6 de maio de 2016

O longo jogo de Trump

Elizabeth Drew

New York Review of Books

Desde que entrou na corrida presidencial, Donald Trump tem sido um perturbador de suposições. E agora a pergunta principal é se a sua abordagem para conseguir a nomeação vai funcionar tão bem para ele na eleição geral. De pouco adianta estudar mapas de resultados passados no colégio eleitoral, principalmente da eleição de Obama em 2012, e tentar projetar o futuro a partir daqueles dados – exercício que sugere uma provável vitória de Hillary Clinton. Por um lado, não estamos mais em 2012; além do mais, obviamente, Donald Trump não é Mitt Romney. (Nem Hillary Clinton, Barack Obama.) O notável triunfo de Trump, que já tem garantida a indicação do Partido Republicano (só falta oficializar), é efeito em grande parte de o candidato ter-se recusado a jogar pelas regras tradicionais. Ele fez o seu caminho, e ao fazer isso ceifou dezesseis oponentes republicanos.

Se se analisa contudo o longo arco do pensamento de Trump, compreende-se melhor e tem-se menor surpresa ante a evidência de que um empresário milionário e estrela de reality shows de televisão já obteve a indicação para concorrer à presidência dos EUA. As mesmas características que fizeram de Trump uma celebridade – a personalidade descomunal, a capacidade para ler nas entrelinhas dos humores do público e para jogar conforme o que veja – fizeram dele candidato bem-sucedido à indicação. No programa de televisão de Trump, O Aprendiz, o herói era homem que decidia ("Você está demitido!"), sem admitir nem contestação nem conversa fiada. Milhões de pessoas creem firmemente que esses traços podem, sim, produzir presidente efetivo.

Trump entende a importância do tamanho ( "Little Marco"), no confronto com sua imponência que ele mesmo é (quase 2m de altura, entroncado); lado a lado, Trump parece muito mais confiável e forte. (Há muito tempo se aceita como lei geral do marketing eleitoral que candidatos de mais alta estatura são mais bem-sucedidos nas disputas presidenciais; houve exceções – Harry Truman, por exemplo; mas as vitórias iniciais de Trump sugerem que a tendência tenha, sim, alguma correspondência com a realidade. Trump é maior também que todos os demais candidatos republicanos em vários sentidos: é mais atilado, mais engraçado e muito mais surpreendente e imprevisível. A magnitude da ousadia e da irreverência do homem gerou um atrativo a mais: o público aguarda, em suspense, o que ele dirá/fará na sequência.

Em certo sentido, Trump é homem de audácias, sem medo: correu riscos que outros candidatos jamais ousariam assumir – e em várias ocasiões, riscos que pesavam contra o próprio Trump. Analistas já observaram que uma das mais graves dificuldades que a campanha de Clinton enfrenta é jamais saber onde e quando Trump fará das suas: o homem não sinaliza onde baterá, e não faz esquentamentos; ele salta e ataca, sem hesitar e sem nuances, o que o torna completamente imprevisível.

Mas há algo mais, algo mais evasivo, que sugere que Trump poderia ser um candidato formidável nas eleições gerais. Na noite da primária em Indiana, dia 3 de maio, quando Trump detonou Ted Cruz (53-37) e John Kasich só obteve 7,5% dos votos, Michael Steele, ex-presidente do Comitê Republicano Nacional, que não é homem de Trump, observou que a principal dificuldade para Clinton é superar o apelo populista de Trump e mostrar "sincera empatia, passar a impressão de ser parte da alma e da inteligência de cada homem e de cada mulher." No caso do marido dela, era talento natural, como respirar, nas eleições de 1992. Em Hillary, absolutamente não existe. E Steele fala também de outro aspecto do appeal de Trump: "aquele lado intangível dele – o modo de ser, os maneirismos, a mensagem que faz perfeito sentido para os eleitores dia e noite, todos os dias." Esse lado de Trump, disse Steele, "é que tornará as próximas eleições extremamente disputadas."

