24 de setembro de 2019

Porque o capitalismo e o feminismo não podem coexistir

A força do feminismo está em lutar por uma vida igualitária para todos, independentemente de sexo, raça ou renda. Não podemos alcançar isso sob o capitalismo.

Nicole Aschoff

Jacobin

Trabalhadoras de uma fábrica de lã operam grandes máquinas de tecelagem, por volta de 1930. Foto: FPG / Arquivo Hulton / Getty


Tradução / A seguir, uma versão ligeiramente editada das observações feitas por Nicole Aschoff, membra do conselho editorial da Jacobin, em um debate no Instituto Cato, em Washington, DC. O tema: “O capitalismo ajuda ou prejudica as mulheres?

Há muito tempo que tanto feministas quanto não-feministas debatem sobre o capitalismo: se é ou não é bom para as mulheres. Mas cada aumento no interesse sobre esse tema está integrado em um contexto particular. Sendo assim, quais são as condições que favorecem um exercício como este no momento presente?

Para começar, o capitalismo está em crise. Não necessariamente uma crise econômica, no sentido de uma recessão completa. Mas temos testemunhado mais de uma década de estímulos que incluem resgates multitrilionários pelos bancos centrais, anos de flexibilização quantitativa e um novo padrão de juros baixos projetados para evitar que investidores se atirem coletivamente de um penhasco.

Apesar desses esforços, os salários e o crescimento econômico continuam estagnados. As empresas parecem mais interessadas em apostar no mercado de ações do que em investir no mundo real. Enquanto isso, o capitalismo neoliberal — as normas, ideias e políticas que estão por trás do status quo das últimas quatro décadas — está passando por uma profunda crise de legitimidade. Há uma perda generalizada de confiança no governo, uma crescente descrença no capitalismo e um ressurgimento do populismo tanto à esquerda quanto à direita.

Um segundo ponto de referência é o ressurgimento do feminismo na última década. Este ressurgimento vem acontecendo de diversas maneiras, sob diferentes perspectivas sobre como melhor desenvolver uma agenda feminista, e tem sido uma constante no discurso público, mais recentemente com o movimento #MeToo (#EuTambém).

A derrota de Hillary Clinton nas eleições estadunidenses de 2016, diante da crise de legitimidade do capitalismo neoliberal, colocou em xeque o modelo dominante do feminismo neoliberal — a ideia de que os objetivos feministas seriam melhor alcançados por meio do esforço individual de cada mulher que conquista uma posição de poder e sucesso dentro do capitalismo. As mulheres, especialmente as mais jovens, estão clamando por um tipo diferente de feminismo, muitas vezes implícita ou explicitamente anticapitalista. Pesquisas revelam que cerca da metade dos jovens adultos estadunidenses prefere o socialismo ao capitalismo e, de acordo com Pew Research Center, 53% dos apoiadores de Bernie Sanders são mulheres.

É neste contexto de crise, que pode ser considerado como um momento de transformação e não de ruptura em si, que olhamos para frente e perguntamos como as feministas devem orientar suas posições e suas lutas.

Eu digo “olhar para frente” deliberadamente. Este é o momento de avaliar as vitórias duramente conquistadas e de elaborar uma estratégia para que todas as mulheres possam realmente desfrutá-las, e de avançar com novas demandas concretas que satisfaçam os amplos objetivos do feminismo.

Primeiramente, no entanto, a serviço da clareza, algumas ressalvas: não falo por todas as mulheres, obviamente, mas também não falo por todas as mulheres de esquerda, ou todas as feministas, ou todas as socialistas, ou todas as socialistas-feministas. Além disso, há muitas críticas feministas ao capitalismo. Dadas as restrições de tempo e de minha própria base de conhecimento, me dirijo apenas a algumas delas.

Chelsea Follett – nossa moderadora, analista política da Cato, e editora executiva da Human Progress — teve a gentileza de trazer algumas perguntas orientadoras para a discussão.

1. A disseminação do capitalismo tem resultado em um saldo líquido positivo ou negativo para as mulheres?

Esta é uma pergunta difícil de responder, até porque acho estranho formular uma equação de custos humanos que atravesse os séculos de capitalismo. Podemos colocar a pergunta da seguinte forma: as melhorias mais recentes na expectativa de vida, alfabetização e autonomia das mulheres compensam o extermínio em massa de mulheres e crianças indígenas, as vidas desesperadas de mulheres presas e torturadas na escravidão, e a desfiguração e morte precoce de mulheres que passaram sua vida labutando em sweatshops [“fábricas de suor” com condições de trabalho muito precárias e socialmente inaceitáveis], cujos corpos são destruídos pelo trabalho fabril?

É um cálculo difícil de fazer com precisão. Mas se quiséssemos tentar, certamente precisaríamos temperar as alegações otimistas dos recentes sucessos do capitalismo global com a dura realidade de que mais de dois bilhões de pessoas sofrem de desnutrição, de que 95% da renda criada com o crescimento global não é compartilhada com os 60% mais pobres da população mundial e de que o número absoluto de pessoas que vivem na pobreza aumentou em um bilhão nas últimas décadas.

Estou disposta a dizer que concordo com Marx, sobre o capitalismo ser melhor que o feudalismo. Também podemos apontar para dados que sugerem um progresso agregado, por exemplo, em direção ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em relação à expectativa de vida, mortalidade e educação. As mulheres de classe média e alta em grande parte do mundo gozam de acesso e direitos que teriam sido invejados por suas irmãs há um século e meio atrás.

Contudo, ao celebrarmos esses ganhos, os quais devem ser celebrados, precisamos ser cautelosos com as setas causais que desenhamos. Embora alguns desses ganhos possam ser atribuídos ao desenvolvimento e à racionalização — que estão correlacionados com o capitalismo — muitos deles são resultado de uma persistente luta política, e não do capitalismo propriamente dito.

Leis e normas contra a discriminação, o direito de não sermos propriedade dos nossos maridos, o direito ao voto, o direito de podermos nos proteger e proteger nossos filhos da violência doméstica — estes e tantos outros não foram simplesmente transmitidos de cima para baixo por uma Câmara de Comércio. Eles foram conquistados por movimentos sociais, muitos deles liderados por socialistas e feministas, que lutaram com unhas e dentes e sofreram muitas derrotas pelo caminho.

Neste momento, porém, penso que seja importante olhar para frente. Mesmo que reconheçamos que o capitalismo tenha proporcionado um ganho líquido para as mulheres — o que eu não reconheço — é muito mais importante perguntar se o capitalismo levará a ganhos no futuro.

O feminismo não se trata apenas de eliminar a discriminação baseada no gênero. O feminismo se trata de lutar por e criar igualdade e uma boa vida para todos, independentemente de sexo, gênero, raça, etnia, educação, renda, religião, ou de onde vivem. Isto é o que há de melhor no feminismo — e é por isso que sou feminista.

Em síntese, estes objetivos não podem ser alcançados no capitalismo.

Recentemente houve a greve climática, então vamos considerar o exemplo das mudanças climáticas. Nada demonstra melhor o fracasso do chamado livre mercado do que a catástrofe climática que se aproxima. Embora o capitalismo possa ser racional no nível individual, em um nível sistêmico ele é altamente irracional. A busca imprudente por lucros dos capitalistas individuais, fortalecidos por elites e governos, criou o enorme problema coletivo do aquecimento global, para não mencionar o esgotamento dos recursos e a destruição de biomas.

Mas em vez de encarar este problema de frente — um problema que compreendemos há décadas — durante os últimos quarenta anos as elites e os empresários têm insistido no poder de cura dos mercados livres. Eles argumentam que mercados seriam naturais e que fariam parte de uma ordem espontânea, que indivíduos racionais que operam com informações perfeitas criam resultados ótimos, e que externalidades são triviais.

Sabemos o que precisa ser feito, mas os imperativos do lucro e as prerrogativas arraigadas das elites têm impedido os países de adotar projetos e programas que nos libertem de economias destrutivas baseadas em combustíveis fósseis, e de desenvolver e instituir soluções sustentáveis para atender às nossas necessidades.

Somente um projeto coletivo, ancorado na solidariedade e na cooperação, e organizado em torno do princípio de retomar o nosso planeta das mãos das corporações vorazes, nos dará uma oportunidade de lutar para alterar a nossa trajetória atual.

2. Podemos dizer que o capitalismo é um sistema econômico intrinsecamente explorador, opressor e patriarcal interconectado com a subjugação das mulheres?

Vamos analisar um pouco essa questão. O capitalismo é explorador? Na economia política, a exploração descreve uma relação pela qual uma pessoa vende sua força de trabalho a alguém que possui os meios de produção e que lucra pagando a ela, a trabalhadora, menos do que o valor daquilo que ela produz. Portanto, sim, a maioria das pessoas, inclusive as mulheres, são exploradas no sentido de que trabalham por um salário e que não poderiam comprar comida ou pagar aluguel sem trabalhar em troca de um salário.

Esta exploração é opressiva, ou seja, constitui um tratamento cruel ou injusto? Bem, isso depende. Nos Estados Unidos, por exemplo, nem todas as mulheres são oprimidas. (Algumas feministas e socialistas rejeitariam esta avaliação.) No entanto, não acho que mulheres brancas altamente remuneradas que possuem respeito, segurança e autonomia na organização de suas vidas profissionais sejam oprimidas — ou pelo menos não o suficientemente oprimidas para que eu vá às ruas lutar por elas.

O problema é que este cenário feliz não descreve a situação da grande maioria das mulheres. Uma mulher que trabalha em tempo integral por um salário mínimo e não tem condições de ir ao médico, nem de comprar legumes, nem de pagar aluguel é oprimida. Uma jovem recém formada mergulhada em dívidas de crédito estudantil, que trabalha mais de sessenta horas semanais em uma startup de tecnologia — daquelas que complementam os péssimos salários que pagam aos funcionários com cerveja grátis e uma mesa de pebolim na sala de descanso — é oprimida.

Boa parte desta opressão está ligada ao patriarcado, ou, mais precisamente, ao sexismo, já que não vivemos em uma sociedade formalmente patriarcal. Ainda não existe consenso sobre o capitalismo ser inerentemente sexista, e o sexismo certamente existe fora do capitalismo. Podemos imaginar um modelo de capitalismo que não seja sexista ou racista. Mas o capitalismo é uma forma real de organização das normas, prioridades, estruturas e atividades da sociedade que evoluem ao longo do tempo e do espaço.

Como um sistema histórico, o sexismo e o racismo têm sido centrais na estratégia de acumulação no capitalismo. O sexismo faz com que o trabalho doméstico não remunerado das mulheres, essencial para a sociedade, pareça natural, fruto de seu amor. O sexismo e o racismo também continuam sendo ferramentas extremamente úteis no repertório dos empresários para dividir e oprimir os trabalhadores, para desencorajar as demandas por melhores salários e benefícios, ou para obstruir esforços de formação de sindicatos.

3. Ou será que o capitalismo não contribui para o empoderamento das mulheres, aumentando seu bem-estar material e promovendo a paridade de gênero?

Em vez de formularmos nossas perguntas e respostas como um ou outro, deveríamos optar por uma discussão mais matizada sobre ambos. Como eu disse anteriormente, as mulheres têm sido empoderadas no capitalismo. Embora precisemos ter cuidado para não confundir correlação com causalidade — tendo em mente aquelas variáveis escondidas, tais como os movimentos de mulheres, de direitos civis, o movimento trabalhista e o ambiental — os mercados ainda podem empoderar as mulheres.

Dinheiro é poder. Se as mulheres da atualidade tiverem a sorte de ter pais ricos, ou de terem nascido com habilidades ou inteligência excepcionais que as permitam conseguir um emprego bem remunerado e gratificante, elas serão empoderadas. Mais do que isso, elas serão capazes de empoderar outras pessoas em suas redes sociais, como seus próprios filhos.

Porém, observar que algumas mulheres têm bastante poder no capitalismo não implica que o caminho tenha sido traçado e que, se simplesmente o seguirmos, os objetivos do feminismo serão alcançados. A incrível riqueza dos poucos que estão no topo da pirâmide não é um acidente ou uma pontinha inofensiva sobre uma base saudável de pessoas que vivem uma boa vida. As reformas favoráveis ao mercado das últimas décadas tornaram um punhado de pessoas (na maioria homens) absurdamente ricas, enquanto a grande maioria teve seu sustento estagnado e suas oportunidades reduzidas.

Os incríveis avanços tecnológicos e científicos dos últimos quarenta anos poderiam ter sido canalizados para reduzir drasticamente a pobreza, melhorar os resultados dos cuidados de saúde e a sustentabilidade ecológica de nossos processos de produção, e para garantir a segurança no fornecimento e distribuição de água limpa, alimentos nutritivos e moradia adequada. São coisas que todas as pessoas valorizam, e que dariam grande poder às mulheres que sofrem desproporcionalmente por não as terem.

