16 de julho de 2018

Bernie Sanders: "Política boa é política ousada"

Bernie Sanders fala sobre a vitória de Alexandria Ocasio-Cortez, o sucesso de Jeremy Corbyn e por quê o seu programa está ganhando estados por todo o país.

Uma entrevista com Bernie Sanders

Jacobin

Bernie Sanders discursa a apoiadores em um comício de campanha em Phoenix, Arizona, em julho de 2015. Gage Skidmore / Flickr

Tradução / Após diversos desafios vitoriosos da esquerda contra os democratas do establishment, no qual o caso Alexandria Ocasio-Cortez em Nova Iorque é o mais notável, o senador de Vermont Bernie Sanders não está dizendo “eu avisei” a ninguém.

Mas Sanders há muito argumenta que “melhor do que os republicanos” não é suficiente para que o Partido Democrata (ou qualquer um) ganhe a eleição. Uma visão política ousada é necessária para entusiasmar os eleitores. Não há como saber o que acontecerá com desafiantes progressistas como Ocasio-Cortez e o candidato a governador de Maryland, Ben Jealous, se e quando assumirem o cargo. Porém suas campanhas parecem reivindicar a argumentação básica de Sanders sobre o apelo da política anti-establishment, sem remorso.

Em entrevista recente para Daniel Denvir do podcast The Dig, da rádio da Jacobin, Sanders discute Alexandria Ocasio-Cortez e outros terremotos dentro do Partido Democrata, e porque uma visão política ousada é uma boa política.

Daniel Denvir: O que você tem a dizer sobre a vitória de Alexandria Ocasio-Cortez? Você acha que o establishment Democrata está honestamente pensando sobre o significado, para a política americana, da vitória de uma socialista democrata sobre um dos homens mais poderosos do Congresso?

Bernie Sanders: Não, eu não acho que a cúpula do Partido Democrata realmente compreenda o significado da vitória de Alexandria. Ela ganhou muita atenção e sua vitória foi extraordinária. Ela fez uma campanha realmente esperta e de base. Ela bateu em muitas portas. Ela teve excelentes voluntários. Foi uma campanha brilhante. Mas não é somente Alexandria.

Na mesma noite que ela ganhou, Ben Jealous venceu o establishment democrata em Maryland e se tornou o candidato a governador. Nesta mesma noite, diversos jovens progressistas da área de Baltimore derrotaram membros do governo do estado no senado. Nós estamos vendo este tipo de ativismo em todo o país: pessoas que fazem campanhas progressistas e de base estão indo muito, muito bem e vencendo de políticos do establishment.

Nancy Pelosi, líder da Minoria na Câmara, disse recentemente que o socialismo não é um movimento ascendente no Partido Democrata. O que você tem a dizer sobre isso?

Socialismo, Capitalismo — estas são grandes palavras que podem significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Se você analisar o que Alexandria estava falando, o que eu falo, o que outros progressistas falam, o discurso em geral é muito popular não apenas entre pessoas que se consideram democratas ou progressistas, mas pela maioria do povo americano. É importante entender que as ideias pelas quais eu luto, pelas quais Alexandria luta, são ideias muito populares.

Por exemplo, atualmente nós temos um salário mínimo de US$7,25/hora, o que é essencialmente um salário que te fez passar fome. Ninguém consegue viver com isso. Quando nós lutamos por um salário mínimo de U$S15/hora, nós temos o apoio dos americanos.

Quando nós falamos sobre salário igual para homens e mulheres, o povo americano apoia de forma massiva. Saúde universal para todos, que há poucos anos era uma ideia que parecia radical, hoje é majoritariamente apoiada. O povo americano entende que um plano de saúde é um direito, não um privilégio. O sistema de saúde hoje funciona bem para os mais velhos e não há razão para não ser expandido para todos os homens, todas as mulheres e todas as crianças do país com o intuito não só de fornecer assistência médica a todas as pessoas, porém também de poupar dinheiro para a área da Saúde. Hoje nós gastamos muito mais per capita do que qualquer outro país.

Quando falamos sobre a ganância da indústria farmacêutica — na qual, no ano passado, cinco empresas farmacêuticas lucraram US$50 bilhões, pagando aos seus diretores executivos pacotes absurdos de indenização, enquanto um em cada cinco americanos não pode sequer pagar pelos medicamentos prescritos pelos médicos — os americanos estão conosco. Quando falamos em exigir que as pessoas mais ricas, que estão indo muito bem, comecem a pagar sua parte justa dos impostos, o povo americano apoia isso.

Quando falamos sobre tornar as faculdades e universidades públicas gratuitas, o povo americano apoia isso. Eles apoiam a reforma da imigração. Eles apoiam a reforma da justiça criminal. Na Filadélfia, Larry Krasner fez um ótimo trabalho nesse sentido.

Você pode rotular essas coisas da maneira que quiser, mas eu chamo de idéias básicas que lidam com justiça social, econômica, racial e ambiental. O povo americano está conosco nisso.

Sua colega, senadora Tammy Duckworth, uma democrata de Illinois, sugeriu na CNN que as ideias adotadas na campanha de Alexandria por Ocasio-Cortez não poderiam ter sucesso em lugares como o Centro-Oeste. Qual sua resposta?

Alexandria deu uma boa resposta. Ela disse que, em muitos dos estados do Centro-Oeste, nós fomos muito, muito bem nas primárias presidenciais democratas em 2016, inclusive ganhamos em alguns deles. Nós vencemos em Indiana. Nós vencemos em Michigan. Nós vencemos em Wisconsin. Em Illinois perdemos por muito poucos. As idéias sobre a qual estamos falando fazem sentido em todos os estados do país.

Há quatro anos, nas eleições do meio do ano de 2014, tivemos a menor participação eleitoral em sete décadas. Nós tivemos cerca de 36% do povo americano votando. Quando os americanos comuns se desmoralizam e desistem da política e não votam, os republicanos se saem muito bem. Se você se recorda, há quatro anos os republicanos varreram a Câmara e o Senado e se saíram muito bem nas eleições dos legisladores estaduais e do governador em todo o país porque tivemos a menor participação eleitoral em setenta anos.

Quando você pergunta às pessoas: “A saúde é um direito de todos?” As pessoas respondem: “Sim.” Não há motivos para não nos unirmos a nenhum outro grande país do mundo para garantir assistência médica a todos. Quando você fala sobre o absurdo de centenas de milhares de pessoas jovens e brilhantes que hoje não têm condições de pagar faculdade enquanto milhões de pessoas deixam a escola profundamente endividada – falei com tantos jovens e pessoas de meia-idade que saíram da escola com dívidas de US$50.000 e US$100.000. Por qual crime? Querer ter um diploma. Essas não são ideias radicais. Quando você fala sobre estas ideias, as pessoas dizem: “Sim, está certo. É o que temos que fazer. ”Então eles saem e votam – e os progressistas e o Partido Democrata vencem. É um sonho para o Partido Republicano quando não existe um programa que agrade os trabalhadores, quando não há ideias que animam as pessoas, quando há baixa participação eleitoral. É quando eles ganham a eleição.

Sua fala soa como uma estratégia que enfatiza a importância de expandir o eleitorado ao invés de tentar dialogar, por exemplo, com Republicanos que se ofendem com algo que Trump diz.

Creio que não é nem um nem outro. Existe muita gente neste país ofendida com o fato de que o presidente dos Estados Unidos é um mentiroso, que o presidente dos Estados Unidos é um racista, sexista e xenófobo.

Você não precisa ser progressista para ficar enojado com o fato de a administração de Trump separar crianças de três e quatro anos de seus pais. Os conservadores também sentem raiva por isso, em todo o país. Eles entendem que os Estados Unidos não devem ser isso.

Existe muita gente, republicanos moderados, que estão chocados com o comportamento de Trump e que estão preparados para votar no Partido Democrata. Mais importante que isso, é preciso entender que nós temos o menor eleitorado de grandes países. Nós precisamos falar para a classe trabalhadora, a qual é branca, negra, latina, asiática, indígena e falar sobre questões que façam sentido para eles. Se conseguirmos elevar o eleitorado de 36%, de 2014, para 50% em 2018, o Partido Democrata controlará o Congresso – tenho certeza absoluta disso.

A meta é organizar e educar, porém você não vai conseguir fazer isso se você não falar sobre problemas que são importantes para a classe trabalhadora.

O debate em relação às eleições sempre aparece na esquerda. Muitas pessoas do Democratic Socialists of America (DSA) defende apoiar candidatos nas primárias do Partido Democrata, como aconteceu na sua campanha de 2016 e na de Ocasio-Cortez, porém também acreditam que é necessário construir uma alternativa mais radical e independente do Partido Democrata.

Você se elegeu como político independente e se manteve assim. Em Vermont, o Partido Progressista, que surgiu para apoiar a sua candidatura à prefeitura de Burlington, agora elegeu pessoas por todo o estado. Do seu ponto de vista, como seria o equilíbrio ideal entre construir uma alternativa independente e concorrer pelo Partido Democrata?

Não foi bem assim em Burlington. Naquela época, em tempos antigos, em 1981, nós fizemos o que eu acreditava. Nós fizemos aliança. Nós fizemos aliança com os trabalhadores, com os sindicatos, com os ambientalistas, com as mulheres. A partir disso surgiu o Partido Progressista, que está indo relativamente bem em Vermont agora. Tenho certeza que o Partido Progressista tem mais membros em Vermont do que em qualquer outro partido que não seja o Republicano ou Democrata. Isso se dá pelo fato de que eles fizeram um ótimo trabalho em focar nas necessidades da classe trabalhadora. É possível que haja uma exceção ou outra em algum lugar do país, mas a orientação é de seguir com o Partido Democrata. Nós estivemos tentando, com relativo sucesso, não somente abrir as portas do Partido Democrata para a classe trabalhadora e para os jovens, mas também mudar as regras do partido. Nas primárias presidenciais do Partido Democrata de 2016 houve superdelegados muito poderosos. Se não me engano, Hillary Clinton teve o voto de quinhentos superdelegados antes do primeiro voto real ser lançado em Iowa.

O que fez com que a nomeação se parecesse muito mais com uma coroação.

Exatamente. Estou a ¾ do caminho em um processo muito trabalhoso do Comitê Nacional Democrata (DNC) para mudar esta regra e eliminar a habilidade dos superdelegados de votar no primeiro momento. Isto seria um grande passo.

Estamos lidando como nação com supressão de voto. Todo mundo diz “Bom, estes são os estados republicanos. Alabama, Mississippi, Wisconsin”. Adivinha? É o estado de Nova Iorque também. Se você quisesse votar nas primárias do Democrata em Nova Iorque, você teria que alterar a sua filiação seis meses antes do dia da primária, o que é completamente espantoso.

O que acontece em Nova Iorque é um conluio entre o Partido Democrata e o Partido Republicano para estabelecer uma política de proteção mútua. Isso tem que mudar. Nós estamos trabalhando para mudar isso.

Estamos progredindo de muitas formas, não só elegendo progressistas, mas também mudando as regras ao tentar abrir as portas e fazer as pessoas entrarem.

Quais lições você acha que os Estados Unidos podem tirar da luta no Reino Unido contra Theresa May, lidera pelo Partido Trabalhista e Jeremy Corbyn?

