26 de novembro de 2016

Nós não, Eu

Jodi Dean

Verso


Tradução / Desde a vitória de Trump sobre Hillary Clinton nas eleições presidências dos Estados Unidos, os comentários liberais têm se preocupado obsessivamente com o problema da política de identidade. Igual à língua que toca incessantemente no dente dolorido, essa preocupação localiza o problema, mas não o aborda. Nem sequer o analisa. Ela não nos diz nada sobre o apelo da identidade, sobre vinculações a ela, sobre investimentos nela. Na melhor das hipóteses, os comentários liberais (como o que apareceu no New York Times) repetem críticas conservadoras ao politicamente correto, censurando-as com condescendência erudita.

O slogan mais proeminente da campanha de Clinton foi “Eu estou com ela”. O “Eu” do slogan é o eleitor. O “ela” é Clinton. O slogan é a declaração do eleitor de que ele está votando não especificamente em Clinton, mas em uma mulher. O eleitor é o tipo de pessoa para quem o gênero tem grande importância, cujo voto é, acima de tudo, um voto pela justiça de gênero – é a vez dela. Homens têm sido presidente; chegou a hora da mulher. O slogan nos diz algo sobre o que os valores do eleitor, sobre quem o eleitor é como pessoa. Sobre a candidata o slogan só nos diz o gênero. O gênero da candidata é o que mais a distingue, mais a destaca politicamente.

Esse slogan, que nos informa sobre o eleitor e não sobre a candidata, provavelmente fazia sentido para a campanha de Clinton porque o slogan povoa muito facilmente as redes afetivas do capitalismo comunicativo. O capitalismo comunicativo nomeia a fusão entre democracia e capitalismo na mídia de massa personalizada, redes de telefones celulares, wi-fi, redes sociais e distração em massa, por meio dos quais veiculamos nossos sentimentos e nossas opiniões de maneiras que fazem nos sentirmos importantes, engajados, políticos. O capitalismo comunicativo impõe o cultivo da identidade individual. Nos é dito repetidamente que nós somos únicos e especiais, que ninguém pode falar por nós, que nós temos de fazê-lo por nós mesmos. O slogan de Clinton não fala pelos eleitores. É um registro de eleitores falando por si mesmos, uma hashtag pronta da declaração de identidade.

A injunção para afirmar a sua identidade individual é ininterrupta no capitalismo comunicativo. Cuidar de si mesmo agora se afigura como um ato politicamente significativo e não como um sintoma da rede de bem-estar social desmantelada e de um mercado de trabalho obscenamente competitivo onde não temos outra escolha senão cuidar de nós mesmos se pretendermos seguir em frente. O slogan de Clinton é a extensão neoliberal do insight do feminismo de segunda onda que “o pessoal é político.” Visto que o pessoal é político, a questão política é sobre mim, o que o meu voto diz sobre mim?

Contra esse pano de fundo individualista, os votos dos outros também são sobre mim. A angústia pós-eleitoral que circula entre os eleitores de Clinton na mídia social, repetida nos principais meios de comunicações que consideram jornalismo reportar sobre mídia social, é profundamente pessoal. As pessoas expressam seus próprios medos individuais e seus temores em relação a seus filhos. Elas relatam ansiedade e pânico profundos. Alguns amplificam esses pânico e ansiedade a tal ponto que consideram todos que votaram em Trump (ou até mesmo todos que não votaram em Clinton) como racistas, sexistas e homofóbicos. Essas amplificações não são explicações das estruturas da sociedade americana. São projeções de atitudes sobre os outros, maneiras de imaginar os outros como inimigos e rivais. Os votos (ou não-votos) de todos esses realmente têm a ver com o projetor (o eleitor “com ela”). Antes das eleições, os eleitores “com ela” estava seguro. Agora eles estão em perigo.

Nas redes afetivas do capitalismo comunicativo, os fatos sobre a prevalência da violência racial e as deportações no governo Obama, sobre as diferenças de classe dentro das categorias raciais e sobre a demografia de abstencionistas e eleitores de Trump têm pouco registro. Em relação ao poder circulatório, verdades e mentiras, fatos e ficção, são indiscriminados. A mídia social depende de declarações intensas de sentimentos pessoais. Ela prospera sobre a circulação do afeto. A indignação recebe mais compartilhamentos e curtidas do que a nuança. A retidão é registrada como #coragem. Quando nossas identidades já frágeis, em conflito e nunca completamente coerentes estão em jogo, o que é sempre (a menos que estejamos compartilhando fotos de gatinhos), a discordância parece bullying.

Durante as eleições de 2016, a política de identidade misturou-se à individualidade ordenada pelo capitalismo comunicativo. As categorias demográficas usadas por pesquisadores assumiram uma fixidez, uma capacidade para determinar as opiniões e preferências de todos os pertencentes à categoria. O conjunto complexo de fatores que se afiguram como escolhas políticas, uma miríade de maneiras em que tais escolhas não são determinadas por uma essência designada por e capturada dentro dos termos demográficos, o fato de que as identidades políticas devem ser mais construídas do que adotadas; tudo isso foi submerso sob uma sempre ampliada insistência para uma conexão direta entre categorias de identidade e compromisso político. A mistura entre política de identidade e individualidade ordenada foi um marco na campanha de Clinton, desde seus tweets oportunistas sobre interseccionalidade, a representações enganosas de Bernie Sanders, até a sua violenta denúncia das críticas de esquerda em termos pessoais – infantilidade, puritanismo, ingenuidade, irresponsabilidade. Na maior parte, os apelos e as acusações estavam tão desprendidos das políticas, desconectados das pessoas que poderiam se beneficiar com ensino superior gratuito e plano médico de pagador único quanto daqueles cujas políticas excederam os limites identitários estabelecidos pelo campo de Clinton. Eles circularam como a disposição, como a condição afetiva das eleições de vincular os eleitores à sua especificidade individual – contanto que essa especificidade correspondesse às expectativas da identidade sexual, de gênero e racial.

Conforme detalho em “Multidões e Partido”, um trabalho recente das sociólogas Jennifer Silva e Carrie Lane que delimita as condições materiais que têm dado origem à vinculação intensa à identidade individual. Desconfiadas das instituições, muitas pessoas hoje em dia acreditam que podem contar apenas consigo mesmas. Seu senso de dignidade e de autoestima vem de sua autossuficiência. Céticas de experts, elas falam a partir de sua própria experiência, derivando a legitimidade a partir da identidade que faz delas o que elas são. Quanto mais elas devem combater, superar, mais valiosa fica a sua identidade. A solidariedade aparece como uma exigência de sacrificar, uma vez mais, e por nada, a melhor coisa que as pessoas têm.

A política de identidade armamentiza o sentimento de que as pessoas têm de agarrar-se ao que está nelas mais do que si mesmas. Ela destaca uma característica específica de um dado conjunto de características demográficas, transformando essa característica de uma base a ser defendida em um lançador a ser usado em novos ataques. A política de identidade armamentizada permite-me insistir que desta vez eu não serei sacrificado, eu sobreviverei. Mais ainda, ajuda a amenizar um pouco de culpa dos privilegiados – eles estão do lado correto da história, pelo menos, desta vez. O bônus adicional da política de identidade armamentizada está em como os privilegiados podem usá-la um contra o outro mesmo que deixem intacta a estrutura básica do capitalismo comunicativo. Nós vemos isso ao olharmos para o arsenal de identidades – sexo, raça, gênero, sexualidade, habilidade, afiliação étnica, religião, cidadania – e reconhecermos o que está faltando: a de classe.

As identidades a partir das quais as pessoas podem falar dependem da exclusão da classe. Por um lado, supõe-se que a classe significa ser branco. Ainda assim são prevalentes dentro do discurso da política de identidade relatos da racialização da pobreza, da feminização do trabalho, relatos importantes que reconhecem e analisam o fato de que classe nos Estados Unidos contemporâneo de forma alguma quer dizer ou significa ser branco. O que, então, está por trás da vinculação à identidade que não apenas se recusa a considerar o impacto da desigualdade econômica nas eleições mas que responde a qualquer discussão da economia como se ela estivesse baseada num racismo subjacente?

A resposta é capitalismo. A política de identidade que se manifestou durante as eleições baseia-se na continuação do capitalismo, não em sua superação. É uma política de identidade liberal em desacordo com a longa história das lutas antirracista, antissexista e anticolonialista, do comunismo e do socialismo. Ao suprimir a história e o presente da luta anticapitalista radical do povo negro, do feminismo comunista, do papel proeminente das pessoas de cor nos movimentos de classe dos trabalhadores, a política de identidade funcionou nas eleições de 2016 para demolir a solidariedade em vez de construí-la. O subtexto faltante na adoção da diversidade pelo Partido Democrata foi que a sua diversidade era a dos bem-sucedidos, dos vencedores, das celebridades multiculturais e de um décimo dos talentosos fotogênicos que aparecem como tantos comentadores na MSNBC. A substituição democrata de empresários por trabalhadores sob o disfarce de inclusão racial é guerra de classe, uma guerra que deixa em seu rastro quantidades desproporcionais de corpos negros e pardos. Pintar de branco a classe trabalhadora legitima as políticas que depreciam as vidas e os futuros de milhões de pessoas de cor da classe trabalhadora.

Recentemente, um colega não branco disse-me que não se importava de ser chamado de elitista. Os eleitores de Trump eram a classe trabalhadora branca racista e que ele não tem vontade de ir até eles, estar em coalizão com eles, ou qualquer outra coisa. Uma abordagem redutiva, individualista, afetiva das eleições permitiu-o abraçar uma posição de classe que ele poderia de outra forma rejeitar (ao menos, publicamente). Multiculturalismo é a forma que a sua defesa do capitalismo assume.

O investimento na identidade é intenso. Ela reforça uma individualidade frágil. Ela proporciona um lugar para a retidão política. Impede a formação das solidariedades que a oposição ao capitalismo requer.

Nas próximas semanas e meses, podemos esperar que os liberais continuem a amplificar a identidade, consolidando na única figura de Trump as histórias e estruturas do racismo, sexismo e homofobia. Essa concentração na figura Trump fará com que os republicanos comuns pareçam razoáveis e os democratas pareçam como campeões de igualdade e diversidade. O ódio que a candidatura de Trump legitimou adotará uma forma liberal de ódio das pessoas brancas da classe trabalhadora, em nome de um multiculturalismo que apaga a realidade de uma classe trabalhadora multirracial. O capitalismo comunicativo providenciará o campo de resposta – a circulação de ultrajes e retidão, declarações individualizadas de medo e união.

A esquerda deve responder com a construção da solidariedade. Tomar o lado dos oprimidos significa que temos de garantir que as lutas dos oprimidos pareçam como um lado, um lado na guerra de classe que divide todos eles. Nós fazemos isso promovendo a atualidade comunista do slogan de Bernie Sander, “Não eu, nós”. Ou como disse Jed Brandt imediatamente após as eleições, é hora de sermos não aliados, mas camaradas.

Sobre a autora

Jodi Dean ensina teoria política e midiática em Genebra, Nova Yorque. Ela escreveu ou editou onze livros, inclusive Multidões e Partido, O Horizonte Comunista e Democracia e Outras Fantasias Neoliberais.

A funda de Davi

Fidel Castro, líder da revolução cubana, morreu aos 90 anos. Nós apresentamos a introdução de Tariq Ali às Declarações de Havana, coleção de discursos de Fidel da editora Verso.