Nós temos todos instrumentos necessário para melhorar enormemente a vida das mulheres, e de todas as outras pessoas. No entanto, não direcionamos nossos recursos, conhecimento e energia para atingir este objetivo. Por quê? Porque o objetivo do capitalismo não é melhorar o mundo — é gerar lucro.

Colaborador

Nicole M. Aschoff faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado.

22 de setembro de 2019

O que as sanções dos EUA estão causando aos venezuelanos

Apesar de não contar com a violência imediata de uma intervenção militar, as sanções contra a Venezuela continuam punindo os cidadãos comuns, enquanto aprofundam a crise política do país. Para o país se estabilizar novamente, elas precisam terminar.

Rebecca Hanson e Francisco Sánchez

Jacobin

Apoiadores pró-governo gritando durante uma manifestação anti-Trump em 10 de agosto de 2019 em Caracas, Venezuela. (Carolina Cabral / Getty Images)

Tradução / No início de agosto, o governo Trump intensificou sanções econômicas contra a Venezuela, congelando ativos estrangeiros e impedindo empresas de fazerem negócios com o governo Maduro. Como era de se esperar, a ordem executiva foi acompanhada de exibicionismo por parte dos integrantes do governo Trump, que argumentaram que a medida "aceleraria uma transição democrática pacífica".

Essas novas sanções causaram um grande estrondo quando anunciadas, e isso é compreensível. David Smilde, membro sênior do Escritório de Washington Sobre Assuntos Latino-Americanos, descreveu sanções semelhantes, mas menos extensas, como uma opção "nuclear". Nas semanas seguintes após a emissão do pedido, uma enxurrada de relatórios e opiniões foram publicados, especulando sobre os possíveis impactos econômicos das sanções a curto e longo prazo.

No terreno, a nova rodada de sanções acelerou as disparidades entre o dólar americano e o bolívar soberano no mercado negro. No fim de julho, a taxa de câmbio ficou em torno de 8.000 bolívares para cada dólar. No final de agosto, esse número havia subido para 20.000 bolívares. Usando essa taxa do mercado negro, o salário mínimo no país equivaleria a dois dólares por mês.

Ao mesmo tempo, no dia-a-dia, as sanções quase parecem não serem merecedoras de discussão. Em vez de uma bomba, talvez as sanções sejam melhor descritas como um pontinho no radar. Nas palavras de uma amiga, mãe solo e servidora do estado: "Quem tem tempo para entrar em pânico com esta vaina?"

Os venezuelanos estão, é claro, preocupados com as sanções. Mesmo para quem não tem certeza do que as sanções realmente envolvem, um ponto é muito claro: vão tornar a vida muito mais cara. No entanto, desde muito antes dessa nova rodada de sanções, as pessoas esperavam que os preços aumentassem semanalmente, até mesmo diariamente. Os venezuelanos já contam com aumentos rápidos na taxa de câmbio quando avaliam o quão longe o dinheiro vai chegar — ou não — durante o mês. Sim, as sanções aceleraram os aumentos dos preços e o custo do dólar. Mas isso é uma mudança de nível, não de categoria.

Não é só a economia, estúpido

As sanções trazem consigo muitas implicações sociais e políticas, além dos efeitos que têm sobre a economia. Houve consequências políticas significativas após o anúncio do governo Trump. Nicolás Maduro abandonou a mesa de negociações em Barbados, o que, dado o momento, era provavelmente a meta de um governo que tem pouca fé em um fim negociado para crise atual. E, embora novas negociações estejam em andamento, as sanções, sem dúvida, reverteram qualquer progresso feito por atores políticos na busca por um meio termo.

As sanções destacam um problema político maior que o produzido pelo relacionamento do governo Trump com a coalizão da oposição. É evidente que o principal interlocutor do governo Trump é a Voluntad Popular, o partido de Juan Guaidó e seu mentor, Leopoldo López. Apesar de López ser uma figura extremamente polarizadora, considerada por muitos como uma das vozes mais reacionárias da oposição, a relação entre Voluntad Popular e Trump tem começado a definir as estratégias da coalizão e a criar uma expectativa de apoio a certas medidas, como as sanções, sobre as quais muitos na oposição estão divididos.

As medidas punitivas e unilaterais como essas tendem a provocar um efeito atenuante nos procedimentos democráticos, forçando as pessoas a definir limites e se unir em torno de posições intransigentes. Logo após Washington anunciar as sanções, Guaidó nomeou um novo "gabinete". Com López no comando do grupo, resta pouco espaço para discussão entre os líderes sobre a posição a ser tomada em relação às sanções. Políticas polarizadoras provocam tensões, justificando a posição autoritária de que, por enquanto, não há tempo para debate, discussão e participação popular.

A cada novo aumento dos riscos, o discurso político se torna cada vez mais um jogo de soma zero. Enquanto a oposição liderada por Guaidó tem permanecido calada sobre o sofrimento que as sanções causarão, alguns políticos chavistas têm usado as sanções como um meio de reforçar a lealdade. Por exemplo, logo após Trump assinar a ordem executiva, vídeos e mensagens de mídia social anunciaram que aqueles que não assinassem um documento contra o bloqueo poderiam deixar de receber as caixas do CLAP, uma fonte indispensável — embora inconsistente — de comida para muitos nos setores populares. Para movimentos sociais e partidos políticos, torna-se cada vez mais difícil encontrar equilíbrio entre críticas às sanções e o governo americano e, ao mesmo tempo, um posicionamento contrário ao governo de Maduro.

Sanções e sinalização da situação do país

As sanções também têm impactos menos "visíveis", impondo restrições e limitações frequentemente ignoradas nas análises econômicas, mas que têm efeitos profundos na moral e na forma como os venezuelanos avaliam a situação do seu país. Pense em algo tão simples quanto o beisebol. Em resposta às sanções, a Liga Principal de Beisebol americana (MLB) cortou relações com a Liga Venezuelana de Beisebol Profissional, o que significa que os venezuelanos que jogam na MLB não poderão jogar em seu país de origem. Lembre-se de que o beisebol tem um status quase religioso na Venezuela. Como disse Caraqueño: "É a única coisa que os venezuelanos têm para curtir, e as sanções arruínam isso também".

Ou, por exemplo, Miguel Pérez (pseudônimo), um jovem boxeador de peso médio de um bairro pobre de Caracas que teve a chance de lutar nos Estados Unidos, marcando o auge de sua carreira profissional. Embora Pérez tivesse visto e pudesse viajar, seus colegas de equipe não tiveram a mesma sorte; seus vistos foram negados. Sem seu treinador e auxiliares, e sem o apoio moral da sua equipe, Pérez entrou em luta desmoralizado, incapaz de manter uma vantagem competitiva. Por fim, ele perdeu.

Junto com a desmoralização, vem o desencanto; com cada ação punitiva dos Estados Unidos, cresce o cinismo e diminui a esperança de mudança política.

Esse cinismo saturou as visões políticas de mundo em um nível plenamente demonstrado durante uma conversa que tivemos com amigos há algumas semanas em um bairro no oeste de Caracas. Quando o assunto do “embargo” surgiu na conversa, Susana — uma chavista fervorosa que tem permanecido favorável, mas crítica ao governo de Maduro — recusou a sugestão de que a oposição desejasse que as negociações tivessem sucesso. No entanto, ela manteve as mesmas críticas ao governo Maduro. Na sua perspectiva, nem o governo nem a oposição se preocupam em acabar com a crise, pois os dois “lados” estão enriquecendo apesar — ou talvez em parte devido à — crise.

Obviamente, é improvável que os políticos, como Susana acredita, desejem a continuidade da crise. Se fosse apenas por interesse próprio, eles poderiam se sair muito melhor com a economia melhorando, dependendo dos termos das negociações. Mas a percepção de que o bem-estar popular é, na melhor das hipóteses, uma preocupação marginal, não é incomum, e as sanções exacerbam essa ideia.

Assumir a responsabilidade pelas falhas e erros, e suas consequências, poderia potencialmente reviver alguma esperança em torno da política. Hugo Chávez é lembrado por ter assumido a responsabilidade pelas consequências de um golpe fracassado em 1992, um movimento que o fez se destacar entre outros políticos quando se candidatou à presidência seis anos depois. Por enquanto, contudo, os partidos políticos e seus porta-vozes continuam jogando batata quente, fazendo tudo o que podem para passar a culpa para o outro lado.

Quanto à moeda política entre os cidadãos venezuelanos comuns, nem o governo nem a oposição podem se beneficiar muito dessas medidas. Sim, as sanções alimentam as críticas do governo Maduro à intervenção imperialista. E a oposição pode tentar usar a possibilidade do levantamento das sanções para trazer o governo de volta à mesa de negociações. Porém, no terreno, ambos os lados parecem insensíveis em suas respostas às sanções, ainda mais distantes da realidade daqueles que não estão incluídos em seus respectivos grupos.

Muitos reconhecem que as sanções não incentivarão os políticos a mudar de rumo, porque não são eles que sofrem com elas. Os venezuelanos estão cientes do que analistas políticos e acadêmicos têm dito desde o anúncio das sanções: as vítimas são o povo venezuelano. Talvez a situação seja melhor resumida por uma observação feita por um amigo, depois de as sanções serem aplicadas no início deste ano: “El partido trancado y el pueblo con la cochina en la mano.” A partir de em uma metáfora do dominó, isso pode ser traduzido como: “Os participantes do jogo político não têm mais jogadas e são as pessoas que acabam se ferrando no final."

Sobre os autores

Rebecca Hanson é professora assistente do Centro de Estudos Latino-Americanos e do Departamento de Sociologia e Criminologia e Direito da Universidade da Flórida.

Francisco Sánchez é professor da Universidade Católica Andrés Bello em Caracas e membro do REACIN (La Red de Activismo e Investigación por la Convivencia).

20 de setembro de 2019

Lawfare: A guerra dos tecnocratas contra a democracia

A prisão do ex-presidente Lula mostra o poder do "lawfare" com a manipulação da Justiça para fins políticos. Nesta entrevista, o ex-presidente equatoriano, Rafael Correa, e Jean-Luc Mélenchon, do França Insubmissa, discutem como o assédio legal se tornou uma arma chave contra a esquerda ao redor do mundo.

Uma entrevista com
Rafael Correa e Jean-Luc Mélenchon

Entrevistados por
Denis Rogatyuk e Patricio Mery Bell

Jacobin

Fundador do França Insubmissa Jean-Luc Mélenchon e ex-presidente do Equador Rafael Correa compartilham café da manhã. (Foto: Denis Rogatyuk)

Tradução / Rafael Correa e Jean-Luc Mélenchon se tornaram sinônimos de “Revolução Cidadã” — um projeto alimentado pelo povo, com o objetivo de construir uma contra-hegemonia à ordem neoliberal. Essa abordagem é baseada em medidas como a formação de assembleias constituintes, a criação de programas sociais para combater a pobreza e a desigualdade, e uma política estrangeira antagônica ao imperialismo europeu e estadunidense.

Como presidente do Equador de 2007 a 2017, Correa não só trouxe uma redução massiva na pobreza e na desigualdade, mas também promoveu instituições como o Conselho para a Participação do Cidadão e Controle Social, assim como projetos de energia renovável em larga escala. Na França, a campanha presidencial de Jean-Luc Mélenchon eletrizou a esquerda, avançando as demandas de movimentos sociais como o Nuit Debout e representando um desafio robusto tanto para Emmanuel Macron quanto para Marine Le Pen.

Hoje, contudo, ambos enfrentam problemas nas cortes judiciais e são forçados a defender não só suas trajetórias políticas, mas também suas próprias vidas pessoais, enquanto são atacados por instituições judiciais cautelosamente alinhadas com os poderes neoliberais desafiados por eles.

No Equador, o procurador geral e a suprema corte — dominada por figuras alinhadas com o governo neoliberal de Lenín Moreno — instauraram mais de 25 processos criminais contra Correa desde julho de 2018.

Enquanto isso, Mélenchon enfrentou uma campanha constante de assassinato de reputação na mídia empresarial. Essa campanha atingiu o auge em outubro de 2019, com uma batida policial armada na casa de Mélenchon — orquestrada no mesmo dia em que o novo ministro do interior foi empossado — na qual ele foi acusado de dar declarações falsas sobre financiamento de campanha. Após o vazamento das filmagens da reação de Mélenchon, ele compareceu ao tribunal sob acusações de “intimidar” os policiais que destruíram suas posses.

Os dois se mantiveram firmes e se uniram à campanha em solidariedade com a maior vítima de "lawfare": o ex-presidente Lula, hoje definhando na cadeia. Em junho, foram vazados documentos mostrando que os promotores que indiciaram Lula faziam parte de uma conspiração para impedir o Partido dos Trabalhadores de vencer a eleição presidencial de 2018. Hoje, Correa e Mélenchon estão promovendo uma frente unida contra o “lawfare” — o uso de instituições jurídicas para fins estritamente políticos.

Os dois líderes sentaram com os jornalistas Denis Rogatyuk e Patricio Mery Bell em Bruxelas (onde hoje vive Correa) para discutir o ataque dos tribunais contra eles, a politização do sistema de justiça, e sua implantação específica por forças antidemocráticas e apoiadas pelos EUA na América Latina.

