17 de outubro de 2010

O retorno da "cultura da pobreza"

Décadas depois de Daniel Patrick Moynihan, os estudiosos estão admitindo que a cultura e a pobreza persistente estão entrelaçadas.

Patricia Cohen


Um terreno baldio na East 110th Street em Nova York em 1952: o estudo da degradação urbana há muito é influenciado por modas políticas. Créditos: William C. Eckenberg/The New York Times

Por mais de 40 anos cientistas sociais investigando causas da pobreza tenderam a tratar explicações culturais como as trataria Voldemort: Aquilo Cujo Nome Não Deve Ser Dito.

A reticencia era herança de pesadas guerras que começaram depois que Daniele Patrick Moynihan, então assistente na secretaria de trabalho do governo Johnson, introduziu a ideia de uma "cultura da pobreza" ao público em um surpreendente relatório de 1965. Embora ele não tenha inventado a frase (a honra pertence ao antropólogo Oscar Lewis) sua descrição da família negra urbana como presa em um inescapável "emaranhado de patologia" de mães solteiras e dependência em serviços sociais era vista como atribuindo deficiências morais auto-perpetuantes aos negros, como se os culpasse por seu próprio infortúnio.

A análise de Moynihan nunca perdeu seu apelo para os pensadores conservadores, cujos argumentos no final da história sucederam quando presidente Bill Clinton assinou lei em 1996 "acabando com bem-estar como o entendemos". Mas nas trincheiras majoritariamente liberais da sociologia e antropologia acadêmicas a palavra "cultura" virou uma granada armada e a ideia que atitudes e padrões de comportamento mantinham as pessoas na pobreza foram evitadas.

Agora depois de décadas de silêncio esses estudiosos falam abertamente sobre você-sabe-o-que e concedem que cultura e pobreza persistente estão emaranhadas.

"Finalmente alcançamos um estágio das pessoas não terem mais medo de serem politicamente incorretos", disse Douglas S. Massey, sociólogo em Princeton que argumenta que Moynahan foi injustamente amaldiçoado.

O velho debate deu forma ao novo. Mês passado Princeton e o Brookings Institution publicaram uma coleção de trabalhos sobre pais solteiros, um assunto que observaram ter se tornado proibido depois do relatório Moynihan. No recente encontro anual da American Sociological Association os presentes discutiram a ressurgência da especialização de estudo sobre cultura. E em Washington na primavera passada, cientistas sociais participaram de um informativo do Congresso sobre cultura e pobreza relacionado com uma edição especial do "The Annals", jornal da American Academy of Political and Social Science.

"A cultura voltou à agenda da pesquisa sobre pobreza", declara a introdução, reconhecendo que ela nunca deveria ter sido removida.

O tema gerou interesse em Capitol Hill porque muito da pesquisa intersecta com os debates sobre políticas sociais. Visões das raízes culturais da pobreza "têm um importante papel em formatar como os legisladores escolhem se endereçar aos assuntos relativos à pobreza", notou Lynn Woolsey, democrata da Califórnia no encontro.

O tema gerou interesse em Capitol Hill porque muita pesquisa se interage com os debates políticos. As visões das raízes culturais da pobreza "desempenham papéis importantes na definição de como os legisladores escolhem abordar questões de pobreza", declarou a Representante Lynn Woolsey, democrata da Califórnia, no encontro.

Esse pico de pesquisa acadêmica também chega quando a porcentagem dos americanos vivendo em pobreza atingiu o maior nível em de 15 anos: um em sete, ou 44 milhões.

Com esses estudos veem muitas e variadas definições de cultura mas todos diferem do modelo dos anos 60 nesses aspectos cruciais: hoje, cientistas sociais estão rejeitando a noção de uma cultura de pobreza monolítica e imutável. E atribuem atitudes e comportamentos destrutivos não ao inerente caráter moral, mas ao racismo e isolamento persistentes.

Para Robert J. Samson, sociólogo de Harvard, cultura é melhor descrita como "entendimentos compartilhados".

"Eu estudo desigualdade e o foco dominante é em estruturas da pobreza", ele disse. Mas adiciona que a razão que um bairro se torna numa "armadilha de pobreza" tem também a ver com a percepção comum de como as pessoas na vizinhança agem e pensam. Quando pessoas veem grafiti e lixo, eles o acham aceitável ou veem que seria desordem? Eles respeitam o sistema legal ou têm alto nível de "cinismo moral", acreditando que "leis são feitas pra serem quebradas"?
Como parte de um grande estudo em Chicago o professor Sampson visitou vários bairros diferentes nesse verão, deixando cair envelopes endereçados e selados para ver quantas pessoas colocariam na caixa de correio, um sinal que cuidar do alheio é parte da cultura de uma comunidade.

Em alguns bairros como Grand Boulevard, aonde a notória favela de Robert Taylor se ergueu, quase nenhum envelope foi remetido; em outras, pesquisadores receberam mais de metade das cartas. Renda não explica necessariamente a diferença, disse professor Sampson, mas ao invés, as normas culturais da comunidade, os níveis de cinismo moral e desordem.

A percepção coletiva do bairro - está em ascensão ou estagnado? - é uma forma mais eficaz de prever o futuro de uma comunidade do que o nível real de pobreza, disse ele.

William Julius Wilson, cujo trabalho pioneiro francamente confrontou vida no ghetto enquanto focalizava explicações econômicas para pobreza persistente, define cultura como uma maneira dos "indivíduos de uma comunidade desenvolverem entendimento de como o mundo funciona e tomar decisões baseadas naquele entendimento".

Para alguns jovens negros, disse o sociólogo professor Wilson de Harvard, o mundo funciona assim: "se você não tem uma cara de forte você não sobrevive. Se você tem acesso a armas, tenha-as, e se brigar, use-as".

Tentando recapturar o tema dos economistas os sociólogos se aventuram em bairros pobres para entender mais aprofundadamente as atitudes dos residentes. Seus resultados desafiam algumas crenças comuns, com a crença que mães pobres ficam solteiras porque não dão valor ao casamento.

Na Filadélfia, por exemplo, mães pobres disseram às sociólogas Kathryn Edin e Maria Kefalas que elas achavam casamento profundamente importante, ate sagrado, mas não achavam que seus parceiros eram "próprios para o casamento". Esses resultados estão empurrando alguns experts em lei e pobreza a concluir que é improvável que programas que promovem casamento sem alterar condições econômicas e sociais funcionarão.

Mario Luis Small, sociólogo da Universidade de Chicago e editor da edição especial do The Annals, tentou descobrir por que algumas mães da cidade de Nova York com filhos em creches desenvolveram redes de apoio, enquanto outras não. Como ele explicou em seu livro de 2009, “Ganhos não antecipados”, a resposta não dependia de renda ou etnia, mas sim das regras da creche. Centros que realizavam viagens de campo frequentes, associações de pais organizadas e procedimentos de coleta e entrega criaram mais oportunidades para os pais se conectarem.

Acadêmicos mais jovens, como o professor Small, de 35 anos, atribuíram o aumento nas explicações culturais a uma “nova geração de estudiosos sem a bagagem desse debate”.

Scholars like Professor Wilson, 74, who have tilled the field much longer, mentioned the development of more sophisticated data and analytical tools. He said he felt compelled to look more closely at culture after the publication of Charles Murray and Richard Herrnstein’s controversial 1994 book, “The Bell Curve,” which attributed African-Americans’ lower I.Q. scores to genetics.

The authors claimed to have taken family background into account, Professor Wilson said, but “they had not captured the cumulative effects of living in poor, racially segregated neighborhoods.”

He added, “I realized we needed a comprehensive measure of the environment, that we must consider structural and cultural forces.”

He mentioned a study by Professor Sampson, 54, that found that growing up in areas where violence limits socializing outside the family and where parents haven’t attended college stunts verbal ability, lowering I.Q. scores by as much as six points, the equivalent of missing more than a year in school.

Changes outside campuses have made conversation about the cultural roots of poverty easier than it was in the ’60s. Divorce, living together without marrying, and single motherhood are now commonplace. At the same time prominent African-Americans have begun to speak out on the subject. In 2004 the comedian Bill Cosby made headlines when he criticized poor blacks for “not parenting” and dropping out of school. President Obama, who was abandoned by his father, has repeatedly talked about “responsible fatherhood.”

Conservatives also deserve credit, said Kay S. Hymowitz, a fellow at the conservative  ManhattanInstitute, for their sustained focus on family values and marriage even when cultural explanations were disparaged.

Still, worries about blaming the victim persist. Policy makers and the public still tend to view poverty through one of two competing lenses, Michèle Lamont, another editor of the special issue of The Annals, said: “Are the poor poor because they are lazy, or are the poor poor because they are a victim of the markets?”

So even now some sociologists avoid words like “values” and “morals” or reject the idea that, as The Annals put it, “a group’s culture is more or less coherent.” Watered-down definitions of culture, Ms. Hymowitz complained, reduce some of the new work to “sociological pablum.”

“If anthropologists had come away from doing field work in New Guinea concluding ‘everyone’s different,’ but sometimes people help each other out,” she wrote in an e-mail, “there would be no field of anthropology — and no word culture for cultural sociologists to bend to their will.”

Fuzzy definitions or not, culture is back. This prompted mock surprise from Rep. Woolsey at last spring’s Congressional briefing: “What a concept. Values, norms, beliefs play very important roles in the way people meet the challenges of poverty.”

4 de outubro de 2010

O Lulismo e seu futuro

Os dois mandatos do PT tiveram o mesmo papel do New Deal de Roosevelt nos anos 30: fazer da diminuição da pobreza e do incremento da igualdade os objetivos nacionais de longo prazo. Mas virão embates entre o capital financeiro e o industrial, e entre a classe média tradicional e o proletariado emergente

André Singer



Numa passagem de 18 Brumário de Luís Bonaparte, Marx mostra como é frequente os atores de uma determinada época buscarem inspiração nos acontecimentos de outra. Se o período histórico evocado pelos homens contemporâneos pode ser revelador da natureza das tarefas que eles pretendem realizar, mesmo que o resultado final possa ser diferente do esperado, vale a pena deter-se na consideração do seu significado. O Brasil do ano eleitoral que se encerra tem algo da atmosfera imaginária na qual, há mais de meio século, a democracia norte-americana criou o arcabouço de leis, instituições e ações do New Deal.

Conjunto de programas iniciados na primeira Presidência de Franklin D. Roosevelt para fazer frente à crise de 1929, o New Deal permitiu um salto na qualidade de vida dos pobres e propiciou maior igualdade entre os cidadãos americanos. Ter instaurado tal ambiente é um legado dos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele pode moldar o “marco regulatório”, para usar uma expressão do mundo jurídico, no qual ocorrerão as próximas disputas eleitorais. Isto é, partidos e candidatos divergirão quanto aos meios, mas os fins estão fixados de antemão.

Nesse caso, as eleições brasileiras de 2002 e 2006 poderão ser vistas, no futuro, como o início de um longo ciclo político, semelhante ao que aconteceu com as vitórias de Roosevelt em 1932 e 1936. Na primeira eleição (1932, 2002), formou-se uma nova maioria. Na segunda (1936, 2006), em uma votação de continuidade, a coalizão majoritária se manteve, mas com uma troca de posição importante no apoio ao presidente. Em ambos os casos (Roosevelt, Lula), a troca de apoio decorreu da política levada a cabo no primeiro mandato: a classe média se afastou do presidente, mas eleitores pobres tomaram o seu lugar.

Durante a vigência do ciclo, é possível até haver troca de partidos no poder. Foi o que ocorreu em 1952 e 1956, com a vitória republicana. Mas ela não implicou abandono dos grandes objetivos nacionais: a diminuição da pobreza e o incremento da igualdade. De acordo com o cientista político John Berg, as eleições de realinhamento “têm o potencial de definir um novo tipo de política, um novo conjunto de clivagens, que pode durar décadas”.

Não seria por acaso, portanto, que comparações entre o período atual e o de Roosevelt tenham se multiplicado recentemente. Em julho, citando o economista americano Paul Krugman, o jornalista Fernando de Barros e Silva escreveu na Folha de S.Paulo: “Os Estados Unidos do pós-guerra eram, sobretudo, uma sociedade de classe média. O grande boom dos salários que começou com a Segunda Guerra levou dezenas de milhões de americanos – entre os quais meus pais – de bairros miseráveis nas regiões urbanas ou da pobreza rural à casa própria e a uma vida de conforto sem precedentes.”

Krugman relata a “sensação admirável” de viver em uma comunidade na qual a maioria das pessoas leva “uma vida material reconhecidamente decente e similar”. Conclui o jornalista: “Essa middle-class society que encarnava o sonho americano não foi obra de uma ‘evolução gradual’, mas, diz Krugman, ‘muito pelo contrário, foi criada, no curto espaço de alguns anos, pelas políticas do governo Roosevelt’.”

Outra menção aparece no fecho de um balanço da Presidência de Lula feito por dois economistas ligados ao governo, Nelson Barbosa e José Antonio Pereira de Souza. “A superação de dogmas recentes encontra paralelos em momentos nos quais os Estados das economias capitalistas centrais optaram pela ruptura de seus modelos de atuação”, dizem os autores. “Assim foi, por exemplo, com a G.I. Bill (1944) e com o Employment Act (1946).” [1] A segunda medida, em particular, teve um caráter duradouro. “Desde a Segunda Guerra Mundial, o governo federal havia reconhecido suas responsabilidades pela manutenção da economia em pleno emprego”, lembrou Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia.

Um terceiro exemplo vem da ciência política. Wendy Hunter e Thimothy J. Power comparam o Programa Bolsa Família ao Social Security Act, com o qual, em 1935, Roosevelt instituiu o sistema de previdência pública. Hunter e Power vaticinavam, já em 2007, que o Bolsa Família poderia se tornar, como a previdência pública nos Estados Unidos, um “terceiro trilho” na política brasileira: aquilo que não se pode mexer, sob o risco de morte política.

A julgar pelas propostas dos candidatos à Presidência durante a campanha deste ano, Hunter e Power estavam certos: a oposição disse que queria dobrar o número de famílias atendidas pelo Bolsa Família, e ninguém falou em diminuir o benefício. Apesar das diferenças que os separam, os postulantes estavam envolvidos no clima rooseveltiano de criar no Brasil, em um “curto espaço de alguns anos” uma sociedade com base na classe média.

Tanto que Dilma Rousseff, do PT, propôs “erradicar a miséria” no espaço de um mandato. José Serra, do PSDB, falou em “partir para a erradicação da pobreza”. Marina Silva, do PV, elogiou o fato de 25 milhões terem deixado a linha da pobreza no período recente e disse que não mexeria na política que permitiu isso. Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, fez do combate à desigualdade o centro do seu discurso.

Mas em que medida há condições materiais para aplicar aqui o New Deal de Roosevelt? Até que ponto é verdadeiro o consenso em torno dessas metas? E qual resistência se deve esperar às políticas necessárias para transformar o projeto em realidade? Comecemos pelas condições materiais.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, entre 2003 e 2008 a pobreza extrema (rendimento médio domiciliar per capita de até um quarto de salário mínimo) foi reduzida de 15% para 10% da população. No mesmo período, a pobreza absoluta (rendimento médio domiciliar per capita de até meio salário mínimo) caiu em proporção semelhante, reduzindo-se o total de brasileiros nessa faixa de renda para 23%. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, os brasileiros abaixo da linha de pobreza eram metade da população. No governo Lula, caíram para cerca de um terço da população.

Em linhas gerais, os dados apontam que uma parte do sonho rooseveltiano – o de construir uma sociedade em que (quase) todos estão fora da pobreza – está ao alcance dos dois próximos mandatos presidenciais. Não se trata apenas de uma expansão da classe média, pois o proletariado também aumenta. À medida que o subproletariado é incorporado ao mercado de trabalho formal e ao padrão de consumo “normal”, a base da pirâmide social passa a ser formada pelo proletariado, uma vez que não há outra classe abaixo dele. É possível que um proletariado mais antigo – uma espécie de aristocracia operária – se mantenha como uma fração de classe à parte, porém as diferenças relativas teriam diminuído.

Embora a redução da pobreza tenha significado também uma diminuição da desigualdade, esta parece responder com mais vagar às iniciativas governamentais. Num comunicado do início do ano, o Ipea observou que “o movimento recente de redução da pobreza tem sido mais forte que o da desigualdade”. Segundo Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, “somos o décimo pior país em distribuição de renda” no mundo. Para o especialista em finanças públicas Amir Khair, hoje “apenas 1% dos brasileiros mais ricos detém uma renda próxima da dos 50% mais pobres”. Por isso, segundo o economista Marcelo Neri, quando olhado desde o ângulo da desigualdade, a fotografia da sociedade brasileira é “ainda grotesca”.

Alguns argumentam até que, por trás da vagarosa queda do índice de Gini, que mede o desnível entre os que recebem salário, haveria na realidade uma piora na repartição da riqueza entre o capital e o trabalho. Nessa lógica, uma maior equidade entre os que vivem do próprio trabalho teria sido compensada por um aumento da parcela apropriada pelos capitalistas sob a forma de lucros e dividendos.

Sinais disso seriam os largos gastos do Tesouro com o pagamento de juros e os polpudos lucros das grandes empresas ao longo do governo Lula. No entanto, de acordo com o Ipea, a participação do trabalho na renda nacional, que estava estagnada há quinze anos, também começou a aumentar. Em 2004, ela era de 31% do Produto Interno Bruto, e passou para 33% em 2007. Mais ainda: de acordo com as estimativas do economista João Sicsú, no ano passado ela deve ter voltado ao patamar de onde começou a cair em 1995: 35%.

Mas, se a renda dos assalariados – e particularmente dos mais pobres – cresce num ritmo suficientemente acelerado para eliminar a pobreza em poucos anos, como se explica que a desigualdade caia devagar? Acontece que os ricos estão ficando mais ricos. A economista Leda Paulani tem assinalado que 80% da dívida pública estão em mãos de algo como 20 mil pessoas, as quais, sozinhas, recebem um valor dez vezes maior do que os 11 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família. O sociólogo Francisco de Oliveira, por sua vez, chamou a atenção para os sinais de riqueza ostensiva revelados pela inclusão de mais de uma dezena de brasileiros na lista da revista Forbes dos mais ricos do mundo. De fato, basta abrir um jornal ou revista para deparar com notícias relativas à expansão do comércio de alto luxo em São Paulo.

Como há indícios de que possa ter ocorrido certo achatamento nos ganhos da classe média, a persistência da desigualdade deve, realmente, decorrer do que é apropriado pelos muito ricos. A queda lenta da desigualdade, em sociedades que partem de um patamar elevado e nas quais os mais ricos continuam a acumular riqueza, aponta para a dificuldade de atingir, no curto prazo, uma situação em que os seus membros tenham uma vida material “reconhecidamente similar”.

Mesmo mantido o ritmo atual de melhora das condições de vida dos menos aquinhoados, o Ipea calcula que em 2016 chegaremos a um indicador de desigualdade um pouco inferior àquele que dispúnhamos em 1960, quando foi aplicada a primeira pesquisa sobre diferenças de renda.

Ou seja, se for bem-sucedido o esforço no sentido de elevar o padrão de existência dos mais pobres nos próximos anos, o que está no horizonte é voltar ao ponto interrompido pelo golpe de 1964. Após duas décadas de um regime militar concentrador, e de outras duas décadas de estagnação, as políticas de redução da pobreza nos levarão de volta ao limiar de onde começamos a regredir. Não é coincidência que o salário mínimo tenha voltado, em 2009, ao patamar de meados dos anos 60.

