialista não era apenas que a maioria das pessoas eram “trabalhadores manuais ou cerebrais”, mas que os trabalhadores eram a agência histórica necessária para mudar a sociedade. Então, quem quer que você fosse, se quisesse o futuro, teria que seguir o movimento dos trabalhadores.

Por outro lado, quando o movimento trabalhista se reduziu a nada além de um grupo de pressão ou um movimento seccional de trabalhadores industriais, como na Grã-Bretanha dos anos 1970, ele perdeu tanto a capacidade de ser o centro potencial de uma mobilização popular geral quanto a esperança geral do futuro. O sindicalismo militante 'economista' antagonizou as pessoas não diretamente envolvidas nele a tal ponto que deu ao toryismo thatcherista seu argumento mais convincente — e a justificativa para transformar o tradicional Partido Conservador de 'uma nação' em uma força para travar militantes classistas. guerra. Além disso, essa política de identidade proletária não apenas isolou a classe trabalhadora, mas também a dividiu ao colocar grupos de trabalhadores uns contra os outros.

O que tem, então, a política de identidade a ver com a esquerda? Permitam que o diga com firmeza o que nem deveria ser necessário dizer: o projeto político da esquerda é universalista, é para todos os seres humanos. Independentemente da forma como interpretamos estas palavras, não se trata de liberdade para acionistas ou para negros, mas para todos. Não se trata de igualdade para todos os membros do Garrick Club ou para as pessoas com deficiência, mas para todos. Não se trata de fraternidade apenas para os velhos etonianos ou para os gays, mas para todos. E a política de identidade serve, no essencial, apenas para os membros de um grupo específico, e não para todos. Isto é perfeitamente evidente no caso dos movimentos étnicos ou nacionalistas. O nacionalismo sionista judaico, simpatizemos ou não com ele, se centra exclusivamente nos judeus, e isola, ou melhor, bombardeia, o resto. Todos os nacionalismos são exclusivistas. A afirmação nacionalista que sustenta que o que se defende é o direito à autodeterminação para todos é enganosa.

É por isso que a esquerda não pode se basear em políticas de identidade. Tem uma agenda mais ampla. Para a esquerda, a Irlanda foi, historicamente, um, mas apenas um, entre os muitos conjuntos de seres humanos explorados, oprimidos e vitimizados pelos quais lutou. Para o tipo de nacionalismo do ira, a esquerda foi, e é, apenas um possível aliado na luta por seus objetivos em determinadas situações. Em outros, ela estava pronta para pedir o apoio de Hitler, como fizeram alguns de seus líderes durante a Segunda Guerra Mundial. E isso se aplica a todo grupo que faz da política de identidade sua base, étnica ou não.

Agora, a agenda mais ampla da esquerda significa, é claro, que ela apóia muitos grupos de identidade, pelo menos parte do tempo, e eles, por sua vez, olham para a esquerda. De fato, algumas dessas alianças são tão antigas e tão próximas que a esquerda se surpreende quando elas chegam ao fim, assim como as pessoas se surpreendem quando os casamentos se desfazem depois de uma vida inteira. Nos Estados Unidos, quase parece contra a natureza que os ‘étnicos’ – isto é, os grupos de imigrantes em massa pobres e seus descendentes – não mais votem quase automaticamente no Partido Democrata. Parece quase inacreditável que um americano negro possa sequer considerar concorrer à presidência dos Estados Unidos como republicano (estou pensando em Colin Powell). E, no entanto, o interesse comum de irlandeses, italianos, judeus e negros americanos no Partido Democrata não derivava de suas etnias particulares, embora políticos realistas prestassem homenagem a eles. O que os unia era a fome de igualdade e justiça social, e um programa que se acreditava ser capaz de promover ambos.

O interesse comum

Mas isto é precisamente o que tanta gente da esquerda esquece, à medida em que se submerge nas águas profundas da política de identidade. Tem havido, desde a década de 1970, uma tendência - uma tendência crescente - para ver a esquerda essencialmente como uma coligação de grupos e interesses minoritários: de raça, gênero, preferências e estilos de vida sexuais e culturais e até mesmo de minorias econômicas, como veio a ser a antiga classe trabalhadora industrial que antes se ocupava das tarefas sujas. Isto é compreensível mas perigoso, tanto mais que ganhar maiorias não é a mesma coisa que somar minorias.

Em primeiro lugar, deixe-me repetir: os grupos identitários vivem centrados em si próprios, para si próprios, e para mais ninguém. Uma coligação desses grupos que não se mantenha através de um conjunto comum de objetivos ou valores não terá mais do que uma unidade ad hoc, um pouco como os estados aliados temporariamente em guerra contra um inimigo comum. Se separam quando já não têm necessidade de estar juntos. Em qualquer caso, como grupos de identidade, não têm um compromisso com a esquerda como tal, mas se limitam a obter apoios para seus próprios objetivos sempre que podem. Pensamos na emancipação das mulheres como una causa intimamente associada à esquerda, como tem sido sem dúvida desde a origem do socialismo, mesmo antes de Marx e Engels. No entanto, historicamente, o movimento sufragista britânico anterior a 1914 era um movimento dos três partidos, e a primeira mulher que chegou a ser membro do parlamento pertencia, como sabemos, ao Partido Conservador.[9]

Em segundo lugar, qualquer que seja sua retórica, os movimentos e organizações atuais de política de identidade mobilizam apenas minorias, pelo menos antes de adquirirem o poder de coerção e lei. O sentimento nacional pode ser universal, mas, pelo que sei, nenhum partido nacionalista secessionista em estados democráticos conseguiu até agora os votos da maioria de seu eleitorado (embora os quebequenses no outono passado tenham chegado perto - mas então seus nacionalistas foram cuidadosos não para exigir secessão completa com tantas palavras). Eu não digo que isso não possa ou não acontecerá - apenas que a maneira mais segura de obter a independência nacional por secessão até agora tem sido não pedir às populações que votem nela até que você já a tenha primeiro por outros meios.

Isso, aliás, dá duas razões pragmáticas para ser contra a política de identidade. Sem essa compulsão ou pressão externa, em circunstâncias normais dificilmente mobiliza mais do que uma minoria - mesmo do grupo-alvo. Portanto, as tentativas de formar partidos políticos femininos separados não têm sido formas muito eficazes de mobilizar o voto feminino. A outra razão é que forçar as pessoas a assumir uma, e apenas uma, identidade as separa umas das outras. Portanto, isola essas minorias.

Conseqüentemente, comprometer um movimento geral com as demandas específicas de grupos de pressão minoritários, que não são necessariamente nem mesmo aqueles de seus constituintes, é pedir problemas. Isso é muito mais óbvio nos Estados Unidos, onde a reação contra a discriminação positiva em favor de minorias específicas e os excessos do multiculturalismo são agora muito fortes; mas o problema existe aqui também.

Hoje, quer a Direita quer a Esquerda estão sobrecarregadas de políticas da identidade. Infelizmente, o perigo de desintegração numa pura aliança de minorias é enorme à Esquerda, visto que o declínio dos grandes lemas universalistas do Iluminismo, que foram essencialmente lemas da esquerda, deixa-a sem qualquer forma óbvia de formular um interesse comum entre os limites seccionais. O único entre os denominados "novos movimentos sociais" que traspassa todas estas fronteiras é o ecologista. Mas, infelizmente, seu atrativo político é limitado e provavelmente continuará a sê-lo.

No entanto, existe uma forma de política identitária que é realmente abrangente, na medida em que se baseia em um apelo comum, pelo menos nos limites de um único Estado: o nacionalismo cidadão. Visto na perspectiva global, isso pode ser o oposto de um apelo universal, mas visto na perspectiva do estado nacional, que é onde a maioria de nós ainda vive e provavelmente continuará vivendo, fornece uma identidade comum, ou em A frase de Benedict Anderson, 'uma comunidade imaginada' não é menos real por ser imaginada. A direita, especialmente a direita no governo, sempre alegou monopolizar isso e geralmente ainda pode manipulá-lo. Até mesmo o Thatcherismo, o coveiro do “toryismo de uma nação”, fez isso. Mesmo seu sucessor fantasmagórico e moribundo, o governo de Major, espera evitar a derrota eleitoral condenando seus oponentes como antipatrióticos.

