26 de agosto de 2022

Os nazistas não eram socialistas - eles eram hipercapitalistas

Conservadores e liberais adoram dizer que os membros do partido de Adolf Hitler eram socialistas. Mas as políticas econômicas do nazismo na realidade sustentavam princípios hipercapitalistas enraizados em ideias darwinistas sociais sobre o valor da vida humana. Eles não eram socialistas de forma alguma.

Uma entrevista com
Ishay Landa


Adolf Hitler inspeciona uma formação da Juventude Hitlerista na Alemanha nazista, por volta de 1927-45. (CORBIS / Getty Images)

Uma entrevista de
Nils Schniederjann

Um dos argumentos mais enfadonhos utilizados contra o socialismo é a alegação de o nazismo era de alguma forma “socialista” e, portanto, algo pelo qual a esquerda precisa responder. Os homens de Adolf Hitler direcionaram toda a economia para a guerra, colocaram o estado acima do indivíduo — e, como argumento decisivo, até se autodenominaram “nacional-socialistas“.

Podemos dar o assunto por encerrado? Não exatamente. Mesmo que outros partidos conservadores e liberais tenham, de fato, votado para dar plenos poderes a Hitler em 1933, seu regime foi caracterizado por significativas intervenções para ajudar os negócios privados. E o darwinismo social defendido pelos nazistas, que julgava aqueles “improdutivos” como mera despesa desnecessária, obedecia à lógica de julgar a vida humana pelo critério do lucro.

Em 2009, o historiador israelense Ishay Landa publicou o livro The Apprentice’s Sorcerer: Liberal Tradition and Fascism (O sacerdote do aprendiz: Tradição Liberal e Fascismo), um extenso estudo dos interesses econômicos e sociais que os nazistas realmente perseguiam. Nesta entrevista com a Jacobin, ele explica o que o termo “socialismo” significava para Hitler, como as visões políticas e econômicas do ditador estavam conectadas — e por que podemos ver os perigos do liberalismo econômico em Elon Musk na atualidade.

Nils Schniederjann

Em seu livro, você examina as políticas econômicas e a ideologia dos nacional-socialistas na Alemanha. As políticas nazistas eram realmente socialistas?

Ishay Landa

Não, obviamente não. É verdade que os nazistas ocasionalmente usavam o termo afirmativamente. Algumas pessoas cinicamente se agarram a isso como algum tipo de evidência: “Eles eram socialistas porque se chamavam de socialistas!” Mas eles eram deveras antissocialistas, se pensarmos em qualquer sentido real do termo.

Nils Schniederjann

Então por que eles decidiram usar a palavra “socialismo”, afinal?

Ishay Landa

Temos que entender o contexto em que eles aplicaram o termo. Atualmente, os políticos de direita não usam mais esse termo. Por quê? Porque o socialismo não é mais tão popular. Mas, naquela época, os anticomunistas enfrentavam o desafio de ganhar acesso aos redutos socialistas e converter o máximo possível de eleitores da classe trabalhadora. Então, eles tinham que apresentar suas políticas de maneira que tivessem algum ponto comum com os interesses da classe trabalhadora. O truque era se beneficiar da popularidade do socialismo, que era amplamente visto como o que viria a ser uma força no futuro, mas ao mesmo tempo se distanciar o máximo possível de sua substância

Nils Schniederjann

Se os nazistas se autodenominavam socialistas apenas por razões estratégicas, como as políticas econômicas deles funcionavam na realidade?

Ishay Landa

Eles eram profundamente capitalistas. Os nazistas davam grande ênfase à propriedade privada e à livre concorrência. É verdade que eles intervieram no livre mercado, mas deve-se lembrar que foi uma época de falha sistêmica do capitalismo em escala global. Quase todos os estados intervieram no mercado na época, e o fizeram para salvar o sistema capitalista de cometer autofagia. Isso não tem nada a ver com o sentimento socialista, era pró-capitalista. De certa forma, há um paralelo aí com a forma como os grandes bancos foram resgatados pelos governos após a crise financeira de 2008. Tal comportamento, é claro, não refletia intenções socialistas de forma alguma. Foi apenas uma tentativa de estabilizar um pouco o sistema.

Nils Schniederjann

Mas os capitalistas não prezam sempre pelo máximo de liberdade possível?

Ishay Landa

Não necessariamente. As intervenções estatais naquela época ocorreram em acordo com o sistema industrial. Os capitalistas até exigiram isso, porque as políticas de livre mercado nem sempre são do melhor interesse desse grupo. Às vezes, eles precisam do estado para socorrer o livre mercado. Então, as intervenções não foram simplesmente impostas à economia pelos fascistas — foi uma decisão consensual refletindo as exigências de muitas seções importantes do setor industrial. O objetivo era essencialmente orientar o sistema em favor das grandes empresas.

Nils Schniederjann

Como a ideologia política dos nazistas está relacionada a essa tentativa de estabilizar o sistema?

Ishay Landa

Hitler é frequentemente acusado de fazer com que suas visões políticas prevaleçam sobre interesses econômicos, uma alegação que é parcialmente verdadeira. Mas quais eram exatamente suas visões políticas? Se pensarmos nas obsessões mais radicais de Hitler — por exemplo, darwinismo social, eugenia ou antissemitismo — à primeira vista parece que elas só podem ser entendidas isoladamente de considerações econômicas. No entanto, se olharmos mais de perto cada um desses elementos, veremos que eles tinham uma base econômica indispensável.

Nils Schniederjann

Por nos dar um exemplo disso?

Ishay Landa

O darwinismo social é, na verdade, uma forma de hipercapitalismo. É do capitalismo que ele absorve esse foco de que a competição é uma luta de todos contra todos. E os nazistas argumentaram: “Bem, na natureza é assim que funciona.” Isso não é uma ruptura com o capitalismo, mas uma intensificação das visões econômicas. O capitalismo, na visão dos nazistas, é simplesmente uma parte da natureza. Então, não é apenas uma questão de dominação política, mas de naturalizar contradições econômicas. Hitler, na época, disse que “judeus” são os principais manipuladores que estão tentando pregar uma pequena peça na natureza para tornar a luta pela sobrevivência supérflua. A vontade de interferir na economia fez com que os judeus assumissem um papel de traiçoeiros, do ponto de vista nazista.

Nils Schniederjann

Mas essa visão muito positiva da livre concorrência e da luta de todos contra todos não é precisamente a marca registrada do liberalismo econômico?

Ishay Landa

Hitler não inventou nada disso, é claro; tais conceitos já eram comuns para o coletivo conservador e economicamente liberal. Podia-se ouvir declarações muito semelhantes, sobre a necessidade de competição implacável, no discurso econômico liberal da época. Que alguém como Hitler pudesse se tornar o “líder” de uma grande nação industrial era, afinal, o ápice de certas visões amplamente populares sobre economia e os devidos limites da atuação popular e política. As políticas de Hitler atendiam aos desejos de muitos industriais — e era isso que justamente o tornava tão atraente para grandes setores da burguesia e das classes tidas como educadas. Tinha-se a impressão de que os nacional-socialistas eram os libertadores da economia, livrando-a de fardos desnecessários como sensibilidade política e humanística.

Nils Schniederjann

Por meio da eugenia, por exemplo?

Ishay Landa

Exatamente. O assassinato de pessoas com deficiências físicas, mentais e psicológicas também estava diretamente ligado a preocupações econômicas — pretendia livrar a economia de pessoas que eram consideradas um fardo. A linguagem empregada pelo nazismo era bastante econômica e financeiramente voltada a esse respeito. Por exemplo, um cartaz de propaganda típico dizia: “60.000 Reichsmarks ao longo de uma vida: esse é o custo dessa pessoa portadora de uma doença hereditária para a Volksgemeinschaft [a palavra nazista para comunidade nacional]. Volksgenosse [camarada nacional], isso também vem do seu dinheiro.”

Até mesmo a Shoah está relacionada a considerações econômicas. Pois na ideologia nazista, os judeus eram vistos como o obstáculo maior. Obstáculo para o quê? Para o capitalismo, principalmente. Eles eram considerados a espinha dorsal do marxismo. Os nazistas interpretaram o marxismo como uma conspiração essencialmente judaica contra a economia capitalista — e, portanto, contra a ordem natural. Claro, a Shoah foi o resultado de muitos fatores e a culminação de várias obsessões, fobias e ódios nazistas. Mas entre todos estes, não se deve perder de vista este fator socioeconômico.

Nils Schniederjann

Mas então por que os nazistas foram capazes de chamar o marxismo de um grande mal que deve ser erradicado, enquanto usaram o socialismo como um slogan positivo para seu movimento?

Ishay Landa

O termo “socialismo” – no formato empregado por eles – não queria dizer nada que nós remotamente reconheceríamos como socialista, mas sim sua política de intervenção no livre mercado para o benefício dos capitalistas. Pelo termo “marxismo”, por outro lado, eles queriam dizer a social-democracia e a proteção dos direitos básicos dos trabalhadores. Em Mein Kampf, Hitler diz que sua visão de mundo antissemita atingiu completude no momento em que ele percebeu que os judeus eram os mentores da social-democracia. O discurso nazista era uma maneira muito conveniente — embora cínica — de manipular conceitos e atribuir a eles significados completamente novos.

Nils Schniederjann

Se isso é tão óbvio, por que houve esses debates recentes na Alemanha sobre uma suposta política socialista dos nazistas?

Ishay Landa

Bem, isso não é tão novo, e tem uma longa história. Já durante a época do fascismo, houveram tentativas de retratar os nazistas como socialistas, por exemplo, por Ludwig von Mises. Mas, de modo geral, os esforços para estabelecer uma ligação direta entre o marxismo e o nacional-socialismo vinham de uma minoria. Então, a partir da década de 1980, ocorreu um ponto de virada quando uma corrente revisionista começou a emergir nos estudos sobre o fascismo. Ela buscou vincular o fascismo muito mais fortemente com a esquerda política, com a revolução e com o anticapitalismo. Isso aconteceu em um momento em que o neoliberalismo estava começando a desmantelar o estado de bem-estar social, o que tornou esse movimento ideológico muito conveniente. Os defensores dessa política diziam: “Os nazistas, na verdade, defendiam uma forma autoritária de socialismo!” Atacar o estado de bem-estar social poderia, portanto, ser apresentado como um ato antifascista, uma resistência ao nazismo e uma limpeza de seus resíduos políticos.

Nils Schniederjann

Então, transformar nazistas em socialistas também é uma ferramenta para promover políticas contra os trabalhadores?

Ishay Landa

Isso mesmo. Quando foi que os intelectuais começaram de fato a escrever livros acusando os nazistas de terem buscado políticas econômicas socialistas? Quando foi que eles começaram a acusar os nazistas de terem ajudado as massas às custas da burguesia? Exatamente na época em que os políticos tentaram impor reformas neoliberais no mercado de trabalho. Dessa forma, a historiografia está ligada às realidades econômicas. Os formuladores de políticas usaram essas teorias para apoiar seus ataques ao estado de bem-estar social. Götz Aly, o historiador alemão, disse em uma de suas entrevistas na virada do milênio que era tarefa do governo social-democrata de Gerhard Schröder finalmente pôr fim à “Volksgemeinschaft“. Assim, ao liberalizar a economia, os últimos vestígios do nacional-socialismo seriam removidos da política alemã. Esse tipo de pensamento mostra como as tendências políticas atuais estão ligados às maneiras como percebemos o passado.

Nils Schniederjann

Mas os liberais alguma vez confrontaram o fato de que Hitler estava, em parte, promovendo o programa político deles?

Ishay Landa

Nunca houve um acerto de contas verdadeiramente eficaz e direto sobre esse legado. Nos anos do pós-guerra, houve um consenso de que o estado tinha que melhorar moderadamente a situação dos trabalhadores — mesmo dentro de uma estrutura liberal. Se houve uma admissão de culpa por parte dos liberais, foi feita com base na premissa de que as políticas nazistas não tinham sido um verdadeiro liberalismo. O liberalismo nazista — assim argumentavam os poucos acadêmicos que admitiam qualquer relação entre as duas ideologias — tinha sido malfeito, irremediavelmente antiquado e renunciado à dimensão democrática inerente ao liberalismo.