Aagenda de diminuição da pobreza e da desigualdade do governo Lula avançou por meio de uma estranha combinação de orientações antitéticas: de um lado, manteve linhas de conduta do receituário neoliberal e, de outro, adotou mecanismos de uma plataforma desenvolvimentista. Essa combinação sui generis de mudança e ordem explicaria por que o apoio político ao presidente, grosso modo, migrou da classe média para o subproletariado.

A combinação se deu ao longo de três fases. Na primeira, entre 2003 e 2005, predominou a ortodoxia: contenção de despesas públicas, elevação dos juros e reforma previdenciária que apontava para a redução de benefícios no serviço público. Era o pacote clássico de “maldades” neoliberais, voltadas para estabilizar a economia por meio da contração dos investimentos públicos e das atividades econômicas em geral.

Para além de mera opção técnica, o que estava em jogo era uma escolha política: evitar a radicalização por meio do atendimento das condições impostas pela classe dominante. Como afirmou o ex-senador Saturnino Braga: “Na transição, quando findavam os últimos meses de Fernando Henrique Cardoso, a inflação e a taxa cambial dispararam. Aquilo foi um aviso do capital.”

Ocorre que, quase ao mesmo tempo, houve um conjunto de iniciativas na direção contrária às soluções neoliberais. O lançamento do Bolsa Família, em outubro de 2003, foi seguido pela expansão do crédito popular, com o convênio assinado entre sindicatos e bancos no final do mesmo ano, e pela valorização do salário mínimo, iniciada em 2004. As três medidas deram a partida para a recuperação da economia por meio do fortalecimento de um mercado interno de consumo de massa.

Asegunda etapa da política econômica começa com a passagem de Guido Mantega para o Ministério da Fazenda, em 2006, e se estende até a irrupção da crise financeira internacional, em 2008. A partir da chegada de Mantega ao centro das decisões econômicas, o lado popular do projeto de Lula, que ficara em desvantagem na primeira fase, ganha mais peso. Isso se reflete em uma elevação substancial do salário mínimo em 2006, com um aumento real de nada menos que 14%. A progressão do salário mínimo continuou ao longo do segundo mandato, com uma valorização estimada em 31%.

Entres os estudiosos do tema, observa-se uma convergência em torno da percepção de que no valor do salário mínimo encontra-se a chave para reduzir a iniquidade no Brasil. “O salário mínimo estabelece o piso da remuneração do mercado formal de trabalho, influencia as remunerações do mercado informal e decide o benefício mínimo pago pela Previdência Social”, assinala Sicsú. Quase 68% dos trabalhadores ganham apenas até dois salários mínimos, e uma parcela expressiva dos aposentados recebe um. Por isso, o sociólogo Simon Schwartzman afirma que “o salário mínimo foi o grande fator para a redução da pobreza”.

Segundo o economista Amir Khair, 75% do consumo que estimula o crescimento vem das famílias. Assim, o aumento do poder aquisitivo das famílias de baixa renda – que se beneficiaram também da diminuição do preço de artigos populares, por meio de desonerações fiscais – impulsionou a atividade econômica como um todo. As empresas elevaram o investimento para aproveitar as oportunidades abertas pela expansão do mercado, com isso gerando emprego, o qual por sua vez realimentou o consumo, em um círculo virtuoso há muito esperado no Brasil.

Um segundo elemento caracterizou o triênio 2006–2008: o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, em janeiro de 2007. Partindo de um patamar muito baixo, a União quase duplicou o montante orçamentário destinado ao investimento. Houve, igualmente, uma multiplicação do investimento realizado pelas estatais – sendo que a Petrobras, sozinha, tem mais capacidade de investimento do que a União.

Para além daquilo que a União e as estatais podem investir diretamente, cumpre atentar para o efeito indutor que exercem sobre o investimento privado, sobretudo na área relativa aos grandes projetos de infraestrutura. Até o advento da crise financeira internacional, a meta do PAC – sustentar um crescimento de 5% – foi atingida. Não fosse pela paralisia das atividades econômicas decorrentes da crise, é possível que chegasse a 7%.

A terceira fase da política econômica do governo Lula ainda está em curso, o que dificulta a avaliação. Ela corresponde ao período que se abre com a crise internacional e deverá ir até o final do mandato. Cabe somente indicar o aprofundamento da trajetória delineada na segunda etapa. Os bancos estatais foram fortalecidos para garantir o crédito, operando até certo ponto na contramão do Banco Central, que demorou em reduzir a taxa de juros. O consumo popular foi ampliado mediante aumentos do salário mínimo e das transferências de renda, mesmo depois de iniciada a crise. O setor produtivo foi estimulado por meio de desonerações fiscais e ações indutoras, como o programa de habitação Minha Casa, Minha Vida.

Em linhas gerais, a desorganização das finanças mundiais deixou ao setor público o encargo de impedir que se abrisse um ciclo de depressão econômica. Apesar de não ter evitado a estagnação em 2009, a rápida (e forte) recuperação em curso mostra que o Brasil foi bem-sucedido no uso dos instrumentos disponíveis.

A condução das medidas anticíclicas durante a crise, na qual o presidente se destacou pela ousadia de conclamar a população a manter a confiança e comprar, arriscando-se a quebrar junto com os endividados, caso algo desse errado, consolidou uma popularidade inédita desde a redemocratização. Subitamente, o crescimento que se julgava extinto, voltou. Pode-se dizer que a crise fortaleceu o campo popular na terceira fase do governo Lula, o que tornou tal fato decisivo para a alavancagem da candidatura de Dilma Rousseff.

No programa apresentado por Dilma Rousseff na campanha eleitoral, o objetivo central é eliminar a miséria extrema na década que começa em 2011. Prometeu fazer isso com a valorização do salário mínimo, a ampliação gradual das transferências de renda e o reforço do papel do Estado na economia. Também disse que manterá o Banco Central com autonomia para conduzir a política monetária, deixar o câmbio flutuante e exercer alguma rigidez fiscal.

Não se deve depreender da moderação desse arranjo que ele esteja isento de embates importantes, cujos desfechos definirão os contornos mais precisos do caminho a ser trilhado nos próximos anos. A menos que sobrevenha nova ascensão do movimento social, em refluxo desde a década de 90, uma parte dos conflitos ocorrerá num plano relativamente oculto – eles se darão por meio de negociações intraestatais, sem que o público amplo possa percebê-los de imediato.

Ao analisar com minúcia os processos de decisão, cujos reflexos na superfície são por vezes tênues, aparecem os nós e as tensões definidores. Um bom exemplo passado está na seguinte descrição de Nelson Barbosa:

Devido à crise internacional e seus reflexos no Brasil, a receita do governo caiu, e se o governo cortasse a despesa na mesma proporção em que a receita caiu, ele empurraria a economia para baixo, como se agia normalmente no passado. Diferentemente de outras crises, agora nós temos escolha, podemos reduzir o superávit primário para preservar o crescimento e o bem-estar da população. A decisão de reduzir a meta de superávit primário em 2009 passou tranquila na imprensa; para quem participa da política econômica do governo Lula isso é um marco.

Trata-se de uma delicada rede de pressões e contrapressões no interior do Estado.

A redução da pobreza e da desigualdade depende da manutenção do crescimento em um patamar ao redor de 5%, como previa o PAC. Para atingir esse patamar, que não foi alcançado sequer no segundo mandato de Lula, haverá uma série de escolhas a serem feitas. Carlos Lessa, o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, argumenta que há duas visões conflitantes a respeito de como produzir essa expansão da economia. Em uma delas, seria necessário elevar substancialmente a taxa de investimento público. Deduz-se que os recursos devam sair, nesse caso, da diminuição do serviço da dívida, à qual o Banco Central resiste.

Numa outra visão, isso não precisa acontecer, implicando, no entanto, em um processo de desindustrialização do país. Essa segunda proposta pressuporia que a exportação de soja, carne e minério de ferro, por exemplo, daria conta do recado, sem depender de o Brasil produzir mercadorias de alto valor agregado. Por trás desses pontos de vista conflitantes se encontram interesses sociais e econômicos diferentes, cujo confronto definirá a dinâmica futura.

O peso das exportações no modelo “inventado” pelo governo Lula é reconhecido pelos seus defensores. O senador Aloizio Mercadante mostra que triplicou o valor exportado entre 2002 e 2008: de 60 bilhões de dólares para quase 200 bilhões de dólares. Porém, destaca que o destino das mercadorias mudou. Em 2002, os Estados Unidos recebiam 24,3% das exportações brasileiras, patamar reduzido a 14,6% em 2008. Sem estardalhaço, o governo Lula esvaziou a proposta da Área de Livre Comércio das Américas, a Alca, que atrelaria o Brasil aos Estados Unidos, e investiu na formação de um bloco sul-americano forte, ao mesmo tempo em que fortalecia os vínculos com potências emergentes como a China.

O sucesso da estratégia externa desempenhou, assim, um papel destacado na economia política do realinhamento. O ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, no entanto, tem chamado a atenção para o fato de o Brasil ser vítima de “uma leve, mas real doença holandesa”, pela qual os mecanismos de mercado tendem a levar um país com extensos recursos naturais a ter um câmbio cronicamente sobreapreciado [2].


A consequência não é difícil de imaginar: torna-se mais barato importar artefatos industrializados do que fabricá-los internamente. Para combater a doença holandesa, afirma Bresser-Pereira, é indispensável administrar o câmbio, em vez de deixá-lo oscilar ao sabor do mercado. Em cálculo recente, ele indica que o real deveria flutuar ao redor de 2,40 por dólar, o que implicaria uma desvalorização em torno de 25%.

Uma coalizão de interesses liderada pelo capital financeiro tem obstado a desvalorização. Como as importações baratas ajudam a controlar os preços internos, garantindo o poder de compra dos consumidores, em especial os de baixíssima renda, há uma pressão no sentido de mantê-las nesse patamar. Elas permitem, na outra ponta, à classe média tradicional, cuja poupança também é beneficiada por juros elevados, o acesso a produtos importados (além de o real em alta facilitar viagens internacionais). Em terceiro lugar, o câmbio valorizado favorece os detentores internacionais de capital, que lucram no Brasil com a aplicação de dinheiro especulativo remunerado a altas taxas de juros em moeda forte.

Na posição oposta se encontram os empresários industriais, o proletariado fabril e os exportadores. Os industriais observam com preocupação crescente a queda das atividades fabris desde o começo dos anos 90. Também não é por acaso que a Central Única dos Trabalhadores defende “aplicar política cambial voltada para a defesa da economia nacional”. Os exportadores querem ganhar mais com o que vendem. Esse tripé deu ao governo sustentação para impor um imposto de 2% sobre o capital especulativo em 2009, na vigência da crise internacional. A medida, embora tímida, impediu que a valorização da moeda aumentasse ainda mais, além de sinalizar a existência de setores sociais ponderáveis preocupados com a doença holandesa.

Em que pese ser uma das maiores taxas de juros do mundo, e parecer distante o momento em que a coalizão “produtivista” consiga forçar a sua diminuição, o balanço do último período mostra algum abalo na liberdade do capital financeiro. A ampliação do crédito no segundo mandato (quando passou de 25% para 40% do PIB) foi obtida apesar da oposição dos bancos privados. Ela expressa o aumento da capacidade do Estado – apoiado pelos três setores mencionados e pelo fortalecimento dos bancos públicos durante a crise – em obrigar o sistema financeiro a emprestar ao público, em lugar de apenas comprar títulos do governo. Nesse sentido, revelou-se crucial o reforço do BNDES no papel de financiador, a juros mais baixos, das empresas industriais.

Sabe-se que os juros altos inibem os investimentos produtivos, pois o capital é remunerado sem precisar “fazer nada”. Eles também transferem recursos públicos – que poderiam ser usados para aumentar a criação de infraestrutura – para a mão dos rentistas, que os esterilizam ou usam em um consumo de luxo, com aumento da desigualdade. Por isso, os empresários da área produtiva (para quem a taxa de juros é central) e os trabalhadores em geral (para os quais o aumento do emprego é decisivo) estão momentaneamente juntos na batalha contra a “usura”.

O PAC funciona como uma espécie de carta-programa dessa coalizão antirrentista. Ele avançou devagar, porém continuamente, no segundo mandato de Lula, tendo aproveitado a crise financeira internacional para dar alguns passos adiante. A “mãe do PAC” prometeu manter a trilha. Mas a defesa dos juros altos será proporcional ao enorme poder acumulado pelo setor financeiro sob o signo da globalização.

As bandeiras históricas da classe operária, como a redução da jornada de trabalho – agora para quarenta horas – e a proposta de uma reforma tributária progressiva, materializada num imposto sobre grandes fortunas, repõem em cena, por outro lado, a plataforma petista original, de fundamento classista. Em função do caráter pluriclassista da candidatura Dilma, os coordenadores da coalizão evitaram esses pontos agudos.

Mas três itens cruciais para os trabalhadores parecem fazer parte da plataforma possível. Primeiro, o prosseguimento da política de valorização do salário mínimo que, nos últimos anos, implicou maior renda para assalariados de baixa remuneração e aposentados que recebem o piso. Em segundo lugar, a manutenção do crédito, que quase dobrou no governo Lula. Em terceiro, a maior capacidade de o Estado induzir o investimento privado, por meio de empréstimos, subsídios e da participação em projetos de infraestrutura.

Tais medidas levam à diminuição do desemprego. O aumento das taxas de emprego anuncia o ressurgimento das condições para uma ascensão da luta dos trabalhadores. Uma taxa de desemprego de 6%, à qual o Brasil pode chegar ao final deste ano, aponta para um quadro semelhante àquele que vigorou antes da grande onda de demissões no segundo mandato de Fernando Henrique – e, portanto, mais próxima das condições vividas na grande década dos movimentos sociais (1978–88), que levaram o próprio Partido dos Trabalhadores a surgir, crescer e se consolidar.

Joseph Stiglitz mostra como, na concepção do setor financeiro, quando a taxa de desemprego fica abaixo de certo patamar, acende-se o alerta inflacionário, que impulsiona uma política monetária contracionista. Deve-se esperar, portanto, tensões nesse campo, em que a força da aliança produtivista será testada em embates com o setor financeiro.

É característico da atual situação um sistema de alianças móveis, em que a mudança das condições materiais pode operar rápidas alterações de posição. A mobilidade gerada com a redução da pobreza é um exemplo disso. Com carteira assinada e acesso ao crédito, brasileiros de baixa renda começaram a comprar geladeiras, aparelhos de televisão, computadores, carros e, depois, até casas financiadas em longo prazo. Os capitalistas desses ramos puderam, por seu turno, aumentar a produção e auferir lucros maiores com ela, solidificando os laços de interesse entre os trabalhadores e o capital produtivo. Só que isso deverá gerar uma pressão no sentido de aumentos salariais e outras reivindicações trabalhistas.

Sob o governo Lula, surgiram 10,5 milhões de vagas com carteira assinada. Trata-se de um novo proletariado, que entra no mercado em condições precárias, mas apto a integrar-se ao mundo sindical, que já percebeu a relevância estratégica desse contingente. “Apesar dos 10 milhões de novos empregos gerados, o mercado de trabalho brasileiro se caracteriza por elevadas taxas de rotatividade, desemprego e de informalidade, precariedade dos postos de trabalho, crescimento indiscriminado da terceirização e fragilidade do sistema de relações de trabalho”, diz a plataforma da CUT para as eleições 2010. Não se deve descartar, em consequência, a possibilidade de haver uma unificação dos estratos novos e velhos do proletariado no próximo período, dando face inédita à luta sindical.

Seja qual for o destino dos atritos que virão a marcar o ciclo político, o objetivo de reduzir a pobreza por meio da transferência de renda para os segmentos muito pauperizados deverá ser a marca dos próximos anos. Não teremos, contudo, direitos universais à saúde, à educação e à segurança sem aumentar o investimento público. No Brasil, ainda não há saneamento básico e moradia de qualidade mínima para enormes setores da população. Além dos programas de transferência de renda, os relativos à saúde, educação e segurança pública são fundamentais para a redução da pobreza e da desigualdade. O que implica em vultosos desembolsos, bem como um Estado equipado para exercer funções de envergadura. Daí, igualmente, a necessidade de continuar a valorização do funcionalismo público, com a reestruturação de carreiras de Estado e o aumento da folha de pagamento dos servidores.

Embora o Bolsa Família caminhe para se tornar um direito reconhecido na Constituição, sob a forma de uma Renda Básica de Cidadania, a ser proposta no bojo da Consolidação das Leis Sociais que o próximo governo deverá enviar ao Congresso Nacional, não há consenso ao redor do tamanho e abrangência que o Estado deve ter no Brasil. Assim como não existe acordo a respeito da reforma tributária que deveria garantir os recursos para ele. Enquanto as organizações de trabalhadores sugerem tornar o imposto mais progressivo, as entidades empresariais, unificadas quanto a essa questão, buscam diminuir a carga tributária em absoluto. Nesse item, capitalistas e assalariados se encontram em campos opostos. A pressão da burguesia pela contenção dos gastos do Estado deverá crescer.

Assim, a abrangência dos serviços públicos de saúde e educação é um tema que separa a coalizão majoritária em diferentes segmentos. Para os trabalhadores, deve-se atender ao mandamento constitucional de universalizar a saúde e educação públicas. Para os empresários, a privatização em curso, representada pelos planos de saúde e escolas privadas, merece ser preservada e ampliada. Contrapõem-se aqui visões distintas a respeito do papel do lucro no atendimento de necessidades fundamentais como medicina e educação. Divergência que se estende para o campo da previdência. Isso explica por que medidas como a revogação da CPMF, em dezembro de 2007, contaram com o ativo apoio do setor empresarial e oposição dos representantes dos trabalhadores.

Esses conflitos espelham divisões sociais mais amplas. O sociólogo Jessé Souza tem chamado a atenção para o caráter profundamente conservador da sociedade brasileira, que encara como “natural” a extrema desigualdade. Talvez até, poderíamos acrescentar, se resista à tentativa de alterar um quadro longamente estabelecido.

A expressão de tal resistência pode surgir de maneira disfarçada por certos comportamentos do cotidiano. Anos atrás, o compositor Chico Buarque, com a sua fina sensibilidade para a realidade nacional dizia: “Assim como já houve um esquerdismo de salão, há hoje um pensamento cada vez mais reacionário. O medo da violência se transformou em repúdio não só ao chamado marginal, mas aos pobres em geral, ao motoboy, ao sujeito que tem carro velho, ao sujeito que anda malvestido.”

São fundas as fraturas que separam as vastas legiões de brasileiros pobres da classe média tradicional, cuja superioridade relativa diminui à medida que o movimento de ascensão social se intensifica. A velocidade do percurso em direção a uma possível sociedade “decente e similar” dependerá até certo ponto da correlação de forças entre esse proletariado emergente e a classe média tradicional.

Essa classe média dá certa base de massa à frente rentista, que tem como programa a autonomia do Banco Central, a liberdade de movimento dos capitais, o corte dos gastos públicos e, em uma conjuntura favorável, uma reforma trabalhista que retire direitos dos trabalhadores. Ao velho e novo proletariado interessa a plataforma oposta, com a adequação da política monetária às metas de crescimento, a desvalorização do real para evitar a doença holandesa, o aumento do gasto público na direção de um Estado de bem-estar, com a transformação dos programas sociais em direitos que se somem aos da legislação trabalhista.