Porque Trump perturba pressupostos e faz suas próprias regras, por causa de todos esses intangíveis e imprevisíveis, ele desafia também as convenções da análise política convencional. O fato é que Trump é muito mais inteligente e atilado do que finge ser quando se identifica com o Joe médio que perdeu o emprego, ou só consegue subempregos ou que teme a concorrência dos imigrantes, ou simplesmente, chateado por ter de ser "politicamente correto". Rejeitar o "politicamente correto" foi dos movimentos mais espertos de Trump: conseguiu libertar os que o ouvem e acompanham, mas também se libertou, ele mesmo. Aquele mesmo Joe (que coloca o "Joe, o Encanador" real, de rápida fama em 2008, como símbolo de campanha) não quer disputar empregos com minorias ou com imigrantes; e não quer ser obrigado a fingir-se de bom-moço. A declaração chocante, no discurso de apresentação de Trump em junho passado, de que o México "nos manda" estupradores e assassinos, foi de fato elemento crucial, maduramente refletido, da campanha que ali se iniciava.

A conversa anti-imigração de Trump, combinada com o fantástico muro que, parece, milhões creem que ele construirá com dinheiro mexicano, são exemplos de o quanto ele se dedica a trabalhar os pontos sensíveis do núcleo duro de seus eleitores. Como Bernie Sanders, Trump também entende que os acordos comerciais destruíram empregos e causaram fúria considerável. Como vários candidatos republicanos antes dele, Trump joga nem assim tão sutilmente, com o ódio racista. Antes de se candidatar, a obsessão de Trump com os documentos de nascimento de Obama, os "investigadores" que teria mandado ao Hawaii para exumar a verdadeira história do local de nascimento de Barack Obama e o material "absolutamente inacreditável" que teriam trazido (mas Trump jamais revelou) – já tinha a ver com a candidatura que viria. Trump faz um Archie Bunker plutocrático.

O que a vasta maioria das pessoas não compreendeu quando Trump desceu daquele elevador e anunciou que seria candidato à presidência, nem nas primeiras semanas da candidatura, quando tantos o davam por cachorro morto e "um palhaço", é que Trump é homem de visão de longo prazo. New York conhece muitos empreiteiros e construtores muito ricos, mas nenhum dos outros é celebridade. Na verdade, foi quando seu negócio estava empacando, no início dos idos anos 1990, que Trump redirecionou o próprio foco: de construir prédios, para se construir como marca comercial e se vender. Muitos, em vários estados, mostraram-se excitados pelo espetáculo do seu fantástico avião (com fivelas de ouro nos cintos de segurança), o nome do dono estampado na fuselagem, zunindo dos céus num pouso impressionante. Seja qual for o grau de narcisismo que haja por trás do movimento, a coisa de colar o próprio nome a tudo em que consiga pôr as mãos já tinha objetivo propósito político e econômico de longo prazo. Trump é a primeira marca comercial que concorre à presidência dos Estados Unidos.

Já em 2000, em uma entrevista com Bob Guccione Jr., Trump aplaudiu o fato de que figuras na cultura da celebridade - atletas, estrelas de cinema e empresários - serem consideradas para o cargo público. Ele atacou "os hipócritas [que] argumentam que um homem que ama e aprecia mulheres bonitas ... não deve se tornar um líder nacional." Ele disse, então, que ele acreditava que um cidadão político "é suficientemente inteligente e talentoso o suficiente para liderar este grande país", e ele concluiu: "Se as coisas correrem bem, eu vou ter a oportunidade de demonstrar esse fato ".

Trump também foi bem-sucedido na tarefa de fazer de seus adversários simples marcas. É homem que sabe fazer isso: tome um ponto fraco bem visível, dê-lhe um nome e repita, repita, repita infindavelmente. Já a caminho do fim das primárias, os públicos que o ovacionavam cantavam "Lyin’ Ted"; e em pouco tempo, já cantavam "Crooked Hillary". Trump testou "Incompetent Hillary" durante algum tempo, mas acabou por optar pelo apelido mais direto e mais agressivo. Que eu saiba, nenhum candidato presidencial anterior fez isso.