Patricio Mery Bell

Jean-Luc Mélenchon, nos conte suas opiniões sobre o “lawfare,” que tem mirado em você e no ex-presidente Correa. Essa perseguição política está sendo usada contra líderes progressistas e de esquerda ao redor do mundo?

Jean-Luc Mélenchon

Isso é, de fato, algo que vemos ao redor do mundo, porém, nós fomos alertados pelo caso equatoriano e até mesmo antes do que aconteceu com Lula... O que nós vemos é uma ofensiva mundial com temas semelhantes em todos os lugares. Existem acusações de laços com Venezuela e Cuba, de antissemitismo, de suposta corrupção, e agora um tratamento judicial e criminal de tudo que a oposição diz. Pegue o exemple das minhas contas de campanha — elas já tinham sido certificadas e aceitadas pelo tribunal especial, mas ainda sim eles continuam me perseguindo diariamente.

Primeiro, eu fiquei atordoado com tudo isso. Isso explica a raiva com a qual eu protestei a batida policial — eu estava sendo humilhado, tratado como um ladrão. Eles invadiram minha casa às sete da manhã, vasculhando tudo à procura de não sei o quê, meses depois do fim da campanha. Em seguida eles filmaram imagens horríveis de mim, com raiva e gritando. A mídia focou nessa parte da história — sobre se eu respondi adequadamente — mas nunca falou sobre a injustiça cometida contra mim.

Rafael Correa

Eles entraram em sua casa? Incrível!

Jean-Luc Mélenchon

E no diretório do partido também. Eles queriam entrar e pegar a lista de membros. E, na imprensa, foi publicado como se essa injustiça não tivesse acontecido. O poder da imprensa está totalmente apontado para esconder o que está acontecendo, não para informar o cidadão ou ajuda-lo a pensar. Ou melhor, ela funciona para garantir que você não saiba pensar por si mesmo. Eu não sei o que mais falar, foi uma surpresa total. Existem seis processos contra mim, eu não sei você, Sr. Presidente?

Rafael Correa

Vinte e cinco acusações criminais no tribunal de contas.

Denis Rogatyuk

O que está por trás disso, no entanto? Por que o sistema de justiça e a mídia perseguem líderes de esquerda?

Rafael Correa

Primeiro de tudo, eu gostaria de oferecer minha solidariedade a Jean-Luc — obrigado por sua preocupação constante com a América Latina. Aqui nós estamos vivendo uma ditadura, talvez uma sem sangue [pelo menos antes da repressão às manifestações dos últimos dias], mas uma ditadura mesmo assim. Eles te perseguem, eles destroem sua reputação, eles tiram sua liberdade, eles te seguem pelos tribunais, eles não respeitam seus direitos humanos. Ainda assim, o mundo vê as coisas pela perspective oposta. Imagine por um momento se eu tivesse prendido o vice-presidente — teria sido um escândalo ao redor do mundo. Mas o governo equatoriano está fazendo isso [hoje, com Jorge Glas], e não há resposta. Um homem inocente está indo para a cadeia por quase dois anos, em um caso que não deveria existir em nenhum estado de direito. Esse é o famoso lawfare.

É uma estratégia ao redor do mundo e também na América Latina; não é um acidente o que aconteceu com Lula, o que aconteceu com Cristina Kirchner, o que aconteceu conosco no Equador. Existem dois componentes: a imprensa — que na América Latina tem sempre sido a imprensa da burguesia — te condena através das manchetes, ao ponto de até as melhores pessoas aplaudirem os maiores absurdos e os juízes e advogados cooptados. Os Estados Unidos têm trabalhado muito nessa direção — por exemplo, o atual procurador-geral do Equador, ilegalmente nomeado, estava sendo pago pela USAID.

Patricio Mery Bell

Ele era o elo com a DEA também, não?

Rafael Correa

Dizem que ele é próximo da DEA, da CIA e da Embaixada dos EUA, também tem vários juízes nesse esquema. Eles dominam o sistema de justiça e as manchetes, te sujeitando à condenação pela mídia. Eles, portanto, tentam e conseguem efetuar aquilo que não puderam fazer nas urnas, onde eles não conseguiram nos derrotar. Após estarmos no poder por dez anos e alguém querer nos prejudicar, eles sempre podem transformar um processo civil em um assunto criminal, e dizer que se existisse algum funcionário subalterno corrupto, então o Presidente Correa deveria saber. Eles te emboscam repetidamente e convencem as pessoas de que tudo isso é verdade.

É por isso que essa estratégia é mais eficaz em países como Brasil, Equador e Argentina, onde projetos progressistas estiveram no poder com grande sucesso. É óbvio que em dez anos no poder, eles podem encontrar algum ponto ou vírgula fora do lugar. Mas se você capturou os advogados, os juízes e a mídia, então você é capaz de construir um escândalo. Eles não estão somente nos privando de nossa liberdade, como no caso de Lula. Eles conhecem a história da década de 1970 e sabem que eles não precisam de coturnos e de sangue.

Patricio Mery Bell

Eles ainda não precisam...

Rafael Correa

Mesmo agora, eles recorreriam a esses métodos se precisassem. Mas eles encontraram maneiras mais eficazes, notavelmente a mídia, para destruir a reputação de líderes de esquerda, a fim de fazer nosso próprio povo acreditar que esses governos foram corruptos. “Governo honesto” não sinônimo de que nunca houve casos de corrupção — isso é impossível. Mas um governo honesto é aquele que combate a corrupção. No esforço deles de travar uma guerra comigo, até contrataram uma firma internacional, a Berkeley Research Group, para investigar eu e Jorge Glas, para fazer uma inspeção em nossas contas e não sei mais o quê. Eles não encontraram nada, e não o farão, porque não há nada para ser encontrado.

Como eu disse, eles não estão só roubando nossa liberdade. Eles estão roubando a democracia em si. Pegue o caso de Lula — se ele não tivesse sido preso, teria sido presidente do Brasil, mas em vez disso, nós temos o fascista do Jair Bolsonaro como presidente, e o juiz que prendeu Lula como ministro. O mundo deve reagir as manipulações da democracia, mas como essas jogadas são contra a esquerda, a comunidade internacional desvia os olhos.

Denis Rogatyuk

Por que a Europa foca somente no que está acontecendo na Venezuela e não fala sobre o que está acontecendo no Equador ou na Argentina de Mauricio Macri? Existe uma agenda da mídia? Qual é a sua posição no que está acontecendo nesses países e, de fato, no Brasil?

Jean-Luc Mélenchon

Nós sabemos que existe uma campanha global sendo empreendida pelos Estados Unidos — só pode ser isso. Caso contrário, faria sentido que jornalistas estejam repetindo quase que palavra por palavra as mesmas histórias, atacando a Venezuela com o intuito de nos atacar? É incrível. Em todo lugar na Europa, estão atacando Venezuela e Cuba como se nós na Europa soubéssemos mais do que os cidadãos desses países o que eles devem fazer lá. Pode muito bem haver erros, por vezes enormes, mas por favor — primeiro parem com o embargo, depois podemos conversar. Não agarre as pessoas pelo pescoço e afirme querer diálogo.

É como o presidente Correa falou. Eles nos demonizam e nos difamam, tentando mostrar que nós é que somos os violentos — eles nos atacam a fim de provocar uma reação vil, para que pareçamos animais selvagens. No caso de Pablo Iglesias, até colocaram as mãos no ultrassom de sua esposa. Esse é o quão longe eles irão para nos tratar como animais; não há limites. Eles tornam até nossas vidas pessoais uma questão suspeita; no meu caso, perguntaram à mim e à minha companheira se eu já tive relações com outra mulher...

Rafael Correa

Sim, eles tentam romper sua família para que consigam te atingir.

Patricio Mery Bell

Presidente Correa, você poderia mencionar o caso dos jornalistas que vieram do Equador para a Bélgica para te assediar na frente de sua casa...

Rafael Correa

Eu disse ao povo equatoriano que me aposentaria em 2017. Aqui eu me rendi à minha própria vaidade, pensando que já tinha feito o suficiente. Mas eu deveria ter tido a experiência e a compreensão de saber que alguém que expulsou os gringos da base militar em Manta, que fechou mais de duzentas empresas bancárias corruptas, que enfrentou a imprensa e que triplicou as receitas dos impostos, não deve deixar todo o poder para trás.

No entanto, foi exatamente o que eu fiz, ao dizer ao povo equatoriano que iria viver na Bélgica. Nós vivemos vinte e cinco anos no Equador, mas minha esposa é belga e minhas filhas estão estudando na França. Minha família sacrificou muito por causa de uma escolha individual — uma escolha política, pelo país, mas que também implica a família e especialmente uma família como a minha, dado que minha esposa continuou sendo professora. Ela odiava a exposição pública.

Mas então, uma vez na Bélgica, nós começamos a ser assediados fora de nossa casa. No dia 30 de maio, minha filha teve um acidente, e no dia 3 ou 4 de julho, um cara começou a me insultar — eu não o reconheci a princípio, era um jornalista (ou alguém que pretendia ser um). Ele queria me provocar para que pudesse dizer “Correa me atacou”. Felizmente, minha filha, que estuda jornalismo, me falou para filmá-lo. Cada vez que ele me abordava, gesticulava como se estivesse pegando uma arma. Quando os vizinhos o pegaram no flagra, chamaram a polícia e ele não tinha nenhuma arma. Ele foi condenado aqui na Bélgica, embora a sentença de prisão tenha sido suspendida porque foi um primeiro delito. Mas ter que aguentar isso, o custo dos advogados, o que minha filha viu . . .  de qualquer forma, foi uma boa lição para ela, em seus estudos de jornalismo.

Jean-Luc Mélenchon

Nenhum de nós estava preparado para isso. Nós queremos acreditar que as pessoas agem de boa fé e que te fazem uma pergunta para que você possa respondê-la, não só para te dar um golpe.

Rafael Correa

Nós estamos vivendo em uma era de ódio — não há limites ou escrúpulos. Eles me acusaram de autoritarismo, dizendo que essa é a razão para os meus problemas com a imprensa ou com meus inimigos. Mas não é isso. Veja Lula e onde aquilo terminou, apesar de ele não ter sido autoritário em momento algum. O problema é que nós somos seus inimigos de classe. Pela primeira vez em um século, a balança de poder começou a se deslocar. Eles perderam o poder de verdade e não vão permitir isso novamente. Nada está fora de cogitação.

Jean-Luc Mélenchon

Eu sempre te vi como tendo um caráter calculado — muito calculado — e hoje te vejo sendo sujeitado às mesmas coisas pelas quais estou passando. Tampouco imaginei que eles entrariam na minha casa. Olha, eu posso ter muitos defeitos, e ficar com raiva, mas eu sou um homem honesto, não roubei ninguém.

Rafael Correa

Vou te contar uma história. Jean-Luc estava em uma delegação especial de membros do Parlamento Europeu que vieram para o Equador. Quando eu soube que eles viriam, falei para Jean-Luc, por favor, nos dê a honra de permanecer no palácio, tem uma residência muito boa que parece um hotel para o presidente morar. Eu nunca morei lá — em vez disso, permaneci morando na minha casinha no norte de Quito. Então Jean-Luc ficou por dois dias, e no terceiro dia, eu procurei por ele e me disseram que ele tinha ido ficar em um hotel. “O quê? Por que ele iria embora?” Eu perguntei. Nós o tratamos mal? Então o chamamos para perguntar o que tinha acontecido, e ele respondeu “Minha visita oficial durou dois dias, e agora devo pagar pelo meu próprio hotel, enquanto fico um pouco mais visitando o Equador.” Isso demonstra a honestidade de um homem como Jean-Luc Mélenchon.

Eu quero dizer outra coisa. Nos acusam de procurarmos o confronto. Mas é claro que você tem que confrontá-los, quando você quer mudar as coisas no continente mais desigual do mundo. Se Abraham Lincoln não tivesse sido de confronto, ele teria ficado do lado dos senhores de escravos, como o traidor que nós temos no Equador agora, que diz que não é de confronto. Claro que ele não é — ele está do lado do poder! Para ser de confronto, você tem que se posicionar contra o poder.

Patricio Mery Bell

O presidente equatoriano Lenín Moreno já fechou veículos de mídia, algo que você nunca fez...

Rafael Correa

Okay, mas permita-me terminar o que estava dizendo. Não precisamos cair na infantilidade de simplesmente sermos contra o poder, apenas por que sim. No entanto, se estamos falando de um poder que nos sujeitou ao subdesenvolvimento por duzentos anos e nos manteve como o continente mais desigual do mundo, então sim, nós temos de confrontá-lo. E esse outro grupo se orgulha de não fazê-lo.