No plano partidário, PMDB e PT parecem destinados a representar posições divergentes na próxima etapa. Apesar das fragilidades dos partidos brasileiros, em que o excesso de pragmatismo dificulta levar ao terreno da política os interesses de classe, o sistema permite alguma refração das clivagens sociais. Desse modo, o tamanho das bancadas legislativas do PMDB e do PT – tanto na Câmara quanto no Senado – deverá determinar o andamento de propostas decisivas, como a Consolidação das Leis Sociais, no Congresso.

Os ventos internacionais, cuja temperatura e intensidade costumam influenciar na balança interna, mostram-se confusos, o que não é necessariamente ruim para o sonho rooseveltiano brasileiro. A grave crise financeira de 2008 produziu efeitos contraditórios. Enquanto nos Estados Unidos resultou em uma guinada progressista, com a vitória de Barack Obama interrompendo a escalada conservadora dos dois mandatos de Bush ii, na Europa provocou uma reação à direita, com intensificação da xenofobia e adoção de políticas econômicas contracionistas.

Nos países emergentes, a crise clarificou a percepção de que é preciso procurar uma via autônoma de desenvolvimento que não dependa da problemática recuperação dos centros capitalistas tradicionais. O Brasil em particular, embalado pelo desejo de transformar-se em uma sociedade de classe média, tem, no destaque internacional que alcançou, um impulso nessa direção.

O caminho será cheio de choques, cujo resultado exato não se pode prever. Contudo, se a minha hipótese estiver correta, durante um tempo longo o norte da sociedade será dado pelo anseio histórico de reduzir a pobreza e a desigualdade no Brasil. Em que grau e velocidade, a luta de classes dirá.

[1] A G.I. Bill, assinada por Roosevelt em junho de 1944, deu o direito a veteranos de cursar a universidade no retorno da Segunda Guerra Mundial. Promulgado pelo presidente Harry Truman em fevereiro de 1946, o Employment Actatribuía ao governo federal a incumbência de promover oportunidades de emprego.
[2] O modelo da "doença holandesa" foi desenvolvido a partir de uma análise dos efeitos dos ganhos com a exportação de gás naquele país, nos anos 70.

André Singer, jornalista, cientista político e professor na Universidade de São Paulo, foi secretário de Imprensa da Presidência da República de 2003

2 de outubro de 2010

Dois pesos...

Maria Rita Kehl

O Estado de S.Paulo

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

19 de setembro de 2010

A história e seus ardis

O lulismo posto à prova em 2010

Folha de S.Paulo

Talita Virgínia/Folhapress

RESUMO
André Singer aplica às eleições de 2010 sua tese do "realinhamento" do eleitorado brasileiro, caracterizado pela adesão das classes baixas ao "lulismo" (por verem em Lula a possibilidade de ascensão social sem confronto) e pelo afastamento da classe média tradicionalmente petista, após o escândalo do mensalão.

André Singer

CONTA-SE QUE CERTA VEZ o engenheiro Leonel Brizola teria levado o metalúrgico Lula ao túmulo de Getúlio Vargas em São Borja (RS). Lá chegando, o gaúcho pôs-se a conversar com o ex-presidente. Depois de algumas palavras introdutórias, apresentou o líder do PT ao homem que liderou a Revolução de 1930: "Doutor Getúlio, este é o Lula", disse, ou algo parecido. Em seguida, pediu que Lula cumprimentasse o morto. Não se sabe a reação do petista.

Será que algum dos personagens do encontro pressentiu que, naquela hora, estavam sendo reatados fios interrompidos da história brasileira? Desconfio que não.

Os tempos eram de furiosa desmontagem neoliberal da herança populista dos anos 1940/50. Mesmo aliados, em 1998 PT e PDT -praticamente tudo o que restava de esquerda eleitoralmente relevante- perderiam para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno. O consulado tucano parecia destinado a durar pelo menos 20 anos e trazer em definitivo o neoliberalismo para o Brasil.

BRECHA 

Foi por uma brecha imprevista, aberta pelo aumento do desemprego no segundo mandato de FHC, que Lula encontrou o caminho para a Presidência da República. Para aproveitá-la, fez substanciais concessões ao capital, pois a ameaça de radicalização teria afastado o eleitorado de baixíssima renda, o qual deseja que as mudanças se deem sem ameaça à ordem.1

Apesar da pacificação conquistada com a "Carta ao Povo Brasileiro" ter sido suficiente para vencer, o subproletariado não aderiu em bloco. Havia mais apoio entre os que tinham renda familiar acima de cinco salários mínimos do que entre os que ganhavam menos do que isso, como, aliás, sempre acontecera desde 1989. Ainda que as diferenças pudessem ser pequenas, elas expressavam a persistente desconfiança do "povão" em relação ao radicalismo do PT.

Depois de 2002, tudo iria mudar. A vitória levaria ao poder talvez o mais varguista dos sucessores do dr. Getúlio. Não em aspectos superficiais, pois nestes são expressivas as diferenças entre o latifundiário do Sul e o retirante do Nordeste. Tampouco no sentido de arbitrar, desde o alto, o interesse de inúmeras frações de classe, fazendo um governo que atende do banqueiro ao morador de rua. Dadas as condições, todos os presidentes tentam o mesmo milagre.

O que há de especificamente varguista é a ligação com setores populares antes desarticulados. Ao constituir, desde o alto, o povo em ator político, o lulismo retoma a combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou.

BURGUESIA EM CALMA 

Mas em 1º de janeiro de 2003 ninguém poderia prever o enredo urdido pela história. Para manter em calma a burguesia, o mandato inicial de Lula, como se recorda, foi marcado pela condução conservadora nos três principais itens da macroeconomia: altos superavits primários, juros elevados e câmbio flutuante. Na aparência, o governo seguia o rumo de FHC e seria levado à impopularidade pelas mesmas boas razões.

De fato, 2003 foi um ano recessivo e causou desconforto nos setores progressistas. Ao final, parte da esquerda deixou o PT para formar o PSOL. Mesmo com a retomada econômica no horizonte de 2004, Brizola deve ter morrido em desacordo com Lula, por ter transigido com o adversário.

Ocorre que, de maneira discreta, outro tripé de medidas punha em marcha um aumento do consumo popular, na contramão da ortodoxia. No final de 2003, dois programas, aparentemente marginais, foram lançados sem estardalhaço: o Bolsa Família e o crédito consignado. Um era visto como mera junção das iniciativas de FHC. O segundo, como paliativo para os altíssimos juros praticados pelo Banco Central.

Em 2004, o salário mínimo começa a se recuperar, movimento acelerado em 2005. Comendo o mingau pela borda, os três aportes juntos começaram a surtir um efeito tão poderoso quanto subestimado: o mercado interno de massa se mexia, apesar do conservadorismo macroeconômico.

Nas pequenas localidades do interior nordestino, na vasta região amazônica, nos lugares onde a aposentadoria representava o único meio de vida, havia um verdadeiro espetáculo de crescimento, o qual passava despercebido para os "formadores de opinião".

PASSO DECISIVO 

Quando sobrevém a tempestade do "mensalão" em 2005 -e, despertado do sono eterno pela reedição do cerco midiático de que fora vítima meio século antes no Catete, o espectro do dr. Getúlio começa a rondar o Planalto-, já estavam dadas as condições para o passo decisivo.

Em 3 de agosto -sempre agosto-, em Garanhuns (PE), perante milhares de camponeses pobres da região em que nascera, Lula desafiou os que lhe moviam a guerra de notícias: "Se eu for [candidato], com ódio ou sem ódio, eles vão ter que me engolir outra vez".

Até então, a ligação entre Lula e os setores populares era virtual. Chegara ao topo cavalgando uma onda de insatisfação puxada pela classe média. Optou por não confrontar os donos do dinheiro. Perdeu parte da esquerda. Na margem, acionou mecanismos quase invisíveis de ajuda aos mais necessitados, cujo efeito ninguém conhecia bem.

Foi só então que, empurrados pelas circunstâncias, o líder e sua base se encontraram: um presidente que precisava do povo e um povo que identificou nele o propósito de redistribuir a renda sem confronto.

PLACAS TECTÔNICAS 

Os setores mais sensíveis da oposição perceberam que fora dada a ignição a uma fagulha de alta potência e decidiram recuar. A hipótese de impedimento foi arquivada, para decepção dos que não haviam entendido que placas tectônicas do Brasil profundo estavam em movimento.

Em 25 de agosto, um dia depois do aniversário do suicídio de Vargas, Lula podia declarar perante o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social que a página fora virada: "Nem farei o que fez o Getúlio Vargas, nem farei o que fez o Jânio Quadros, nem farei o que fez o João Goulart. O meu comportamento será o comportamento que teve o Juscelino Kubitschek: paciência, paciência e paciência". Uma onda vinda de baixo sustentava a bonomia presidencial.

O Lula que emerge nos braços do povo, depois da crise, depende menos do beneplácito do capital. Daí a entrada de Dilma Rousseff e Guido Mantega em postos estratégicos, o que mudou aspectos relevantes da política macroeconômica. Os investimentos públicos, contidos por uma execução orçamentária contracionista, foram descongelados no final de 2005. O salário mínimo tem um aumento real de 14% em 2006.

POLARIZAÇÃO 

Para o público informado, a constatação do que ocorrera ainda demoraria a chegar. Foi preciso atingir o segundo turno de 2006 para que ficasse claro que o povo tinha tomado partido, ainda que em certos ambientes de classe média "ninguém" votasse em Lula.

A distribuição dos votos por renda mostra a intensa polarização social por ocasião do pleito de 2006. Pela primeira vez, o andar de baixo tinha fechado com o PT, antes forte na classe média, numa inversão que define o realinhamento iniciado quatro anos antes.

Embora, do ponto de vista quantitativo, a mudança relevante tenha se dado em 2002, o que define o período é o duplo movimento de afastamento da classe média e aproximação dos mais pobres. Por isso, o mais correto é pensar que o realinhamento começa em 2002, mas só adquire a feição definitiva em 2006. Como, por sinal, aconteceu com Roosevelt entre 1932 e 1936.

SEGUNDO MANDATO 

Assentado sobre uma correlação de forças com menor pendência para o capital, o segundo mandato permitirá a Lula maior desenvoltura. Com o lançamento do PAC, fruto de um orçamento menos engessado, aumentam as obras públicas, as quais vão absorver mão de obra, além de induzir ao investimento privado.

Em 2007, foi gerado 1,6 milhão de empregos, 30% a mais do que no ano anterior. A recuperação do salário mínimo é acelerada, com aumento real de 31% de 2007 a 2010, contra 19% no primeiro mandato, conforme estimativa de um dos diretores do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)2. A geração de emprego e renda explica os 70% de aprovação do governo desde então.

Nem mesmo a derrubada da CPMF, com a qual a burguesia mostrou os dentes no final de 2007, reduziu o ritmo dos projetos governamentais. A transferência de renda continuou a crescer. Foi só ao encontrar a parede do tsunami financeiro, no último trimestre de 2008, que se interrompeu o ciclo ascendente de produção e consumo. Teria chegado, então, segundo alguns, a hora da verdade. Com as exportações em baixa, o lulismo iria definhar.

COMPRAR SEM MEDO 

Mas o lulismo já contava com um mercado interno de massa ativado, capaz de contrabalançar o impacto da crise no comércio exterior. A ideia, difundida pelo presidente, de que a população podia comprar sem medo de quebrar, ajudou a conter o que poderia ser um choque recessivo e a relançar a economia em tempo curto e velocidade alta.

Além da desoneração fiscal estratégica, como a do IPI sobre os automóveis e os eletrodomésticos da linha branca, o papel dos bancos públicos -em particular o do BNDES- na sustentação das empresas aumentou a capacidade do Estado para conduzir a economia. Numa manobra que lembra a de Vargas na Segunda Guerra, Lula utilizou a situação externa para impulsionar a produção local.

Surge uma camada de empresários -Eike Batista parece ser figura emblemática, como notava dias atrás um economista-, dispostos a seguir as orientações do governo. A principal delas é puxar o crescimento por meio de grandes obras, como as de Itaboraí -o novel polo petroquímico no Estado do Rio-, as de Suape (PE) e de Belo Monte, na Amazônia. Cada uma delas alavancará regiões inteiras.

Por fim, a aliança entre a burguesia e o povo, relíquia de tempos passados que ninguém mais achava que pudesse funcionar, se materializa diante dos olhos. Que o estádio do Corinthians em Itaquera não nos deixe mentir.

PROJETO PLURICLASSISTA 

A candidatura Dilma representa o arco que o lulismo construiu. A ex-ministra, por sua biografia, é talhada para levar adiante um projeto nacional pluriclassista. O fato de ter sido do PDT até pouco tempo atrás não é casual. A mãe do PAC tem uma visão dos setores estratégicos em que a burguesia terá que investir, com o BNDES.

O povo lulista, que deseja distribuição da renda sem radicalização política, já dá sinais de que o alinhamento fechado em 2006 está em vigor. Em duas semanas de propaganda eleitoral na TV, Dilma subiu 9 pontos percentuais e Serra caiu 5. À medida que os mais pobres adquirem a informação de que ela é a candidata de Lula, o perfil do seu eleitorado se aproxima do que foi o de Lula em 2006. Ou seja, o voto em Dilma cresce conforme cai a renda, a escolaridade e a prosperidade regional.

A classe média tradicional, em que pese aprovar o governo, continuará a votar na oposição, como demonstram a dianteira de Serra em Curitiba e o virtual empate em São Paulo, municípios em que o peso numérico das camadas intermediárias é significativo.

Parte delas, sobretudo entre os jovens universitários, deverá optar por Marina Silva. Isso explica por que os que têm renda familiar mensal acima de cinco salários mínimos dão 12 pontos percentuais de vantagem para a soma de Serra e Marina sobre Dilma na pesquisa Datafolha concluída em 3/9.

O problema da oposição é que esse segmento reúne apenas 14% do eleitorado, de acordo com a amostra utilizada pelo Datafolha, enquanto os mais pobres (até dois salários mínimos de renda familiar mensal) são 48% do eleitorado. Nesse segmento, Dilma possui uma diferença de 22 pontos percentuais sobre Serra e Marina somados! Se vier a ganhar no primeiro turno, será graças ao apoio, sobretudo, dos eleitores de baixíssima renda, como ocorreu com Lula na eleição passada.

REALINHAMENTO 

A feição popular da provável vitória de Dilma confirma, assim, a hipótese que sugerimos no ano passado a respeito da novidade que emergiu em 2006. Se estivermos certos, por um bom tempo o PSDB precisará aprender a falar a linguagem do lulismo para ter chances eleitorais. Não se trata de mexicanização, mas de realinhamento, o qual significa menos a vitória reiterada de um mesmo grupo e mais a definição de uma agenda que decorre do vínculo entre certas camadas e partidos ou candidatos.

Quando um governo põe em marcha mecanismos de ascensão social como os que se deram no New Deal, e como estamos a assistir hoje no Brasil, determina o andamento da política por um longo período. Num primeiro momento, trata-se da adesão dos setores beneficiados aos partidos envolvidos na mudança -o Partido Democrata nos EUA, o PT no Brasil.

Com o passar do tempo e as oscilações da conjuntura, os aderentes menos entusiastas podem votar em outro partido, mesmo sem romper o alinhamento inicial. Foi o que aconteceu com as vitórias do republicano Eisenhower (1952 e 1956) e dos democratas Kennedy (1960) e Johnson (1964).

Mas para isso a oposição não pode ser extremada, como bem o percebeu a hábil Marina Silva. Até certa altura da sua campanha, José Serra igualmente trilhou esse caminho. Foi a fase em que propôs cortar juros e duplicar a abrangência do Bolsa Família.

Depois, tragado pela lógica do escândalo, retornou ao caminho udenista da denúncia moral, que só garante os votos de classe média -o que, no Brasil, não ganha eleição. Convém lembrar que no ciclo dominado pelo alinhamento varguista, a UDN só conseguiu vencer com um candidato: Jânio Quadros, que falava a linguagem populista. Fora disso, resta o golpe, sombra da qual estamos livres.

DURAÇÃO 

Qual será a duração do ciclo aberto em 2002, completado em 2006, e, aparentemente, a ser confirmado em 2010? O realinhamento abrange, por definição, um período longo. O último que vivemos, dominado pelo oposicionismo do MDB/PMDB, durou 12 anos (1974-86) e foi sepultado, quem sabe antes do tempo, pelo fracasso em controlar a inflação. A resposta para o atual momento também deve contemplar a economia.

Por isso, as condições de manter, pelo menos, o ritmo de crescimento médio alcançado no segundo mandato de Lula, algo como 4,5% de elevação anual do PIB, estarão no centro das preocupações do novo presidente. Sem ele, as premissas do lulismo ficam ameaçadas. Recados criptografados sobre a necessidade de reduzir a rapidez do crescimento e de fazer um ajuste fiscal duro já apareceram na imprensa, dirigidos a Dilma, provável vencedora.

O capital financeiro -apelidado na mídia de "os mercados"- vai lhe cobrar o tradicional pedágio de quem ainda não "provou" ser confiável. Caso os reclamos de pisar no freio não sejam atendidos, sempre haverá o recurso de o BC -cuja direção deverá continuar com alguém como Henrique Meirelles, senão o próprio- aumentar os juros. O aumento real do salário mínimo no primeiro ano de governo, que dependerá da presidente, pois o PIB ficou estagnado em 2009, será outro teste relevante.

CABO DE GUERRA 

Convém notar que, no segundo mandato de Lula, ainda que de modo relutante, o BC foi obrigado a trabalhar com juros mais baixos. Mas o cabo de guerra será reiniciado no dia 3 de janeiro de 2011. Com os jogadores em posse de um estoque de fichas renovados pela eleição, uns apostarão em uma recuperação do espaço perdido, outros numa aceleração do caminho trilhado no segundo mandato.

O PMDB, elevado à posição de sócio importante da vitória, atribuiu-se, na campanha, o papel de interlocutor com o empresariado. O PT, possivelmente fortalecido por uma bancada maior, deverá, pela lógica, fazer-lhe o contraponto do ângulo popular. A escolha dos presidentes da Câmara e do Senado, em fevereiro, servirá de termômetro para o balanço das respectivas forças.

O futuro do lulismo dependerá de continuar incorporando, com salários melhores, os pobres ao mundo do trabalho formal. Em torno desse ponto é que se darão os principais conflitos e se definirá a extensão do ciclo. Alguns analistas da oposição alertam para a proximidade de um índice de emprego que começará a encarecer a mão de obra e gerar inflação. Como mostra Stiglitz,3 é a conversa habitual dos conservadores para brecar a expansão econômica.

Por fim, não se deve esquecer que uma palavra decisiva sobre esses embates virá de São Bernardo, onde residirá o ex-presidente, bem mais perto da capital do que foi, no passado, São Borja.

Aguardam-se os conselhos de Vargas e Brizola, dos quais poderemos tomar conhecimento naquelas mensagens psicografadas por Elio Gaspari.

Notas

1. Ver André Singer. "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo", "Novos Estudos", 85, nov 2009.
2. Ver João Sicsú. "Dois Projetos em Disputa". "Teoria e Debate", 88, mai/jun 2010.
3. Ver Joseph Stiglitz, "Os Exuberantes Anos 90", Companhia das Letras, 2003.