Corbyn fez uma campanha muito esperta. É similar ao que estamos tentando fazer nos Estados Unidos. Ele pegou todo o establishment do Partido Trabalhista, o qual havia se deslocado para muito longe da direita, se tornou muito establishment e disse “Nosso trabalho no Reino Unido é representar a classe trabalhadora e lutar contra os ricos e poderosos.” Ele apareceu com um programa muito progressista que dialogou com a imaginação da classe trabalhadora e dos jovens. Eles acabaram perdendo, porém indo muito melhor do que era imaginado.

Corbyn enfrentou os conservadores e o establishment. Os progressistas estão nesta mesma situação nos Estados Unidos.

Precisamos falar sobre um programa que faça sentido para a classe trabalhadora. Ao entender que vivemos em um tempo de desigualdade de renda e riqueza, que temos um sistema político que é um sistema de corporações que permite que bilionários comprem as eleições, que, no meio disso tudo, é preciso ser ousado. É preciso ter coragem para enfrentar os interesses dos ricos que têm tanto poder na nossa sociedade e lutar com a classe trabalhadora. Quando você fizer isso, o resultado não é somente um bom resultado eleitoral, como uma melhora da vida nos Estados Unidos.

15 de julho de 2018

Bullying comercial não vai funcionar

China responderá aos EUA com paciência e firmeza

Li Jinzhang


Contêineres são carregados no porto chinês de Lianyungang. AFP

Para espanto mundial, os Estados Unidos começaram a "atirar" aleatoriamente contra as principais economias numa guerra comercial. Poucos dias atrás, "puxaram o gatilho" contra a China ao impor uma sobretaxa de 25% sobre produtos chineses no valor de US$ 34 bilhões, e deram início à maior batalha comercial na história econômica. No dia 10, os EUA anunciaram uma lista de produtos chineses de US$ 200 bilhões sujeitos a sobretaxa de 10%.

A China foi obrigada a contra-atacar, ao anunciar a aplicação de medidas equivalentes sobre as importações norte-americanas.

A medida arbitrária de Washington viola as regras da OMC, desafia o multilateralismo e o livre comércio e prejudica a recuperação da economia mundial. Segundo a previsão da Standard & Poor's, se todas as ameaças de sobretaxação de Washington forem implementadas, o crescimento econômico mundial cairá em 1 ponto percentual.

Na lista dos produtos chineses sobretaxados, cerca de US$ 20 bilhões são produtos fabricados por empresas estrangeiras na China, a maioria norte-americanas. Ou seja, a guerra comercial contra a China é também um tiro no próprio pé dos EUA, além de pôr sob ameaça as cadeias mundiais de produção e de valores.

Perante a intimidação, a China toma múltiplas medidas não apenas para se proteger, como também para defender o processo da globalização. A China é a segunda economia do mundo e o maior parceiro comercial dos EUA.

Se Pequim ceder ao bullying e adotar a política de apaziguamento, Washington não só buscará mais vantagens da China, como terá ainda menos inibição no trato com outros países. A China responderá à arbitrariedade norte-americana com paciência e firmeza, conclamando que os EUA mudem o curso de sua política.

Diante do desafio antiglobalização, a China vai ampliar ainda mais sua abertura, em vez de fechar as suas portas. Estima-se que a China vá importar mais de US$ 24 trilhões em mercadorias nos próximos 15 anos. Dias atrás, o governo chinês lançou as Diretrizes para a Ampliação das Importações e a Promoção do Crescimento Equilibrado do Comércio Exterior, com medidas proativas para expandir as importações e construir uma agenda de abertura abrangente.

Em novembro próximo, a primeira Feira Internacional de Importação da China vai oferecer maior acesso ao mercado chinês. Na qualidade de convidado de honra, o Brasil vai incrementar a visibilidade e o embarque de seus produtos com vantagem comparativa. A China vai aplicar o conceito chinês de abertura e benefício mútuo para contrabalancear a política "America First" e, junto com os outros países, servir como estabilizador do sistema multilateral de comércio e defensor do novo processo de globalização.

Neste ano se comemora o 40º aniversário da Reforma e Abertura da China. Ao longo das últimas quatro décadas, apesar dos inúmeros desafios, a China sempre foi capaz de transformar a pressão em motivação, converter riscos em oportunidades e manter um ritmo acelerado do desenvolvimento.

Para enfrentar as restrições na área de alta tecnologia e calúnias de "roubo de propriedade intelectual", a China vai promover o desenvolvimento baseado em inovação com maior determinação.

Com mais de 80 milhões de cientistas e 170 milhões de profissionais qualificados, um investimento em pesquisa e desenvolvimento que representa 2% do seu PIB, e o rigoroso marco regulatório no campo de propriedade intelectual, a China está imprimindo maior qualidade no seu crescimento e dando novo impulso à prosperidade compartilhada do mundo.

"A união faz a força". China e Brasil, sendo duas importantes economias emergentes, compartilham preocupações semelhantes quanto à manutenção do sistema multilateral comercial e multilateralismo.
​
O nosso interesse comum em manter uma economia mundial mais aberta vai nos unir ainda mais perante a guerra comercial.

Sobre o autor
Embaixador da China no Brasil, ex-vice-ministro de Negócios Estrangeiros em seu país e ex-conselheiro da embaixada chinesa em Cuba.

12 de julho de 2018

Por que O Capital de Marx ainda é importante

David Harvey explica por que O Capital de Karl Marx ainda é o guia definitivo para entender — e superar — os horrores do capitalismo.

Uma entrevista com
David Harvey


Chris JL / Flickr

Entrevista de
Daniel Denvir

Tradução / Faz mais de um século e meio desde que Karl Marx publicou o primeiro volume de O Capital. É um tomo maciço e intimidador - que muitos leitores podem ser tentados a pular. O erudito radical David Harvey não acha que deveríamos.

Harvey ensinou O Capital por décadas. Seus cursos populares sobre os três volumes estão disponíveis gratuitamente on-line e foram assistidos por milhões em todo o mundo; eles foram a base de seus livros de acompanhamento para os volumes um e dois. O último livro de Harvey, Marx, Capital e a loucura da razão econômica é um acompanhamento mais curto para os três volumes. Nele, ele lida com a irracionalidade fundamental de um sistema capitalista cujo funcionamento é supostamente qualquer coisa que não seja.

Harvey conversou com Daniel Denvir para o podcast da Rádio Jacobin, The Dig, sobre o livro, as forças criativas e destrutivas simultâneas do capital, a mudança climática, e por que O Capital ainda pode ser útil. Você pode se inscrever na Rádio Jacobin aqui.

Daniel Denvir

Você tem lecionado sobre O capital, de Marx, por um bom tempo. Faça uma breve visão geral de cada um dos três volumes.

David Harvey

Marx está muito nos detalhes, e às vezes é difícil entender exatamente no que consiste sua concepção de capital. Mas na verdade é simples. Os capitalistas começam com certa quantia de dinheiro, levam esse dinheiro ao mercado e compram algumas mercadorias, como meios de produção e força de trabalho, que colocam para trabalhar num processo de produção que gera novas mercadorias. Elas são vendidas por dinheiro, com um lucro. Então o lucro é redistribuído de várias maneiras, na forma de aluguéis e juros, e então circula de volta para aquele dinheiro, e reinicia o ciclo de produção.

É um processo de circulação. E os três volumes de O capital lidam com diferentes aspectos desse processo. O primeiro trata da produção. O segundo lida com a circulação e o que chamamos de “realização” – a maneira como a mercadoria é convertida em dinheiro. E o terceiro lida com a distribuição – quanto vai para o proprietário, quanto vai para o financista, quanto vai para o comerciante, antes que tudo seja revirado e reenviado de volta ao processo de circulação.

É o que tento ensinar, para que as pessoas entendam as relações entre os três volumes de O capital e não se percam totalmente em nenhum volume ou em partes deles.

Daniel Denvir

Você difere de outros estudiosos de Marx. Uma grande diferença é que você presta muita atenção aos volumes dois e três, além do volume um, enquanto muitos estudiosos de Marx se concentram no volume um. Por quê?

David Harvey

Marx, em sua mente, tinha uma idéia da totalidade da circulação do capital. Seu plano era dividi-la nessas três partes componentes, que formam os três volumes. Então, apenas sigo o que Marx diz que está fazendo. Agora, o problema é que os volumes dois e três não foram concluídos por ele, e não são tão satisfatórios quanto o volume um.

O outro problema é que o volume um é uma obra-prima literária, enquanto os volumes dois e três são mais técnicos e mais difíceis de acompanhar. Então, posso entender por que, se as pessoas quiserem ler Marx com um certo senso de alegria e diversão, elas o fazem com o volume um. Mas estou dizendo: “Não, se você realmente quer entender o que é a concepção de capital de Marx, não pode entender como sendo apenas sobre produção. É sobre circulação. É sobre colocar no mercado e vender, e sobre a distribuição dos lucros.”

Daniel Denvir

Uma razão pela qual isso é importante é que precisamos entender essa dinâmica de expansão constante que impulsiona o capitalismo – o que você chama de “infinito ruim”, citando Hegel. Explique o que é esse “infinito mau”.

David Harvey

Você chega a essa ideia de “infinito ruim” no volume um. O sistema tem que se expandir porque é sempre sobre lucro, sobre criar o que Marx chamou de “mais-valia”, e a mais-valia é reinvestida na criação de mais valor excedente. Então O capital é sobre esta expansão constante.

E o que isso faz é: se você cresce 3% ao ano, para sempre, chega ao ponto em que o volume de expansão necessária é absolutamente enorme. No tempo de Marx, havia muito espaço no mundo para expandir, ao passo que agora estamos falando de uma taxa composta de crescimento de 3% sobre tudo o que está acontecendo na China, no sul da Ásia e na América Latina. O problema surge: para onde você vai expandir? Essa é a má infinidade que está surgindo.

No volume três, Marx diz que talvez a única maneira de se expandir seja pela ampliação da base monetária. Porque com dinheiro não há limite. Se falamos sobre o uso de cimento ou algo assim, há um limite físico para o quanto se pode produzir. Mas com dinheiro, você pode simplesmente adicionar zeros à oferta monetária global.

Se você olhar para o que foi feito depois da crise de 2008, foram adicionados zeros à oferta monetária por algo chamado “quantitative easing” (flexibilização quantitativa). Esse dinheiro então retornou ao mercado de ações e depois às bolhas de ativos, especialmente nos mercados imobiliários. Temos agora uma situação estranha em que, em todas as regiões metropolitanas do mundo que visitei, há um enorme boom na construção e nos preços dos ativos imobiliários – tudo isso está sendo alimentado pelo fato de que o dinheiro está sendo criado e não sabe para onde ir, exceto em especulação e valores de ativos.

Daniel Denvir

Sua formação é de geógrafo e, para você, a explicação do capitalismo de Marx é fundamentalmente sobre como lidar com problemas de espaço e tempo. Dinheiro e crédito são formas de resolver esses problemas. Explique por que esses dois eixos de espaço e tempo são tão críticos.

David Harvey

Por exemplo, a taxa de juros é sobre o desconto no futuro. E o empréstimo é sobre o encerramento do futuro. A dívida é uma reivindicação sobre a produção futura. Então o futuro está encerrado, porque temos que pagar nossas dívidas. Pergunte a qualquer aluno que deva US$ 200 mil: o futuro está encerrado, porque eles têm que pagar essa dívida. Esta exclusão do futuro é uma parte terrivelmente importante do que é o capital.

O material espacial entra em cena porque, na medida em que o capital começa a se expandir, sempre há a possibilidade de que, se não puder expandir em um determinado espaço, ele entra em outro espaço. Por exemplo, a Grã-Bretanha estava produzindo muito capital excedente no século XIX, então muito dele fluiu para a América do Norte, parte para a América Latina, e outra parte para a África do Sul. Então, há um aspecto geográfico nisso.