Para mudar as coisas, sim, você precisa ser contra os poderes dominantes que aí estão. Mas, como você diz com razão, Lenín Moreno fechou veículos de mídia e prendeu dois jornalistas — eles ficaram na cadeia por setenta dias. Eles fecharam dezenas de páginas da web, incluindo até minha própria conta do Facebook. Todas as grandes corporações de notícias acobertam isso. Vamos ser claros — elas não estão interessadas em defender a liberdade de imprensa ou os direitos humanos. Elas tem seus próprios objetivos: podem brigar entre si, mas todas se unem para defender o sistema e todas se unem para enfrentar seus inimigos de classe, os líderes da esquerda. Por isso, a perseguição. Especialmente daqueles líderes comprometidos em derrotar o sistema.

Denis Rogatyuk

O que pode ser feito para acabar com essa situação? O que vocês, como líderes da esquerda global na América Latina e Europa respectivamente, oferecem como uma mensagem de esperança nesse momento crítico?

Rafael Correa

Você sempre tem que manter a esperança. Se perdermos a esperança, podemos muito bem ir para casa. Isso não significa que não estamos tristes em ver camaradas honestos na cadeia ou sendo perseguidos. Sou muito sortudo de estar na Bélgica ao invés da prisão, mas é doloroso ver a perseguição e ver esse país sendo destruído. Você não deve perder a esperança: nós deixamos uma marca, e agora estamos vendo que as pessoas já estão começando a reagir. Esse ano haverá três eleições presidenciais no Uruguai, na Argentina, e na Bolívia, e nós ganharemos provavelmente todas as três. Se eu pudesse ser candidato, também ganharia; e no Brasil, eles tiveram que prender Lula para impedi-lo de ganhar a eleição.

Não devemos ver as coisas em termos catastrofistas. Por exemplo, o PT ainda é a segunda maior força no Brasil, enquanto que nos anos 90, a esquerda estava em 3%. Ainda há esperança: nós deixamos uma marca, e tenho fé que nossos povos acordarão de novo. Nós temos que continuar trabalhando de uma maneira organizada. Então, cuidado com todos esses generais que chegam junto depois da batalha para nos criticar, dizendo que não deixamos organização ou consciência ou que não transmitimos nossos valores.

Mas esse foi o papel dos acadêmicos, por exemplo — e onde eles estão agora? Estão intimidados em silêncio ou estão na direita. Não estão protestando pela liberdade e democracia, como estavam antes. Eles se calaram, como cúmplices desonestos dessas atrocidades. Nos empurraram para uma posição mais visível, mas nós devemos entender que essa responsabilidade é de todo mundo: as pessoas mudam através de decisões coletivas. Eu tenho fé que as coisas mudarão. São tempos muito difíceis, mas como disse nosso grande herói equatoriano Eloy Alfaro, “Quanto mais escura a noite, mais próximo o alvorecer.”

Jean-Luc Mélenchon

Eu concordo com Rafael. O que está acontecendo aqui na Europa é terrível, com a emergência da nova — porém muito velha — extrema-direita. Na última vez isso terminou em guerra, e agora uma nova Guerra está sendo preparada contra a Rússia. Os americanos estão enfiando suas mãos na política europeia a fim de incitar confrontação com a Rússia, resultando em diversos tipos de terríveis ideias antirrussas.

Mas a coisa mais interessante aqui é a nova consciência entre o povo, especialmente a juventude, a respeito da questão ecológica e a necessidade da política — políticas de Estado — para resolvê-la. Nós precisamos de líderes comprometidos, recursos, dinheiro, determinação, e ação pública para lidar com a questão ambiental. Isso traz uma mentalidade coletiva, no bom sentido: não vamos escapar dessa crise individualmente, mas todos juntos.

Sobre os entrevistados

Rafael Correa foi presidente do Equador de 2007 a 2017.

Jean-Luc Mélenchon é um membro da Assembleia Nacional da França e é o fundador do França Insubmissa.

Sobre os entrevistadores

Denis Rogatyuk é um escritor, jornalista e pesquisador russo-australiano residente em Londres. Ele já escreveu para o Green Left Weekly, TeleSUR, LINKS, International Viewpoint e outras publicações.

Patricio Mery Bell é um jornalista, cineasta e consultor de comunicações chileno. Seus artigos têm sido publicados em RT, Panorama news, El Ciudadano, Kaosenlared, La República Ecuador, e outros.

19 de setembro de 2019

Coringa e o pânico moral

O pânico moral sobre filmes provocantes como “Coringa” é tão antigo quanto o próprio cinema. Filmes de Spike Lee, Oliver Stone, Luís Buñuel e Jean Renoir já sofreram a mesma acusação pela direita liberal. Na maioria das vezes são apenas mais uma prova do mérito de um filme – e de uma classe com medo de se reconhecer nas telas.

Eileen Jones



Tradução / O número de vezes na história em que filmes criaram um alvoroço que levou à violência é surpreendentemente pequeno, tornando as recentes previsões sombrias de que Coringa provavelmente inspirará caos em massa uma aposta ruim – possível em países sempre perturbados como os EUA, mas não provável.

Quando se trata de tumultos previstos nas exibições ao longo da história do cinema, uma experiência mais típica é a frustração de Luís Buñuel quando o público não se revoltou na estreia de seu ainda surpreendente filme de vanguarda Un Chien Andalou em 1929. (Se você é sensível, desvie o olhar quando a navalha se aproxima dos olhos da mulher.) Ele ficou furioso quando o filme que fez com Salvador Dali para agir como “um chamado ao assassinato” foi recebido com calorosos aplausos.

Críticos e especialistas histéricos previram tumultos urbanos para as sessões de Faça a Coisa Certa de Spike Lee em 1989, o que ajudou a fazer o filme ser ainda mais visto no que se mostraram ser experiências cinematográficas perfeitamente decorosas em todo o país. Mas, por outro lado, os assassinatos frenéticos e representados graficamente por Oliver Stone em Assassinos por Natureza (1994), que levaram ao seu banimento inicial na Irlanda e a uma liberação adiada nos Estados Unidos, tornaram-se marcantes por supostamente ajudar a inspirar assassinatos “copiados”, incluindo os massacres de Heath High School e Columbine High School.

Se você quiser falar sobre tumultos reais inspirados em filmes, pode citar Padmavati, um filme de Boolywood de 2018 sobre um romance do século XIV entre uma rainha Hindu e um imperador Muçulmano. Simples rumores de que havia uma sequência em desenvolvimento no filme contendo uma cena íntima fantasiosa entre os dois provocou a vandalização do cenário durante a produção por grupos hindus de direita, protestos nas ruas queimando carros e ônibus, o banimento do filme em quatro estados indianos, ameaças de cortar o nariz da estrela Deepika Padukone, o diretor Sanjay Leela Bhansali queimado em efígie e intervenção judicial para garantir o lançamento do filme com algumas mudanças prudentes.

O mais improvável tumulto que surgiu de um filme foi provavelmente A Regra do Jogo de Jean Renoir, que estreou em Paris no ano de 1939 em uma dupla aposta com um documentário patriótico sobre a história francesa. Organizações de direita que fizeram a exibição do filme vaiaram o retrato incisivo da classe dominante francesa. Brigas começaram e alguém tentou atear fogo no cinema. O filme estrelado foi um desastre comercial, banido na França pelo surto da guerra por seus efeitos “desmoralizantes”, e as cópias e os negativos do filme foram destruídos em um atentado pelos Aliados. Pensava-se que fosse um filme perdido, até uma única cópia sobrevivente ser descoberta em 1960, quando uma reavaliação crítica estabeleceu este como o auge do trabalho de Renoir.

Um membro do Partido Comunista Francês (PCF) e o principal cineasta a trabalhar em nome da Frente Popular, Renoir analisou o tumulto em torno de A Regra do Jogo com sua usual generosidade e compreensão:

Eu retratava personagens agradáveis e simpáticos, mas os mostrava em uma sociedade em processo de desintegração, para que fossem derrotados no início... A audiência reconheceu isso. A verdade é que eles reconheceram a si mesmos. Pessoas que cometem suicídio não se preocupam em fazer isso diante de testemunhas.

O furor em torno do novo filme Coringa começou não de uma sessão desastrosa, mas de uma estreia extremamente bem sucedida: foi ovacionado durante oito minutos no Festival de Veneza, e em sequência ganhou o prestigiado prêmio Leão de Ouro. Apenas para contextualizar, o Leão de Ouro vai para filmes como Rashomon, O Ano Passado em Marienbad, A Infância de Ivan, A Batalha de Argel, Os Renegados, Adeus Meninos, The Story of Qiu Ju, O Segredo de Vera Drake, Brokeback Mountain, e Roma. Apenas esperando que alguém esteja se divertindo em algum lugar, gosto de pensar que os europeus que votaram no Festival de Cannes estavam apenas nos trolando, antecipando o surto moral e estético entre os guardiões da cultura estadunidense na elevação de Coringa a padrões significativos de filmes de arte. Eu os imagino bebendo tanto até que o vinho saia pelo nariz.

No entanto, na verdade eles provavelmente foram sinceros, e sua reverência ao filme foi, para dizer o mínimo, inesperada para mais um filme com o Coringa, o gargalhante e amado vilão psicopata da DC Comics, um personagem que já foi interpretado três vezes em filmes de super-heróis, por Jack Nickolson (Batman,1989), Heath Ledger (Batman: O Cavaleiro das Trevas, 2008), e Jared Leto (Esquadrão Suicida, 2016). Mas com o altamente respeitado ator Joaquin Phoenix reconcebendo o papel como um raivoso e isolado incel branco da classe trabalhadora levado ao limite, esse aplauso chocou e irritou críticos de cinema e jornalistas de entretenimento. Houve uma enxurrada de comentários alarmistas desde então, incluindo especulações nervosas sobre a possibilidade de violência imediata como uma aparente resposta ao filme, como na crítica de Sarah Hagi na Jezebel: 

A pergunta na mente de todos quando assistirem Coringa é e será: o quão perigoso é isso? O público alvo de jovens homens brancos será inspirado por Coringa?

O precedente assustador é o massacre de Aurora, Colorado em que um jovem enlouquecido – supostamente chamando a si mesmo de Coringa – atacou uma plateia em uma exibição de O Cavaleiro das Trevas, matando doze pessoas e ferindo setenta. Porém, essa compreensível ansiedade percorrendo as discussões sobre o filme tende a ampliar as denúncias do próprio filme como um projeto inerentemente irresponsável socialmente, independentemente de sua qualidade. Há uma formulação em muitas críticas que pode ser resumida como “É bom, mas e daí?”.

Como Scott Tobias, editor de filmes do The A.V. Club, comentou

Coringa pode até ser um ótimo filme, mas soa como o equivalente cultural à fabricação de caminhonetes gigantescas em resposta às mudanças climáticas.

Uma ideia menos alarmante do que Coringa representa, pelo menos até agora, seria uma tentativa de fazer um filme de gênero a partir de material excessivamente familiar, encontrando um ângulo que o torne interessante e significativo novamente, como vemos com frequência. O maior problema percebido aqui parece ser que os resultados são muito poderosos e o público em geral os verá.

Se este fosse apenas um filme de arte que lidasse com as forças sociais que conduzem o movimento incel, por um autor respeitado, feito para uma audiência de nicho dos conhecedores de arte, não haveria tamanhas reações histéricas como a que veio da crítica de Leah Grenblatt na Entertainment Weekly’s, cujos editores optaram por lançar sua resenha do filme sem nota:

Entretanto a verdade é que o entretenimento não existe no vácuo e um filme que martela uma mensagem como esta repetidas vezes – que a vida é desagradável e curta; que ninguém se importa; que você também pode queimar tudo – parece volátil e assustador demais para se separar da violência real cometida por jovens como o Arthur Fleck de Joaquin Phoenix nos EUA quase todos os dias.

Estes críticos apertando repetidamente o botão do pânico misturam o perigo supostamente inerente ao conteúdo do filme com a questão de sua qualidade, o que reduz alguns à incoerência, como vemos no texto de David Ehrlick do IndieWire:

Coringa não é nem um divisor de águas e nem apenas “outro dia em Chuckletown”. É ambos. É bom o suficiente para ser perigoso e ruim o suficiente para que desejemos algo melhor. Vai virar o mundo de cabeça para baixo e nos deixar histéricos no processo. Para o bem ou para o mal, é exatamente o filme de que o Coringa gostaria.

Mesmo que denunciem o filme por razões morais, Ehrlich e outros críticos reconhecem – ainda que indiretamente – a criatividade invulgarmente ousada do filme, suas proezas técnicas e, especialmente, o desempenho perigosamente eficaz de Joaquin Phoenix em um papel projetado para criar uma identificação insidiosa com o público.

Pelo que podemos extrais desses relatos, o problema é que este filme é bom demais. A sua considerável qualidade é suspeita e a chave para sua malevolência.

E ainda pior do que ter o que poderia ser um filme poderosamente eficaz chegando em nosso caminho, nós temos que nos confrontar com seu diretor, Todd Phillips, que está sendo renegado e insultado por seus problemas como poucas vezes se viu com um diretor de um esperado novo filme de sucesso. Ehrlich o descreve como “um glorificado troll sem limites, que carece da disciplina ou da nuance necessárias para lidar com responsabilidade com um material tão perigoso...”