Ao constituir, desde o alto, o povo em ator político, o lulismo retoma a combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou

Empurrados pelas circunstâncias, o líder e sua base se encontraram: um presidente que precisava do povo e um povo que identificou nele o propósito de redistribuir a renda sem confronto

Em 2006, pela primeira vez, o andar de baixo tinha fechado com o PT, antes forte na classe média, numa inversão que define o realinhamento iniciado quatro anos antes

A aliança entre a burguesia e o povo, que ninguém mais achava que pudesse funcionar, se materializa diante dos olhos. Que o estádio do Corinthians em Itaquera não nos deixe mentir

1 de setembro de 2010

O colapso de Wall Street e o regresso à economia baseada na realidade

Esta é uma resenha do livro de John Cassidy, How Markets Fail: The Logic of Economic Calamities (New York: Macmillan Publishers, 2009).

Robert Pollin
Monthly Review Volume 62, Number 4 (September 2010)

Tradução / Durante a última geração, a economia dos EUA, bem como a maior parte do resto da economia global, foram dominadas pela ideia de que o capitalismo de mercado livre produz crescimento dinâmico, estabilidade financeira e que se chegue tanto quanto é possível a uma sociedade justa. Os apoiantes deste quadro pró-mercado sustentam que as intervenções governamentais para encorajar o crescimento, a estabilidade, ou mesmo a justiça, produzirão quase sempre mais danos do que benefícios. Este modo de pensar tem sido a base intelectual da era da desregulamentação financeira nos Estados Unidos – daí o desmantelamento do sistema regulador Glass-Steagall que foi construído no meio dos escombros da queda da bolsa de 1929 e da consequente Depressão dos anos 30. A administração Clinton forneceu os últimos pregos no caixão da regulamentação financeira com a aprovação da Lei de Modernização dos Serviços Financeiros em 1999.

Escrevendo em Julho de 2010, no recente rescaldo da mais profunda crise dos mercados financeiros desde a década de 1930, é evidente que a defesa em nome dos mercados financeiros não regulamentados entrou em colapso de forma tão decisiva como o fizeram os próprios mercados. A crise teria sido muito pior ainda, se não fossem as operações de resgates massivos do governo que sustentaram tanto o sistema financeiro como a despesa agregada na economia.

Além disso, o colapso de 2008-09 não foi uma mera aberração. As crises financeiras têm sido uma característica regular dos Estados Unidos e da paisagem económica global desde que o impulso para a desregulamentação começou a sério no final dos anos 70. Considere-se o registo dos vinte anos anteriores ao desastre de 2008-09: um colapso da bolsa de valores em 1987; a crise de Caixas de Poupança e Crédito e o seu resgate em 1989-90; a crise dos “mercados emergentes” de 1997-98 – que derrubou, entre outros, a Long-Term Capital Management, o super fundo de cobertura, liderado por dois laureados com o Prémio Nobel da Economia, especializados em finanças – e o rebentar da bolha da bolsa de valores dot-com em 2001. Cada uma destas crises poderia ter produzido um colapso ao estilo de 1930, na ausência de operações de salvamento em larga escala do governo. Além disso, como Charles Kindleberger deixa bem claro no seu estudo clássico Manias, Panics, and Crashes, tais crises tinham feito parte dos ritmos regulares das economias capitalistas antes do estabelecimento do sistema regulador Glass-Steagall nos Estados Unidos e regimes comparáveis em outras economias avançadas.

O novo livro de John Cassidy, How Markets Fail: The Logic of Economic Calamities é uma contribuição importante para uma pilha já pesada de livros, relatórios, dissertações e manifestos que tentam explicar o que correu tão mal desta vez. Como muitas das melhores contribuições para esta nova literatura, Cassidy fornece uma narrativa esclarecedora das causas da crise, incluindo discussões sobre a bolha imobiliária, o mercado hipotecário subprime, os mercados de instrumentos financeiros derivados, e como todo este edifício de engenharia financeira e turbo-carregado de alta tecnologia, construído pelas mentes mais espertas de Wall Street, se desmoronou. Cassidy também explica como a maioria dos grandes atores do mercado financeiro – Goldman Sachs, Citibank, J.P. Morgan e alguns outros – conseguiram ser resgatados pelo Tesouro dos Estados Unidos e pela Reserva Federal. A alternativa na altura – dado que uma reestruturação radical do sistema financeiro não era uma solução viável a curto prazo – era permitir que centenas de milhões de pessoas inocentes experimentassem efeitos ainda mais terríveis da imprudência de Wall Street.

Ao contar a história da crise, Cassidy reserva um desprezo especial para Alan Greenspan, o Presidente da Reserva Federal de 1987 a 2006, que insistiu incansavelmente na desregulamentação financeira durante o seu mandato, apesar de ele próprio ter dirigido múltiplas operações de resgate financeiro para evitar os piores efeitos do constante desmantelamento da lei Glass-Steagall. Greenspan ganhou completamente o “opprobrium” de Cassidy, mas continuava a ser injusto destacá-lo como o único alto responsável. Certamente, Robert Rubin e Larry Summers, que serviram ambos como Secretário do Tesouro sob o Presidente Clinton, foram co-conspiradores iguais a Greenspan na promoção da agenda de desregulamentação sob Clinton. Além disso, a partir dos anos 70, grandes maiorias dos partidos democrata e republicano apoiaram de bom grado a agenda de desregulamentação que Wall Street iria elaborar em seu nome. Saltando para o presente, talvez o erro mais caro até à data da presidência Obama tenha sido colocar o mesmo Larry Summers com o alto cargo da política económica, com vários outros acólitos de Robert Rubin a ocuparem também posições importantes.

O foco na teoria económica

O que distingue o livro de Cassidy do resto da nova literatura não é a sua narrativa “per se”, de qualquer aspeto da crise, mas sim a sua decisão de enquadrar o seu livro no contexto dos debates sobre a teoria económica. De facto, o livro está dividido em três secções, com apenas a terceira final centrada nos acontecimentos de 2007-09. O primeiro terço do livro é sobre a teoria económica ortodoxa pró-mercado livre, o que Cassidy chama de “economia utópica”. O termo encaixa, porque, como Cassidy deixa claro, a única forma dos teóricos económicos poderem chegar à conclusão de que o capitalismo de mercado livre é um sistema viável é através de considerarem hipóteses heroicas – ou seja, “utópicas” – sobre o comportamento humano e ignorando centenas de anos de evidência histórica.

No segundo terço do livro, Cassidy pesquisa então o que ele denomina “economia baseada na realidade”. Esta secção cobre várias vertentes do pensamento económico que fornecem explicações sobre a razão pela qual as operações do capitalismo de mercado livre quebram frequentemente. John Maynard Keynes é certamente a figura imponente entre os contribuidores do século XX para este grupo, e Cassidy faz um bom trabalho ao descrever o trabalho de Keynes. Mas as discussões de Cassidy nesta secção variam amplamente em torno de várias questões, incluindo a proteção ambiental e o mercado de carros usados, para além da sua principal preocupação, as operações dos mercados financeiros.

O primeiro ponto geral a sublinhar sobre estas duas primeiras secções do livro sobre a teoria económica – que compreende dezasseis capítulos no total – é que elas não são secas e intimidantes, ao contrário do que se poderia razoavelmente antecipar por ter talvez seguido um curso de economia introdutória ou mergulhado na maioria dos livros-texto habituais. Pelo contrário, a escrita de Cassidy nestes capítulos é clara e animada. Entre outras características, estas secções incluem esboços biográficos de muitos dos principais contribuidores para a literatura da teoria económica, à maneira da obra clássica de Robert Heilbroner, The Worldly Philosophers. Assim, Cassidy dedica corretamente muita atenção a Milton Friedman, sem dúvida o expoente mais influente da economia de mercado livre no século XX. Mas Cassidy também discute os laços estreitos de Friedman com o governo fascista do Chile, que chegou ao poder em 1973, num violento golpe que derrubou o governo democraticamente eleito do primeiro presidente socialista do país, Salvador Allende.

Mas a característica mais significativa e surpreendente dos capítulos teóricos de Cassidy é que, que eu saiba, ele é o primeiro comentador amplamente lido a dar o grande macroeconomista financeiro Hyman Minsky e o igualmente grande economista marxista e co-editor fundador da Monthly Review, Paul Sweezy, como duas figuras de um pequeno punhado de pessoas que reconheceram e alertaram para os padrões de crescente fragilidade financeira que, a seu tempo, produziriam os desastres de 2008-09. Assim, Cassidy oferece um sentido de justificação para leitores de longa data da revista Monthly Review, como eu, relativamente à marginalização experimentada por Sweezy e o seu co-autor e co-editor de Monthly Review Harry Magdoff, durante os anos 70 e 80, quando publicavam a primeira principal vaga de artigos sobre finanças na Monthly Review. Estes artigos notáveis foram posteriormente recolhidos em livros, incluindo The End of Prosperity (1977) e Stagnation and the Financial Explosion (1987).

Globalmente, então, How Markets Fail é um trabalho de considerável envergadura, oferecendo novas perspetivas sobre uma vasta gama de tópicos ao longo dos vinte e três capítulos. Mas Cassidy também vai colocando as várias vertentes do livro numa narrativa abrangente sobre como é que a abismal “economia utópica” tem servido como um quadro analítico para a gestão dos mercados financeiros contemporâneos. Isto mesmo enquanto a “economia baseada na realidade”, incluindo Minsky e Sweezy no topo da pilha, há muito que eram recursos disponíveis mas não utilizados para compreender como criar mercados financeiros estáveis.

Da economia utópica ao neoliberalismo

Ao ler o ataque total de Cassidy à economia utópica, é fácil esquecer quão profundamente esta abordagem foi capaz de dominar a teoria económica e a elaboração de políticas em todo o mundo desde a década de 1970 até à crise de 2008-09, e que ainda, até hoje, terá apenas cedido pequenos pedaços de território da teoria económica. Afinal, esta abordagem é a pedra angular do que veio a ser conhecido como neoliberalismo, o modelo de política económica de formato único com que se insiste que a agenda do mercado livre é sempre superior às intervenções governamentais, exceto em situações em que as grandes empresas e as grandes finanças requerem o apoio do governo para sobreviverem.

Como Cassidy discute, houve três figuras gigantes da economia neoliberal no passado recente: Friedrich Hayek e Robert Lucas, para além de Milton Friedman, todos eles laureados com o Prémio Nobel da Economia. Já na década de 1930, Hayek ganhou fama ao argumentar que as economias socialistas, mesmo aquelas que proporcionavam um amplo espaço para interacções de mercado, bem como o planeamento governamental, estavam condenadas ao fracasso. Isto porque, se não se permite o livre funcionamento dos mercados, duros e de negociação dura – não a versão fraca de imitação que surgiria dentro da armadilha do aço de uma economia socialista planeada – as pessoas seriam incapazes de obter a informação de que necessitam para tomar decisões económicas eficazes. Os argumentos de Hayek foram largamente negligenciados quando os apresentou pela primeira vez, mas ele ganhou imenso prestígio após o colapso do socialismo de estilo soviético em 1989. Após a queda do Muro de Berlim, até muitos esquerdistas chegaram à conclusão de que, à luz da experiência histórica, Hayek tinha conseguido bem melhor do que Oskar Lange, um socialista polaco e eminente economista da Universidade de Chicago por direito próprio, nos seus famosos debates sobre a viabilidade do socialismo de mercado.

Hayek apresentou importantes ideias sobre o papel dos mercados enquanto máquinas de processamento de informação eficazes. Mas a interpretação que Hayek fez desta questão foi tipicamente unilateral- na verdade “utópica” – porque ignorou todas as formas como esta máquina era propensa ao fracasso. Como Cassidy discute longamente, no mundo real, as pessoas quase sempre tomam decisões nas suas transacções de mercado com base em informação incompleta ou, dito de outra maneira, informação distorcida. Um exemplo recente importante disto foi a experiência de milhões de proprietários de casas nos EUA que contraíram hipotecas subprime sem compreenderem que os seus pagamentos de juros aumentariam acentuadamente cerca de um ano depois de aceitarem inicialmente o empréstimo a taxas iniciais muito baixas. Além disso, mesmo que tenhamos informações precisas sobre o mercado, as nossas capacidades cognitivas para processar estas informações são também limitadas. Vários investigadores discutidos por Cassidy, nomeadamente Joseph Stiglitz, George Akerlof, Herbert Simon, e Daniel Kahneman, foram galardoados com prémios Nobel da economia por desenvolverem importantes conhecimentos sobre estas questões.

Mas o fracasso mais espetacular dentro do panteão da economia utópica tem de ser Robert Lucas. Lucas seguiu Milton Friedman, tanto como o impulsionador da Universidade de Chicago como o macroeconomista neoliberal mais influente da sua geração. Nos primeiros anos da minha própria carreira como professor de macroeconomia graduado nos anos 80, Lucas foi considerado como o padrão de ouro absoluto entre os jovens macroeconomistas do pensamento dominante em economia. Este grupo de pessoas agarrou-se firmemente à ideia de que se o leitor, professor, e os seus estudantes não estavam de alguma forma a regurgitar Lucas, então não estavam a ensinar-aprender economia de forma séria. Como o próprio Lucas observou em 1980, “não se pode encontrar bons economistas com menos de quarenta anos que se identifiquem ou o seu trabalho como Keynesianismo... Nos seminários de investigação, as pessoas já não levam a sério a teorização keynesiana; o público começa a sussurrar e a rir-se uns para os outros”.

Mas para quem entrou no campo para tentar pensar seriamente sobre o mundo em vez de apenas seguir a moda da época, era óbvio desde o primeiro passo que o modelo Lucas era extremo. Isto torna-se claro ao seguir, por exemplo, a sua análise altamente influente que explica a futilidade das intervenções de política monetária como meio de reduzir o desemprego numa recessão. Para começar, Lucas assumiu que as pessoas levavam na cabeça um modelo totalmente trabalhado e preciso de como a macroeconomia funciona. No caso de a Reserva Federal tentar estimular a economia e expandir as oportunidades de emprego através da redução das taxas de juro, todas as pessoas racionais, trabalhando com os modelos macroeconómicos precisos nas suas cabeças, saberiam que esta iniciativa acabaria por causar inflação. Mais precisamente, calculariam a inflação que seria produzida pela intervenção da Reserva Federal e, como tal, saberiam também que esta aceleração da taxa de inflação iria desgastar o quanto poderiam comprar com o salário dado que estavam a receber. Os trabalhadores perceberiam, portanto, que seriam estúpidos em fornecer o mesmo nível de esforço de trabalho até os seus salários serem aumentados para os compensar pelo aumento da inflação. Do mesmo modo, os desempregados recusariam ofertas de emprego cujos salários não tivessem em conta a erosão do seu poder de compra que resultaria da inflação que teriam previsto de forma precisa.

Lembro-me de nos anos 80 ter desafiado os meus alunos de doutoramento a ajudar-me a realizar com precisão, mesmo que fosse só um dos múltiplos cálculos que Lucas afirmou que qualquer pessoa podia e fazia regularmente. Escusado será dizer que todos nós falhámos a tarefa, e não tenho dúvidas de que o próprio Lucas também teria falhado. A razão era simplesmente que não havia maneira possível de alguém saber tudo o que Lucas afirmava alegremente que toda a gente sabe, como é óbvio. Alguma vez houve um grande líder intelectual tão completamente fora de contacto com as realidades fora da porta do seu escritório, ou mesmo dentro da sua própria cabeça?

No entanto, as afirmações de Lucas sobre as capacidades de super-cálculo dos desempregados serviram um propósito importante: foi a base da sua conclusão de que qualquer esforço do governo para criar empregos iria inevitavelmente cair-lhe na cara, e apenas produzir uma inflação mais elevada. Da perspetiva de Lucas, a boa notícia sobre a sua conclusão quanto à futilidade das intervenções políticas governamentais foi a sua outra principal conclusão de que, sempre e em todo o lado, tais intervenções eram desnecessárias, uma vez que o mercado livre podia manter o crescimento económico e o pleno emprego por si só.

Minsky, Sweezy/Magdoff, e Realidade

Contra o fracasso objetivo de Lucas e da sua corte, Hyman Minsky, desde os anos 50 até à sua morte em 1996, construiu um quadro analítico que explicava como os mercados financeiros desregulamentados produzirão sempre instabilidade e crises. Cassidy selecionou bem ao estabelecer o modelo de Minsky como peça central analítica do seu livro.

Como Cassidy descreve, a chave para Minsky na compreensão da instabilidade financeira é traçar as mudanças que ocorrem na psicologia dos investidores à medida que a economia sai de um período de crise financeira e recessão ou depressão, e entra numa fase de aumento dos lucros e crescimento. Saindo de uma crise, os investidores tenderão a ser cautelosos, uma vez que muitos deles terão sido afetados financeiramente durante a recessão de que se acabou de sair. Por exemplo, eles manterão grandes reservas de dinheiro como almofada para se protegerem contra crises futuras.

Mas à medida que a economia emerge da sua queda e os lucros sobem, as expectativas dos investidores tornam-se cada vez mais positivas. Tornam-se ansiosos por prosseguir ideias de investimento de risco, tais como empréstimos hipotecários subprime colateralizados. Tornam-se também mais dispostos a deixar diminuir as suas reservas de dinheiro, uma vez que o dinheiro inativo não gera lucros, enquanto compram veículos especulativos, tais como títulos hipotecários subprime, que poderiam produzir retornos de 10% ou mais.

Mas estes movimentos significam também que os investidores estão a enfraquecer as suas defesas contra a próxima crise financeira. É por isso que, na opinião de Minsky, as retomas da economia, que se desenrolam sem regulação, encorajam inevitavelmente os excessos especulativos em que surgem bolhas financeiras. Minsky explicou que, num ambiente não regulado, a única forma de parar as bolhas financeiras é deixá-las rebentar. Os mercados financeiros caem então numa crise e segue-se uma recessão ou depressão.

Aqui chegamos a uma das intuições cruciais de Minsky – que as crises e recessões financeiras servem de facto um propósito nas operações de uma economia de mercado livre, mesmo quando provocam estragos na vida das pessoas, incluindo as de dezenas de milhões de inocentes que nunca investem um cêntimo em Wall Street. O argumento de Minsky é que, sem crises financeiras, uma economia de livre mercado não tem forma de desencorajar as inclinações naturais dos investidores para riscos cada vez maiores na procura de lucros cada vez maiores.

No entanto, na sequência da calamitosa Depressão dos anos 30, os economistas keynesianos tentaram conceber medidas que pudessem suplantar as crises financeiras como o regulador “natural” do sistema. Este foi o contexto em que foi criado o sistema do capitalismo do grande governo pós-Segunda Guerra Mundial. O pacote incluía dois elementos básicos: regulamentações concebidas para limitar a especulação e canalizar recursos financeiros para investimentos socialmente úteis, tais como habitações unifamiliares; e operações de resgate do governo para evitar depressões ao estilo de 1930, quando as crises financeiras eclodiram de uma maneira ou de outra.

Minsky argumenta que tanto o sistema de regulamentação financeira, como as operações de resgate, foram, em grande parte, bem sucedidas. É por isso que, desde o final da Segunda Guerra Mundial até meados dos anos 70, os mercados financeiros, nos Estados Unidos e a nível mundial, foram muito mais estáveis do que em qualquer período histórico anterior. Mas mesmo durante o período do próprio New Deal, os titãs dos mercados financeiros já lutavam veementemente para eliminar, ou pelo menos para rebentar com a regulação financeira. Na década de 1970, quase todos os políticos dos EUA – democratas e republicanos – se tornaram dóceis para com a alta finança. Para Minsky, as consequências eram previsíveis.