Por que, então, tem sido tão difícil para a esquerda, e sem dúvida para a esquerda dos países de língua inglesa, ver-se como representante de toda a nação? (Aqui evidentemente me refiro à nação como comunidade de indivíduos de um país, não como entidade étnica.) Por que tem sido tão difícil até mesmo tentar? Afinal, as origens da esquerda europeia remontam ao momento em que uma classe, ou uma aliança de classes, o Terceiro Estado dos Estados Gerais franceses de 1789, decidiu declarar-se "a nação", contra a minoria da classe governante, criando assim o próprio conceito de "nação" política. Afinal, inclusive Marx previa uma transformação desse tipo no Manifesto Comunista [10]. Na verdade podemos ir mais além. Todd Gitlin, um dos melhores observadores da esquerda norte-americana, colocou de forma dramática em seu novo livro, The Twilight of Common Dreams: ‘O que é uma Esquerda se não for, pelo menos de um modo plausível, a voz de todo o povo?... Se não houver povo mas apenas povos, não há Esquerda.’ [11]

A voz abafada do Novo Trabalhismo

Houve épocas em que a esquerda não só queria ser a nação, mas que foi aceita como representante do interesse nacional, inclusive por aqueles que não tinham especial simpatia por suas aspirações: nos Estados Unidos, quando o Partido Democrata rooseveltiano desfrutava de hegemonia política, na Escandinávia desde princípios da década de 1930. De modo mais geral, quando terminou a Segunda Guerra Mundial, a esquerda representava a nação no sentido mais literal quase em toda a Europa, porque representava a resistência e a vitória contra Hitler e seus aliados. Daí a singular união entre o patriotismo e a transformação social, que dominou a política europeia imediatamente depois de 1945. O mesmo aconteceu na Grã Bretanha, onde 1945 foi um plebiscito em favor do Partido Trabalhista como partido que melhor representava a nação, frente ao conservadorismo de toda uma nação, capitaneado pelo dirigente do período de guerra mais carismático e vitorioso da cena política. O qual marcou o rumo dos próximos trinta e cinco anos da história do país. Muito mais recentemente, François Mitterrand, um político sem um compromisso natural com a esquerda, optou por presidir o Partido Socialista como a melhor plataforma para exercer a liderança sobre toda a população francesa.

Alguém poderia pensar que hoje era outro momento em que a esquerda britânica poderia reivindicar falar pela Grã-Bretanha - isto é, por todo o povo - contra um regime desacreditado, decrépito e desmoralizado. E, no entanto, quão raramente as palavras "o país", 'Grã-Bretanha', 'a nação', 'patriotismo', até mesmo "o povo" são ouvidas na retórica pré-eleitoral daqueles que esperam se tornar o próximo governo do Reino Unido!

Tem sido sugerido que isso ocorre porque, ao contrário de 1945 e 1964, “nem o político nem seu público têm nada além de uma crença modesta na capacidade do governo de fazer muito”. [10] Se é por isso que os trabalhistas falam para e sobre a nação com uma voz tão abafada, isso é triplamente absurdo. Primeiro, porque se os cidadãos realmente pensam que o governo não pode fazer muito, por que deveriam se preocupar em votar em um lote em vez de outro, ou em qualquer lote? Em segundo lugar, porque o governo, ou seja, a gestão do Estado no interesse público, é indispensável e continuará a sê-lo. Mesmo os ideólogos da direita louca, que sonham em substituí-la pelo mercado soberano universal, precisam dela para estabelecer sua utopia, ou melhor, distopia. E na medida em que conseguem, como em grande parte do mundo ex-socialista, a reação contra o mercado traz de volta à política aqueles que querem que o Estado retorne à responsabilidade social. Em 1995, cinco anos depois de abandonar seu antigo estado com alegria e entusiasmo, dois terços dos alemães orientais pensam que a vida e as condições na antiga RDA eram melhores do que as 'descrições e relatórios negativos' da mídia alemã de hoje, e 70 por cento pensam ' a ideia do socialismo era boa, mas tínhamos políticos incompetentes'. E, sem resposta, porque nos últimos dezessete anos vivemos sob governos que acreditavam que o governo tinha um poder enorme, que usaram esse poder para mudar nosso país decisivamente para pior e que, em seus últimos dias, ainda estão tentando fazê-lo, e nos levar a acreditar que o que um governo fez é irreversível por outro. O estado não vai desaparecer. É função do governo usá-lo.

O governo não é apenas sobre ser eleito e depois reeleito. Este é um processo que, na política democrática, implica enormes quantidades de mentiras em todas as suas formas. As eleições tornam-se disputas em perjúrio fiscal. Infelizmente, os políticos, que têm um horizonte de tempo tão curto quanto os jornalistas, acham difícil ver a política como outra coisa que não seja uma temporada de campanha permanente. No entanto, há algo além. Aí está o que o governo faz e deve fazer. Aí está o futuro do país. Existem as esperanças e os medos do povo como um todo - não apenas 'a comunidade', que é uma desculpa ideológica, ou a soma total dos que ganham e gastam (os 'contribuintes' do jargão político), mas os britânicos gente, o tipo de coletivo que estaria pronto para torcer pela vitória de qualquer seleção britânica na Copa do Mundo, se não tivesse perdido a esperança de que ainda existisse. Pois não é o menor sintoma do declínio da Grã-Bretanha, com o declínio da ciência, o declínio dos esportes coletivos britânicos.

Foi a força da senhora Thatcher que ela reconheceu essa dimensão da política. Ela se via liderando um povo “que pensava que não poderíamos mais fazer as grandes coisas que fazíamos antes” – cito suas palavras – “aqueles que acreditavam que nosso declínio era irreversível, que nunca mais poderíamos ser o que éramos”. [11] Ela não era como os outros políticos, na medida em que reconhecia a necessidade de oferecer esperança e ação a um povo perplexo e desmoralizado. Uma falsa esperança, talvez, e certamente o tipo errado de ação, mas o suficiente para deixá-la afastar a oposição dentro e fora de seu partido, e mudar o país e destruir tanto dele. O fracasso de seu projeto agora é manifesto. Nosso declínio como nação não foi interrompido. Como povo, estamos mais perturbados, mais desmoralizados do que em 1979, e sabemos disso. Somente aqueles que sozinhos podem formar o governo pós-conservador estão desmoralizados demais e assustados com o fracasso e a derrota para oferecer qualquer coisa, exceto a promessa de não aumentar os impostos. Podemos vencer as próximas eleições gerais dessa forma e espero que sim, embora os Conservadores não lutem contra a campanha eleitoral principalmente com base nos impostos, mas no sindicalismo britânico, no nacionalismo inglês, na xenofobia e na Union Jack, e ao fazê-lo vão nos pegar equilíbrio. Será que aqueles que nos elegeram realmente acreditam que faremos muita diferença? E o que faremos se eles apenas nos elegerem, encolhendo os ombros ao fazê-lo? Teremos criado o Novo Partido Trabalhista. Faremos o mesmo esforço para restaurar e transformar a Grã-Bretanha? Ainda dá tempo de responder a essas perguntas.

Notas:

[1] Este é o texto da Barry Amiel and Norman Melburn Trust Lecture, pronunciada no Institut of Education de Londres, em 02 de maio de 1996.

[2] M.L. Pradelles de Latou, "Identity as a Complex Network", in C. Fried, ed., Minorities, Community and Identity, Berlin 1983, p. 79.

[3] Ibid. p. 91.

[4] Daniel Bell, "Ethnicity and Social Change", in Nathan Glazer and Daniel P. Moynihan, eds., Ethnicity: Theory and Experience, Cambridge, Mass. 1975, P. 171

[5] E.J. Hobsbawm, The Age of Extremes. The Short Twentieth Century, 1914-1991, London 1994, p. 428.

[6] O. Patterson, "Implications of Ethnic Identification" in Fried, ed., Minorities: Community and Identity, pp. 28-29. O. Patterson, "Implications of Ethnic Identification" in Fried, ed., Minorities: Community and Identity, pp. 28-29.

[7] O. Patterson, "Implications of Ethnic Identification" in Fried, ed., Minorities: Community and Identity, pp. 28-29.

[8] Jihang Park, "The British Suffrage Activists of 1913", Past & Present, no. 120, August 1988, pp. 156-7.

[9] "Mas, porque o proletariado deve em primeiro lugar conquistar o poder político, elevar-se à condição de classe nacional, constituir-se em nação, ainda é nacional, embora de modo algum no sentido burguês"; Karl Marx e Frederick Engels, The Communist Manifesto, 1848, II parte. Na edição original (alemã) aparece o termo "classe nacional"; na tradução inglesa de 1888 figura como "a classe que lidera a nação".

[10] Gitlin, The Twilight of Common Dreams, New York 1995, p. 165.

[11] Hugo Young, "No Waves in the Clear Blue Water", The Guardian, 23 April 1996, p. 13.