Tariq Ali

Verso


As interpretações acerca da relação senhor-escravo têm uma longa e eminente linhagem na literatura mundial. Suas contradições foram expostas por Al-Ma’ai, Dante, Shakespeare, Cervantes e Goethe, entre outros. Na obra-prima de Cervantes, por exemplo, um falso oráculo informa ao herói epônimo que sua bem-amada Dulcinéia só poderá ser libertada se ele se dispuser a sentenciar seu servo Sancho Pança a receber milhares de chicotadas. Desesperado por Dulcinéia, o senhor concorda, contanto que ele próprio se encarregue da punição. Numa noite quente, é vencido pela impaciência. Levanta-se da cama e prepara-se para açoitar o desavisado Sancho Pança. Imagine o espanto do senhor quando o servo, em vez de se submeter silenciosamente à violência, derruba-o no chão. Cervantes escreve:

Dom Quixote: Então te rebelas contra teu amo e senhor, não é, e ousas levantar a mão contra aquele que te alimenta? 
Sancho: Não faço nem desfaço um rei, eu simplesmente me defendo, pois sou meu próprio senhor.

Aqui está, em síntese, a história da Revolução Cubana. Na década seguinte ao fim da Segunda Guerra Mundial, com o término do domínio colonial direto, os países dos três continentes explorados, em sua esmagadora maioria, deixaram de ser colônias no sentido tradicional. Os Estados Unidos, ao contrário de seus primos europeus, sempre haviam preferido o modo indireto de dominação, aquele que logo se tornou norma: Estados independentes e soberanos do ponto de vista formal, mas fortemente dependentes de seus senhores metropolitanos. Uma máquina burocrática inflada e parasitária, herdada do período colonial, presidia uma estrutura socioeconômica retrógrada.

A função desses Estados formalmente independentes era servir às necessidades econômicas das potências imperiais, à custa de sua própria soberania política e econômica. Isso resultou muitas vezes numa cultura de plantation, caracterizada pelo cultivo de um único produto — cana-de-açúcar, no caso de Cuba —, ou extração de recursos minerais e petrolíferos — como na África e no Oriente Médio. Essa estrutura desestimulava qualquer tentativa concreta de desenvolver um processo autônomo de industrialização. A Índia e o Brasil foram exceções sob esse aspecto, mas a relativa autonomia desses países pouco fez para mudar a estrutura global de dominação.

Na América do Sul, uma elite governante nativa, de ascendência européia, que na maioria dos casos ocupava o poder com apoio político e militar dos Estados Unidos, dominou o continente com relativa facilidade. Rebeliões como a liderada por Sandino, na Nicarágua, eram isoladas e prontamente esmagadas. A repressão física e cultural da população indígena (com exceção do México) era considerada normal. Experiências populistas (Argentina e Brasil) não duraram muito. Poucos pensavam em Cuba como local provável para a primeira revolução anticapitalista. Em primeiro lugar, ficava perto demais dos Estados Unidos; além disso, a escala dos investimentos norte-americanos na ilha era tamanha que dificilmente as companhias abririam mão de seu controle. Se houvesse distúrbios efetivos, os fuzileiros navais sem dúvida seriam despachados para submeter os nativos da maneira tradicional.

As coisas não se passaram exatamente assim. O pequeno grupo de guerrilheiros liderado por Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos foi encarado, de início, como pouco mais que um motivo de irritação. Batista, o ditador apoiado pela Máfia e instalado em Havana, negou que houvesse qualquer agitação grave no país. Foi um ousado jornalista norte-americano que levou ao mundo as primeiras notícias sobre a luta armada em Sierra Maestra. O repórter Herbert Matthews, do New York Times, praticava seu ofício num mundo ligeiramente diferente do nosso. Por exemplo, o “jornal de registro”, como o Times se definia, costumava conceder a seus jornalistas a liberdade criativa para explorar novos terrenos ou investigar os efeitos da intervenção dos Estados Unidos em seu quintal latino-americano. A série de artigos que Matthews escreveu para o jornal anunciava o prólogo da Revolução Cubana.

O país aonde Matthews chegou em 1957 era o produto de um passado turbulento. “La Isla Fiel” do folclore imperial hispânico, nos anos 1860, sob a liderança da aristocracia fundiária, havia se unido contra o domínio espanhol. Após uma década de brutal repressão por parte da metrópole, a revolta foi esmagada. O declínio dos preços do açúcar desencadeou uma nova insurreição em 1895, quando os donos de plantations aderiram à causa da independência. Os espanhóis lutaram encarniçadamente e aprisionaram centenas de milhares de cubanos em reconcentrados, ou campos de concentração (sua primeira ocorrência no planeta), onde eles definharam e morreram. Vinte por cento da população de Cuba (350 mil pessoas) morreram durantes os três anos de conflito. A entrada dos Estados Unidos na guerra levou à derrota espanhola, mas a provação havia enfraquecido seriamente a classe de proprietários de terras, que se tornou incapaz de resistir a um protetorado norte-americano de facto, com uma base militar permanente em Guantánamo. A igreja católica era frágil (três quartos dos padres eram estrangeiros) e incapaz de sustentar o novo regime. A oligarquia fundiária praticamente desaparecera da paisagem política depois de mais uma queda catastrófica dos preços do açúcar após a Primeira Guerra Mundial. Isso liquidou a única força local capaz de impedir uma revolução — o mesmo que já acontecera em outros lugares do continente.

Desprovidos de coesão, os ricos urbanos de início se tornaram felizes subalternos das companhias norte-americanas que ocupavam a ilha. O capital americano investido em Cuba era sete vezes maior que o aplicado no resto da América Latina. Na década de 1950, um boom imobiliário ajudou a criar uma nova classe de homens de negócios em Cuba. Ocasionalmente, eles tinham sonhos de grandeza e usavam suas grandes fortunas para comprar de volta as antigas plantations das mãos de companhias norte-americanas, mas sempre enfatizavam sua própria subordinação à presença imperial. Eram parasitas e estavam felizes com o nicho que lhes fora concedido. O tédio que impregnava essa classe constitui o tema de muitos romances cubanos do período. O falso regime parlamentar de Cuba era venal. Seus políticos saqueavam regularmente o tesouro do país, e as guerras de facções devastavam as cidades. Era, em suma, uma completa anarquia. Como não é de surpreender, o segundo golpe do general Batista, em 1952, não encontrou qualquer resistência do establishment político, mas este tampouco lhe deu pleno apoio. Batista era visto como um aventureiro (em 1933, como sargento, organizara, com grupos estudantis, uma revolta bem-sucedida contra seu próprio Alto Comando) e considerado indigno de confiança. Em razão de sua pele escura, não lhe era permitido entrar no Havana Club, onde os ricos realizavam seus negócios misturando-os ao prazer.

A situação do país continuou a se deteriorar, e o regime de Batista, detestado pela população, sem apoio sério dos abastados, super-dependente de Washington e da Máfia, viu-se rapidamente isolado. Sem dúvida era o elo mais fraco da cadeia de regimes militares que se estendia por toda a América Latina.

Em 26 de julho de 1953, um jovem advogado enfurecido, Fidel Castro, liderou um pequeno grupo de homens armados numa tentativa de tomar o quartel Moncada, em Santiago de Cuba, na província de Oriente. A maioria dos guerrilheiros foi morta. Fidel foi julgado e se defendeu com o discurso magistral aqui reproduzido no Capítulo 1, repleto de referências clássicas, citações de Balzac e Rousseau, e que se encerrava com as palavras: “Condenai-me. Não importa. A história me absolverá.” Esse discurso lhe valeu grande fama e popularidade.

Libertado na anistia de 1954, Fidel deixou a ilha e começou a organizar uma rebelião a partir do México. Durante algum tempo ficou na fazenda que pertencera outrora ao lendário rebelde Emiliano Zapata. No fim de novembro de 1956, 82 pessoas, entre elas Fidel Castro e Che Guevara, embarcaram no México, num pequenino iate, o Granma, rumo aos impenetráveis montes cobertos de florestas em Sierra Maestra, na província de Oriente. Emboscados por homens de Batista depois que desembarcaram, 12 sobreviventes chegaram a Sierra Maestra e deram início a uma guerra de guerrilha. Tiveram o apoio de uma forte rede urbana de estudantes, trabalhadores e empregados públicos que se tornou a espinha dorsal do Movimento 26 de Julho. Em 1958, os exércitos guerrilheiros começaram a se deslocar das montanhas para as planícies: uma coluna comandada por Fidel se apoderou de vilas em Oriente, enquanto as tropas irregulares de Che Guevara tomavam de assalto e assumiam o controle da cidade de Santa Clara, na região central. No dia seguinte Batista e seus comparsas fugiram da ilha, enquanto o exército rebelde, agora acolhido como libertador, marchava em direção a Havana. A popularidade da Revolução era evidente para todos.

A vitória de Fidel Castro deixou os norte-americanos atordoados. Logo se tornou óbvio que aquele não era um acontecimento corriqueiro. Qualquer dúvida com relação aos propósitos da Revolução foi dissipada pela “Primeira Declaração de Havana” (Capítulo 2), a proclamação, feita por Fidel, de total independência em relação aos Estados Unidos, perante um público de um milhão de pessoas reunidas na Praça da Revolução. Washington reagiu com irritação e açodamento, tentando isolar o novo regime do resto do continente. Isso levou a uma reação radical da liderança cubana, que decidiu nacionalizar indústrias norte-americanas, sem indenização. Três meses depois, em 13 de outubro de 1961, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com Cuba; subseqüentemente, armaram os exilados cubanos na Flórida e deram início à invasão da ilha perto da baía dos Porcos, que foi derrotada. O presidente John Kennedy impôs então a Cuba um bloqueio econômico total, o que levou à aproximação entre cubanos e Moscou. Em 4 de fevereiro de 1962, a “Segunda Declaração de Havana” (Capítulo 3) condenava a presença norte-americana na América do Sul e conclamava a libertação de todo o continente.

Quarenta anos mais tarde Fidel Castro explicou a necessidade das duas declarações:

No início da Revolução ... fizemos duas declarações, que chamamos de “Primeira Declaração de Havana” e “Segunda Declaração de Havana”, durante um comício-monstro de mais de um milhão de pessoas na Praça da Revolução. Com essas declarações, respondíamos aos planos tramados nos Estados Unidos contra Cuba e contra a América Latina — porque os Estados Unidos obrigaram todos os países latino-americanos a romper relações com Cuba. ... [Essas declarações] afirmavam que não se iniciaria uma luta armada se existissem condições legais e constitucionais para uma luta cívica pacífica. Essa era nossa tese em relação à América Latina.

Enquanto os rebeldes permaneceram em Sierra Maestra, ainda não estava claro o rumo que a Revolução tomaria — nem para Fidel. Até aquele momento, ele nunca fora socialista, e suas relações com o Partido Comunista oficial de Cuba eram muitas vezes tensas. Foi a reação daquele ruidoso e influente vizinho do norte que ajudou a determinar os rumos da Revolução. Os resultados foram confusos. Politicamente, a dependência em relação à União Soviética levou à reprodução das instituições soviéticas e a tudo que isso acarretava. Socialmente, a Revolução Cubana criou um sistema educacional e um serviço de saúde que continuam a dar inveja em grande parte do mundo neoliberal. A história será o juiz supremo, mas Fidel Castro já foi elevado, por um vasto número de latino-americanos, ao pedestal ocupado pelos grandes libertadores como Bolívar, San Martín, Sucre e José Martí.

