1 de março de 2013

China 2013

O artigo "China 2013", publicado na Monthly Review, é uma análise crítica do capitalismo de Estado chinês, escrito por Samir Amin. Amin argumenta que a China busca três objetivos principais: a construção de um projeto soberano industrial moderno, a gestão da relação entre esse sistema e a pequena produção agrícola e o controle da integração da China no sistema global. Embora esses objetivos possam eventualmente abrir caminho para o socialismo, o autor observa que simultaneamente reforçam tendências que afastam a China dessa trajetória, direcionando-a para o capitalismo. A análise destaca as contradições internas e os desafios enfrentados pelo país em seu desenvolvimento econômico e político.

Samir Amin


Monthly Review Vol. 64 (2012–2013), No. 10 (March 2013)

Tradução / O debate que diz respeito à China atual — uma “potência emergente”— nunca me convence. Alguns defendem que a China escolheu, de uma vez por todas, o “caminho capitalista” e inclusive pretende acelerar sua integração à globalização capitalista atual. Esses estão bastante satisfeitos com isso e apenas esperam que esse “retorno à normalidade” (capitalismo como “fim da história”) seja acompanhado pela escolha da democracia aos moldes ocidentais (multipartidarismo, eleições, direitos humanos). Eles acreditam — ou precisam acreditar — na possibilidade de que a China, a partir desses meios, deva “acompanhar” em termos de renda per capita as sociedades abastadas do Ocidente, mesmo que gradualmente, o que eu não acredito ser possível. A direita chinesa possui a mesma posição. Outros, lamentam isso tendo por base um “socialismo traído”. Alguns partem espontaneamente para as expressões dominantes do ato ocidental de “China bashing” [1]. Ainda outros — aqueles no poder em Pequim — descrevem o caminho escolhido como “socialismo de características chinesas” sem uma precisão muito clara. Entretanto, pode-se discernir suas características através da leitura de textos oficiais, particularmente os Planos Quinquenais, que são precisos e levados muito a sério.

Na verdade, a pergunta “A China é capitalista ou socialista?” é mal colocada, muito geral e abstrata para qualquer resposta que faça sentido em termos de alternativa absoluta. Na verdade, a China vem seguindo um caminho original desde 1950, e quem sabe mesmo desde a Revolução de Taiping no século XIX. Procurarei aqui esclarecer a natureza desse caminho original em cada uma de suas etapas de desenvolvimento, de 1950 até hoje — 2013.

A questão agrária

Mao descreveu a essência da revolução Chinesa liderada pelo Partido Comunista como uma revolução antifeudal e anti-imperialista em direção ao socialismo. Mao nunca assegurou que, após terem enfrentado o Imperialismo e o feudalismo, que o povo chinês havia “construído” uma sociedade socialista. Ele sempre caracterizou essa construção como a primeira etapa do longo caminho para chegar ao socialismo.

Eu devo enfatizar a natureza bastante específica da resposta dada à questão agrária pela Revolução Chinesa. A terra (agrícola) distribuída não era privatizada; permaneceu como propriedade da nação representada pelas comunas rurais e apenas o uso delas era dado para famílias rurais. Não foi este o ocorrido na Rússia, onde Lenin, ao encarar o fato consumado da insurreição camponesa de 1917, reconheceu a propriedade privada para os beneficiários da distribuição de terras.

Por que a implementação do princípio de que as terras agrícolas não são uma mercadoria foi possível para a China (e Vietnã)? É constantemente repetido que os camponeses por todo o mundo lutam por propriedade e apenas. Se fosse esse o caso na China, a decisão de nacionalizar a terra levaria a uma guerra camponesa sem fim, como ocorreu na União Soviética quando Stalin iniciou a coletivização forçada.

A atitude dos camponeses da China e Vietnã (e nenhum outro lugar) não pode ser explicada por uma suposta “tradição” onde eles não têm conhecimento da propriedade. É o produto de uma linha política inteligente e excepcional implementada pelos Partidos Comunistas desses dois países.

A Segunda Internacional tomou como certa a inevitável aspiração dos camponeses por propriedade, bem verdade na Europa do século XIX. Em frente a longa transição europeia do feudalismo para o capitalismo (1500-1800), as anteriormente institucionalizadas formas feudais de acesso à terra através de direitos compartilhados entre reis, nobres, e camponeses servos gradualmente se dissolveu e foi substituído pela forma burguesa de propriedade privada, que trata a terra como uma mercadoria—um bem que o dono pode livremente se dispor (comprar e vender). Os socialistas da Segunda Internacional aceitaram o fato consumado da “Revolução Burguesa”, mesmo que o lamentando.

Também pensaram que a pequena propriedade camponesa não possuía futuro, que pertencia à grandes empresas agrícolas mecanizadas se baseando no modelo industrial. Pensaram que o desenvolvimento capitalista por si só levaria a tal concentração de propriedade e para formas mais eficazes de sua exploração (ver os escritos de Kautsky acerca desse assunto). A história provou que eles estavam errados. A agricultura camponesa deu lugar a agricultura familiar capitalista em um duplo sentido; um que produz para o mercado (consumo dentro da fazenda tendo-se tornado insignificante) e um que faz uso de modernos equipamentos, insumos industriais, e crédito bancário. E indo além, essa agricultura familiar capitalista acabou tornando-se bastante eficiente em comparação àquela de grandes fazendas, em termos de volume de produção por hectare por trabalhador/ano. Essa observação não excluí o fato que o moderno fazendeiro capitalista é explorado pelo capital monopolista em geral, que controla o emergente de fornecimento de insumos e de crédito e o direcionamento da comercialização dos produtos. Esses agricultores foram transformados em empresas subcontratadas para o capital dominante.

Assim (equivocadamente), convencidos que a grande empresa é sempre mais eficiente do que a pequena em todas as áreas—indústria, serviços e agricultura—os socialistas radicais da Segunda Internacional presumiram que a abolição da propriedade fundiária (nacionalização da terra) permitiria a criação de grandes fazendas socialistas (análogas às futuras sovkhozes e kolkhozes soviéticas). No entanto, eles foram incapazes de colocar essas medidas em prática já que a revolução não estava na agenda em seus países (os centros imperialistas).

Os Bolcheviques aceitaram essas teses até 1917. Eles advogaram a nacionalização das grandes propriedades da aristocracia russa, enquanto permitiam propriedade em terras comunais para os camponeses. Entretanto, foram posteriormente pegos despercebidos pela insurreição camponesa, que ocupou as grandes propriedades.

Mao aprendeu as lições dessa história e desenvolveu uma linha de ação política completamente diferente. Começando na década de 1930 no sul da China, durante a longa guerra civil de libertação, Mao fundamentou a crescente presença do Partido Comunista em uma sólida aliança com os camponeses pobres e sem-terra (a maioria), mantinha relações amistosas com os camponeses médios, e isolava os camponeses ricos em todas as fases da guerra, sem necessariamente antagonizá-los. O sucesso dessa linha foi uma pré-condição para a vasta maioria dos habitantes rurais considerarem e aceitarem uma solução para seus problemas que não precisasse da propriedade privada em lotes de terra adquiridos através da distribuição. Penso eu que as ideias de Mao, e sua implementação bem-sucedida, possuem raízes históricas na Rebelião de Taiping do século XIX. Mao, então, logrou êxitos onde o Partido Bolchevique havia falhado; ao estabelecer uma sólida aliança com a vasta maioria camponesa. Na Rússia, o fato consumado do verão de 1917 eliminou oportunidades posteriores para uma aliança com os camponeses pobres e médios contra os ricos (os kulaks) devido ao fato desse último se mostrar determinado para defender sua propriedade adquirida, e os primeiros consequentemente, preferiram seguir os Kulaks ao invés dos Bolcheviques.

Essa “particularidade chinesa”—cujas consequências são de grande importância—nos impede absolutamente de caracterizar a China contemporânea (mesmo em 2013) como "capitalista" porque o caminho capitalista se baseia na transformação da terra em mercadoria.

Presente e futuro da pequena produção

Contudo, uma vez que esse princípio é aceito, as formas de usar esse bem comum (a terra das comunidades rurais) podem ser muito diversas. A fim de compreender isso, devemos ser capazes de distinguir a pequena produção da pequena propriedade.

Pequena produção—camponesa e artesanal—dominou a produção em todas as sociedades antigas. Manteve um lugar de destaque no capitalismo moderno, agora ligado à pequena propriedade—na agricultura, setor de serviços e mesmo em alguns segmentos da indústria. Certamente na tríade dominante do mundo contemporâneo (Estados Unidos, Europa e Japão), isso está sendo reduzido. Um exemplo disso é o desaparecimento do pequeno comércio e sua substituição por grandes operações comerciais. Ainda, isso não é para afirmar que essa mudança seja “progresso”, mesmo em termos de eficiência, e tudo mais se as dimensões culturais, sociais e civilizacionais são levadas em conta. Na verdade, isso é um exemplo da distorção produzida pela dominação dos monopólios e rentistas em geral. Disso se tira o fato que talvez em um socialismo futuro, o lugar da pequena produção seja chamado a retomar sua importância.

Na China contemporânea, de qualquer forma, a pequena produção—o que não necessariamente está ligado à pequena propriedade—toma posições importantes na produção nacional, não apenas na agricultura, mas também em grandes segmentos da vida urbana.

A China passou por formas bastante diversificadas e mesmo contrastantes de uso da terra como um bem comum. Precisamos discutir, por um lado, a eficiência (volume de produção de um hectare por trabalhador/ano) e, por outro, a dinâmica das transformações em movimento. Essas formas podem fortalecer tendência que vão em direção do desenvolvimento capitalista, que acabaria por questionar o estatuto de não-mercadoria da terra, ou pode ser parte do desenvolvimento em uma direção socialista. E essas questões só podem ser respondidas através de um exame concreta das formas em questão, uma vez que foram implementadas em momentos sucessivos do desenvolvimento chinês de 1950 até o presente.

No início, nos anos 50, a forma adotada foi de pequena produção familiar combinada com formas mais simples de cooperação para a gestão da irrigação, trabalho que requer coordenação, bem como a utilização de certos tipos de equipamento. Isto foi associado com a inserção dessa pequena produção familiar a uma economia de estado que manteve um monopólio sobre as compras de produtos destinados ao mercado e da oferta de crédito e insumos, tudo com base em preços planejados (decididos pelo centro).

A experiência das comunas que seguiram o estabelecimento das cooperativas de produção nos anos 70 está repleta de lições. Não foi necessariamente um problema de passar da pequena produção para grandes fazendas, mesmo que a ideia de superioridade da última, inspirasse alguns de seus apoiadores. A essência dessa iniciativa tem sua origem na aspiração por uma construção socialista descentralizada. As Comunas não apenas tiveram a responsabilidade de gerir a produção agrícola de um grande povoado ou de um conjunto de povoados e aldeias(essa organização em si foi uma mistura de formas de pequena produção familiar e produção especializada mais ambiciosas), mas como também forneceram um panorama maior : (1)anexar atividades industriais que utilizavam camponeses disponíveis em determinadas épocas do ano;(2)articular atividades econômicas produtivas junto com a gestão de serviços sociais(educação, saúde, moradia); e (3)iniciar a descentralização da administração política da sociedade. Assim como a Comuna de Paris pretendia, o Estado Socialista estava para se tornar, ao menos parcialmente, uma federação de Comunas socialistas.

Sem dúvidas, em muitos aspectos, as comunas eram um avanço para seu tempo e a dialética entre a descentralização do poder de decisão e a centralização assumida pela onipresença do Partido Comunista nem sempre operava sem contradições. Ainda, os resultados registrados foram longe de serem desastrosos, como a direita pretende nos fazer acreditar. A Comuna na região de Pequim, que resistiu à ordem de dissolução desse sistema, continua a registrar excelentes resultados econômicos, ligados à permanência de debates políticos de alta qualidade, que desapareceram em outros lugares. Os atuais projetos de “reconstrução rural”, implementado pelas comunidades rurais em diversas regiões chinesas, aparentam ser inspirados na experiência das comunas.

A decisão de dissolver as Comunas, tomada por Deng Xiaoping em 1980 fortaleceu a pequena produção familiar, que permaneceu sendo a forma dominante durante as três décadas que seguiram essa decisão. No entanto, o leque de direitos dos utilizadores (por Comunas rurais e unidades familiares) expandiu-se consideravelmente. Tornou-se possível aos titulares de direitos de uso da terra “alugar" a terra (mas nunca "vendê-la"), seja para outros pequenos produtores—facilitando, assim, a emigração para as cidades, particularmente de jovens instruídos que não querem permanecer residentes rurais— ou para empresas que visem organizar uma fazenda modernizada muito maior (nunca um latifúndio, que não existe na China, mas, no entanto, consideravelmente maior do que a agricultura familiar). Essa forma é o meio usado para encorajar produção especializada (como bons vinhos, dos quais a China pediu o auxílio de peritos da Borgonha) ou testar novos métodos científicos (OMGs e outros).