O paradigma de Wall Street, de acordo com Minsky, não abordava todas as dificuldades do capitalismo de mercado livre. Em particular, o seu modelo negligencia os problemas que surgem das enormes disparidades de rendimento, riqueza e poder que são tão endémicas para o capitalismo de mercado livre como as suas tendências para a instabilidade financeira.

É aqui que o trabalho de Sweezy e Magdoff começa a preencher um buraco gigantesco. Como os leitores regulares de MR sabem bem, a análise de Sweezy/Magdoff da financeirização estava intimamente ligada à sua estrutura mais ampla, explicando como o capitalismo avançado enfrentava problemas crónicos de procura global insuficiente e, correspondentemente, oportunidades de investimento rentável inadequadas. Da sua perspetiva, a financeirização da economia – incluindo o encorajamento na criação de bolhas especulativas – era o principal meio através do qual os capitalistas podiam criar novas oportunidades de investimento para si próprios. Como Sweezy e Magdoff escreveram em MR já em 1987, “Será a sociedade do casino um entrave significativo ao crescimento económico? Absolutamente não. O crescimento que a economia tem tido nos últimos anos, para além daquele atribuível a uma acumulação militar em tempo de paz sem precedentes, tem sido quase inteiramente devido à explosão financeira”.

Tal como com Minsky, Sweezy e Magdoff também não desenvolveram um quadro totalmente adequado para compreender as bolhas e crises financeiras. Existem lacunas e deficiências significativas em ambas as abordagens que precisam de ser trabalhadas por outros investigadores, como é o caso de todos os programas de investigação que sejam socialmente significativos. Mas isto levanta uma questão maior: por que razão, nos últimos trinta anos, foi algo na ordem dos 90 por cento dos economistas profissionais da macroeconomia que trabalharam em aspectos do quadro Friedman/Lucas, enquanto menos de 1 por cento estavam a desenvolver a abordagem Minsky/Sweezy? Cassidy, infelizmente, ignora esta questão, talvez porque a resposta é óbvia. Quaisquer que sejam as suas falhas em termos de coerência intelectual ou relevância, o modelo Friedman/Lucas – e o neoliberalismo em geral – faz um trabalho notável ao serviço dos interesses das grandes empresas e dos ricos, enquanto a abordagem Minsky/Sweezy desafia a legitimidade do capitalismo de mercado livre e dos seus beneficiários. Isto é especialmente verdade quando se faz um único pequeno ajustamento ao modelo Friedman/Lucas, que é a inovação chave do neoliberalismo, em oposição ao liberalismo clássico. Ou seja, o neoliberalismo tem tudo a ver com permitir que o mercado livre rebente, incluindo especialmente em Wall Street, mas que também não hesitará em defender os resgates governamentais quando surgirem as inevitáveis crises financeiras. Visto desta forma, os resgates de Wall Street não são apenas absolutamente necessários para manter o capitalismo a flutuar; são também centrais para manter a legitimidade da teoria económica dominante e favorável aos negócios.

Cassidy termina o livro How Markets Fail com um apelo às armas: “Antes que a vontade política de reforma se dissipe, é essencial colocar Wall Street no seu lugar e confrontar a economia utópica com a economia baseada na realidade”. No entanto, ao longo do seu longo e cuidadoso estudo, ele nunca se concentra seriamente na forma como podemos traduzir os conhecimentos da economia baseada na realidade num conjunto viável de políticas e instituições que possam tanto reconstruir sistemas financeiros estáveis como, mais fundamentalmente, começar de novo a avançar o projeto histórico de criação de economias democráticas sustentáveis e igualitárias. Esta é uma lacuna que obviamente terá de ser preenchida por um vasto leque de economistas baseados na realidade, ao lado de cidadãos que não estão dispostos a servir de bode expiatório quer para os grandes esquemas de Wall Street, quer para as bizarras proposições da economia utópica.

Colaborador

Robert Pollin (pollin@econs.umass.edu) é professor de economia e codiretor do Instituto de Pesquisa de Economia Política (PERI) da Universidade de Massachusetts-Amherst. Seus livros incluem Novas Perspectivas em Macroeconomia Monetária: Explorações na Tradição de Hyman P. Minsky (coeditor, 1994) e Contours of Descent (2004). Esta é uma resenha de How Markets Fail: The Logic of Economic Calamities, de John Cassidy (Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2009), 400 páginas, US$ 28,00, capa dura.

30 de agosto de 2010

Operações secretas

Os irmãos bilionários que estão travando uma guerra contra Obama.

Jane Mayer

The New Yorker

David H. Koch em 1996. Ele e seu irmão Charles são libertários de longa data e discretamente doaram mais de cem milhões de dólares para causas de direita. Fotografia de Richard Schulman / Corbis

Tradução / No dia 17 de maio, um público em black-tie na Metropolitan Opera House aplaudiu um bilionário alto, de ar jovial, que logo subiu ao palco. Acontecia a 17ª noite de gala anual do American Ballet Theatre, e David H. Koch, membro do conselho de curadores da entidade, recebia homenagens pela generosidade; acabava de doar 2,5 milhões de dólares para a próxima temporada da Companhia e, antes, já doara vários outros milhões. Koch recebeu o prêmio ladeado pelos dois co-presidentes da solenidade, Blaine Trump, em vestido rosa-pêssego, e Caroline Kennedy Schlossberg, em verde-esmeralda. A mãe de Kennedy, Jacqueline Kennedy Onassis, foi patronnesse do balé e, por coincidência, proprietária anterior do apartamento, na 5ª Avenida, que Koch comprou em 1995 e vendeu 11 anos depois por 32 milhões de dólares, quando o apartamento começou a parecer-lhe pequeno.

A solenidade de gala foi um marco na ascenção social de Koch, que, aos 70 anos, é um dos mais destacados filântropos da cidade. Em 2008, doou 100 milhões de dólares para modernizar o Teatro do Estado de New York, no Lincoln Center, teatro que hoje leva seu nome. Deu 20 milhões ao Museu de História Natural, e dá nome, hoje, à ala dos dinossauros. Na primavera, depois de dar-se conta do estado de decrepitude das fontes à frente do Metropolitan Museum of Art, Koch prometeu pelo menos 10 milhões para recuperá-las. É curador do museu, talvez o prêmio social mais cobiçado da cidade, e participa também da direção do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, onde, depois de ele ter doado mais de 40 milhões de dólares, uma cátedra e um centro de pesquisas criados e mantidos por ele receberam seu nome.

Um dignitário estava estranhamente ausente da solenidade: a terceira presidenta honorária do evento, Michelle Obama. Seu gabinete informou que havia um conflito de agenda, que a impediria de comparecer. Caso é que, se a Primeira Dama partilhasse o palco com Koch, ter-se-ia ali quadro muito estranho. Em Washington, Koch é mais conhecido como membro da família que tem financiado os mais violentos ataques contra o governo federal, no geral; e contra o governo Obama, no específico.

Com o irmão Charles, 74 anos, David Koch é dono, praticamente, de todas as Indústrias Koch, um conglomerado com sede em Wichita, Kansas, cuja renda anual tem sido estimada em 100 bilhões de dólares. A empresa cresceu espetacularmente depois da morte do pai de Charles e David, Fred, em 1967, quando os irmãos assumiram o controle. Os Kochs operam refinarias de petróleo no Alaska, no Texas, e em Minnesota, e controlam cerca de 4 mil milhas de oleodutos. As Koch Industries são proprietárias da Brawny, fábrica de toalhas de papel; da Dixie cups, da Georgia-Pacific, serrarias; dos carpetes Stainmaster, da Lycra e de muitas outras empresas e fábricas. A revista Forbesclassificou o grupo Koch como a segunda maior empresa privada do país, depois da Cargill; e a rentabilidade consistente do grupo fez de David e Charles Koch – os quais, há anos, compraram as partes de outros dois irmãos – dois dos homens mais ricos dos EUA. Combinadas as fortunas dos dois irmãos, só ficam abaixo das de Bill Gates e Warren Buffett.

Os Kochs militam há muito tempo entre os libertários que pregam impostos absolutamente mínimos, sejam sobre pessoas físicas ou jurídicas; serviço social e assistência aos mais pobres também mínimos; e ainda mais mínima fiscalização sobre as indústrias, sobretudo no que tenha a ver com prevenção de danos ao meio ambiente. São ideias que combinam perfeitamente com os interesses corporativos dos irmãos. Em estudo distribuído há alguns meses, o Instituto de Pesquisa Política e Econômica da University de Massachusetts em Amherst classificou as Indústrias Koch entre as dez que mais poluem nos EUA. Para o grupo Greenpeace, em relatório recente, a companhia é “campeã da negação de todos os saberes da ciência climática”. O relatório mostrou que, de 2005 a 2008, os Kochs ultrapassaram em muito aExxonMobil na quantidade de dinheiro doado a ONGs [1] que combatem a legislação relativa a mudanças climáticas, patrocinando vasta rede de fundações, centros de pesquisa, institutos, think tanks e grupos de ativismo. De fato, os irmãos patrocinaram campanhas de oposição a tantas políticas do governo Obama – da reforma da saúde ao programa de estímulo econômico – que, nos círculos políticos, essa rede ideológica é chamada de “o Kochtopus”.

Em declaração, as Koch Industries disseram que o relatório do Greenpeace “distorce o trabalho ambiental de nossas empresas”. E David Koch, no mais recente artigo elogioso sobre ele publicado em New York, protestou que “a imprensa radical” convertera sua família em “meninos para surrar” e exagerava sua influência na política dos EUA. Mas para Charles Lewis, fundador do Center for Public Integrity, entidade não partidária de vigilância ética, “Os Kochs estãoem outro nível. Ninguém gasta tanto dinheiro quanto eles. Essa amplíssima liderança é que os mantêm a parte. Não respeitam lei alguma, praticam todos os tipos de manipulação política e práticas para burlar os controles públicos. Vivo em Washington desde o caso Watergate, e jamais vi coisa semelhante. Os Kochs são a Standard Oil dos nossos tempos.”


Poucas semanas depois da solenidade de gala no Lincoln Center, o braço militante da Fundação Norte-americanos pela Prosperidade [ing. Americans for Prosperity Foundation] – ONG iniciada por David Koch em 2004 – promoveu reunião bem diferente. No fim de semana do 4 de Julho, houve um congresso que recebeu o nome de “O Texas na Defesa do Sonho Americano” [ing. Texas Defending the American Dream] num salão de festas em Austin. Apesar de Koch promover livre e pessoalmente suas aventuras filantrópicas, não compareceu àquele congresso, nem se falou dele. Nessa ocasião, os presentes não assistiram a discursos sobre arte e balé. À tribuna subiram, exclusivamente, oradores empenhados em denunciar malfeitos do presidente Barack Obama. Peggy Venable, organizadora do congresso, alertou os presentes contra “a visão socialista do atual governo, sobre nosso país”.

500 pessoas participaram do congresso, que foi, em boa parte, sessão de treinamento para ativistas do Movimento “Tea Party” no Texas. Cartaz de convocação apresentava o congresso como levante popular contra o poder das corporações. “Hoje, as vozes dos americanos comuns são caladas por lobbyistase por interesses especiais”, lia-se nos cartazes. “Mas você pode reagir”. Nem uma palavra sobre os interesses corporativos que financiavam o congresso. A Casa Branca lamentou que os reais patrocinadores do evento não tivessem aparecido. David Axelrod, principal conselheiro de Obama, comentou: “O que eles não dizem é que o que parece ser movimento de base é orquestrado por um bando de bilionários do petróleo.”

Em abril de 2009, Melissa Cohlmia, uma das porta-vozes da companhia, negou que os Kochs tenham qualquer ligação direta com o Movimento Tea Party. Para ela, Americans for Prosperity é “organização independente, e o grupo Koch de modo algum dirige suas atividades”. Mais tarde, divulgou uma declaração: “Nenhum tipo de ajuda financeira foi encaminhada pelas empresas Koch, pelas fundações Koch, nem pessoalmente por Charles Koch ou David Koch, como apoio a festas de chá”. E David Koch disse ao New York: “Jamais participei de eventos de festas de chá. Nenhum representante de festa do chá jamais se aproximou de mim”.

Mas em Austin, Venable – experiente ‘marketeira política’, hoje a serviço da Fundação Americans for Prosperity, e que desde 1994 trabalha para grupos políticos financiados pelos Koch – falou menos enigmaticamente. “Adoramos o que as Tea Parties estão fazendo, porque é desse modo que reconquistaremos os EUA para nós!” – disse ela, para o público que aplaudia, frenético. Em entrevista posterior, descreveu-se, ela mesma, como membro do movimento desde o nascimento, rindo: “Eu já militava no Tea Party antes de o movimento virar moda!” Esclareceu que a Fundação Americans for Prosperity apenas ajudara no trabalho de “educar” os ativistas do Movimento Tea Party sobre alguns aspectos políticos; para ensiná-los a dar os passos seguintes, depois das grandes manifestações de rua, de modo a que a energia política dos ativistas fosse canalizada “com mais eficácia”. E observou que a Fundação Americans for Prosperity fornecera aos ativistas do Movimento Tea Party listas de nomes selecionados de políticos a serem focados. Quanto aos Kochs, disse que “Claro que estão conosco. David é presidente da Fundação. Claro que já nos encontramos e considero excelente o trabalho que desenvolvem”.

Venable homenageou vários “líderes cidadãos” do Movimento Tea Party, no Congresso. O ramo texano da Fundação Americans for Prosperity entregou o prêmio de “Blogueiro do Ano” a uma jovem senhora, de nome Sibyl West. Dia 14 de junho, em seu Blog, West descreveu o presidente Obama como “Cheirador-de-cocaína em-chefe” [ing. cokehead in chief]. Em discussão online, West comentou que o presidente já estaria apresentando sintomas de “possessão demoníaca, também chamada esquizofrenia etc.”. No congresso, falaram vários palestrantes pagos, entre os quais Janine Turner, mais conhecida como atriz do seriado de TV Northern Exposure” Disse ela: “Eles querem que nossas crianças ignorem os direitos que têm. Querem que nossas crianças ignorem a existência de Deus!”

Em almoço servido no local do encontro, Venable apresentou Ted Cruz, ex-procurador geral do Texas, que disse à multidão que Obama “é o presidente mais radical que jamais ocupou o Salão Oval” e que ocultara dos eleitores sua agenda secreta – “o governo está controlando completamente nossa economia e nossa vida.” A luta contra Obama, disse Cruz, “é a luta épica de nossa geração!” Foi aplaudido de pé. E, sob aplausos, repetiu o brado de desafio de um texano, no Alamo: “Vitória, ou morte!”

A associação Americans for Prosperity sempre trabalhou ao lado do MovimentoTea Party, desde o início do movimento. Nas semanas anteriores ao primeiro Dia de Protesto contra os Impostos, em abril de 2009, a associação Americans for Prosperity já hospedava uma página de internet com “Pontos-chave do Movimento Tea Party”. O ramo do Arizona conclamava o povo a enviar saquinhos de chá para Obama; no Missouri, os Americans for Prosperityconvidavam seus membros a alistar-se no “Cadastro de Contribuintes do [movimento] Tea Party” e indicavam hora e local de nove manifestações de rua. O grupo continua a pregar a insurgência. O ramo da Carolina do Norte criou há pouco tempo uma página na internet, Tea Party Finder, anunciada como “um portal de todas as ‘Festas do Chá’ na Carolina do Norte.”

O fervor anti-Obama que está contaminando as eleições de 2010 são importante triunfo político para os irmãos Kochs. Ao garantir dinheiro para “educar”, financiar e organizar os cidadãos que se reúnem nas manifestações do Movimento Tea Party, os Koch contribuíram decisivamente para converter o que era agenda privada dos dois, em movimento de massas.

Bruce Bartlett, economista e historiador conservador, ex-funcionário doNational Center for Policy Analysis, think-tank sediado em Dallas e mantido pelos irmãos Kochs, disse que “O problema desses movimentos de cidadãos contra o governo é que sempre há muitos caciques e poucos índios. Nesse movimento [Tea Party] não havia pessoas ‘reais’, eram poucos os eleitores. Os Kochs estão trabalhando para criar, de fato, um movimento.” Com o MovimentoTea Party nas ruas, diz Bartlett, “as pessoas, de repente, viram que há muitos índios por aí – gente que, reunida, pode garantir poder ideológico efetivo aos caciques”. Os Kochs, disse ele, estão “trabalhando para modelar, controlar e dirigir uma manifestação popular limitada, de modo que passem a manifestar e divulgar a agenda pessoal privada dos dois, já convertida em ‘grande movimento popular’.”


Um consultor de campanha do Partido Republicano, que fez trabalhos de pesquisa para Charles e David Koch, disse, falando sobre o Movimento Tea Party, que “os irmãos Koch forneceram todo o dinheiro necessário para financiar o movimento, desde o início. Foi como se estivessem semeando. Depois veio a tempestade, e os sapos começaram a brotar no brejo – agora, lá estão. São os nossos candidatos!”

Os Kochs e seus operadores políticos não dão entrevistas. Em lugar deles, um importante executivo de empresa de Relações Públicas muito próximo dos Kochs oferece dois amigos: George Pataki, ex-governador de New York, e Mortimer Zuckerman, magnata do mercado imobiliário e da publicidade. Pataki, Republicano cuja campanha recebeu contribuições de David Koch, descreve-o como “um patriota profundamente preocupado com o destino dos EUA.” Para Zuckerman, o que mais chama a atenção é a “decência gentil” de David, e o amplo escopo de seus “interesses públicos”.

Para o consultor de campanha do Partido Republicano, comentando as atividades políticas da família, “Dizer que vivem abaixo do radar, é pouco. Eles são subterrâneos!” Outro ex-conselheiro dos Koch diz que “eles são espertos. Essa coisa de extrema direita, de veias explodindo, trabalha a favor deles. Eles veem esse movimento como um modo de fazer o serviço sujo, sem que eles próprios se sujem.” Rob Stein, estrategista político do Partido Democrata, que estudou as finanças do movimento conservador, disse que os Kochs estão “no epicentro do movimento anti-Obama. Teriam feito o mesmo, se lá estivesse Hillary Clinton. Fizeram o mesmo com with Bill Clinton. Estão em campo para destruir qualquer ideia progressista.”


Por estranho que pareça, essa tão ferozmente capitalista família Koch deve parte de sua fortuna a Joseph Stalin. Fred Koch – pai dos irmãos Koch – era filho de um tipógrafo holandês que se instalou no Texas, onde comandou um jornal semanal. Fred estudou no MIT, onde se diplomou em engenharia química. Em 1927, inventou um processo mais eficiente para converter petróleo em gasolina, mas, reza o folclore familiar, foi visto como ameaça pelas gigantes do petróleo, que levaram sua indústria à ruína. Sem conseguir sucesso em sua terra, Koch encontrou na União Soviética quem se interessasse por sua invenção. Nos anos 1930, sua empresa treinou engenheiros bolcheviques e ajudou Stalin a construir e por em funcionamento 15 modernas refinarias. Com o tempo, vários dos colegas soviéticos de Koch acabaram colhidos nos expurgos de Stálin. Koch jamais esqueceu a experiência, e lamentou aqueles contatos. Voltou aos EUA. Sempre guardou, na sala de trabalho de sua empresa – Rock Island Oil & Refining, Wichita – fotos que provavam que aquelas refinarias soviéticas foram destruídas na II Guerra Mundial. Gus di Zerega, ex-amigo de Charles Koch, relembra que “à medida que os soviéticos foram-se tornando potência militar, Fred manifestava cada vez mais um certo sentimento de culpa por tê-los ajudado tanto. Acho que essa lembrança sempre o perturbou muito.”