A expansão do sistema consiste em obter o que chamo de “correções espaciais”. Você tem um problema: tem excesso de capital. O que vai fazer com isso? Bem, tem uma correção espacial, o que significa que sai e constrói algo em outro lugar do mundo. Se tem um continente “instável” como a América do Norte no século XIX, então há vastas áreas em que pode se expandir. Mas agora a América do Norte está praticamente coberta.

A reorganização espacial não é simplesmente sobre expansão. É também sobre reconstrução. Temos a desindustrialização nos Estados Unidos e na Europa, e depois a reconfiguração de uma área por meio de redesenvolvimento urbano, de modo que as fábricas de algodão em Massachusetts se transformem em condomínios.

Estamos ficando sem espaço e tempo agora. Esse é um dos grandes problemas do capitalismo contemporâneo.

Daniel Denvir

Você falou sobre o futuro ser encerrado. Esse termo é aplicável quando se trata de dívidas em moradias, obviamente.

David Harvey

É por isso que acho que o termo “encerramento” [foreclosure] é muito interessante. Milhões de pessoas perderam suas casas na crise. Seu futuro foi encerrado. Mas, ao mesmo tempo, a economia da dívida não foi embora. Você pensaria que depois de 2007-8 haveria uma pausa na criação de dívidas. Mas, na verdade, o que se viu foi um enorme aumento da dívida.

O capitalismo contemporâneo está cada vez mais nos sobrecarregando com dívidas. Isso deveria dizer respeito a todos nós. Como será paga? E com que meios? E vamos acabar com mais e mais criação de dinheiro, que então não tem para onde ir além de especulação e valores de ativos?

É quando começamos a construir coisas para as pessoas investirem, não para as pessoas morarem. Uma das coisas mais surpreendentes sobre a China contemporânea, por exemplo, é que existem cidades inteiras que foram construídas e ainda não vividas. As pessoas compraram, porque é um bom investimento.

Daniel Denvir

É precisamente essa questão do crédito que levou você a emprestar uma frase de Jacques Derrida, “a loucura da razão econômica”. Coloquialmente, loucura e insanidade são invocadas para estigmatizar ou patologizar indivíduos com doença mental. Mas o que Marx e seu livro nos mostram é que o sistema é realmente insano.

David Harvey

A melhor medida disso é olhar para o que acontece em uma crise. O capital produz crises periodicamente. Uma das características de uma crise é que você tem excedentes de mão de obra – pessoas desempregadas, sem saber como ganhar a vida – ao mesmo tempo em que você tem excedentes de capital que não parecem encontrar um lugar para ir e obter uma taxa adequada de retorno. Você tem esses dois superávits sentados lado ao lado, numa situação em que a necessidade social é crônica.

Precisamos colocar capital e trabalho juntos para realmente criar coisas. Mas você não pode fazer isso, porque o que você deseja criar não é lucrativo e, se não for lucrativo, o capital não o faz. Entra em greve. Então, ficamos com o capital excedente e o trabalho excedente, lado a lado. Esse é o cúmulo da irracionalidade.

Somos ensinados que o sistema econômico capitalista é altamente racional. Mas não é. Na verdade, produz incríveis irracionalidades.

Daniel Denvir

Você escreveu em Jacobin recentemente que Marx rompeu com socialistas moralistas como Proudhon, Fourier, Saint-Simon e Robert Owen. Quem eram esses socialistas e por que e como Marx se separou deles?

David Harvey

Nos estágios iniciais do desenvolvimento capitalista, havia problemas óbvios de condições de trabalho. Pessoas razoáveis, incluindo profissionais e a burguesia, começaram a ver isso com horror. Uma espécie de repugnância moral contra o industrialismo se desenvolveu. Muitos dos primeiros socialistas eram moralistas, no bom sentido desse termo, e expressaram sua indignação ao dizer que podemos construir uma sociedade alternativa, baseada no bem-estar comunitário e na solidariedade social, e questões desse tipo.

Marx olhou para a situação e disse que, na verdade, o problema com o capital não é que seja imoral, mas que é quase amoral. Tentar confrontá-lo com a razão moral nunca vai muito longe, porque o sistema é autogerador e se auto-reproduz. Temos que lidar com essa auto-reprodução do sistema.

Marx adotou uma visão muito mais científica do capital e disse que agora precisamos realmente substituir todo o sistema. Não é apenas uma questão de limpar as fábricas – temos que lidar com o capital.

Daniel Denvir

Você viu O Jovem Karl Marx?

David Harvey

Eu vi o filme e a peça. Marx é um personagem do seu tempo e acho interessante olhar para ele dessa perspectiva.

Mas o que quero fazer é dizer, olhe – nós ainda estamos em uma sociedade impulsionada pela acumulação de capital. Marx abstraiu as particularidades de seu tempo e falou sobre a dinâmica da acumulação de capital e apontou para seu caráter contraditório – como, em sua força motriz, está aprisionando todos nós em dívidas. Marx disse que precisamos ir além do protesto moral. Trata-se de descrever um processo sistemático que precisamos enfrentar e entender a dinâmica do processo. Porque de outra forma as pessoas tentam criar algum tipo de reforma moral, e a reforma moral é então cooptada pelo capital.

É realmente fantástico que tenhamos a internet, que todos pensavam inicialmente como uma grande tecnologia libertadora que permitiria uma grande liberdade humana. Mas agora veja o que aconteceu com isso. Ela é dominada por alguns monopólios que coletam nossos dados e os dão a todos os tipos de personagens decadentes que a usam para fins políticos.

Algo que começou como uma verdadeira tecnologia libertadora de repente se transforma em um veículo de repressão e opressão. Se for feita a pergunta “como isso aconteceu?”, ou se diz que é por causa de algumas pessoas más que fizeram isso, ou, com Marx, que é o caráter sistemático do capital sempre fazer isso.

Não existe uma ideia moral boa que o capital não possa cooptar e transformar em algo horrendo. Quase todo esquema utópico que surgiu no horizonte nos últimos cem anos foi transformado em uma distopia pela dinâmica capitalista. É para isso que Marx aponta. Ele está dizendo: “Você tem que lidar com esse processo. Se você não fizer isso, não criará um mundo alternativo capaz de proporcionar liberdade humana a todos.”

Daniel Denvir

Vamos falar sobre as contradições desse processo. Marx era um feroz crítico do capitalismo, mas também era um admirador de seus poderes de destruição criativa. Ele pensou, por exemplo, que o capitalismo era uma grande melhoria sobre o feudalismo. Como devemos pensar nesses poderes destrutivos hoje? Muito do que o capitalismo destrói é bastante óbvio. Por outro lado, precisamos levar em conta o aumento da renda em lugares como a China e a Índia, e esse processo massivo de construção de infraestrutura que está acontecendo em países como esses. Como você aborda esses processos contraditórios?

David Harvey

Você está certo em mencionar isso, porque Marx não é simplesmente um crítico do capitalismo, ele também é fã de algumas das coisas que o capitalismo constrói. Essa é a maior contradição de todas para Marx.

O capital construiu a capacidade, tecnológica e organizacional, para criar um mundo muito melhor. Mas o faz através de relações sociais de dominação, em vez de emancipação. Essa é a contradição central. E Marx continua dizendo: “Por que não usamos toda essa capacidade tecnológica e organizacional para criar um mundo que é libertador, em vez de um que é dominador?”

Daniel Denvir

Uma contradição relacionada é como os marxistas devem pensar sobre o atual debate sobre a globalização, que se tornou mais confuso do que nunca. Como você acha que a esquerda deveria olhar para o debate sobre o protecionismo de Trump, de uma forma diferente dos economistas?

David Harvey

Marx realmente aprovou a globalização. No Manifesto Comunista há uma passagem maravilhosa que fala sobre isso. Ele vê isso como potencialmente emancipatório. Mas, novamente, a questão é por que essas possibilidades emancipatórias não são assumidas. Por que elas são usadas como meio de dominação de uma classe por outra? Sim, é verdade que algumas pessoas no mundo melhoraram suas rendas, mas oito homens têm tanta riqueza quanto cerca de 50% da população mundial.

Marx está dizendo que temos que fazer algo sobre isso. Mas, ao fazê-lo, não nos sentimos nostálgicos e dizemos: “queremos voltar ao feudalismo” ou “queremos ir viver da terra”. Temos que pensar em um futuro progressivo, usando toda a tecnologia que temos, mas usá-las para um propósito social, em vez de aumentar a riqueza e o poder, e concentrá-los num número cada vez menor de mãos.

Daniel Denvir

Qual é mesmo a razão por que Marx rompeu com seus contemporâneos socialistas românticos? Em termos do que as teorias econômicas liberais e os economistas tradicionais ignoram sobre tudo isso, você cita uma passagem de Marx: “Toda razão que eles – os economistas – colocam contra a crise é uma contradição exorcizada e, portanto, uma contradição real. O que pode causar crises. O desejo de se convencer da inexistência de contradições é ao mesmo tempo a expressão de um desejo piedoso de que as contradições, que estão realmente presentes, não deveriam existir”.

O que é que a economia mainstream se propõe a fazer? E o que eles elidem ou escondem no processo?

David Harvey

Eles odeiam contradições. Não se encaixa com a visão de mundo deles. Os economistas gostam de enfrentar o que chamam de problemas, e os problemas têm soluções. Contradições não. Elas existem com você o tempo todo e, portanto, você precisa administrá-las.

Elas se intensificam naquilo que Marx chamou de “contradições absolutas”. Como os economistas lidam com o fato de que na crise dos anos 1930 ou 1970 ou mais recentemente, o capital excedente e o excedente de trabalho se encontram lado a lado, e ninguém parece ter uma pista para resolver isso. Como recolocá-los para que possam trabalhar para fins socialmente produtivos?

Keynes tentou fazer algo sobre isso. Mas, em geral, os economistas não têm ideia de como lidar com essas contradições. E Marx está dizendo que esta contradição está na natureza da acumulação do capital. E essa contradição então produz essas crises periodicamente, que reclamam vidas e criam miséria.

Esses tipos de fenômenos devem ser abordados. E a economia não tem uma maneira muito boa de pensar sobre eles.

Daniel Denvir

Em termos dessa contradição, você descreve em seu livro “capital excedente e mão-de-obra excedente existentes lado a lado, aparentemente sem maneira de juntá-los novamente.” Depois da recente crise, como essas duas coisas – capital excedente e mão-de-obra excedente – reaqueceram? E a maneira pela qual elas se juntaram resultou em uma nova forma de capitalismo, distinta daquela que prevalecia antes da crise? Ainda estamos vivendo sob o neoliberalismo ou algo novo foi criado?

David Harvey

A resposta à crise de 2007-2008 foi para, na maior parte do mundo – exceto na China – adotar uma política de austeridade neoliberal. O que piorou as coisas. Desde então, tivemos mais cortes. Não funcionou muito bem. Lentamente, o desemprego caiu nos Estados Unidos, mas é claro que disparou em lugares como o Brasil e a Argentina.

Daniel Denvir

E o crescimento salarial é bem lento.