20 de novembro de 2016

O fim do liberalismo identitário

O liberalismo americano caiu em uma espécie de pânico moral sobre identidade racial, de gênero e sexual que distorceu a mensagem do liberalismo.

Mark Lilla

The New York Times

Dan Gluibizzi

Tradução / É um truísmo o fato de que os EUA se tornaram um país mais diversificado. É também algo belo de se observar. Visitantes de outros países, particularmente daqueles com dificuldades de incorporar diferentes grupos étnicos e religiosos, ficam maravilhados com o modo que lidamos com isso. Não perfeitamente, é claro, mas certamente melhor do que qualquer nação europeia ou asiática hoje. É uma história de sucesso extraordinária.

Mas como essa diversidade deve moldar nossa política? A resposta liberal padrão para quase uma geração foi a que devemos nos tornar conscientes e “celebrar” nossas diferenças. Um princípio esplêndido da pedagogia moral – mas desastroso como fundamento para a política democrática em nossa era ideológica. Nos últimos anos, o liberalismo americano deslizou para dentro de uma espécie de pânico moral em torno das identidades racial, de gênero e sexual, que distorceu sua mensagem, impedindo que este se tornasse uma força unificadora capaz de governar.

Uma das muitas lições da recente campanha eleitoral presidencial e seu resultado repugnante é a de que a era do liberalismo identitário deve ser levada ao fim. Hillary Clinton estava no seu melhor e mais edificante momento quando falou sobre os interesses americanos nos assuntos mundiais e como estes se relacionam com a nossa compreensão da democracia. Mas, quando se referiu aos assuntos internos, ela pareceu perder, ao longo de sua campanha, essa visão ampla e adentrou na retórica da diversidade, apelando explicitamente em cada parada aos eleitores afroamericanos, latinos, LGBT’s e mulheres. Este foi um erro estratégico. Se você vai mencionar grupos na América, é melhor mencionar todos eles. Se você não fizer isso, aqueles deixados de fora irão notar e se sentir excluídos. Isso, como mostram os dados, foi exatamente o que aconteceu com a classe operária branca e aqueles com fortes convicções religiosas. Dois terços dos eleitores brancos sem diplomas universitários votaram em Donald Trump, assim como mais de 80% dos evangélicos brancos.

A energia moral dispendida em torno da identidade, naturalmente, surtiu bons efeitos. A ação afirmativa remodelou e melhorou a vida corporativa. Black Lives Matter proporcionou um chamado à consciência para cada americano. Os esforços de Hollywood para normalizar a homossexualidade em nossa cultura popular ajudaram a normalizá-la nas famílias americanas e na vida pública.

Mas, a fixação na diversidade em nossas escolas e na imprensa produziu uma geração de liberais e progressistas narcisisticamente inconscientes das condições exteriores a seus grupos autodefinidos, indiferentes à tarefa de alcançar todos os americanos em todas as partes. Desde muito jovens, nossos filhos estão sendo incentivados a falar sobre suas identidades individuais, mesmo antes de tê-las. Quando chegam à universidade, muitos assumem que o discurso da diversidade esgota o discurso político e têm escandalosamente pouco a dizer sobre questões tão perenes como a classe, a guerra, a economia e o bem comum. Em grande parte, isso se deve aos currículos de história da escola secundária, que anacronicamente projetam a política de identidade de hoje de volta ao passado, criando uma imagem distorcida das principais forças e indivíduos que moldaram nosso país. (As conquistas dos movimentos de direitos das mulheres, por exemplo, foram reais e importantes, mas você não pode compreendê-las se você não entender primeiro a conquista dos pais fundadores no estabelecimento de um sistema de governo baseado na garantia de direitos).

Quando os jovens chegam à universidade, eles são encorajados a manter esse foco em si mesmos por grupos de estudantes, membros do corpo docente e também administradores cujo trabalho em tempo integral é lidar com – e aumentar o significado de – “questões de diversidade”. A Fox News e outros meios de comunicação conservadores se divertem zombando da “loucura dos campi” que rodeia essas questões, que apenas servem de artifícios para demagogos populistas que querem deslegitimar a aprendizagem aos olhos daqueles que nunca puseram o pé em um campus. Como explicar ao eleitor médio a suposta urgência moral de dar aos estudantes universitários o direito de escolher os pronomes de gênero designados a serem usados ao abordá-los? Como não rir junto com aqueles eleitores na história de um brincalhão da Universidade de Michigan que escreveu “Sua Majestade”?

Essa consciência de diversidade própria ao público universitário foi, ao longo dos anos, filtrada pela mídia liberal, e não sutilmente. As ações afirmativas para mulheres e minorias dos jornais e das emissoras da América foi uma realização social extraordinária – e mudou mesmo, literalmente, a cara dos meios de comunicação de direita, como no caso de jornalistas como Megyn Kelly e Laura Ingraham que ganharam proeminência. Mas também parece ter encorajado a suposição, especialmente entre os jornalistas e editores mais jovens, de que simplesmente por se concentrar na identidade eles fizeram o seu trabalho.

Recentemente eu fiz um pequeno experimento durante um ano sabático na França: durante um ano inteiro li apenas publicações europeias, não americanas. Meu pensamento era tentar ver o mundo como os leitores europeus. Mas foi muito mais instrutivo voltar para casa e perceber como a lente da identidade transformou a reportagem americana nos últimos anos. Quantas vezes, por exemplo, a história mais preguiçosa do jornalismo americano – sobre o “primeiro X a fazer Y” – foi contada e recontada. A fascinação com o drama de identidade afetou até mesmo as notícias internacionais, que estão em oferta angustiantemente curta. Por mais interessante que seja ler, digamos, sobre o destino dos transgêneros no Egito, não contribui em nada para educar os americanos sobre as poderosas correntes políticas e religiosas que determinarão o futuro do Egito e, indiretamente, o nosso. Nenhuma grande fonte de notícias na Europa pensaria em adotar tal enfoque.

Mas é no nível da política eleitoral que o liberalismo identitário falhou mais espetacularmente, como acabamos de ver. Política nacional, em períodos saudáveis, não é sobre “diferença”, trata-se de comunalidade e será dominada por quem melhor captura a imaginação dos americanos sobre nosso destino compartilhado. Ronald Reagan fez isso de maneira muito hábil, seja o que for que se pense de sua visão. Também o fez Bill Clinton, que tirou uma página do livro de regras de Reagan. Ele retirou o Partido Democrata de sua ala identitária-consciente, concentrou suas energias em programas domésticos que beneficiariam a todos (como o seguro de saúde nacional) e definiu o papel da América no mundo pós-1989. Ao permanecer no cargo por dois mandatos, ele foi capaz de realizar muito para diferentes grupos na coalizão Democrática. A política de identidade, em contraste, é em grande parte expressiva, não persuasiva. É por isso que nunca ganha eleições – mas pode perdê-las.

O recém-descoberto interesse da mídia, quase antropológico, no homem branco irritado revela tanto sobre o estado de nosso liberalismo como sobre esta figura tão maligna e ignorada anteriormente. Uma interpretação liberal conveniente da eleição presidencial recente coloca que o Sr. Trump ganhou em grande parte porque conseguiu transformar a desvantagem econômica na raiva racial – a tese do “whitelash” (chicote branco, em tradução literal). Isto é conveniente porque sanciona uma convicção de superioridade moral e permite que os liberais ignorem o que esses eleitores disseram ser suas preocupações primordiais. Também incentiva a fantasia de que a direita republicana está condenada à extinção demográfica no longo prazo – o que significa que os liberais têm apenas de esperar que o país caia em seu colo. A porcentagem surpreendentemente alta do voto latino que foi para o Sr. Trump deve lembrar que quanto mais tempo os grupos étnicos estão aqui neste país, mais politicamente diversos eles se tornam.

Finalmente, a tese do whitelash é conveniente porque absolve os liberais de não reconhecer como sua própria obsessão, como a diversidade tem incentivado os americanos brancos, rurais, religiosos a pensar-se como um grupo desfavorecido cuja identidade está sendo ameaçada ou ignorada. Essas pessoas não estão realmente reagindo contra a realidade de nossa América diversificada (eles tendem, afinal, a viver em áreas homogêneas do país). Mas eles estão reagindo contra a retórica onipresente da identidade, que é o que eles entendem por “politicamete correto”. Os liberais devem ter em mente que o primeiro movimento de identidade na política americana foi o Ku Klux Klan, que ainda existe. Aqueles que jogam o jogo de identidade devem estar preparados para perdê-lo.

Precisamos de um liberalismo pós-identitário, e ele deve ser delineado a partir dos sucessos passados do liberalismo pré-identitário. Tal liberalismo concentrar-se-ia em alargar a sua base apelando para os americanos como americanos e enfatizando as questões que afetam a maioria deles. Ele falaria para a nação como uma nação de cidadãos que estão nisto juntos e devem ajudar uns aos outros. Quanto a questões mais restritas que são altamente carregadas simbolicamente e podem afastar aliados potenciais, especialmente aqueles que tocam a sexualidade e a religião, tal liberalismo funcionaria calmamente, sensivelmente e com um senso apropriado de escala. (Parafraseando Bernie Sanders, a América está cansada de ouvir sobre os malditos banheiros dos liberais.)

Os professores comprometidos com tal liberalismo reorientariam a atenção para sua principal responsabilidade política em uma democracia: formar cidadãos comprometidos e conscientes acerca de seu sistema de governo e das principais forças e eventos em nossa história. Um liberalismo pós-identitário também enfatizaria que a democracia não é apenas sobre direitos; confere também deveres aos seus cidadãos, tais como deveres de manter-se informado e votar. Uma imprensa liberal pós-identitária começaria a educar-se sobre partes do país que foram ignoradas, e sobre o que importa lá, especialmente a religião. E levaria a sério a responsabilidade de educar os americanos sobre as principais forças que moldam a política mundial, especialmente sua dimensão histórica.

Alguns anos atrás, fui convidado para uma convenção sindical na Flórida para falar em um painel sobre o famoso discurso das quatro liberdades de Franklin D. Roosevelt de 1941. A sala estava cheia de representantes locais – homens, mulheres, negros, brancos e latinos. Começamos cantando o hino nacional, e depois sentamos para ouvir uma gravação do discurso de Roosevelt. Quando olhei para a multidão e vi a variedade de diferentes rostos, fiquei impressionado com o quão concentrados estavam no que eles compartilhavam. E ouvindo a voz agitada de Roosevelt enquanto invocava a liberdade de expressão, a liberdade de culto, a liberdade da vontade e a liberdade do medo – as liberdades que Roosevelt exigia para “todos no mundo” – lembrou-me do que são os verdeiros fundamentos do liberalismo moderno.

12 de novembro de 2016

Como Trump venceu

The Democratic Party's abandonment of the working class cleared the space for Trump.

Jedediah Purdy

Jacobin

A Trump rally in Newton, PA on October 21, 2016. Michael Candelori / Flickr

Tradução / Numa eleição tão próxima – que, note-se, foi de fato uma vitória para os Democratas num sistema de voto popular honesto e não no anacrônico e indefensável Colégio Eleitoral – muitas coisas fizeram a diferença. A supressão dos eleitores em Wisconsin poderia ter sido suficiente. A letra da décima primeira hora do diretor James Comey do FBI quase certamente era.