Mais tarde, no entanto, houve uma mudança radical. De repente, os liberais estavam muito mais inclinados a dizer: “O nacional-socialismo era socialista. E se você luta contra o socialismo para criar um mercado que seja o mais livre possível de qualquer interferência política, você é um bom antifascista.” Essa foi a fase muito mais duradoura e anti-“populista” do engajamento liberal com o passado.

Nils Schniederjann

Outra maneira de impor reformas economicamente liberais é vincular a liberalização social e econômica. Você acha que o liberalismo econômico sempre anda de mãos dadas com o progresso social?

Ishay Landa

Acho que deveríamos fazer uma distinção entre as dimensões econômica e política do liberalismo. No começo, elas às vezes andavam de mãos dadas. Mas, em determinado momento, o aspecto econômico e político se afastaram. Os liberais então tiveram que decidir onde estavam suas prioridades. Eles são liberais econômicos que defendem a propriedade privada, a sociedade de classes e o livre mercado a todo custo, ou preferem que a democracia liberal realmente cumpra sua promessa de liberdade e autodeterminação para todas as pessoas? Essa contradição ainda não foi resolvida. E a necessidade de fazer uma escolha entre as duas opções permanece.

Nils Schniederjann

Por que não se pode ter os dois aspectos juntos?

Ishay Landa

O senso comum nos diz que o liberalismo sempre anda de mãos dadas com as liberdades políticas e individuais, o que às vezes é verdade. Mas o que é esquecido é que desde o início o liberalismo não se abriu apenas às possibilidades políticas, mas também as restringiu severamente. O que o liberalismo tinha que deixar claro desde o início era que a propriedade privada é intocável; que ela forma a base inatacável da ordem política.

Então, importantes pensadores liberais insistiram – desde John Locke – que você não pode taxar os ricos sem o consentimento deles. Se você fizer isso, você dá às vítimas dessas políticas uma boa razão para se rebelar e usar a violência contra os usurpadores. A política liberal, portanto, tinha uma opção ditatorial intrínseca desde o início. E assim se tornou um dogma presumir que a principal tarefa da política é proteger a propriedade, e seu principal pecado é ser invectiva contra ela. Mas é claro, essa é uma definição muito limitada do que a política pode ou deve fazer. E sofremos com esse confinamento até hoje. Em uma democracia ocidental típica, você pode fazer muitas coisas — desde que se abstenha de infringir a propriedade privada.

Nils Schniederjann

Então há algo na estrutura básica do liberalismo econômico que realmente limita a liberdade das pessoas?

Ishay Landa

O capitalismo é essencialmente uma estrutura econômica antidemocrática: isso significa, acima de tudo, dominação sobre os trabalhadores. O capitalismo é hierárquico, não igualitário. Há também uma concentração massiva de riqueza, o que levanta uma questão crucial: como podemos redistribuí-la? O liberalismo clássico diz: “Não faça nada para mudar a situação”. Mas isso limita estritamente a esfera política e reduz enormemente suas possibilidades. Se mantivermos a economia isolada da deliberação política, a democracia será seriamente prejudicada. Então, a visão econômica liberal é dizer às massas: “Não tente ser muito lógico quando pensar em democracia! Não tente levar a democracia a sério. Isso só cria muitos problemas!”

Nils Schniederjann

E não tente melhorar a situação econômica para ninguém além da burguesia.

Ishay Landa

Exatamente. E esse continua sendo o caso até hoje. As declarações de Elon Musk fornecem ricos exemplos para o que estamos discutindo aqui, porque ele é bem franco e descarado sobre tudo isso. Ele disse recentemente que os americanos estão tentando fugir do trabalho duro e que eles deveriam seguir o exemplo dos trabalhadores chineses “que viram a noite trabalhando”. Essa é uma declaração muito clara porque, claro, ele sabe que os trabalhadores chineses não têm como resistir democraticamente às demandas de trabalho duro. Ele sugere que o sistema democrático é muito frouxo e indulgente e que precisamos de um sistema muito mais rigoroso para disciplinar os trabalhadores, para fazê-los trabalhar duro e aceitar salários baixos — um sistema como o que vemos na China.

Nils Schniederjann

Musk também anunciou recentemente que apoiará os republicanos. Isso apesar do fato de Donald Trump ainda desempenhar um papel central no partido.

Ishay Landa

Essa é uma boa indicação da opção ditatorial incorporada ao pensamento liberal. Não estou dizendo de forma alguma que todos os liberais apoiariam algo assim. Mas é muito difícil conciliar o liberalismo econômico e político. Como resultado desse enigma, alguns liberais políticos escolhem um caminho diferente economicamente, e outros oscilam entre os dois polos sem nunca realmente conseguirem resolver o conflito fundamental. Até certo ponto, pode-se argumentar que o socialismo é em si um filho do liberalismo político. Marx e Engels começaram como liberais políticos e nunca abandonaram as ideias básicas do liberalismo: liberdade e participação democrática para todos. Eles apenas desenvolveram seu conceito ainda mais porque reconheceram que, sob o capitalismo, as perspectivas para a realização de um projeto democrático genuíno eram seriamente limitadas.

Colaboradores

Nils Schniederjann é um jornalista residente em Berlim.

Ishay Landa é autor de The Apprentice’s Sorcerer: Liberal Tradition and Fascism.

Rosa Luxemburgo foi a grande teórica da revolução democrática

Uma nova edição dos escritos de Rosa Luxemburgo, muitos dos quais nunca antes publicados em inglês, nos dá uma perspectiva única sobre seu pensamento. Luxemburgo acreditava que uma revolução socialista teria que ser democrática ou então estaria fadada ao fracasso.

Peter Hudis


A filósofa marxista polonesa Rosa Luxemburgo. (Imagens Fine Art / Heritage Images / Getty Images)

Gerações de pensadores e ativistas socialistas lutaram com a vida e o pensamento de Rosa Luxemburgo. No entanto, ainda há muitas surpresas reservadas para os interessados ​​em seu legado, como pode ser visto na recente publicação do Volume Quatro das Obras Completas em língua inglesa. Juntamente com o Volume Três, publicado anteriormente, a nova coleção reúne seus escritos sobre a Revolução Russa de 1905, uma das mais importantes convulsões sociais dos tempos modernos.

A análise de Luxemburgo de 1905 em seu panfleto The Mass Strike, the Political Party, and the Trade Unions já é bem conhecida (e aparece no Volume Quatro em uma nova tradução). No entanto, mais de quatro quintos do material no novo volume, cobrindo o período de 1906 a 1909, está aparecendo em inglês pela primeira vez. A maioria de seus escritos que foram originalmente compostos em polonês – cerca de metade das 550 páginas do volume – nunca apareceram em nenhum outro idioma.

Aprendendo a falar russo

Luxemburgo, como a maioria dos marxistas de sua geração (assim como o próprio Karl Marx) sustentava que uma república democrática com sufrágio universal era a formação mais adequada para levar a luta de classes a uma conclusão bem-sucedida. Como muitos de seus contemporâneos na Segunda Internacional, ela não viu contradição entre lutar por reformas democráticas dentro do capitalismo enquanto buscava uma transformação revolucionária que aboliria o capitalismo – mesmo enquanto lutava implacavelmente contra aqueles que separavam os dois.

Ao fazê-lo, Luxemburgo distinguiu entre formas de luta empregadas em períodos “pacíficos” e aquelas usadas em períodos revolucionários. O objetivo em ambos os cenários era aumentar a consciência e o poder da classe trabalhadora. No entanto, “em tempos de paz, essa luta ocorre no âmbito do domínio da burguesia”, que exigia que o movimento operasse “dentro dos limites das leis existentes que regem as eleições, as assembleias, a imprensa”, os sindicatos etc.

Luxemburgo se referiu a isso como “uma espécie de gaiola de ferro na qual a luta de classes do proletariado deve ocorrer”. Assim, as lutas de massa em tais períodos “só muito raramente alcançam resultados positivos”. Uma fase revolucionária era muito diferente, ela argumentou:

Os tempos de revolução abrem a jaula da “legalidade” como vapor reprimido partindo sua chaleira, deixando a luta de classes irromper aberta, nua e desimpedida... a consciência e o poder político [do proletariado] emergem durante a revolução sem ter foi distorcida, amarrada e dominada pelas “leis” da sociedade burguesa.

Para Luxemburgo, a atividade e a razão das massas durante a Revolução de 1905, na qual milhões se engajaram em greves de massa para derrubar o regime czarista, foi um exemplo claro desse momento. Como ela escreveu no início de 1906: “Com a Revolução Russa, o período de quase sessenta anos de governo parlamentar tranquilo da burguesia chega ao fim”. Chegou a hora de o movimento socialista na Europa Ocidental começar a “falar russo” incorporando a greve de massa em suas perspectivas políticas e organizacionais:

A tática social-democrata, tal como empregada hoje pela classe trabalhadora na Alemanha e à qual devemos nossas vitórias até agora, é orientada principalmente para a luta parlamentar, é projetada para o contexto do parlamentarismo burguês. A social-democracia russa é a primeira a quem caiu a dura, mas honrosa sorte de usar os fundamentos do ensinamento de Marx, não em uma época de curso parlamentar correto e calmo da vida estatal, mas em um período revolucionário tumultuado.

Tarefas imediatas

Nos anos desde que Luxemburgo escreveu essas palavras, vários comentaristas elogiaram seus esforços para empurrar os partidos social-democratas bastante sérios em uma direção mais revolucionária, enquanto outros criticaram a perspectiva de Luxemburgo alegando que ela minimiza as diferenças gritantes entre o regime absolutista na Rússia e democracias liberais ocidentais. Há vários pontos dignos de nota neste contexto.

Em primeiro lugar, Luxemburgo considerou que a greve de massas “é e continuará a ser uma arma poderosa de luta operária”, mas prosseguiu frisando que era “apenas isso, uma arma, cujo uso e eficácia dependem sempre do ambiente, das condições dadas , e o momento da luta.” Em segundo lugar, ela sustentou que o proletariado russo “não estava estabelecendo objetivos utópicos ou inalcançáveis, como a realização imediata do socialismo: o único objetivo possível e historicamente necessário é estabelecer uma república democrática e uma jornada de trabalho de oito horas”.

Na visão de Luxemburgo, o socialismo não poderia estar na agenda imediata na Rússia por duas razões principais: a classe trabalhadora na época constituía apenas uma pequena minoria da população do Império Russo (menos de 15%) e era impossível para o socialismo existir em um único país:

A revolução socialista só pode ser o resultado da revolução internacional, e os resultados que o proletariado na Rússia poderá alcançar na atual revolução dependerão, para não falar do nível de desenvolvimento social na Rússia, do nível e da forma de desenvolvimento que as relações de classe e as operações proletárias em outros países capitalistas terão alcançado nessa época.

Em um longo ensaio dirigido ao movimento operário polonês, ela desenvolveu ainda mais este ponto:

Em seu estado atual, a classe trabalhadora ainda não está pronta para realizar as grandes tarefas que a aguardam. A classe trabalhadora de todos os países capitalistas deve primeiro internalizar a aspiração ao socialismo; um número enorme de pessoas ainda não tomou consciência de seus interesses de classe. ... Quando a social-democracia tiver a maioria dos trabalhadores por trás dela em todos os maiores países capitalistas, a hora final do capitalismo terá chegado.