[12] Citado em Eric Hobsbawm, Politics for a Rational Left, Verso, London 1989, p. 54.

1 de fevereiro de 1996

Do foquismo ao reformismo: Castañeda e a esquerda latino-americana

Uma crítica à virada reformista da esquerda latino-americana proposta por Jorge Castañeda, confrontando os limites teóricos e políticos de uma agenda que renuncia à transformação estrutural em nome da adaptação ao pós-Guerra Fria.

Luís Fernandes


Jorge G. Castaneda, Utopia Unarmed: The Latin American Left after the Cold War
Knopf: New York 1993

"Nenhum plano sobrevive ao contato com o inimigo." Marechal Helmuth Carl Bernard von Molthe (1800-1891)

Em edição anterior (1), a New Left Review publicou uma resenha basicamente favorável do livro de Jorge Castañeda Utopia Desarmada. Esta resenha foi escrita por James Dunkerley, a partir de um enfoque predominantemente hispano-americano. Pouco depois da publicação desta, o livro de Castañeda foi lançado no Brasil com um subtítulo diferente da versão original (2). O próprio Castañeda veio ao Rio de Janeiro e São Paulo lançar a versão do seu livro em língua portuguesa. Apesar do eficiente esquema de divulgação, no entanto, o livro não chegou a provocar, nos meios acadêmicos e políticos brasileiros, o mesmo frisson polêmico que suscitou nos Estados Unidos e nos países de língua espanhola da América Latina.

Este fato em si é merecedor de maior atenção e reflexão. Em parte, pode ser decorrência da própria fragilidade da identidade latino-americana no Brasil, da perspectiva eurocêntrica adotada por grande parte da sua elite intelectual, bem como da aguda consciência nacional sobre o “excepcionalismo brasileiro” no continente. Estas atitudes foram reforçadas pela imagem excessivamente genérica e indiferenciada da América Latina apresentada pelo próprio Castañeda – apesar de repetidas declarações em contrário. De fato, quando examinadas mais de perto, inúmeras informações veiculadas sobre o Brasil no livro são um tanto bizarras (3). Para além destas inconsistências, no entanto, o livro de Castañeda aborda, de forma corajosa e aberta, os problemas programáticos, estratégicos e táticos mais cruciais que se apresentam para a esquerda latino-americana à luz da derrota de seus próprios intentos revolucionários e do colapso do socialismo no Leste.

Utopia Desarmada procura levar às suas últimas conseqüências (políticas e teóricas) o processo de reorientação político-ideológica atualmente empreendida por grande parte da esquerda do continente, destacando o grau de ruptura que esta reorientação implica para com concepções e práticas do passado – algo que muitos dos seus líderes não conseguem ou não querem fazer. Deste ponto de vista, trata-se – um século depois – de um equivalente latino-americano do trabalho clássico de Eduard Bernstein, Os Pressupostos do Socialismo e as Tarefas da Social-Democracia. Castañeda certamente levanta questões pertinentes e fundamentais. Mas, será que nos apresenta um marco apropriado e viável para confrontá-las? A minha avaliação é que não. Sustentar esta apreciação exige um exame mais detido da construção do seu argumento no livro.

As lentes do Castañeda

O argumento central de Utopia Desarmada é o de que, face à dupla impossibilidade da revolução e do socialismo, a esquerda latino-americana tem de mudar de curso. Este argumento é explorado em duas partes inter relacionadas. Na primeira, um ambicioso painel histórico do desenvolvimento e das derrotas da esquerda no continente ao longo deste século aponta para o esgotamento de perspectivas centradas na “revolução”. Na segunda, Castañeda procura compor uma agenda alternativa para a esquerda latino-americana centrada na “reforma”, já que o colapso do bloco soviético teria revelado a inviabilidade do seu paradigma socialista anterior (4).

A resenha histórica do livro cobre o desenvolvimento tanto da esquerda “política” quanto “social”, mas seu foco principal de análise recai mesmo sobre as “intrigas, dilemas e promessas” (5) das quatro principais correntes da “esquerda política” continental: os partidos comunistas, os movimentos “populistas”, as organizações político-militares inspiradas pela revolução cubana e a “nova esquerda reformista”. Castañeda enfoca esta resenha por um ângulo muito específico: o da ascensão, crise e derrota (ou conversão) de duas grandes "ondas" de movimentos guerrilheiros inspirados (e, em geral, apoiados) por Cuba um conjunto bastante heterogêneo de organizações marcadas por uma fixação quase que obsessiva com a questão da luta armada, a que se convencionou chamar de foquistas, fidelistas ou castristas. Não por acaso, a narrativa histórica do livro toma como ponto de partida os montoneros argentinos, que são apresentados como experiência arquetípica da esquerda latino-americana. A adoção desta perspectiva introduz um viés particular à narrativa, com implicações importantes para a sua análise.

Imigrantes ilegais

A primeira consequência da adoção deste viés é a desqualificação algo ligeira e superficial das duas correntes que precederam o advento das organizações revolucionárias “político-militares” na esquerda continental: a dos partidos comunistas e a dos movimentos e regimes “populistas”. Os primeiros são apresentados como um produto “não enraizado nas circunstâncias locais” – “uma variedade importada” de “natureza congenitamente estrangeira” (p. 37). Isto explicaria o seu “lento e silencioso esvaziamento” em meados dos anos 1980. Embora tanto Castañeda quanto Dunkerley procurem sustentar essa apreciação em considerações desenvolvidas por Alan Angell (6), o fato é que eles simplesmente generalizam e reproduzem um dos preconceitos mais antigos lançados contra a esquerda pela elites mais conservadoras da América Latina preconceito este que não se sustenta diante de uma análise objetiva e conscienciosa da trajetória dos partidos comunistas mais importantes da região.

É ponto passivo, hoje, o reconhecimento de que os comunistas latino-americanos tenderam a subscrever uma concepção limitada e unilateral do socialismo baseada no “modelo soviético”. Não foram, no entanto, os únicos a fazê-lo, quer entre as correntes de esquerda na região ou entre os partidos comunistas do resto do mundo. Também são conhecidos os traumas e prejuízos causados aos partidos comunistas da região pela implementação de mudanças bruscas e erráticas nas suas respectivas linhas políticas, de forma a adaptá-las às cambiantes exigências da política externa soviética (7). Isto está longe de significar que estes partidos constituíam uma força essencialmente exógena, descolada das circunstâncias locais. Alguns deste partidos – como os de Cuba, Chile, Brasil e Uruguai – exerceram, durante décadas, um papel bastante decisivo e influente na vida política dos seus respectivos países, apesar de serem constantemente discriminados, perseguidos e reprimidos. Isto seria impensável no caso de organizações políticas não enraizadas em necessidades e demandas locais (8). Ademais, a acusação de 'não-latino-americanismo' formulada por Castañeda – e reforçada por Dunkerley – toca uma nota teórica e política anti-universalista, que me parece francamente incompatível com qualquer projeto de emancipação humana (9).

Se os pontos levantados acima são válidos, resta a seguinte questão: por que a influência política da maioria dos partidos comunistas latino-americanos minguou? A resposta para esta indagação não é simples ou direta, e demanda séria pesquisa e debate. O ponto principal levantado por Castañeda é o de que a natureza exógena desses partidos tolheu, de forma irremediável, os seus credenciais reformistas. Sugiro uma explicação diferente: a de que a perda de influência possa ser decorrência da descaracterização política e ideológica que acometeu esses partidos ao assumirem o protagonismo do mesmo tipo de aggiornamento que Castañeda nos propõe hoje (10). Não estou argumentando, aqui, contra a renovação das práticas e concepções da esquerda, mas apenas enfatizando de que variados cursos de aggiornamento são possíveis – e que cabe pesar cuidadosamente os limites, os riscos e as potencialidades de cada um (empreendimento do qual Castañeda se esquiva, por enfraquecer a argumentação em defesa do tipo especifico de renovação que ele propõe).

O "populismo" nacionalista

O tratamento dado aos movimentos e regimes “populistas” pelo livro é, em geral, mais favorável. Estes são vistos como integrantes de uma corrente "profundamente enraizada na história e na tradição do hemisfério" (p. 54). Castañeda se esquiva dos problemas analíticos e conceituais gerados pela própria utilização da categoria 'populismo' – um tema muito polêmico nos Círculos políticos e intelectuais latino-americanos, pois envolve um determinado posicionamento (crítico) diante de importantes partidos, movimentos e lideranças da região no presente e no passado. O mínimo que se pode dizer é que se trata de um conceito carregado e impreciso, que engloba fenômenos bastante heterogêneos, tanto por sua orientação política, quanto por sua base social: desde o trio “original” Vargas-Péron-Cárdenas, até as experiências mais recentes de Alan Garcia no Peru e Leonel Brizola no Brasil, passando por Victor Paz Estenssoro na Bolívia e Ornar Torrijos no Panamá.