Mas algo grande parece ter acontecido, se as pesquisas imediatas forem confiáveis (ou seja, não se pode dizer muitas vezes, um grande “se”): os partidos trocaram um pedaço de suas circunscrições de classe.

Mais pobres e gente de classe média baixa votaram republicanos nesta eleição do que na anterior. Mais pessoas de classe média alta e rica votaram nos democratas. E os eleitores sindicais abandonaram os democratas dramaticamente.

As pesquisas feitas logo em seguida aos resultados são frequentemente pouco fiáveis, e temos de ser cautelosos ao utilizá-las. Mas também não são inúteis. Comparando os dados da pesquisa da CNN 2016 com os dados do Roper Center de 2012, vemos algumas mudanças muito importantes.

Obama ganhou apenas entre eleitores com renda familiar abaixo de US$ 50.000, mas ele fez de forma esmagadora, 60-38, e perdeu todos os grupos de renda mais alta – um guerreiro de classe afinal de contas! Clinton ganhou esses eleitores de baixa renda por apenas 52-41. Então, sim, ela ganhou, mas com um declínio de onze pontos na vantagem dos Democratas.

Para eleitores com renda familiar entre $50.000 e $100.000, os números mudam muito pouco: 46-50 para Obama, 46-52 para Clinton. Mas ultrapasse os $100.000, e as coisas voltam a ficar interessantes. Romney ganhou esses eleitores abastados com facilidade, 54-44, como os republicanos geralmente fazem. Trump mal se aguentou por volta de 48-47. Isso é um ganho de nove pontos para os democratas.

Clinton era muito mais fraco do que Obama com os eleitores dos agregados familiares sindicais: ele ganhou-os 58-40, ela apenas 51-43. É uma perda de dez pontos.

Nenhum dos outros grandes números demográficos é tão dramático. Alguns são questionáveis – resultados mostrando que Trump se sai melhor entre os latinos do que Romney, por exemplo, são difíceis de igualar com o desempenho de Clinton superando Obama em condados com populações latinas pesadas. E uma pesquisa de saída em espanhol mostra um apoio latino mais forte a Clinton do que os números da CNN.

Mas o número interessante é a constatação de que Trump fez mais ou menos o mesmo que Romney entre os eleitores brancos: 58-37 para Trump versus 59-39 para Romney. Trump não atraiu mais deles do que Romney, mas com base nos resultados da renda, ele parece ter atraído outros diferentes – especificamente os eleitores que os democratas confiaram no passado.

E quanto ao sexo? De acordo com as pesquisas iniciais, Romney bateu Obama 52-45 entre os homens, enquanto Trump bateu Clinton 53-41. Obama bateu Romney 55-44 entre as mulheres, e Clinton conseguiu 54-42 entre eles – mais ou menos o mesmo que Obama. Clinton parece ter perdido alguns eleitores não republicanos do sexo masculino para o candidato libertário Gary Johnson, mas pouco mais mudou.

Então é verdade que os brancos e os homens, especialmente os brancos, elegeram Trump. Mas eles não o apoiaram em números significativamente maiores do que Romney. Isso não foi o distintivo na vitória de Trump.

O que significa isto tudo? Os números são compatíveis com pelo menos três explicações, cada uma com alguma plausibilidade e apoio anedótico e com valências muito diferentes.

1. Raça, mas isto é complicado

Este cenário gira em uma resposta de diferenciação à política de identidade racial e nacionalista de Trump. É embaraçoso na melhor das hipóteses firmar que os eleitores que apoiaram Trump depois de apoiar Obama foram motivados por puro racismo.

Mas a campanha de Trump salientou raça em uma maneira distinta, que nem Romney nem McCain jamais fizeram, e pode ter soado uma campainha da política branca da identidade que simplesmente ninguém tinha tocado antes dele. É possível que ambos tenham afastado eleitores mais ricos e atraído brancos mais pobres.

2. Economia

O cenário é de que os eleitores de baixa renda e os eleitores sindicais desenvolvam um sentimento de abandono econômico pós-2008 por parte dos Democratas, com base na forma como o partido tem governado nos últimos anos, incluindo tanto os acordos comerciais como a Parceria Trans-Pacífico e o NAFTA quanto uma indústria financeira que ele abraça fortemente.

Isso foi ativado pelo populismo econômico desonesto mas eficaz de Trump, pelo destaque dado às relações de Clinton com Wall Street e pelos acordos comerciais das administrações Obama-Clinton. Assim como a raça, Trump tornou essas questões salientes de maneiras que ninguém fez em 2008 ou 2012.

3. Credibilidade e mídia

Esta é menos sobre a disjuntiva classe ou raça e mais sobre um sentido mais pessoal e contingente da respectiva credibilidade dos candidatos. Os números de Clinton desceram muito depois da carta do diretor do FBI, James Comey, anunciando a classificação de novos e-mails conectados com seu servidor privado. Talvez isto importou muito mais aos eleitores que migraram para Trump.

Para as pessoas nos ecossistemas de informação direitistas Fox/Breitbart, Trump às vezes exagera, mas Clinton é uma mentirosa e vigarista. Um pedaço desses eleitores são trabalhadores que, há cinquenta anos, poderiam ter obtido suas informações políticas básicas de um sindicato, e agora estão obtendo-as de uma extrema-direita conspiratória que os convenceu de que tinham o dever cívico de votar contra a mentirosa corrupta.

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Estes cenários não são mutuamente exclusivos. A coisa é entender como eles podem se relacionar. Um foco nos números econômicos não implica um argumento bruto de “classe > raça”. Nenhuma pessoa séria poderia fingir que o apelo de Trump era racialmente inocente. Depois da campanha que fez, um voto para ele tinha um significado racista objetivo de uma forma que era diferente de um voto de Romney em 2012.

Além disso, a inocência racial é impossível na política americana, exceto como uma perniciosa ilusão. Neste país, classe e raça sempre foram inseparáveis, em várias combinações que quase sempre ferem pessoas não-brancas e geralmente ferem pessoas brancas da classe trabalhadora também.

Aqui está uma história. Trump atraiu os eleitores brancos da classe operária que tinham apoiadoObama. Ele o fez no estilo clássico do nacionalista de direita do século XXI, que ele compartilha com a Frente Nacional da França e outros movimentos nacionalistas da Europa Ocidental: oferecendo uma mistura de política de identidade branca e populismo econômico a pessoas que sentem que o partido tradicional de centro-esquerda não lhes oferece nada.

Aqui está Richard Rorty, um filósofo e social-democrata, escrevendo em 1998 com uma estranha presciência:


Membros de sindicatos, e trabalhadores não qualificados e desorganizados, mais cedo ou mais tarde perceberão que seu governo não está sequer tentando evitar que os salários afundem ou que os empregos sejam exportados. Ao mesmo tempo, eles vão perceber que os trabalhadores suburbanos de colarinho branco – eles mesmos desesperadamente com medo de serem reduzidos – não vão se deixar tributar para fornecer benefícios sociais para ninguém mais. Nesse ponto, algo romperá.

O eleitorado não-suburbano vai decidir que o sistema falhou e começar a procurar por um homem forte para votar – alguém disposto a garantir-lhes que, uma vez que ele é eleito, os burocratas presunçosos, advogados trapaceiros, vendedores de títulos pagos em excesso, e professores pós-modernistas já não estará dando as ordens . . . . Uma coisa que é muito provável que aconteça é que os ganhos obtidos nos últimos quarenta anos pelos americanos negros e pardos, e pelos homossexuais, sejam eliminados. O desprezo jocoso pelas mulheres vai voltar à moda. . . . Todo o ressentimento que os americanos mal educados sentem sobre ter suas maneiras ditadas a eles por graduados universitários vai encontrar uma saída.

Donald Trump conseguiu isso com a ajuda da mídia de direita com dinheiro, da supressão de eleitores e da complacência dos democratas em obter a votação no Alto Centro-Oeste, onde o comparecimento geral foi baixo, principalmente entre os democratas. Mas a mudança radical estava transformando um eleitorado legado do centro-esquerda em uma nova base para a direita nacionalista.

Por outras palavras, bem-vindos à Europa de Marine Le Pen e ao UKIP.

Se estamos na nossa própria Europa Americana, os Democratas devem observar que os partidos de centro-esquerda que permaneceram mais ou menos neoliberais se fraturaram. Os trabalhistas estão com problemas eleitorais profundos no Reino Unido. Os socialistas franceses esperam ficar em terceiro depois do centro-direita e os nacionalistas no primeiro turno da próxima eleição presidencial. A energia da esquerda está no novo radicalismo jovem e multirracial dos movimentos ao estilo Corbyn, embora ainda não tenham sido testados nacionalmente.

Ironicamente, embora os Estados Unidos cheguem a esta situação um pouco mais tarde do que a Europa, a nossa resposta de esquerda pode estar à frente da sua. O movimento Sanders – que é jovem, diverso nos seus jovens apoiantes (se menos nas suas gerações mais velhas), e também apelou a alguns dos círculos eleitorais primários que abandonaram Clinton em geral – parece ser a melhor fórmula para combater os novos nacionalismos. Estendê-lo, aprofundá-lo e mobilizá-lo com aliados como Black Lives Matter e Fight for 15 (e tantos outros), é o que precisamos agora.

É perigoso e improdutivo fazer da classe trabalhadora branca um fetiche. Mas toda vez que vejo os números de Trump e penso em sua campanha, me lembro de caras com quem cresci em West Virginia, com quem trabalhei em equipes de construção ou apenas conhecia meu pai, que era carpinteiro.

Os que eu gostava eram anti-autoritários, igualitários e basicamente pessoas abertas. Eles desprezavam os membros da tripulação que eram fanáticos, que gostavam de policiais e que gostavam de chefes. Aqueles caras, eles sabiam, eram idiotas. Trump fez a derradeira campanha de idiotas. Se você conheceu pessoalmente uma política diferente da classe trabalhadora, isso é de partir o coração.

Novamente, nada de fetiches, especialmente nostálgicos e racialmente exclusivos. A campanha de Sanders e o novo movimento negro de liberdade e outros radicalismos que se conectam com ele têm suas bases mais fortes em outros lugares, e eles seriam o futuro da esquerda mesmo que os trabalhadores do Cinturão de Ferrugem não tivessem abandonado Clinton e lhe custado a eleição (que é o resultado mais plausível desses números).

Mas acontece que o resultado final desta eleição coincide com as razões do novo radicalismo: uma política de justiça econômica e de poder é o que precisamos. Fundamentalmente porque a social-democracia e o socialismo idealmente democrático estão certos, mas também porque, estrategicamente, o abandono desses compromissos abriu precisamente o espaço que a barbárie política de Trump veio ocupar. Temos de lutar por esse espaço, onde quer que ele exista, e por todos os que nele vivem.

Sobre o autor

Jedediah Purdy teaches at Duke and is the author, most recently, of After Nature: A Politics for the Anthropocene.

9 de novembro de 2016

A política é a solução

Não podemos nos mudar para o Canadá ou nos esconder debaixo da cama. Este é um momento para abraçar a política democrática, e não repudiá-la.