O slogan da campanha de Trump, "Make America Great Again", nasceu da mente de caixeiro viajante de talento: e o slogan foi conectado não a capacetes de baseball, mas a bonés de caminhoneiros. Alguém sabe qual o slogan de Hillary Clinton? Clinton vê as complexidades do mundo; não tem mentalidade de coladora de adesivos em para-brisas. Trump é simplificador máster – talento muito útil na política. (JFK, que compreendia as complexidades, nem por isso abriu mão de um slogan na campanha de 1960, "Get This Country Moving Again". A mensagem de Trump é mais sofisticada do que parece: pega precisamente no que seus eleitores ressentem e lastimam: que os EUA escorregaram economicamente, militarmente. Diz "Nós não podemos derrotar o ISIS;" afirma que outros países "não nos respeitam". Muitos republicanos pintam Obama como ambicioso insaciável de poder e, simultaneamente, como bunda-mole.

O homem antes dado a todos os excessos, apresenta-se hoje como homem de família pacificado, e o amor que manifesta pelos filhos não pode ser fingido. Trump não fuma, não bebe, não é dado a drogas e criou os filhos para não desejar qualquer aproximação com tudo isso. É estranhamente formal. Recentemente, foi forçado a falar sobre uma saída de Hillary Clinton de um dos debates, para ir ao toalete, mas achou a pergunta "horrível" – palavra que usa frequentemente, pronunciando-a "harroble." É Trump, o conhecido germanófobo.

Além do mais, há o modo como lida com a religião. Desde cedo Trump acompanha Jerry Falwell Jr., e falou na Liberty University: "2 Coríntios, 3:17. Isso é tudo no jogo". Durante algum tempo, brandia a Bíblia da família. A gente que Trump atraía havia ouvido as palestras de Falwell e as notícias do canal Fox News, segundo as quais a cristandade estaria sendo atacada. E Trump repetiu, na noite da sua vitória em Indiana – estado com substancial comunidade Evangélica – o que dissera antes, no início da campanha: "Voltaremos a dizer Feliz Natal outra vez." Os liberais podem se perguntar, por que ele está dizendo uma coisa boba como essa? Mas Trump compreende que muitos de seus potenciais seguidores foram realmente tocados pela ideia de que o Natal estaria realmente em perigo: afinal, houve todas aquelas batalhas judiciais, sobre se seria possível instalar presépios em propriedade do governo.

Durante as disputas pela indicação, o estado menos natural de Trump era quando tentava dar-se ares "presidenciais" – como no discurso sobre política externa no Hotel Mayflower em Washington, dia 27 de abril. Foi como se estivesse metido num terno apertado. Trump reclama do tratamento que recebe da mídia, mas além de lhe garantir muito tempo no ar durante as disputas pela indicação (em que se disputam números de pesquisas), várias vezes a mídia nos EUA fez o que Trump queria que fizesse, como nesse caso. (Pelo menos, deu-se pouca atenção ao fato de que naquele discurso pela primeira vez Trump usou um teleprompter – não muito bem, mas tudo se aprende.) O discurso sobre política externa foi, como tantos desse gênero, documento de campanha, embora visasse também à elite da política externa. (O embaixador da Rússia sentou-se na primeira fila; Trump e Vladimir Putin andam flertando.) Não é claro se Trump estava ciente das implicações de seu tema "America First"- de herança Lindbergiana, isolacionista, anti-semita.

O discurso foi elogiado por jornalistas e comentaristas políticos conservadores, por incluir a demanda de que aliados como Japão, Coreia do Sul e Alemanha passassem a pagar pela própria defesa, em vez de depender completamente de serem socorridos pelos EUA – ideia que sempre recebe aplausos entusiásticos. A coisa foi vista como esperteza política. Verdade é que todos esses países pagam – e pesadamente – para manter as tropas dos EUA ou, como no caso do Japão, para manter uma frota e uma base naval. Trump conseguiu o feito político de convencer seus ouvintes de que ele aumentaria consideravelmente a capacidade militar dos EUA, mas resistiria o mais possível a usá-la.