“Aprovar” ou “rejeitar” a diversidade desses sistemas, a priori não faz sentido, em minha opinião. Mais uma vez, a análise concreta de cada um deles, tanto na forma como na realidade de sua implementação, é imperativo. O fato permanece que a diversidade criativa das formas de usar a terra como bem comum levou a resultados fenomenais. Primeiramente, em termos de eficiência econômica, ainda que a população urbana tenha crescido de 20 para 50% do total da população, a China alcançou sucesso em aumentar a produção agrícola para acompanhar o ritmo da necessidade gigantesca de urbanização. Esse é um resultado marcante excepcional, sem paralelo nos países do Sul “capitalista”. Ela preservou e reforçou a sua soberania alimentar, embora sofra de uma grande desvantagem: sua agricultura alimenta 22 por cento da população do mundo razoavelmente bem enquanto a China tem apenas 6 por cento das terras aráveis do mundo. Ademais, em termos da forma (e nível) de vida das populações rurais, as aldeias chinesas já não têm nada em comum com o que ainda é dominante em outras partes do terceiro mundo capitalista. Estruturas permanentes confortáveis e bem equipadas, formam um contraste marcante, não só com a antiga China da fome e da pobreza extrema, mas também com as formas extremas de pobreza que ainda dominam a zona rural da Índia ou da África.

Os princípios e políticas implementadas (bem comum da terra, apoio à pequena produção sem a pequena propriedade) são responsáveis por esses resultados sem iguais. Tornaram possível a migração do campo para a cidade relativamente controlada. Compare isso com a via capitalista, no Brasil, por exemplo. A propriedade privada da terra agrícola tem esvaziado o interior do Brasil—hoje apenas 11 por cento da população do país. Mas no mínimo 50% da população urbana vive em favelas e sobrevivem apenas graças à “economia informal” (o que incluí crime organizado). Não existe nada do tipo na China, onde a população urbana está, como um todo, adequadamente empregada e com moradia, mesmo em comparação com os vários “países desenvolvidos”, sem nem mencionar aqueles cujo PIB per capita está no mesmo nível do chinês!

A transferência da população da zona rural chinesa extremamente densamente povoada (apenas Vietnã, Bangladesh e Egito são semelhantes) foi essencial. Melhorou as condições da pequena produção rural, tornando mais terras disponíveis. Esta transferência, embora relativamente controlada (mais uma vez, nada é perfeito na história da humanidade, nem na China, nem em outro lugar), talvez ameace tornar-se demasiadamente rápida. Isso está sendo discutido na China.

Capitalismo de Estado chinês

A primeira forma de qualificação que me vem à mente para descrever a realidade chinesa é capitalismo de estado. É, certamente, capitalismo no sentido de que a relação à que os trabalhadores são submetidos pelas autoridades que organizam a produção é semelhante a que caracteriza o capitalismo: o trabalho submisso e alienado, a extração do trabalho excedente. Formas brutais de extrema exploração dos trabalhadores existem na China, por exemplo, nas minas de carvão ou no ritmo vertiginoso das oficinas que empregam mulheres. Isto é escandaloso para um país que afirma querer avançar no caminho para o socialismo. No entanto, o estabelecimento de um regime capitalista de Estado é inevitável, e permanecerá assim em todos os lugares. Os países capitalistas desenvolvidos por si só não serão capazes de adentrar a um caminho socialista (que não está na agenda visível hoje), sem passar por esta primeira etapa. É a etapa preliminar no comprometimento potencial de qualquer sociedade que queira se libertar historicamente do capitalismo na longa jornada para o socialismo e o comunismo. A socialização e reorganização do sistema econômico sob todas as formas, desde a fábrica (uma unidade elementar) para a nação e o mundo, exige uma luta prolongada durante todo um período histórico que não pode ser encurtado.

Para além dessa reflexão preliminar, devemos concretamente descrever o capitalismo de estado em questão, trazendo a natureza e o projeto de tal Estado em particular, porque não existe apenas um tipo de capitalismo de estado, mas vários que diferem entre si. O capitalismo de estado da França da Quinta República de 1958 até 1975, foi designado para servir e fortalecer os monopólios privados franceses, e não para comprometer o país a um caminho socialista.

O Capitalismo de Estado chinês foi construído para alcançar esses três objetivos: (I) Construir um moderno sistema industrial, integrado e soberano; (II) Administrar as relações desse sistema com a pequena produção rural; e (III) Controlar a integração chinesa ao sistema mundial, dominado pelos monopólios gerais da tríade Imperialista (Estados Unidos, Europa e Japão). A realização desses três objetivos é inevitável. Como consequência, se permite um possível avanço ao longo caminho para o socialismo, mas ao mesmo tempo se fortalecem as tendências ao abandono dessa possibilidade em prol de alcance do desenvolvimento capitalista puro e simples. Deve se aceitar que esse conflito é tanto inevitável como sempre presente. A questão então é essa: as escolhas concretas da China favorecem um dos dois caminhos?

O Capitalismo de Estado chinês exigiu, em sua primeira etapa (1954-1980), a nacionalização de todas as empresas (junto à nacionalização das terras agrícolas), tanto as grandes quanto as pequenas. Em seguida, se viu uma abertura às empresas privadas, nacionais e/ou estrangeiras, e liberalizou a pequena produção rural e urbana (pequenas empresas, comércio, serviços). Contudo, grandes indústrias de base e o sistema de crédito estabelecido durante o período Maoísta não foram desnacionalizados, mesmo se as formas organizacionais de sua integração a uma economia de “mercado” foram modificadas. Esta escolha se deu em conjunto com o estabelecimento de formas de controle sobre a iniciativa privada e uma potencial associação com capital estrangeiro. Continuou observando até que ponto estes meios cumprem as suas funções atribuídas ou, pelo contrário, se eles não se tornam cascas vazias em conluio com o capital privado (através de "corrupção" da administração) tendo ganho a ajuda pelo alto.

Ainda assim, o que o capitalismo de Estado chinês alcançou, entre 1950 e 2012 é simplesmente incrível. Na verdade, obteve sucesso em construir um sistema produtivo moderno soberano e integrado, na escala desse país gigantesco, o que só pode ser comparado com aquele dos Estados Unidos. Ele conseguiu deixar para trás a forte dependência tecnológica de suas origens (importação Soviética, e em seguida, dos modelos ocidentais) através do desenvolvimento de sua própria capacidade para produzir invenções tecnológicas. Entretanto, (ainda?) não começou a reorganização do trabalho pela perspectiva da socialização da gestão econômica. O planejamento— e não a “abertura”— manteve os meios centrais para a implementação desta construção sistemática.

Na fase maoísta desse desenvolvimento planejado, o planejamento permaneceu imprescindível em todos os pormenores: natureza e locação dos novos estabelecimentos, objetivos de produção, e preços. Nessa fase, nenhuma alternativa razoável era possível. Mencionarei aqui, sem aprofundar isso mais tarde, o debate interessante sobre a natureza da lei do valor que sustentou o planejamento nesse período. O próprio sucesso—e não o fracasso—dessa primeira fase exigiu uma alteração nos meios para a execução de um projeto de desenvolvimento acelerado. A “abertura” à iniciativa privada—que se inicia em 1980, mas acima de tudo em 1990— foi necessária para que se evitasse a estagnação que foi fatal para a URSS. Apesar do fato de que essa abertura coincidiu com o triunfo globalizado do neoliberalismo—com todos os efeitos negativos dessa coincidência, da qual eu devo retomar—, a escolha de um “socialismo de mercado, ou melhor ainda, um “socialismo com mercado”, como fundamental para essa segunda etapa de desenvolvimento acelerado é em grande parte justificada, em minha opinião.

Os resultados dessa escolha são, mais uma vez, simplesmente incríveis. Em poucas décadas, a China construiu uma urbanização industrial, produtiva que reúne 600 milhões de seres humanos, dois terços dos quais foram urbanizados nas últimas duas décadas (quase igual à população da Europa!). Isto é devido ao planejamento e não ao mercado. A China hoje tem um sistema produtivo verdadeiramente soberano. Nenhum outro país do Sul (exceto Coreia e Taiwan) foi bem-sucedido em fazer isso. Na Índia e Brasil existem alguns poucos elementos variados de projeto de soberania do mesmo tipo, mas nada mais.

Os métodos para projetar e implementar o planejamento foram mudados nessas novas condições. O planejamento permanece imprescindível para os enormes investimentos infra estruturais que são necessários pelo projeto: para abrigar 400 milhões de novos habitantes urbanos em condições adequadas, e para construir uma rede incomparável de rodovias, estradas, ferrovias, barragens e usinas de energia elétrica; para a abertura de todos ou quase todos da zona rural chinesa; e para transferir o centro gravitacional do desenvolvimento das regiões costeiras para o oeste continental. O planejamento também permanece imprescindível — ao menos parcialmente — para os objetivos e recursos financeiros de empresas públicas (do Estado, províncias, municípios). Quanto ao resto, se aponta para os possíveis e prováveis objetivos de expansão da pequena produção urbana de mercadorias bem como atividade privada industrial e outras atividades privadas. Estes objetivos são levados a sério e os recursos político-econômicos necessários para a sua realização são especificados. No seu conjunto, os resultados não são muito diferentes das previsões "planejadas".

O Capitalismo de Estado chinês se integrou nas dimensões de seu projeto de desenvolvimento visivelmente social (não estou falando em “socialista”). Esses objetivos já estavam presentes na era Maoísta: erradicação do analfabetismo, saúda básica para todos, etc. Na primeira parte da fase pós-maoísta (década de 1990), a tendência foi, sem dúvida, a negligencia da busca destes esforços. Entretanto, deveria ser notado que a dimensão social desse projeto, desde então, tomou de volta seu lugar, e em resposta a movimentos sociais fortes e ativos, se espera que façam mais progressos. A nova urbanização não tem comparação com qualquer país do Sul. Certamente existem bairros “chiques” e outros que não são sob nenhum ponto de vista, ricos; mas não existem favelas, que continuaram a se expandir em todos os lugares nas cidades do terceiro mundo.

A integração da China na globalização capitalista

Não podemos prosseguir na análise do capitalismo de Estado chinês (chamado de “socialismo de mercado” pelo governo) sem levar em consideração sua integração na globalização. O mundo soviético havia visado um desligamento do sistema mundial capitalista, complementando esse desligamento através da construção de um sistema socialista integrado que inclua a URSS e a Europa Oriental. A URSS conseguiu esta dissociação, em grande parte, imposta por outro lado pela hostilidade do Ocidente; mesmo culpando o bloqueio para seu isolamento. No entanto, o projeto de integração da Europa Oriental nunca avançou para muito longe, apesar das iniciativas da COMECOM. As nações do Leste Europeu permaneceram em posições incertas e vulneráveis, parcialmente desvinculadas—mas sob uma base estritamente nacional—e parcialmente com uma abertura à Europa Ocidental que se inicia em 1970. Nunca houve uma questão acerca de uma integração entre URSS e a China, não apenas porque o nacionalismo chinês não aceitaria isso, mas ainda mais porque as tarefas prioritárias chinesas não exigiam isso. A China Maoísta praticamente se demarcou em seu próprio caminho. Devemos dizer que, por reintegrar-se na globalização no início na década de 1990, ela total e permanentemente renunciou essa desvinculação?

A China entrou na globalização nos anos 90 pelo caminho do desenvolvimento acelerado de exportações de manufaturados possíveis para seu sistema produtivo, dando prioridade às exportações cujas taxas de crescimento, em seguida, superaram as do crescimento do PIB. O triunfo do neoliberalismo favoreceu o sucesso desta escolha por quinze anos (1990-2005). O exercício dessa escolha é questionável não apenas pelos seus efeitos políticos e sociais, mas também porque ela é ameaçada pela implosão do capitalismo globalizado neoliberal, que começa em 2007. O Governo Chinês aparenta estar ciente disso e muito cedo começou a tentar corrigir isso ao dar grande importância para o mercado interno e o desenvolvimento do Oeste da China.