Megan Erickson, Katherine Hill, Matt Karp, Connor Kilpatrick e Bhaskar Sunkara

Jacobin

Foto de Pablo Martinez Monsivais

Tradução / Não temos ilusões sobre o impacto da vitória de Donald Trump. É um desastre. A possibilidade de um governo da direita unida, dirigida por um populista autoritário, representa uma catástrofe para a classe trabalhadora.

Existem duas formas de reagir a esta situação. Uma é culpar o povo dos Estados Unidos. A outra é culpar a elite do país.

Nos próximos dias e semanas, muitos comentaristas optarão pela primeira. Liberais aterrorizados já redigiram manuais sobre como mudar-se para o Canadá; o site da imigração canadense caiu esses dias depois de um aumento repentino no tráfego. As pessoas que nos trouxeram a este precipício estão agora planejando a fuga.

Culpar o público americano pela vitória de Trump apenas aprofunda o elitismo que reuniu seus eleitores. Não resta dúvidas que o racismo e o sexismo cumpriram um papel crucial na emergência de Trump. E é assustador notar as formas com que sua vitória servirão para fortalecer as forças mais atrasadas e intolerantes da sociedade americana.

Apesar disso, a resposta à Trump que começa e termina com o sentimento de horror não é uma resposta política – é uma forma de paralisia, uma política de esconder-se em baixo da cama. E uma resposta para a intolerância entre os americanos que comece e termine com uma denúncia moral não é, de maneira nenhuma, política. É o oposto da política. É rendição.

Acreditar que o apelo de Trump foi inteiramente baseado no nacionalismo étnico é acreditar que quase a maioria dos americanos se orientam apenas pelo ódio e pelo desejo comum de um programa político de supremacia branca. Nós não acreditamos nisso e os fatos não sustentam essa ideia.

Esta eleição, nas palavras do analista do New York Times, Nate Cohn, foi decidida pelos que votaram em Barack Obama em 2012. Não podem ser todos fanáticos.

Hillary Clinton conquistou apenas 65% do eleitores latinos, comparados aos 71% de Obama há quatro anos atrás. Ela foi derrotada assim em um contexto de um opositor que prometia construir um muro em toda a fronteira Sul dos Estados Unidos; um candidato que começou sua campanha chamando os mexicanos de estupradores.

A candidata do Partido Democrata conquistou 34% dos votos entre mulheres brancas de baixa escolaridade e apenas 54% entre as mulheres em geral, comparados a 55% de Obama em 2012. Clinton estava competindo com um candidato que aparece em vídeo se gabando de ter agarrado mulheres “pela buceta”.

Esta foi uma eleição feita para Hillary Clinton perder. E ela perdeu. Muito da responsabilidade deve cair sobre as costas da candidata, mas ela apenas incorporou o consenso desta geração de líderes do Partido Democrata. Sob o presidente Obama, os democratas perderam quase mil cadeiras em legislaturas estatais, uma dúzia de eleições de governadores, quase 70 assentos na Câmara e treze no Senado. A derrota desta semana não veio do nada.

O problema da candidatura de Clinton não foi sua peculiaridade, mas seu caráter típico. Foi característico deste Partido Democrata que os power players em Washington tenham decidido a indicação da candidatura – com apoios excepcionais – muitos meses antes da realização de qualquer pesquisa de intenção de voto.

Eles tomaram uma decisão grave para todos nós ao trapacearem contra o tipo de política que poderia ter vencido: uma política de classe trabalhadora.

Mais de 70% dos americanos que votaram essa semana acreditavam que “a economia é orientada para a vantagem dos ricos e poderosos”; 68% concordaram que “os partidos tradicionais e políticos não ligam para pessoas como eu”.

Praticamente sozinho entre os políticos democratas, Bernie Sander falou para este sentimento latente de alienação e para o ressentimento de classe. Sander possuía uma mensagem básica para o povo dos Estados Unidos: vocês merecem mais e vocês estão certos em acreditar nisso. Saúde, educação, um salario mínimo. Foi uma mensagem que o tornou – com larga margem – o político mais popular do país.

A plataforma formal de Hillary Clinton abordou algumas das ideias concretas de Sanders, mas repudiou sua mensagem de fundo. Para os poderosos no Partido Democrata, não fazia sentido fazer campanha contra os Estados Unidos, o país nunca tinha parado de ser ótimo. E as coisas só haviam melhorado.

Os líderes do partido pediram aos eleitores para deixar a política “com eles”. Eles achavam que tinham tudo sob controle. Eles estavam errados e agora todos nós precisamos lidar com as consequências. E vamos.

Esta é uma nova época que exige um novo tipo de política. Uma que fale para as necessidades urgentes e esperanças populares, e não para seus medos. O liberalismo elitista, fica evidente, não pode derrotar o populismo de direita. Não podemos nos mudar para o Canadá ou nos esconder em baixo da cama. Esta é um momento para abraçar a política democrática, não repudiá-la.

8 de novembro de 2016

Um projeto para um novo partido

Com a ascensão de Donald Trump, precisamos pensar seriamente sobre o que seria necessário para formar uma organização democrática enraizada na classe trabalhadora.

Seth Ackerman

Jacobin

Ilustração de Harry Haysom.

Quando Bernie Sanders anunciou que concorreria à presidência como um "socialista democrático", poucos acreditaram que isso daria muito resultado. Então, contra todas as expectativas, Sanders atraiu multidões enormes, comandou altos níveis de favorabilidade em quase todas as categorias demográficas (incluindo apoio esmagador entre os jovens) e levantou centenas de milhões em dólares de campanha de pequenos doadores.

Não menos importante, ele chegou a poucos pontos percentuais de derrotar Hillary Clinton, uma favorita que já foi considerada inatacável.

Empreendida por um candidato que nunca havia concorrido como democrata antes e se recusou a fazê-lo no futuro, a campanha de Sanders reavivou a esperança de que uma política eleitoral séria à esquerda do Partido Democrata possa ser possível.

A questão é o que tal política significaria na prática.

A questão não é nova, e até agora o debate se desenrolou em linhas familiares. Defensores da política de terceiros que apoiaram Sanders nas primárias, como a vereadora de Seattle Kshama Sawant, passaram a apoiar a candidatura de Jill Stein pelo Partido Verde. Enquanto isso, oponentes de longa data da rota de terceiros, como o colunista socialista democrata Harold Myerson, argumentaram que a esquerda deveria se concentrar em tentar mudar o Partido Democrata de dentro.

Outros pediram uma abordagem diferente, não ficando nem totalmente dentro nem totalmente fora do Partido Democrata. Mas poucas propostas concretas foram discutidas até agora.

Este momento político oferece uma chance de preencher algumas dessas lacunas — de promover novas estratégias eleitorais para um partido de esquerda independente enraizado na classe trabalhadora.

Mas não iremos longe a menos que enfrentemos seriamente o caráter excepcional do sistema partidário americano e as leis altamente repressivas que o sustentam.

Lições do Partido Trabalhista

O último grande esforço para formar um veículo nacional para a política da classe trabalhadora foi o Partido Trabalhista (LP), fundado há vinte anos. Sob a liderança de Tony Mazzocchi, presidente do sindicato Oil, Chemical and Atomic Workers, os organizadores do partido reuniram apoio de outros grandes sindicatos e sindicalistas de base e realizaram sua convenção de fundação em 1996.

A história do Partido Trabalhista não é bem conhecida no mundo progressista mais amplo. Mas como o mais recente grande esforço do trabalho organizado para formar um partido independente, é uma história que deve interessar a qualquer um que espera ver um renascimento da política de esquerda, porque na esquerda apenas os sindicatos têm a escala, experiência, recursos e conexões com milhões de trabalhadores necessários para montar um projeto eleitoral permanente e nacional.

Por todos os relatos, foi um esforço inspirador que pareceu, por um momento, prenunciar um renascimento para a esquerda trabalhista. Mas o partido perdeu força apenas alguns anos após sua fundação. Em 2007, ele efetivamente deixou de existir.

Em uma história do partido baseada em entrevistas com os principais participantes, a ativista do LP Jenny Brown citou dois fatores-chave como sendo os mais importantes para explicar seu declínio. O primeiro foi o enfraquecimento do próprio movimento trabalhista após 2000, especialmente os sindicatos industriais que formaram seu núcleo original.

Mas a segunda razão, mais imediata, foi essencialmente política: o partido não conseguiu atrair apoio suficiente dos principais sindicatos nacionais. Isso não foi devido a qualquer grande afeição pelo Partido Democrata por parte da liderança trabalhista da época, ou porque eles se opuseram à ideia de um partido trabalhista por princípio. Como Mazzocchi disse em 1998: "Nunca encontrei uma pessoa na liderança trabalhista de topo dizendo que se opõe a um partido trabalhista."

Em vez disso, o problema surgiu do dilema mais antigo do sistema bipartidário dos Estados Unidos: concorrer com os democratas arriscava eleger republicanos antitrabalhistas. Para sindicatos cujos membros tinham muito a perder, esse risco era considerado alto demais.

Apesar da dedicação de seus organizadores, o Partido Trabalhista não teve sucesso. Mas seus fundadores estavam certos em acreditar que um partido genuinamente independente, em vez de uma mera facção informal dos democratas, é indispensável para o sucesso da política da classe trabalhadora.

Hoje podemos aprender algumas lições com o esforço deles. Um verdadeiro partido da classe trabalhadora deve ser democrático e controlado pelos membros. Deve ser independente — determinando sua própria plataforma e educando em torno dela. Deve realmente disputar eleições. E seus candidatos a cargos públicos devem ser membros do partido, responsáveis ​​perante os membros e comprometidos a respeitar a plataforma.

Cada uma dessas características desempenha um papel crucial na mobilização dos trabalhadores para mudar a sociedade. A plataforma apresenta uma imagem concreta de como uma sociedade melhor poderia ser. Os candidatos, ao disputar eleições visivelmente e ganhar votos sob a bandeira da plataforma, geram um senso de esperança e impulso de que essa sociedade melhor pode ser alcançada na prática. E como os membros controlam o partido, os trabalhadores podem ter confiança de que o partido está genuinamente agindo em seu nome.

Mas observe o que está faltando nesta lista: não há menção a uma linha de votação separada.

O Partido Trabalhista sempre presumiu que um partido trabalhista genuinamente independente deve ter uma linha de votação separada. Essa suposição foi um erro.

A suposição deu origem a um dilema intratável: se o partido adotasse uma linha separada e concorresse com candidatos contra os democratas em exercício, destruiria relacionamentos com os detentores de cargos democratas que poderiam simpatizar com os sindicatos e, assim, perder o apoio dos sindicatos que dependiam desses detentores de cargos.

Por outro lado, se não concorresse com candidatos — que é, em última análise, o caminho que escolheu — surgiria a pergunta incômoda: qual é o sentido de ter esse chamado "partido" em primeiro lugar? Essa pergunta acabou estimulando debates internos intermináveis ​​sobre se e quando concorrer com candidatos. E, no final, ao não disputar as eleições, o partido falhou em dar aos trabalhadores um motivo para prestar atenção à organização em primeiro lugar.