Uma revolução operária

No entanto, isso não significava que a Revolução Russa ficaria confinada a um quadro liberal ou burguês. Muito parecido com a corrente bolchevique de Vladimir Lenin – e em oposição direta aos seus rivais mencheviques – Luxemburgo sustentava que a tarefa imediata dos revolucionários no Império Russo era a formação de uma república democrática sob o controle da classe trabalhadora. Como a burguesia liberal era muito fraca e comprometida para liderar a revolução, “o proletariado tinha que se tornar o único lutador e defensor das formas democráticas de um estado burguês”.

Ela enfatizou que as condições na Rússia daquela época não eram como as existentes na França do século XIX:

O proletariado russo luta primeiro pela liberdade burguesa, pelo sufrágio universal, pela república, pelo direito das associações, pela liberdade de imprensa, etc., mas não luta com as ilusões que encheram o proletariado [francês] de 1848. Ele luta por [tais] liberdades para instrumentalizá-las como uma arma contra a burguesia.

Ela expandiu ainda mais esse ponto em outro lugar:

A revolução burguesa na Rússia e na Polônia não é obra da burguesia, como na Alemanha e na França de outrora, mas da classe trabalhadora, e uma classe já altamente consciente de seus interesses trabalhistas – uma classe trabalhadora que busca liberdades políticas não para que a burguesia se beneficie, mas justamente o contrário, para que a classe operária resolva sua luta de classes com a burguesia e assim acelere a vitória do socialismo. É por isso que a revolução atual é simultaneamente uma revolução operária. É também por isso que, nesta revolução, a luta contra o absolutismo anda de mãos dadas — deve andar de mãos dadas — com a luta contra o capital, com a exploração. E por que as greves econômicas são de fato quase inseparáveis ​​nesta revolução das greves políticas.

Luxemburgo sustentou consistentemente a necessidade de apoio majoritário das massas exploradas para alcançar qualquer transição para o socialismo, incluindo aquelas relativas às lutas pela liberdade nas terras capitalistas tecnologicamente desenvolvidas. Como ela escreveu mais tarde em dezembro de 1918, em nome do grupo que liderou durante a Revolução Alemã: "A Liga Spartacus nunca assumirá o poder governamental, exceto em resposta à vontade clara e inequívoca da grande maioria da massa proletária de todos a Alemanha, nunca exceto pela afirmação consciente do proletariado dos pontos de vista, objetivos e métodos de luta da Liga Spartacus."

Um passo a frente

A perspectiva de Luxemburgo sobre a Revolução Russa de 1905 levanta uma série de questões, que se relacionam com os problemas enfrentados pelos regimes revolucionários no mundo não-ocidental nas décadas que se seguiram à sua morte. Como a classe trabalhadora pode manter o poder em uma república democrática após a derrubada do antigo regime se ela representa apenas uma minoria da população? Como pode fazê-lo se, como ela afirma, “a social-democracia considera confiável apenas a política de classe autônoma do proletariado” – já que a fome dos camponeses pela propriedade privada da terra presumivelmente os coloca em desacordo com ela? E como é possível manter uma república tão democrática sob o controle do proletariado se não ocorrem revoluções em outros países que podem vir em seu auxílio?

Luxemburgo abordou essas questões em um ensaio notável escrito em polonês em 1908, “Lições das Três Dumas”, que nunca apareceu em inglês. Em 1908, a situação na Rússia mudou radicalmente desde que a revolução foi então derrotada. Ela pesquisou o curso de seu desenvolvimento, incentivando os marxistas a “redobrar seu compromisso de submeter cada detalhe de suas táticas a uma autocrítica rigorosa”. Ela o fez avaliando a história das três Dumas – os órgãos parlamentares estabelecidos no Império Russo a partir de 1906 como uma concessão à revolução, com uma franquia restrita que se tornou progressivamente mais tendenciosa em favor das classes altas:

A Terceira Duma mostrou — e daí deriva seu enorme significado político — que um sistema parlamentar que não derrubou primeiro o governo, que não alcançou o poder político por meio da revolução, não só não pode derrotar o velho poder (uma crença que a Primeira Duma em vão defendia), não só não pode se opor a esse poder como instrumento de oposição (como tentou fazer a Segunda Duma), mas pode e deve tornar-se, ao contrário, um instrumento da contrarrevolução.

Ela passou a olhar para frente pensando no possível destino de uma futura revolução que, ao contrário da de 1905, conseguiria derrubar o antigo regime:

Se o proletariado revolucionário na Rússia ganhasse poder político, ainda que temporariamente, isso daria um enorme incentivo à luta de classes internacional. É por isso que a classe trabalhadora na Polônia e na Rússia pode e deve se esforçar para tomar o poder com plena consciência. Porque uma vez que os trabalhadores tenham o poder, eles podem não apenas realizar as tarefas da revolução atual diretamente – realizar a liberdade política em todo o estado russo – mas também estabelecer a jornada de trabalho de oito horas, derrubar as relações agrárias e, em uma palavra, materializar todos os aspectos de seu programa, desferindo os golpes mais fortes que podem ao domínio burguês e, assim, acelerando sua derrubada internacional.

Realismo revolucionário

No entanto, a pergunta permanecia: como os trabalhadores poderiam se manter no poder em uma república democrática a longo prazo se constituíssem uma minoria da população? A resposta de Luxemburgo foi que eles não podiam – e ainda assim o esforço valeria a pena:

O caráter burguês da revolução se expressa na incapacidade do proletariado de permanecer no poder, na inevitável retirada do proletariado do poder por uma operação contrarrevolucionária da burguesia, dos proprietários rurais, da pequena burguesia e da maior parte do campesinato. Pode ser que no final, depois que o proletariado for derrubado, a república desapareça e seja seguida pelo longo governo de uma monarquia constitucional altamente contida. Pode muito bem ser. Mas as relações de classes na Rússia são agora tais que o caminho para uma constituição monárquica moderada passa pela ação revolucionária e pela ditadura do proletariado republicano.

Pouco antes de escrever isso, em um discurso a um Congresso do Partido Trabalhista Social-Democrata Russo, ela fez as seguintes observações:

Acho que é um líder pobre e um exército lamentável que só vai para a batalha quando a vitória já está no saco. Ao contrário, não só não pretendo prometer ao proletariado russo uma sequência de vitórias certas ; Acho, antes, que se a classe trabalhadora, sendo fiel ao seu dever histórico, continuar a crescer e a executar suas táticas de luta consistentes com as contradições que se desenrolam e os horizontes cada vez mais amplos da revolução, então pode acabar em circunstâncias bastante complicadas e difíceis. ... Mas penso que o proletariado russo deve ter a coragem e a resolução de enfrentar tudo o que lhe foi preparado pelos desenvolvimentos históricos, que deve, se tiver que, mesmo à custa de sacrifícios, desempenhar o papel de vanguarda nesta revolução em relação ao exército global do proletariado, a vanguarda que revela novas contradições, novas tarefas e novos caminhos para a luta de classes, como fez o proletariado francês no século XIX.

Ela não se esquivou de reconhecer as implicações desse argumento:

A revolução nesta concepção traria ao proletariado tanto perdas quanto vitórias. No entanto, por nenhum outro caminho todo o proletariado internacional pode marchar para sua vitória final. Devemos propor a revolução socialista não como um salto repentino, terminado em vinte e quatro horas, mas como um período histórico, talvez longo, de luta de classes turbulenta, com pausas breves e prolongadas.

Esta foi uma expressão notável de realismo revolucionário. Luxemburgo estava plenamente consciente de que mesmo uma república democrática sob o controle da classe trabalhadora – que é como ela e Marx entendiam “a ditadura do proletariado” – estava fadada a ser forçada a deixar o poder na ausência de uma revolução internacional, especialmente em um país onde a classe trabalhadora constituía uma minoria. E, no entanto, ainda que a revolução, portanto, tivesse “fracassado” de pelo menos um ponto de vista, teria produzido importantes transformações sociais, fornecendo o sedimento intelectual do qual poderia surgir um futuro desenraizamento do capitalismo.

Em suma, Luxemburgo não achava que fizesse sentido sacrificar a democracia para se manter no poder, já que a forma política necessária para alcançar a transição para o socialismo era a “democracia plena”. Se um regime não democrático permanecesse no poder, a transição para o socialismo se tornaria impossível, pois a classe trabalhadora ficaria sem meios e treinamento para exercer o poder em seu próprio nome. No entanto, por outro lado, se uma democracia proletária existisse mesmo por um breve período de tempo, poderia ajudar a inspirar uma transição posterior para o socialismo.

Auto-exame

Esse argumento fala do que se desenrolaria uma década depois, quando o czarismo foi finalmente derrubado na Revolução de fevereiro de 1917, seguido em pouco tempo pela tomada do poder pelos bolcheviques em outubro do mesmo ano. Lênin e os bolcheviques estavam plenamente conscientes na época de que as condições materiais não permitiam a criação imediata de uma sociedade socialista, mesmo quando proclamavam o estabelecimento da ditadura do proletariado. Foi por isso que Lenin trabalhou tanto para promover revoluções proletárias na Europa Ocidental.

No entanto, duas questões fundamentais separavam a abordagem de Lênin da de Luxemburgo. Em primeiro lugar, seu regime não assumiu a forma de uma república democrática, como visto em sua supressão das liberdades políticas – um desenvolvimento ao qual Luxemburgo se opôs fortemente em sua crítica de 1918 à Revolução Russa. Em segundo lugar, Lenin sustentou que, uma vez que os bolcheviques tomassem o poder, pretendiam mantê-lo – permanentemente. Isso era muito diferente da afirmação de Luxemburgo de que “a incapacidade do proletariado de permanecer no poder” não seria o pior resultado, desde que a visão de libertação projetada para o mundo através da criação de uma sociedade democrática baseada no governo do classe trabalhadora inspirasse outros a assumir a luta contra o capitalismo.

A posição de Luxemburgo é especialmente impressionante porque ela estava plenamente consciente de que a burguesia sempre recorreria à repressão violenta após uma revolução derrotada. De fato, ela perdeu a própria vida após a derrota da revolta da Liga Spartacus de janeiro de 1919 em Berlim, à qual ela inicialmente se opôs, alegando que faltava apoio de massa suficiente. No entanto, Luxemburgo estava igualmente ciente de que qualquer esforço para forjar uma transição para o socialismo por meios não democráticos estava fadado ao fracasso. Nesse sentido, ela antecipou o desfecho trágico de muitas revoluções nas décadas que se seguiram à sua morte.

Qualquer que seja a reflexão de Luxemburgo sobre essas questões, uma coisa é clara: ela desenvolveu uma concepção distinta, embora raramente discutida, da transição para o socialismo (especialmente para as sociedades em desenvolvimento, que é o que o Império Russo era na época) que recebeu muito pouca atenção. Espera-se que a publicação desses escritos em inglês remedie essa negligência.

Embora muitas das ideias de Luxemburgo falem de questões com as quais socialistas democráticos, antiimperialistas e feministas estão lidando hoje, em pelo menos uma questão crítica, sua perspectiva não resistiu ao teste do tempo. Encontra-se em sua reiterada insistência: “Quando a venda do trabalho dos trabalhadores aos exploradores privados for abolida, a fonte de todas as desigualdades sociais de hoje desaparecerá”.

A afirmação de Luxemburgo de que a abolição da propriedade privada dos meios de produção forneceria a base para acabar com “toda desigualdade na sociedade humana” não era apenas dela. Praticamente todas as tendências e teóricos da social-democracia revolucionária na Segunda Internacional a compartilhavam, incluindo Lenin, Karl Kautsky, Leon Trotsky e muitos outros. No entanto, dificilmente é possível manter essa visão hoje.

Nem os estados de bem-estar social-democratas, que buscavam limitar os direitos de propriedade privada, nem os regimes da URSS, da China e de outras partes do mundo em desenvolvimento, que os aboliram através da nacionalização da propriedade, conseguiram desenvolver uma alternativa viável ao modo capitalista de produção. É claramente necessária uma transformação social muito mais profunda que vise não apenas a propriedade privada e os mercados “livres”, mas sobretudo a forma alienada de relações humanas que definem a modernidade capitalista.