Dizer, e como se ouve ad nauseam, que o sucesso chinês deve ser atribuído ao abandono do maoísmo (cujo “fracasso” era óbvio), à abertura, e à entrada de capital estrangeiro é simplesmente idiota. A construção maoísta pôs em prática as bases que sem elas, a abertura não teria alcançado seu sucesso bem conhecido. A comparação com a Índia, que não fez uma revolução comparável, demonstra isso. Dizer que o sucesso chinês é principalmente (ou até “completamente”) atribuível às iniciativas do capital estrangeiro não é menos idiota. Não foi o capital multinacional que construiu o sistema industrial chinês e atingiu os objetivos da urbanização e de construção de infraestrutura. O sucesso é 90% atribuível ao projeto de soberania chinês. Certamente, a abertura para o capital estrangeiro tem cumprido funções úteis: aumentou a importação de tecnologias modernas. No entanto, por causa de seus métodos de parceria, a China absorveu essas tecnologias e agora domina o seu desenvolvimento. Não há nada semelhante em nenhum lugar, mesmo na Índia ou no Brasil, a fortiori na Tailândia, Malásia, África do Sul e outros lugares.

A integração da China na globalização tem-se mantido, além disso, parcial e controlada (ou pelo menos controlável, se alguém quiser colocar dessa maneira). A China ficou de fora da globalização financeira. Seu sistema bancário é totalmente nacional e focado no mercado de crédito interno do país. A gestão do yuan ainda é uma questão de tomada de decisão soberana da China. O yuan não está sujeito aos caprichos dos intercâmbios flexíveis que a globalização financeira impõe. Pequim pode dizer a Washington "o yuan é o nosso dinheiro e seu problema", assim como Washington disse aos europeus, em 1971, "o dólar é o nosso dinheiro e seu problema.” Mais além, a China retém uma grande reserva para expansão em seu sistema de crédito público. A dívida pública é insignificante em comparação com as taxas de endividamento (considerada intolerável) nos Estados Unidos, Europa, Japão e muitos dos países do Sul. China pode, assim, aumentar a expansão de seus gastos públicos sem grave perigo de inflação.

A exportação de capital estrangeiro para a China, que se beneficiou disso, não está por trás do sucesso de seu projeto. Pelo contrário, é o sucesso do projeto que fez o investimento na China atraente para as multinacionais ocidentais. Os países do Sul, que abriram suas portas muito mais amplamente do que a China e aceitaram incondicionalmente a sua submissão à globalização financeira não se tornaram atraentes em mesmo nível. O capital transnacional não é exportado para a China para saquear os recursos naturais do país, sem qualquer transferência de tecnologia, para terceirizar e se beneficiar de baixos salários; nem para aproveitar os benefícios da integração de unidades deslocalizadas não relacionados a sistemas produtivos nacionais inexistentes, como em Marrocos e na Tunísia; nem mesmo para realizar um ataque financeiro e permitir que os bancos imperialistas desintegrem as economias nacionais, como foi o caso no México, Argentina, e no Sudeste Asiático. Na China, em contraste, investimentos estrangeiros podem certamente se beneficiar de baixos salários e fazerem bons lucros para eles, sob a condição que seus planos se encaixem nos da China e permitam a transferência de tecnologia. Em suma, esses são lucros “normais”, mas mais pode ser feito em conluio com a permissão das autoridades chinesas!

China, potência emergente

Ninguém duvida que a China seja uma potência emergente. Uma ideia frequente é que a China apenas está tentando recuperar o lugar que tinha ocupado durante séculos e perdeu apenas no século XIX. No entanto, esta ideia, certamente correta, e apologética, por outro lado, não nos ajuda muito na compreensão da natureza desta emergência e as suas perspectivas reais no mundo contemporâneo. Aliás, aqueles que propagam essa ideia geral e vaga não possuem interesse em considerar se a China vai emergir se agrupando em torno dos princípios gerais do capitalismo (que eles provavelmente pensam ser necessários) ou se irá levar a sério seu projeto de “socialismo com características chinesas”. Da minha parte, eu defendo que a China é de fato uma potência emergente, e isso se deve precisamente ao fato que não escolheu o desenvolvimento puro e simples do caminho capitalista; e isso, como consequência, se tivesse decidido seguir o caminho capitalista, o projeto de emergência em si estaria sob sérios ricos de fracassar.

A tese que eu apoio implica em rejeitar a ideia que os povos não podem simplesmente pular uma sequência necessária de etapas e que a China deve passar por um desenvolvimento capitalista antes que a questão sobre seu possível futuro socialista seja considerada. O debate sobre esse problema entre as diferentes correntes do marxismo na história nunca foi concluído. Marx se manteve hesitante sobre isso. Sabemos que logo após os primeiros ataques da Europa (Guerra do Ópio), ele escreveu: a próxima vez que vocês enviarem seus exércitos para a China, eles serão recebidos com uma bandeira “Atenção, vocês estão chegando nas fronteiras da burguesa República da China”. Isto é uma intuição magnífica e mostra confiança na capacidade do povo chinês em responder a esse desafio, mas ao mesmo tempo ele errou porque na verdade estava escrito na bandeira: “Vocês estão a chegar nas fronteiras da República Popular da China”. Ainda que, e nós sabemos disso, que no que tange a Rússia, Marx não rejeitou a ideia de pular a etapa capitalista (veja suas correspondências com Vera Zasulich). Hoje, alguém pode acreditar que o primeiro Marx estava certo e que a China está de fato no caminho do desenvolvimento capitalista.

Mas Mao entendeu—melhor que Lenin— que o caminho capitalista não levaria para nada e que a ressureição da China poderia ser apenas a tarefa dos comunistas. Os Imperadores Qing no final do século XIX, seguidos por Sun Yat Sen e pelo Kuomintang, já haviam planejado uma ressureição chinesa em resposta ao desafio do Ocidente. Contudo, eles não imaginaram outro caminho além do capitalismo e não possuíam os recursos intelectuais necessários para entender o que é o capitalismo de fato e porque esse caminho já havia sido fechado para a China, e para todas as periferias do capitalismo. Mao, um marxista de espírito independente, entendeu isso. Mais do que isso, Mao entendeu que sua batalha não havia sido ganha em um primeiro momento—pela vitória em 1949—e que o conflito entre o comprometimento com o longo caminho para o socialismo, as condições para o renascimento da China, e o retorno ao rebanho capitalista ocuparia todo o futuro que se via a frente.

Pessoalmente, eu sempre compartilhei da análise de Mao e eu sempre retomo o assunto em alguns de meus pensamentos que concernem o papel da Revolução de Taiping (que eu considero ser a origem distante do maoísmo), a revolução de 1911 na China, e outras revoluções ao Sul no começo do século XX, os debates no começo do período da Conferência de Bandung e a análise dos impasses aos quais os assim chamados países emergentes que se comprometeram com o caminho capitalista estão presos. Todas essas considerações são corolários da minha tese central que concerne a polarização (i.e., construção do contraste entre centro e periferia) imanente ao desenvolvimento mundial do capitalismo histórico. Essa polarização elimina a possibilidade de um país periférico “se ascender” dentro do contexto capitalista. Devemos desenhar essa conclusão: se alcançar os países ricos é impossível, alguma outra coisa deve ser feita—se chama seguir o caminho socialista.

China não tem seguido um caminho específico apenas a partir de 1980, mas desde 1950, embora esse caminho tenha passado por etapas que são diferentes em muitos aspectos. A China tem desenvolvido um projeto coerente, soberano que é adaptado para suas próprias necessidades. Este certamente não é o capitalismo, cuja lógica exige que a terra agrícola seja tratada como uma mercadoria. Este projeto permanece soberano na medida em que a China permanece fora da globalização financeira contemporânea.

O fato sobre o projeto chinês não ser capitalista não significa que “seja” socialista, apenas que torna possível avançar para o longo caminho em direção ao socialismo. No entanto, também é ainda ameaçado por um desvio que possa a tirar desse caminho e terminar com um retorno, puro e simples, ao capitalismo.

A emergência bem sucedida da China é completamente resultado de seu projeto soberano. Nesse sentido, China é a única nação emergente autêntica (junto da Coreia e Taiwan, das quais falaremos mais depois). Nenhuma das outras nações que o Banco Mundial concedeu certificado de emergência é verdadeiramente emergente porque nenhuma dessas nações está persistentemente buscando um projeto soberano coerente. Todas subscrevem os princípios fundamentais do capitalismo puro e simples, mesmo em setores potenciais de seu capitalismo de Estado. Todas aceitaram a submissão à globalização contemporânea em todas as suas dimensões, incluindo a financeira. Rússia e Índia são exceções parciais nesse último quesito, mas não Brasil, África do Sul e outras. Eventualmente existem fragmentos de uma “política industrial nacional”, mas nada comparado com o projeto sistemático da China de construir um sistema industrial, completo, integrado e soberano (notadamente na área de especialização tecnológica).

Por essas razões estes outros países, muito precipitadamente caracterizados como emergentes, continuam vulneráveis em graus variados, mas sempre muito mais do que a China. Por todas estas razões, as aparências de emergência— respeitáveis índices de crescimento, capacidade de exportar produtos manufaturados—estão sempre ligadas aos processos de pauperização que afetam a maioria de suas populações (especialmente o campesinato), que não é o caso da China. Certamente o crescimento da desigualdade é óbvio em todo o mundo, incluindo a China; mas essa observação permanece superficial e enganosa. Desigualdade na distribuição de benefícios de um modelo de crescimento que, não obstante não exclui ninguém (e é inclusive acompanhado de uma redução dos bolsões de pobreza—que é o caso chinês) é uma coisa; a desigualdade conjunta com um crescimento que beneficia apenas uma minoria (de 5% a 30% da população, dependendo do caso) enquanto os outros permanecem desesperados é outra coisa. Aqueles que praticam China Bashing desconhecem—ou fingem desconhecer—essa diferença decisiva. A desigualdade que resulta da existência de bairros com moradias de luxo, por um lado, e alojamentos com habitação confortável para as classes média e operárias, por outro, não é o mesmo que a desigualdade resulta da justaposição de bairros ricos, habitação de classe média e favelas para a maioria. Os coeficientes de Gini possuem valor para a medição das mudanças de um ano para o outro num sistema com uma estrutura fixa. No entanto, nas comparações internacionais entre sistemas com diferentes estruturas, eles perdem seu significado, como todas as outras medidas de magnitudes macroeconômicas em termos nacionais. Os países emergentes (além da China) são de fato “mercados emergentes” abertos à penetração por monopólios da tríade imperialista. Esses mercados permitem os últimos a extrair, em seu benefício próprio, uma parte considerável da mais valia produzida no país em questão. A China é diferente; é uma nação emergente, onde o sistema torna possível a retenção da maior parte de sua mais valia produzida ali.

Coreia e Taiwan são os únicos exemplos bem sucedidos de uma emergência autêntica e dentro do capitalismo. Esses dois países devem esse sucesso às razões geoestratégicas que levaram os Estados Unidos a permitir-lhes alcançar o que Washington proibiu os outros de fazerem. O contraste entre o apoio dos Estados Unidos para o capitalismo de Estado destes dois países e a oposição extremamente violenta ao capitalismo de Estado no Egito de Nasser ou a Argélia de Boumedienne é, nesse sentido, bastante esclarecedor.

Não discutirei aqui os projetos potenciais de emergência, que aparecem bem possíveis no Vietnã e em Cuba, ou as condições para uma possível retomada do progresso nesse sentido na Rússia. Nem discutirei os objetivos estratégicos da luta pelas forças progressistas seja no Sul capitalista, na Índia, Sudeste Asiático, América Latina, mundo árabe, e na África, que poderia facilitar indo além dos impasses atuais e incentivar a emergência de projetos soberanos que iniciem uma verdadeira ruptura com a lógica do capitalismo dominante.

Grandes sucessos, novos desafios

A China não acabou de chegar nessa encruzilhada; esteve nela todos os dias desde 1950. As forças políticas e sociais da direita e da esquerda, ativas nas sociedades e no partido, constantemente se enfrentaram.

De onde a direita chinesa surge? Com certeza, da antiga Burguesia burocrático compradora do Kuomintang que foram excluídos do poder. No entanto, no decorrer da guerra de libertação, segmentos inteiros das classes médias, profissionais, funcionários, e industriais, decepcionados com a ineficácia do Kuomintang em face da agressão japonesa, aproximaram-se do Partido Comunista, inclusive entrando em suas fileiras. Muitos deles—mas certamente não todos—continuaram nacionalistas, e mais nada. Posteriormente, começando nos anos 90 com a abertura para iniciativa privada, uma direita nova, mais poderosa, apareceu. Não deve ser reduzida simplesmente a "empresários" que tiveram sucesso e fizeram fortunas (por vezes colossais), fortalecidos pelos seus negociantes—o que inclui funcionários do Estado e do Partido, que misturam o controle com conivência e até mesmo corrupção.