Em 1958, Fred Koch tornou-se um dos membros fundadores da John Birch Society – grupo ultraconservador, conhecido, dentre outras ideias, pelo ceticismo com que encaram qualquer governo e por disseminar medos de uma invasão comunista aos EUA. Para os membros daquele grupo, o presidente Dwight D. Eisenhower seria agente do comunismo internacional. Em manifesto que escreveu e publicou, Koch dizia que “os comunistas já estão infiltrados nos dois partidos, Democratas e Republicanos”. Escreveu elogios a Benito Mussolini, quando tornou proscritos os comunistas na Itália, tanto quanto atacou o movimento norte-americano pelos direitos civis. “Os homens de cor são parte do grande plano dos comunistas para dominar a América”, alertava. Os direitos sociais, para ele, seriam plano secreto para atrair para as grandes cidades os negros que viviam no interior, para as quais trariam “uma perigosa disputa racial”. Em discurso em 1963, no qual já se veem as primeiras linhas do que diz hoje o movimento Tea Party, sobre um plano socialista secreto, Koch previa que os comunistas “infiltrar-se-ão em todos os gabinetes do governo dos EUA, até porem um comunista na Casa Branca, que nenhum de nós conhecerá.”

Koch casou-se com Mary Robinson, filha de um médico do Missouri, e tiveram quatro filhos: Freddie, Charles e os gêmeos David e William. John Damgard, presidente da Futures Industry Association, colega de escola e amigo de David, lembra que Fred Koch era “um verdadeiro John Wayne”. Koch pregava educação ‘dura’, levando os filhos e amigos para caçar na África e exigindo que trabalhassem no rancho da família. Os Kochs viviam numa mansão de pedra num enorme complexo à frente do Country Club de Wichita; no verão, os rapazes ouviam os amigos saltar na piscina próxima, mas não podiam juntar-se a eles. “Ao instilar em mim uma ética do trabalho desde muito cedo, meu pai fez-me um grande favor, embora nada se parecesse com favor, conforme eu via as coisas, naquele tempo”, escreveu Charles. “Quando eu tinha oito anos, meu pai cuidava para que eu praticamente não tivesse uma hora de ócio.” David Koch relembra que seu pai também fazia pregação política em família. “Falavaconstantemente às crianças sobre tudo que o governo faz de errado”, contou a Brian Doherty, editor da revista anti-Estado Reason, e autor de Capitalistas Radicais, história do movimento liberal contra o Estado nos EUA, editado em 2007. “São ideias com as quais cresci. – O ponto de vista mais fundamental é a ideia de que quanto maiores são Estado e governo, pior para todos. Nada pode advir de bom, da imposição de controles governamentais e estatais sobre nossa vida e nossas fortunas.”

David estudou na Deerfield Academy, em Massachusetts; Charles foi mandado para uma escola militar. Charles, David e William formaram-se em engenharia, como o pai, no seu templo sagrado, o MIT; imediatamente depois de formados passaram a trabalhar nas empresas da família. Charles chegou à presidência,com David como seu braço direito; William teve carreira menos bem sucedida na companhia. Freddie foi para Harvard e estudou dramaturgia na Yale School of Drama. O pai sempre desaprovou essas escolhas e puniu-o financeiramente. (Por um porta-voz, Freddie desmentiu essa informação.)

Em 1967, depois da morte de Fred Koch, de ataque cardíaco, Charles trocou o nome da companhia para Koch Industries, homenagem ao pai. O testamento de Fred Koch faria dos filhos homens extremamente ricos. David Koch fez piada com sua boa sorte, em discurso, em 2003, para alunos de Deerfield, onde, depois de doar 25 milhões de dólares, foi declarado único “doador honorário” de toda a história da escola. Disse ele: “Vocês talvez se perguntem ‘como David Koch arranjou dinheiro para ser tão generoso?’. Deixem-me contar-lhes uma história. Eu era bem pequeno. Um dia, meu pai deu-me uma maçã. Eu vendi a maçã por cinco dólares e comprei duas maçãs e vendia-as por dez. Depois, comprei quatro, e vendi-as por vinte. E assim fui indo, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, até que meu pai morreu e deixou-me 300 milhões de dólares de herança.”

David e Charles absorveram a política conservadora do pai, mas não concordam com tudo, segundo di Zerega, que foi amigo de Charles em meados da década dos 60s, quando o conheceu entre as prateleiras de uma livraria da John Birch Society em Wichita. Charles convidou-o a visitar a mansão dos Kochs, para participar de uma discussão política informal. “Era absolutamente evidente que, para Charles, boa parte daquela conversa da Birch Society não passava de bobagens” – relembra diZerega.

DiZerega, que depois perdeu contato com Charles, separou-se daqueles grupos de direita e tornou-se professor de ciências sociais. Credita a Charles ter ampliado seus pontos de vista no campo da filosofia política, o que acabou por encaminhá-lo para a universidade; seu primeiro livro foi dedicado a três pessoas, uma das quais, Charles Koch. But diZerega crê que os irmãos Koch seguiram trajetória intelectual oposta à sua, convertendo a paranóia do pai, sobre o comunismo soviético, em absoluta desconfiança contra o governo dos EUA, e vendo o crescimento do Estado, a começar pelo New Deal, como ameaça tirânica à liberdade. Em ensaio postado em Beliefnet, diZerega escreveu: “Quando o socialismo de Estado fracassou (...) o alvo de muitos naquelas ONGs passou a ser qualquer tipo de regra ou lei. O ‘socialismo’ continuou a ser definido como ameaça.”

Membros da John Birch Society passaram a interessar-se por uma escola austríaca de economia que promovia ideias do livre-mercado. Charles e David Koch foram particularmente influenciados pelo trabalho de Friedrich von Hayek, autor de The Road to Serfdom (1944, O caminho da servidão) [5], para o qual o planejamento governamental centralizado sempre levaria inexoravelmente ao totalitarismo. (...)

Charles e David também se tornaram devotados seguidores de outro pensador liberal ainda mais radical, Robert LeFevre, que pregava a abolição do Estado, mas não aceitava o rótulo de “anarquista”; autodesignava-se “autarquista”. LeFevre gostava de dizer que “governo é uma doença mascarada de remédio.” Em 1956, criou uma instituição denominada The Freedom School, em Colorado Springs. Brian Doherty, da revista Reason, disse-me que “LeFevre foi um anarquista que conquistou o coração de Charles”, e que aquela escola foi “um mundinho de pessoas para as quais o New Deal foi erro horrível”. Segundo diZerega, Charles apoiou financeiramente a escola e deu-lhe dinheiro para que pudesse fazer cursos lá.

Durante os anos 70s, Charles e David continuaram a construir as Indústrias Koch. Em 1980, William, auxiliado por Freddie, tentou arrancar de Charles o controle da empresa, entendendo que o irmão assumira um tipo de comando autocrático. Como ato de retaliação, a diretoria, que agia sob o comando de Charles, demitiu William. (“Charles comanda tudo com mão de ferro”, disse-me Bruce Bartlett, o economista.) Correram vários processos, com William eFreddie de um lado, e Charles e David no campo oposto. Em 1983, Charles e David compraram as partes dos irmãos na empresa, por algo próximo de um bilhão de dólares. Mas o antagonismo permaneceu, e os processos continuaram ainda por mais 17 anos; todos os irmãos tinham seus próprios investigadores privados; em 1990, cruzaram-se todos, sem se cumprimentarem, nos funerais da mãe. Afinal, Freddie mudou-se para Monaco, onde não há imposto sobre a renda. Comprou propriedades históricas na França, Áustria e em vários outros locais, recheando-as com antiguidades, obras de arte, partituras originais de óperas e manuscritos de obras literárias. William criou sua própria empresa de energia, a Oxbow, e dedicou-se a competições náuticas; gastou cerca de 65 milhões de dólares para vencer a America’s Cup, em 1992.

Sob o comando de Charles, e sem qualquer oposição interna, as Koch Industriesexpandiram-se rapidamente. Roger Altman, presidente do banco Evercore de Investimentos, contou-me que o desempenho da companhia foi “muito além de fenomenal”. Charles permaneceu em Wichita, com a esposa e dois filhos, zeloso da privacidade da família, ao mesmo tempo em que se dedicava a apoiar ações de caridade na comunidade. David mudou-se para New York City, onde é vice-presidente executivo da companhia e presidente de seu Chemical Technology Group. Especialista em finanças que conhece bem as Koch Industries, disse-me que “Charles é a companhia. Dirige tudo.” David, descrito pelos associados como “afável” e “meio desajeitado”, viveu boa vida de solteiro rico por vários anos. Alugou um iate no sul da França e comprou uma casa de frente para o mar em Southampton, onde ofereceu festas que a página New York Social Diarydescreveu como “versão, na costa Leste, das noitadas de Hugh Hefner.” Em 1996, casou-se com Julia Flesher, assistente de moda. Vivem em um duplex de 9 mil pés quadrados no número 740 da Park Avenue, com os três filhos. Apesar de David ter hábitos mais cosmopolitas que Charles, Brian Doherty, que entrevistou os dois irmãos, não conseguiu achar um único tema sobre o qual os dois irmãos tenham algum dia discordado.

À medida que suas fortunas aumentavam, Charles e David Koch passaram a financiar movimentos políticos radicais contra o Estado/governo. O objetivo de Charles, como Doherty descreveu-o, era arrancar o governo “pela raiz”. O primeiro grande passo público dos irmãos aconteceu em 1979, quando Charles convenceu David, então com 39 anos, a concorrer nas eleições. Passaram a apoiar o Libertarian Party, e apoiaram a candidatura presidencial de Ed Clark, que competia contra Ronald Reagan, candidato da direita. Frustrados com os limites legais para doações de campanha, os irmãos arquitetaram um plano para por David em melhor lugar na lista eleitoral: como candidato a vice-presidente, ele poderia gastar o quanto quisesse, de sua fortuna pessoal, na campanha. O mote de propaganda foi “O Libertarian Party tem uma única fonte de recursos: Você.” De fato, a única fonte de recursos, ou, pelo menos, a maior, destacadamente, era David Koch, que gastou naquela campanha mais de dois milhões de dólares.

Muitas das ideias divulgadas na campanha eleitoral de 1980 antecipavam o Movimento Tea Party de hoje. Ed Clark disse ao jornal The Nation que oslibertarians” se preparavam para montar “uma ‘tea party’ realmente muito grande”, porque estavam “doentes, de morrer” por causa dos impostos. O Libertarian Party pregava a extinção do FBI e da CIA, e de todas as agências federais reguladoras, como a Comissão de Seguridade e Câmbio e o Departamento de Energia; pregava também o fim da Seguridade Social, das leis de salário mínino, de todo o controle sobre compra e porte de armas e de todos os impostos sobre lucros e rendas, pessoais e de corporações e empresas; propunha ainda a legalização da prostituição, de drogas recreacionais e do suicídio. Restaria ao Estado/governo uma única função: proteger os direitos individuais dos cidadãos. William F. Buckley, Jr., conservador mais à moda tradicional, chamava o movimento de “anarco-totalitarismo”.

Nas eleições daquele novembro, os Libertarian receberam apenas 1% dos votos. Os irmãos perceberam que o seu projeto político não seduzira os eleitores. Charles Koch passou a debochar abertamente da política e dos políticos convencionais. “Política é negócio repugnante. Todos os políticos são corruptos”, disse a um jornalista, naquela época. “Estou interessado em promover ideias liberais radicais.” Segundo o livro de Doherty, os irmãos Kochs já definiam os políticos eleitos como “atores que recitam discursos decorados”. Um dos mais antigos crentes da religião liberal radical dos Kochs disse a Doherty que os irmãos, nessa mesma metáfora, queriam ser “o autor que define os personagens e escreve as falas.” Para mudar o curso da história dos EUA, tinham de “agir e influenciar as áreas que produzem as ideias políticas que circulam entre os cidadãos: a universidade e os think tanks.”


Depois das eleições de 1980, Charles e David Koch desapareceram da arena pública. Mas fizeram jorrar mais de cem milhões de dólares em dúzias de ONGs, aparentemente independentes. Registros da Receita Federal dos EUA mostram que, em 2008, as três principais fundações mantidas pela família Koch doaram dinheiro a 34 ONGs políticas e de militantes, três das quais fundadas por membros da família e várias das quais dirigidas por eles. Os Kochs e suas empresas, além disso, também doaram outros vários milhões a campanhas políticas, ONGs de militantes e grupos de lobby. Essa gigantesca onda subterrânea de dinheiro acordou suspeitas na esquerda; Lee Fang, do b
log Think Progress, escreveu que os Kochs “são os bilionários que estão por trás da atual onda de racismo e ódio que se alastra pelos EUA”.

Mas só os Kochs sabem precisamente quanto gastaram em ONGs de vários tipos. Registros oficiais do fisco nos EUA mostram que, entre 1998 e 2008, aCharles G. Koch Charitable Foundation gastou mais de 48 milhões de dólares. A Claude R. Lambe Charitable Foundation, controlada por Charles Koch e a esposa, com mais dois empregados da companhia e um contador, gastou mais de 28 milhões. A David H. Koch Charitable Foundation gastou mais de 120 milhões. Ao mesmo tempo, desde 1998 as Koch Industries já gastaram mais de 50 milhões em atividades de lobbying. Separadamente, o comitê de ação política da companhia (KochPAC) doou cerca de oito milhões de dólares a campanhas políticas, mais de 80% dos quais para o Partido Republicano. Até agora, em 2010, as Koch Industries lideram o grupo das contribuições de empresas de energia para candidatos e partidos – exatamente como em todas as eleições, desde 2006. Além disso, nos últimos 12 anos, os irmãos Koch e outros membros da família já gastaram, pessoalmente, mais de dois milhões de dólares em contribuições para campanhas políticas. No segundo trimestre de 2010, David Koch era o maior doador individual para a Associação dos Governadores Republicanos – um milhão de dólares doados. Mas muitos outros presentes que os Kochs distribuem absolutamente não deixam qualquer rastro; as leis que regulam impostos federais nos EUA permitem doações pessoais anônimas a ONGs, grupos e entidades grupos de ação política sem fins lucrativos.

Nas últimas décadas, membros de várias dinastias de industriais consumiram parcelas de seus milhões para promover uma agenda conservadora. Nos anos1980, a famíla Olin, dona de um conglomerado de químicos e manufaturas, tornou-se conhecida por estar financiando uma onda de pensadores de direita nas universidades, sobretudo nas Faculdades de Direito. Nos anos 1990, Richard Mellon Scaife, descendente de Andrew Mellon, consumiu milhões em tentativas para desacreditar o presidente Bill Clinton. Ari Rabin-Havt, vice-presidente da página Media Matters, de tendência pró-Democratas, comentou que o esforço dos Kochs não é como outros que se têm visto, na quantidade de fundos pessoais e das empresas que estão sendo consumidos: “O que estão fazendo, em termos de dinheiro usado para dirigir a opinião pública nos EUA, é chocante”.

Claro que os Democratas também gastam dinheiro. O principal financiador de Democratas, George Soros, dirige uma Fundação, o Open Society Institute, que já gastou cerca de cem milhões de dólares nos EUA, em um ano. Soros também tem feito generosas contribuições privadas às campanhas de vários candidatos Democratas, inclusive para a campanha de Obama. Mas Michael Vachon, seu porta-voz, diz que tudo o que Soros faz e doa é transparente, e que “nenhuma de suas contribuições visa a atender interesses privados de seus próprios negócios.” Os Kochs têm dado milhões de dólares a ONGs, organizações sem finalidades lucrativas que criticam as regulações de preservação do meio ambiente e apoiam redução de impostos para a indústria. Gus diZerega, o ex-amigo, sugeriu que o idealismo dos Kochs dos tempos da juventude, a favor das causas do liberalismo radical dos Libertarian norte-americanos, já rendeu importantes dividendos, em termos de autofavorecimento dos interesses das empresas. Sobre Charles, diz que “pode estar confundindo ‘fazer dinheiro’ e ‘fazer a cabeça’ dos eleitores.”

Críticos sugeriram que a abordagem dos Kochs subverteu o objetivo da isenção de impostos. Por lei, fundações de caridade só devem promover atividades não partidárias que promovam o bem-estar de toda a sociedade. Relatório de 2004, divulgado pela Comissão Nacional de Filantropia Responsável [ing. National Committee for Responsive Philanthropy], grupo que fiscaliza associações que se apresentam como filantrópicas, concluía que “Essas fundações dão dinheiro a ONGs sem finalidades de lucro que pesquisam e trabalham a favor de causa que têm efeito sobre a margem de lucros das Koch Industries.”

Mas os Kochs já foram bem além do autointeresse imediato, financiando ONGs cujo objetivo declarado é dirigir o país na direção não de mais lucros para as empresas Koch, mas na direção da causa ‘antigoverno’ e ‘anti-Estado’ em que a família milita. Dentre as ONGs que os Koch mantêm está o Institute for Justice, cujo objetivo é impetrar ações contra o Estado e as leis federais; o Institute for Humane Studies, que diploma professores universitários defensores do ‘libertarianismo’ à moda Koch; e o Bill of Rights Institute, que produz e promove interpretações conservadoras da Constituição. Muitas das ONGs fundadas pelos Kochs empregam especialistas que escrevem e publicam ensaios de divulgação das ideias dos Koch, que imediatamente depois de publicadas passam a ser citados por políticos e jornalistas. David Koch já reconheceu que a família exerce pesado controle ideológico sobre tudo. “Se distribuímos essa enorme quantidade de dinheiro, temos de ter absoluta certeza de que o dinheiro seja gasto de modo que se acrescente aos nossos objetivos”, disse a Doherty. “E se um ou outro grupo erra o passo e começa a fazer coisas com as quais não concordamos, retiramos o financiamento.”


O fato de os Kochs subsidiarem um movimento fortemente pró-corporações, atende, em vários sentidos, o projeto exposto em menorando secreto, de 1971, que Lewis Powell, então advogado na Virginia, escreveu dois meses antes de ser indicado para a Suprema Corte. O movimento antiguerra havia voltado suas baterias contra empresas que estavam sendo contratados pelo Departamento de Defesa – dentre outras, a Dow Chemical – e Ralph Nader liderava uma cruzada nacional em defesa do interesse público e contra as corporações. Powell, em relatório a ser apresentado à Câmara de Comércio dos EUA, exigia que as empresas norte-americanas reagissem e respondessem. A grande ameaça que persiste contra a livre-empresa, Powell escreveu, não é o Comunismo nem é a Nova Esquerda, mas, sim “elementos respeitáveis da sociedade” – intelectuais, jornalistas e cientistas. Para derrotá-los, escreveu ele, os líderes das corporações têm de gerar campanha unificada, de longo prazo, para mudar a opinião pública.

Charles Koch parece ter abordado os dois campos, tanto os negócios quanto a política, com a firme deliberação de um engenheiro. “Para produzir mudança social” – disse ele a Doherty – “é preciso ter uma estratégia” que seja “verticalmente e horizontalmente integrada”, da “primeira ideia da criação até as políticas de implantação e desenvolvimento; da formação de movimentos de base até os lobbyies de mais alto nível, ações judiciais inclusive.” O projeto, ele admitiu, sempre foi extremamente ambicioso. “Nossa filosofia é radical”, disse ele.