Essa é uma tarefa para nossa geração, que pode ser muito auxiliada ao retornar com novos olhos às implicações humanistas da crítica de Marx à lógica do capital. Isso implica uma reavaliação crítica do significado do socialismo que pode não estar na agenda no tempo de Luxemburgo, mas que o espírito geral de seu trabalho certamente encoraja. Como ela escreveu em 1906:

O auto-exame – isto é, tomar-se consciente a cada passo da direção, lógica e base do próprio movimento de classe – é aquele depósito do qual a massa trabalhadora extrai sua força, uma e outra vez, para lutar de novo, e pelo qual ela entende suas próprias hesitações e derrotas como provas de sua força e inevitável vitória futura.

Colaborador

Peter Hudis é professor de filosofia no Oakton Community College e autor de Frantz Fanon: Philosopher of the Barricades.

25 de agosto de 2022

O tamanho do buraco fiscal de 2023

Conta chega em R$ 430 bilhões em estimativa publicada pela FGV

Nelson Barbosa

Fila em agência da Caixa na zona leste de SP - Rivaldo Gomes - 9.ago.22/Folhapress

Na próxima semana, teremos dois dados importantes.

De um lado, saberemos o crescimento da economia no segundo trimestre, o que o Ibre FGV estima ter sido 1,1% contra o período anterior, com ajuste sazonal.

Do outro lado, o governo enviará seu projeto de lei orçamentária anual (PLOA) de 2023 ao Congresso, provavelmente com várias promessas de gasto ou desoneração sem previsão na legislação vigente. Hoje abordarei o tamanho do buraco fiscal de 2023.

Nesta semana meus colegas da FGV, Manoel Pires e Bráulio Borges, publicaram uma estimativa de quanto o governo pode ter que gastar a mais e receber a menos em 2023, em relação às previsões oficiais mais recentes. A conta chegou em R$ 430 bilhões, dividida em quatro partes.

No gasto primário, seria necessário mais R$ 120 bilhões para três coisas: manter o orçamento de Auxílio Brasil no valor equivalente ao benefício de R$ 600/mês (R$ 60 bilhões), conceder reajustes aos servidores (R$ 20 bilhões) e recuperar o gasto com investimento, saúde, educação, e outras coisas (R$ 40 bilhões).

Do lado da receita, haveria "perda" de R$ 86 bilhões com: manutenção da desoneração do IPI (R$ 14 bilhões), reajuste da tabela de IRPF (R$ 10 bilhões) e normalização da arrecadação vinculada ao petróleo (R$ 62 bilhões).

Faço uma pausa para dizer que, se também houver continuação da desoneração de PIS/Cofins sobre combustíveis (R$ 53 bilhões), o que é muito provável, a perda potencial de arrecadação em relação às últimas previsões do governo sobe para R$ 139 bilhões em 2023.

O terceiro risco fiscal, de até R$ 144 bilhões, vem da possível determinação, pelo STF (Supremo Tribunal Federal), de que o governo pare de atrasar precatórios (R$ 57 bilhões) e compense os Estados pela redução de ICMS sobre combustíveis e outros itens (R$ 87 bilhões). Mas normalmente o STF modula sua decisão em vários anos.

Por fim, Manoel e Bráulio também adicionaram R$ 77 bilhões ao buraco fiscal de 2023, devido ao aumento do juro real pago pelo Tesouro (R$ 52 bilhões) e interrupção do pagamento das dívidas de alguns estados com a União (R$ 25 bilhões).

Juntando os quatro componentes, a piora do resultado financeiro do governo federal em relação ao último cenário oficial chegaria a R$ 427 bilhões. Se adicionarmos a manutenção do PIS-Cofins zero sobre combustível, o valor vai para R$ 480 bilhões, 4,8% do PIB previsto em 2023.

Como todo cenário, a estimativa feita por Manoel e Bráulio pode ou não acontecer. Os eventos dos últimos anos mostraram quão volátil é o orçamento da União, sobretudo em um governo de direita durante eleições.

Apesar da incerteza, a campanha eleitoral já está indicando algumas coisas. Considerando a eleição de um governo progressista, minha conta (que não representa a avaliação de qualquer campanha) é que seria preciso aumentar o gasto em pelo menos R$ 220 bilhões acima do previsto pelo atual teto de despesa.

Para que? Para evitar parada súbita das transferências de renda ao mais pobres (R$ 60 bilhões), reajustar salários de servidores e retomar concursos (R$ 20 bilhões), recuperar investimento e gasto social (R$ 40 bilhões) e começar a resolver o imbróglio deixado por Bolsonaro no ICMS e nos precatórios federais (R$ 100 bilhões).

Além do espaço para mais gasto primário, também será preciso reduzir a previsão de receita primária em pelo menos R$ 140 bilhões para evitar um "tarifaço" na virada do ano, corrigir a tabela do IRPF e adaptar o cenário fiscal a uma renda menor do petróleo.

Somando as duas coisas, teremos um déficit primário adicional de R$ 360 bilhões em relação às projeções oficiais, valor próximo do "cheque especial" de 3,2% do PIB que Temer pediu e conseguiu em 2016.

24 de agosto de 2022

A extrema direita da Itália está à beira do poder

Após o colapso do governo tecnocrático da Itália, sua próxima primeira-ministra parece cada vez mais provável ser Giorgia Meloni da Fratelli d'Italia - a chefe de um partido com laços diretos com o passado fascista do país.

David Broder


Giorgia Meloni, líder da Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália). (NurPhoto / Getty Images)

A perspectiva para as eleições italianas de 25 de setembro é de que a coalizão nomeada pela mídia italiana como “centro-direita” chegue perto de 50% das intenções de voto — quase garantindo uma larga maioria no parlamento. Piores notícias surgem quando nos damos conta de que a expressão “centro-direita” é um eufemismo. Tanto o principal partido da aliança — o pós-fascista Fratelli d’italia de Giorgia Meloni (alcançando 24% das intenções de voto), quanto sua segunda força, o Lega de Matteo Salvini (14% das intenções de voto) combinam planos de varrer as isenções de impostos com uma torrente de propaganda de ódio contra imigrantes, “lobbies” LGBT, “planos de substituição étnica” e outras coisas parecidas.

O Fratelli d’Italia está longe de ser o partido mais popular. Ele está numa corrida apertada com o Democratas, de centro esquerda, que, no entanto, mantém uma posição mais fraca em termos de conversão de votos em assentos, dada a ausência de grandes aliados. Os Democratas insistem em afirmar que continuarão o trabalho feito pelo governo tecnocrático e multipartidário de Mario Draghi, iniciado em fevereiro com o pagamento dos fundos de recuperação europeus. A maioria de Draghi, ex-Presidente do Banco Central Europeu, contava com o Forza Italia, de Silvio Berlusconi, o Lega e com o eclético Movimento Cinque Stelle, mas com a saída desses apoios em julho, os Democratas ficaram isolados.

Isso recriou, por sua vez, uma ilusão de ótica típica da política italiana, na qual a mais recente onda de insurgentes de direita afirma estar derrotando a esquerda sempre hegemônica, mesmo que na Itália não exista quase nada parecido com a esquerda. O gabinete criado por Draghi foi o último de uma série de grandes coalizões e “governos técnicos” das décadas recentes que, sustentado por vários outros partidos, tiveram os Democratas como os garantidores da estabilidade institucional. Mas dado o substrato neoliberal decadente de toda a politica italiana, a campanha de 2022 será travada novamente entre a centro direita tecnocrata neoliberal e a extrema direita outsider que se pretende a colocar um fim “a uma década de esquerda no poder”.

Em meio à atual turbulência no sistema partidário, ter estado fora do governo Draghi certamente ajudou o Fratelli d’Italia a aglutinar os eleitores de direita. Ele tiveram apenas 4% dos votos em 2018 e cerca de metade desses votos vieram de transferências recentes do Lega, que despontou em 2018-2019 durante o mandato de Salvini como Ministro do Interior. No entanto, o pacto existente desde 2021 entre os principais partidos deu a Meloni espaço para monopolizar a crítica e enfatizar a sua abordagem “construtiva”, hostil à “esquerda no poder”, mas não a Draghi pessoalmente. O Fratelli d’Italia também enfatiza a sua lealdade à União Europeia, à OTAN e à disponibilização de armas para a Ucrânia como uma forma de mostrar as suas credenciais “atlanticistas”.

Algumas alas da centro direita não ficaram satisfeitas com o fim do governo Draghi. Nos primeiros dias da campanha, os democratas se irritaram com figuras como Renato Brunetta, um antigo aliado de Berlusconi que desistiu de seu partido Forza Italia em resposta. Um pouco como os democratas nos Estados Unidos em busca de republicanos moderados “anti-Trump”, uma certa mentalidade de centro esquerda consiste em tentar encontrar representantes de direita responsáveis que sirvam como interlocutores, mesmo que isso signifique que figuras (notadamente Silvio Berlusconi) que antes tinham se apresentado como o “mal” que deveria ser impedido através de um voto em um “mal menor”. O único problema é que, com o tempo, os “maus” vêm ficando mais malvados.

Escavando o passado

Muitos na mídia italiana são intolerantes aos esforços de “demonização” de Meloni. “Não podemos ficar dois meses sem falar sobre história?” perguntou o especialista Paolo Mieli no início da campanha. Apesar dos comentários de Mieli, ninguém realmente afirmou que o Fratelli d’Italia teria planos para fazer uma nova “Marcha sobre Roma” para coroar o centenário da ascensão ao poder de Benito Mussolini em 1922. Na verdade, até o líder dos Democratas, Enrico Letta, cogitou relações cordiais com Meloni recentemente. No entanto, claramente há algo incomum em uma aspirante a primeiro-ministro que precisa insistir que os “nostálgicos” de seu partido – um eufemismo para os funcionários que usam os símbolos e bandeiras da República de Salò, colaboracionista nazista – são “traidores da causa”.

Enquanto Mieli, um ex-aluno do famoso biógrafo de Mussolini, Renzo de Felice, é autor de vários livros sobre a Itália do século XX, seu chamado ao fim das discussões sobre história tem sido retomado por amplos setores da mídia nacional que frequentemente se mostram amnésicos até em relação a eventos de um passado mais recente do país. O Fratelli d’italia, herdeiro do neofascista Movimento Sociale Italiano, criado em 1946, frequentemente minimiza a exposição de racismo, elogios ao fascismo e ligações a grupos militares de seus integrantes, dizendo que tudo isso não passa de uma tentativa de assassinato de reputação pela mídia (muckraking). Isso é sustentado por um coro de jornalistas de periódicos de direita que insistem em afirmar que como o “fascismo não está voltando” — e literalmente, claro, não está — toda essa discussão é perda de tempo.

Há sinais de que alguns passados constrangedores vêm assombrando candidatos, mas não aqueles da ala pós-fascista da política italiana. A candidata democrata da região da Basilicata, no sul da Itália, teve que retirar a sua candidatura neste final de semana após revelações de que teria questionado o direito à existência do Estado de Israel em 2020. Grandes diários como o Il Corriere e o La Repubblica atentaram para o fato de que postagens antigas de políticos nas mídias sociais têm sido usadas como ferramentas de propaganda eleitoral. Mesmo assim, isso depende de suas capacidades de se sentirem realmente envergonhados; e as repetidas afirmações de Meloni de que o “agiota” George Soros, um judeu húngaro, estaria “financiando um plano para a substituição étnica de europeus” ainda chacoalharão a campanha atual.

A verdadeira ameaça representada pelo Fratelli d’Italia, uma vez que se estabeleça no governo, é menos um “retorno do fascismo” do que uma forma de erosão das normas e difamação de críticos e minorias típicos de países como a Polônia e a Hungria. De fato, até mais do que a Hungria, a direita polonesa é o modelo para o partido de Meloni e aquele que parece estar ganhando renovada legitimidade nos circuitos de poder na Europa desde a invasão russa na Ucrânia. Meloni já fez elogios a Vladimir Putin no passado, mas está mais amplamente comprometida com as posições “atlanticistas” do que o Lega, apesar de seu partido ser mais próximo da CPAC e da ala trumpista dos Republicanos do que do governo incumbente em Washington.