O dilema se destaca claramente nas lembranças dos veteranos do Partido Trabalhista. “O Partido Trabalhista teve que começar com a garantia de que não faria política de sabotagem e que se concentraria [primeiro] em construir a massa crítica necessária para uma intervenção eleitoral séria”, lembrou o ex-organizador nacional do LP Mark Dudzic em uma entrevista recente. No entanto, como Les Leopold do Labor Institute disse a Brown, esse caminho acabou levando à irrelevância: “Não é fácil para os americanos entenderem um partido que não é eleitoral. Acho que isso foi simplesmente uma venda difícil.”

“Em retrospecto”, concluiu Dudzic, “acho que foi prematuro nos unirmos em uma formação partidária sem entender como nos relacionaríamos com as eleições”.

“Somente nos EUA”

Os organizadores do Partido Trabalhista não foram os primeiros a se preocupar em atuar como "estorvos" eleitorais — as discussões sobre a política de terceiros partidos giram em torno desse problema há décadas. No entanto, a história mostra que, ao contrário do que se acredita, o problema de dividir votos (o efeito "spoiler") não é insuperável. De fato, sindicalistas de outros países que organizaram partidos trabalhistas bem-sucedidos nos séculos XIX e XX enfrentaram o mesmo dilema: a perspectiva de dividir os votos e causar a derrota de partidos tradicionais mais simpáticos à causa trabalhista (geralmente partidos liberais).

Mas esses ativistas e seus aliados persistiram e, à medida que os partidos trabalhistas ganhavam força, a questão de dividir votos passou a ser, gradualmente, uma ameaça aos partidos tradicionais. Nesse momento, visando à própria sobrevivência, os partidos liberais buscaram acomodar os novos concorrentes, seja firmando pactos eleitorais defensivos (nos quais os dois partidos concordavam em não lançar candidatos um contra o outro em distritos específicos), seja promovendo a adoção de sistemas de representação proporcional. Isso garantiu aos partidos trabalhistas uma posição inicial no sistema político.

Contudo, a situação nos Estados Unidos é diferente. Além das nossas regras eleitorais de "o vencedor leva tudo" (winner-take-all), temos também um sistema jurídico único — e singularmente repressivo — que regula os partidos políticos e a dinâmica das eleições. Esse sistema não tem relação com a Constituição ou com os Pais Fundadores. Ele foi estabelecido, na verdade, pelos líderes dos grandes partidos, estado por estado, ao longo de um período que vai aproximadamente de 1890 a 1920.

Antes disso, prevalecia o antigo modelo da era de Jackson: não havia voto secreto nem cédulas impressas oficialmente. Os eleitores levavam suas próprias listas de candidatos aos locais de votação e as depositavam na urna sob o olhar atento de cabos eleitorais e observadores.

Paralelamente, os partidos — que na época eram agremiações totalmente privadas e não regulamentadas, movidas pelo clientelismo — escolhiam seus candidatos por meio do sistema de "caucus e convenções": uma estrutura piramidal de convenções partidárias em nível de condado, estadual e nacional, na qual os participantes das reuniões de base escolhiam delegados para comparecer às reuniões de níveis superiores.

Na base da pirâmide estavam os caucuses locais (em nível de seção eleitoral): reuniões informais e pouco divulgadas, onde as decisões sobre quais delegados seriam enviados à convenção do condado eram definidas por meio de negociações privadas entre algumas figuras locais influentes, interessadas na manutenção de esquemas clientelistas. Nas décadas de 1880 e 1890, esse sistema confortável foi abalado por uma nova espécie de "candidatos incansáveis", que faziam campanha ativa pelos cargos em vez de buscar discretamente o apoio de alguns poucos operadores-chave do partido. Quando as reuniões políticas locais informais passaram a ser palco de disputas abertas entre facções rivais — cada uma em busca de cargos públicos lucrativos —, a situação degenerava em caos e, frequentemente, em violência.

Pior ainda: candidatos que não obtinham a indicação do partido tentavam vencer a eleição mesmo assim, utilizando seus próprios agentes para distribuir cédulas eleitorais alteradas no dia do pleito, inserindo seus nomes de forma discreta na chapa oficial do partido.

Os líderes partidários estavam perdendo o controle sobre os meios tradicionais de manter um exército político disciplinado. A resposta deles foi uma série de reformas legislativas em nível estadual que transformaram permanentemente o sistema político americano, criando a maquinaria eleitoral que temos hoje.

Repressão

A partir de então, os governos estaduais passariam a administrar as eleições primárias partidárias, imprimir as cédulas oficiais tanto para as primárias quanto para as eleições gerais e exigir que a votação fosse realizada em sigilo.

Na narrativa da política americana, essas leis de primárias diretas e de "voto australiano" (isto é, leis que exigiam cédulas impressas pelo governo e preenchidas em cabines privativas) foram obra de reformadores progressistas idealistas que buscavam destituir os chefes partidários e consagrar a soberania popular. Na realidade, elas foram adotadas pelos próprios líderes partidários quando tais medidas se mostraram vantajosas para seus interesses.

Naturalmente, não há nada de questionável no uso de cédulas impressas pelo governo e preenchidas em sigilo. Países de todo o mundo estavam adotando reformas de boa governança semelhantes naquela mesma época. No entanto, uma vez que a tarefa de imprimir as cédulas foi transferida para os governos, tornou-se necessário estabelecer um mecanismo para determinar quem era "oficialmente" candidato e sob qual legenda partidária.

Foi nesse ponto que o sistema americano começou a divergir drasticamente das normas democráticas vigentes em outras partes do mundo.

Quando a Austrália adotou, na década de 1850, o primeiro sistema mundial de voto secreto com cédulas impressas pelo governo, a lei exigia que um aspirante a candidato ao parlamento apresentasse apenas duas assinaturas de apoio para ter seu nome incluído na cédula. Quando a Grã-Bretanha adotou a reforma em 1872, a exigência era de dez assinaturas de apoio. Contudo, quando Massachusetts — o primeiro estado americano a aprovar uma lei de voto australiano, em 1888 — implementou a medida, exigiu mil assinaturas para cargos de âmbito estadual e, para disputas distritais, um número de assinaturas equivalente a pelo menos 1% do total de votos computados na eleição anterior.

Ainda assim, essas barreiras eram brandas se comparadas ao que viria depois. Nas três décadas seguintes à entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial — período em que partidos socialistas e da classe trabalhadora ganhavam força em todo o mundo industrializado —, as elites americanas optaram por enfrentar a questão restringindo radicalmente o acesso às cédulas eleitorais. Estado após estado, as exigências de coleta de assinaturas e os prazos para registro de candidaturas foram endurecidos, e diversas formas de assédio jurídico rotineiro — desconhecidas no restante do mundo democrático — tornaram-se a norma.

As novas restrições surgiram em ondas, geralmente logo após a entrada de partidos de esquerda no processo eleitoral. Segundo dados compilados por Richard Winger, do Ballot Access News, em 1931, o estado de Illinois elevou de mil para vinte e cinco mil o número de assinaturas exigidas para candidatos de terceiros partidos a cargos estaduais. Na Califórnia, a exigência foi elevada de 1% do total de votos da última eleição para governador para 10%. Em 1939, a Pensilvânia decidiu repentinamente que era importante que os milhares de assinaturas exigidos fossem coletados em um período de apenas três semanas. Em Nova York, segundo um relato, “as petições de partidos menores começaram a ser contestadas com base em falhas excessivamente técnicas”.

“Embora essas normas tenham sido criticadas de todos os lados”, relatou um artigo da Columbia Law Review de 1937, “seu rigor é constantemente aumentado, provavelmente porque os interesses prejudicados raramente têm representação nas legislaturas”. De fato, quando a legislatura da Flórida constatou o avanço de socialistas e comunistas nas urnas, reagiu em 1931 proibindo a inclusão de qualquer partido na cédula eleitoral, a menos que tivesse obtido 30% dos votos em duas eleições consecutivas; naturalmente, quando o Partido Republicano não conseguiu cumprir essa exigência, o estado imediatamente reduziu o patamar necessário.

Em comparação, na Grã-Bretanha, conseguir registrar a candidatura nunca foi uma grande preocupação para o recém-fundado Partido Trabalhista; a única exigência significativa era um depósito de 150 libras (instituído pela primeira vez em 1918), a ser reembolsado caso o candidato obtivesse pelo menos 12,5% dos votos. Em sua primeira participação em eleições gerais, no ano de 1900, o partido obteve apenas 1,8% dos votos em nível nacional. Apesar do problema — supostamente fatal — de dividir os votos da oposição (o chamado efeito spoiler), o partido aumentou gradualmente sua parcela de votos até superar os Liberais e se tornar a principal força de esquerda em 1922.

Hoje, em quase todas as democracias consolidadas, a inclusão na cédula eleitoral é, no máximo, uma preocupação secundária para partidos pequenos ou novos; em muitos países, o processo não exige muito mais do que o preenchimento de alguns formulários. No Canadá, qualquer partido com 250 membros registrados pode concorrer em todos os 338 distritos da Câmara dos Comuns em âmbito nacional, sendo que cada candidato precisa apresentar cem assinaturas de eleitores. No Reino Unido, um candidato ao parlamento precisa apresentar dez assinaturas, além de um depósito de 500 libras, reembolsável se o candidato obtiver pelo menos 5% dos votos. Na Austrália, um partido com quinhentos membros pode lançar candidatos em todos os distritos da Câmara dos Representantes, mediante um depósito de 770 dólares por candidato, reembolsável caso este obtenha pelo menos 4% dos votos.

Na Irlanda, na Finlândia, na Dinamarca e na Alemanha, as exigências de assinaturas para uma candidatura parlamentar variam de 30 a 250, chegando a um máximo de 500 nos maiores distritos da Áustria e da Bélgica. Na França e nos Países Baixos, exige-se apenas a apresentação de documentação.

O Conselho da Europa, órgão intergovernamental pan-europeu, mantém um "Código de Boas Práticas em Matéria Eleitoral", que lista práticas eleitorais contrárias às normas internacionais. Tais violações, muitas vezes, assemelham-se a um manual de procedimentos eleitorais dos EUA. Em 2006, o Conselho condenou a República da Bielorrússia por violar a disposição do código que proíbe exigências de assinaturas superiores a 1% dos eleitores de um distrito — um patamar considerado excessivamente alto pelo Conselho; em 2014, o estado de Illinois exigia mais do que o triplo desse número para candidaturas à Câmara. Em 2004, o conselho repreendeu o Azerbaijão por sua regra que proibia os eleitores de assinarem petições de indicação para candidatos de mais de um partido; a Califórnia e muitos outros estados fazem essencialmente a mesma coisa.

De fato, alguns procedimentos eleitorais dos EUA são desconhecidos fora de ditaduras: "Ao contrário de outras democracias estabelecidas, os EUA permitem um conjunto de normas de acesso à cédula eleitoral para os 'grandes' partidos estabelecidos e um conjunto diferente para todos os outros partidos."

É de conhecimento geral entre especialistas que o sistema eleitoral americano é repressivo de uma forma singular. "Em nenhum lugar a preocupação [com a repressão por parte do partido governante] é maior do que nos Estados Unidos, uma vez que a influência partidária é possível em todas as etapas da disputa eleitoral", conclui um estudo recente sobre direito eleitoral comparado.