Outros apenas mencionam os trabalhos mais conhecidos de Phillips como um insulto suficiente por si só – Dias Incríveis, Caindo na Estrada e Se Beber, Não Case 1, 2, e 3, todas comédias – e talvez se refiram levemente à sua participação na chamada “galera da irmandade” (“frat pack“), um trio de diretores de comédia que inclui Judd Apatow e Adam McKay. A implicação parece clara de que o que há de errado com Phillips é que ele é um “parça” da faculdade – “parça” demais para ser capaz de lidar com um assunto tão volátil como um filme que mostra um homem psicótico colocando em ação as massas enfurecidas. Já vimos esse retrato em vários filmes nos últimos anos – exemplo 1: Bane, em The Dark Knight Rises. Podemos confiar nisso como fonte de terror para os liberais, pois, eles contemplam com repulsa absurdamente igual à ascensão política de Donald Trump e de Bernie Sanders.

Os esforços de juventude de Phillips, entretanto, ajudam muito a contextualizar o surgimento de Coringa como uma indicação de maiores ambições no cinema e a possibilidade de ele realmente ter feito um filme interessante. Até aqui ninguém parece intrigado pelo início da carreira de Phillips, que inclui alguns anos estudando na Tysch School of the Arts da Universidade de Nova York, onde ele fez o documentário Hated: GG Allin and the Murder Junkies (algo como “Odiados: GG Allin e os Drogados Assassinos”), um retrato de um escabroso roqueiro punk que teve lançamento nos cinemas e em DVD – algo quase inédito para filmes estudantis. Abandonando a faculdade para terminar Hated, ele trabalhou na lendária, decadente e abrangente Kim’s Video and Music, uma locadora especializada em filmes raros e voltados a iniciados, que “graduou” seu próprio grupo ilustre de notáveis ex-funcionários, que se tornaram cineastas, músicos e artistas. Ele co-dirigiu seu segundo documentário, “Frat House“, que trouxe uma sombria visão crítica da vida em uma fraternidade na faculdade e que ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, mas que afundou logo na estreia por causa de alegações de que membros da fraternidade teriam sido pagos para reencenar eventos. Seu terceiro filme, o “rockumentário” Bittersweet Motel (algo como “Hotel Agridoce”), levou Phillips em uma turné com a banda Phish, onde ele conheceu o diretor Ivan Reitman, e o resto, como se costuma dizer, é história.

O irônico resultado final de toda essa agitação crítica será revertido em mais ingressos, já que pessoas que haviam perdido todo seu interesse no gênero de super-heróis agora se sentem curiosas sobre que possível tratamento cinematográfico do Coringa poderia representar tal ameaça para a sociedade. Sugestões críticas nas entrelinhas (e às vezes além das entrelinhas), de que um filme deveria ser suprimido em nome do bem público sempre nos atrairão em manadas. Não estamos errados nessa reação – há uma boa chance de vermos algo interessante e o precedente histórico nos diz que sempre há a possibilidade de que vamos assistir a um filme realmente excelente, que deixou todo mundo nervoso por um bom motivo.

Sobre a autora

Eileen Jones é crítica de cinema da Jacobin e autora no Filmsuck, nos Estados Unidos. Ela também apresenta um podcast chamado Filmsuck.

Como as décadas do neoliberalismo levaram à era do populismo de direita

O ataque do neoliberalismo de direita à própria ideia de sociedade lançou as bases para a reação nacionalista de direita de hoje. Mas as mãos da esquerda também não estão totalmente limpas.

Daniel Zamora e Niklas Olsen


Milton Friedman speaks on May 9, 2002 during a White House event in Washington, DC. Alex Wong / Getty

Resenha de Wendy Brown, In the Ruins of Neoliberalism (Columbia University Press, 2019).

Tradução / No turbulento ano de 1968, o economista de Chicago e vencedor do Prêmio Nobel George J. Stigler apontou algumas idéias sobre como introduzir o “sistema de preços” no processo da democracia. Stigler era um dos amigos mais próximos de Milton Friedman e fazia parte de seu “pensamento coletivo” neoliberal desde o início. Os dois homens participaram do primeiro encontro da sociedade Mont Pèlerin em 1947, um dos eventos fundadores do movimento neoliberal. Nas décadas seguintes, os dois economistas de Chicago fizeram contribuições vitais para o que, segundo a cientista política Wendy Brown, tornou-se o objetivo principal da agenda neoliberal mundial: “a economização de todas as características da vida”, um projeto que buscava substituir, pelo sistema de preços, as formas mais políticas de tomada de decisão coletiva.

George Stigler propôs um modo específico para essa “economização”. Ele já havia fornecido modelos de custo / benefício para, por exemplo, investigar a taxa “ideal” de acidentes de carro ou perguntar se seria mais vantajoso bombardear o Japão “continuamente” ou “descontinuamente” em tempos de guerra. Desse ponto de vista, não devemos também ver a própria democracia como um sistema que tem um “custo”, e precisa ser “gerido” da maneira mais eficiente? O custo de eleições periódicas, pensava Stigler, era geralmente muito alto e “perturbador”, com todas as suas “campanhas desnecessárias”. Ao contrário de uma empresa privada, os termos de emprego dos representantes eleitos eram limitados no tempo. “Os custos de ‘recontratar’, argumentou, seriam excessivos e supérfluos, se os eleitores estivessem satisfeitos com seus “funcionários”. Talvez surpreendentemente, o “abandono de eleições periódicas” tenha se tornado para Stigler uma maneira mais racional de organizar a representação política, aproximando-a mais da “vida econômica ordenada”. Era sempre “dispendioso descobrir, examinar e treinar um novo trabalhador, e o trabalhador acha caro descobrir, explorar e mudar para um novo emprego ”, prossegue Stigler. Por que não, como no setor privado, “adotar a regra da posse indefinida?” Com um mandato presidencial entendido como um simples contrato de trabalho, um presidente poderia permanecer no poder enquanto seus empregadores – leia-se cidadãos – o quisessem lá. Stigler propôs que os eleitores pudessem convocar uma eleição por meio de uma petição exigindo que um décimo do eleitorado assinasse. Nos termos demográficos de hoje, isso representaria mais de 20 milhões de eleitores.

Além disso, para evitar um excesso de eleições (a democracia “excessiva” poderia facilmente degenerar em totalitarismo), Stigler acrescentou que “os peticionários de uma nova eleição pagariam seus custos ao Estado”. Essa “introdução do sistema de preços” no processo democrático permitiria “torná-lo responsivo aos desejos do eleitorado e aos custos das eleições”. A implementação de tal sistema implicaria, é claro, uma contenção muito estrita de política e democracia, dificultando a organização de eleições; considerando o “custo” de uma eleição, somente os ricos ou as empresas teriam recursos para contestar os funcionários eleitos. A “Política”, no sentido clássico, seria, para entender a expressão de Hayek, “destronada”, tornando a grande maioria dos cidadãos incapazes de moldar a ordem social coletivamente.

Após seu estudo anterior sobre o neoliberalismo (Undoing the Demos, 2015), o mais novo livro da teórica política Wendy Brown, Nas Ruínas do Neoliberalismo, enfoca esse esforço neoliberal para desmantelar o político e o social, e como esse projeto lançou as bases para a ascensão da política antidemocrática no Ocidente.

O frankenstein do neoliberalismo

Muita coisa aconteceu entre a publicação destes dois livros, no entanto. A história, como Marx escreveu certa vez, nunca segue uma evolução linear, mas é sempre feita de desacelerações e acelerações. Para um teórico político, os quatro anos que separam esses dois estudos parecem mais com um século. Trump e o Brexit constituem duas das novidades mais notáveis ​​da política contemporânea desde o triunfo político do neoliberalismo. À luz desses desenvolvimentos, Wendy Brown tenta entender como o que ela chama de “racionalidade neoliberal” preparou o terreno para o surgimento dessas “forças antidemocráticas”. Indo além e até revisando alguns de seus argumentos anteriores, ela examina mais de perto como o “modo neoliberal da razão” gerou algo que é realmente “radicalmente diferente da utopia neoliberal de uma ordem liberal inegalitária na qual indivíduos e famílias seriam pacificados politicamente pelos mercados.” Brown tenta explicar como, embora os proponentes centrais do neoliberalismo provavelmente não tenham imaginado ou visado nosso presente político e econômico, suas idéias e reformas funcionaram como um excelente “fertilizante” para nutri-lo. Portanto, Trump, cuja regra apela ao niilismo, fatalismo e ressentimento, e se apóia em uma aliança antidemocrática entre “tradicionalistas empresariais e tradicionalistas moral-religiosos”, não deve ser entendido como a criação pretendida pelo neoliberalismo, mas sim seu “Frankenstein”.

Baseando-se parcialmente em Family Values, o brilhante estudo de Melinda Cooper sobre a aliança conservadora neoliberal-social, Wendy Brown mostra como, na obra de Hayek, a moral e o mercado constituem, juntos, os fundamentos da liberdade, sendo ambos “organizados espontaneamente e transmitidos pela tradição, e não pelo poder político”. Os sinais descentralizados e impessoais do mercado substituem a deliberação política coletiva, e a moral tradicional constitui um substituto apropriado para a “sociedade concebida como busca comum organizada”. Ambas são “ordens espontâneas”, e não propósitos “projetados” que nos colocariam na ladeira escorregadia da “democracia ilimitada”. No neoliberalismo, a moral funciona como uma alternativa útil ao social e ao político, desviando os desafios das desigualdades e das hierarquias, tradicionais, que podem distorcer o bom funcionamento dos mercados.

Brown admite que seu foco inicial no impulso à “economização” falhou em abordar como o violento ataque do neoliberalismo contra a própria noção de “sociedade” ou de “política” reformulou nossas sociedades. “Desmantelar a sociedade” e “destronar a política” constituem nesse contexto os dois componentes centrais do projeto “moral-político” que abriram o caminho para o que Brown chama de “retorno do recalcado”. Ao usar os mercados e a moral para apagar a própria noção de soberania popular e justiça social, o neoliberalismo provocou o surgimento de uma forma “enfurecida” de regra majoritária, caracterizada pelo nacionalismo de extrema-direita e pelo fundamentalismo religioso, livre de qualquer forma de normas civis e alimentada pelo ressentimento. Trump, portanto, pode não ter sido “causado” pelo neoliberalismo, mas foi produzido nas “ruínas” dele. De seus restos irromperam essas ferozes “forças sociais e políticas a que os neoliberais outrora se opuseram, subestimaram e deformaram com seu projeto de desdemocratização”.

O relato estimulante de Wendy Brown, no entanto, sofre com seu foco no neoliberalismo conservador dos anos 80, subestimando a contribuição da esquerda para a aceitação, desenvolvimento e disseminação do neoliberalismo. Embora ela ocasionalmente pareça reconhecer que a noção de “social” e uma certa concepção de deliberação política desapareceram da esquerda também durante esse período, esse tema desempenha um papel marginal em sua narrativa. E, no entanto, sabemos pela história intelectual de Daniel Rodgers do final do século XX como, ao menos nos EUA, a esquerda contribuiu para uma mudança no pensamento: idéias tradicionais de preocupações e instituições coletivas foram substituídas por uma maneira de pensar mais fraturada e individualizada sobre a sociedade, que enfatizava escolha, agência e desempenho, e passou a confiar na metáfora do mercado. Nancy Fraser também apontou o desaparecimento da social-democracia ao estilo do New Deal e sua substituição por um “neoliberalismo progressista” que especificamente “esvaziou os padrões de vida da classe trabalhadora e da classe média”, ao mesmo tempo em que promovia as correntes “mainstream” de novos movimentos sociais (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo e direitos LGBTQ), por um lado, e setores empresariais “simbólicos” e de serviços de ponta (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood), por outro. ”Essa convergência entre esquerda e direita se desenrolou em vários terrenos do pensamento e prática políticas que são ignorados em Nas Ruínas do Neoliberalismo.

O consumidor derrota o cidadão

Parte do problema no relato de Wendy Brown é seu entendimento restritivo de como o neoliberalismo entendeu sua relação com a “soberania popular”. Em seu relato, parece essencialmente um projeto conservador. Mas ela não reconhece que ele englobava uma visão alternativa da boa sociedade que poderia ser facilmente apropriada para uma perspectiva progressiva. Mais importante ainda, a tentativa neoliberal de reduzir as noções tradicionais de democracia acompanhou a invenção de uma nova noção de “democracia de mercado” (enquadrada com positiva e supostamente superior, que se inspirou na idéia de soberania do consumidor. Ao traçar um paralelo direto entre a escolha no mercado e nas urnas, os neoliberais retratavam o “voto” diário dos consumidores soberanos no mercado como uma solução superior para garantir a representação e a participação em processos sociopolíticos para o cidadão individualmente. Esta é uma solução que supostamente permite a escolha individual sem limites pela vontade da maioria e procura limitar e, em última instância, substituir as instituições tradicionais da democracia política por aquelas que promovem a dinâmica do capitalismo de mercado. Nas palavras de Milton Friedman:

"Quando você vota diariamente no supermercado, obtém exatamente o que pediu e o mesmo acontece com todos os outros. A urna produz conformidade sem unanimidade; o mercado, unanimidade sem conformidade. É por isso que, tanto quanto possível, é desejável usar as urnas apenas para as decisões em que a conformidade é essencial."