Se, por um lado, não há chance de que Meloni vá buscar um distanciamento do euro e da União Europeia, por outro há pelo menos duas formas com as quais um governo sob sua liderança poderia causar danos de longo prazo. Uma delas se refere a um bloqueio naval contra embarcações de imigrantes, um ato arrogante que não é apenas ilegal, mas capaz de matar centenas de milhares de seres humanos. A outra inclui vários planos de se reescrever a Constituição italiana para incluir meios vagos e abrangentes para prender os críticos de esquerda como, por exemplo a criminalização da “apologia ao comunismo” ou do “totalitarismo islâmico”. Para além desta inflexão do “preconceito” antifascista atual (raramente aplicado) da Constituição, está posto o plano de transformar a Itália em uma república presidencialista, substituindo o atual sistema parlamentarista por outro baseado num Executivo mais forte e centralizador.

Aborde os problemas!

Devido a sua liderança dominante nas pesquisas, a campanha de Meloni vem sendo bastante silenciosa, quase inteiramente focada em responder às acusações da esquerda sobre suas ligações com o fascismo. Um indicativo da seriedade com a qual estes assuntos vem sendo discutidos na Italia foi um vídeo disponibilizado por Meloni à mídia mundial — uma afirmação direta à câmera, sem perguntas de repórteres — no qual ela insiste no fato de que o fascismo já teria sido “consignado à história” e denuncia as “leis anti-Judeus de 1938” e a “ditadura”. A escolha por estas palavras, menos críticas ao passado do que as do histórico líder do MSI, Gianfranco Fini, nos anos 1990-2000, é evidentemente desenhada para evitar a condenação de (neo)fascismo. Em suma, ela reclama que a esquerda só fala de história por não ter nenhum programa de governo para apresentar.

De fato, são raras as propostas reais para os próximos cinco anos. A busca dos Democratas por votos —em grande medida míticos — centristas (e a multidão de pequenos partidos neoliberais que se intitulam representantes da “terceira via”) também são um fenômeno deste problema. Enquanto o Fratelli d’Italia aglutina o eleitorado de direita em torno de uma nova liderança, a centro-esquerda parece, a seu tempo, paralizada, capaz apenas de entrincherar-se na defesa de um modelo econômico que contribui para a estagnação do crescimento italiano desde os anos de 1990, respondendo aos seus efeitos apenas com subsídios temporários e medidas assistenciais. Não se trata apenas de uma questão relativa à participação na Zona do Euro, sem nenhum grande desafio político, mas está ligado a ele, na medida em que os governos estão presos em um ciclo de baixos investimentos, baixos ganhos de produtividade, dívida pública esmagadora e níveis estruturalmente baixos de emprego.

Mas nada disso significa que Meloni esteja realmente interessada em discutir sobre economia. As propostas da “centro-direita” sinalizam para um corte genérico nos impostos e na burocracia, mas com aumentos dessas ações sobre negócios conduzidos por cidadãos de fora da União Europeia, tratados como os únicos responsáveis pelo buraco sem fundo de evasão de recursos na Itália. A proposta do Fratelli d’Italia para aumentar o emprego — cortes de impostos para companhias (geridas por italianos) para que contratem mais — é apenas maquiagem na fraqueza econômica estrutural e nem de longe substitui o seguro-desemprego cuja proposta também visa acabar. Dentro da coalizão da direita, a proposta do Lega por um taxa fixa de 15% — provavelmente abrindo um rombo de €80 bilhões nas contas públicas — é tão absurda que nos faz pensar por quê não propor uma taxa de 10% ou 5% no lugar. A candidatura do ex-ministro das Finanças da era Berlusconi, Giulio Tremonti, é um sinal claro da intencional falta de medidas e políticas econômicas mais dramáticas.

Há forças mais ou menos à esquerda dos Democratas que vêm tentando inserir políticas sociais na campanha. Uma delas, ainda que quixotesca, é de Giuseppe Conte do Movimento Cinco Estrelas; depois de servir como um fraco aliado à Lega de Salvini em seu último mandato, ele fez do seguro desemprego introduzido em 2019 (mal-nomeado como “renda cidadã”) sua principal política. O partido tem aproximadamente 10% dos votos, muito abaixo dos 32% de 2018, após um percurso político errante e a saída do antigo líder Luigi di Magio. Assim como os aliados Democratas da esquerda verde (especialmente a candidatura do líder camponês marfinense Aboubakar Soumahoro), há uma esquerda independente na forma da Unione Popolare, liderada pelo prefeito de Nápoles Luigi de Magistris. Formado pouco tempo antes das eleições, que são esperadas para acontecer na próxima primavera, esta lista tem poucas chances de chegar ao parlamento.

Observando a política italiana, é frequentemente tentador concluirmos que para além da intensa polarização retórica e a recorrência de simbolismos históricos, as alternativas reais são bem menos dramáticas. De fato, a doença econômica italiana é crônica e não redutível a um momento de crise singular: a aderência cada vez menor dos cidadãos aos partidos já tem mais de três décadas e não estamos a ponto de ver uma reviravolta dramática. Além disso, o momento atual certamente traz novos perigos com a ascensão de um partido cuja grande parte de seus líderes é abertamente adepta de teorias da conspiração nacionalistas e defensora de criminosos de guerra fascistas.

Ao divulgar um vídeo de uma mulher sendo supostamente estuprada por um imigrante, Meloni nos disse muito sobre quem ela realmente é. A esperança de não a vê-la no poder, no entanto, é pequena.

Sobre o autor

David Broder é editor para a Europa da revista Jacobin.

A economia de ativos ataca novamente

A tentativa do Federal Reserve de "reduzir os salários" reflete o domínio duradouro do pensamento neoliberal nos níveis mais altos da formulação de políticas econômicas.

Martijn Konings


Imagem: Images Money

O ressurgimento da inflação criou uma situação estranha. A inflação é ruim para as pessoas comuns: seu dinheiro compra menos do que elas precisam. Mas a abordagem predominante para conter a inflação também é ruim para as pessoas comuns: taxas de juros mais altas deprimem a atividade econômica e mantêm os salários baixos. O que é essa ligação estranha em que estamos?

No século XIX, economistas políticos como David Ricardo tentaram conciliar a noção de que o valor econômico era produzido pelos trabalhadores com a ideia de que recompensar o trabalho acima de certo nível seria um dreno para o crescimento. Eles alegaram que existia um “fundo salarial”, uma quantia específica de dinheiro que poderia ser gasta em salários sem perturbar as leis da economia. Essa ideia parecia perfeitamente apropriada para a época: a Inglaterra industrializada do século XIX, o mundo da pobreza urbana opressiva retratada nos romances de Dickens.

Os desenvolvimentos do século XX pareciam refutar essa ideia, mostrando como o crescimento econômico e os aumentos salariais poderiam coexistir. A ideia de emprego como passagem para um estilo de vida de classe média tornou-se hegemônica – simplesmente bom senso. Isso significou um aumento não apenas no salário formal (pagamento pelo trabalho individual), mas no salário social, os benefícios financiados por um estado fiscal em expansão que fluía principalmente para trabalhadores assalariados brancos do sexo masculino. As reformas da Era Progressista e do New Deal transformaram assim o trabalho assalariado – por muitos séculos algo a ser evitado, o sofrimento dos socialmente marginalizados – no fundamento da plena cidadania econômica. Tornaram possível imaginar um ciclo de vida mais ou menos coerente com base no emprego seguro: comprar uma casa, mandar os filhos para a faculdade e economizar para a aposentadoria. Mas eles simultaneamente introduziram um ciclo de pressões inflacionárias: antecipando aumentos de preços, os sindicatos exigiram aumentos salariais para preservar o poder de compra, o que, por sua vez, ajudou a elevar os preços. A espiral de preços e salários que se desenvolveu na década de 1970 representou uma grande dor de cabeça para qualquer pessoa que investisse na estabilidade monetária da ordem do pós-guerra — inclusive as classes médias.

Livro após livro, ao longo dos últimos anos, documentou como esse consenso do New Deal foi desfeito de forma constante, mas implacável. A virada veio na década de 1970, quando a política neoliberal começou a dizimar sindicatos, desregulamentar mercados e reduzir gastos sociais. Mas mesmo quando o emprego deixou de ser um bilhete para a classe média, a rápida expansão financeira lançou as bases para uma nova política de classe média. Longe de criar um mundo de dinheiro “neutro”, o neoliberalismo deslocou as pressões inflacionárias dos salários para os ativos. Entre 1982 e 2022, o valor total em dólares das ações corporativas dos EUA se multiplicou por 61; ela havia pouco mais do que dobrado entre 1962 e 1982. O crescimento dos valores das casas pode parecer menos espetacular – um aumento de 18 vezes no último meio século – mas quando ajustado pela inflação e plotado em relação aos salários reais, este último é essencialmente estável.

O resultado foi uma nova política de classe média que girava em torno de ganhos de capital. Foi sobre essa base que o Partido Democrata começou a reconstruir o pensamento e a formulação de políticas progressistas na década de 1980, criando uma forma distinta de “neoliberalismo progressista”, como Nancy Fraser o chamou. E é essa política de classe média que ainda estrutura a maneira como os principais economistas e formuladores de políticas pensam sobre a economia.

Os rumores da morte do neoliberalismo são de fato muito exagerados. Em um momento em que as autoridades econômicas pedem maior desemprego para combater a inflação do lado da oferta, é essencial lembrar como a economia política dos EUA foi refeita para atender aos interesses dos proprietários de ativos em detrimento dos assalariados. Somente batendo de frente com essa economia de ativos podemos vislumbrar um futuro que se liberte dela.


O Federal Reserve foi o eixo institucional do arranjo do pós-guerra. It has become customary to imagine the 1950s and ’60s as an age of civilized capitalism that worked for everyone. But the Fed always tried to impose limits on the social ends toward which the state could direct its growing fiscal powers. In its view, overly generous entitlement programs were bound to take people off the labor market, bringing the economy too close to full employment and putting upward pressure on wages and prices. The Fed used restrictive monetary policy to rein in these feared excesses. The consequences were always layered, disproportionately harming Black and other marginalized workers who often did not enjoy the protection of powerful unions.

This arrangement was premised on the Federal Reserve having a reasonable degree of control over the amount of credit created by the banking system. From the second half of the 1960s, such control grew increasingly tenuous. Banks saw too many opportunities for profitable lending in a growing economy, and they found too many ways to get around regulatory restrictions. The lack of control over credit growth fanned inflation, and unions started pricing anticipated inflation into their wage demands.

Benchmarking wage claims in this way made perfect sense for unions. The consumer price index was invented in the early twentieth century by progressively minded institutional economists as a way to measure what money wages can buy. But systematically measuring purchasing power institutionalizes a strange feedback loop. Since wages are one of the key factors shaping prices, there is always the possibility that a wage increase will partly undo itself.

Recalibrating their thought around the specific challenges of the 1970s, neoliberal thinkers took this possibility to be a near certainty. Monetarism and rational expectations theory, in particular, argued that any gains originating outside the competitive logic of the market would be quicky eaten up by growing inflation. The political message of Milton Friedman’s long-run Phillips curve (a straight vertical line) was clear: any attempts to “artificially” inflate the employment level were ultimately futile, but they could do tremendous damage in the short run. The classical theory of the wage fund had been updated for the financial era.

This was the spirit behind the monetary policy turn initiated by Paul Volcker, the financial hawk appointed as Federal Reserve chairman in 1979 by President Jimmy Carter, who was increasingly desperate to get inflation under control. Volcker was convinced that the inflationary growth of wages was doing a great deal of harm to the U.S. economy, and he saw only one solution: “The standard of living of the average American has to decline.”