"Talvez o caso mais claro de manipulação partidária ostensiva das regras sejam os Estados Unidos, onde Democratas e Republicanos aparecem automaticamente na cédula, mas terceiros partidos e candidatos independentes precisam superar um labirinto de exigências legais complexas e burocráticas", escreve Pippa Norris, autoridade mundial em eleições da Universidade de Harvard e diretora de governança democrática do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

"Um dos segredos mais bem guardados da política americana", escreveu o eminente cientista político Theodore Lowi, "é que o sistema bipartidário está em morte cerebral há muito tempo — mantido vivo por sistemas de suporte como leis eleitorais estaduais que protegem os partidos estabelecidos de rivais, bem como por subsídios federais e pela chamada reforma de financiamento de campanha. O sistema bipartidário entraria em colapso num instante se os aparelhos fossem desligados e os soros, desconectados."

A Regulamentação e suas Consequências

Essas considerações lançam uma luz peculiar sobre os debates habituais a respeito de terceiros partidos, particularmente na esquerda.

Tipicamente, os defensores da via dos terceiros partidos retratam sua estratégia como uma revolta contra um sistema bipartidário viciado; às vezes, chegam até a criticar os céticos, tachando-os de acomodados e tímidos. No entanto, no contexto da legislação americana, quando tais defensores falam em criar um "partido" independente, o que querem dizer — ironicamente — é que estão escolhendo submeter sua organização a um regime regulatório complexo, mantido e continuamente manipulado pelos próprios dois partidos dominantes.

Esse é um problema fundamental da estratégia dos terceiros partidos: a necessidade de manter continuamente o direito de figurar nas cédulas eleitorais — um processo oneroso na maioria dos estados — deixa a viabilidade do partido à mercê do Legislativo.

Um caso exemplar ocorreu no ano passado no Arizona, onde o Legislativo controlado pelos republicanos, preocupado com a força do Partido Libertário, aprovou uma lei que, na prática, elevou de 134 para 3.023 o número de assinaturas necessárias para que um candidato libertário aparecesse na cédula das eleições primárias de seu partido. (Isso se soma aos obstáculos burocráticos que o próprio partido precisa superar apenas para garantir seu registro oficial nas cédulas eleitorais.)

O deputado republicano J. D. Mesnard, autor do projeto de lei, explicou sua lógica no plenário da Câmara estadual: "Acredito que, se analisarmos a última eleição, houve pelo menos uma — provavelmente duas — cadeiras no Congresso que poderiam ter tido um desfecho diferente, um desfecho que eu gostaria de ter visto, caso essa exigência estivesse em vigor."

Outro aspecto singular da legislação partidária americana levanta questões semelhantes: em seus assuntos internos, os partidos habilitados a figurar nas cédulas nos Estados Unidos estão entre "os partidos mais extensamente regulamentados do mundo".

Normalmente, as democracias consideram os partidos políticos como associações voluntárias que gozam dos direitos habituais de liberdade de associação. Contudo, as leis estaduais dos EUA determinam não apenas o processo de indicação de candidatos de um partido habilitado, mas também sua estrutura de liderança, o processo de escolha dessa liderança e muitas de suas regras internas (embora seja verdade que essas exigências sejam frequentemente dispensadas para terceiros partidos considerados marginais demais para despertar preocupação). Em outras palavras, quando ativistas de terceiros partidos buscam o registro oficial para concorrer às eleições, muitas vezes estão entregando um controle abrangente sobre seus próprios assuntos internos a um Legislativo hostil, dominado pelo sistema bipartidário. Essa é uma maneira peculiar de tentar derrubar o bipartidarismo.

No entanto, as consequências perversas do sistema tornam-se mais visíveis justamente quando esses terceiros partidos conseguem, de fato, garantir sua presença nas cédulas eleitorais.

Frequentemente, esses partidos são forçados a dedicar a maior parte de seus recursos não a conscientizar eleitores ou a fazer campanha de porta em porta no dia da eleição, mas sim a organizar abaixo-assinados e a travar batalhas judiciais para obter o direito de concorrer. O constante assédio jurídico, por sua vez, acaba exercendo um efeito sutil, porém poderoso, sobre o perfil das pessoas atraídas pela política independente. Por meio de um processo de seleção natural, tais obstáculos tendem a afastar políticos e organizadores locais sérios e experientes, atraindo desproporcionalmente ativistas com uma mentalidade específica: aqueles que desprezam a política prática ou resultados concretos e que estão menos interessados ​​em organizar o partido — ou mesmo em vencer eleições — do que em denunciar a injustiça do sistema bipartidário por meio do ritual simbólico de incluir o nome de um terceiro partido na cédula eleitoral.

Os partidos tradicionais veem com bons olhos ter essas pessoas como oposição e até se satisfazem em oferecer-lhes esse canal seguro para extravasar seu descontentamento. E se, inesperadamente, um terceiro partido começasse a ganhar força, os detentores do poder poderiam sempre barrar esse avanço, simplesmente alterando a legislação.

O Partido Trabalhista — sabiamente, na minha opinião — adotou a estratégia de não buscar o registro oficial nas cédulas eleitorais até que tivesse acumulado força suficiente para representar um desafio crível aos Democratas. No entanto, confrontado com os dilemas de um sistema eleitoral repressivo, somados ao problema mais conhecido de atuar como um terceiro partido que acaba dividindo votos (o chamado efeito spoiler), o partido jamais chegou a esse ponto. Por fim, a legenda buscou e obteve registro eleitoral apenas uma vez, na Carolina do Sul (estado onde as leis eleitorais eram relativamente flexíveis), em uma tentativa desesperada já no final de sua trajetória ativa. Mas, àquela altura, já era tarde demais e, no fim das contas, o partido optou por não realizar uma campanha eleitoral séria no estado.

Uma lição dessa história é clara: precisamos parar de encarar nossa tarefa como se os problemas que enfrentamos fossem semelhantes aos enfrentados pelos organizadores, digamos, do Partido Trabalhista britânico em 1900 ou do Novo Partido Democrático do Canadá em 1961. Em vez disso, precisamos compreender que nossa situação se assemelha mais àquela enfrentada por partidos de oposição em sistemas de autoritarismo brando, como os da Rússia ou de Cingapura. Em vez de mais um ataque frontal suicida, precisamos organizar o equivalente eleitoral de uma insurgência de guerrilha. Em suma, precisamos pensar na estratégia eleitoral de forma mais criativa.

Chato por dentro?

Isso significa optar pela estratégia defendida pela maioria dos críticos progressistas da via de terceiros partidos — a saber, "atuar dentro do Partido Democrata"?

Não. Ou, pelo menos, não da maneira como essa expressão é geralmente entendida.

É verdade que vários esquerdistas — ou, no mínimo, progressistas — sinceros e engajados concorrem a cargos pela legenda democrata em todos os níveis da política americana. Às vezes, eles até vencem. E, mantidas as demais condições constantes, é melhor termos esses políticos no poder do que não tê-los. Portanto, nesse sentido restrito, a resposta pode ser "sim".

No entanto, eleger progressistas individualmente pouco contribui para mudar a dinâmica geral da política ou do capitalismo americanos. Na verdade, isso pode criar uma espécie de efeito placebo: mantém-se a ilusão de avanço, ao mesmo tempo em que se oculta o fato de que nenhum dos partidos foi estruturalmente concebido para refletir os interesses da classe trabalhadora.

"Atuar dentro do Partido Democrata" tem sido o modelo predominante de ação política progressista há décadas, mas sofre de uma limitação fundamental: transfere todo o poder de ação real para políticos profissionais. O candidato progressista torna-se a figura indispensável a quem todos os outros — inclusive os demais progressistas — devem responder.

Pense em Ted Kennedy ou Mario Cuomo nos anos 1980; Paul Wellstone ou Russ Feingold nos anos 1990; Howard Dean, Elizabeth Warren ou Bill de Blasio a partir de 2000. Cada um deles ganha destaque ao iniciar a carreira ou buscar cargos mais elevados. Cada um promete representar "a ala democrática do Partido Democrata". Cada um gera uma onda de cobertura positiva na mídia progressista e um certo entusiasmo em um círculo restrito de ativistas e eleitores progressistas.

Orbitando em torno desses candidatos ambiciosos estão as organizações progressistas de base, exemplificadas por grupos como MoveOn.org, Democracy for America ou Progressive Democrats of America. (Numa época anterior, marcada pelo uso de mala direta, havia a Common Cause, a People for the American Way ou até mesmo a Americans for Democratic Action.)

Administrados por equipes remuneradas, esses grupos monitoram o cenário político em busca de candidatos progressistas ou causas legislativas que valham a pena, alertando seus apoiadores por meio de comunicados que os incentivam a "apoiar" qualquer político progressista que precise de respaldo naquele momento. (Nesse contexto, "apoio" geralmente significa enviar dinheiro ou assinar uma petição por e-mail.) Tais grupos, em geral, não mantêm critérios formais para avaliar o mérito de um candidato. Mesmo que o fizessem, ao elaborar esses critérios, não prestariam contas a ninguém e não teriam poder para alterar os objetivos programáticos de tais candidatos.

Embora ainda seja cedo para afirmar, a organização Our Revolution, criada recentemente por Bernie Sanders, parece correr o risco de cair na mesma armadilha: tornar-se uma mera intermediária — ou agente — entre uma base progressista difusa e desorganizada e uma série de candidatos progressistas ambiciosos que buscam seu apoio.

Nesse modelo de política "sem partidos", é o político democrata quem busca recrutar uma base, e não o contrário. A plataforma e a mensagem do político são elaboradas exclusivamente por ele. Podem ser alteradas ao sabor de um capricho. E não existe mecanismo que permita responsabilizar o político perante a base progressista (bastante difusa) que ele recrutou para a sua causa.

A abordagem adotada pelo Working Families Party (WFP) é diferente, mas também permanece vulnerável aos problemas dessa política "sem partidos". O WFP construiu um histórico impressionante de conquistas políticas em sua base no estado de Nova York, utilizando o sistema de votação por "fusão" — uma estratégia eleitoral proibida pela maioria das leis estaduais. (A proibição da fusão é outro legado das reformas eleitorais que consolidaram o bipartidarismo na década de 1890.) No sistema de fusão, um partido menor inclui o nome do candidato de um partido grande em sua própria linha na cédula eleitoral, na esperança de que, se o candidato do partido grande vencer, ele se sinta em dívida com o partido menor pelos votos que este conseguiu "entregar".

No entanto, as contradições em torno do apoio dado pelo partido ao governador de Nova York, Andrew Cuomo, em 2014, demonstraram como a estratégia de fusão do WFP pode colocá-lo no pior dos dois mundos. Por um lado, o partido permanece atrelado aos interesses dos políticos do Partido Democrata, sendo forçado a apoiar candidatos que não são seus e que concorrem com plataformas muito distantes de suas prioridades, como se fosse uma mera facção do Partido Democrata. Por outro lado, ainda precisa se preocupar em manter sua linha na cédula eleitoral como terceiro partido, ficando exposto aos problemas de restrição de acesso às urnas que partidos terceiros mais marginais enfrentam.

Num nível mais profundo, o modelo "sem partidos" que domina a política progressista atual é um desdobramento da lamentável história americana de partidos "mobilizados internamente": isto é, partidos organizados por políticos já estabelecidos com o único objetivo de criar uma base de apoio de massa em torno de si mesmos. O Partido Democrata — criado na década de 1830 por uma rede de políticos poderosos no poder, liderada pelo senador de Nova York e articulador político Martin Van Buren — é o caso clássico. Isso contrasta com os partidos de "mobilização externa": aqueles organizados por pessoas comuns, situadas fora do sistema, que se unem em torno de uma causa e passam a recrutar seus próprios representantes para disputar eleições, com o objetivo de conquistar um poder que ainda não detêm.