Castañeda desqualifica os partidos comunistas e os regimes "populistas"

Uma característica básica comum a todos estes movimentos e regimes era a sua ênfase na afirmação nacional e o seu recurso ao intervencionismo estatal como instrumento crucial para a promoção do desenvolvimento econômico e social. Nesta base, eles desempenharam um papel central na configuração e consolidação de estruturas fundamentais dos aparatos estatais dos seus respectivos países, estruturas estas que são o alvo prioritário da atual ofensiva neoliberal no continente (11).

Por este mesmo motivo, poderá ser precipitada, também, a proclamação do "fim do populismo na América Latina" feita por Castañeda no livro (12). Dadas as implicações antinacionais desta ofensiva, é bem possível que determinadas correntes “populistas” possam se transformar em leitos importantes de resistência contra a agenda neoliberal (13). Ademais, em diversos países, essas correntes constituem uma expressão política legítima dos setores mais excluídos, marginalizados e miseráveis da população, que se encontram alijados das organizações sociais e políticas enraizadas no “setor formal” das suas respectivas economias (14). Como o peso destes setores nas sociedade latino-americanas vem aumentando sob o impacto social negativo das políticas ortodoxas de ajuste, a base social urbana do “populismo” pode mesmo se ampliar.

A principal crítica formulada por Castañeda às correntes “populistas” é o de que elas abrigam fortes tendências autoritárias e são reformistas muito tímidos e hesitantes (dado o seu temor de um ativismo político repentino e descontrolado por parte das “massas de pobres”). O balanço, aqui, também não é tão simples e unívoco. Como líder da Revolução de 1930, por exemplo, Getúlio Vargas – apesar do lapso do Estado Novo, de 1937 a 1945 – foi responsável pela introdução de reformas democráticas fundamentais no Brasil, como o sistema de representação proporcional, o voto secreto, a extensão do sufrágio para as mulheres, o estabelecimento de uma justiça eleitoral independente, além da introdução de direitos sociais básicos. Mais fundamental do que este balanço, entretanto, é o fato de Castañeda não ter abordado a raiz do reformismo tênue e inconsequente do “populismo”: a relutância deste em confrontar e transformar as estruturas de propriedade altamente concentradas prevalecentes na América Latina. O problema é que a agenda alternativa proposta em Utopia Desarmada reproduz esta mesma relutância básica. Voltaremos a isto mais adiante.

As limitações teóricas e políticas do Foquismo

Ao passar para o seu principal foco de interesse na história da esquerda latino-americana – a evolução das variadas organizações “político-militares” inspiradas pela Revolução Cubana desde os anos 1960 – Castañeda destaca que estas organizações foram constituídas a partir de uma falsa contraposição teórica entre “luta armada” e “via pacífica”. Esta oposição genérica e indiferenciada desconsiderava o estudo mais sério das condições concretas de luta em cada país e, de fato, em todo o continente (p. 71). Uma vez mais, me parece que o balanço histórico, aqui, é um tanto mais complexo e contraditório.

A apreciação de Castañeda é certamente apropriada para a safra original de organizações (foquistas) de guerrilha urbana e rural, que se espalharam pelo hemisfério entre meados dos anos 1960 e 1970. Mesmo com todas as suas idiossincrasias, os montoneros argentinos são bastante representativos das concepções e práticas desta "safra". Praticamente todos estes grupos foram dizimados ou se desintegraram, conseguindo pouco mais do que a não-desejada legitimação do terror contra-revolucionário dos regimes militares. Mas inúmeras organizações revolucionárias – sobretudo na América Central – souberam superar estas limitações e vincular a sua luta armada a formas amplas de luta política e social legal, desempenhando um papel crucial na democratização dos seus respectivos países. Basta lembrar os papéis desempenhados pela FSLN na Nicarágua e pela FMLN em El Salvador (15).

Os eventos de Chiapas, é claro, voltaram a colocar a questão da luta armada na agenda política latino-americana. Devemos nos precaver da tentação de generalizar lições políticas e estratégicas do levante zapatista para toda a esquerda do continente – sobretudo por se tratar de um movimento de base indígena. As condições de Chiapas tem pouco a ver com a de outros países onde as populações indígenas foram, basicamente, exterminadas (como o Brasil e os países do Cone Sul). Utopia

Desarmada foi escrito antes da rebelião no México, mas a edição brasileira foi preparada depois. Castañeda escreveu um prefácio especial para esta, em que argumenta que os comentadores que viam uma refutação do seu livro nos eventos de Chiapas não haviam entendido o seu argumento básico. Ele não havia descartado a possibilidade da luta armada de esquerda na região, e sim a idéia da revolução. O zapatismo não passaria, na sua opinião, de um movimento armado reformista. Esta linha de argumentação parece um tanto estranha, sobretudo se levarmos em conta o próprio título do livro e a sua condenação de todas as experiências anteriores de luta armada de esquerda na América Latina. Mas vamos analisá-la nos seus próprios termos.

A distinção entre luta armada e revolução parece válida

A distinção conceitual estabelecida por Castañeda entre a luta armada (uma questão tática relacionada às formas de luta adequadas para condições históricas determinadas) e a revolução (um programa estratégico de transformações estruturais sociais, econômicas e políticas) me parece válida. Ela nos ajuda a superar a confusão estabelecida entre as duas questões na teoria e na prática do foquismo. Mas no coração desta inadequada contraposição entre “luta armada” e “via pacífica” no pensamento foquista estava uma outra contraposição, igualmente problemática: a que opunha, de forma genérica, a “reforma” à “revolução”. Castañeda não só deixa de examinar criticamente esta segunda (e fundamental) polarização, como a constitui no pilar central de toda a sua linha de argumentação.

A questão da relação entre reforma e revolução não é, evidentemente, uma problemática nova: há muito ela ocupa lugar central nas agudas polêmicas da esquerda em todo o mundo sobre estratégia e tática.

Não tenho a intenção de retomar mais aprofundadamente essa discussão aqui. Quero apenas destacar um fato básico: todas as experiências revolucionárias vitoriosas da era moderna – incluindo a própria revolução cubana – tem em comum processos de ruptura política comandados pela exigência de reformas, que os antigos regimes não queriam ou não podiam atender. A exigência de reformas relacionadas à conquista ou afirmação da sua soberania nacional foi o impulso fundamental de todas as revoluções sociais que varreram as regiões mais atrasadas do mundo capitalista ao longo do Século XX. Isto sugere que contrapor genericamente “revolução” e “reforma” como opostos mutuamente exclusivos – é uma perspectiva simplista e limitada. O verdadeiro desafio teórico e político para a esquerda é o de tentar unir e mobilizar o leque mais amplo possível de forças sociais em torno de bandeiras reformistas capazes de colocar em xeque as estruturas prevalecentes de desigualdade e opressão. Mas isto exige uma visão estratégica alternativa que comece por questionar e confrontar essas mesmas estruturas.

Ao insistir que reforma e revolução são “opções incompatíveis” (p. 362), Castañeda reproduz a mesma limitação conceitual básica do foquismo. Como a revolução é considerada, por ele, uma opção inviável, não restaria à esquerda latino-americana outra alternativa a não ser abandonar qualquer pretensão a “transformações” ou “rupturas” revolucionários, e abraçar com toda força o credo reformista. Isto implica a esquerda deve se resignar ao fato de que o futuro não será mais do que uma versão intensificada do presente (p. 207). Tomando como referência as experiências políticas recentes da esquerda na região, a segunda parte do livro trata de elaborar as bases de uma agenda reformista alternativa. A agenda alternativa de Castañeda

Castañeda apresenta propostas políticas muito concretas e pertinentes para a composição de um curso de desenvolvimento alternativo à ortodoxia neoliberal dominante. Muitas das suas sugestões podem ajudar a esquerda latino-americana a sair de uma posição excessivamente defensiva para tomar a iniciativa política em várias frentes. Sua recuperação da “questão nacional” como elemento central da agenda de esquerda – entrelaçada com as questões “social” e “democrática” – é um ponto importante, muitas vezes incompreendido por intelectuais marxistas ou progressistas na Europa e nos Estados Unidos (16). Me parecem igualmente válidas a sua defesa conscienciosa da integração horizontal latino-americana (o que implica a rendição voluntária de soberania para organismos federais) e da necessidade de explorar com inteligência as contradições sociais, políticas e econômicas da sociedade norte-americana.