Este sucesso, como sempre, incentiva o apoio às ideias de direita nas crescentes classes médias instruídas. É neste sentido que a crescente desigualdade, mesmo que não tenha nada em comum com a característica desigualdade de outros países no Sul—é um grande perigo político, o veículo para a propagação de ideias de direita, despolitização e ilusões ingênuas.

Aqui devo fazer uma observação adicional que acredito ser importante: a pequena produção, particularmente camponesa, não é motivada por ideias direitistas, como Lenin pensava (isso era correto nas condições russas). A situação da China aqui diverge bastante daquela da antiga URSS. O campesinato chinês, como um todo, não é reacionário porque não defende o princípio da propriedade privada, em oposição com o campesinato soviético. Ao contrário, o campesinato chinês de pequenos produtores (sem serem pequeno proprietários) é hoje uma classe que não se entrega a soluções direitistas, mas é parte do campo de forças de agitação para a adoção das políticas sociais e ecológicas mais corajosas. O forte movimento de “renovação da sociedade rural” comprova isso. O campesinato chinês em grande parte fica no campo de esquerda, junto com a classe operária. A esquerda possui intelectuais orgânicos provenientes do campo e exerce alguma influência nos aparatos do Estado e do Partido.

O conflito contínuo entre a direita e esquerda na China sempre se refletiu nas linhas políticas sucessivas implementadas pelo Estado e pela liderança do partido. Na era maoísta, a linha de esquerda não foi dominante sem luta. Avaliando o avanço das ideias de direita dentro do partido e sua liderança, um pouco parecido como o modelo soviético, Mao lançou a Revolução Cultural para combatê-las. “Bombardear os quartéis-generais”, ou seja, a liderança do Partido, onde a “Nova burguesia” estava se formando. No entanto, enquanto a Revolução Cultural atendeu às expectativas de Mao durante seus dois primeiros anos de existência, posteriormente tomou um desvio anárquico, ligado à perda do controle por Mao e da esquerda do partido ao longo da sequência dos eventos. Este desvio levou ao Partido e Estado tomarem a situação por cima de novo, o que deu à direita, a sua oportunidade. Desde então, a direita foi uma parte forte de todos os órgãos de liderança. No entanto, a esquerda está presente no terreno, submetendo a liderança suprema aos compromissos do "centro"—mas seria centro-esquerda ou centro-direita?

Para compreender a natureza dos desafios que a China enfrenta hoje, é essencial entender que o conflito entre o projeto soberano chinês, tal como ele é, e o Imperialismo Norte Americano e seus aliados subalternos europeus e japoneses irá aumentar em maior grau à medida que a China prossiga em seu sucesso. Existem diversas áreas de conflito: o controle da China por tecnologias modernas, o acesso aos recursos do planeta, o fortalecimento das capacidades militares da China, e o alcance do objetivo de reconstrução da política internacional com base nos direitos soberanos dos povos em escolher seu próprio sistema político e econômico. Cada um desses objetivos entra em conflito direto com os objetivos visados pela tríade imperialista.

O objetivo da estratégia política dos EUA é o controle militar do planeta, a única maneira que Washington pode manter as vantagens que lhe dão hegemonia. Esse objetivo está sendo advogado por meio de guerras preventivas no Oriente Médio, e nesse sentido essas guerras são as preliminares para a guerra (nuclear) preventiva contra a China, a sangue-frio, e prevista pelo departamento de Estado da América do Norte como uma possibilidade necessária “antes que seja tarde demais”. Fomentar a hostilidade à China é inseparável desta estratégia global, que se manifesta no apoio demonstrado para os proprietários de escravos do Tibet e Sinkiang, o reforço da presença naval dos EUA no Mar da China, e o incentivo irrestrito ao Japão em construir suas forças militares. Os praticantes do China Bashing contribuem para manter essa hostilidade viva.

Simultaneamente, Washington se dedica a manipular a situação ao apaziguar as possíveis ambições da China e de outros países ditos emergentes, através da criação do G20, que se destina a dar a estes países a ilusão de que a sua adesão à globalização liberal iria servir aos seus interesses .O G2(Estados Unidos e China) é—nesse sentido—uma armadilha que, ao fazer da China um cúmplice das aventuras imperialistas dos EUA, poderia fazer a política externa pacífica de Pequim perder toda a sua credibilidade.

A única resposta eficaz possível a esta estratégia deve proceder em dois níveis: (I) Fortalecer as forças militares da China e equipá-las com o potencial para uma resposta decisiva, e (II) tenazmente prosseguir o objetivo de reconstruir um sistema político internacional policêntrico, que respeite todas as soberanias nacionais, e, para concretizar isto, agir no sentido de reabilitar as Nações Unidas, agora marginalizadas pela OTAN. Eu enfatizo a importância decisiva do último objetivo, que implica a prioridade em reconstruir uma “frente do Sul” (uma segunda conferência de Bandung?) capaz de apoiar as iniciativas independentes dos povos e Estados do Sul. Implica, por sua vez, que a China se torne ciente que não tem os meios para a possibilidade absurda de se alinhar às práticas predatórias do Imperialismo (pilhagem de recursos naturais do planeta), já que carece de um poder militar similar àquele dos Estados Unidos, que em última instância é a garantia de sucesso para projetos imperialistas. A China, pelo contrário, tem muito a ganhar em desenvolver sua oferta de apoio à industrialização dos países do Sul, que o clube dos "doadores" imperialistas está tentando fazer impossível.

A linguagem usada pelas autoridades chinesas em matéria de questões internacionais, que é muito comedida (o que é compreensível), torna difícil saber até que ponto os líderes do país estão conscientes dos desafios abordados acima. Mais a sério, esta escolha de palavras reforça ilusões ingênuas e despolitização da opinião pública.

A outra parte do desafio concerne o problema da democratização da gestão política e social do país. Mao formulou e implementou um princípio geral para a gestão política da nova China que ele resumiu nos seguintes termos: reunir a esquerda, neutralizar (eu acrescento: e não eliminar) a direita, governar a partir da centro-esquerda. Na minha opinião, esta é a melhor maneira de conceber uma forma eficaz para prosseguir em avanços sucessivos, compreendidos e apoiados pela grande maioria. Dessa forma, Mao deu um conteúdo positivo à concepção de democratização da sociedade combinado com progresso social sob o longo caminho em direção ao socialismo. Ele formulou o método ao implementar isso: a “linha de massas” (ir até as massas, aprender com suas lutas, e voltar para as cúpulas de poder). Lin Chun analisou com precisão esse método e os resultados que o fazem possível.

O problema da democratização combinado com progresso social—o contrário de uma “democracia” desligada do progresso social (e até frequentemente ligada a regressão social) — não interessa apenas à China, mas a todos os povos do mundo. Os métodos com os quais isso deve ser implementado com sucesso não podem ser sintetizados em uma única fórmula, válido em qualquer época para qualquer lugar. De qualquer forma, a fórmula oferecida e propagada pela mídia ocidental—multipartidarismo e eleições—deve simplesmente ser rejeitada. Mais além, esse tipo de “democracia” se tornou em uma farsa, mesmo no Ocidente, mais ainda em outros lugares. A “linha de massas” foi o meio de gerar consenso em objetivos sucessivos, constantemente progredindo, e estratégicos. Isso vai em contraposição ao “consenso” obtido nos países ocidentais através da manipulação midiática e da farsa eleitoral, que é nada mais que o alinhamento com as exigências do capital.

Ainda hoje, como deveria a China começar a reconstruir o equivalente a uma nova linha de massas em suas novas condições sociais? Não será fácil porque o poder da liderança, que guinou em maior parte para a direita no Partido Comunista, baseia a estabilidade de sua direção em despolitização e nas ilusões ingênuas que vão em conjunto a isso. O próprio sucesso das políticas de desenvolvimento fortalece a tendência espontânea em mover para esta direção. Se acredita abertamente na China, entre as classes médias, que a estrada real para acompanhar o modo de vida dos países ricos está agora aberta, livre de obstáculos; acredita-se que os membros da tríade (Estados Unidos, Europa, Japão) não se opõem a isso; os métodos dos EUA são mesmo acriticamente admirados; etc. Isso é particularmente verdade para as camadas médias urbanas, que estão em um rápido crescimento e cujas condições de vida estão sob incríveis melhoras. A lavagem cerebral que os estudantes chineses são submetidos nos Estados Unidos, em particular nas ciências sociais, combinado com a rejeição do ensino oficial do marxismo “sem imaginação” e “tedioso”, têm contribuído para diminuir os espaços de debates radicais e críticos.

O Governo da China não é insensível à questão social, não apenas devido à tradição de um discurso fundado no marxismo, mas também porque o povo chinês, que aprendeu como lutar e continua a fazer isso, pressiona as autoridades do governo. Se, nos anos 90, essa dimensão social declinou ante as prioridades imediatas de acelerar o crescimento, hoje a tendência é que se reverta isso. Ao mesmo tempo quando as conquistas social-democratas estão se corroendo no Ocidente rico, a China pobre está implementando a expansão da proteção social em três dimensões—saúde, moradia e pensões. As políticas de habitação popular, difamadas pelo China Bashing da direita e esquerda europeia, seriam invejadas, não apenas na Índia ou Brasil, mas igualmente nas regiões carentes de Paris, Londres ou Chicago!

A previdência social e o sistema de pensões já cobrem 50% da população urbana (que lembrem-se, aumentou, de 200 para 600 milhões de habitantes!) e o planejamento (que a China ainda leva a cabo) antecipa que se cubra a população em 85% nos anos que se seguem. Deixem os jornalistas do China Bashing nos dar exemplos comparáveis nos “países que embarcaram no caminho democrático”, que eles continuamente rasgam elogios. No entanto, o debate permanece aberto sobre os métodos de execução do sistema. A esquerda advoga pelo sistema francês de distribuição baseado no princípio de solidariedade entre esses trabalhadores e as diferentes gerações—que pré-condiciona a instauração do socialismo—enquanto a direita, obviamente, prefere o sistema odioso de fundos de pensão dos Estados Unidos, que divide trabalhadores e transfere os riscos do capital para o trabalho.

No entanto, a aquisição dos benefícios sociais é insuficiente se não for combinada com a democratização da administração política da sociedade, com sua repolitização por métodos que fortaleçam a invenção criativa de formas para o futuro socialista e comunista.

Seguindo os princípios de um sistema eleitoral multipartidário como defendido ad nauseam pela mídia ocidental e praticantes de China Bashing, e defendido pelos “dissidentes” apresentados como “democratas” autênticos, não enfrentam esse desafio. Ao contrário, a implementação desses princípios poderia apenas gerar na China, como todas as experiências do mundo contemporâneo demonstraram (Na Rússia, Leste Europeu, mundo árabe), a autodestruição do projeto emergente e de renascimento social, que é na verdade o atual objetivo de preconizar esses princípios, mascarados por uma retórica vazia (“não existe outra solução além das eleições multipartidárias”!). Ainda assim, não é suficiente contrapor essa solução ruim com um retorno à posição inflexível de defesa do privilégio do “Partido”, em si esclerosado e transformado em uma instituição dedicada ao recrutamento de funcionários para a administração do Estado. Algo novo deve ser inventado.

Os objetivos de repolitização e a criação de condições favoráveis para a invenção de novas respostas não podem ser obtidos através de campanhas de “propaganda”. Podem apenas ser promovidos através de lutas políticas, sociais e ideológicas. Isso implica o reconhecimento provisório da legitimidade dessas lutas e uma legislação com base nos direitos coletivos de organização, expressões políticas e proposta de iniciativas legislativas. Isso implica, por sua vez, que o próprio partido está envolvido nessas lutas; em outras palavras, a reinvenção da fórmula maoísta da linha de massas. A repolitização não faz sentido se não for combinada com procedimentos que incentivem a conquista gradual de responsabilidade por parte dos trabalhadores na gestão da sua sociedade em todos os níveis— nas empresas, no regional e no nacional. Um programa desse nível não exclui os direitos individuais. Pelo contrário, supõe sua institucionalização. Sua implementação tornaria possível reinventar novas formas de utilização de eleições para escolha de líderes.