Volcker recognized that monetary policy had become the critical enabler of the inflationary spiral. But by the same token, it could be a powerful lever of change. Volcker saw his job as one of resetting expectations, and he was under no illusion that the Fed would by itself be able make the necessary adjustments. Unlike many less honest or astute observers, Volcker recognized that the Reagan administration’s war on organized labor was key to the eventual success of anti-inflationism.

What’s become known as the Volcker shock—a sudden clampdown on credit creation that pushed interest rates to spectacular levels and induced a recession—became the turning point it sought to be. But it never was able to slow down the creation of credit for very long, and inflationary pressures were not suppressed but rerouted. The 1980s reversed the economic dynamic of the ’70s: a combination of wage-price pressures and stagnating asset values was replaced with a combination of zero wage growth and rapid increases of asset values. Whereas the former situation could only be managed by subjecting the economy at large to ever worsening inflation, the instability caused by asset-driven financial growth could be addressed through more targeted interventions—mainly, bailouts for firms and markets considered “too big to fail.” This shift meant that new expectations were created for asset holders while wage-price expectations were wound down.

Traditionally, regulators and politicians had considered bailouts a major source of moral hazard, a way of rewarding irresponsible behavior that was impossible to explain to the tax-paying public. Had U.S. authorities continued in this spirit and decided to let failing firms fail, we would now be living in a very different world. Instead, the asset economy was born: a new economic logic that revolved around the promise of capital gains and asset inflation. Muito do que consideramos o mundo sofisticado e acelerado da inovação financeira é sustentado pela disposição do estado dos EUA de colocar um piso no valor das classes de ativos.


Essa nunca foi bem uma história do 1% se enriquecendo às custas das massas. The Savings and Loans bailout of the late 1980s is only one among many examples of the too-big-to-fail principle applied in a way that reflected the interests of a broad segment of the U.S. population. But when it came to reframing the destruction of industry and the disappearance of full employment as opportunities, the 1980s neoliberalism of Reagan ultimately lacked conviction. As historian Lily Geismer documents in her recent book Left Behind (2022), it was the Third Way philosophy of the Clinton era that transformed financial expansion into a more compelling middle-class politics.

Hatched largely in the Democratic Leadership Council (DLC) and similar fora, Clinton’s Third Way was a left-of-center political philosophy that accepted key tenets of neoliberal thought. As a reading of Al From’s (founder of the DLC) account of that era makes clear, the New Democrats saw inflation as the main threat to public interest in a strong economy, and they viewed wage pressures and deficit spending as the key drivers of inflation. In the wake of this reformulation of neoliberal market thought, economic policymakers viewed with growing skepticism any schemes designed to improve the lives of Americans as wage-earners, people who have nothing to sell but their labor power. In the new way of thinking, the only acceptable earnings increase was the result of human capital formation. It was the era of the knowledge economy, and the power of training and education featured prominently in the progressive-neoliberal fantasy of the transubstantiation of labor into capital. As Bill Clinton and Al Gore put it, “what you earn depends on what you learn.”

With the ideological appeal of neoliberalism now more firmly joined to a practical program centered on democratizing access to capital gains, the middle-class credentials of capitalism received a new lease on life. The nostalgia that the 1990s now evokes for many committed Democrats of the Baby Boomer generation should be seen in that light: it represented the high point of this reconfigured asset-focused middle-class politics, when rising home and stock prices delivered benefits widely enough to give credence to promises of inclusive wealth and comfortable retirement, and meaningful returns on education for some gave the human capital dream sufficient traction to forestall political revolt against general wage stagnation. The Clinton administration’s proactive embrace of fiscal discipline and balanced budgets, not least through major cuts to welfare spending, largely relieved the Fed of having to police the government on that score. In combination with the steady weakening of organized labor, this arrangement meant that Alan Greenspan could focus on backstopping financial markets and promoting asset inflation without fear of price inflation—which he did.

By the start of the twenty-first century, the need to keep asset values growing had become thoroughly embedded in the muscle memory of central bankers. The steady lowering of interest rates allowed them to do just that. For much of the ’90s, the federal funds rate had hovered around 6 percent. But in response to the bursting of the dot-com bubble, the Greenspan Fed started aggressively lowering the rate, all the way down to 1 percent by 2004—a negative real interest rate that subsidized rather than charged for borrowing. The Bush administration observed none of the fiscal austerity that the Clinton administration had, but its spending was firmly targeted at corporations and the wealthy, so it did not pose much of a threat to the management of price inflation.

This pattern of financial expansion set the scene for the financial crisis of 2007–08. At that point the U.S. public had come to associate financial crises primarily with the speculative gyrations of high finance and the spectacular failure of overleveraged hedge funds. But now the liquidity bottlenecks originated not on Wall Street but on Main Street, where a growing number of Americans were struggling to keep up with their mortgage payments. The fact that liquidity problems originated at the bottom of the system constituted a fundamental challenge to the idea that the benefits of asset inflation and capital gains could be extended indefinitely. The core problem—the disconnect of wages and asset prices—was not something that the Obama administration ever made any serious plans to tackle. Its management of the crisis and the recovery was fully driven by the belief that any attempt to improve the lives of ordinary people needs to go through and obtain authorization from the financial markets.

Indeed, as Obama put it himself, his administration was populated with “folks who understand the financial markets”—economists such as Larry Summers and Timothy Geithner whose careers had taken flight during the Clinton years. Their version of Keynesianism was built on an acceptance of the neoliberal critique of traditional Keynesianism and its inflationism. The experience of the roaring ’90s had reconciled them to the end of wage growth, and they now emerged as the all-too-familiar public figures who think of themselves as politically progressive but are constitutionally incapable of identifying with those who depend on a monthly paycheck.

With interest rates at zero, an economic system that wouldn’t restart of its own accord, and an administration that was committed to fiscal austerity, the only way for the Federal Reserve to prevent an economic depression on the scale of the 1930s was to adopt the asset-purchasing (“quantitative easing”) policies that we have become acquainted with over the past decade. This amounted to a full normalization of the bailout system—indeed, its proactive implementation. As Gerald Epstein and Robert Pollin have demonstrated in these pages, bailouts are not exceptions to the core logic of neoliberalism; they are its modus operandi.

The upshot is that the most powerful actor in the global political economy became locked into a policy pattern whose contradictions were increasingly visible. Katharina Pistor’s definition of the Fed’s monetary sovereignty captures this paradoxical state of affairs: the capacity to backstop a financial system over which it was unable to exercise substantial control.

While this escalation of the logic of the asset economy served to keep asset values afloat—preventing the Great Recession from turning into a second Great Depression—it was unable to recapture the spirit of financial democratization of the 1990s and early 2000s. Since the mid-2010s, as each round of asset purchases did less and less to help ordinary people and sired more and more new millionaires, the Fed became more aware of the contradictions of its own position. Cautiously, it sought to highlight the inherent difficulty of managing an economic system that had effectively ruled out social spending and wage increases. Janet Yellen’s willingness to issue occasional reminders of the need for fiscal stimulus led Republicans to portray her as a tax-and-spend liberal, destroying any remaining chance of reappointment after her first term. But the concerns of Yellen’s successor, current Fed chair Jerome Powell, were for some time broadly similar. Although he took much greater care to maintain support for his policies across the political spectrum (not always successfully), he nonetheless felt compelled to point out that monetary policy was not able to solve all economic problems.

The pandemic blew such critical concerns out of the water. The public health emergency created an unusual situation for managers: workers suddenly became less dispensable. The resulting mild upward pressure on wages never became sustained or systemic, but mainstream media outlets nonetheless worked hard to conjure the threat of a wage-price spiral. (A Bloomberg article is emblematic of the genre: it acknowledges the structural context of wage stagnation but quickly goes on to argue that any wage increase could potentially set off the “dreaded spiral” and to wonder if the Federal Reserve could be underestimating the risk.) A proeminência dessas preocupações refletiu até que ponto a década de 1970 moldou a imaginação política contemporânea.


No final, como todos sabemos agora, a inflação voltou e se mostrou mais rígida do que muitos esperavam. O estímulo pandêmico do governo Biden pretendia impedir um movimento deflacionário, e a combinação de queda do desemprego e uma campanha de organização sindical elevou os salários em setores selecionados. Mas falta o ingrediente-chave que justificaria falar de uma espiral de preços e salários: a capacidade dos trabalhadores para exigir aumentos salariais que influenciem os aumentos de preços previstos.

Esta é a principal diferença entre a década de 1970 e o presente. O ataque ao trabalho organizado nas últimas décadas enfraqueceu a posição de barganha dos trabalhadores, deixando-os incapazes de exigir aumentos salariais compensatórios em massa. A capacidade e a disposição das empresas de aumentar suas margens e lucros foram muito mais significativas ao transformar a inflação transitória associada às interrupções da cadeia de suprimentos pandêmica em uma pressão ascendente sustentada sobre os preços ao consumidor.

Esses fatos não estão em discussão. E, no entanto, a conversa principal continuou a girar em torno do perigo de uma espiral salário-preço e da necessidade de os trabalhadores apertarem o cinto. No Twitter, o economista keynesiano Olivier Blanchard – que não um personagem particularmente reacionário – se preocupou com a dificuldade de “convencer os trabalhadores de que o desemprego tem que aumentar para controlar a inflação” em uma situação em que eles não são responsáveis ​​pela inflação. Isso não é análise econômica: é cãibra neural, induzida por várias décadas de racionalização dos interesses de uma classe média cada vez mais estreita e inacessível no valor de seus ativos.

Essa lógica exige não apenas que os trabalhadores suportem o peso dos problemas que outras pessoas criam, mas também que eles reconheçam que isso é do seu próprio interesse. Jane Elliott argumentou que o neoliberalismo não está principalmente interessado em negar a agência das pessoas, mas em garantir que elas usem ativamente sua liberdade para piorar sua própria situação. O estranho vínculo que o discurso inflacionário impôs aos trabalhadores – os cortes salariais prejudicarão você e sua família, mas todas as outras opções são ainda piores – é emblemática desse estado de coisas. O fracasso abjeto do keynesianismo contemporâneo consiste em sua aceitação dessa lógica, como se ela refletisse não um modo particular (neoliberal) de ver e pensar, mas uma condição ontológica que garante que qualquer tentativa de pessoas comuns de melhorar suas vidas sempre será um tiro pela culatra para tornar as coisas pior.

Powell, por exemplo, foi franco com o povo americano: o objetivo do aumento da taxa de juros é “reduzir os salários”. Se Ricardo e sua geração de economistas políticos clássicos ainda tivessem ideias específicas sobre o que era um nível salarial correto, ninguém no Federal Reserve seria capaz de especificar um padrão pelo qual podemos dizer que os salários são altos demais. É assim que acabamos em uma situação em que o número oracular de Summers – “Precisamos de cinco anos de desemprego acima de 5% para conter a inflação” – é transmitido como um comentário sério. É tentador descartá-los como números arbitrários, tirados do nada ou talvez de algum outro lugar. A verdadeira questão não é que eles estejam errados, mas fora de questão, já que os salários não são responsáveis ​​pela inflação em primeiro lugar. Caso as corporações vejam oportunidades adicionais para aumentar os preços para aumentar os lucros, Summers apenas revisará seus números para cima, exigindo ainda mais sacrifícios. O desejo de reduzir os salários se desvinculou de qualquer razão real para fazê-lo ou de qualquer justificativa plausível.

Tudo isso parece muito arcaico, até mesmo feudal. A ideia de que o pensamento de mercado neoliberal está agora rapidamente dando lugar a um movimento político que simplesmente reafirma as hierarquias tradicionais é compartilhada por conservadores reacionários como Josh Hawley e teóricos críticos como Jodi Dean e Robert Brenner, que estão interessados na noção de que estamos entrando em uma era do neofeudalismo.