Estas propostas, no entanto, não estão inseridas em um confronto estratégico com as estruturas altamente concentradas de propriedade privada no continente. Esta me parece ser a verdadeira “linha divisória”, hoje, entre agendas políticas “reformistas” e “revolucionárias” na região. A não ser por algumas ligeiras referências à reforma agrária, Utopia Desarmada não apresenta qualquer proposta política mais consistente para confrontar esta questão crucial. Mesmo quando defende a persistente relevância da intervenção estatal para a industrialização, Castañeda argumenta que esta intervenção deve se limitar aos setores da economia em que os capitalistas privados ainda não sejam fortes o suficiente para se responsabilizar por tudo (p. 385).

O livro justifica esta agenda reformista com um argumento com fortes ecos de Fukuyama: não existiria qualquer curso alternativo de desenvolvimento no mundo de hoje para além das fronteiras de uma economia de mercado onde o setor privado desempenhe papel central (p. 382), e de uma concepção liberal-processual de democracia (p. 272). No âmbito destes contornos, no entanto, variados cursos de desenvolvimento seriam possíveis, com arranjos institucionais distintos entre estados, mercados e empresas. Castañeda passa em revista os diferentes modelos de desenvolvimento capitalista em "oferta", e conclui que, ao invés de aceitar o modelo anglo-saxão de livre mercado, a América Latina deveria gerar um paradigma endógeno inspirado nos modelos europeu (especificamente, renano) e japonês, que preservam um papel regulatório importante para o Estado em relação aos mercados e às empresas.

A questão da relação entre reforma e revolução não é uma problemática nova

Castañeda deixa fora do seu balanço, no entanto, o grande sucesso econômico deste final de século: a China. O fato é que a experiência chinesa não se encaixa no seu argumento. Experimentando com variadas formas de propriedade (embora mantendo a predominância de formas sociais e coletivas), a China tem sustentado índices impressionantes de desenvolvimento econômico ao longo dos últimos quinze anos (17). Isto indica que existem, sim, experiências vitoriosas e viáveis de desenvolvimento não capitalista no mundo, que tem de ser levadas a sério e estudadas com cuidado. A China, assim, passa na "prova do mapa" que Utopia Desarmada toma emprestado de um líder guerrilheiro salvadorenho: "se um modelo é materializado em algum país do mundo, ele é válido e útil, se não está, não é" (18).

Mesmo em relação às experiências alemão e japonesa, Castañeda desconsidera um dos aspectos cruciais do seu sucesso (e que vale também para as experiências da Coréia do Sul e de Taiwan): dado o temor da "ameaça comunista", as forças de ocupação ocidentais deflagraram reformas fundamentais nas estruturas de propriedade desses países no pós-guerra (sobretudo na propriedade fundiária), reformas estas que não constavam da agenda política das classes dominantes endógenas (19). A ocupação militar desses países cumpriu, assim, papel análogo ao de uma “revolução”. Na Coréia do Sul, por sua vez, o setor bancário, nacionalizado inicialmente durante a ocupação japonesa, voltou a ser nacionalizado em 1961 e desempenhou papel central no “milagre econômico” do país nos anos 1960 e 1970 (20). Mesmo no Chile – a experiência neoliberal de maior sucesso econômico na América Latina – a opção adotada foi a de preservar (e não a de reverter) transformações fundamentais nas estruturas de propriedade implementadas pelo governo socialista anterior de Salvador Allende, como a reforma agrária e a nacionalização da indústria estratégica do cobre (21).

As inadequações políticas e estruturais do reformismo de Castañeda

A questão crítica que emerge, então, é se uma agenda alternativa de esquerda que não confronta as estruturas de propriedade predominantes na América Latina pode ser viável e/ou efetiva do ponto de vista social, político e econômico. Castañeda argumenta que sim, se ela incluir uma política agressiva de legislação social, uma profunda reforma fiscal e uma estratégia nacional de crescimento industrial orientada para a exportação (p. 373-74). Dada a escala de desigualdade social, exclusão e miséria existente na região, no entanto, uma abordagem desta natureza pode se revelar incapaz de reverter a tendência ao agravamento da polarização social, hoje amplamente dominante na região (22).

A persistência de estruturas de propriedade privada extremamente concentradas tende a agravar a destituição de amplas parcelas da população, para além do alcance das políticas compensatórias mais bem intencionadas. Ao mesmo tempo, a intensificação da mobilidade do capital – via a integração global de mercados financeiros e monetários – aumenta a capacidade de resistência dos investidores privados a qualquer tentativa de elevação da sua carga fiscal, com fins redistributivos. Os investidores privados sempre tem aberta para si a opção de simplesmente se retirar do país em questão, e se deslocar para outro(s) que oferece(m) condições mais atraentes de retorno. Como resultado, os mercados nacionais que operam numa lógica que privilegia o setor privado acabam por sofrer severas restrições que impedem a sua capacidade de sustentar, a longo prazo, esforços industrializadores que sejam, simultaneamente, promotores de maior integração social.

Não estou argumentando, aqui, a favor de uma agenda de socialização global e indiferenciada para a esquerda. Os limites desta alternativa já foram evidenciados pelo colapso do antigo “campo socialista” no Leste – e são ainda mais agudos nas condições de relativo atraso prevalecentes na América Latina. Estou convencido, no entanto, de que qualquer alternativa de esquerda na região, se quiser ser eficiente e viável, tem de incluir tanto a extensão de políticas sociais progressistas, quanto a multiplicação de diversas formas de propriedade social nos marcos de economias mistas que preservem uma participação importante para o setor privado. Castañeda enfatiza que a esquerda tem de ancorar as suas políticas redistributivas em capacidades fiscais e produtivas reais. Ele critica, nesta base, o “keynesianismo irresponsável” das experiências “populistas” e reformistas no hemisfério. Isto me parece um ponto pertinente e válido. Mas cabe destacar que a adoção de medidas inflacionárias desta natureza foi, em parte, um meio de promover maior integração e justiça social sem confrontar de maneira mais séria os poderosos interesses empresariais e latifundiários dominantes (23). O problema é que a agenda alternativa apresentada em Utopia Desarmada também se abstém de confrontar esses interesses e as estruturas sócio-econômicas que os sustentam. Neste contexto, a reiterada insistência do livro na “austeridade fiscal” e nas “capacidades produtivas” pode acarretar o efeito perverso de minimizar e/ou adiar indefinidamente reformas sociais urgentemente necessárias.

É ponto passivo que a América Latina precisa implementar urgentes reformas administrativas e fiscais para tornar a ação estatal mais racional e eficiente. Mas, em meio a iniqüidades sociais tão agudas, o fato é que os estados latino-americanos são "gastadores" relativamente avaros em comparação com seus colegas mais industrializados. No final dos anos 1980, os gastos estatais dos principais países da região oscilava entre 27% do PNB na Venezuela e 36,4% no Chile, contra um leque entre os 31,2% dos Estados Unidos e os 64,5% da Suécia para os países capitalistas centrais (24). Ademais, no Brasil (cujos gastos estatais no levantamento acima equivaliam a 31,2% do seu PNB), mais da metade do orçamento nacional (55,1% para ser exato) são destinados a pagamentos das dívidas interna e externa (25).

Qualquer tentativa mais séria de combinar a reversão da desigualdade social com a austeridade fiscal (de forma a escapar da ameaça da hiperinflação) terá de se confrontar com esta sangria de recursos públicos, redirecionando-os para investimentos efetivos em serviços públicos, iniciar as estratégicas de desenvolvimento e políticas redistributivas ampliadoras do mercado interno. Mas isto esbarra em interesses financeiros muito poderosos acostumados a uma promíscua e íntima relação com os poderes públicos. A esquerda, portanto, não pode deixar de considerar a perspectiva da nacionalização parcial ou integral destes interesses como parte integrante de uma estratégia global de desenvolvimento alternativo.