Nota

[1] “China Bashing” se refere a uma das práticas favoritas da mídia ocidental, qualquer que seja sua tendência — o que inclui a esquerda, infelizmente — que consiste em sistematicamente difamar, ou mesmo criminalizar, tudo que seja feito na China. A China exporta lixo barato para os pobres mercados do terceiro mundo (isso é real), um crime terrível. No entanto, também produz trens de alta velocidade, aviões, satélites, cujas qualidades tecnológicas maravilhosas são elogiadas no Ocidente, mas das quais a China não deveria ter o direito a elas! Eles parecem pensar que a construção em massa de moradias para a classe operária nada mais é do que jogar os trabalhadores para favelas e a uma “desigualdade” na China (casas de trabalhadores não são bairros ricos) comparada a existente na Índia (bairros ricos ao lado de favelas), e etc. China Bashing permeia também as opiniões juvenis encontradas em algumas tendências da fraca “esquerda” ocidental: se não é o comunismo do século 23, é uma traição! China Bashing faz parte da campanha sistemática de manutenção das agressões hostis contra a China, tendo em vista uma possível agressão militar. Isso é nada menos do que uma questão da destruição das oportunidades para uma emergência autêntica do grande povo do Sul.

Fontes

O caminho chinês e a questão agrária

Karl Kautsky, On the Agrarian Question, 2 vols. (London: Zwan Publications, 1988). Originally published 1899.

Samir Amin, “The Paris Commune and the Taiping Revolution, ” International Critical Thought, forthcoming in 2013.

Samir Amin, “The 1911 Revolution in a World Historical Perspective: A Comparison with the Meiji Restoration and the Revolutions in Mexico, Turkey and Egypt,” published in Chinese in 1990.

Samir Amin, Ending the Crisis of Capitalism or Ending Capitalism? (Oxford: Pambazuka Press, 2011), chapter 5, “The Agrarian Question.”

Globalização contemporânea, o desafio imperialista

Samir Amin, A Life Looking Forward: Memoirs of An Independent Marxist (London: Zed Books, 2006), chapter 7, “Deployment and Erosion of the Bandung Project.”

Samir Amin, The Law of Worldwide Value (New York: Monthly Review Press, 2010), “Initiatives from the South,” 121ff, section 4.

Samir Amin, The Implosion of Contemporary Capitalism (New York: Monthly Review Press, forthcoming in 2013), chapter 2, “The South: Emergence and Lumpendevelopment.”

Samir Amin, Beyond US Hegemony (London: Zed Books, 2006). “The Project of the American Ruling Class,” “China, Market Socialism?,” “Russia, Out of the Tunnel?,” “India, A Great Power?,” and “Multipolarity in the 20th Century.”

Samir Amin, Obsolescent Capitalism (London: Zed Books, 2003), chapter 5, “The Militarization of the New Collective Imperialism.”

André Gunder Frank, ReOrient: Global Economy in the Asian Age (Berkeley: University of California Press, 1998).

Yash Tandon, Ending Aid Dependence (Oxford: Fahamu, 2008).

O desafio democrático

Samir Amin, “The Democratic Fraud and the Universalist Alternative,” Monthly Review 63, no. 5 (October 2011): 29–45.

Lin Chun, The Transformation of Chinese Socialism (Durham, NC: Duke University Press, 1996).

Samir Amin é diretor do Fórum do Terceiro Mundo em Dacar, Senegal. Seus livros incluem "O Vírus Liberal", "O Mundo que Desejamos Ver" e "A Lei do Valor Mundial" (todos publicados pela Monthly Review Press). Este artigo foi traduzido do francês por James Membrez.

25 de fevereiro de 2013

O princípio do fim da pobreza

Ainda há muito a ser feito, mas o Brasil avança bastante rápido no combate à miséria. O Cadastro Único tem sido importante nesse caminho 

Tereza Campello e Marcelo Neri 


Ilustração: Visca

A última década testemunhou queda inédita na desigualdade de renda brasileira, que atingiu o menor nível da série histórica, iniciada em 1960. 

Neste ínterim, houve conquistas em várias dimensões do desenvolvimento humano, como queda de 47% da mortalidade infantil, três anos mais de expectativa de vida, aceleração da escolaridade com ganhos de qualidade a partir de 2005, geração de duas vezes mais empregos formais a partir de 2004. 

A pobreza caiu 58% de 2003 a 2011, velocidade três vezes superior àquela prevista no primeiro e principal objetivo do desenvolvimento do milênio da ONU. 

A queda da pobreza foi propulsionada pela criação do Bolsa Família, em 2003. Mesmo sendo um dos mais bem focalizados no mundo, o programa teve de se reinventar para fazer frente aos desafios do Brasil Sem Miséria. A superação da extrema pobreza até 2014 constitui o lema e a principal meta do governo federal.

O primeiro passo nessa direção foi a definição de uma linha de extrema pobreza. O parâmetro usado foi a linha da ONU, de US$ 1,25, correspondendo a renda mensal de R$ 70 por pessoa em junho de 2011, quando o Brasil Sem Miséria foi lançado. O desafio brasileiro é, em quatro anos, superar a miséria em termos de renda, enquanto a ONU propõe a cada país percorrer a metade desse trajeto em 25 anos.

Desde 2011, aperfeiçoamentos no Bolsa Família reforçaram as transferências, especialmente com o novo benefício cujo valor varia de acordo com o déficit de renda de cada família. Quem tem menos renda recebe mais, possibilitando superar a extrema pobreza ao menor custo fiscal possível. Não há caminho mais curto para o fim da miséria no que diz respeito à renda. 

Estudos do Ipea mostram que, a despeito das características que diferenciam censo, PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e Cadastro Único, todos eles mostrarão uma diminuição vigorosa da pobreza extrema a partir da instituição do Brasil Sem Miséria.

A estruturação do Cadastro Único para Programas Sociais, ocorrida entre 2003 e 2011, com a inclusão de 70 milhões de pessoas, permitiu ao poder público não só implementar o Bolsa Família mas saber quem são, como vivem e onde moram os mais pobres dentre os brasileiros. 

Além de abrir caminho para que recebessem transferências de renda, o cadastro permitiu priorizá-los no acesso a serviços públicos como creches, cursos profissionalizantes, serviços de assistência técnica e extensão rural, cobertura de água e tarifas reduzidas de energia elétrica, entre outros. Mais do que contar pobres, os pobres passaram a contar mais no desenho das políticas públicas brasileiras. 

Além de usar o Cadastro Único como via expressa para levar políticas públicas aos mais pobres, houve empenho redobrado em incluir as famílias que, tendo o perfil requerido, ainda não faziam parte dele. Desde junho de 2011, a busca ativa possibilitou a entrada de 791 mil famílias extremamente pobres no Bolsa Família. Estima-se ser necessário encontrar mais 700 mil para atingir plena cobertura. 

No próximo mês, alcançaremos um objetivo que já pareceu impossível. O Bolsa Família vai garantir a todos os seus beneficiários renda de pelo menos R$ 70. Com mais essa medida, 22 milhões de pessoas terão saído da extrema pobreza desde o lançamento do Plano Brasil Sem Miséria. Do ponto de vista da renda, não haverá mais pobreza extrema no universo do Bolsa Família. 

Mas ainda há muito por fazer nos campos da própria renda, do trabalho, da saúde, da educação, da infraestrutura e da moradia, entre outros desafios. O que está acontecendo agora é apenas um começo. 

Sobre os autores

Tereza Campello, 50, é ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome 

Marcelo Neri, 49, é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

8 de fevereiro de 2013

Comunismo: Um gigantesco processo de emancipação ainda longe de concluído

Domenico Losurdo



Continuo a julgar correta a visão da ideologia alemã, segundo a qual o comunismo é sobretudo "o movimento real que abole o atual estado de coisas". Observemos as mutações que se verificaram no mundo a partir da primeira revolução que se reclamou de Marx e Engels. Antes de outubro de 1917 não havia democracia, mesmo no Ocidente: era o reino das três grandes discriminações para com as mulheres, as classes subalternas, os povos coloniais e de origem colonial.

Com fevereiro e outubro de 1917, a Rússia revolucionária reconheceu às mulheres direitos políticos ativos e passivos. A República de Weimar (nascida da revolução que explodiu na Alemanha um ano após a revolução de Outubro) tomou o mesmo caminho, seguido pelos Estados Unidos. É certo que na Itália, Alemanha, Áustria e Inglaterra o sufrágio universal (masculino) estava mais ou menos afirmado, mas ficava neutralizado por uma Câmara alta que permanecia o apanágio da nobreza e da grande burguesia.

A discriminação racial apresentava-se sob uma forma dupla: considerados como indignos de se constituírem como Estado nacional independente, os povos coloniais eram submetidos à dominação absoluta das grandes potências. Num país como os EUA, os afro-americanos eram excluídos dos direitos políticos (e por vezes mesmo dos direitos cívicos). A ultrapassagem da discriminação racial sob estes dois aspectos não pode ser pensada sem o capítulo da história aberto por outubro de 1917. O papel desempenhado pelos Partidos Comunistas nas revoluções anti-coloniais é notável. E no que se refere aos Estados Unidos? Em dezembro de 1952, o ministro da Justiça enviava ao Tribunal Supremo, ocupada a discutir a questão da integração nas escolas públicas, uma carta eloquente: "A discriminação racial leva a água ao moinho da propaganda comunista". O desafio comunista desempenhou um papel essencial igualmente na ultrapassagem do regime da supremacia branca.

Os direitos sociais e econômicos fazem parte da democracia tal como a esquerda a entende. E foi este patriarca do neoliberalismo, Hayek, que denunciou o fato de que a teorização e a presença no Ocidente destes direitos remetiam à influência, por ele considerada nefasta, da "revolução marxista russa".

Compreende-se portanto que, à atenuação do desafio comunista, corresponda no Ocidente uma restauração. Não se trata só do desmantelamento do Estado social. O peso da riqueza é tão forte que, mesmo nas colunas do New York Times, podem-se ler denúncias considerando que o regime em vigor nos Estados Unidos assemelha-se mais a uma "plutocracia" do que à democracia. A contra-revolução é evidente igualmente nos caso do colonialismo, reavaliada pelo teórico da "sociedade aberta", Karl Popper: "Nós libertamos estes Estados (as antigas colónias) muito apressadamente e de modo demasiado simplista".

Vejamos, em sentido contrário, o que se passa num país continente que ficou sob a direção do Partido Comunista. Pondo fim à catástrofe provocada pelas guerras do ópio e a agressão colonialista, a China devolveu a centenas de milhões de pessoas o primeiro dos direitos do homem, a saber, o direito à vida. O Estado social começa aqui a dar os seus primeiros passos, ao passo que doravante ele é renegado no Ocidente, inclusive no plano teórico.

Mas isto não é tudo: ao reduzir rapidamente seu atraso tecnológico em relação aos países capitalistas mais avançados, a China põe fim à "era de Colombo", que havia começado com a descoberta-conquista da América e que viu o Ocidente sujeitar o planeta inteiro. Vêem-se criar as condições para frustrar as tentações colonialistas e democratizar as relações internacionais. O declínio da doutrina Monroe, à qual a revolução cubana infligiu pela primeira vez um golpe severo, está lá para confirmar.

Como acontece muitas vezes com revoluções, aquela principiada há aproximadamente um século seguiu um percurso completamente imprevisto. Estamos em todo caso na presença de um gigantesco processo de emancipação que está bem longe de ter chegado à sua conclusão.

Domenico Losurdo é filósofo e professor da Universidade de Urbino, Itália.

3 de fevereiro de 2013

Boa conta, sem truques, inclui mais parâmetros além da renda

Lena Lavinas


Para 69,4% dos brasileiros, a linha de indigência fixada em R$ 70 mensais para identificar quem é a população miserável é de valor muito baixo. Proporção semelhante, 73,1%, julga que, se quiser, o governo tem meios de erradicar a miséria no Brasil.

Somos 64% a concordar que o benefício médio de R$ 130 mensais aos beneficiários do Bolsa Família é baixo, o que explica que só um terço da população com mais de 16 anos acredite que o Bolsa Família é eficaz em retirar muita gente da pobreza.

Tais números, retirados de levantamento nacional conduzido pelo Instituto de Economia da UFRJ e pelo Departamento de Economia da UFF em fins de 2012, revelam uma percepção sensível e precisa de como são tratados pobres e indigentes no Brasil.

Não é preciso muita conta para concluir que o Bolsa Família deveria ser mais efetivo na definição dos parâmetros para estimar a magnitude real e incômoda da miséria.

A sensibilidade do governo, talvez parcialmente amputada pelos cortes que ceifam o Orçamento da seguridade social e condenam o sistema de saúde pública, se mostra indiferente àquilo que salta aos olhos de quem mira a realidade brasileira mesmo sem grande expertise técnica. Com bom-senso apenas.

Os cortes fazem com que 50% dos domicílios brasileiros não disponham de água tratada e 35% não tenham saneamento adequado.