Pouca gente percebeu que Trump continuou a brincar com sentimentos antimuçulmanos, culpando as nossas políticas de imigração "sem sentido", pelo suposto influxo para o país de grande número de praticantes do "Islã radical". Abandonou algumas de suas propostas mais selvagens, mais violentas dos primeiros tempos: proibição temporária contra a entrada de muçulmanos nos EUA; que Coreia do Sul e Japão fossem autorizados a construir bombas atômicas; ou que métodos ilegais de tortura "além" até da simulação de afogamento, fosse reinstituídos. Numa entrevista a Lester Holt, da NBC, um dia depois de ter se tornado "indicado presuntivo", Trump voltou à ideia da proibição de muçulmanos – ideia que fora apoiada por 60% dos republicanos em todos os estados onde houve pesquisas sobre essa questão – e à ideia de deportar 11 milhões de imigrantes sem documentos. Um dos mitos que Trump continua a perpetuar, com praticamente nenhuma crítica pelos jornalistas, é que ele se opôs à guerra do Iraque. Até que criticou, depois que as coisas já iam muito mal, mas há várias declarações gravadas em que se declara favorável à invasão do Iraque naquele momento.

Depois do desajeitado discurso formal sobre política externa, Trump rapidamente voltou ao personagem inicial. De fato, reclamou de citações que vazaram de uma reunião de seu veterano conselheiro político Paul Manafort com o Comitê Nacional Republicano, na qual, revelando o impressionante cinismo da campanha de Trump, Manafort dissera que o comportamento aparentemente descontrolado nos comícios significava apenas que o candidato representava "um papel", que o Trump real privado tinha outra personalidade. Manafort disse "Os negativos vão cair, a imagem vai ser modificada" – e acrescentou: "mas Clinton continuará a ser Hilary Escroque." Embora haja alguma verdade no que disse Manafort, Trump não poderia deixar que transparecesse a ideia de que estaria aplicando uma espécie de golpe em seus seguidores, ou de que se deixava manipular por assessores de campanha. A rotina de gritaria, afinal de contas, sempre fora a base de seu sucesso.

Mas, em seguida, na noite da primária de Indiana, o Trump que por lá apareceu para discursar de improviso na Trump Tower estava calmo e cheio de graça – prova de que sua persona Archie Bunker era mesmo artificial. Falou em tom especialmente conciliatório com Cruz, cuja retirada inesperada da disputa, um pouco antes do previsto, acabou por carimbar, embora ainda não oficialmente, a indicação de Trump. Elogiou Cruz como "competidor duro" e "sujeito esperto, durão". Ted Mentiroso já se aposentara, por ter perdido a serventia. Trump não é político profissional, mas é homem habituado a negociações duras, que evoluem para calorosos apertos de mão, quando o negócio é fechado. Ele terá de decidir-se, para as eleições gerais que agora com certeza já se aproximam: fará o personagem lutador elegante, ou brigador-de-rua, durão e sujo? Ou poderá ainda dar jeito de ser os dois? Eu não descartaria essa terceira via. No discurso em Indiana, Trump evoluiu de uma posição positiva, de figura diplomática, para bater muito duro em Clinton: "Ela não vai ser um boa presidente. Ela vai ser um presidente fraca. Ela não entende o comércio."