A política de uma alternativa de esquerda efetiva

Dadas as limitações estruturais indicadas acima, a viabilidade política da “agenda alternativa' proposta por Castañeda se sustenta em pouco mais do que em inglês se chama de wishful thinking (“pensar com meros desejos”): a esperança de que, com o fim da Guerra Fria, o stablishment norte-americano ficará mais tolerante em relação a mudanças progressistas na América Latina (dado o seu temor de um “efeito bumerangue” múltiplo na era da globalização) e a comunidade empresarial da região ficará mais sensível à necessidade de reformas sociais (dado o seu temor de que a iniquidade social e a miséria predominantes detonem uma espécie de “efeito Sendero Luminoso” na região). Esta esperança não apenas subestima os vínculos entre a política dos Estados Unidos para a América Latina e os interesses de empresas norte-americanas na região, como se baseia em uma lógica que se auto derrota: se a esquerda adotar a perspectiva sugerida por Castañeda, os interesses dos grandes empresários e latifundiários locais não terão qualquer ameaça política fundamental pela frente para despertar e/ou aguçar a sua sensibilidade reformista. Assim, a nova perspectiva que o livro sugere para a esquerda latino-americana condena esta a um papel de “sócio minoritário” em coalizões dominadas por forças sociais que já se revelaram incapazes de gerar e/ou sustentar um curso de desenvolvimento alternativo ao que é hoje dominante.

Um confronto estratégico deve atacar a alta concentração da propriedade privada

Em contraposição a esta linha de raciocínio, sustento que uma alternativa de esquerda só poderá ser efetiva se conseguir gerar um deslocamento significativo no bloco de forças que comandam os estados na região (isto é, se conseguir gerar, em termos gramscianos, um novo “bloco histórico”). Para tal, me parece crucial a adoção de um estratégia política orientada para estender o atual impulso democratizante para além das limitadas fronteiras processuais em que tem ficado confinado desde os anos 1980 (26). As propostas de reforma política formuladas em Utopia Desarmada, no entanto, se mantém estritamente nos limites das atuais formas liberais-democráticas. Isto não significa que as proposições apresentadas – a defesa do pluralismo político e da representação proporcional, da expansão do sufrágio, do fortalecimento dos órgãos legislativos, do estabelecimento de uma justiça eleitoral independente para coibir fraudes, do respeito de direitos humanos e cívicos, etc. – sejam improcedentes ou inválidas. A esquerda latino-americana aprendeu, a duríssimas penas – via aprisionamento, tortura, exílio e dor pela perda de familiares e entes queridos – a valorizar a importância crucial de se preservar práticas e instituições democráticas. Estas vem sofrendo novas restrições nos últimos anos, dado a sua ameaça potencial para a continuidade das políticas ortodoxas de ajuste (27).

A visibilidade política de Utopia Desarmada se sustenta em pouco mais do que “pensar com meros desejos”

Mas isto não significa que a esquerda deva esmorecer sua apreciação crítica do viés de classe específico materializado neste tipo de institucionalidade democrática, ou deixar de formular proposições concretas para superá-lo, ampliando o controle democrático sobre todas as dimensões da vida social – incluindo o “mundo da produção”. Acredito, mesmo, que a contribuição particular e decisiva da esquerda para a democracia na América Latina origina-se da sua consciência aguda de que as próprias formas liberais-democráticas são permanente ameaçadas pela miséria e destituição social prevalecentes na região. Assim, para confrontar a estas, temos de superar aquelas.

O sucesso político do neoliberalismo

Quero fazer um último comentário sobre o impacto político da hiperinflação e da estabilidade monetária no hemisfério. O advento dos governos Salinas no México, em 1988, Menem na Argentina, em 1989, e Collor de Melo no Brasil e Fujimori no Peru, ambos em 1990, marcaram o deslocamento do grosso da América Latina para a adoção de políticas neoliberais de ajuste ortodoxo, inspiradas no chamado “Consenso de Washington”. Apesar das conseqüências sociais negativas que este deslocamento acarretou, candidatos identificados com sua continuidade obtiveram acachapantes triunfos eleitorais nesses mesmos países cinco ou seis anos depois. No caso do Peru e da Argentina, inclusive os mesmo indivíduos foram eleitos para os cargos de presidente. Não podemos menosprezar a importância política destes resultados. Nesta última safra de eleições, as campanhas dos candidatos vitoriosos foram conduzidos com um apelo claro à continuidade dos programas de estabilização.

Curiosamente, pesquisas de opinião pública apontavam para uma significativa insatisfação com aspectos essenciais destes programas, como a restrição de direitos previdenciários e sociais, a privatização de serviços sociais básicos etc. Por que, então, a população conferiu a esses governantes um mandato eletivo para continuar esses programas?

Acredito que a solução para este enigma reside na legitimidade conferida a esses programas e a essas administrações por terem revertido ou evitado quadros de hiperinflação. Até o momento, o capital político gerado pela relativa estabilização monetária vem rendendo mais do que a insatisfação popular com outros aspectos e conseqüências dos programas de ajuste. Isto tem resultado, inclusive, na desqualificação a priori de outros cursos possíveis de estabilização monetária. As eleições presidenciais de 1994 no Brasil dão evidência gráfica disto: todos os estudos de opinião pública convergem para apontar a implementação da reforma monetária (o “Plano Real”) como fator decisivo para inversão da vantagem que o candidato Lula mantinha em relação ao candidato Fernando Henrique Cardoso na corrida para a presidência, ao provocar o deslocamento da preocupação central da população brasileira do tema da “injustiça social” para o da “inflação” (28). É interessante notar que esta legitimação política, por via indireta, das políticas ortodoxas de livre mercado, ocorreu tanto nos países em que a sua adoção se seguiu a uma ruptura política aberta com administrações anteriores (Argentina e Peru), quanto nos países em que se tratou de uma mudança de política implementada por forças já no poder (México e Brasil).

Vistos de uma perspectiva mais ampla, os resultados eleitorais de 1994-95 marcam a consolidação de um novo projeto hegemônico entre as elites latino-americanas, orientado para o lançamento de um novo ciclo de desenvolvimento econômico na região via o desmonte de instituições, estruturas e práticas de intervencionismo estatal erguidas na fase anterior de industrialização via substituição de importações. Dada a escala e a profundidade da atual ofensiva neoliberal no hemisfério, a esquerda enfrenta o desafio de formular uma alternativa em termos igualmente gerais e estratégicos. Os contornos mais precisos desta alternativa dependem das condições existentes em cada país. Mas sem esta perspectiva estratégica, a esquerda carecerá dos sentidos de propósito e direção necessários para se constituir na coluna vertebral de uma ampla frente de resistência, que agrupe os variados interesses econômicos, sociais e políticos negativamente afetados pelas políticas atuais de ajuste, de forma a acumular forças suficientes para redirecionar o desenvolvimento da região.

As propostas de reforma política em Utopia Desarmada são liberal-democráticas

Uma alternativa efetiva de esquerda tem de confrontar seriamente as estruturas de propriedade extremamente concentradas predominantes na América Latina. Não fazê-lo é a limitação básica do marco alternativo proposto em Utopia Desarmada (e aceito, hoje, por grande parte da esquerda continental). Enquanto tal, esse marco simplesmente reproduz a limitação crucial que determinou, no passado, o fracasso das experiências "populistas" e reformistas na região. Partindo da perspectiva de uma geração de revolucionários que fez da passagem das "armas da crítica" para a "crítica das armas" a sua razão de ser, acredito que Castañeda acaba por desarmar a crítica necessária para a construção de uma alternativa efetiva de esquerda.