Segundo o IBGE, enquanto 7% da população pode ser considerada vulnerável exclusivamente por falta de renda, o percentual pula para 58,4% se forem adicionados outros déficits que não rendimentos monetários.

Sem atualização


Desde 2009 o governo não atualiza a linha de indigência, que permanece em R$ 70 per capita mensais. Intocável também permanece a linha da pobreza.

Salários são atualizados, o salário mínimo igualmente, numa progressão que fomenta a redistribuição e reduz as desigualdades.

Os benefícios do INSS não escapam à regra da correção do poder de compra.

Mas, sem dúvida, manter o valor nominal da linha de indigência quando aumenta a renda média, e quando o IPCA acumulado entre janeiro de 2009 e dezembro de 2012 bate 24,53%, já é uma boa contribuição para reduzir o número e o percentual de indigentes do país. No automático.

Atualizada, a linha de indigência valeria hoje R$ 87,17, aumentando o contingente de miseráveis. Ainda assim, seria um valor muito baixo.

O Brasil é hoje um país de renda média alta, na rota das grandes mudanças estruturais. É tempo de voltar à discussão pendente sobre como definir com rigor qual o patamar mínimo de bem-estar que a nação solidariamente vai estabelecer.

Sobre a autora


Lena Lavinas, doutora em economia, é professora associada do Instituto de Economia da UFRJ.

20 de janeiro de 2013

Sobre democracia e socialismo

Uma resposta a "O vermelho e o negro", de Seth Ackerman.

Tyler Zimmer

Jacobin


Tradução / O texto de Seth Ackerman, “O vermelho e o negro” está repleto de imaginação e frescor. Simpatiza com o desprezo de Marx pela “invenção de livros de receitas para as cozinhas do futuro” enquanto oferece, ao mesmo tempo, um tipo de inspiração que só pode ser extraído de visões alternativas radicais. Minha esperança é que ele gere uma grande variedade de respostas críticas, mas aqui eu gostaria de explorar apenas um tema: a democracia.

Deixe-me ser claro: quando falo em “democracia”, tenho em mente algo completamente diferente das instituições eleitorais que existem nas sociedades capitalistas contemporâneas como os Estados Unidos ou o Brasil. Estas instituições dão à vasta maioria da população pouco controle real sobre as estruturas básicas da sociedade. Sempre que falo de democracia no texto que segue, tenho em mente uma coisa mais simples e mais radical – uma associação em que as pessoas governam conscientemente seus assuntos em comum na base da igualdade genuína através da razão e do debate público.

Ackerman fala bastante sobre mercados e sobre a experiência do planejamento central burocrático, mas tem muito menos a dizer sobre a tradicional demanda socialista do controle pela classe trabalhadora sobre a vida econômica. Apesar dele dizer que seu tópico principal é “o conflito entre a busca de lucro privado e a satisfação das necessidades humanas,” eu não pude deixar de imaginar como energias democráticas radicais se encaixam nesse quadro.

O socialismo, no fim das contas, não é somente sobre satisfazer as necessidades humanas ou “distribuir os bens” – é também sobre colocar a estrutura econômica da sociedade sob controle democrático. Um jovem Alasdair MacIntyre escreveu que “é típico da sociedade de classes que a vida social apareça como uma coisa dada, fora do nosso controle, em que nós podemos desempenhar apenas um papel pré-arranjado.” O Socialismo, pelo contrário, seria “a vitória da consciência sobre sua escravização anterior pela atividade econômica e pela política. Todas as outras formas de sociedade foram sofridas pelos seres humanos; o socialismo é para ser vivido por eles.”

A ideia central aqui é que o socialismo é sobre criar relações sociais que nos permitiriam auto-governar coletivamente nossos assuntos em comum – econômicos e outros – de uma forma racional e consciente, livre de todas as formas de opressão e de exploração. Para mim, Ackerman deixa subdesenvolvido este importante tema socialista.

É claro, existe uma tradição – podemos chamá-la de “Socialismo Vindo de Cima” – que no bom estilo tecnocrático, tem demonstrado uma tendência a rejeitar a democracia, modelando o socialismo em termos de uma alocação de bens distribuídos por uma agência burocrática sobre a qual a população não tem controle. Ackerman deixa claro que rejeita esta abordagem de-cima-para-baixo em prol de um socialismo construído de-baixo-para-cima, mas sua discussão de socialismo de mercado toca apenas indiretamente neste tópico do controle democrático sobre a vida econômica.

Não acho que esta seja uma questão secundária, na medida em que o mercado e o foro democrático são duas formas fundamentalmente diferentes de organização social.

Compare e diferencie: o consumidor individual no mercado tem apenas a capacidade de “sair do mercado”, ou seja, de se recusar a comprar o que já foi produzido – enquanto que o cidadão democrático possui “voz” sobre uma decisão coletiva ainda não resolvida. O consumidor individual em um mercado age na base de preferências íntimas, enquanto que o participante em uma assembleia democrática apresenta argumentos públicos fundamentados sobre como resolver alguma questão de preocupação coletiva.

Interações no mercado se baseiam em estratégia e interesse próprio – a barganha procede sob a premissa de que os participantes querem comprar algo barato e vender caro – enquanto que participantes em um foro democrático interagem sob a premissa de que compartilham um interesse em resolver um problema coletivo de um jeito que avance com o bem comum. Mercados despolitizam questões de escolha social enquanto a democracia politiza as decisões ao elevá-las ao nível da crítica e do debate públicos. Provavelmente existem mais diferenças que merecem ser observadas, mas acredito que já deu para entender o ponto.

A resposta progressista tradicional a essa tensão entre mercados e democracia é dizer que cada um tem sua hora e lugar apropriados: o mercado seria o mecanismo apropriado para a esfera econômica enquanto que o foro seria o dispositivo apropriado para a esfera política do Estado. Os socialistas, entretanto, se opõem firmemente à essa separação entre a esfera (alegadamente) privada da vida econômica e o reino público oficial da política. Ao invés disso, eles têm lutado para repensar e expandir nossa concepção do que é político para incluir não apenas as alavancas do Estado, mas a sociedade como um todo. Então, dado que Ackerman visualiza os mercados exercendo um papel significativo no socialismo, ele nos deve uma explicação sobre como eles podem ser politizados e domados pela vontade popular.


Ackerman afirma que

“A autonomia das empresas para escolher seus produtos e métodos de produção significa que elas podem se comunicar diretamente com os consumidores e adaptar seus produtos às necessidades deles – e com a entrada livre nos mercados, os consumidores podem escolher entre os produtos de diferentes produtores: nenhuma agência precisa definir o que precisa ser produzido.“

Interpretada como uma metáfora, eu vejo como esta afirmação pode fazer sentido; mas, tomada literalmente, ela me parece falsa. Em um mercado, os consumidores não se comunicam diretamente com os produtores sobre suas necessidades – sua escolha é apenas se comprarão ou não o que já está na prateleira. Uma maneira mais técnica de dizer isso seria que consumidores em um mercado não têm voz, eles apenas conservam a capacidade de sair da transação – ou seja, de individualmente se recusar a comprar o que já foi projetado, posto à venda e produzido em nome deles.

Um mercado simplesmente não é o tipo de coisa que permite que consumidores tenham entradas deliberativas diretas nas decisões sobre quais necessidades socialmente reconhecidas se refletirão na produção econômica. Valorizar a comunicação direta e a coordenação consciente é desejar outra coisa, não mercados.

Ackerman reconhece isso, quando discute as maneiras pelas quais os mercados facilitam divisões complexas de trabalho entre pessoas que não possuem interações comunicativas diretas, por completo. Como ele sem dúvidas concordaria, é um aspecto definidor do mercado que ele coordena o comportamento indiretamente, “por trás das costas” daqueles envolvidos. As pessoas no mercado não se juntam e se comunicam coletivamente para formular planos gerais coerentes; ao invés disso, elas todas lidam de maneira privada com seus interesses, em busca de compradores e vendedores individuais. As consequências gerais que surgem destas atividades no mercado, mesmo se forem benéficas, não são o resultado de vontade consciente ou de comunicação direta da parte daqueles envolvidos.

Entre outras coisas, esta dimensão não-comunicativa dos mercados revela o fato de que eles não exigem que justifiquemos nossas preferências consumistas aos outros. No mercado, não importa porque tenho uma preferência de consumo – só importa que eu a tenho. Esta talvez seja uma das virtudes dos mercados, se é que há alguma. Afinal de contas, quem gostaria de ser obrigado a tentar justificar para outra pessoa porque quer um sorvete de um sabor ao invés de outro? E o que possivelmente poderia ser ganho ao tentar deliberar coletivamente sobre qual é a melhor forma de macarrão?


Talvez no caso do macarrão e dos sabores de sorvete, as coisas devam ser assim mesmo. O problema é que os mercados, em termos de informação, reduzem todas as nossas visões, julgamentos e princípios econômicos ao modelo de preferências de consumo (possivelmente frívolas e irrefletidas). A narrativa econômica padrão nos ensina que preferências individuais são “reveladas” através das atividades dos agentes no mercado. Quando compro uma bola de sorvete por um certo preço, eu “revelo” uma preferência individual por ela – e o preço que pago registra a intensidade dessa preferência em relação a outras preferências de consumo que eu poderia ter.

Assim, no que diz respeito ao mercado, decisões profundamente importantes sobre prioridades de investimento, impacto ambiental, taxas de crescimento, equilíbrio entre poupança para o futuro e consumo atual, escala e localização da produção, nível de emprego e assim por diante devem ser todas determinadas exatamente da mesma maneira que as decisões sobre quais sabores de sorvete se produzir – na base de um agregado de preferências individuais despolitizadas.

Agora, há muito em jogo – socialmente, economicamente e ambientalmente – em como estas grandes decisões são tomadas. São questões políticas urgentes que precisam ser pensadas criticamente e discutidas coletivamente por nós para que possamos compreendê-las e lidar com elas direito. E, o que é mais importante, estes temas têm ramificações de longo prazo – pense nas questões ambientais urgentes em jogo – o que as torna inadequadas para processos de decisão que dependem de preferências individuais de curto prazo por certas formas de consumo privado. Portanto, deixar problemas tão urgentes para serem resolvidos pelas maquinações das forças de mercado, ou seja, decidí-las na base de uma coleção de preferências pessoais íntimas e mal examinadas não é aconselhável, pra dizer o mínimo.

É exatamente por isso que os socialistas têm frequentemente defendido um planejamento consciente e democrático como uma alternativa razoável ao mercado. A ideia é dar prioridade a processos de tomada de decisão que sejam racionais – responsivos ao discurso e ao debate públicos sobre o bem comum – e democráticos, no sentido de atrair as massas da população para participar neles, tanto quanto for possível.

Na deliberação democrática, as entradas básicas de informação usadas para se tomar a maioria das decisões sobre investimento, emprego, produção e alocação não seriam preferências individuais, mas argumentos públicos fundamentados. Como qualquer um que já participou de um debate genuinamente democrático pode atestar, nossas preferências individuais muitas vezes mudam enquanto enfrentamos os argumentos e propostas trazidos pelos outros. Às vezes a exigência de que nos justifiquemos para os outros nos leva a revisar nossas próprias visões. A filósofa política Elizabeth Anderson coloca da seguinte maneira: “o diálogo democrático não toma as preferências como pré-definidas, mas as transforma, não apenas no sentido de mudar as opiniões individuais sobre o que cada um quer, mas de mudar nossa visão sobre o que queremos quando agimos coletivamente.”

No seu melhor, a democracia socialista seria um processo participatório, racional e experimental no qual “nenhuma força além da força do melhor argumento” determinaria o que decidiríamos fazer juntos. Isso tornaria possíveis amplos processos de aprendizagem social pelos quais a avaliação coletiva de decisões anteriores nos permitiria melhorarmos como co-legisladores com o passar do tempo. O aspecto participatório tem o potencial para nutrir um senso de responsabilidade compartilhada pelos resultados e, talvez, um sentimento de que estaremos cooperando com os outros em termos de igualdade para promover o bem comum. Estes são benefícios que os mercados – lidando com nada além de agregados de preferências individuais que dizem respeito apenas a cada um – não podem gerar.

Isso não significa que o planejamento democrático de alguma maneira eliminaria todos os conflitos e discordâncias sobre prioridades sociais; significa menos ainda que uma democracia verdadeira exigiria uma harmonia de interesses – ou premissas selvagens sobre motivações humanas – para ser capaz de ter sucesso. Ao invés disso, a democracia nos dá uma estrutura dentro da qual podemos discutir e debater juntos – embora iremos discordar – sobre quais deveriam ser os objetivos básicos de nosso sistema social e econômico. Desta maneira, a democracia desperta uma questão-chave que os mercados, como tais, não nos permitem levantar: o que devemos fazer juntos?