David Harvey

Sim, os salários não saíram do lugar. Então, há o que a administração Trump vem fazendo. Primeiro, seguiu algumas políticas muito neoliberais. O orçamento que aprovaram em dezembro passado é um documento neoliberal puro. Isso basicamente beneficia os detentores de bônus e os donos de capital, e todos os outros são empurrados para o lado. E a outra coisa que aconteceu é a desregulamentação, que os neoliberais gostam. A administração Trump dobrou a desregulamentação – do meio ambiente, das leis trabalhistas e de tudo mais. Então, na verdade, houve uma duplicação nas soluções neoliberais.

O argumento neoliberal teve muita aceitação nas décadas de 1980 e 1990 como sendo de algum modo libertador. Mas ninguém acredita mais nisso. Todo mundo percebe que é uma trapaça na qual os ricos ficam mais ricos e os pobres ficam mais pobres.

Mas estamos começando a ver o possível surgimento de um protecionismo étnico-nacionalista-autárquico, que é um modelo diferente. Isso não se encaixa muito bem com os ideais neoliberais. Poderíamos estar nos dirigindo para algo que é muito menos agradável do que o neoliberalismo – a divisão do mundo em facções guerreiras e protecionistas que estão lutando entre si pelo comércio e tudo mais.

O argumento de alguém como Steve Bannon [um assessor de Donald Trump – JCR] é que precisamos proteger os trabalhadores da América contra a competição no mercado de trabalho, limitando a imigração. Em vez de culpar o capital, culpa os imigrantes. A segunda coisa é dizer que também podemos obter apoio dessa população criando tarifas protecionistas e culpando a concorrência chinesa.

Na verdade, você tem uma política de direita que está ganhando muito apoio sendo anti-imigração e anti-offshoring. Mas o fato é que o maior problema dos empregos não é o offshoring, é a mudança tecnológica. Cerca de 60% ou 70% do desemprego que ocorreu a partir dos anos 80 deveu-se à mudança tecnológica. Talvez 20% ou 30% foi devido ao offshoring.

Mas a ala direita agora tem uma política. Essa política não está apenas acontecendo nos Estados Unidos, mas na Hungria, na Índia, até certo ponto, na Rússia. A política autoritário-nacionalista está começando a dividir o mundo capitalista em facções em conflito. Nós sabemos o que aconteceu com esse tipo de coisa na década de 1930, então devemos estar muito preocupados. Não é uma resposta ao dilema do capital. Na medida em que o etnonacionalismo conquiste o neoliberalismo, estaremos em um mundo ainda mais feio do que já estivemos.

Daniel Denvir

Essas contradições são poderosas dentro da coalizão governamental conservadora nos EUA, mas acho que é um erro quando as pessoas as vêem como novas. Elas estão latentes há muito tempo.

David Harvey

Oh sim. Por exemplo, na Grã-Bretanha, no final dos anos 1960, havia o discurso de Enoch Powell (conservador e ministro da Saúde no Reino Unido, na década de 1960 – JCR) que falava sobre “rios de sangue” se continuássemos com a política de imigração. O fervor anti-imigrante já existia há muito tempo.

Mas conseguiu, durante os anos 1980 e 1990, ser mantido em segredo porque havia dinamismo suficiente na economia capitalista global para as pessoas dizerem: “esse regime de livre comércio e políticas de imigração razoavelmente benignas estão trabalhando para nós.” Desde então, mudou de direção.

Daniel Denvir

Você mencionou o enorme poder da automação. O que Marx diz sobre automação e o que você faz dela? O fim do trabalho está realmente próximo?

David Harvey

Eu vim para os Estados Unidos em 1969 e fui para Baltimore, onde havia enormes empresas de ferro e aço que empregavam cerca de trinta e sete mil pessoas. Em 1990, a siderurgia ainda produzia a mesma quantidade de aço, mas empregava cerca de cinco mil pessoas. Agora o trabalho do aço praticamente desapareceu. O ponto é que, na manufatura, a automação expulsou empregos por atacado, em todo lugar, muito rapidamente. A esquerda passou muito tempo tentando defender esses trabalhos e lutou contra a ação de retaguarda contra a automação.

Essa foi uma estratégia errada por algumas razões. A automação estava chegando de qualquer maneira, e você ia perder. Em segundo lugar, não vejo por que a esquerda deveria se opor absolutamente à automação. A posição de Marx, na medida em que ele tinha uma, seria que deveríamos usar essa inteligência artificial e automação, mas deveríamos fazê-lo de uma maneira que aliviasse a carga de trabalho.

A esquerda deveria estar trabalhando em uma política na qual diria: “damos as boas-vindas à inteligência artificial e à automação, mas elas devem nos dar muito mais tempo livre”. Uma das grandes coisas que Marx sugere é que o tempo livre é uma das coisas mais emancipatórias que podemos ter. Ele tem uma boa frase: o reino da liberdade começa quando o reino da necessidade é ultrapassado. Imagine um mundo em que as necessidades pudessem ser atendidas. Um ou dois dias por semana de trabalho, e o resto do tempo é tempo livre.

Agora, temos todas essas inovações que poupam trabalho na produção e também no lar. Mas se perguntar às pessoas, você tem mais tempo livre do que antes?, a resposta é: “não, eu tenho menos tempo livre”. Temos que organizar tudo isso para que possamos ter o máximo de tempo livre possível. Esse é o tipo de imaginação de uma sociedade que Marx tem em mente. E é uma ideia óbvia.

O que está nos impedindo é que todas essas coisas estão sendo usadas para sustentar os lucros do Google e da Amazon. Até lidarmos com as relações sociais e as relações de classe por trás de tudo isso, não poderemos usar esses dispositivos e oportunidades fantásticos de maneira que beneficiam a todos.

Daniel Denvir

O que você acha dos esquemas de renda básica universal?

David Harvey

No Vale do Silício, eles querem uma renda básica universal para que as pessoas tenham dinheiro suficiente para pagar pela Netflix. Que tipo de mundo é esse? Fale sobre uma distopia. A renda básica universal é uma coisa, o problema é o Vale do Silício e aquelas pessoas que estão monopolizando os meios de comunicação e entretenimento.

A renda básica universal em algum momento pode estar na agenda, mas não coloco isso no topo das minhas prioridades políticas. Na verdade, existem aspectos que têm possibilidades altamente negativas, como sugere o modelo do Vale do Silício.

Daniel Denvir

Você acha que a mudança climática coloca limites claros à expansão permanente exigida pelo capitalismo, ou o capitalismo será capaz de resistir à crise climática?

David Harvey

O capital poderia resistir à crise da mudança climática. De fato, se você olhar para os desastres climáticos, o capital pode transformar isso no que Naomi Klein chama de “capitalismo de desastre”. Você tem um desastre, bem, você tem que reconstruir. Isso dá muitas oportunidades para o capital se recuperar de forma lucrativa de desastres climáticos.

Do ponto de vista da humanidade, acho que não sairemos bem disso. Mas o capital é diferente. O capital pode sair dessas coisas e, desde que seja lucrativo, ele fará isso.

Daniel Denvir

Vamos falar sobre resistência. Você escreve que produção e consumo são as duas facetas centrais do capitalismo, e que lutas sociais e políticas contra o poder do capital, dentro da totalidade da circulação do capital, tomam formas diferentes e exigem diferentes tipos de alianças estratégicas, para terem sucesso.

Como devemos pensar sobre a relação entre as lutas trabalhistas, por um lado, e as lutas contra o Estado – contra o encarceramento em massa, contra despejos de moradores ou empréstimos predatórios – por outro?

David Harvey

Uma das virtudes de olhar o capital como uma totalidade e pensar em todos os aspectos da circulação do capital é que você identifica diferentes arenas de luta. Por exemplo, a questão ambiental. Marx fala sobre a relação metabólica com a natureza. Portanto, a luta pela relação com a natureza torna-se politicamente significativa. Neste momento, muitas pessoas que estão preocupadas com a questão ambiental dirão: “podemos lidar com isso sem confrontar a acumulação de capital”.

Eu me oponho a isso. Num certo ponto, teremos que lidar com a acumulação de capital, que representa um crescimento de cerca de 3% para sempre, como uma questão ambiental clara. Não haverá uma solução para a questão ambiental sem confrontar a acumulação de capital.

Existem outros aspectos também. O capital tem sido a produção de novos desejos e necessidades. Tem sido a produção do consumismo. Acabo de voltar da China e notei que em apenas três ou quatro anos houve um imenso aumento do consumismo. Isto é o que o Banco Mundial e o FMI estavam aconselhando aos chineses há vinte anos, dizendo: “você está economizando muito e não está consumindo o suficiente”. Agora os chineses estão iniciando uma verdadeira sociedade de consumo, e isso significa que os desejos e necessidades das pessoas estão sendo transformados. Vinte anos atrás, na China, o que você queria, precisava e desejava era uma bicicleta, e agora você precisa de um automóvel.

Existem várias maneiras de fazer isso. Os “homens loucos” da publicidade têm seu papel a desempenhar, mas ainda mais importante é a invenção de novos estilos de vida. Por exemplo, uma das maneiras pelas quais o capital saiu do seu dilema em 1945 nos Estados Unidos foi através da suburbanização, que é a criação de um novo estilo de vida. Na verdade, o que descobrimos é que a criação de estilo de vida não é uma escolha.

Todos temos telefones celulares. Essa é a criação de um estilo de vida, e esse estilo de vida não é algo que eu possa escolher individualmente para entrar ou sair – tenho que ter um telefone celular, mesmo que não saiba como a maldita coisa funciona.

Não é como se, no passado, alguém estivesse desejando, querendo ou precisando de um celular. Essa necessidade surgiu por uma razão em particular, e o capital encontrou uma maneira de organizar um estilo de vida em torno disso. Agora estamos presos a esse estilo de vida. Consulte novamente o processo de suburbanização. O que você precisa nos subúrbios? Você precisa de um cortador de grama. Se você fosse inteligente em 1945, teria entrado na produção de cortadores de grama porque todos precisavam de um para cortar a grama.

Agora, há revoltas contra certas coisas que acontecem. As pessoas começam a dizer: “queremos fazer algo diferente”. Encontro pequenas comunidades em todo lugar nas áreas urbanas e também nas áreas rurais, onde as pessoas estão tentando criar um estilo de vida diferente. As que mais me interessam são aquelas que usam novas tecnologias, como o celular e a internet, para criar um estilo de vida alternativo com diferentes formas de relações sociais do que aquelas características de corporações, com estruturas hierárquicas de poder, que encontramos em nosso dia a dia.

Lutar por um estilo de vida é bastante diferente do que lutar por salários ou condições de trabalho em uma fábrica. Há, no entanto, do ponto de vista da totalidade, uma relação entre essas diferentes lutas. Estou interessado em fazer com que as pessoas vejam como a luta pelo meio ambiente, a produção de novos desejos e necessidades e o consumismo estão relacionados às formas de produção. Coloque todas essas coisas juntas e você terá uma imagem da totalidade do que é uma sociedade capitalista, e os diferentes tipos de insatisfações e alienações que existem nos diferentes componentes da circulação do capital que Marx identifica.

Daniel Denvir

Como você vê a relação entre as lutas contra o racismo e essas lutas contra a produção e o consumo?

David Harvey

Dependendo de onde você está no mundo, essas questões são fundamentais. Aqui nos Estados Unidos, esta é uma questão muito grande. Você não terá o mesmo problema se observar o que está acontecendo na China. Mas aqui, as relações sociais são sempre marcadas por questões de gênero, raça, religião, etnia e afins.