Em 1977, os Kochs financiaram a criação do primeiro think tank dos ‘libertaristas’ – o Cato Institute. Segundo o Center for Public Integrity, entre 1986 e 1993 a família Koch doou 11 milhões de dólares àquele instituto. Hoje, oCato tem mais de uma centena de empregados fixos em período integral, e os documentos produzidos por seus especialistas são considerados de alta respeitabilidade, reproduzidos e citados pela chamada ‘grande imprensa’. O Instituto apresenta-se como não partidário; muitas vezes os seus professores e especialistas criticaram os dois grandes partidos políticos que dominam o cenário político-eleitoral nos EUA. Mas em todos os casos, todos os especialistas sempre argumentam a favor de menos impostos sobre “a produção”, redução na oferta de serviços sociais aos mais pobres, e políticas ambientais de “não intromissão do Estado nas empresas”.

Quando, em discurso em 2008, o presidente Obama referiu-se aos saberes sobre aquecimento global como “saberes indiscutivelmente corretos”, o Cato Institutecomprou anúncio de página inteira no Times para desmenti-lo. Os intelectuais e especialistas que trabalham como empregados do Cato Institute criticam ininterruptamente as tentativas políticas para conter o aquecimento global; para eles, todas seriam “caras demais, sem qualquer resultado e desnecessárias”. Ed Crane, fundador e presidente do Cato, disse a mim, em entrevista, que “as teorias sobre aquecimento global só servem para dar ao governo mais controle sobre a economia.”

Os professores-doutores empregados do Cato Institute têm dedicado quantidade particularmente enorme de energia para amplificar o chamado “escândalo Climagate”. Ano passado, msg privadas de e-mails de cientistas especialistas em clima da University of East Anglia, na Inglaterra, foram misteriosamente vazados para a grande imprensa; dizia-se que as msg deixariam transparecer, nas entrelinhas, a intenção de falsificar dados para sugerir que o aquecimento global seria real. Nas duas semanas depois da divulgação dos e-mails, um único professor-doutor empregado do Cato Institute deu mais de 20 entrevistas a jornais e televisões, sempre sobre o suposto ‘escândalo’. Os professores cujos e-mails haviam vazado foram objeto de cinco processos independentes de inquérito, e absolvidos em todos eles: jamais apareceu qualquer prova, em e-mails ou nas pesquisas daqueles pesquisadores, que se pudesse apresentar como indício para desmentir o consenso científico sobre o aquecimento global.

Apesar disso, a discussão alcançou seu objetivo de implantar na opinião pública a descrença e o ceticismo sobre a gravidade do problema das mudanças no clima. A própria National Oceanic and Atmospheric Administration teve de elaborar e divulgar relatório, para confirmar que, sim, há provas inequívocas do aquecimento global. Mesmo assim, há hoje mais americanos que duvidam de que o aquecimento global seja problema grave do que jamais antes, desde 1997; para esses, os cientistas teriam exagerado a gravidade do problema. Os Kochs promovem esses números na página internet da companhia, mas não fazem qualquer referência à influência do dinheiro (dos Koch) na difusão dessas ‘dúvidas’.

Em memorando de 2002, Franck Luntz, consultor político do Partido Republicano, escreveu que, enquanto “os eleitores acreditarem que não há consenso sobre o aquecimento global na comunidade científica” prevalecerá ostatus quo. A chave de que se serviram os opositores da reforma da legislação sobre meio ambiente, disse ele, foi por em dúvida o saber científico – estratégia de relações públicas que a indústria do tabaco usou, com os resultados que a indústria esperava obter e que bloquearam, durante anos, a reforma da lei antifumo. Os Kochs têm financiado inúmeras fontes de dúvidas sobre questões da preservação ambiental, como a Heritage Foundation, que argumentou que “os fatos científicos reunidos nos últimos dez anos não são suficientes para justificar a ideia de que haveria alguma ameaça de aquecimento global que possa ter efeitos catastróficos para a vida humana.” Os irmãos também financiam grupos muito mais obscuros, como o Independent Women’s Forum, que se opõe à ideia de que se incorporem lições sobre preservação ambiental ao currículo das escolas públicas nos EUA. Até 2008, o grupo era presidido por Nancy Pfotenhauer, ex-lobbyist que trabalhava para as Koch Industries. Mary Beth Jarvis, vice-presidente de uma subsidiária da Koch, está hoje no comitê diretor do grupo.

Naomi Oreskes, professora de História e Estudos da Ciência na University of California, San Diego, é co-autora de Merchants of Doubt [Mercadores da Dúvida], novo livro em que se listam várias tentativas, pela indústria dos EUA, para manipular a opinião pública sobre temas científicos e a própria ciência. Nesse livro, Oreskes observa que os Kochs, cabeças de “um conglomerado de empresas com refinarias e oleodutos”, “têm muito a ganhar” com a difusão de ideias que façam duvidar da ciência. E acrescenta: “Se a resposta [a muitos problemas ambientais que o mundo enfrenta hoje] for substituir combustíveis fósseis, outro grupo passará a lucrar com outros combustíveis. Ninguém pode surpreender-se ao saber que o antigo grupo resistirá ao novo, com unhas e dentes.”

David Koch disse ao New York que não estava convencido de que o aquecimento global seria provocado por atividade humana. Mas mesmo que fosse, disse ele, o aquecimento do planeta será benéfico, criando mais longas estações de plantio e colheita no Hemisfério Norte. “A Terra poderá alimentar muito mais gente, porque haverá mais solo aproveitável para produzir comida”, disse.


Em meados dos anos 1980, os Kochs deram milhões de dólares à George Mason University, em Arlington, Virginia, para instalar lá outro think tank. Hoje conhecido como Mercatus Center, o centro se autopromove como “a principal fonte mundial de ideias orientadas para o mercado – superando o fosso que separa as ideias de academia e os problemas do mundo real.” Registros financeiros mostram que as fundações da família Koch contribuíram com mais de 30 milhões de dólares para a George Mason University, boa parte dos quais foi para o Mercatus Center, ONG sem finalidades de lucro. “É o centro nevrálgico da produção de políticas pró-desregulação em Washington,” disse Rob Stein, estrategista do Partido Democrata. É uma combinação, no mínimo, esquisita. “A George Mason é universidade pública, recebe fundos públicos”, lembrou Stein. “O Estado de Virgínia hospeda uma instituição pública que, na prática, é controlada pelos irmãos Koch.”

O fundador do Mercatus Center é Richard Fink, ex-economista. Fink comanda toda a operação dos lobbyistas das Koch Industries em Washington. Além disso, é presidente da Charles G. Koch Charitable Foundation, da Claude R. Lambe Charitable Foundation, diretor da Fred C. and Mary R. Koch Foundation e diretor e cofundador, com with David Koch, da Americans for Prosperity Foundation.

Fink, com seus muitos cargos, opera o sistema nervoso central do Kochtopus. Parece já ter suplantado Ed Crane, presidente do Cato Institute, na função de principal general político dos irmãos. David ainda permanece na diretoria doCato, mas tudo leva a crer que Crane já não goza das boas graças de Charles Koch. Associados sugeriram a essa jornalista, que Crane não teria tratado com a esperada reverência a filosofia do management de Charles, exposta num livro intitulado “A Ciência do Sucesso” [The Science of Success] , propagandeado sob o nome de Market-Based Management (MBM) [Management Baseado no Mercado]. Nesse livro, Charles recomenda que a cultura das corporações seja sempre motivada a adotar a competitividade típica dos mercados. Koch describes o MBM como “um sistema holístico” de “cinco dimensões: visão, virtude e talentos, processos de conhecimento, direitos e incentivos para decidir.” Alto funcionário do Cato Institute disse-me que Charles “sente-se um gênio. É o rei e está convencido de que veste roupas.” Fink, por sua vez, não abraçou com o mesmo entusiasmo as ideias de Charles. (Nem Fink nem os irmãos Kochs aceitaram ser entrevistados para essa matéria.)

Em conferência, em 1995, para grandes mantenedores e financiadores de organizações de caridade, Fink falou como economista, ao apresentar o objetivo do Mercatus Center. Disse que os grandes doadores devem usar os think tanks, ONGs e grupos de ação política para converter matéria prima em estado bruto, em “produtos políticos”.

Para o Wall Street Journal, o Mercatus Center seria “o mais importante think tank de que jamais se ouviu falar nos EUA”; observou também que 14 das 23 leis de desregulação que George W. Bush incluiu em sua “lista de sucessos” foram sugeridas, em primeiro lugar, por professores-doutores empregados doMercatus. Fink disse àquele jornal que os Kochs têm “outros meios para lutar suas guerras”, e que o Mercatus Center promove ativamente os interesses privados do conglomerado. Mas Thomas McGarity, professor de Direito da University of Texas, especialista em questões ambientais, disse-me que “Koch vive às turras com a EPA [Environmental Protection Agency, Agência de Proteção Ambiental dos EUA] e o Mercatus Center sempre ataca a Agência.”

Advogado especialista em questões ambientais, que já confrontou o Mercatus Center, classificou-o como “centro de lavagem de objetivos econômicos”. E explicou a estratégia: “Os grandes conglomerados põem muito dinheiro no que parece ser um think tank neutro confiável. O think tank contrata especialistas com pedigrees e muitos títulos universitários para que publiquem ensaios e pesquisas carregados de aparente credibilidade. Mas todos os ensaios e pesquisas têm de coincidir perfeitamente, e sempre coincidem, com os interesses econômico-financeiros dos que sustentam o think tank.”

Em 1997, por exemplo, a EPA começou a trabalhar para reduzir o ozônio de superfície, uma modalidade de poluição causada, em parte, pelas emissões das refinarias de petróleo. Susan Dudley, economista que se tornou principal analista do Mercatus Center, criticou o novo projeto de lei proposto pela Agência. A EPA, disse ela, não levara em consideração que, sem a proteção da camada de poluição, aumentaria o número de casos de câncer de pele. Calculou que qualquer controle da poluição atmosférica provocaria aumento de 12% dos casos de câncer de pele por ano.

Em 1999, a Corte de Justiça do Distrito de Columbia ‘reaqueceu’ o argumento de Dudley. Ao julgar a legalidade da lei proposta pela EPA, a Corte decidiu que a Agência “desconsiderou explicitamente” o “possível efeito benéfico do ozônio”. Em outro ponto da sentença, a Corte decidiu, por dois votos contra um, que aEPA excedera sua competência, ao tentar definir padrões para as emissões de ozônio. Como o Constitutional Accountability Center [Centro de Exame e Avaliação da Constitucionalidade de Sentenças das Cortes nos EUA], think tankprivado, revelou, os juízes que votaram naquele julgamento haviam participado de ‘sessões de estudos jurídicos’, num rancho em Montana, à expensa daFoundation for Research on Economics and the Environment [Fundação para Pesquisa sobre Economia e Meio Ambiente] – grupo mantido financeiramente pelas fundações da família Koch. Acusados, os juízes da Corte de Columbia alegaram que o voto não fora afetado pelos ‘estudos jurídicos’ realizados no rancho, em Montana.


“As ideias não acontecem do nada”, disse-me Matt Kibbe, presidente do FreedomWorks, grupo que divulga ações do Movimento Tea Party. “Ao longo da história, as ideias sempre careceram de quem as financiasse e divulgasse.” Os irmãos Koch, depois de ajudarem a criar o Cato e o Mercatus, concluíram que os think tanks, operando sozinhos, não provocariam a mudança desejada. Fazia-se indispensável um mecanismo que levasse aquelas ideias para as ruas, de modo a atrair apoios de massa. Em 1984, David Koch e Richard Fink criram mais uma ONG, e Kibbe juntou-se a eles. O grupo – Citizens for a Sound Economy [Cidadãos por uma Economia Sólida] – tinha todas as características de um movimento de base, nascido ‘espontaneamente’ de um grupo de cidadãos, mas, segundo o Center for Public Integrity, foi, desde o surgimento, patrocinado pelos irmãos Kochs, que lá depositaram $7,9 milhões de dólares entre 1986 e1993. A missão do grupo, disse Kibbe, “era tomar essas ideias mais densas e traduzi-las para as massas (...). Líamos os mesmos livros que Obama sobre revoluções não violentas – Saul Alinsky, Gandhi, Martin Luther King. Estudamos a ideia do Movimento Tea Party de Boston, como exemplo de mudança social não violenta. Aprendemos que tínhamos de ter gente na rua, vendendo ideias, não candidatos ou Partidos.” Em poucos anos, o grupo mobilizara 50 formadores de opinião que trabalhavam nas ruas, em 26 estados, reunindo eleitores para trabalhar a favor da agenda dos Kochs. David e Charles, segundo um dos participantes, eram “muito controladores, sempre de cima para baixo. É impossível construir uma organização com eles. Mandam em tudo.”

Nessa época, os irmãos enfrentaram uma crise política. Em 1989, a Comissão do Senado para Assuntos dos Nativos norte-americanos investigou os negócios dos Kochs e divulgou relatório arrasador, em que a Koch Oil foi acusada de arquitetar “um esquema amplo e sofisticado para roubar óleo cru de tribos de nativos norte-americanos e outros, mediante submedições fraudulentas”. Os Kochs admitiram que haviam tomado por vias ilícitas cerca de 31 milhões de dólares em óleo cru, mas que acontecera acidentalmente. Charles Koch disse, aos investigadores da Comissão, que a medição de óleo cru é “arte muito imprecisa”.

Para defender a própria reputação, as Koch Industries contrataram Robert Strauss, naquele momento ‘o rei’ dos lobbyistas em Washington; imediatamente, a companhia inaugurou escritório na cidade. Convocou-se o Grande Juri para investigar as acusações, o que deu em nada, porque a causa não prosperou e não houve sequer acusação formal. Imediatamente depois das audiências no Senado, os operadores dos Koch passaram a investigar a vida pessoal de assessores próximos dos membros da Comissão, tendo interrogado até uma ex-esposa. Os investigadores do Senado foram intimidados pelas táticas dos Kochs. Nas palavras de Kenneth Ballen, assessor da Comissão do Senado. “Aquele pessoal reuniu poder devastador!”

Em 1993, quando Bill Clinton assumiu a presidência, o grupo Citizens for a Sound Economy [Cidadãos por uma Economia Sólida] já se havia tornado protótipo das ONGs e campanhas de oposição que hoje proliferam no governo Obama – sempre financiados por grandes corporações. O grupo moveu bem-sucedido ataque contra a proposta de Clinton, de taxar os combustíveis pela quantidade de calor gerado [B.T.U. tax on energy], com táticas como anúncios em televisão e rádio, organização de eventos que atraíam a mídia e ataque cerrado contra os adversários. Organizaram manifestações contra-impostos à frente do Capitólio – manifestações que, para a Rádio Pública Nacional (NPR), “foram projetadas para implantar o medo no coração dos Democratas mais vacilantes”. Dan Glickman, ex-congressista do Partido Democrata por Wichita, que apoiara a lei proposta por Clinton, ainda lembra: “Durante 18 anos fui eleito e reeleito. Os Kochs dedicaram-se a impedir que eu fosse mais uma vez eleito e financiaram a campanha do meu adversário direto. Usaram vários recursos – eles e os empregados deles.” Glickman não foi eleito. “Não há como provar, mas estou convencido de que fui a primeira vítima deles”, diz ele.

Os Kochs continuaram a gastar prodigamente seu dinheiro, criando inúmeras ONGs com nomes imponentes. Tornou-se praticamente impossível avaliar a extensão de sua influência em Washington. Em 1990, o grupo Citizens for a Sound Economy [Cidadãos por uma Economia Sólida] criou um grupo satélite,Citizens for the Environment [Cidadãos pelo Meio Ambiente], que dizia e repetia incansavelmente que problemas ambientais como, por exemplo, a chuva ácida, não passavam de “mitos”. Quando o jornal Pittsburgh Post-Gazetteinvestigou o assunto, descobriu-se que o grupo satélite “não tinha membros nem associados”.


Em 1997, outra investigação do Senado passou a examinar o que um relatório da minoria descrevia como “plano audacioso para despejar milhões de dólares em contribuições para as campanhas de candidatos do Partido Republicano, em todo o país, sem que se conheçam nem a fonte nem o total das contribuições”, com o objetivo evidente de burlar a legislação sobre doações de campanha eleitoral. Uma corporação, Triad Management, havia pago mais de três milhões de dólares em campanhas em 26 votações na Câmara de Deputados e em três votações no Senado. Mais da metade do dinheiro pago em campanha de anúncios publicitários saíra de uma obscura ONG sem fins lucrativos, oEconomic Education Trust [Fundo para a Educação Econômica]. O relatório da minoria no Senado sugeria que “esse fundo foi financiado, totalmente ou em parte, por Charles e David Koch de Wichita, Kansas.” Os irmãos tornaram-se suspeitos de ter pago secretamente pelos anúncios publicitários, a maioria dos quais fora ao ar em estados nos quais as Koch Industries tinham negócios. No Kansas, onde a Triad Management era especialmente ativa, o dinheiro aplicado em publicidade influenciara decisivamente quatro de seis votações. Os Kochs, ao serem perguntados por repórteres se haviam de fato pago pelos anúncios, recusaram-se a comentar. Mas em 1998, o Wall Street Journal confirmou que um consultor, cujo nome estava na lista de pagamentos dos Kochs, estivera envolvido naquele esquema. Charles Lewis, do Center for Public Integrity [Centro pela Integridade Pública], descreveu aquele escândalo como “histórico. O caso da Triad foi a primeira vez que um grande conglomerado foi apanhado em grande operação de ataque à legislação vigente, de modo realmente ameaçador.”

Durante o governo Clinton, a indústria de energia foi cada vez mais visada pela fiscalização em geral. Em meados dos anos 1990s, o Justice Department iniciou dois processos contra as Koch Industries, acusadas de serem responsáveis por mais de 300 vazamentos de óleo, que derramaram cerca de 3 milhões de galões de óleo em rios e lagos. A multa estava sendo estimada em algo como 214 milhões de dólares. Em acordo, as Koch Industries pagaram multa-recorde, na justiça civil, de 30 milhões de dólares e concordaram com aplicar mais cinco milhões de dólares em projetos ambientais.

Em 1999, as Koch Industries foram condenadas por negligência na morte de dois adolescentes texanos que morreram numa explosão, consequência de um vazamento em canos subterrâneos de gás butano. (Em 2001, a companhia pagou valor não conhecido, em acordo cujas cláusulas não foram divulgadas.) E nos últimos mesos do governo Clinton, o mesmo Departamento de Justiça processou a companhia por 97 infrações e crimes, todos relacionadas à descarga de 91 toneladas de benzeno, produto carcinogênico, da refinaria em Corpus Christi, Texas. As multas aplicáveis alcançavam 150 milhões de dólares, e quatro empregados das Koch Industries esperavam sentenças de até 35 anos de prisão. O Koch Petroleum Group declarou-se culpado das acusações criminais de violação de regras ambientais e falsificação de documentos, e pagou multa de 25 milhões de dólares. David Uhlmann, procurador do Estado que, à época, chefiava a sessão de crimes ambientais do Departamento de Justiça, descreveu o processo como “um dos casos mais significativos jamais julgados depois da LeiClean Air Act.” E acrescentou: “Crimes ambientais são quase sempre motivados por interesses econômicos e arrogância. O caso Koch reuniu enormes doses de ambos.”