Notas

(1) DUNKERLEY, James. "Beyond Utopia: The State of the Left in Latin America", New Left Review, n. 206, 1994.
(2) O subtítulo da versão em inglês era The Latin American Left after the Cold War (a esquerda latino-americana depois da Guerra Fria). A versão em português, editada em 1994 pela Companhia das Letras, vinha com um subtítulo mais "picante" Intrigas, Dilemas e Promessas da Esquerda Latino-Americana. Todas as indicações de número de página neste artigo referem-se à edição brasileira.
(3) Como apresentar as eleições para o governo municipal no Rio de Janeiro em 1982 como um "marco" (p. 30-31), quando se sabe que estas só vieram a ser restabelecidas em 1985: identificar a Luiz Carlos Prestes como "Lendário fundador do PCB" (p. 208), quando este só ingressou no Partido doze anos depois da sua fundação; ou atribuir ao Partido Verde (PV) 10% dos votos no Rio de Janeiro (p. 197), quando este nunca conseguiu mais de 1%.
(4) Esta linha de raciocínio começa no Capítulo 8 do livro que, sintomaticamente, se intitula La Guerre est Finie.
(5) Este, por sinal, é o subtítulo da edição brasileira do livro.
(6) ANGELL, Alan. "The Left in Latin America”, in BETHELL, Leslie. Cambridge History of Latin America, vol. 9.
(7) Como o abandono das políticas nacionais de "frente única contra o fascismo” depois da assinatura do Pacto Molotov-Ribentrop em 1939. Os problemas e constrangimentos que isto causou para os comunistas brasileiros podem ser vistos no livro de Joel Silveira e Geneton Moraes Neto, Hitler/Stalin: O Pacto Maldito, Rio de Janeiro, Record, 1989.
(8) Apesar de dividido organicamente em duas alas desde os anos 1960, o Partido Comunista (fundado em 1922) é a organização política mais antiga entre as que se encontram em atividade no Brasil. Os comunistas foram responsáveis pela introdução ativa do movimento operário na vida política nacional, rompendo com o arraigado apoliticismo das correntes anarquistas que lhe antecederam. O Partido Comunista foi responsável, igualmente, pela introdução de inúmeros temas cruciais na agenda política nacional, entre os quais os da reforma agrária e da autonomia sindical.
(9) Vale registrar que o próprio Castañeda não é consistente no seu regionalismo/particularismo, já que a agenda alternativa que propõe para a esquerda latino-americana busca inspiração no "modelo alemão" da "economia social de mercado".
(10) Vale lembrar que, no imediato pós-guerra, as idéias do dirigente comunista norte-americano, Earl Browder, sobre a dissolução dos partidos em amplas frentes democráticas tiveram muito trânsito entre os comunistas sul-americanos, que as consideravam um desdobramento "natural" das políticas de "união nacional contra o fascismo" adotadas durante a Segunda Guerra.
(11) No seu discurso de despedida do Senado brasileiro, em 14 de dezembro de 1994, o presidente-eleito Fernando Henrique Cardoso justificou a adoção de amplas medidas de privatização e desregulação com base no argumento de que os mecanismos, práticas e instituições remanescentes da "era Vargas" constituem o principal obstáculo para a modernização do país.
(12) Para fundamentar esta proclamação, Castañeda faz referência ao artigo de Alan Touraine, "El Fin de los populismos en Latin America", El País, edição de 6 de agosto de 1989.
(13) No Brasil, por exemplo, lideranças "populistas" como Brizola e Arraes tem tendido a assumir uma oposição mais forte do que outras correntes da esquerda (incluindo o próprio PT) a temas da agenda neoliberal que implicam em perda significativa de soberania nacional. (14) A base social do PDT de Leonel Brizola no Rio de Janeiro é uma expressão disto.
(15) Em ambos, por sinal, a condução da luta armada foi combinada com a organização de frentes políticas muito amplas, como a Frente Patriótica, na Nicarágua, e a Frente Democrática Revolucionária, em El Salvador.
(16) A justificativa teórica apresentada para este ponto, no entanto, não me parece muito consistente. Além de subestimar o papel central desempenhado pelo poder de Estado nos processo de formação de estados nacionais unificados na Europa e nos Estados Unidos, a noção de que o conjunto da América Latina é afligida por um processo comum de "formação nacional incompleta" (p. 229) tende a generalizar para o conjunto da região uma realidade específica aos países que foram berço de importantes civilizações pré-colombianas (na América Central e na região andina), onde persistem fortes comunidades e identidades indígenas. As identidades nacionais de países como o Brasil ou os do Cone Sul da América do Sul são tão ou mais "completas" e consolidadas do que dos Estados Unidos ou de qualquer país europeu. Emprego o termo "completo" com certa relutância, pois ele pode implicar uma concepção reificada (estática e finita) de identidade nacional.
(17) A New Left Review publicou, no seu número 208, artigos muito interessantes de Paul Bowles, Xiaoyuan Dong, Roberto Mangabeira Unger e Zhiyuan Cui sobre o "milagre chinês".
(18) Castañeda comete uma omissão análoga em relação a Cuba quando afirma que nenhum pais latino-americano alguma vez conseguiu combinar crescimento econômico e distribuição eqüitativa de renda (p. 326).
(19) Sobre isto, ver Bruce Cunnings, "The Abortive Abertura: South Korea in the Light of the Latin American Experience", New Left Review, n. 173, 1989 e Alice Amsden, "Third World Industrialization: 'Global Fordism' or a New Model?", New Left Review, n. 182, 1990.
(20) G. van Liemt, Bridging. The Gap: Four Newly Industrialising Countries and the Division of Labour, Genebra, OIT.
(21) Ver Manuel Riesco, "Honour and Eternal Glory to the Jacobins!", New Left Review, n. 212, 1995.
(22) Confirmando os resultados de estudos anteriores, o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 1994 do Banco Mundial classifica as nações latino-americanas no topo da lista dos países com maior desigualdade de renda no mundo. O Brasil tem a maior concentração de riquezas entre os 71 países computados pelo estudo: os 10% mais ricos da população se apropriavam de mais de 51% de toda a renda familiar (contra 46% em 1983). Nos anos 1980, a concentração de propriedade fundiária no Brasil, medida pelo índice Gini, alcançava 0,923, contra 0,7 para a Índia e o Paquistão; 0,4 para os Estados Unidos e a Austrália; e 0,3 para a Bélgica, a Holanda e a Noruega (Rodolfo Hoffman, "Evolução da Desigualdade da Distribuição da Posse da Terra no Brasil no Período 1966-1980", Boletim da ABRA, n. 6). O Índice Gini varia de 0 (distribuição perfeitamente igualitária entre todos os membros de uma população) a 1 (concentração de
todos os atributos em um único membro da população). Este quadro foi mantido ao longo da última década.
(23) Agradeço a Robin Blackburn por ter me chamado a atenção para este ponto.
(24) CEPAL, Transformación Productiva con Equidad, Santiago, 1990 e José Maria Maravall, "Las Razones del Reformismo: Democracia y Politica Social", Leviatán, n. 35, 1989.
(25) Paulo Lopes (ed.), A Gestão ao Estado Brasileiro Hoje: Tendências e Propostas, CUT-RJ, Rio de Janeiro, 1995, p. 33.
(26) Um argumento nesta mesma direção pode ser encontrado em Atílio Borón, Estado Capitalismo e Democracia na América Latina, São Paulo, Paz e Terra, 1994.
(27) O "auto-golpe" de Fujimori é emblemático disto. Mas mesmo a experiência mais "civilizada" de Fernando Henrique Cardoso no Brasil tem gerado desenvolvimentos preocupantes, como o sistemático atropelo do poder legislativo pelo executivo, a introdução do princípio da reeleição para um poder executivo altamente concentrado e a pesada pressão para substituir o sistema de representação proporcional atualmente existente por alguma forma de sistema misto (como foi feito na Itália). Infelizmente, alguns setores da esquerda brasileira – assim como ocorreu na Itália – estão mais interessados em explorar as vantagens eleitorais imediatas que tal mudança poderá acarretar, do que preocupados com os prejuízos mais permanentes que isto acarreta para a consolidação e o desenvolvimento d democracia.
(28) Ver, por exemplo, Olavo Brasil Jr., "As Eleições Gerais de 1994: Resultados e Implicações Político-Institucionais", Dados, vol. 38, n. 1, 1995.

25 de dezembro de 1995

Alerta vermelho no ciberespaço!

Paul Virilio

Radical Philosophy

Paul Virilio na Fundação Cartier, em Paris, em 2002. Daniel Janin/AFP

Tradução / Um dos maiores problemas enfrentados atualmente pelos estrategistas políticos e militares é o fenômeno do imediatismo e da instantaneidade. O “tempo real” agora tem precedência sobre o espaço real, dominando o planeta. A primazia do tempo real, do imediatismo, sobre o espaço é um fato consumado, e é um fato inaugural. Um anúncio recente para telefones celulares expressava bem: “A terra nunca foi tão pequena”. Esse desenvolvimento tem as mais graves consequências para nossa relação com o mundo e para nossa visão dele.

Existem três barreiras: som, calor e luz. Nós já cruzamos as duas primeiras — a barreira do som, com aeronaves supersônicas e hipersônicas, e a barreira de calor, com foguetes que podem tirar um homem da atmosfera da terra e colocá-lo na da lua. Nós não cruzamos a terceira barreira, a barreira da luz: nós colidimos com ela. E é essa barreira de tempo que a história enfrenta agora.

O fato de ter atingido a barreira da luz, a velocidade da luz, é um evento histórico, que desorienta a história e também desorienta a relação dos seres humanos com o mundo. Se esse ponto não for salientado, então as pessoas estarão desinformadas e sendo enganadas. Pois isso tem uma enorme importância além de representar uma ameaça para a geopolítica e a geoestratégia. Também representa uma ameaça muito clara à democracia, porque a democracia estava ligada a cidades e a lugares.

Tendo atingido essa velocidade absoluta, nos deparamos com a perspectiva, no século XXI, da invenção de uma perspectiva baseada no tempo real, substituindo a perspectiva espacial, a perspectiva baseada no espaço real, descoberta por artistas italianos do quattrocento. Talvez nos esqueçamos do quanto as cidades, a política, as guerras e as economias do mundo medieval foram transformadas pela invenção da perspectiva.