Certamente não é um mau momento para nos lembrarmos de que a possibilidade de alcançar um padrão de vida decente com base no trabalho assalariado é uma invenção bastante recente, historicamente falando, e que uma ordem econômica capitalista é perfeitamente consistente com a propriedade do capital humano de outras pessoas e várias formas de trabalho não-livre. Mas não é particularmente útil pensar que essas tendências sinalizam uma ruptura com o modelo econômico que surgiu nas últimas duas décadas. Elas são, mais plausivelmente, simplesmente as próximas paradas em uma estrada que estamos percorrendo há algum tempo.

A ameaça real não é tanto que a economia de ativos tenha definitivamente perdido o fôlego; é que ela descobrirá novas maneiras de continuar. É claro que, no momento atual, podemos ver aumentos nas taxas de juros prejudicando tanto os valores dos ativos quanto os salários. Mas imaginar que essas variáveis normalmente se movem em conjunto seria ignorar as lições de quase meio século de neoliberalismo. Uma nova fase de crescimento impulsionado por ativos é, de qualquer forma, o que os ricos estão contando: eles estão atualmente ocupados comprando ativos porque a calmaria do mercado é um bom momento para adicionar ao portfólio antes que as coisas decolem novamente. Se o Federal Reserve for bem-sucedido no que eufemisticamente chama de “inflação estabilizadora”, estará enfrentando uma versão mais extrema do problema que enfrentou nos últimos anos tendo que empurrar ainda mais liquidez para o sistema por meio de compras de ativos simplesmente para manter o sistema funcionando.

É teoricamente possível que os desenvolvimentos atuais criem uma situação em que alternativas claramente delineadas e facilmente compreensíveis à hegemonia do neoliberalismo se apresentem. Mas o capitalismo tem um jeito de confundir nossas opções, e as contradições intensificadas do neoliberalismo progressista por si só não pressagiam nenhum futuro particular. O que devemos nos perguntar é por que continuamos andando pela faixa de Möbius de Blanchard. Se houve um breve momento no século XX em que realmente parecia que os trabalhadores haviam descoberto como viver em um sistema que tinha como premissa sua exploração, agora vivemos várias décadas em que a impossibilidade inerente desse projeto foi impressa em nós a cada passo. Pessoas como Blanchard agora estão explicando isso para nós da maneira mais literal possível.

Colaborador

Martijn Konings é professor de Economia Política e Teoria Social na Universidade de Sydney. Seus livros mais recentes são Capital and Time e The Asset Economy, este último em coautoria com Lisa Adkins e Melinda Cooper.

23 de agosto de 2022

Mike Davis ainda é um bom contador de histórias

Mesmo em seu ato final, o lendário acadêmico e teórico não mede palavras. Ele vê uma L.A. que está se deteriorando de baixo para cima.

Sam Dean

Los Angeles Times

Mike Davis em sua casa em San Diego em 12 de julho de 2022. Foto: Adam Perez/Los Angeles Times

Tradução / Ao final de junho, escrevi para Mike Davis para ver se ele estaria disposto a dar uma entrevista. Sua resposta: “Se não se importa com a longa viagem até San Diego, ficarei feliz em conversar. Estou em estado terminal de um câncer de esôfago metastático, mas ainda estou firme e em casa”.

Davis não tem papas na língua. No entanto, sabe como contar algumas histórias. Como essa: nascido em Fontana, criado em El Cajón, ele passou os anos 1960 na linha de frente de movimentos políticos radicais em Los Angeles, onde ingressou no Partido Comunista ao lado de Angela Davis. Em solidariedade, deu-lhe um carro: um chamativo Chevy de 1954. Um mês depois, em uma reunião do Partido, perguntou o que achava, apenas para saber que a bateria supostamente havia explodido e um mecânico simpático se ofereceu para se livrar do veículo gratuitamente.

Ou essa: em 1970, ele marchou nas linhas de piquete dos Teamsters [caminhoneiros], acompanhado de companheiros do sindicato, com espingardas de cano serrado por baixo de seus casacos e sob um sol escaldante de verão. Ele também teve que fugir da avalanche de xerifes que marchou no Parque Belvedere durante a Moratória Chicana.

Mas o que colocou Davis no mapa cultural é a história de Los Angeles, descrita em seu best-seller de 1990, Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles. O livro, leitura obrigatória para quem quer entender a cidade, detalha a história de Los Angeles como uma máquina corrupta construída para enriquecer sua elite, enquanto sua polícia, supremacista e branca, serviu como um cão de guarda para golpear, prender e matar desordeiros. Também alertou que outro iminente conflito, Watts 2.0, poderia estar no horizonte. Dezoito meses depois, em abril de 1992, a cidade convulsionou. Davis parecia um clarividente, embora dissesse que a raiva latente era evidente para qualquer um que saísse de dentro do próprio carro. Ele se tornou uma celebridade menor. Também começou a trabalhar com os líderes de tréguas entre gangues para defender o reinvestimento no sul de Los Angeles.

Seguiu-se uma série surpreendente de mais de uma dúzia de livros, variando de críticas e histórias do oeste americano a análises históricas abrangentes de como o desastre climático, o capitalismo e o colonialismo fizeram com que os pobres do mundo afundassem em suas engrenagens e nos colocam cara a cara com as calamidades futuras (incluindo pandemias virais globais, previstas em The Monster Knocks on Our Door, de 2005. Recentemente, ele voltou ao tema de Los Angeles com Set the night on fire: L. A. In the sixties, de 2020, uma história enciclopédica de Los Angeles nos anos 1960 contada através de movimentos sociais.

Mike Davis está sentado em sua cadeira de redação em sua casa em San Diego em 12 de julho de 2022. (Adam Perez / For The Times)

Cara a cara, Davis, de 76 anos, é hilário, infalivelmente generoso e, acima de tudo, parece amar as pessoas. Sua casa está cheia de livros (ele lê “500 páginas por dia”), répteis de estimação e uma coleção de arte e objetos de esquerda que ele compartilha com sua esposa, artista e professora Alessandra Moctezuma. Nossa conversa durou do meio-dia ao pôr do sol. Davis me presenteou com histórias de projetos inacabados e de foragidos que ele conheceu, de alunos perigosos (incendiários, perseguidores) e alunos perigosos (um príncipe fijiano que fora esfaqueado durante os trabalhos escolares por "passar a noite em Los Angeles", mas ele o agradeceu), e o que ele considera suas verdadeiras paixões: a ecologia moribunda da Califórnia e as rochas ígneas, que ele viajou pelo mundo para coletar e armazenar em seu escritório, que virou garagem.

Esta entrevista foi condensada e editada.

Sam Dean

Você decidiu interromper os tratamentos de quimioterapia para o câncer de esôfago. No que você pensa no dia a dia?

Mike Davis

Em primeiro lugar, tenho muitas distrações. Leio cerca de 500 páginas por dia – história militar, exploração – e à noite me aconchego com meus filhos e assisto a algumas séries policiais.

Sou um celta fatalista e tenho como exemplo minha irmã mais velha e minha mãe, que morreram como soldados russos em Stalingrado. Pretendo não decepcionar [minha família], ser tão sólido quanto eles. Eu não estou deprimido. O que mais me preocupava diante da morte – meu pai teve uma morte particularmente agonizante, cujo trauma nunca me deixou completamente – era a ideia de que também poderia ser tão traumático para meus filhos, que essa seria a memória deles de mim. Mas graças à lei da eutanásia assistida [da Califórnia], eu tenho controle sobre o ato final.

Mas, acho que o que mais penso é que estou extraordinariamente furioso e zangado. Se eu tenho algum arrependimento, é de não morrer em batalha ou em uma barricada como eu sempre imaginei romanticamente, lutando.

Sam Dean

Você foi rotulado de “profeta da desgraça” após a publicação de Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles em 1992, no qual você parecia antecipar as revoltas de 1992 em resposta ao veredicto de Rodney King.3 Mas você se descreveu como um neocatastrofista, no sentido mais estrito de acreditar que a história, da história geológica à história política humana, ocorre mais em saltos violentos, como terremotos e impactos de meteoritos e revoluções, do que através de mudanças graduais. Você ainda se considera um catastrofista hoje?

Mike Davis

Sim. Mas quero dizer catastrofista em dois sentidos. Um, em ressonância com Walter Benjamin, é a crença no surgimento repentino de oportunidades para saltar para um futuro quase utópico. Mas, claro, catastrófico também no outro sentido, em relação a eventos como pragas. Agora, nos meus últimos dias, eu me sento aqui com admiração e leio o jornal, e as pessoas dizem que precisamos de mais carvão, precisamos de mais petróleo, um ano após o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ter deixado claro que certamente estamos entrando em um mundo com um aumento de pelo menos três graus Celsius, o que é quase inimaginável. E o que tentei escrever e convencer as pessoas é que este é um genocídio planejado. Uma grande minoria, a mais pobre do planeta, está de alguma forma condenada.

E quanto ao velho negócio de que, bem, discos voadores vão pousar e a humanidade vai se unir em uma causa comum, vejam os corpos se empilhando nas fronteiras e os muros sendo construídos. Sem escolha, os refugiados ambientais morrerão.

Sam Dean

Seu livro mais recente, Incendiar a noite, é sobre a história do movimento de Los Angeles na década de 1960, e como o Departamento de Polícia de Los Angeles e os Xerifes, junto com o FBI, reprimiram brutalmente grupos ativistas.

Mike Davis

Na minha opinião, o DPLA (Departamento de Polícia de Los Angeles) é irreformável. Mas o Departamento dos Xerifes é absolutamente aterrorizante. Até certo ponto, sempre foram: nos anos 1970 participei da Moratória Chicana e do Parque Belvedere, em todos os grandes comícios do Lado Leste, quando os xerifes vinham atirando. Mas eles nunca estiveram tão selvagens ou completamente fora de controle como estão agora.

O problema é a cultura e o contexto. Os xerifes mais velhos, como muitos dos mais velhos [do Departamento de Polícia de Los Angeles], são simplesmente irreformáveis. A solução real é demiti-los em massa, assumir as academias, desfazer as gangues e, muito importante, exigir que a polícia more nas áreas que patrulham, ou pelo menos dentro dos limites da cidade. Não há como ter um Departamento de Polícia ou um Departamento de Xerifes decente em uma cidade tão cheia de contradições econômicas e de classe como Los Angeles. Essa não é uma razão para não reformar, mas é uma razão para ser realista quanto aos seus limites.

Sam Dean

Você passou grande parte de sua vida na linha de frente das lutas por justiça social e mudança política, do CORE [Congresso da Igualdade Racial] e SDS [Estudantes por uma Sociedade Democrática], no início, até o ativismo trabalhista e movimentos de solidariedade internacional em anos posteriores. O ato de se organizar parece ser baseado na esperança de mudar o mundo, mas seus livros pintam um quadro sombrio: colapso ecológico, corrupção política, supremacia branca, contínua impiedade para com os pobres do mundo. Como você mantém a esperança?

Mike Davis

Para ser franco, não acho que a esperança seja uma categoria científica. E eu não acho que as pessoas lutam ou mantém seus rumos por esperança. Eu acho que as pessoas fazem isso por amor e raiva. Todo mundo sempre pergunta: Você não tem esperança? Você não acredita em esperança? Para mim, isso não é uma questão de racionalidade. Tento escrever da forma mais honesta e realista possível. E você sabe, eu vejo coisas ruins. Eu vejo uma cidade que está se deteriorando por baixo. Vejo as paisagens que são tão importantes para mim, como um californiano que está morrendo, irremediavelmente mudadas. Eu vejo o fascismo. Escrevo meus livros porque espero que as pessoas que os leem não precisem de doses de esperança ou finais felizes, mas que leiam para saber contra o que lutar, e lutem mesmo quando o combate parece sem esperança.

Sam Dean

Nas entrevistas de 2020, você expressou algum otimismo sobre a energia que viu nas ruas durante os protestos do Black Lives Matter. Dois anos depois, onde está essa energia?