Juntamente com outras noções que apelam à liberdade pessoal (pense no “empreendedor de si mesmo”), a soberania do consumidor proporcionou ao neoliberalismo apelo popular e legitimidade. O ponto central aqui foi, obviamente, a idéia de que a boa sociedade deve ser criada por meio de de mecanismos de mercado, e não das instituições e mecanismos tradicionais do Estado de Bem-estar Social.

Hoje, essa ideia também é amplamente difundida na esquerda – não apenas porque esta falhou em desenvolver uma alternativa ao neoliberalismo, mas também porque abraçou ativamente e ajudou a disseminar as “idéias progressistas” do neoliberalismo, como a aplicação da soberania do consumidor em vários contextos sociais.

Na disciplina de economia da era pós-guerra, estudiosos de esquerda e centristas como Kenneth Arrow e Anthony Downs contribuíram tanto quanto Milton Friedman e George Stigler para as novas tendências de elevar a soberania do consumidor à única norma segundo a qual o bem-estar social pode ser medido, retrabalhando o ideal da democracia política tradicional, interpretando-a através de metáforas do mercado e desafiando o papel do Estado como tomador de decisão coletivo e planejador social.

Na política, os partidos de centro-esquerda nos anos 1990 não apenas seguiram os passos de seus antecessores neoliberais, privatizando empresas estatais para ampliar a escolha individual, mas deram um passo adiante ao reformar o próprio setor público, modelando-o de acordo com o mercado, retratando o cidadão como seu “cliente”, reformulando assim a democracia política como um mecanismo de escolha entre produtos ou bens disponíveis.

No campo da crítica cultural, foram intelectuais de amplo espectro político, incluindo Tom Wolfe, Marshall McLuhan, Jürgen Habermas e Roland Barthes, que, na década de 1960, romperam com uma longa tradição de se preocupar com os efeitos deletérios do consumo de massa e começaram a ver a dinâmica do mercado sob uma luz mais positiva, enfatizando os elementos de prazer, jogo e troca simbólica como a essência de uma cultura de consumidor vibrante e potencialmente libertadora e individualizante.

Comercializando a igualdade

Outro resultado da adoção do pensamento de mercado pela esquerda tem sido uma notável comercialização da igualdade. De fato, a santidade do mecanismo de preços para os neoliberais não era, como Wendy Brown sugere, anti-igualitária per se; de fato, gradualmente encontraria muitos defensores dentro da esquerda. Contra uma visão na qual instituições sociais e deliberação política seriam colocadas no centro da idéia de igualdade, através da socialização da riqueza e de generosos serviços públicos ou previdência social, surgiu uma nova perspectiva, centrada em maneiras de redistribuir a riqueza, preservando o sistema de preços como a ferramenta central para alocar recursos na sociedade. Em meados dos anos 1950, como argumentou o historiador Peter Sloman para o contexto britânico, algo que poderia ser chamado de “liberalismo redistributivo do mercado” deslocou lentamente abordagens da justiça social focadas em “negociação salarial, seguro contributivo e serviços sociais” em favor de um visão em que “a pobreza e a desigualdade são melhor aliviadas por transferências de renda do que por intervenção direta nos mercados de trabalho e produtos”. Uma nova geração de economistas, incluindo pessoas como Anthony Atkinson, que basicamente criou o campo da desigualdade em economia, passariam a ver as políticas sociais baseadas no serviço público como formas menos eficientes de combater a pobreza do que os pagamentos diretos por transferência.

Ao contrário do que Wendy Brown sugere, o próprio Milton Friedman não foi inicialmente hostil à igualdade. Suas principais críticas, até o final dos anos 1950, não se referiam ao fato da redistribuição per se, mas às ferramentas usadas para alcançá-la. Ele admitiu ter “fortes inclinações igualitárias”, mas pensou que “a principal falha da filosofia coletivista” “não está em seus objetivos”, mas em “meios”. “A falha em reconhecer a dificuldade do problema econômico da eficiência” diz Firedman, “levou à leitura de que se deve descartar o sistema de preços sem que se colocasse um substituto adequado, e à crença de que seria fácil fazer melhor com um planejamento central”.

Esse deslocamento não era apenas uma questão técnica, no entanto. A mudança de uma visão para outra implicou não apenas uma mudança na compreensão da igualdade, mas também a importância atribuída à política na formação da ordem social. Embora as instituições sociais e os serviços públicos sejam submetidos a deliberação pública e representem uma maneira de a sociedade moldar coletivamente seu próprio destino, reduzir a política social à transferência de renda “esvazia” a igualdade de qualquer tipo de deliberação coletiva. Preserva a igualdade como horizonte moral, mas a restringe como espaço político. Essa mudança obviamente fez parte do programa de “neoliberalismo progressivo” da Terceira Via na década de 1990. Os blairitas [Nota: em alusão a Tony Blair, primeiro ministro britânico que defendeu a terceira via como plataforma política] estavam, em certa medida, preocupados com a redistribuição – embora geralmente limitados à redução da pobreza, em vez de um ataque mais amplo à desigualdade –, ao mesmo tempo em que promoviam a expansão dos mercados em nível global e introduziam a reforma do setor público inspirada na Nova Gestão Pública [New Public Management, paradigma administrativo que se inspira na lógica do setor privado]. Ambos foram promulgados em nome da soberania do consumidor, juntamente com promessas de liberdade e autonomia individuais.

Como Wendy Brown corretamente observa, parte desse sucesso provavelmente se deve a como o neoliberalismo foi capaz de limitar radicalmente nossa concepção de normatividade e coerção. No período pós-guerra, os economistas foram extremamente eficazes em popularizar a idéia (inventada pela primeira vez nos anos 1930 pelo economista neoliberal Lionel Robbins) da economia como uma ciência “sem valor” que deveria apenas nos informar sobre as escolhas que temos, em vez de “normativamente” decidir por nós. A economia teve que se distanciar de qualquer noção de “bem viver” ou filosofia moral, de qualquer telos aristotélico compartilhado. Coerção e normatividade, nessa configuração, são essencialmente um problema de qualquer política que tente definir normas ou instituições coletivas com o objetivo de implementar coisas como “direitos sociais”. O papel da economia seria essencialmente, como Friedman colocou, maximizar a “liberdade efetiva” – entenda-se “escolha dos indivíduos”. Embora essa redefinição tenha se tornado uma excelente oportunidade para a direita conservadora para, como sugere Brown, enxergar princípios (e leis baseados neles) de igualdade e inclusão como políticas corretivas tirânicas”, teve também seu efeito sobre a esquerda. Seja no abraço da Terceira Via à “igualdade de oportunidades” contra a “igualdade de condições” ou, no campo da teoria social e política, visível na virada antiestatista tomada pela Nova Esquerda no final dos anos 1960.

Uma esquerda anti-Estado

No “destronamento da política” de Hayek, estudiosos como Michel Foucault, Pierre Clastres, Antonio Negri ou, mais recentemente, James C. Scott pareciam ter encontrado uma maneira de “cortar a cabeça do rei”. Fortemente crítica da “velha esquerda ”, da defesa do pleno emprego “centrada no trabalho ”, da“ biopolítica da previdência social” ou da concepção de mudança social centrada no Estado, essa esquerda intelectual encontraria afinidades eletivas com os sinais descentralizados e impessoais do mercado como uma maneira alternativa para pensar em poder e resistência. Na busca de maneiras alternativas de conceitualizar a mudança social fora do modelo de soberania – ou seja, fora do domínio da maioria e da conquista do poder do Estado –, às vezes viam, junto com os neoliberais, o Estado como o principal ou pior tipo de coerção.

Se, no início dos anos 1920, o advogado e economista Robert Lee Hale havia legitimado o New Deal, argumentando que a coerção era uma parte constitutiva da vida econômica do capitalismo, não se limitando a ações propositais e deliberadas de uma instituição, nos anos 1970 vários teóricos sociais dentro da esquerda seriam incapazes de fornecer uma teoria da coerção que também abordasse o funcionamento do mercado. Podemos encontrar um retrato esclarecedor de como as instituições de Previdência Social moldam nossa relação conosco em Foucault; e de como “ver como um Estado” leva à padronização em massa, em Scott. Mas nenhum desses autores foi capaz de nos fazer pensar de maneira substantiva sobre como coerção e normalização não são apenas produtos de instituições centralizadas e simplesmente não desaparecem com o desaparecimento dessas instituições. De fato, eles moldaram implicitamente uma estrutura intelectual na qual o mercado parece menos uma maneira pela qual as normas são impostas do que um espaço mais eficaz para subvertê-las.

O próprio Friedman não tinha descrito o mercado como um genuíno “sistema de representação proporcional”, protegendo as preferências das minorias através de sua “ausência de coerção”? No mercado, ele argumentou, “cada homem pode votar”, “pela cor do laço que deseja e obtê-lo; ele não precisa ver que cor a maioria deseja e, em seguida, se é minoria. “Produzindo conformidade sem unanimidade, o mercado também poderia ser um espaço menos coercitivo para experimentos em estilos de vida alternativos. Isso geralmente assumia a forma de modos alternativos de consumo, oferecendo maneiras de promover a “mudança social” por meio de escolhas individuais e éticas.

Implícita e explicitamente, parte da esquerda participou da divulgação dessa falsa dicotomia. O Estado de Bem-estar do pós-guerra era altamente normativo e visava moldar a estrutura familiar em torno do ganha-pão masculino e do operário fordista. Mas, por definição, e talvez essa seja uma das principais tarefas intelectuais para nós hoje, todas as políticas – estatistas ou neoliberais – são normativas. Se decidirmos conceder a todos uma renda básica em vez de assistência médica gratuita, substituiremos uma certa normatividade (que define certos assuntos através de certos “direitos sociais”) por outra (que faz da “escolha individual” no mercado a prioridade). O mercado não levou a uma sociedade menos normativa, mas apenas àquela em que o domínio da normatividade era ainda mais desigual.

O abandono, por parte da esquerda, do projeto de imaginar e construir instituições coletivas dedicadas à criação da boa sociedade é um componente crucial da nossa situação atual. É no vazio deixado pelo “neoliberalismo progressista” que prosperam os trunfos do mundo. Em outras palavras: se Wendy Brown tem razão em apontar o fracasso do neoliberalismo em se livrar do político e do social, ela captura apenas metade da imagem.

Sobre os autores

Daniel Zamora is a postdoctoral sociologist at the Université Libre de Bruxelles and Cambridge University. His book, Le Dernier Homme Et La Fin De La Révolution: Foucault après Mai 68 (The Last Man and the End of the Revolution: Foucault After May 68) coauthored with Mitchell Dean, will be published in English by Verso in 2020.

Niklas Olsen is associate professor in history and chair of the Center of Modern European Studies at the University of Copenhagen. He is the author of The Sovereign Consumer. A New Intellectual History of Neoliberalism.

O topo acima de todos

Ajuste fiscal via corte de gastos e benefícios sociais mostra o plano do governo

Laura Carvalho


Jair Bolsonaro durante a solenidade de sanção da Lei 3715/19, que altera o estatuto do desarmamento. Marcos Corrêa/PR

Diante do drástico quadro orçamentário de 2020, imposto pelo teto de gastos, a equipe econômica do governo pretende aproveitar-se do desastre anunciado para livrar-se de diversas obrigações constitucionais que impedem um corte maior de despesas, como a correção do salário mínimo pela inflação e a vinculação de receitas para a saúde e a educação.

Como destacaram os autores do artigo intitulado "Por que cortar gastos não é solução para o Brasil ter crescimento vigoroso", publicado nesta Folha no último sábado (14), um ajuste fiscal focado em gastos e benefícios sociais reduz justamente a dimensão redistributiva do Estado brasileiro.

Em vez de trabalhar para eliminar o caráter regressivo da tributação, o plano da equipe econômica parece ser o de tornar o Estado brasileiro concentrador de renda em seu conjunto por meio da "desvinculação, desobrigação e desindexação" de despesas.

Como mostram os pesquisadores Fernando Gaiger Silveira, Fernando Rezende, José Roberto Afonso e Jhonatan Pereira no Working Paper n. 115 do International Policy Center for Inclusive Growth, os benefícios sociais reduzem a desigualdade de renda no Brasil —medida pelo índice de Gini— em 5,5%. Já os gastos sociais com saúde e educação reduziriam essa medida em 18%.

Os autores mostram ainda que o efeito redutor de desigualdades dessas despesas aumentou entre as Pesquisas de Orçamento Familiar de 2003 e a última do IBGE, de 2009, sobretudo por conta da expansão do gasto nessas áreas ao longo dos anos 2000. Em 2003, o efeito negativo sobre o índice de Gini era de só 2,4% no caso de benefícios sociais e 13,1% para gastos em saúde e educação.