O ciberespaço é uma nova forma de perspectiva. Não é simplesmente a perspectiva visual e auditiva que conhecemos. É uma nova perspectiva sem um único precedente ou referência: uma perspectiva tátil. Ver à distância, ouvir à distância — tal era a base da perspectiva visual e acústica. Mas tocando à distância e sentindo-se à distância, isso muda a perspectiva para um campo em que nunca antes se aplicava: contato, contato eletrônico, tele-contato.

O desenvolvimento de supervias da informação nos confronta com um novo fenômeno: a desorientação. Uma desorientação fundamental que completa e aperfeiçoa a desregulamentação social e financeira cujas consequências funestas já sabemos. A realidade percebida está sendo dividida em real e virtual, e estamos adquirindo uma espécie de realidade estéreo, na qual a existência perde seus pontos de referência. Ser é estar in situ, aqui e agora, hic et nunc. Mas o ciberespaço e as informações globalizadas e instantâneas estão atirando tudo isso numa total confusão.

O que está acontecendo agora é uma perturbação da percepção do real: um trauma. E precisamos nos concentrar nisso. Porque nenhuma tecnologia foi desenvolvida que não tenha sido necessária lutar contra sua própria negatividade específica. A negatividade específica das supervias de informação é justamente essa desorientação da alteridade, de nossa relação com o outro e com o mundo. É bastante claro que essa desorientação, essa “des-situação”, trará um profundo distúrbio com consequências para a sociedade e, por sua vez, para a democracia.

A tirania da velocidade absoluta entrará em conflito com a democracia representativa. Quando os especialistas celebram ‘democracia cibernética’ e ‘democracia virtual’, e quando outros nos dizem que a ‘democracia de opiniões’ substituirá a democracia dos partidos políticos, o que eles estão realmente defendendo é a desorientação política da qual o golpe estado de mídia de Silvio Berlusconi de março de 1994 nos deu uma antevisão, ao estilo italiano. A ascensão ao poder de classificações e pesquisas de opinião só pode ser encorajada pela disseminação da tecnologia da informação.

O próprio termo “globalização” é uma ilusão. Pois não há globalização, só existe virtualização. O que é “globalizado” pela instantaneidade é o tempo. Tudo se desenrola dentro dessa perspectiva em tempo real, dentro de um tempo que é, doravante, o único momento.

Pela primeira vez, a história se desdobrará em um único período de tempo: a hora mundial. Até agora, a história mudou em tempos locais, espaços locais, regiões, nações. Agora, em certo sentido, a globalização e a virtualização estão introduzindo um tempo mundial que antecipa um novo tipo de tirania. Se a história é rica, é porque é local, porque houve tempos locais que prevaleceram sobre algo que existia apenas na astronomia — o tempo universal. Mas, no futuro, nossa história será vivida no tempo universal da instantaneidade.

Por um lado, o tempo real domina o espaço real; eliminando distâncias e extensão e substituindo-as por duração, uma duração infinitesimal. Por outro lado, o tempo global da multimídia, do ciberespaço, sobrepõe-se aos tempos locais das atividades vivas de determinadas cidades, lugares particulares. De tal forma que foi proposto que o termo “global” seja substituído por “glocal”, contratando juntos o global e o local. O local é considerado necessariamente global, o global é necessariamente local. As relações entre os cidadãos dificilmente permanecerão intocadas por tal desconstrução das relações com o mundo.

Não há ganhos sem perdas. A aquisição de tecnologia da informação e telemática implicará inevitavelmente uma perda. E se não avaliarmos essa perda, o ganho pode não ter valor. Isso foi algo que poderia ser visto durante o desenvolvimento das tecnologias de transporte. Se foi possível produzir trens de alta velocidade, isso aconteceu porque os engenheiros ferroviários do século XIX inventaram o sistema de blocos, ou seja, uma forma de engenharia de tráfego, controle de tráfego que permitia que os trens fossem cada vez mais rápidos, evitando colisões desastrosas. Não há sistema de controle de tráfego para a tecnologia da informação de hoje.
Bomba de informação

Há mais um elemento importante: a informação não pode existir sem desinformação. E um novo tipo de desinformação agora parece possível, uma que não tem nada a ver com censura. É uma espécie de sufocação de significado, uma perda de controle da razão. Introduzido pela tecnologia de computadores e redes multimídia, representa outro grande perigo para a humanidade.

É o que Albert Einstein previu na década de 1950, quando falou de uma “segunda bomba” — a bomba de informação que seguiria a bomba atômica. Uma bomba em que a interatividade em tempo real seria a informação assim como a radioatividade é a energia. A desintegração não se aplicaria apenas a partículas de matéria; Ele se espalharia para os indivíduos que compõem nossas sociedades. Podemos ver algo disso funcionando no desemprego estrutural, no trabalho doméstico eletrônico e em toda a relocalização e difusão da atividade econômica.

Pode-se prever que, assim como o aparecimento da bomba atômica exigiu rapidamente o estabelecimento da dissuasão militar para evitar a catástrofe nuclear, no século XXI a bomba de informações exigirá uma nova dissuasão social para afastar os efeitos destrutivos da explosão da bomba atômica.

Este será o grande acidente do futuro, depois dos acidentes específicos que o precederam, um por um, na era industrial e antes (com a invenção do navio, do trem, do avião, da central nuclear, inventamos simultaneamente o naufrágio, o descarrilamento, o acidente de avião e Chernobyl …) Com a globalização das telecomunicações, podemos esperar um acidente generalizado, um acidente sem precedentes e tão extraordinário quanto aquele tempo sem precedentes, o tempo global. Um acidente generalizado que se assemelharia um pouco ao “acidente de acidentes” de Epicuro. O colapso do mercado de ações era apenas uma pequena amostra do que estava por vir. O acidente generalizado ainda é desconhecido. Mas quando as pessoas falam de “colapso financeiro”, a metáfora é bem escolhida...

Quando especulamos sobre os perigos dos acidentes nas autoestradas da informação, a questão não é a informação, mas a velocidade absoluta de seu processamento pela tecnologia computacional: é a interatividade. E, de fato, não é a própria tecnologia da informação que cria o problema, mas a rede de informações informatizadas flui como um todo, como uma totalidade: telemática, a rede.

Nos Estados Unidos, o Pentágono, criador da Internet, já pode falar em termos de “uma revolução nos assuntos militares”, e até mesmo de uma “guerra de conhecimento” que irá substituir a guerra de movimento, assim como a última substituiu a guerra de cerco da qual Sarajevo representa um vestígio trágico.

Ao deixar a Casa Branca em 1961, o general Eisenhower declarou que o complexo militar industrial era “uma ameaça à democracia”. Ele sabia do que estava falando, tendo configurado tudo em primeiro lugar. Em 1995, com o estabelecimento de um verdadeiro complexo industrial informacional, e com vários políticos dos EUA, notavelmente Ross Perot e Newt Gingrich, falando de “democracia virtual” em um tom que ecoa o misticismo fundamentalista, como podemos deixar escapar as advertências?

Como podemos deixar de ver o perigo de uma verdadeira cibernética da esfera sócio-política?

As tecnologias virtuais possuem um poder incomparável de sugestão. Lado a lado com o narcocapitalismo do tráfico de drogas — um elemento desestabilizador da economia mundial — podemos ver o início de um narcocapitalismo da informatização e eletrônica. Poderia até ser perguntado se o mundo desenvolvido não está introduzindo tecnologias virtuais como um tipo de desafio, e de bloqueio, aos países subdesenvolvidos, particularmente na América Latina, que vivem — ou raspam sua sobrevivência — do tráfico de drogas. Quando vemos que o trabalho das mais avançadas tecnologias eletrônicas está focada no “lúdico” (videogames, jogos de realidade virtual, etc.), como podemos ignorar essa capacidade de criar dependência instantânea usando técnicas cujos precedentes históricos deveriam ser todos óbvios demais?

Estamos diante de algo que está se tornando muito parecido com um “ciberculto”. O fato é que as novas tecnologias eletrônicas só contribuirão para o aperfeiçoamento da democracia se lutarmos, antes de mais nada, contra a caricatura da sociedade mundial criada pelas multinacionais à medida que são lançadas, com velocidade fatal e imprudente, na construção das supervias de informação.

Sobre o autor

Filósofo e urbanista. Autor, entre outros, de La Bombe informatique, Galilée, Paris, 1998.

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