Portanto, você não pode lidar com a questão da produção de estilos de vida ou a produção de desejos e necessidades sem englobar a questão do que acontece nos mercados imobiliários racializados e como a questão racial é então utilizada de várias maneiras. Por exemplo, quando me mudei para Baltimore, uma das coisas que estava acontecendo era o blockbusting – o uso, pelo setor imobiliário, de disparidades raciais para forçar a fuga dos brancos e capitalizar a alta rotatividade no mercado imobiliário como uma forma de obter vantagem econômica.

As questões de gênero que surgem em torno de questões de reprodução social também são primordiais em uma sociedade capitalista, não importa onde você esteja. Essas questões estão embutidas na acumulação de capital.

Quando estou falando sobre isso, muitas vezes tenho problemas porque parece que a acumulação de capital é mais importante do que esses outros aspectos. A resposta é que não, não é esse o caso. Mas os anti-racistas precisam lidar com a maneira pela qual a acumulação de capital interfere na política antirracista. E com a relação entre esse processo de acumulação e a perpetuação de distinções raciais.

Aqui nos Estados Unidos, temos todo um conjunto desses tipos de perguntas, que são de suma importância. Mas, novamente, elas podem ser tratadas sem que, em algum momento, se lide com a maneira pela qual a acumulação de capital está promovendo e perpetuando algumas dessas distinções? A resposta para isso, para mim, é não. Eu não acho que isso seja possível. A certa altura, os anti-racistas também precisam ser anticapitalistas se quiserem chegar à raiz real de muitos dos problemas.

Daniel Denvir

Você é bem conhecido pelo seu trabalho acadêmico, mas talvez seja mais conhecido como professor de Marx. Por que você acha importante que os esquerdistas de fora da academia se envolvam com o trabalho sobre Marx?

David Harvey

Quando você está envolvido em ação política e no ativismo, você geralmente tem um alvo muito específico. Vamos dizer, envenenar a tinta no centro da cidade. Você está organizando o que fazer com o fato de que 20% das crianças no centro de Baltimore sofrem de envenenamento por tinta de chumbo. Você está envolvido em uma batalha legal e na luta com lobbies de proprietários e com todos os tipos de oponentes. A maioria das pessoas que conheço envolvidas em formas ativistas desse tipo estão tão preocupadas com os detalhes do que estão fazendo que muitas vezes esquecem onde estão no quadro geral – das lutas de uma cidade, quanto mais no mundo.

Muitas vezes você acha que as pessoas precisam de ajuda de fora. Essa coisa de tinta de chumbo é muito mais fácil de lidar se você tem todas as pessoas envolvidas no sistema educacional, que vêem crianças em escolas com problemas com envenenamento por tinta de chumbo. Você começa a construir alianças. E quanto mais alianças você puder construir, mais poderoso seu movimento se torna.

Eu tento não ensinar as pessoas sobre o que elas devem pensar, mas tente criar uma estrutura de pensamento, para que as pessoas possam ver onde estão na totalidade de relacionamentos complicados que compõem a sociedade contemporânea. Então, as pessoas podem formar alianças em torno dos problemas com os quais estão preocupadas e, ao mesmo tempo, mobilizar seus próprios poderes para ajudar outras pessoas em suas alianças.

Tenho apostando na construção de alianças. Para construir alianças, você precisa ter uma imagem da totalidade de uma sociedade capitalista. Na medida em que você pode obter um pouco disso estudando Marx, acho que é útil.

Colaboradores

David Harvey é um distinto professor de antropologia e geografia no Graduate Center da City University of New York. Seu último livro é The Ways of the World.

Daniel Denvir é autor de All-American Nativism e apresentador de The Dig na Jacobin Radio.

9 de julho de 2018

O capitalismo está arruinando a ciência

A sorrateira mercantilização tem criado incentivos perversos para os pesquisadores – causando corrupção generalizada da própria Ciência.

Meagan Day


Sala de aulas na Universidade de Cornell, em torno de 1910. Coleção de raridades e manuscritos da Universdade de Cornell.

Tradução / A universidade existia antes do capitalismo e tem, algumas vezes, resistido à obediência aos ditames do mercado capitalista, buscando não o lucro, mas a verdade e o conhecimento. Mas o capitalismo devora tudo o que pode, e à medida que amplia sua dominação, não surpreende que a universidade moderna se torne cada vez mais subserviente ao que Ellen Meiksins Wood chama “os ditames do mercado capitalista – seus imperativos de competição, acumulação, maximização de lucros, e crescente produtividade do trabalho. ”

Na academia, esse imperativo se manifesta de maneiras visíveis: publicar ou perecer, financiamento ou fome.

Sem investimento público, as universidades são compelidas a seguir as regras do setor privado, ou seja, operar como empresas. Nas empresas, é claro, tudo têm a ver com o resultado final – e a saúde dos resultados depende da maximização do lucro, o que por sua vez depende de uma avaliação cuidadosa e constante das entradas e saídas. O resultado para a Ciência acadêmica, de acordo com os pesquisadores Marc A. Edwards e Siddhartha Roy em seu artigo ‘Academic Research in the 21st Century: Maintaining Scientific Integrity in a Climate of Perverse Incentives and Hypercompetition’ [“Pesquisa Acadêmica no Século 21: Mantendo a Integridade Científica em um Clima de Incentivos Perversos e Hipercompetição”], tem sido a introdução de um novo regime quantitativo de métricas de desempenho, que controlam quase tudo o que pesquisadores científicos fazem e têm impactos observáveis em suas práticas de trabalho.

Essas métricas e padrões de referência incluem “contagem de publicações, citações, contagens combinadas de publicação e citações (por exemplo, ‘índice H’), fatores de impacto de periódicos (JIF), total de dólares de pesquisa e totais de patentes.” Edwards e Roy observam que “essas métricas quantitativas agora dominam a tomada de decisões na contratação e promoção nas faculdades, além de titulação, prêmios e financiamento.” Como resultado, os cientistas acadêmicos são cada vez mais motivados por um desejo frenético de conseguir que suas pesquisas sejam financiadas, publicadas e citadas. “A produção científica medida pelo trabalho citado tem duplicado a cada 9 anos desde a Segunda Guerra Mundial”, observam Edwards e Roy.

Mas quantidade não se traduz em qualidade. Pelo contrário, Edwards e Roy rastrearam o efeito de métricas quantitativas de desempenho na qualidade da pesquisa científica e descobriram que ela tem um efeito prejudicial. Como resultado dos sistemas de recompensas que incentivam o volume de publicações, os artigos científicos têm se tornado mais curtos e menos abrangentes, ostentando “métodos pobres e aumento das taxas de falsas descobertas”. Em resposta à crescente ênfase nas citações do trabalho nas avaliações profissionais, as listas de referência ficaram inchadas para atender às necessidades de carreira, com um número crescente de revisores solicitando que seu próprio trabalho seja citado como condição de publicação.

Enquanto isso, o sistema que recompensa financiamento vultosos em doações com mais oportunidades profissionais resulta em cientistas gastando tempo desproporcional escrevendo propostas de financiamento e exagerando os resultados positivos de suas pesquisas para chamar a atenção de financiadores. Da mesma forma, quando universidades recompensam departamentos por um alto nível de classificação, os departamentos são incentivados a “fazer engenharia reversa, manipular e enganar os rankings”, corroendo a integridade das próprias instituições científicas.

As consequências sistêmicas do incremento na pressão do mercado sobre a ciência acadêmica são potencialmente catastróficas. Como Edwards e Roy escrevem, “a combinação de incentivos perversos e diminuição do financiamento aumenta pressões que podem levar a um comportamento antiético. Se um número suficiente de cientistas se tornar indigna de confiança, é possível um ponto de inflexão no qual o próprio empreendimento científico se torna inerentemente corrupto e a confiança pública se perde, arriscando o surgimento de uma nova idade das trevas com conseqüências devastadoras para a humanidade. ” A fim de manter credibilidade, os cientistas precisam manter a integridade – e a hipercompetição está minando essa integridade, potencialmente minando todo esse esforço.

Além do mais, cientistas que estão preocupados em buscar subsídios e citações perdem oportunidades de contemplação cuidadosa e exploração profunda, que são necessárias para tratar de questões complexas. Peter Higgs, o físico teórico britânico que em 1964 previu a existência da partícula do bóson de Higgs, disse ao jornal Guardian, ao receber o Prêmio Nobel em 2013, que ele nunca teria sido capaz de fazer sua descoberta no atual ambiente acadêmico.

“É difícil imaginar como eu poderia encontrar paz e tranquilidade suficientes no clima atual para fazer o que fiz em 1964”, disse Higgs. “Hoje eu não conseguiria um emprego acadêmico. Simples assim. Eu não acho que seria considerado suficientemente produtivo.”

No final de sua carreira, Higgs disse que se tornou “um embaraço para o departamento quando faziam exercícios de avaliação de pesquisa. O departamento de Física da Universidade de Edimburgo enviava uma mensagem dizendo: ‘Por favor, nos dê uma lista de suas publicações recentes’… Eu devolvia uma declaração: ‘Nenhuma’.” Higgs disse que a universidade o manteve, apesar de sua produtividade insuficiente, apenas na esperança de que ele ganhasse o Prêmio Nobel, o que seria um benefício para a universidade no ambiente contemporâneo de vida-ou-morte.

Quando os ditames competitivos do capitalismo – vender seu trabalho se você for um trabalhador, maximizar o lucro se você for um chefe – reinam sobre tudo o mais, buscas alternativas são inevitavelmente frustradas, não importa quão nobres sejam. Um objetivo nobre da academia de Ciências, por exemplo, é fornecer os recursos e encorajamento para as pessoas realizarem experimentos rigorosos que engrandecerão o conhecimento coletivo sobre o mundo em que vivemos. Mas essas aspirações sofrem, conforme administrações de mentalidade ‘austera’ fecham a torneira do financiamento federal para universidades e pesquisa, e instituições reagem mudando seus modelos de financiamento para se manter à tona.

Edwards e Roy observam que a hipercompetição causada pela proliferação de métricas de desempenho faz com que os cientistas acadêmicos enfatizem a quantidade em detrimento da qualidade; os incentiva a tomar atalhos e seleciona os intelectuais com uma mentalidade mais voltada para a carreira do que para a Ciência. Em suma, os ditames do mercado capitalista (“competição, acumulação, maximização do lucro e crescente produtividade do trabalho”) prejudicam a integridade científica e a busca coletiva de conhecimento.

Edwards e Roy recomendam várias reformas, principalmente focar em métricas quantitativas mais relaxadas e na prevenção de má conduta de pesquisa. No entanto, com toda a probabilidade, os problemas continuarão até que a causa raiz seja resolvida – isto é, até que o capitalismo não mais domine a universidade e a sociedade que a sustenta.

Sobre a autora

Meagan Day faz parte da equipe de articulistas da Jacobin.

8 de julho de 2018

Ser honesto sobre a Venezuela

Enquanto o governo cada vez mais antidemocrático de Nicolás Maduro luta contra forças violentas de direita, os venezuelanos comuns estão vendo os ganhos do chavismo desaparecerem.

Mike Gonzalez


Ivan Luca Perinaj / Flickr

Tradução / A Venezuela aprofunda sua crise política e econômica a cada dia. O número de mortos aumenta sem cessar, e não há sinais de que a violência nas ruas diminua.

Em 27 de junho, saqueadores vandalizaram a cidade de Macaray; queimaram lojas, paradas de ônibus, prédios do governo e residências numa única noite. Dois dias depois, foi a vez da cidade de Barquisimeto.