Não há dúvidas de que Clinton deve esperar tratamento de máxima violenta, de Trump, em todos os assuntos, desde as infidelidades conjugais de Bill Clinton (com Hillary apresentada como a "facilitadora"), até a questão de ela usar seu próprio servidor doméstico para expedir e receber e-mails durante os anos de secretária de Estado. Clinton nem precisará ser indiciada – o que grande número de observadores preveem que não acontecerá, porque o procurador teria de provar a "intenção" de violar a lei – para que Trump parta para cima dela com todas as armas, para um tudo ou nada. Tudo sugere que a questão do servidor realmente feriu Clinton durante a disputa pela indicação, e que é parte do que levou números crescentes de participantes de pesquisas, mesmo entre os democratas, a declará-la "não confiável".

Trump pode também sacudir de outro modo as atuais decisões de voto para a eleição geral: pode remodelar o mapa eleitoral. Na noite da primária em Indiana, Politico publicou matéria sobre o longo, cuidadoso planejamento na campanha de Clinton, nos "estados oscilantes" – Florida, Virginia, Colorado, Nevada. Mas já há notícias de que Trump trabalhará para reverter as vantagens que se veem recentemente, pró-Democratas, em estado industriais como Michigan, Illinois, Ohio e Pennsylvania – estados nos quais Obama venceu em 2008 e 2012. Esses estados sofreram muito em termos econômicos; Trump portanto cuidará de fazer-se sedutor para eleitores das classes trabalhadoras. Já se ouviu que a campanha de Trump estaria atrasada na montagem da infraestrutura local em estados eleitoralmente importantes, que podem fazer mais diferença na eleição nacional do que nas primárias e caucuses.

Os governadores e senadores supostos invencíveis que concorreram contra Trump na disputa pela indicação não se comprovaram candidatos fortes. Ted Cruz sempre foi, de longe, o mais bem organizado dentre os opositores de Trump dentro do Partido Republicano, e sua campanha técnica foi muito elogiada por observadores políticos. Mas o que se viu foi que o jogo de campo organizado pelo coordenador de campanha de Cruz revelou-se muito mais efetivo que o candidato, que só interessou à ala mais conservadora do partido. Para piorar, Cruz mostrou-se sombrio e pomposo: não falava, declamava, com pausas dramáticas entre as frases. A retórica de Cruz era de chamas e enxofre; e Trump oferecia entretenimento. Cruz poderia ter se mostrado um Savonarola, mas ao escolher Carly Fiorina para compor a chapa – a candidata, provavelmente, mais detestada – ele se tornou uma figura cômica.

Por mais que Trump goste de declarar que não seria "um político", e use a frase como bandeira, no dia da primária de Indiana, mostrou que pode ser maleável pragmático como o mais político dos políticos profissionais. O que começou como dia extraído de Crepúsculo dos Deuses – com Trump fazendo referência a matéria de National Enquirer, que dizia que o pai de Cruz teria sido parceiro de Lee Harvey Oswald, e Cruz chamando Trump de "mentiroso patológico" e relembrando a luta que Trump confessara contra uma doença venérea ("meu Vietnã pessoal") – terminou com Cruz abandonando a disputa e discurso de Trump, vitorioso, elogiando o ex-adversário. A retirada de Cruz deixou Kasich, que só conseguiu vencer em seu estado natal, Ohio, sem escolha, exceto também se retirar. Kasich chegou a sonhar com ser o indicado da convenção, e teria qualificações para ser adversário considerável, mas fracassou como candidato – nunca teve a presença cênica de comando, que os americanos esperam do presidente. O establishment republicano, inclusive os doadores, não lhe viram capacidades para derrotar Trump.

É preciso levar em conta também a vitória de Bernie Sanders sobre Clinton em Indiana, que já fora sugerida, se não abertamente prevista. Gerou dia muito ruim para Clinton, que fazia campanha em Ohio e não fez declarações de campanha naquela noite, como tradicionalmente. Em vez dela, John Podesta, coordenador de sua campanha, distribuiu release em que dizia que "Donald Trump trabalha para dividir os americanos. Hillary Clinton nos unirá, para criar uma economia que ajudará todos." Nada exatamente muito entusiasmado.