Por razões fáceis de imaginar, os partidos históricos de esquerda — os verdadeiros partidos de esquerda — foram, quase sem exceção, mobilizados externamente. Como relata o historiador Geoff Eley em sua história da esquerda na Europa:

Os partidos de esquerda por vezes conseguiam vencer eleições e formar governos, mas, o que é mais importante, organizavam a sociedade civil, criando a base a partir da qual as conquistas democráticas existentes podiam ser defendidas e novas conquistas podiam florescer. Eles atraíam outras causas progressistas e interesses reformistas. Sem eles, a democracia sequer teria como começar.

Em contrapartida, nenhum partido mobilizado externamente jamais alcançou relevância eleitoral nacional nos Estados Unidos. “Os principais partidos políticos da história americana” — escreve Martin Shefter, o primeiro a apresentar essa taxonomia de mobilização partidária — “e a maioria dos partidos conservadores e centristas da Europa” foram fundados “por políticos que ocupavam cargos de liderança no regime vigente e que se empenharam em mobilizar e organizar uma base de apoio popular em torno de si mesmos”.

“A democracia moderna”, na formulação clássica de E. E. Schattschneider, “é inconcebível exceto em termos dos partidos”.

A democracia popular, de classe trabalhadora, por outro lado, é inconcebível sem partidos mobilizados a partir de fora do sistema político — isto é, por pessoas que se organizam em torno de objetivos comuns.

O que é um partido democrático?

Em um partido genuinamente democrático, a base de filiados, o programa e a liderança da organização estão estreitamente unidos por uma conexão poderosa e de reforço mútuo. Os membros do partido constituem sua autoridade soberana; eles se reúnem movidos por um senso de interesse ou princípio compartilhado. Por meio de deliberação, os membros estabelecem um programa para promover esses interesses. O partido educa o público sobre o programa, e este serve, na prática, como a bússola que guia a atuação partidária. Por fim, os membros escolhem a liderança do partido — incluindo os candidatos a cargos eletivos —, a qual deve prestar contas à base e está vinculada ao programa.

Pode parecer óbvio que essas sejam as características de um partido verdadeiramente democrático. No entanto, o Partido Democrata não possui nenhuma delas.

Comecemos pelo fato mais fundamental sobre o Partido Democrata: ele não tem membros. Há alguns meses, senti-me lisonjeado ao receber uma carta assinada por Debbie Wasserman Schultz, então presidente do Comitê Nacional Democrata (DNC), na qual ela me incentivava a considerar o envio de uma doação para, assim, "tornar-me um membro do DNC", nas palavras dela.

Será que ela estava propondo permitir que eu votasse no cronograma das primárias democratas ou no método de seleção dos delegados para a convenção — ou, aliás, na escolha do próximo presidente do DNC? Obviamente, não. Meros "membros" não têm permissão para influenciar tais decisões porque, deixando de lado as cartas de arrecadação de fundos, não existem membros reais no Partido Democrata: "Ao contrário dessas democracias [britânica, canadense, australiana e neozelandesa], onde os membros ingressam em um partido político por meio de um processo de solicitação ao próprio partido, a filiação partidária nos Estados Unidos tem sido descrita como 'uma ficção criada pelas leis de registro para as primárias'".

Assim como o Partido Democrata não possui uma base real de filiados, ele oferece apenas uma aparência irrisória de "programa": uma plataforma quadrienal geralmente ditada pelo candidato indicado (ou, ocasionalmente, negociada com um rival derrotado) no auge do frenesi eleitoral — um documento que, na maioria dos anos, ninguém lê e que, em todos os anos, ninguém leva a sério como um compromisso vinculativo. (Em nível estadual, as plataformas partidárias frequentemente atingem níveis alucinatórios de desconexão com a política real.)

É verdade, naturalmente, que em uma democracia constitucional nada impede um representante eleito, uma vez no cargo, de fazer o oposto do que havia prometido. Na história da política partidária de esquerda, não é difícil encontrar casos de políticos eleitos que mudaram de lado. Um exemplo famoso foi Ramsay MacDonald, fundador do Partido Trabalhista britânico, que traiu seu partido após assumir o cargo de primeiro-ministro ao aliar-se aos Conservadores e impor cortes drásticos nos gastos públicos em meio à Grande Depressão.

No entanto, como MacDonald devia satisfações a um partido organizado democraticamente, ele pôde ser repudiado e expulso da legenda — como de fato ocorreu em 1931, enquanto ainda exercia o cargo de primeiro-ministro. Por gerações, ele foi execrado nos círculos trabalhistas, e seu nome tornou-se sinônimo de traição.

Imagine, a título de comparação, que um antigo herói do Partido Democrata — digamos, um senador — decida descumprir as promessas feitas inicialmente a organizações como a MoveOn.org ou a Democracy for America, ou aos seus próprios eleitores. As equipes dessas organizações — que, afinal, não foram eleitas por ninguém — não teriam poder para aplicar qualquer punição significativa, muito menos expulsar tal político.

A quem, então, o senador deve prestar contas? Ao eleitorado, em teoria, quando chega a hora da reeleição. Mas não a um partido.

É desse ciclo vicioso que precisamos sair.

Um partido de um novo tipo

O amplo apoio à candidatura de Bernie Sanders, especialmente entre os jovens, abriu caminho para novas ideias sobre como constituir uma organização política democrática enraizada na classe trabalhadora.

Apresenta-se a seguir uma proposta para tal modelo: uma organização política de âmbito nacional, com núcleos estaduais e locais, um programa vinculante, uma liderança que preste contas aos seus membros e candidatos a cargos eletivos lançados em todos os níveis, por todo o país.

Como organização nacional, ela contaria com uma estrutura educacional de abrangência nacional, líderes e porta-vozes reconhecidos nacionalmente, e seus candidatos e demais atividades estariam vinculados a uma única legenda reconhecida em todo o país. Além disso, naturalmente, todos os candidatos teriam de seguir a plataforma nacional.

No entanto, a organização evitaria a armadilha da legenda eleitoral exclusiva. As decisões sobre como cada candidato apareceria na cédula de votação seriam tomadas caso a caso e com base em critérios pragmáticos, levando em conta a legislação eleitoral e o cenário partidário do estado ou distrito em questão. Em qualquer disputa, a organização poderia optar por concorrer nas primárias de grandes ou pequenos partidos, lançar candidatos independentes (sem filiação partidária) ou até mesmo, teoricamente, concorrer com sua própria legenda.

Assim, a questão da legenda seria tratada como algo secundário. A organização não basearia seu direito legal de existir nas leis restritivas de acesso às cédulas eleitorais, mas sim nos direitos fundamentais de liberdade de associação.

Tal projeto provavelmente não teria sido viável no passado, devido às leis de financiamento de campanha. Durante a maior parte das últimas quatro décadas, a Lei Federal de Campanhas Eleitorais (FECA), juntamente com leis semelhantes em muitos estados, não deixaria a tal organização outra alternativa senão arrecadar fundos por meio de um comitê de ação política (PAC). Esse PAC estaria limitado a doar, no máximo, 5.000 dólares (o limite atual) a cada um de seus candidatos por eleição, sendo proibido de receber recursos de sindicatos ou doações superiores a 5.000 dólares de pessoas físicas. Esse modelo de arrecadação jamais seria suficiente para sustentar uma organização nacional.

Todas essas restrições seriam dispensadas caso o grupo se registrasse como um "comitê partidário", tal como o DNC (Comitê Nacional Democrata) ou o RNC (Comitê Nacional Republicano). Mas há um porém: um grupo só pode se registrar como comitê partidário se superar a árdua maratona burocrática para obter acesso às cédulas eleitorais em nível estadual (uma exigência da qual Democratas e Republicanos estão isentos), garantir seu espaço na cédula e lançar candidatos por meio dela. (Aqui encontramos uma das muitas razões pelas quais especialistas descrevem a FECA como uma "lei de proteção aos grandes partidos".)

Nos anos que antecederam a decisão da Suprema Corte no caso Citizens United (2010), essas regulamentações já vinham sendo minadas pelo surgimento dos chamados grupos "527", que contornavam a legislação ao aceitar doações ilimitadas para financiar "gastos independentes" em prol de candidatos.

No entanto, após a decisão Citizens United (e outras decisões subsequentes), as restrições deixaram de representar qualquer obstáculo significativo. Hoje, uma organização política nacional poderia adotar o modelo "Carey" de financiamento de campanha, validado em 2011 pela decisão do tribunal federal no caso Carey v. FEC. Nesse modelo, a organização nacional se constituiria como uma entidade de bem-estar social do tipo 501(c)4, o que lhe permitiria apoiar candidatos e realizar campanhas explícitas, ao mesmo tempo em que aceitaria doações ilimitadas e gastaria quantias ilimitadas em educação política. (Ela também teria, naturalmente, a liberdade de adotar regras rigorosas de transparência por iniciativa própria — como, aliás, deveria fazer.)

Além disso, seria possível criar um PAC que mantivesse duas contas separadas: uma autorizada a fazer doações a candidatos individuais e a coordenar ações diretamente com eles (embora sujeita aos limites de contribuição da FECA e restrita a solicitar contribuições ativamente apenas dos próprios membros da organização); e outra autorizada a aceitar contribuições ilimitadas e a realizar gastos independentes ilimitados em prol de seus candidatos (embora não pudesse fazer doações diretas aos próprios candidatos). Um PAC separado, atuando como canal de arrecadação online nos moldes da ActBlue, poderia agregar em larga escala pequenas doações (do tipo hard money) para financiar as campanhas individuais.

Com um modelo de arrecadação viável estruturado dessa forma, todos os candidatos da organização em âmbito nacional — concorrendo a qualquer cargo — poderiam se beneficiar do reconhecimento do nome e das atividades educativas da entidade. A organização poderia patrocinar palestrantes, promover debates, estabelecer uma rede de núcleos universitários e designar porta-vozes reconhecidos como suas vozes públicas. Na mídia e na internet, os eleitores seriam continuamente expostos à perspectiva da organização sobre os acontecimentos atuais e às suas propostas para o futuro.

Para colocar em perspectiva as possibilidades eleitorais dessa abordagem, considere alguns números. Em 2014, houve 1.056 disputas para legislativos estaduais em que a cadeira estava em aberto (ou seja, sem a participação de um titular buscando a reeleição). O gasto mediano do vencedor foi de apenas US$ 51.000, somando-se as eleições primárias e gerais. Dois terços das disputas custaram menos de US$ 100.000. E, em 36% de todas as disputas para legislativos estaduais naquele ano — abrangendo quase 2.500 cadeiras —, o vencedor concorreu sem oposição.

Acredito que esse modelo possa funcionar. Mas, como qualquer projeto, não é uma panaceia. O simples ato de formalizar a criação de tal organização não fará surgir, como num passe de mágica, um movimento grande e bem-sucedido. Para que funcione, a organização precisa ser um veículo e uma voz reais para os interesses da classe trabalhadora. E isso significa que uma parte significativa do movimento sindical teria de estar em seu núcleo.

Colaborador

Seth Ackerman é editor executivo da Jacobin.

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