A mídia internacional, imensamente hostil ao processo Bolivariano, faz chacota com a retórica do presidente Nicolás Maduro ao mesmo tempo que retrata os partidos de direita, responsáveis pela onda de violência, como defensores da democracia. Aparentemente é uma democracia que permite toda uma população a cair na pobreza e moléstia. Com quase um milhão de pessoas deixadas à morte nas ruas.

Enquanto isso, a esquerda no Brasil e mundo afora aceitava e concordava com as explicações que os porta-vozes do governo tinham a oferecer; ainda acreditavam que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Portanto, quando um helicóptero atacou os prédios do governo em 18 de junho, muitos simplesmente incluíram o incidente no histórico de violência provocada pela direita.

Mas a história é mais complicada que isso.

Oscar Pérez, um oficial aposentado dos serviços de segurança estadual, era quem pilotava o helicóptero. Pérez era próximo com o ex-Ministro do Interior Miguel Rodríguez Torres, exonerado por Maduro em 2014. Torres, assim como a maioria do atual gabinete e governadores, serve ao Exército. Ele também é líder de uma das várias facções chavistas que atualmente almejam o poder.

Por trás de uma aparente união dentro do governo, cresce uma outra batalha, mas nenhum desses grupos está lutando para continuar o projeto revolucionário ou reconstruir um movimento popular de massa como o que salvou o governo em 2002 da tentativa de golpe político-midiático (assista ao documentário que trata deste episódio abaixo) e das “greves dos patrões”.

A oposição também está dividida em facções rivais. Alguns defendem um diálogo com o presidente, enquanto outros, em especial o grupo liderado por Leopoldo Lopes e sua mulher Liliana Tintori, apoiam manifestações violentas nas ruas. Para estes, não basta a derrubada de Maduro, mas do Chavismo por completo.

A maioria dos venezuelanos sabe quem são os atores no campo da direita: pertencem às famílias mais ricas e poderosas do país e que controlavam a economia até a chegada de Chávez. Desde as primeiras barricadas, Maduro tentou trabalhar junto a esses representantes da direita. Em 2014, por exemplo, ele se aproxima de Lorenzo Mendonza, líder da empresa multinacional Polar e um dos homens mais ricos da Venezuela.

Gustavo Cisneros, outro membro das elites, permaneceu intocado nos quase vinte anos de Chavismo. Recentemente afirmou que a Venezuela precisava de um Macri, fazendo referência ao presidente neoliberal da Argentina (cujo governo desastroso já tratamos aqui). O que Cisneros fala provavelmente resume o objetivo estratégico da direita no país.

Enquanto a crise econômica se agrava, fica cada vez mais claro que nem o governo nem a oposição possuem uma proposta de solução verdadeira. Enquanto Maduro trai a revolução se envolvendo com a burguesia e regredindo a uma tendência mais neoliberal, as forças de direita traziam mercenários para praticar violência e desestabilizar o país ainda mais. Enquanto estes grupos se matam pelo poder, o cidadão ordinário vê seus ganhos conquistados no período chavista desaparecerem.

A crise

A profundidade da crise venezuelana não pode ser subestimada. Os níveis de pobreza, que há três anos estavam em queda, agora ameaçam voltar ao nível de 2012.

A inflação anual passou dos 700%, e o valor real dos salários não para de cair. Ao fim do ano passado, o sindicato dos docentes fez uma estimativa de que precisariam de dezessete salários-mínimos para comprar artigos e serviços básicos necessários para um padrão de vida digno. A escassez dos medicamentos mais básicos, sem contar os insumos no sistema de saúde, piora a situação ainda mais. Os clamores por remédios que se ouvem diariamente nas rádios locais dizem tudo.

Aqueles que carregam o peso da crise são os mesmos que defendiam ardentemente a Revolução Bolivariana de Chávez e sua promessa de que a riqueza do petróleo deveria ir para programas sociais de saúde, educação e moradia. Chávez prometeu investir os excedentes para o futuro, diversificando a economia e retirando o país da dependência do petróleo.

Este projeto falhou. Hoje, 95% das receitas externas venezuelanas vêm do petróleo, contra 67% há vinte anos. Enquanto isso, seu PIB caiu 18% com o colapso da produção agrícola e industrial em vários setores. Sua reserva monetária caiu para 40% do que havia em 2012. Quase 90% da população não tem dinheiro suficiente para comprar alimentos, o que explica a queda de peso média de 8 quilos experimentada pela população. O consumo de leite caiu pela metade. Não há ainda dados disponíveis sobre o impacto da escassez de medicamentos.

A situação já era séria quando os venezuelanos foram às urnas para as eleições da Assembleia Nacional em dezembro de 2015, quando a direita ganhou quase a maioria de dois terços.

Este resultado não representa uma súbita mudança ideológica. Na verdade, dois milhões de eleitores chavistas se abstiveram — um sinal, para os líderes do governo, de decepção e desespero daqueles que tiveram que esperar horas para receber produtos básicos a preços estratosféricos.

Apesar de não se ter acesso a dados — já que o Banco Nacional parou de publicar informações econômicas — a população consegue ver as desigualdades voltarem a crescer. Ano passado, o ex-Ministro das Finanças de Chávez, Jorge Giordani, comunicou à imprensa o desaparecimento de $500 bilhões dos cofres governamentais. Confirmou o que todos sabiam: o Chavismo abriu várias oportunidades para a corrupção e fraudes, com o desvios de verbas estatais para contas bancárias privadas, promovidos pela burocracia estatal.

O sistema de câmbio complexo imposto pelo governo permitia aos importadores comprar dólares por uma taxa baixíssima — cerca de 12 bolívares por dólar até recentemente — e vender os produtos importados a preços do mercado internacional centenas de vezes mais caros. Muitas destas mercadorias passavam pela Venezuela diretamente para a Colômbia, onde a margem de lucro aumentava. Banqueiros, burocratas, agentes da alfândega e da Guarda Nacional, todos faturavam uma parte neste esquema. Fortunas foram feitas por estas rotas.

Era de se esperar que comerciantes burgueses escondessem estoques e aumentassem seus preços deliberadamente, ou que setores industriais e financeiros retirassem capitais do país para debilitar sua economia. O que surpreendeu a muitos foi descobrir que aqueles responsáveis por transformar o Estado venezuelano — atacando a corrupção e promovendo políticas de redistribuição — também embolsaram sua parte.

Pouco antes de sua morte em 2013, Chávez escreveu um prefácio para o Plano Nacional de 2013–2019 admitindo que as coisas não mudaram e clamando por uma “guinada” para uma nova direção. Infelizmente, aqueles em quem contava para esta ação já estavam imersos na burocracia estatal e se beneficiando da corrupção sistêmica instaurada.

O defensores do Chavismo dirão que a queda do preço do petróleo foi a causa da crise, mas isso não é verdade. O período de boom, anterior à queda de rentabilidade com o petróleo, deveria ter sido usado para acumular uma poupança suficiente para lidar com o período de crise e até mais, como Manuel Sutherland demonstrou cuidadosamente em artigo (e como a Bolívia demonstrou na prática).

O governo baseava seu Orçamento na venda de petróleo a sessenta dólares por barril, mesmo quando os preços de mercado chegavam ao dobro disso. Esta renda adicional ainda era drenada por um sistema corrupto que o Estado chavista gerenciava e sustentava.

É claro que a burguesia também se beneficiou disso. Com entusiasmo, eles se aproximavam da nova elite chavista para fraudar contratos públicos, especular no mercado de câmbio e remeter os lucros ao exterior.

Uma edição recente da revista espanhola Tiempo publicou manchete intitulada “A invasão venezuelana”. O artigo não falava sobre a crise de imigração no país, como se poderia imaginar, mas celebrava a vinda de famílias ricas venezuelanas que agora investem na Espanha. Os nomes são familiares — Capriles, Cohen, Otero Silva, Baute — suas fortunas vieram do setor de farmacêuticos, mídia, varejo, restaurantes e do comércio de ouro. A revista nos conta que os ricos estão bem instalados nos distritos mais ricos de Madrid, protegidos do colapso social em seu país de origem.

A crise venezuelana representa uma rejeição total da revolução Bolivariana: os ganhos e conquistas feitas para os pobres subitamente desapareceram enquanto a elite capitalista manteve seu poder e riqueza.

Em vez de mobilizar para combater a crise, Maduro e seu governo se mobilizaram para a própria proteção.

Revolução às avessas

Maduro com representante da corporação canadense Gold Reserve: exigindo uma indenização de US$ 759 milhões, a empresa aceitou explorar o Arco Minero, o que provocará tragédias ambientais e violará direitos indígenas.

Em nenhum momento, durante a crise, o governo Maduro tomou qualquer atitude contundente; ao contrário, suas respostas foram todas caóticas. Substituindo ministros com frequência e anunciando comissões passageiras e descartáveis. Suas ações pareciam mais focadas para resolver embates internos do que para resolver os problemas da pobreza e descontentamento crescentes.

Dito isto, podemos acentuar três traços principais da atuação do governo recentemente: a restauração de investimentos estrangeiros em indústrias extrativas; uma maior militarização do governo; e a transformação do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) em instrumento de controle político.

Maduro sugeriu uma solução para o rombo nas contas do governo: o Arco Minero, região venezuelana da Amazônia. A área representa 12% do território nacional e dispõe de rica cornucópia de minerais, petróleo e gás. Fora disso, é o principal fornecedor de água potável do país.

Chávez havia rejeitado a proposta há alguns anos por razões ambientais e reconhecimento dos direitos humanos e territoriais das comunidades indígenas locais. Porém, nos últimos meses, Maduro iniciou negociações com multinacionais para leiloar concessões.

Sua primeira oferta foi à Barrick, uma grande mineradora de ouro canadense que fora expulsa da Venezuela uma década atrás. Quando Chávez nacionalizou as minas, a companhia mineradora exigiu centenas de milhões de dólares em compensações. Agora, como gesto de boa-vontade, Maduro concordou no pagamento desta dívida, além de oferecer incentivos fiscais por dez anos e desenvolver a infraestrutura regional às custas do Estado.

Já podemos antever as consequências ambientais de abrir a região para a predatória indústria mineradora — migrações em massa, envenenamento de rios e solos, a destruição da frágil floresta amazônica e de regiões montanhosas. Na região do Arco, o exército começou a expulsar populações locais logo após o anúncio do governo.

O governo Maduro imediatamente instalou um controle militar na região, suspendendo direitos constitucionais. Uma firma recentemente fundada, a Camimpeg, será a administradora dos recursos locais. Apesar de estar sob a direção do Ministro da Defesa, a empresa é autônoma — ou seja, privada — e sem transparência.

O exército tornou-se um setor não-oficial da burguesia dominante estatal, com vasto controle político e econômico. Antes mesmo de medidas que aumentaram sua influência no governo, metade dos cargos de gabinete e governos regionais pertenciam a militares.

Não se pode confundir isso com o projeto original de Chávez para uma aliança civil-militar, onde o exército serviria ao interesse público. No lugar disso Maduro procurou os militares para proteger seu poder.

Enquanto isso, seu partido político, o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), se aparelhou em um instrumento de controle político. Chávez, quando anunciou a formação do PSUV em 2006, o imaginou como parte do seu plano para o “Socialismo do século 21”. Seu objetivo era representar um passo para a participação popular democrática consagrada na nova Constituição do país. Ele esperava que o PSUV fosse uma partido democrático e aberto, respondendo ao Estado e à população.

O que se consagrou, no entanto, foi o contrário: uma estrutura hierárquica e autoritária que controla a ferro o debate e as dissidências. Entretanto, os arquitetos do partido o fizeram aos moldes do Partido Comunista de Cuba.