Na campanha eleitoral de 2000, as Koch Industries gastaram cerca de 900 mil dólares na campanha de George W. Bush e outros Republicanos. Nos anos Bush, as Koch Industries e outras empresas de combustíveis fósseis conheceram enorme prosperidade. A lei da energia de 2005, que Hillary Clinton chamou de “Lei Dick Cheney & Lobbyistas” garantiu-lhe condições excepcionais de operação. Segundo estudo divulgado pelo Blog Media Matters, a partir de 2000 as empresas do Grupo Koch receberam cerca de 100 milhões de dólares em contratos com o governo.

Em 2004, a Citizens for a Sound Economy foi acusada de ter feito campanha ilegal a favor da reeleição de Bush. O braço do grupo no Oregon tentou impor o nome de Ralph Nader na lista eleitoral presidencial, na tentativa para dividir os votos dos Democratas para John Kerry. Para os críticos, ONGs que se beneficiem de isenção de impostos são proibidas, por lei, de trabalhar em campanhas eleitorais (mas a denúncia, apresentada à Comissão Eleitoral Federal, não foi acolhida, e o processo não prosperou.)

Naquele ano, rivalidades internas levaram à divisão da ONG Citizens for a Sound Economy. David Koch e Fink criaram outro grupo, Americans for Prosperity, e contrataram Tim Phillips para presidi-la. Phillips é político veterano, que já trabalhou com Ralph Reed, pregador evangélico e ativista do Partido Republicano, co-fundador da Century Strategies, empresa de ‘marketing-político’ [ing. campaign-consulting company], conhecido por seus laços com o lobbyist Jack Abramoff [6]. Biografia online de Phillips apresenta-o como “especialista” em organizar grupos políticos “de base” e “de elite”. O fato de os Kochs terem contratado Phillips foi sinal claro de que se preparavam para batalhas mais ‘sangrentas’. Outro lobbyista que também trabalha para os conservadores, Grover Norquist, conhecido por elogiar os lobbystas“especialistas em degolas políticas”, disse, de Phillips: “é cachorro grande, dos que fazem as coisas acontecerem.”

Ano passado, Phillips disse ao Financial Times que a ONG Americans for Prosperity tinha apenas 8 mil membros registrados. Hoje, a página da ONG na internet festeja “1,2 milhões de ativistas.” Seja qual for a versão correta, o envolvimento político dos Kochs sempre foi intenso. Ex-funcionário do Cato Institute disse que a ONG Americans for Prosperity “sempre foi microcomandada pelos Kochs.”

O investimento dos irmãos pode ter rendido bons lucros: a ONG Americans for Prosperity, agindo em acordo com outras ONGs comandadas pela família Koch foi importante instrumento no processo de desorientar o governo Obama.

Em janeiro de 2008, Charles Koch escreveu na newsletter de sua empresa, que os EUA poderiam estar à beira “do maior assalto às nossas liberdades e da maior perda de prosperidade, desde os anos 1930s.” Em outubro daquele ano, a ONGAmericans for Prosperity promoveu conferência de todos os seus agentes, num hotel da cadeia Marriott, nos arredores de Washington. Erick Erickson, editor-chefe do Blog conservador RedState.com, subiu à tribuna, agradeceu a David Koch e jurou “união e luta contra (...) os exércitos da esquerda!”

Imediatamente depois da posse de Obama, a ONG Americans for Prosperitylançou um movimento de manifestações chamadas “Porkulus” [7], contra as medidas de estímulo à economia propostas pelo governo Obama. Em seguida, oMercatus Center distribuiu matéria, em que dizia que os fundos de estímulo à economia haviam sido distribuídos desproporcionalmente a favor de distritos governados por Democratas; adiante, o autor foi obrigado a corrigir as declarações, mas não antes de Rush Limbaugh, citando aquela matéria, falar do programa do governo Obama como “programa lixo”; e o programa Fox News e outros veículos conservadores terem repetido incansavelmente as mesmas expressões. (Phil Kerpen, vice-presidente para assuntos políticos da ONGAmericans for Prosperity, é colaborador frequente da página do Fox News na internet. E outro funcionário da ONG Americans for Prosperity, Walter Williams, é convidado frequente do programa de Limbaugh.)

A ONG Americans for Prosperity também criou outra ONG-satélite, Patients United Now [Doentes Afinal Reunidos], que organizou, segundo estimativas do próprio Phillips, mais de 300 manifestações públicas contra a reforma da saúde proposta pelo governo Obama. Numa dessas manifestações, enforcou-se um boneco que tinha colado ao rosto uma foto de um político Democrata; em outro, os manifestantes carregavam um estandarte com fotos de cadáveres no campo de concentração de Dachau. O grupo também ajudou a organizar manifestações chamadas “Kill the Bill” [Matem a Lei] à frente do Capitólio, em março, nas quais apoiadores da reforma da saúde disseram que foram ofendidos e espancados. Phillips discursou em várias dessas manifestações.

A mesma ONG Americans for Prosperity já organizou pelo menos 80 eventos de protesto contra a legislação cap-and-trade, que visa a cobrar das empresas pela poluição do ar que gerem. Oradores, nessas manifestações, disseram, com flagrante exagero, que até os churrasqueiros de fim de semana que assassem carne nos quintais de casa e os fornos de cozinha teriam de pagar novos impostos. O grupo esteve também envolvido nos ataques contra o czer dos “empregos verdes” de Obama, Van Jones, e organizou cruzada nacional contra as reuniões oficiais de discussão sobre o clima. Dizendo-se representante dos trabalhadores comuns, que perderiam empregos por culpa dos ambientalistas, Phillips foi a Copenhagen ano passado e organizou uma manifestação de protesto à frente do prédio da ONU onde se realizava a conferência sobre mudança climática. Lá, disse que “Somos uma organização de massa e de base (...). É uma desgraça que filhos ricos de famílias ricas trabalhem tanto para fazer subir os índices de desemprego nos EUA. Hoje, já chegamos aos 20%!”

Grover Norquist, que organiza reuniões semanais para líderes conservadores em Washington, às quais sempre comparecem representantes da ONG Americans for Prosperity, disse-me que no verão passado, as inúmeras manifestações de rua organizadas pelo mesmo grupo foram importantes para minar a divulgação, para os eleitores, da agenda de Obama. Os líderes Republicanos no Congresso, disse ele, “não teriam conseguido o que conseguiram sem o mês de agosto, quando as pessoas saíram às ruas. O movimento assustou os que se dispunham a negociar algum acordo em troca do voto” – Republicanos que poderiam ter votado construtivamente a favor das reformas propostas por Obama. Além disso, a visão do movimento nas ruas, que parecia sinalizar crescente oposição a Obama, também afetou as corporações doadoras de fundos para campanhas eleitorais na K Street [8]. “K Street é um poço de três bilhões de dólares” – disse Norquist. “Quando Obama estava forte, a Câmara de Comércio disse ‘Podemos trabalhar com o governo Obama’. Mas mudaram de opinião quando milhares de pessoas saíram às ruas e ‘aterrorizaram’ os congressistas e candidatos. Agora, que Obama está fraco, aquele pessoal endureceu.”

Quando se aproximava o primeiro aniversário da posse de Obama, David Koch veio a Washington para participar de uma triunfal reunião promovida pela ONG Americans for Prosperity. Os números de popularidade de Obama estavam despencando. Nenhum senador Republicano trabalhava a favor do governo para a aprovação do plano de reforma da saúde, dentre outros temas. Os jornais escreviam sobre a incapacidade política de Obama e vários grupos do Movimento Tea Party acusavam o governo de estar iniciando “um golpe para assumir controle absoluto de todo o governo”. Num discurso, Koch disse que “Dias como o que vivemos hoje trazem de volta à pauta real a amplidão da visão de nosso comitê diretor, há cinco anos.” E prosseguiu: “Tivemos a visão antecipada de um movimento de massa, com base num estado, mas de amplidão nacional, de centenas de milhares de cidadãos norte-americanos de todos os níveis e padrões de vida, em pé e dispostos a lutar pelas liberdades econômicas que fizeram de nossa nação a mais próspera sociedade da história (...). Felizmente, os ramos que brotaram, da California a Virginia, e do Texas a Michigan, mostram que mais e mais os nossos concidadãos começam a ver as mesmas verdades que vemos há tanto tempo.”

Apesar de, naquele dia, Koch não se ter alistado formalmente ao Movimento Tea Party, chegou bem perto disso. Em seu discurso, elogiou o Movimento por demonstrar “a poderosa, visceral hostilidade que há no nosso corpo político contra o ameaçador aumento do poder do governo, e seu esforço ilimitado para socializar os EUA.” Charles Koch, em carta que enviou aos seus 70 mil empregados, comparou o governo de Obama ao regime venezuelano de Hugo Chávez. O sentido de perigo dos Kochs chega a ser curioso. A desigualdade de renda nos EUA é hoje maior do que jamais, desde os anos 1920s; e desde os anos 1970s os ganhos dos mais ricos caíram mais que os ganhos da classe média. Absurda que seja, a mensagem dos irmãos Koch encontrou evidente eco entre os eleitores: pesquisa recente mostrou que 55% dos norte-americanos acreditam que Obama seja socialista.

A ONG Americans for Prosperity, enquanto isso, já anunciou que gastará mais 45 milhões de dólares antes das eleições de meio de mandato, em novembro. Apesar de a legislação que rege as ONGs proibir que apóiem diretamente qualquer candidato, ainda assim o grupo planeja trabalhar em cerca de 50 eleições locais para a Câmara de Deputados e meia dúzia para o Senado, com manifestações, campanhas porta-a-porta e publicação de anúncios em jornais, revistas e televisões, com o objetivo de “educar os eleitores sobre quem são e o que pretendem os candidatos.”

Apesar de os Kochs terem conseguido neutralizar a força de Obama nos meses iniciais do mandato, estão longe de dar-se por satisfeitos. Richard Fink, em entrevista ao Blog FrumForum.com nessa primavera, disse que “Se se considerar onde estávamos em 2000 e onde estamos hoje, com a contínua expansão dos gastos do governo e uma dívida que já ameaça quebrar o país, vê-se que conseguimos pouco.” E continuou: “Pode-se dizer que a infraestrutura que construímos ainda não chegou à superfície, à plena luz do dia”. Sugeriu que os Kochs ainda precisem “envolver-se mais nas questões práticas, do dia a dia do governo.”


Em 1991, David Koch sofreu graves ferimentos, na queda de um avião em Los Angeles. Foi o único passageiro da primeira classe que sobreviveu. Na recuperação, um exame de rotina revelou um câncer na próstata. Koch tratou-se, recuperou-se, iniciou família e reconsiderou toda a sua vida. Como disse aPortfolio, “Quando acontece de você ser o único sobrevivente da parte da frente do avião, e todos os demais morrem... É, você pensa: ‘Deus, o bom Deus poupou-me para algum grande destino.’ Costumo dizer que, desde então, trabalho o mais que possa, fazendo a melhor coisa que jamais me ocorreu fazer. Deus pode confiar em mim.”


Koch passou a fazer doações espetacularmente generosas para instituições de arte e ciência. Tornou-se benemérito da pesquisa sobre câncer, com foco em câncer de próstata. Além do que doou ao Sloan-Kettering, deu 15 milhões de dólares ao New York-Presbyterian Hospital, 125 milhões ao MIT para pesquisa sobre câncer, 20 milhões à Johns Hopkins University e 25 milhões ao M. D. Anderson Cancer Center, em Houston. Como agradecimento, o Sloan-Kettering outorgou a Koch o Prêmio de Excelência em Liderança Corporativa. Em 2004, o presidente Bush nomeou-o Conselheiro do Nacional Cancer Advisory Board, que dirige o National Cancer Institute.

Os papéis que Koch desempenha no mundo corporativo e político, contudo, mostram alguns conflitos de interesses. Por exemplo, ao mesmo tempo em que David Koch apresentava-se como campeão da luta contra o câncer, as Koch Industries empenhavam-se no lobby para impedir que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) classificasse o formaldeído – que o conglomerado produz em grandes quantidades – como produto “reconhecido como carcinogênico em seres humanos”.

Os cientistas sabem há muito tempo que o folmaldeído produz câncer em ratos, e vários estudos científicos de grandes populações já concluíram que o forlamdeído também produz câncer em seres humanos – dentre outros, pesquisa publicada ano passado pelo National Cancer Institute, órgão de cujo Conselho Consultivo Koch participa. O estudo acompanhou 25 mil pessoas ao longo de, em média, 40 anos; os que foram expostos a mais altas concentrações de formaldeído apresentaram índices consideravelmente mais altos de leucemia. Esses resultaros foram decisivos para que o grupo de especialistas do National Institutes of Health concluíssem que o formaldeído deve ser classificado como carcinogênico e, portanto, como produto a ser incluído na lista das substâncias estritamente controladas pelo governo. Muitas grandes corporações lutaram contra qualquer tipo de controle do formaldeído durante décadas; as Koch Industries sempre foram importantes doadoras de campanha de deputados e senadores que mantinham paralisadas várias iniciativas da EPA, sempre exigindo que se fizessem mais estudos, antes de que se aprovassem novos controles e leis.

As Koch Industries tornaram-se grandes produtoras de químicos em 2005, depois de incorporarem a Georgia-Pacific, madeireira e produtora de papel, por 21 bilhões de dólares. A divisão química da Georgia-Pacific produz formaldeído, e o usa em vários produtos de madeira, como compensados e laminados. Tem capacidade para produzir 2,2 bilhões de pounds. Dezembro passado, Traylor Champion, vice-presidente da Georgia-Pacific para assuntos de meio ambiente, enviou carta formal de protesto às autoridades federais de Saúde. Escreveu que a companhia “discorda veementemente” das conclusões do painel de especialistas da Agência Nacional de Saúde (NIH) de que o formaldeído devesse ser definido como carcinogênico em seres humanos. . panel’s conclusion that formaldehyde should be treated as a David Koch não se afastou nem do posto de Conselheiro do National Cancer Advisory Board, nem do comando de suas empresas, enquanto as mesmas empresas faziam lobby contra o mesmo governo, para manter no mercado o formaldeído. (Porta-voz do National Cancer Advisory Board disse que o assunto não foi jamais discutido no Instituto.)

James Huff, diretor associado do National Institute for Environmental Health Sciences, divisão do Instituto Nacional de Saúde, disse que parecia-lhe “repugnante” que Koch tivesse assento, como conselheiro, ao National Cancer Advisory Board: “Não é bom para a saúde pública. Interesses comerciais e empresariais não deveriam ser representados lá”. E prosseguiu: “Os Conselhos são muito importantes, porque influenciam o rumo da agência, a favor ou contra o formaldeído continuar a ser vendido sem qualquer restrição. Há bilhões em jogo nas questões que envolvem o formaldeído.”

Harold Varmus, diretor do National Cancer Institute, conhece David Koch do Memorial Sloan-Kettering, do qual foi diretor. Disse que, no Sloan-Kettering, “há muita gente que doa dinheiro e que tem também grandes interesses comerciais. Só não admitimos o pessoal da indústria de cigarros.” Ao saber do protesto das Koch Industries contra o controle do formaldeído, Varmus disse que, para ele, era “uma surpresa”.


A sala “David H. Koch das Origens do Homem”, no Museu Nacional Smithsonian de História Natural oferece uma viagem multimídia pela teoria de que a humanidade evoluiu como resposta à mudança climática. Na entrada principal, os visitantes encontram um gráfico gigante que mostra a variação da temperatura da Terra ao longo dos últimos 10 milhões de anos, e que mostra que a temperatura hoje é muito mais baixa do que há dez mil anos. Acima do gráfico, lê-se: “A HUMANIDADE EVOLUIU COMO RESPOSTA A UM MUNDO EM MUTAÇÃO.” A mensagem, que se lê também na página do museu na internet , é que “as adaptações-chave pelas quais passou o ser humano foram respostas à instabilidade do meio ambiente.” Só ao final da mostra, sob a manchete “O DESAFIO DA SOBREVIVÊNCIA”, lê-se que os níveis de dióxido de carbono são mais altos hoje do que nunca, antes, em toda a história do homem no planeta, e que se preveem aumentos dramáticos para o próximo século. Nada se diz sobre a causa desse fenômeno; nem uma palavra sobre a suspeita de que os combustíveis fósseis tenham papel determinante nessa catástrofe prevista. A mostra faz com que tudo pareça evolução natural. O texto que acompanha a exposição diz que “Durante o período de evolução do ser humano, a temperatura da Terra e a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera flutuaram simultaneamente.” Na exposição, um jogo interativo sugere que os seres humanos continuarão a adaptar-se a todas as mudanças climáticas, também no futuro. A humanidade poderá construir “cidades subterrâneas” e desenvolver “corpos menores, mais compactos”, ou “espinhas dorsais encurvadas”, de modo que “não haverá problema para que as pessoas circulem em ambientes estreitos.”

Todas essas ideias são eco, sem dúvida alguma, da mensagem de Koch. A carta que a companhia distribuiu em janeiro aos empregados, por exemplo, argumenta que “a temperatura da Terra oscila desde muito antes do aparecimento do homem” e conclui: “Dado que ninguém pode controlar a Mãe Natureza, temos de começar a pensar em como sobreviver com as mudanças”. Joseph Romm, médico que edita a página ClimateProgress.org na internet, está indignado com a exposição montada no Museu Smithsonian. “A exposição foi montada para devolver ao ponto zero toda a discussão contemporânea sobre mudanças climáticas”, diz ele. “Acho que os Kochs querem que suas empresas sejam vistas como ‘de mente aberta’, associadas ao maior museu de história natural dos EUA. Mas a verdade é que aquela exposição foi construída para divulgar o ideário dos maiores poluidores do planeta, os mesmos que, na clandestinidade, financiam todos os tipos de ação interessadas em derrotar o esforço contemporâneo, de toda a humanidade, para sobrevivermos, primeiro de tudo, ao desastre provocado por aquelas empresas. Acho que o Smithsonian errou, ao admitir aquela exposição.”

Cristián Samper, diretor do museu, disse que a exposição não trata de mudança climática. Disse que Koch “é um dos mais generosos doadores que tivemos, durante minha gestão, porque é muito interessado no conteúdo do nosso trabalho, mas não interfere em nada”. Disse também que “não sabia de tantos detalhes de seu envolvimento em outros assuntos.”

Os Kochs sempre dependeram desse tipo de ignorância sobre os detalhes do que fazem. Sempre lhes bastou operar o que David Koch chamou de “a maior empresa de que vocês jamais ouviram falar”. Hoje, com a crescente exposição pública do Movimento Tea Party, e com a opinião pública cada vez mais informada sobre os laços que unem os Koch e aquele movimento, é possível que os irmãos tenham alguma dificuldade para continuar a escapar de todas as investigações. Recentemente, o presidente Obama deu sinal de que está atento à rede política dos Koch. Falando ao Comitê Nacional dos Democratas, em reunião de doadores de campanha, em Austin, alertou os apoiadores do Partido Democrata sobre recente decisão da Suprema Corte no caso da ONG Citizens United – que aprovou leis que proíbem as corporações da indústria e do comércio de doar fundos para campanhas eleitorais. O presidente lembrou que as novas leis, de fato, tornaram ainda mais fácil, para as grandes corporações, “ocultarem-se por trás de ONGs que se apresentam com títulos grandiloquentes e aparentemente progressistas, como Americans for Prosperity.” E continuou: "ninguém é obrigado a esclarecer quem são os Americans for Prosperity. E fica-se sem saber se não são, por exemplo, corporações estrangeiras. Ou, talvez, alguma gigante do petróleo."♦

Jane Mayer, principal correspondente do The New Yorker em Washington, é autora de “Dark Money” e ganhadora do prêmio Freedom of the Press de 2021.

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