A redução de desigualdade gerada pelos gastos e benefícios sociais em seu conjunto em 2009 —ainda que com exceções que incluem, por exemplo, as despesas previdenciárias do regime próprio de servidores públicos— foi bem maior do que o necessário para compensar o aumento de desigualdade gerado por nosso sistema tributário, por exemplo.

Isso porque os tributos indiretos sobre o consumo e a produção, que atingem uma proporção maior da renda dos mais pobres, aumentam a desigualdade em 3,5%, enquanto os impostos diretos, sobre a renda e o patrimônio, a reduzem em 2,6%.

Além disso, parar de corrigir o salário mínimo pela inflação, deixando-o perder valor real, não afeta apenas o piso de diversos benefícios sociais destinados aos mais pobres, mas também o piso salarial do mercado formal de trabalho. A tese de doutorado de Bruno Komatsu, orientada por Naercio Menezes Filho, estima que entre 2007 e 2011, 68,6% da redução na desigualdade salarial entre homens deveu-se a aumentos do salário mínimo.

Por fim, em meio à recuperação mais lenta da história das crises, a adoção de medidas que ampliam nossas abissais desigualdades afasta também qualquer possibilidade de retomada mais rápida da economia. Afinal, os mais pobres consomem uma parcela muito maior de sua renda do que os mais ricos, fazendo com que cada real tributado no topo da distribuição e transferido para a base por meio de benefícios sociais tenha um efeito multiplicador sobre a renda e o emprego.

Com as taxas de juros mais baixas, não faltam agendas alternativas compatíveis com a estabilidade da razão dívida-PIB no curto prazo, que reduzem desigualdades e estimulam o crescimento. Quando escolhe a via dos cortes de gastos e benefícios sociais, a equipe econômica deixa muito claro a que veio: atender os interesses do topo de nossa pirâmide distributiva.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

17 de setembro de 2019

O futuro da filosofia política

Durante cinco décadas, a filosofia política anglófona foi dominada pelo igualitarismo liberal de John Rawls. Com o liberalismo em crise, será que estas ideias sobreviveram ao seu tempo?

Katrina Forrester


Imagem: John Rawls (centro), Jeremy Corbyn (esquerda), e Robert Nozick (direita)

Desde as convulsões da crise financeira de 2008 e a turbulência política de 2016, tornou-se claro para muitos que o liberalismo está, em certo sentido, fracassando. A turbulência deu uma pausa aos economistas, alguns dos quais responderam renovando o seu estudo sobre a desigualdade, e aos cientistas políticos, que desde então se voltaram em massa para problemas de democracia, autoritarismo e populismo. Mas os filósofos políticos liberais anglo-americanos têm menos a dizer do que poderiam.

O silêncio deve-se em parte à natureza da filosofia política hoje - às questões que considera valer a pena colocar e às que deixa de lado. Desde Platão, os filósofos sempre perguntaram sobre a natureza da justiça. Mas durante as últimas cinco décadas, a filosofia política no mundo de língua inglesa tem se preocupado com uma resposta específica a essa questão desenvolvida pelo filósofo americano John Rawls.

O trabalho de Rawls em meados do século XX marcou o início de uma mudança de paradigma na filosofia política. Na sua esteira, os filósofos começaram a explorar o que significavam justiça e igualdade no contexto dos modernos estados de bem-estar social capitalistas, usando esses conceitos para descrever, com detalhes impressionantes e meticulosos, a estrutura ideal de uma sociedade justa - uma que acabou por se assemelhar muito a uma versão da social-democracia do pós-guerra. Trabalhando dentro deste quadro, elaboraram desde então um conjunto de princípios morais abstractos que constituem a espinha dorsal filosófica do liberalismo moderno. Estas ideias foram concebidas para nos ajudar a ver o que a justiça e a igualdade exigem - da nossa sociedade, das nossas instituições e de nós próprios.

Esta é uma história de triunfo: o projeto filosófico de Rawls foi um grande sucesso. Não é que os filósofos políticos posteriores a Rawls não discordassem; argumentos refinados e acalorados são o que os filósofos fazem de melhor. Mas ao longo das últimas décadas construíram um consenso robusto sobre as regras fundamentais do jogo, concebendo-se como envolvidos em um projeto intelectual comum com um quadro conceitual compartilhado. Os conceitos e objetivos que regem a filosofia política têm sido, durante gerações, mais ou menos tidos como garantidos.

Mas se a filosofia política moderna está ligada ao liberalismo moderno, e o liberalismo está fracassando, talvez seja altura de perguntar se estas ideias aparentemente intemporais sobreviveram à sua utilidade. As ideias de Rawls foram desenvolvidas durante um período muito distinto da história dos EUA, e a sua teoria tem uma ligação íntima com a democracia liberal do pós-guerra. A filosofia política liberal é cúmplice dos seus fracassos? Estará a filosofia política, tal como o próprio liberalismo, em crise e precisando de reinvenção? E se sim, como será o seu futuro?

*

Rawls publicou A Theory of Justice em 1971, embora ele estivesse trabalhando em suas ideias por mais de vinte anos. Suas 600 páginas forneceram uma maneira para os filósofos julgarem a sociedade de acordo com dois princípios de justiça — um princípio de liberdade, que afirma os direitos e liberdades básicos dos cidadãos, e de igualdade, que exige que as desigualdades sejam limitadas e os recursos organizados de modo que beneficiem os membros menos favorecidos da sociedade. A visão de Rawls era de uma sociedade idealmente justa — uma "democracia proprietária", onde as desigualdades eram fortemente circunscritas e todos tinham uma participação.

Rawls apoiou suas alegações com um conjunto complexo de argumentos — o mais famoso, sua ideia de uma "posição original", um experimento mental em que as partes por trás de um "véu de ignorância" escolhem princípios de justiça de acordo com os quais a sociedade pode ser organizada, regulada e julgada. Como esses conceitos e muitos outros ilustram, Rawls inventou uma linguagem inteira, transformando o vocabulário conceitual da filosofia política em um grau sem precedentes. No final do século XX, inúmeros livros foram dedicados à elaboração de seus termos.

Uma razão pela qual as ideias de Rawls tiveram um impacto tão profundo é que os filósofos acreditavam que elas preenchiam um vácuo de imaginação filosófica. Muitos filósofos políticos disseram que o campo morreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando se tornou impossível pensar sobre justiça ou utopia; graças à perspectiva predominante de antitotalitarismo, uma ladeira escorregadia para o autoritarismo foi vista por trás de cada reforma progressiva. Foi nesse contexto que A Theory of Justice foi anunciada como tendo revivido a filosofia política, dando forma filosófica ao sonho de uma sociedade justa que os liberais encontraram incorporados na social-democracia do pós-guerra. E é notável o quão bem-sucedidos o livro e as ideias de Rawls se tornaram: apenas uma década após sua publicação, uma bibliografia listou 2.512 livros e artigos em conversa com eles. Não é exagero dizer que, ao longo da década de 1970, a filosofia política foi refeita à sua imagem.

As ideias de Rawls e de seus alunos se fundiram em uma doutrina conhecida como "igualitarismo liberal". A princípio, seus leitores perguntaram se seus argumentos funcionavam, quanta igualdade eles exigiam e o que significavam na prática — liberalismo, socialismo ou algo completamente diferente. Com o tempo, sua teoria de "justiça como equidade" e seus princípios de liberdade e igualdade foram aplicados a novas situações morais e políticas. A lógica da filosofia liberal em direção a maior abstração e complexidade levou os filósofos a olhar para quebra-cabeças filosóficos desafiadores, e eles encontraram muito na teoria de Rawls: que tipos de desigualdades entre as pessoas eram injustas (e que tipos eram permitidos); como instituições, como tribunais, e procedimentos democráticos deveriam ser estruturados para facilitar o florescimento individual e coletivo; a relação conceitual entre ideias como igualdade e liberdade, justiça e equidade, moralidade e responsabilidade; e as questões clássicas de "justiça distributiva" — quem obtém o quê (não apenas riqueza e renda, mas também autorrespeito) e quem deve o quê a quem.

Em meados da década de 1970, as ideias de Rawls estavam sendo estendidas em novas direções. Alguns usaram demandas por justiça global, originárias do Sul Global, para atualizar a teoria de Rawls para uma nova era de interdependência internacional. Outros, motivados pela crise ambiental, abordaram obrigações para com as gerações futuras e desenvolveram novas teorias de justiça intergeracional. Gerações subsequentes de filósofos políticos contestariam os métodos e conceitos de Rawls, mas para muitos eles assumiriam a aparência de senso comum; mesmo aqueles que se opunham a ele eram moldados por ele. No final do século XX, os teóricos políticos anglófonos operavam na sombra da teoria da justiça, e Rawls havia se tornado uma espécie de santo padroeiro, o visionário por trás de um sonho igualitário de justiça distributiva. "Filósofos políticos", escreveu o filósofo libertário Robert Nozick já em 1974, "agora devem trabalhar dentro da teoria de Rawls ou explicar por que não".

The apparatus Rawls built became not only a doctrine to be consulted in light of any new problem, but also the philosophical architecture of a highly flexible and adaptable ideology—the ideology of modern liberalism. That flexibility was its philosophical beauty: it provided a general framework for answering countless particular questions. In this way, philosophical liberalism became synonymous with Rawls, and political philosophy came to stand for a kind of liberalism.

But there was an irony to this Rawlsian renewal of philosophy. The 1970s also saw the collapse of the social liberalism that surged to dominance after World War II, propelled by the concrete political and economic successes of capitalist welfare states. As those states faced fiscal and legitimacy crises, neoliberal ideologues and policymakers gained power, and ideas of the public interest and common good fractured. Viewed in this context, Rawls’s program seemed to have spectacularly bad timing. The publication of his grand philosophical defense of the welfare state came on the eve of its crisis: to some it looked as if it hailed from a bygone era, the last gasp of a dying ideology. The success of Rawls’s theory in the coming decades only deepened its untimeliness: the more welfarism fractured in politics, the more entrenched Rawls’s arguments became in political philosophy.

The story of Anglo-American liberal political philosophy is therefore not just a tale of philosophical success. It is also a ghost story, in which Rawls’s theory lived on as a spectral presence long after the conditions it described—and under which it emerged—were gone. Rawls had intended his theory to be dynamic, but in practice it was haunted by the assumptions of postwar liberalism, and it lost its grip on reality as reality itself transformed.

Liberal egalitarianism was formulated in a very different society from our own—one with steady growth, lower economic inequality, higher union density, and greater racial and gender inequality, in which welfare systems had widespread legitimacy even as they were exclusionary, piecemeal, and unstable. It was also a society forged through war and empire, structured by the Cold War and sustained by the Bretton Woods settlement. This postwar liberalism in which Rawls’s theory emerged was not quite the rosy social democracy some imagine it to have been.

And, in fact, Rawls’s “property-owning democracy” was never a simple defense of the welfare state. His unpublished papers reveal that as a young man writing in the 1940s and early 1950s, Rawls defended a much more minimalist liberalism than that for which he is now remembered. He was wary of concentrations of power (especially in the state), worried about coercion (by corporations but also unions), and hungry for social stability. He started off closer to some early neoliberals than social democrats, though he gradually moved to the left.

An ideology of liberal consensus reigned in the postwar years: it was widely assumed by white affluent liberals that U.S. society was built on a core of consensus, or at least its real possibility. Rawls was no different. His philosophy reflected many of the contradictions of postwar liberalism and its afterlives, both its successes and its limits. The 1960s, when Rawls put the finishing touches to his theory, was the age of affluence, civil rights, and the Great Society, but it also marked a period of urban crisis and mass incarceration, and the beginning of a new era of deindustrialization and financialized capitalism in which public investment was cut and the labor movement quashed. Philosophers working in the Rawlsian framework assumed the triumphs but did not yet foresee the costs. When Rawls first penned his theory, he thought things were getting better: after the civil rights movement would come racial liberalism; the excesses of capitalism could be contained, and inequality limited. By the time he published his ideas in 1971, it reflected the optimism of an earlier age. But Rawls’s untimeliness was part of his success: as the social movements of the 1960s shattered the postwar liberal consensus, Rawls’s theory—not yet published—survived the turbulence unscathed. When it emerged, it provided the basis for a new consensus, at the very moment other liberal theories were in crisis.

The political theory born from Rawls’s interpretation of postwar liberalism was flexible: it started as a minimalist liberalism, but it could be stretched into a justification for liberal socialism. Yet it had a distinctive character, which had consequences for the future shape of political philosophy. It focused on juridical and legislative institutions but assigned a smaller role and less value to other social, political, and international institutions. It was based on a deliberative vision of politics that saw democracy as modelled on discussion. Its distributive framework squeezed out other ways of thinking about the dynamics and organization of economic, social, and political life.