Mike Davis

Tenho idade suficiente para dizer com alguma autoridade que esta geração é diferente de qualquer outra geração do pós-guerra. A combinação de ver seus direitos retirados, por um lado, e enfrentar a perda de capacidade econômica, por outro, os radicalizou e deu às lutas, que alguns denunciam como políticas identitárias, uma força muito material.

Os jovens se importam com o seu futuro. Antes de me aposentar do ensino na [Universidade da Califórnia] Riverside, não posso contar quantas conversas tive com jovens que estavam simplesmente agonizando. Eles eram os primeiros a ir para a faculdade em sua família e, de repente, seus pais perdiam seus empregos e eles não sabiam o que esperar, porque há tantas expectativas e tantos sacrifícios que foram feitos para eles irem faculdade que, de alguma forma, isso se tornou em um futuro real. E isso estava quebrando.

Mas o maior problema político na América, agora, é a desmoralização de dezenas de milhares, provavelmente centenas de milhares de jovens ativistas. Parte do problema é a falta de estrutura organizacional, principalmente organizações de organizadores. Não há liderança que conduza o caminho.

Coleção Karl Marx de Mike Davis em sua casa em San Diego, 12 de julho de 2022. (Adam Perez / para o Times)

Quero dizer que sou um apoiador de Bernie Sanders, mas a campanha de Sanders manteve essa ideia de que usamos movimentos para construir política eleitoral e política eleitoral para construir movimentos. Se você olhar para a história dos movimentos populares em relação à política eleitoral, isso quase nunca foi verdade. Quero dizer, Bernie e Alexandria Ocasio-Cortez e assim por diante, eles estão em todas as linhas de piquete e estão sempre a favor da causa correta, mas eles permitiram que o movimento nas ruas se dissipasse, e os jovens estão muito desmoralizados.

Sam Dean

O que poderia estar acontecendo?

Mike Davis

Por que a direita, a extrema direita, é a dona das ruas e não a esquerda? Não é como na Europa, onde em muitos países o ativismo juvenil está inativo ou em declínio. Existem milhões de pessoas iguais [a meu filho de 18 anos], mas quem diz a ele onde lutar ou o que fazer?

Quem te convida para uma reunião? Em vez disso, tudo o que eles recebem, e o que eu recebo todos os dias, são 10 solicitações dos democratas me pedindo para apoiar seus candidatos. Eu voto nesses candidatos. Eu acho que temos que apoiá-los, mas o movimento é mais importante. E esquecemos o uso da desobediência civil disciplinada e agressiva, mas não violenta. Por exemplo, as mudanças climáticas. Deveríamos estar sentados na sede de todas as companhias de petróleo, todos os dias da semana. Se poderia facilmente organizar uma campanha nacional. Temos toneladas de pessoas que estão dispostas a serem presas, que estão muito dispostas a fazê-lo. Ninguém está organizando isso.

Sam Dean

Você disse que a desobediência civil agressiva – e não violenta – é necessária. Mas e a violência política? Você escreveu um livro sobre a história do carro-bomba, The Buddha Car [O Carro de Buda]. Você também viveu as duas revoltas de Los Angeles, era amigo dos Panteras Negras, morou em Belfast durante o conflito.4 Você está surpreso que não haja mais violência política nos EUA?

Mike Davis

Me recordo, no auge do susto dos Panteras Negras, de dizer às pessoas: o incrível é que há tão pouca violência de negros contra brancos na história americana, em comparação com a violência implacável de brancos contra negros.

Mas não vimos o tipo de violência que vem da direita, nem vimos – porque não fomos suficientemente perigosos recentemente – o que vai acontecer quando todos os novos poderes de vigilância repressiva, toda a legislação antiterrorismo, atacar os movimentos progressistas. A reação dos democratas à guerra contra o terror, na maioria dos projetos de lei, tem sido remodelar um pouco as fronteiras, mas nunca tentar desmantelá-la.

Sam Dean

Você escreveu recentemente sobre a megalomania por trás da invasão da Ucrânia por Putin, concluindo: “Nunca tanto poder econômico, midiático e militar se fundiram em tão poucas mãos. Elas deveriam nos fazer homenagear os túmulos dos heróis Aleksandr Ilitch Uliánov, Alexander Berkman e o incomparável Sholem Schwarzbard”. Eles eram todos assassinos ou tentaram assassinar pessoas, não?

Mike Davis

Você estudou sobre o Sholem? Ele matou o grande herói do movimento de independência da Ucrânia [Symon Petliura]. Ele o matou em uma rua de Paris, e um júri de Paris o considerou inocente assim que ouviram a história dos pogroms e coisas assim. Mais ou menos como o júri de Angela Davis. Um grande personagem.

Psychic (1997) por James Doolin; On the right Helicopter (2021) por Anna Stump. Bottom: Abaixo: Uma fotografia que foi capa do primeiro livro de Davis, "Prisoners of the American Dream." (Adam Perez / For The Times)

Um dos principais projetos de livros que nunca terminei, embora tenha sido entrevistado sobre ele e tenha sido publicado como um livro independente em francês, foi um projeto chamado Heroes of Hell [Heróis do inferno], que analisa a revolução violenta no século XIX e início do século XX. Os bolcheviques sempre se opuseram a atos de violência individuais, porque a Rússia tinha muita experiência com isso antes da revolução; o argumento leninista era que a ação de massa substituiu o ato heroico, o indivíduo heroico sacrificado pela classe. Fazia muito sentido.

Para mim, a violência política é algo que deve ser julgado muito mais racionalmente do que moralmente. E há casos: após a morte de Franco, a transição franquista para preservar o regime já estava preparada. [Luis] Carrero Blanco foi o sucessor ungido de Franco, e um grupo explodiu seu carro sobre uma catedral. Isso perturbou totalmente a sucessão e possibilitou uma relativa democratização. Do lado negativo, sabemos que se Fanni Kaplan não tivesse atirado em Lênin, talvez não houvesse Stálin. Para mim é uma questão em aberto que depende do contexto e das condições.

Eu, aliás, nunca apoiei os Weathermen.5 Na verdade, eu odeio profundamente os Weathermen. Essas pessoas fizeram exatamente o que os policiais teriam feito, e agora reinventaram a história para se tornarem heróis. Para mim, eles são apenas crianças ricas, junto com algumas crianças comuns, reproduzindo “Zabriskie Point“6 para si mesmas.

Sam Dean

Você não decidiu ir para a faculdade até os 30 anos, e seu primeiro livro, Prisoners of American Dream [Prisioneiros do sonho americano] foi lançado quando você tinha 40 anos. Você sempre quis escrever?

Mike Davis

Não. Aprender a escrever é a coisa mais difícil que já fiz. Às vezes eu tinha que datilografar uma resma inteira de papel em uma máquina de escrever elétrica só para formular a primeira frase. Foi absolutamente brutal.

Sam Dean

E por que você quis aprender isso?

Mike Davis

Porque eu fui um fracasso miserável como organizador e palestrante. O primeiro discurso que fiz foi um comício antiguerra em Stanford, em 1965. Eu estava trabalhando em algum projeto maluco do SDS [Estudante para uma Sociedade Democrática] em Oakland. Consegui afugentar três quartos da multidão em cerca de cinco minutos. Passei anos em pequenos grupos tentando me reagrupar com grupos ainda menores, indo a todos os comícios, tentando isso e aquilo. E a escrita tornou-se a única habilidade útil para a atividade política, para o movimento.

Sam Dean

Quem mais influenciou sua forma de escrever? O que você leu que te fez querer escrever?

Mike Davis

Eu nunca li muita ficção, então a pouca que li foi muito influente, começando com As vinhas da ira. A linguagem bíblica e a cadência de Steinbeck. Então a New Left Review foi uma influência inicial na minha escrita e uma influência negativa de certa forma.

Uma das minhas influências literárias e intelectuais mais profundas foi o marxista galês Gwyn Williams. Ele havia saído do grupo de historiadores comunistas, [tinha sido] o primeiro a escrever um artigo em inglês sobre Gramsci, mas acima de tudo ele tinha esse domínio da história galesa em tantos níveis diferentes. Então, até certo ponto, eu queria que Los Angeles fosse…

Sam Dean

O seu País de Gales?

Mike Davis 

Sim! E, claro, na história natural, a grande influência sobre mim foi meu amigo Steve Pyne. Ele é o historiador do fogo, e simplesmente um ótimo personagem no geral. Ele era bombeiro e foi para Stanford com uma bolsa de beisebol. Peguei seu livro quando estava com muita saudade de Londres e li sua história social do fogo na América. E, de repente, eu queria escrever a história ambiental de Los Angeles como uma história política e social.

Mas o verdadeiro núcleo da minha escrita era contar histórias. Eu disse a um dos meus colegas de Riverside que não sou escritor, mas sou um ótimo contador de histórias. E eu estive perto de alguns dos melhores contadores de histórias do planeta. Sabe, nos pubs de Belfast e nos bares de lenhadores de Butte, Montana, eu ouvi ótimas histórias.

Sam Dean

Quais são algumas das reações mais surpreendentes que você viu ao seu trabalho?

Mike Davis

Após o lançamento de Cidade de quartzo, tornei-me amigo íntimo de Kevin Starr. Começamos a debater. Ele era tão charmoso e envolvente que comecei a vê-lo para almoçar com sua esposa e ele era um frequentador regular do Bohemian Grove.7 Então, ele me convidou para o Bohemian Grove.

Sam Dean

Sério?

Mike Davis

Eu disse: “O quê? Eles nunca me deixariam entrar no Bohemian Grove em um milhão de anos”. Ele disse: “Ah, sim, eles vão. O único problema é que você nunca poderá filmar ou escrever sobre ele”. E então eu disse: “Que pena”. Meus amigos ficaram bravos comigo. Todos queriam que eu fosse para Bohemian Grove. Mas tudo o que acontece no Bohemian Grove é George Shultz e um bando de bilionários correndo por aí, fazendo xixi em sequoias como crianças de 7 anos.

Recusei outros convites que realmente irritaram meus amigos. Recebi um convite para ir ao Vaticano.

Sam Dean

Quem o convidou para o Vaticano?

Mike Davis

O Gabinete do [Papa] Francisco. Por conta do meu livro Planeta Favela. E eu decidi não ir.

Sam Dean

Antes de terminarmos, há alguma, não sei, exortação, chamada à ação, que você queira compartilhar?

Mike Davis

Ah, não. Eu resisti a várias coisas, uma delas é a ideia dos roteiristas de que você tem que escrever algo profundo sobre sua própria demissão. Não tenho intenção de fazê-lo, nem qualquer compulsão para escrever algo fajuto-heroico. Quando minha irmã mais velha morreu, eu tinha certeza de que ia morrer também. Embora não soubesse que seria do mesmo câncer que ela teve. E escrevi dois poemas que mais ou menos resumem minha visão de vida, poemas simples. Ficarão para mais tarde.

Mike Davis em sua casa em San Diego em 12 de julho de 2022. (Adam Perez / For The Times)

Acho que as pessoas que leem minhas coisas entendem muito bem. Uma das razões pelas quais essa assistência para morrer é importante para mim é que também garante que eu não perca meu senso de humor. Mas o que minha irmã mais velha me ensinou quando recebeu o veredito final – e ela foi tão direta e corajosa quanto em tudo em sua vida – foi que esta é uma oportunidade de ensinar seus filhos a não ter medo disso. Ficar triste, mas não temer.

Sou apenas uma pessoa comum passando pelo que toda pessoa comum acaba passando em circunstâncias que não são especialmente trágicas. Exceto, talvez, por alguns da família.

Mas não é preciso fazer declarações ponderadas. Tem sido mais divertido assistir o Golden State Warriors8 jogar, ou mistérios escandinavos, ou ler livros e, acima de tudo, relaxar e sair com a família. Tenho muita sorte de estar cercado por todo o amor que tenho aqui.

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