Como isso pareceria, na prática? Penso que é uma força do texto de Ackerman que ele coloque esta questão e nos dê uma resposta séria a respeito de como os mercados poderiam operar em uma sociedade socialista. Estou curioso para saber como ele poderia integrar os elementos da democracia em seu modelo, mas enquanto isso, penso que vale a pena dizer (brevemente) alguma coisa concreta sobre como uma economia democraticamente planejada poderia parecer.

Os fugazes experimentos históricos sobre planejamento democrático que temos à disposição são inspiradores e instrutivos. Porém, são radicalmente incompletos, dado que praticamente todos eles foram esmagados externamente enquanto ainda estavam em sua infância. Isso não tem impedido os socialistas de visualizar alternativas concretas, entretanto. O livro do economista radical Pat Devine, Democracy and Economic Planning [“Democracia e Planejamento Econômico”], por exemplo, apresenta uma proposta imaginativa que merece consideração e debate sérios entre os socialistas.

A proposta de Devine envolve corpos de planejamento econômico democraticamente eleitos e operados em múltiplos níveis diferentes – locais, regionais e nacionais. Debates num nível nacional poderiam focar em prioridades gerais em relação à escala de tempo e às quantidades de investimento em infra-estrutura, meios de produção, comunicação, saúde, educação, transporte, pesquisa científica, e assim por diante. Corpos regionais e locais tomariam decisões sobre questões mais particulares. Devine propõe que estes diferentes corpos interajam na forma de uma “coordenação negociada”, que equilibre formas centralizadas e descentralizadas de tomada de decisão democrática.

E sobre as especificidades destas entidades e as relações entre elas? Uma resposta completamente desenvolvida à essa pergunta certamente está fora do escopo desta curta resposta crítica. Além do mais, eu, como Ackerman, tomo o partido de Marx em pensar que nos arriscamos a bolar manuais de instrução tecnocráticos se tentarmos ser muito específicos sobre o funcionamento detalhado de algo que ainda sequer existe. Seja como um diagrama ou não, espero ter dito o bastante para desfazer a preocupação geral de que a governança democrática da vida econômica seria irremediavelmente impraticável ou que não seja atraente em princípio.


Algumas coisas afirmadas acima podem precisar de esclarecimento. Não acho que o contraste entre o mercado e o foro democrático significa que precisamos ir 100% na direção de um ou de outro. Como disse, penso que o núcleo democrático radical do projeto socialista implica em que o mercado não deveria ser a instituição organizativa fundamental da sociedade. E concordo com Ackerman que os resultados de planejamento dentro do “capitalismo realmente existente” e das sociedades burocráticas da antiga União Soviética provam – mesmo que de uma maneira distorcida – que já temos exemplos de alternativas viáveis ao mercado.

Mas certamente isso não significa que não poderia haver nenhum papel – nem mesmo periférico – para os mercados em uma sociedade socialista. Nisso eu concordo com Ackerman. Mas a não ser que façamos uma distinção apropriada entre o mercado e o foro – e evitemos misturá-los – não estaremos em uma posição para compreender porque os cidadãos de uma sociedade socialista poderiam querer encontrar um equilíbrio entre eles segundo suas avaliações. No fim, contudo, as pessoas em uma sociedade socialista devem ser capazes de decidir por si mesmas como encontrar o equilíbrio certo entre planejamento democrático e os mercados.

É importante também manter os dois separados porque alguma coisa se perde quando escolhemos os mercados ao invés da organização democrática, assim como algo pode se perder – digamos que eficiência ou anonimato – quando trocamos os mercados pela democracia. Porém, os socialistas têm tradicionalmente mantido uma forte premissa em favor de organizações democráticas e conscientes, ao invés das alternativas. Fica com Ackerman o ônus de explicar em maiores detalhes como suas recomendações são compatíveis com este objetivo socialista básico.

Sobre o autor

Tyler Zimmer é professor visitante de filosofia na Northeastern Illinois University.

28 de dezembro de 2012

A próxima esquerda

Uma entrevista com Bhaskar Sunkara, fundador da Jacobin.

Jake Blumgart

Boston Review

Glenn Halog / Flickr

Fora o estranho surto de alarmismo, socialismo é um termo com pouca aceitação no discurso político americano. Apenas um membro do Congresso abraça abertamente o termo. O próprio Partido Socialista já era uma força esgotada em 1936 (quando mal superou o Partido Proibicionista). Desde o fim da Guerra Fria, a esquerda radical americana foi marginalizada pelo Partido Democrata e pela elite política, e se voltou, em vez disso, para o anarquismo e um tipo vago de anticorporativismo.

No entanto, a reputação do socialismo está voltando, pelo menos entre os jovens. Se os Millennials precisarem de alguma dica, o conselho editorial declaradamente socialista da Jacobin está feliz em ajudar. Fundada há dois anos por Bhaskar Sunkara (então com 21 anos), a revista tem como objetivo revigorar a esquerda americana com uma escrita prática, acessível e muito radical. O empreendimento tem sido surpreendentemente bem-sucedido até agora. Hoje, seu site recebe cerca de 250.000 visualizações únicas por mês. Sunkara decidiu que o projeto ficaria chato se deixado totalmente online e, então, financiou uma revista impressa com um punhado de assinaturas e US$ 2.000 do seu próprio bolso. Hoje, a revista tem mais de 2.000 assinantes, incluindo ativistas influentes, líderes trabalhistas e algumas das figuras da grande mídia que ocasionalmente almeja. (Divulgação completa: contribuo periodicamente para a Jacobin.) A imprensa está prestando atenção.

Na semana passada, Sunkara e eu conversamos em um edifício de escritórios indefinido em Manhattan com vista para a estátua do Touro de Wall Street. Continue lendo para saber os segredos das origens de Sunkara, o envolvimento da Jacobin com os liberais e o legado político de Michael Harrington, o último socialista a causar comoção na cena intelectual.

—Jake Blumgart

Jake Blumgart

Quem é o público-alvo da Jacobin? Você não parece realmente estar tentando se envolver com os conservadores.

Bhaskar Sunkara

O público-alvo está conectado aos dois objetivos distintos da Jacobin. O primeiro é um objetivo intraesquerdista de reafirmar a importância da análise de classe e marxista no contexto de uma esquerda cada vez mais anarquista. Não somos dogmáticos e ortodoxos, não achamos que as velhas formas de organização e pensamento sejam o caminho a seguir, mas estamos comprometidos em adaptar essas formas de pensar a novas realidades materiais.

Mas há outro objetivo, que é mais direcionado ao público em geral e — acho que nunca coloquei isso de forma tão grosseira antes — aos liberais: articular ideias radicais de esquerda e fazê-lo de uma forma clara e acessível. As peças devem ser intransigentes em conteúdo, mas informadas, acessíveis e de boa fé. Ao longo do projeto, essa tentativa foi extremamente bem-sucedida. Podemos receber gritos furiosos da esquerda por chamar a atenção de pessoas como Christopher Hayes, Reihan Salam, Andrew Sullivan e outros. Mas isso faz parte do nosso propósito pretendido. Não queremos um mundo onde Hayes e Katrina vanden Heuvel sejam a esquerda de fato neste país. Isso não quer dizer nada contra eles; eles são social-democratas de princípios. Isso é muito para o contexto americano. Mas ao existir e receber a quantidade de atenção da mídia de massa que recebemos — da Rolling Stone ao New York Times — somos lembretes visíveis de uma tradição política há muito esquecida e intransigentemente socialista. Também estamos tentando trazer uma perspectiva radical sobre política e economia para nosso público predominantemente jovem, enquanto outras publicações da nossa geração são mais focadas na cultura. Está muito na tradição dos radicais da Segunda Internacional — Kautsky, Lenin, Luxemburgo e seus contemporâneos não eram acadêmicos.

Isso não quer dizer que essas estruturas não tenham seu lugar, e eu adoro publicações como n+1 e similares, mas estou falando sobre críticas à pobreza que parecem ter que começar com um gancho do The Wire. Acho isso uma besteira. Acho que podemos simplesmente escrever o ensaio sobre pobreza e incluir alguns gráficos de linha nele. Acho que a esquerda pode fazer com uma dose de empirismo e que nossas ideias podem se destacar em relação a outras em virtude de sua seriedade.

A esquerda tem falado em eufemismos por muito tempo, focada em branding e comprometimento de suas ideias. Dizemos diretamente que somos uma publicação socialista armada com uma crítica marxista, buscando objetivos políticos radicais, e somos convincentes o suficiente para termos entrado no centro das atenções. Há algo a ser dito sobre isso.

Achamos que nossas ideias devem resistir ao mesmo escrutínio que outras publicações. É por isso que recebemos atenção de pessoas como Hayes e Salam.

Jake Blumgart

Desde o primeiro artigo da primeira edição, a Jacobin apresentou ideias sobre a política do tempo livre versus o tempo gasto em trabalhos tediosos. “A política de obter uma vida”, como Peter Frase memoravelmente colocou. Kevin Drum, da Mother Jones, publicou algumas postagens recentemente sobre a disponibilidade decrescente de trabalho humano de baixa qualificação, mas ele apenas descreve uma tendência e diz que não consegue imaginar como mudá-la. As opções parecem ser trabalho empobrecedor ou desemprego empobrecedor. A Jacobin é um dos únicos lugares que vi tentando mostrar uma alternativa: o socialismo não apenas como uma ideologia redistributiva, mas emancipatória.

Bhaskar Sunkara

Sim, estamos reivindicando a liberdade para a esquerda. Há algo na visão do socialismo que não está apenas enraizado no produtivismo soviético kitsch. Até certo ponto, o socialismo poderia ser idealmente a sociedade de propriedade definitiva. Uma extensão radical da democracia e do controle para os reinos social e econômico, uma sociedade sem a exploração de pessoa por pessoa — é um reino de empoderamento individual.

Veja este debate recente: melhorias tecnológicas podem criar desemprego em massa ou levar a jornadas de trabalho mais curtas. Mas mudanças no modo de produção não significam necessariamente melhoria ou emancipação, a menos que haja uma vontade política de mudar a maneira como os frutos dessa produtividade são distribuídos. Este é um ponto bem básico. É por isso que as pessoas se beneficiariam da leitura de Marx. Mas se você não tem isso em seu repertório político, você acaba como alguém como Drum, que tem uma imaginação política profundamente atrofiada. Drum e todas essas pessoas estão chegando aos limites distantes de sua marca de análise, e está claro até para eles que a Jacobin tem ideias para o futuro — mesmo que algumas delas não sejam muito novas e sejam apenas atualizações de ideias tradicionais de esquerda que atendem às necessidades materiais do nosso momento.

Jake Blumgart

Lembro-me da resposta de Matt Yglesias ao ensaio “Four Futures” de Peter Frase, que tentava imaginar essa sociedade além de salários baixos e jornadas incrivelmente longas. Reduzir a duração da semana de trabalho tem sido um projeto histórico da esquerda, mas não tem estado muito na conversa americana recentemente, até onde sei. Parece valioso que alguém como Yglesias esteja se engajando com essa ideia.

Bhaskar Sunkara

Estamos em um momento em que parece que não há ideias. Mas a sociedade está sempre em constante movimento; sempre há pequenas mudanças imperceptíveis, mesmo que não as reconheçamos quando acontecem. A sociedade humana não atingiu seu pico, mas também não estamos vivendo no pior dos mundos possíveis. Vivemos em um mundo em que os movimentos dos trabalhadores e outros movimentos progressistas tornaram a vida mais habitável, e o próprio capitalismo tem sido uma força intensamente dinâmica, de muitas maneiras, para a civilização humana e suas possibilidades futuras. Dito isso, há tanto sofrimento desnecessário no mundo. Tanta exploração e opressão que deveriam ter se tornado absolutamente obsoletas graças à abundância material e à tecnologia que temos. Os problemas que a sociedade enfrenta são principalmente políticos, em vez de materiais reais. Isso não significa nenhum otimismo indevido sobre o futuro, mas sugere que é importante manter a imaginação política aberta o suficiente para abraçar visões de uma sociedade melhor.

O marxismo hoje se tornou esse hobby superacadêmico que perdeu sua urgência política.

Isso é em um nível intelectual, mas somos um jornal político e temos que lidar com o fato de que a esquerda é tão fragmentada e marginalizada, mesmo com o surgimento de algo como o Occupy. Em algum nível, a relevância da Jacobin dependerá de condições objetivas e desenvolvimentos políticos. No curso de dois anos, a revista não se tornou massiva no sentido mainstream, mas está na conversa e muitas pessoas a leem.