A dor de cabeça de Clinton agora é que, por mais que ela deseje concentrar-se em espancar Trump, Sanders recusa-se a deixar a disputa, mesmo sabendo que já é matematicamente impossível derrotar a concorrente, porque já não conseguirá o número necessário de delegados comuns. (Em 2008, Clinton não abandonou a campanha; mas a situação dela, naquele momento, era mais forte que a de Sanders hoje.) Agora, Sanders considera a possibilidade de permanecer na disputa, sob o argumento de que a "convenção será contestada". Sanders chegou a essa estranha hipótese, depois de afirmar que os superdelegados, a vasta maioria dos quais já declararam que votarão em Clinton, mudarão de ideia, por causa das inúmeras vitórias de Sanders. Talvez, na paixão do momento, Sanders realmente acredite nessa possibilidade. Apesar de Sanders já ter forçado Clinton a curvar-se em direção às propostas dele, ele ainda quer que a plataforma do partido inclua propostas que ela não poderá aceitar – por exemplo, atendimento público universal à saúde em substituição ao Obamacare. Clinton talvez enfrente, sim, uma convenção difícil.

O mesmo vale para Trump. Na noite da primária de Indiana, o Comitê Nacional Republicano ergueu bandeira branca, mas já não é possível esconder a agonia dentro do partido. Alguns Republicanos apresentaram-se para apoiar Trump – ou, no mínimo, suspenderam as críticas públicas – outros, especialmente senadores candidatos a reeleição, entraram em surto contorcionista, alguns já declarando que o apoiarão, sem declarações públicas. Alguns Republicanos de destaque, inclusive os dois presidentes Bush, optaram por manter-se em silêncio. O presidente da Câmara de Deputados Paul Ryan, que tem diferenças políticas profundas com Trump e cujas tropas podem ficar ameaçadas se Trump obtiver a indicação do Partido, disse que "não se sente pronto" para declarar apoio a Trump. Vários nomes a considerar para a vice-presidência já começaram a escalada. O super advogado e há muito tempo conselheiro dos Republicanos, Ben Ginsberg, alertou, pela MSNBC, na noite da primária de Indiana, que ainda há várias "armadilhas" no caminho de Trump até a convenção. Muito dependerá de como Trump lidará com Cruz, o qual, ao deixar a campanha, abraçou a retórica do candidato de uma causa: falou da própria campanha como "um movimento" – e a semelhança com o discurso de Bernie Sanders foi claramente visível. – "Estamos suspendendo nossa campanha, mas não estou suspendendo nossa luta pela liberdade." Dia seguinte, em resposta a uma pergunta, Trump deixou cair uma insinuação de que poderia convidar Cruz para concorrer como seu vice-presidente. Resposta esperta e prudente.

Ainda que Cruz seja seduzido na convenção, não significa que a base do partido também o seja – delegados conservadores que têm longa experiência de participar desse tipo de convenção. Ginsberg disse que só ¼ dos delegados são realmente escolhidos pelos candidatos – o que significa que a base pode operar como força por ela mesma, indiferente ao que tenha acontecido nas primárias. Trump não é ser do mesmo planeta que eles – disso não cabe dúvidas. E algumas das crenças de Trump soam como heresia para muitos republicanos: a declarada oposição de Trump aos acordos comerciais vigentes; a confessada oposição ao uso de força militar; a oposição a qualquer corte de aposentadorias; e o fato de ser homem de temperamento moderado sobre questões sociais. (Por exemplo, a resposta pragmática de Trump à questão que os conservadores puseram-se repentinamente a discutir, sobre que sanitário podem ser usados por pessoas transgêneros: "Qual é o problema?".)

Sem dúvida, o novo desafio diante de Trump é muito mais impressionante que tudo o que ele já enfrentou. Não só terá de lidar com território muito mais amplo, mas também, embora sua campanha até a indicação não tenha sido autofinanciada como Trump sempre diz, levantar dinheiro para a eleição geral é operação em escala absolutamente diferente.

Mas não há nenhum quadro de referência para o que está por vir. A nação está em um passeio selvagem.

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