Por exemplo: em resposta ao agravamento da crise, o governo criou um programa para levar cestas de alimentos a famílias carentes com preços garantidos por lei. O PSUV comandava a distribuição e só entregava àqueles que manifestassem apoio político. (Ironicamente o esquema era tão corrupto que fracassou).

A partir de então, o governo introduziria a chamada “carteira do patriota”, expedida pelo PSUV, sem a qual o cidadão fica impossibilitado de ter acesso a serviços públicos, sacar pensões, ou obter passaporte. Resumindo, um instrumento de repressão política.

A revanche da direita

Helicóptero da polícia roubado por integrantes de facção de extrema-direita e utilizado para jogar bombas na Suprema Corte, em Caracas.

Maduro resolveu declarar Estado de Emergência logo após as eleições de 2015, suspendendo também as eleições governamentais e sindicais no país.

A nova Assembleia Nacional, liderada agora pela Mesa da Unidade Democrática (MUD) de direita, não possui soluções para resolver a crise econômica, elétrica ou de distribuição de água; nem para o aumento da criminalidade. Na verdade, eles possuem duas obsessões — a libertação de Leopoldo López, preso em 2014 acusado de incitação à violência; e a queda de Maduro. Não importa o que seus políticos digam, seu objetivo maior é acabar com o Chavismo; um propósito muito bem apoiado em Washington.

Em 2016, a direita tenta um referendo popular para votar a destituição de Maduro. Ironicamente, a Constituição de 1999, um dos pilares da revolução Chavista, prevê a utilização deste recurso.

Um referendo revogatório na Constituição representava de forma emblemática o comprometimento do Chavismo com a população. Seu artigo permitia que 20% do eleitorado convocasse durante o mandato de qualquer político.

O próprio presidente Chávez passou por referendo em 2004, vencendo decisivamente. No entanto, após as eleições de 2015, Maduro não pôde mais contar com apoio público; por isso se utiliza de várias instituições — como tribunais eleitorais — para barrar a iniciativa.

A direta usa estes dispositivos de modo oportunista, é claro. Mas Chávez defendeu de modo enfático a revogação de mandatos eleitos como uma peça fundamental para a democracia participativa. E devemos lembrar a Constituição de 1999 foi discutida e debatida por toda a sociedade. O referendo para eleger a Assembleia Constituinte e promulgar a nova carta se baseou nestes mesmos princípios.

Maduro vem usando manobras burocráticas para burlar a Constituição Chavista e alega uma guerra econômica praticada contra a Venezuela. Por mais que haja sabotagem externa para agravar a crise; sua causa vem de desenvolvimentos internos, e dos erros do governo em lidar com a crise.

Em março, quando a Assembleia Nacional rejeitou votar as propostas para o Arco Minero, Maduro mais uma vez tentou contornar a instituição democrática, ao colocar seus poderes nas mãos da Suprema Corte. Luisa Ortega Diaz, Procuradora Geral desde 2005 e indubitavelmente chavista, declarou a medida inconstitucional. Maduro voltou atrás.

O impasse na votação do Arco Minero demonstra claramente um paradoxo na política venezuelana. Um governo chavista negociando o retorno para o mercado global e para a indústria extrativista, que há anos haviam lutado contra. Este acordo seria devastador para o país, jogando a maioria da população de volta à miséria dos anos pré-Chávez.

Do outro lado, a burguesia, que pretende acelerar este processo, se preocupa simplesmente em obter uma rendição enquanto destroem qualquer legado do Chavismo.

Durante todo esse tempo, o MUD convocava a população às ruas. A marchas iniciais, lideradas por gente de classe alta e mascarada de modo dramático, também atraíram a classe média. Outros manifestantes não pertenciam a nenhum partido de direita, foram por frustração, raiva e desespero. Muitas pessoas consideradas chavistas marcharam atrás da elite nacional nos protestos.

Até em algumas áreas chavistas, como La Vega e El Valle, em Caracas, a população local expulsou ministros governistas, praticou saques e fez protestos crescentes nos últimos meses. De que outra forma a população deveria reagir quando a Guarda Nacional, a polícia, o exército e o PSUV tentam impedir de qualquer modo o direito constitucional de se manifestar?

Agora Maduro está convocando uma nova Assembleia Constituinte para o fim de julho, nada parecida com a constituinte de 1999. Naquela, os debates eram abertos e públicos, e a população participava no processo com otimismo. Desta vez, o evento será cuidadosamente orquestrado pela administração estatal, garantindo que as medidas do governo sejam aprovadas. Sem debate, sem transparência.

O que Maduro exatamente pretende com isso ainda é incerto, mas certamente envolverá os planos para o Arco Minero e a privatização parcial, ou talvez total, da PDVSA, principal petroleira estatal. Também se prevê a legitimação da concentração de poderes em um número cada vez menor de pessoas, selecionadas não por um processo participativo, mas resultado entre facções poderosas sedentas pelo poder.

Outras facções mais tenebrosas são responsáveis pelas ações mais bárbaras que se tem notícia. Estes vestem balaclavas e atacam bolas de fogo contra jovens, pedestres e motoristas.

E vão além dos protestos: são capangas pagos da extrema-direita. Uma força paramilitar que trabalha para o tráfico de drogas. Sua influência é crescente.

Eles não apenas apoiam a direita: seu objetivo é tornar o país ingovernável no caos, aumentando o desespero e o medo de cada vez mais cidadãos venezuelanos. Ao mesmo tempo, as forças de segurança nacionais, em particular a Guarda Nacional, estão cada vez mais envolvidos em casos de violência. É difícil distinguir o quanto estas estruturas de violência se interconectam.

Enquanto isso, corporações multinacionais se espreitam para tomar as ricas reservas de gás, petróleo e de minérios, sob a complacência de um eventual governo neoliberal. Algo esperado não apenas pelos Estados Unidos, mas também pela China, Rússia e outros gigantes do capitalismo global.

Muitos da esquerda defendem o aumento do conflito e da violência, mas é difícil imaginar uma postura tão cínica e irresponsável. Isto serviria apenas para marcar posição, já que o movimento de massa que cresceu com Chávez e que defenderam sua visão hoje se vê desmoralizada e desarmada.

Num contexto de supressão sistêmica da democracia, censura do dissídio, morte de vários sindicalistas e líderes populares como Sabino Romero, queda na confiança popular com o governo e violência crescente, os partidários chavistas não têm muito o que fazer. Pedir luta armada é simplesmente pedir intervenção do exército.

Outros na esquerda resolveram se calar ou ignorar completamente a realidade complexa do país. Seja qual for o motivo, este silêncio pode denotar uma complacência com uma nova classe dominante que governa sob o nome do socialismo.

Essas elites ajudaram a desmobilizar os movimentos de massa que defenderam a revolução em 2002–2003, cuja organização plural de comunidades poderia servir de base para um projeto chavista efetivo.

Mesmo com os retrocessos, as lembrança desses anos se mantêm vivas para eles, por meio das tradições de cooperação e solidariedade — apesar do momentâneo silêncio.

A esquerda fora da Venezuela pode ajudar a reconstrução do movimento entrando numa discussão honesta e aberta sobre o que deu errado. Socialistas não devem simplesmente apoiar o “menos pior” e sim apoiar aqueles que mais precisam, na sua luta para reconstruir as bases de uma sociedade verdadeiramente democrática.

Colaborador

Mike Gonzalez é ex-professor de Estudos Latino Americanos na Universidade de Glasgow. Escreveu recentemente a obra "Hugo Chávez: Socialist for the 21st Century", publicado pela Pluto Press.

Campanha já é governo

Estelionato eleitoral costuma ser suicídio político

Paulo Nogueira Batista Jr.


O economista Paulo Nogueira Batista Jr., em reunião no Palácio do Planalto, em 2009. Alan Marques/Folhapress.

"Paulo, você faz o que quiser depois, mas se eu defender reforma da Previdência mais dura durante a campanha, nem chego lá", disse Jair Bolsonaro, segundo relatou Paulo Guedes, seu assessor econômico. É o velho e surrado lema —"campanha é campanha; governo é governo".

Pequeno problema. A experiência mostra que o brasileiro pune severamente o estelionato eleitoral. Em 1986, o governo Sarney aguardou a eleição para corrigir tardiamente o Plano Cruzado por meio do desastrado Cruzado II. Sarney nunca mais se recuperou. Em 1990, Collor surpreendeu com o confisco da poupança e o alongamento forçado dos ativos financeiros. Perdeu apoio político e acabou sofrendo impeachment.

Em 1998, Fernando Henrique Cardoso se reelegeu com o câmbio artificialmente valorizado e as finanças públicas em desordem. Logo após a eleição, veio a maxidepreciação do real. Foi possível salvar o Plano Real, mas o governo FHC nunca se refez do estelionato.

Dilma Rousseff foi pelo mesmo caminho. Reelegeu-se em 2014 com discurso de esquerda para logo em seguida anunciar a nomeação de um economista agressivamente conservador para o Ministério da Fazenda, que aplicou um choque tarifário e medidas drásticas na área fiscal. A economia afundou na recessão, e Dilma nunca mais retomou a iniciativa. Os adversários aproveitaram a perda de credibilidade do governo para tramar a sua derrubada.

Em resumo, estelionato eleitoral é suicídio político.

Lula, em 2002, foi exceção a essa regra? Não creio. É verdade que, no período Palocci, de 2003 a 2005, Lula governou em desacordo com as tradições do PT, da esquerda em geral e do desenvolvimentismo brasileiro. Mas não foi sem aviso. Durante a campanha, Lula conseguiu a proeza de se colocar, em termos de economia, à direita de José Serra, candidato de FHC...

Nas circunstâncias atuais, há um obstáculo adicional à aplicação do velho e surrado lema. A situação das contas públicas, em parte por causa da Previdência, é muito difícil e requer providências imediatas.

O presidente da República toma posse em janeiro com a força das urnas. Só que não terá necessariamente maioria estável no Congresso. Muitas das medidas requeridas, algumas constitucionais, vão exigir maiorias ou até supermaiorias parlamentares.

A força das urnas será tanto maior quanto maior for a clareza, durante a campanha, quanto aos desafios econômicos e os caminhos para enfrentá-los. Trata-se de apresentar propostas e submetê-las à discussão pública. É a melhor forma de corrigir erros e aperfeiçoar as ideias.

Outro fator a considerar: o novo presidente terá janela relativamente estreita, talvez de um ano, para se impor e passar por um Congresso fragmentado e problemático toda uma agenda de reformas, necessariamente controvertidas.

Cada medida de corte de gastos ou aumento de receita atinge diretamente interesses constituídos e representados, em maior ou menor medida, no Congresso e na mídia.

O barulho será grande; a resistência, feroz. Só um governo que saiba o que pretende fazer —e que tenha explicitado as grandes linhas das reformas na campanha— poderá vencer essa guerra.

O quadro é desafiador, mas não há por que desanimar nem partir para a ignorância. O Brasil tem muitos trunfos. Apesar dos estragos que o atual governo e o Congresso fizeram e ainda farão, a nossa situação está longe de desesperadora.

Não cabe, por exemplo, se precipitar e adotar de imediato, como em 2015, uma política fiscal contracionista. A economia está fraca; o desemprego, elevado. Um choque fiscal aprofundaria a recessão, dificultando o próprio ajuste das contas públicas.