Jake Blumgart 

Gostaria de ouvir mais sobre as histórias de origem da revista e sobre você, enquanto estamos aqui.

Bhaskar Sunkara

Like the first issue of a comic book, right? I never read comic books; I was stunted in that way as a child. But I plan to make up for it in a depressive holiday binge soon.

Anyway, I was in college and had to take two semesters off for medical reasons in 2009. I had a lot of time on my hands, and it wasn’t pleasant. I was just throwing up a lot. I spent a lot of time being autodidactic. That’s where I got a lot of my political background. I read a lot of Perry Anderson and Marx, back issues of New Left Review, in these fairly miserable circumstances.

I wrote my first article for Dissent around that time too. I started engaging more with other young leftists, albeit mostly remotely at the time. I had some friends and acquaintances who had more ideas and material than they could get published, so I just collected it all together and put it online. Originally I was thinking of a more satirical publication, working on my own strengths as a writer, but I realized I had to build it on the strengths of the writers I was commissioning.

As far as my own background, it’s middle class. My parents were immigrants just trying to get their footing in the States, and they eventually did. I’m the youngest of five, so I had it the easiest. It was an obvious sign to me that so much of our success in life depends on the opportunities that one is given. I have illiterate grandparents. I was given more than my brothers and sisters. It was an accident of birth and that realization itself was deeply politicizing.

But yes, I always worked through school, so it wasn’t until I was sick that I really had time to read and be an autodidact and discipline my time around that. It was actually, in hindsight, a gift that allowed me to develop as a person. And I guess that’s one of Jacobin’s main intellectual thrusts, as well—the importance of leisure and the wealth that time away from the production process could give people.

Jake Blumgart

Você era politizado antes disso?

Bhaskar Sunkara

When I was young, both my parents were working 60 hours+ a week, so I would have to go to the library after school from around 3:00–7:00 because we didn’t have daycare. For the first hour there would be other kids there, but then I’d have three hours to rummage through the stacks. When I was in sixth or seventh grade, I discovered George Orwell. I read 1984 and then Animal Farm. In the preface to Animal Farm, I read that he was in Catalonia fighting for the P.O.U.M. with Trotskyites. And I was intrigued: “What the hell is Trotskyism?” So I read My Life by Leon Trotsky and I thought it was intellectually interesting.

Then in eleventh grade we got assigned Howard Zinn’s A People’s History of the United States. The book did nothing for me; I somewhat agree with Michael Kazin’s critique of him as Manichean. But the fact that our teacher prefaced it by saying Zinn was a socialist, I thought, hey, if someone had enough intellectual credibility to get assigned for class reading and still call himself a socialist, I guess I can call myself a socialist. You could associate with non-crazy, really admirable people like Zinn. Hopefully Jacobin can do the same thing for people in high school and college today.

Jake Blumgart

Os liberais americanos tradicionais não se envolveram muito com os socialistas desde que Michael Harrington morreu em 1989. Mas ainda havia socialistas por aí: Dissent, os Socialistas Democratas da América. Por que vocês estão recebendo o tipo de atenção que lhes foi negado?

Bhaskar Sunkara

Bem, há condições objetivas, como o Occupy. O Adbusters teve mais a ver com o início do Occupy do que qualquer outra publicação de esquerda, mas o Adbusters não está recebendo muita atenção porque não tem muita substância. Parte disso é que nossos autores são mais afiados e têm as mesmas simpatias ideológicas. E todos estão apoiando uns aos outros e promovendo uns aos outros de uma forma que não seria comum em outros meios sem esse projeto político comum. Somos apenas melhores.

Jake Blumgart

Mas a Dissent na década de 1990 tinha um projeto político comum.

Bhaskar Sunkara

A Dissent sobreviveu ao seu momento histórico. A Dissent foi fundada em 1954 em meio à política da Guerra Fria. Os periódicos têm uma vida útil; eles não devem durar para sempre. A Jacobin não durará para sempre.

Jake Blumgart

A edição 5 foi lançada na esteira do Occupy e foi claramente quando a revista começou a parecer mais polida. Quase todos os ensaios estavam preocupados com o Occupy de uma forma ou de outra. E não havia realmente nenhum artigo sobre marxismo, que aparecia periodicamente em edições anteriores.

Bhaskar Sunkara

Você não deveria ter que fazer leituras prévias sobre marxismo para entender a Jacobin. Tentamos evitar linguagem como "histórico mundial" ou "contradições inexoráveis" — clichês que só fazem sentido para pessoas que sabem. The Economist não exige que você leia The Wealth of Nations para compreender seus artigos. O marxismo hoje se tornou esse hobby superacadêmico que perdeu sua urgência política e capacidade intelectual de comunicar claramente informações sobre o presente e mudá-lo.

Eu preferiria muito mais estar em uma conversa com The Nation do que com The Baffler e não apenas por causa do tamanho. Eu prefiro me envolver com a corrente principal de massa do liberalismo dos EUA. Esse é o futuro de qualquer esquerda: pessoas que se identificam como liberais, algumas das quais seriam atraídas por uma crítica estrutural do capitalismo, especialmente se ela oferecesse uma visão intelectual coerente e sensata que fosse radical e pragmática ao mesmo tempo.

Jake Blumgart

Em “Liberalism and the Left” Harrington diz que, na década de 1950, ele estava atacando os liberais, mas então percebeu que “alguns dos melhores liberais eram social-democratas sem saber”. Você vê tendências semelhantes entre os liberais de hoje?

Bhaskar Sunkara

O liberalismo sempre foi uma ideologia incipiente e diversa. Você tem alguns que são mais ou menos social-democratas operacionais; eles são pró-sindicatos e tentam voltar àquela era de ouro do estado de bem-estar social. Em outras palavras, "liberais da luta de classes". Então você tem liberais tecnocráticos, seus Ezra Kleins, que também têm uma tradição intelectual muito longa. Você vê isso na história da imprensa, onde passamos de uma imprensa partidária, até mesmo ideológica, para pessoas como Walter Lippman, que fizeram do liberalismo parte de um movimento mais amplo de "cidades limpas, governo limpo". Na década de 1960, esses liberais tecnocráticos eram algumas das pessoas que limpavam as máquinas urbanas racistas brancas. Agora eles estão atacando os sindicatos de professores e o que eles veem como novas máquinas urbanas, que são predominantemente compostas por pessoas de cor — as pessoas que se beneficiaram principalmente do emprego público. A história tem ironias cruéis como essa.

Não quero fetichizar o trabalho dentro ou fora dos partidos políticos. Depende da situação.

Escritores como Klein estão tentando fazer algo bom e limpo com a política. Eles estão tentando confrontar uma situação real e fazer as coisas funcionarem de forma mais eficiente. Não é como se eles tivessem más intenções, mas suas políticas reais são uma porcaria. Sua compreensão do que estão fazendo carece uma teoria da política.

Quando estou me envolvendo com um comentarista como Klein, não estou tentando convencê-lo de que estou certo. Estou tentando declarar minha posição sem distorcer a posição dele e aumentar as contradições que existem entre nós. Estou escrevendo para o leitor, não para ele. Pessoas como Klein podem ser envolvidas de forma inteligente, mas não conquistadas. Liberais da luta de classes podem ser trazidos para a esquerda e apresentados a uma crítica estrutural do capitalismo.

Jake Blumgart

Nas décadas de 1970 e 1980, Harrington e o DSA trabalharam dentro e por meio do Partido Democrata. Mas, apesar de tais esforços, os democratas se moveram demonstravelmente para a direita em termos de política econômica. Por que Harrington não teve sucesso? O mesmo deveria ser tentado hoje?

Bhaskar Sunkara

Harrington falhou em parte por causa do momento histórico: a crise estrutural da social-democracia, a combinação de aumento de salários e declínio da lucratividade, e assim por diante. Não quero fetichizar o trabalho interno ou externo. Depende da situação. Sou contra o terceiro-partidarismo no que diz respeito à criação de algo como o Partido Verde. Se você tivesse uma situação em que o Partido Verde estivesse perto de ser o segundo maior partido na América, isso significaria que você teria movimentos de baixo que são tão poderosos que você não teria um Partido Democrata neoliberal para começar. O Partido Democrata é onde estão os principais constituintes, onde estão os trabalhadores e as comunidades de cor, e por um bom motivo. Ele representa seus interesses melhor do que os republicanos. As pessoas estão votando de forma inteligente e racional quando votam. Você não pode mudar essas condições apenas por um ato de vontade.

O mais importante para a esquerda é como construir poder por meio de movimentos nacionais e contornar a questão eleitoral por enquanto. Acho que é importante que os socialistas se reunifiquem para que, quando algo como o Occupy surgir, ou quando as pessoas forem politizadas recentemente na faculdade, possa haver um polo de atração para articular e desenvolver políticas socialistas. Acho que isso é algo de curto prazo que a esquerda radical poderia fazer se não fosse sobrecarregada por malucos.

Jake Blumgart

Notei que a Jacobin não menciona muito religião. Não tem nada dessa coisa de “ópio das massas”. Existe um lugar para religião em movimentos de esquerda?

Bhaskar Sunkara

A parte do Occupy que foi baseada na celebração comunitária não é apenas uma distração superficial. É bom e inato na humanidade. Falar em termos éticos também é importante. Quanto à religião em si, nenhum de nós é da escola de antiteísmo de Christopher Hitchens. Isso não afetará nosso envolvimento com alguém, quer acredite em Deus ou não. Não acho que haja nada a ser ganho com uma grande crítica à religião. Todo mundo interpreta completamente mal essa citação de Marx. São as condições que, na formulação de Marx, forçam as pessoas a recorrer à religião em busca de consolo em primeiro lugar que precisam ser combatidas. Mas mesmo isso é paternalista! Acredito que a religião sempre existirá de alguma forma. As pessoas são atraídas por ela por razões existenciais. Quero viver em um mundo sem dificuldades materiais levando as pessoas à religião, mas sempre viveremos em um mundo com depressão, ansiedade, desgosto, angústia, sofrimento.

Jake Blumgart

Conte-me um pouco sobre os projetos de livros que você tem para o ano que vem, com a Metropolitan Books e a Verso. Vamos começar com a Metropolitan, que não tem a missão política radical da Verso.

Bhaskar Sunkara

O livro está previsto para ser lançado no outono de 2013. Uma das grandes críticas ao Occupy foi que não havia ideias. Besteira, claro. Havia toneladas de ideias. Com este livro, tentei ir além da crítica: a primeira metade é sobre os problemas com o consenso neoliberal e na segunda metade apresentamos soluções programáticas.

A segunda metade em si é um crescendo que se constrói em direção a algo. As primeiras peças podem ser interpretadas, isoladamente, como social-democratas. Em sua contribuição, Megan Erickson não apenas critica a reforma educacional neoliberal, mas também expõe como seria um bom sistema educacional. Chris Maisano aborda o pleno emprego, Peter Frase escreve sobre liberdade e socialismo, Sarah Leonard escreve sobre superar a divisão sexual do trabalho, Seth Ackerman apresenta um socialismo de mercado viável. Essa é a estrutura deste livro, a primeira metade é crítica, a reversão do consenso neoliberal. A segunda parte está rolando essas novas ideias, instituições e programas. Com uma imprensa mais radical, eu realmente teria que alcançar esse público liberal e ser mais hesitante ao fazer esses argumentos. Com a Metropolitan, tenho uma chance melhor de dar ao leitor médio da Naomi Klein uma crítica mais de esquerda.

Jake Blumgart

E a série de livros Verso?

Bhaskar Sunkara

Eu encomendo os livros e os edito, Remeike Forbes cria as capas e a Verso cuida do lado comercial e de parte da publicidade. Eles me deram uma flexibilidade enorme e estou muito feliz pela oportunidade. Especialmente na esquerda, há esse fenômeno em que os autores têm de 30.000 a 40.000 palavras para dizer, mas eles arrastam isso para o formato de um livro. A série Verso remonta aos antigos panfletários com ideias feitas para pessoas que não são especialistas. Basicamente, estou tentando pegar as críticas que temos na Jacobin, desenvolvê-las e atingir um público maior, de forma barata. Acho que há um lugar especial para o formato.

Espero que dê certo. Mas não ficarei muito chateado se as pessoas disserem que falhei miseravelmente como editor de livros aos 23 anos. Sinto que esse é um pecado bastante perdoável.

Jake Blumgart é um repórter-pesquisador baseado na Filadélfia. Seu trabalho foi publicado pela American Prospect, Philadelphia Inquirer, The Huffington Post e Slate.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...