These aspects of Rawls’s vision constrained the kinds of politics it could incorporate or make sense of. As his theory was widely taken up, ideas incompatible with these parameters were set aside or dropped out of mainstream philosophical discourse altogether. Liberal philosophers dispensed with older arguments and concerns—about the nature of the state, political control, collective action, corporate personality, and appeals to history. Their conceptual choices often had political implications, regardless of the political motivations of the theorists themselves, who sometimes became trapped in conceptual structures of their own collective making. As subsequent generations built on the arguments of their forebears, a philosophical paradigm took on a political shape that none of its discrete theorists might have intended. It had its own logic and its own politics, which helped determine what ethical and political problems would count as sufficiently puzzling to warrant philosophical concern.

For example, liberal egalitarians tended to insist that what mattered were institutional solutions to current inequalities; past injustices weren’t relevant, and arguments that relied on historical claims were rejected. That meant that demands for reparations for slavery and other historical injustices made by Black Power and anti-colonial campaigns in the late 1960s and 1970s were rejected too. It also meant that political philosophers in the Rawlsian strain often read later objections to the universalist presumptions of American liberalism as identitarian challenges to equality, rather than as critiques informed by the history of imperialism and decolonization.

As the concerns of philosophers were consolidated, facility with Rawlsianism became the price of admission into the elite institutions of political philosophy. Many on the margins saw that it was only by adopting the form of liberal egalitarianism or its mainstream alternatives that other ideas—Marxian, feminist, critical race, anticolonial, or otherwise—could be considered. Just as often, rival political visions or arguments were not rejected outright, but accommodated within the liberal egalitarian paradigm—often in a way that diffused their force. When marginalized ideas were taken up by liberal philosophers, they were frequently distorted to cohere with the larger paradigm. Analytical Marxism was engaged insofar as Marxism could be made into a theory of property distribution, and thus compatible with the Rawlsian focus of distributive justice. The same was true for democratic ideas, which had to be made compatible with theories of discussion and deliberation. As the British philosopher Brian Barry made explicit in debates that lie at the origins of global justice theory within philosophy, in order to fit the canons of justice theory one needed to “domesticate” the demands by theorists of the New International Economic Order for the overhaul of relations between Global North and South. The very capaciousness of liberal philosophy squeezed out possibilities for radical critique.

In this moment of conceptual consolidation, the political crises of the 1970s largely passed Anglophone liberal philosophers by. Few wrote about crises of legitimacy and the challenges of post-industrial society. Many social theorists were trying to address the collapse of Marxist and liberal grand narratives—by rethinking the subject of the working class, and by moving analyses of work beyond the factory to the school, prison, clinic, and bedroom. Rawlsians did not worry much about these collapses or the social changes these rival theories sought to explain—changes of class, capital, work, the state, or the subject. Instead they offered a new grand system at a time when many other systems were rejected. It was in part because of this refusal to engage these new challenges that liberal egalitarianism survived the undoing of the postwar liberal settlement.

This is not to say that political philosophy was untouched by political change. In the 1980s, a number of liberal and Marxist philosophers developed a rival egalitarianism—“luck egalitarianism,” as it has become known—designed to address the limitations of Rawls’s institutional focus, which they thought let individuals off the hook. They explored questions of individual responsibility and control over choices. Many were leftists, but they took on an individualizing discourse of responsibility, dependency, choice, and market solutions identified with the New Right. Others challenged proceduralism and marketization in the name of community or human rights. A school of thought known as communitarianism became the dominant alternative; its advocates prioritized community over the individual and the social self over the atomistic, liberal one (though in practice many communitarians returned to ideas that Rawls had himself begun from and left behind). The Rawlsian liberal’s focus remained with juridical, legislative and democratic institutions and individuals. What both they and their communitarian critics missed were the larger changes to the administrative state and the rise of neoliberal policies—those that outsourced and privatized public welfare functions, expanded the state’s carceral functions and the reach of public management, and introduced competition, deregulation, and new transnational forms of clientelism and governance.

These blind spots didn’t stop Rawls’s theory from remaining the touchstone for both his followers and his critics. The rise of Rawlsianism is thus a story of triumph—the triumph of a small group of affluent, white, mostly male, analytical political philosophers who worked at a handful of elite institutions in the United States and Britain, especially Harvard, Princeton, and Oxford, and constructed a universalizing liberal theory that took on a life of its own. They began from where they were, focusing almost entirely on North American and Western European welfare states, except in their imagination of the global. Yet they wanted their political philosophy to have a broader reach; they tried to expand their theories across space to encompass wider communities, nations, the international realm, and ultimately the planet. They also moved across time, drawing on the past to reimagine the future and to make political philosophy as universal and unconstrained as possible. But in the end, they remained within the contradictions of postwar liberalism.

*

Nos últimos anos, contudo, aspectos do paradigma rawlsiano têm estado sob pressão à medida que uma nova geração investiga os seus limites. O seu pressuposto predominante e o seu objetivo de consenso parecem hoje fora de alcance face a tantas divisões acentuadas. As dúvidas levaram muitos filósofos a ideias que as primeiras gerações de rawlsianos ignoraram.

Alguns estenderam as ideias de Rawls às empresas, locais de trabalho, mercados de trabalho, mercados financeiros, algoritmos, fronteiras e sindicatos como locais para teorias de justiça. Outros adaptaram teorias de exploração e dominação para complementar os princípios distributivos. Os autodenominados realistas políticos tentaram recolocar a política na filosofia política, tornando as teorias da democracia mais sensíveis à natureza do conflito político real. Houve também um afastamento do foco distributivo, bem como da visão deliberativa da democracia que modela a política em uma sala de seminários. Nestas críticas, os limites das fases anteriores do igualitarismo liberal são iluminados. Talvez não seja surpreendente que uma filosofia política que começou como avessa à ideologia, aos interesses e ao poder coercitivo dos Estados, das empresas e dos sindicatos se tenha tornado em uma teoria do discurso ideal desvinculado da política, mas hoje isso tem sido considerado insuficiente. Problemas que outrora tinham sido excluídos pela natureza não-histórica da teoria da justiça também são agora interrogados, à medida que alguns revisitam questões éticas - como as reparações - levantadas pelos legados do colonialismo. O estudo da ideologia e da ética dos oprimidos assistiu a um ressurgimento, recorrendo a ideias da teoria racial crítica, do feminismo e do marxismo.

Assim, os filósofos políticos estão adaptando-se, alargando constantemente o quadro igualitário em novas direções. Mas isso é suficiente? Não está tão claro se as ideias rawlsianas podem ajudar-nos a enfrentar as necessidades do nosso momento. Tal como grande parte das ciências humanas (e graças em parte às restrições de um sistema acadêmico profissionalizado e cada vez mais precário), a filosofia política continua a ser orientada para a resolução de problemas específicos e não para a construção de novas teorias sistemáticas. Mesmo que as preocupações substantivas dos filósofos políticos tenham começado a mudar à medida que novos assuntos entram no domínio filosófico, muito debate ainda ocorre à sombra de um conjunto de ideias que refletem os pressupostos de uma época diferente. Há benefícios em trabalhar dentro de uma tradição intelectual, mas também pode haver custos se a tradição tiver dificuldade em esclarecer as circunstâncias em mudança. Afinal de contas, os radicais nos Estados Unidos inspiram-se mais no marxismo do que no liberalismo.

Isto deve-se em parte ao legado político ambíguo da teoria de Rawls. Do nosso ponto de vista do outro lado da crise financeira, o igualitarismo liberal pode agora parecer ter sido o liberalismo de esquerda perfeito para o “fim da história” trazido pelo fim da Guerra Fria. Naquele período de relativa calma e otimismo liberal, quando a política parecia tecnocrática e era caracterizada por um novo consenso, o igualitarismo liberal não parecia tão diferente - apenas um ou dois passos à esquerda - do centrismo da Terceira Via de Bill Clinton ou de Tony Blair. Ao expor a sua teoria, Rawls quis fornecer uma forma de julgar as reformas incrementais das sociedades que se aproximam gradualmente da justiça. Na década de 1990, o igualitarismo liberal - tal como a democracia liberal - parecia hegemônico, e parecia que a filosofia rawlsiana poderia simplesmente aspirar a reformar um liberalismo já bem sucedido, embora imperfeito. Nesta perspectiva, o igualitarismo liberal pode parecer responsável por um estreitamento da imaginação utópica e cúmplice na ascensão de um neoliberalismo tecnocrata - reforçando em vez de ajudar a desmantelar as suas injustiças. Agora que as reivindicações do fim da história parecem não apenas complacentes mas equivocadas, o papel político deste liberalismo filosófico é mais incerto.

Mas, ao mesmo tempo, as teorias de Rawls também podem ser vistas como um regresso bem-vindo a um momento estatista de bem-estar social de meados do século que agora, no deserto do neoliberalismo austero, assumiu o fascínio de uma espécie de utopia. No clima atual, os arranjos distributivos exigidos pelo igualitarismo liberal - desde os cuidados de saúde universais à educação gratuita e à ampla dispersão do capital - são radicais. Alguns argumentam que esses acordos podem oferecer modelos institucionais para o recente renascimento das aspirações socialistas na esquerda britânica e norte-americana; o corbynismo conta com os rawlsianos entre seus teóricos.

Este fascínio utópico mostra até que ponto subestimamos a distância política percorrida entre o consenso liberal do pós-guerra que deu origem ao igualitarismo liberal e o nosso próprio tempo. À medida que o centro de gravidade se deslocava para a direita, Rawls e os seus seguidores tornaram-se definitivos no liberalismo de esquerda. Estas ideias significaram algo diferente nas décadas após a Depressão e a Segunda Guerra Mundial do que no rescaldo da Nova Direita e dos sucessos dos ataques neoliberais às instituições estatais democráticas.

Assim, enfrentamos uma ambiguidade: se partes da filosofia liberal parecem ligadas à estrutura política do neoliberalismo tecnocrata, outras parecem bem adequadas ao nosso próprio momento de desigualdade dramática, com o seu anseio por princípios universalizantes. O igualitarismo liberal continua certamente a ser um recurso sem paralelo para esquemas organizarem e justificarem a distribuição de propriedade e limitarem a desigualdade; durante os anos da Terceira Via, a desigualdade foi frequentemente ignorada na política, mas nunca foi ignorada pelos filósofos. A este respeito, o fato de a filosofia política liberal não se ter adaptado totalmente à era pós-década de 1970 é um dos seus pontos fortes. A filosofia política anglófona também resistiu fortemente aos movimentos intelectuais desnaturalizantes, antiessencializantes e particularizantes que ganharam terreno na segunda metade do século XX. As aspirações universalistas e normativas de Rawls sobreviveram aos desafios do pós-estruturalismo e das teorias críticas pós-marxistas. Durante muito tempo essa recalcitrância pareceu conservadorismo, mas agora pode ser um recurso. Se os filósofos políticos abandonassem alguns dos seus pressupostos naturalizados e considerassem certas formas de argumento como vinculadas a um momento político que já passou, talvez pudessem realizar um novo trabalho político em defesa dos seus princípios de longo alcance de justiça social - não apenas de justificação, mas de persuasão.

Permanece a questão de saber se a tradição igualitária pode enfrentar as crises do nosso futuro, mas muitos aspectos da visão rawlsiana sugerem que ela não pode estar à altura do desafio. Algumas das nossas preocupações mais prementes residem nos seus pontos cegos. Nos anos que se seguiram à ascensão do igualitarismo liberal, o Estado expandiu-se, mas também foi privatizado. A natureza do capitalismo e do trabalho transformou-se e continuará a fazê-lo, provavelmente de formas dramáticas e inesperadas. O eleitorado dos menos favorecidos foi reconstruído e tanto a sua composição como o seu lugar como agente de mudança e não como destinatário de bens precisam de ser novamente interrogados. A política está mudando, à medida que autoritários, movimentos radicais e novos oligarcas lutam em um novo cenário internacional moldado por instituições financeiras irresponsáveis, novas plataformas de comunicação social, novas tecnologias e alterações climáticas.

Os igualitaristas liberais têm algumas das ferramentas para lidar com estas mudanças, mas as nossas questões também requerem novos enquadramentos que se afastem de um inventado em um período de batalhas ideológicas bastante diferente de hoje. É hora de perguntar o que seria necessário para ter uma filosofia política adequada à nossa época.

Nota do editor: Este ensaio foi adaptado de In the Shadow of Justice: Postwar Liberalism and the Remaking of Political Philosophy, de Katrina Forrester. Copyright 2019 da Princeton University Press. Publicado com permissão.

Katrina Forrester é professora assistente de estudos governamentais e sociais na Universidade de Harvard. A sua pesquisa centra-se na história do pensamento social e político do século XX e nas suas implicações para a teoria política. Seu primeiro livro, In the Shadow of Justice: Postwar Liberalism and the Remaking of Political Philosophy, foi publicado pela Princeton University Press em setembro de 2019. Seus escritos foram publicados no The New Yorker, no The Guardian e na London Review of Books, entre muitos outros outlets. Ela twitta em @katforrester.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...