O ideal é combinar uma política fiscal moderada no curto prazo, que permita a retomada do crescimento, com um plano de ajustamento sólido de médio prazo, ancorado em regras fiscais rigorosas e críveis.

Sobre o autor

Economista, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (estabelecido pelos Brics em Xangai) e ex-diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

6 de julho de 2018

Inventando o fim de semana

O advento do capitalismo não apenas regimentou nossas vidas profissionais. Mudou o próprio significado do tempo livre.

Benjamin Y. Fong

Escadas de piscina para o mar. Foto: Marco Verch / Flickr

Tradução / Mesmo que a “comemoração da Ressurreição” fosse a razão oficial dos primeiros cristãos começarem a observar o dia de descanso no domingo ao invés do sábado, eles também estavam ansiosos para se diferenciar dos judeus e, no século IV, essa ânsia havia sido traduzida na codificação do sabá no domingo tanto em leis eclesiásticas quanto civis.

Um milênio e meio depois, o movimento sabatista apontou para esse anti-semitismo, junto com a influência indevida da adoração pagã ao sol entre os primeiros cristãos, como motivos para restabelecer o sábado como o dia do sabá cristão. Segundo sua argumentação na época, as preocupações temporais e políticas não deveriam ter afetado a observância do verdadeiro dia de descanso.

No entanto, há outra razão pela qual o sábado foi re-santificado no século XIX, que tem a ver com a “ilegitimidade” não do domingo, mas da segunda-feira. Na Inglaterra pré-industrial, de acordo com um poema de George Davis, “pessoas de todas as fileiras, às vezes, obedecem [iam] / às orgias festivas deste dia jocoso”. Não apenas os trabalhadores qualificados, mas todos os grupos e níveis de trabalhadores observavam a “Segunda-Feira Santa” como um feriado do trabalho, para grande desgosto dos empresários emergentes. Embora seja verdade que muitos trabalhadores passavam a Segunda-Feira Santa na cervejaria e em rinhas de briga de galo ou de cachorro, era também um dia de relaxamento e sociabilidade, um dia em que os jardins públicos estariam “literalmente fervilhando de corpos das classes trabalhadoras, bem vestidos, felizes e decorosos”.

O fato da segunda-feira ser muitas vezes adotada como um dia de descanso era uma consequência do ritmo típico do trabalho pré-industrial, no qual os trabalhadores se reuniam para completar um determinado conjunto de tarefas, trabalhavam intensamente por alguns dias até que essas tarefas fossem concluídas, e então passavam metade da semana de folga. Como retratado por E. P. Thompson, “o padrão de trabalho era de períodos alternados de trabalho intenso e de ociosidade, onde quer que os homens estivessem no controle de suas próprias vidas profissionais”. A ideia de que o trabalho deveria ser feito durante um determinado período de tempo repartido em porções regulares, um tempo de trabalho bem demarcado de outro tempo de “lazer”, ainda era um tanto estranha. Em 1806, um comitê nomeado pela Câmara dos Comuns para avaliar o estado das manufaturas de lã na Inglaterra encontrou “uma aversão extrema por parte dos homens a quaisquer horários regulares ou hábitos regulares”. O trabalho era visto como um conjunto de tarefas e, quando essas tarefas eram concluídas, a folga começava.

Não surpreende, portanto, que os mestres expressassem uma frustração sem fim com a “grande dificuldade de fazer seus homens trabalharem às segundas-feiras” e com a ineficácia de incentivos monetários para mudar seu comportamento. “Eles não irão além do que a necessidade lhes incita”, reclamava um relatório. Esse problema tornou-se cada vez mais agudo com o surgimento da energia a vapor. Impelidos por seu investimento em meios de produção, os capitalistas precisavam de mãos humanas em suas máquinas tantas horas por dia quanto possível, uma necessidade sempre frustrada pela vilipendiada Segunda-Feira Santa.

Além de táticas mais diretas – ameaças de demissão na terça-feira para uma ausência na segunda-feira – dois desenvolvimentos minaram a instituição da Segunda-Feira Santa em meados do século XIX. O primeiro foi a severidade moral da era vitoriana. Não foi por acaso que, quando os primeiros movimentos pela temperança surgiram no início do século XIX, eles estivessem especificamente orientados para remediar os hábitos supostamente degenerados da classe trabalhadora. O ritmo da máquina a vapor exigia a erosão da Segunda-Feira Santa, e o movimento da temperança chegou bem na hora para transformar o prazer e o contentamento em atitudes bárbaras. (É certo que os avanços nas técnicas de destilação e o crescimento resultante do consumo de bebidas destiladas no século XVIII – a primeira e ainda a mais precisa métrica da alienação – significavam que novos patamares de embriaguez estavam sendo alcançados na Segunda-Feira Santa.)

O segundo foi o movimento pelo “meio feriado” aos sábados. Sempre se auto-aclamando de maneira barulhenta por isso, os empregadores começaram a dispensar seus trabalhadores algumas horas mais cedo nas tardes de sábado para “induzir as classes trabalhadoras a serem mais estáveis ​​… [e] para lhes dar os meios para uma recreação lícita.” A imprensa enfatizava isso e publicava relatos de gratidão dos trabalhadores pela beneficência de seus patrões. Logo, atividades especialmente organizadas – “diversões racionais”, como concertos e futebol – passaram a ser planejadas para esses feriados sancionados, que se tornaram obrigatórios para as mulheres com a Lei das Fábricas de 1867 e, em seguida, conquistados para todos pelo Movimento pelas Nove Horas de Trabalho, de 1871-72. À medida que o meio feriado do sábado se tornava a norma, a Segunda-Feira Santa passou a ser cada vez mais associada à boemia e à embriaguez. Segundo o historiador Douglas Reid, “o meio feriado do sábado foi usado como um peixe pequeno de isca para pegar um bem maior; uma redução (geralmente) de três horas no sábado em troca da mão de obra por dez ou onze horas na segunda-feira”.

No entanto, a erradicação da Segunda-Feira Santa significou mais do que o prolongamento da semana de trabalho em mais sete ou oito horas: como já foi mencionado, fazer com que os trabalhadores comparecessem de forma consistente às segundas-feiras fazia parte de uma transformação do trabalho orientado por tarefas em trabalho cronometrado. Como argumentou Thompson em seu artigo clássico, “Tempo, Disciplina de Trabalho e Capitalismo Industrial” (Time, Work-Discipline, and Industrial Capitalism), essa transformação levou à crescente incompreensibilidade da vida no trabalho. Quando alguém possui uma tarefa a cumprir, por mais mundana que seja, o trabalho carrega uma certa inteligibilidade: tem um começo e um fim (a conclusão da tarefa) e o fruto do trabalho é um objeto comercializável. Nas palavras de Thompson, “o camponês ou trabalhador parece estar atendendo a algo como uma necessidade observada.”

Não é assim com o trabalho cronometrado: começa-se e termina-se o dia no meio de tarefas, que parecem desconectadas de qualquer produto final, meras peças de um processo maior, opaco aos que dele participam. A eliminação da Segunda-Feira Santa, portanto, coincidiu não apenas com a extensão quantitativa do trabalho, mas também com sua mudança qualitativa em direção à falta de sentido – o que Marx chama de alienação em relação aos “produtos do trabalho” e à “atividade produtiva”.

Enquanto isso, as escolas do século XIX – “as máquinas a vapor do mundo da moralidade”, como os owenistas as descreveram – foram encarregadas de reformular essa acomodação à alienação como uma ética de “economia de tempo”. Em algum nível, todos os alunos na sociedade capitalista entendem que a educação consiste em aprender a tolerar atividades inúteis e sem sentido, e a internalizar conhecimentos descontextualizados, dentro de um cronograma restrito, como uma forma de condicionamento para uma vida de trabalho alienado. Porém, foi apenas no século XIX que as escolas se tornaram esses locais de aculturação para a ideologia capitalista.

Além de exigir uma intervenção sobre a infância e a adolescência, a eliminação da Segunda-Feira Santa também exigiu uma alteração drástica no que era considerado “tempo livre”. No início do século XIX, reformadores de classe média como John Foster estavam indignados com os padrões de lazer predominantes:

“De que maneira [...] este tempo precioso é gasto por aqueles que não possuem cultivo mental? [...] Frequentemente os veremos simplesmente aniquilando essas porções de tempo. Eles ficarão juntos por uma hora, ou por várias horas [...] sentados em bancos, tamboretes ou montes de terra [...] cedendo ao completo vazio e torpor... ou reunidos em grupos à beira da estrada, em prontidão para encontrar, em qualquer coisa que passe por ali, ocasiões para jocosidades grosseiras; praticando alguma impertinência, ou proferindo alguma obscenidade zombeteira, às custas das pessoas que estiverem passando.”

Para evitar a dor de ser ridicularizado pelas classes trabalhadoras, atividades estruturadas (as já mencionadas “diversões racionais”) eram apresentadas como dando propósito e “cultivo” àqueles que não os possuíam. Era imprescindível, aliás, o desenvolvimento de formas bem delimitadas de lazer – uma trajetória cultural que eventualmente acabaria por nos trazer a música pop de três minutos e o programa de televisão de 22 minutos – para trazer uma definição mais nítida entre as esferas do “trabalho” e da “vida”. Na década de 1870, era “desnecessário dizer que nas noites de sábado os ‘deuses das galerias’ reuniriam grandes massas nos teatros e o terreno havia sido preparado para o crescimento do Futebol das Associações.”

Como argumentou Thompson, seria um erro nos perguntarmos como vamos “consumir todas essas unidades de tempo adicionais de lazer” em um mundo pós-capitalista, porque a questão assume uma definição de tempo livre e de lazer inimigas do socialismo, forjadas pelos defensores do meio feriado de sábado. A verdadeira questão, que vai contra a natureza de nossa subjetividade atual, é, antes: “qual será a capacidade para a experiência dos homens [sic] que tenham esse tempo não direcionado para viver?”

Reid conclui que “a erradicação da Segunda-Feira Santa prejudicou muito a qualidade de vida da classe trabalhadora, tanto na realidade quanto em seu potencial. Metade de um dia foi dado em troca de um dia inteiro; na submissão às normas do capitalismo industrial, a noção de um equilíbrio adequado entre trabalho e lazer foi perdida”. Mas a lembrança da Segunda-Feira Santa é mais do que apenas uma lamentação por uma forma de vida passada, onde o trabalho fazia mais sentido, onde tínhamos mais controle sobre seus ritmos e onde a “passagem do tempo, sem propósitos específicos” ainda não havia sido canalizada para uma forma estruturada de diversão. É também um lembrete do que precisa ser reconquistado.

Com a conquista de uma sociedade socialista, o trabalho não apenas entraria novamente no reino do controle consciente, mas também da inteligibilidade básica; a força por trás da cruel deterioração psicológica no uso de álcool e drogas – responsável hoje pela tragédia do encarceramento em massa – secaria em sua origem social; as escolas estariam livres para descobrir o que a pedagogia realmente pode significar, uma tarefa tornada impossível pelas demandas do condicionamento ao capitalismo. E todo mundo poderia ter o tempo e o espaço para mais uma vez “reaprender algumas das artes do viver perdidas na revolução industrial: como preencher os interstícios de seus dias com relações pessoais e sociais mais enriquecedoras e de maior lazer”.

Colaborador

Benjamin Y. Fong é professor, escritor e militante de organização no Arizona, nos EUA. Ele faz parte do comitê de direção da campanha dos Socialistas Democráticos Por Um Sistema de Saúde Para Todos ("Democratic Socialists for Medicare for All").

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A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...