10 de maio de 2016

Senhores da humanidade

Noam Chomsky

Noam Chomsky. Who Rules the World? (New York: Metropolitan Books, 2016)

Tradução / Quando perguntamos “Quem governa o mundo?” em geral adotamos a convenção padronizada de que, nos assuntos mundiais, os atores são os Estados, principalmente os grandes poderes, e consideramos suas decisões e as relações entre eles. Isso não está errado. Mas seria bom mantermos em mente que esse nível de abstração pode também ser altamente enganador.

Os Estados, é claro, têm estruturas internas complexas, e as escolhas e decisões das lideranças políticas são fortemente influenciadas pelas concentrações internas de poder, enquanto as populações em geral são frequentemente marginalizadas. Isso é verdade até mesmo para as sociedades mais democráticas e obviamente para as outras. Não poderemos chegar a um entendimento realista sobre quem governa o mundo enquanto ignorarmos os “senhores da humanidade”, como foram chamados por Adam Smith. Em outros tempos, eram os comerciantes e donos de fábricas da Inglaterra; nos nossos, os conglomerados multinacionais, enormes instituições financeiras, impérios do varejo e similares. Ainda segundo Adam Smith, também é aconselhável considerar a “máxima vil” à qual os “senhores da humanidade” estão dedicados: “Tudo para nós e nada para os outros” – uma doutrina conhecida também como luta de classes, amarga e incessante, frequentemente unilateral, muito em prejuízo da população dos países e do mundo.

Na ordem global contemporânea, as instituições dos mestres realizam um poder enorme, não só na arena internacional, mas também dentro de seus Estados de origem, na qual eles dependem para proteger o seu poder e para fornecer apoio econômico por uma grande variedade de meios. Quando consideramos o papel dos mestres da humanidade, nos voltamos para tais prioridades políticas do estado do momento como a Parceria Trans-Pacífico, um dos acordos de direitos de investidores mal chamados "acordos de livre comércio" na propaganda e comentários. Eles são negociados em segredo, para além das centenas de advogados de empresas e lobistas que escrevem os detalhes cruciais. A intenção é tê-los adotado em bom estilo stalinista com procedimentos "fast track", projetado para bloquear a discussão e permitir apenas a escolha de sim ou não (daí sim). Os designers regularmente fazem muito bem, não é de surpreender. As pessoas são incidentais, com as consequências que se poderiam antecipar.

A segunda superpotência
Os programa neoliberal da geração passada concentrou riqueza e poder em muito menos mãos, enquanto minou a democracia funcionando, mas eles têm despertado a oposição, bem como, o mais proeminente na América Latina, mas também nos centros de poder global. A União Europeia (UE), um dos desenvolvimentos mais promissores do período pós-Segunda Guerra Mundial, se fez cambaleante por causa do efeito duro das políticas de austeridade durante a recessão, condenados até pelos economistas do Fundo Monetário Internacional (se não a atores políticos do FMI). A democracia tem sido prejudicada, como a tomada de decisão deslocado para a burocracia de Bruxelas, com os bancos do norte lançando sua sombra sobre seus trabalhos.

Os partidos tradicionais foram rapidamente perdendo membros n esquerda e na direita. O diretor-executivo do grupo de pesquisa com sede em Paris EuropaNova atribui o desencanto geral com "um clima de impotência irritado como o verdadeiro poder de moldar os eventos em grande parte deslocadas dos líderes políticos nacionais [que, pelo menos em princípio, estão sujeitos à política democrática] para o mercado, as instituições da União Europeia e corporações, "muito de acordo com a doutrina neoliberal. processos muito semelhantes estão em curso nos Estados Unidos, por razões um tanto similares, uma questão de importância e preocupação não só para o país mas, por causa do poder dos EUA, para o mundo.

A oposição crescente ao ataque neoliberal destaca outro aspecto crucial da convenção padrão: ela deixa de lado o público, que muitas vezes não consegue aceitar o papel aprovado de "espectadores" (em vez de "participantes") que lhe são atribuídos na teoria democrática liberal. Tal desobediência sempre foi motivo de preocupação para as classes dominantes. Apenas mantendo a história americana, George Washington considerava as pessoas comuns que formaram as milícias que ele comandava como "um povo extremamente sujo e desagradável ​​[evidenciando] um tipo inexplicável de estupidez na classe mais baixa dessas pessoas."

Em Política violenta, sua resenha magistral de insurgências da "insurgência americana" para o Afeganistão contemporâneo e Iraque, William Polk conclui que o general Washington "estava tão ansioso para marginalizar [os combatentes desprezíveis] que ele chegou perto de perder a revolução." De fato, ele "poderia ter realmente feito" se não tivesse a França intervindo de forma maciça e "salvou a Revolução", que até então tinha sido ganha por guerrilheiros - quem hoje chamaríamos de "terroristas" - Enquanto o exército de estilo britânico de Washington "foi derrotado tempo após tempo e quase perdeu a guerra ".

Uma característica comum das insurgências de sucesso, registro de Polk, é que uma vez populares dissolve apoio após a vitória, a liderança suprime as "pessoas sujas e desagradáveis" que, na verdade, ganharam a guerra com táticas de guerrilha e terror, por medo de que eles poderiam desafiar privilégios de classe. desprezo das elites "para" a classe mais baixa dessas pessoas "tomou várias formas ao longo dos anos. Nos últimos tempos, uma expressão desse desprezo é a chamada para a passividade e obediência ("moderação na democracia") por internacionalistas liberais que reagem aos efeitos democratizantes perigosos dos movimentos populares da década de 1960.

Afirma-se, por vezes, optar por seguir a opinião pública, provocando muita fúria nos centros de poder. Um caso dramático foi em 2003, quando a administração Bush pediu que a Turquia se juntar a sua invasão do Iraque. Noventa e cinco por cento dos turcos se opuseram ao curso da ação e, para espanto e horror de Washington, o governo turco aderiu a seus pontos de vista. A Turquia foi fortemente condenada por essa partida de comportamento responsável. Vice-secretário de Defesa Paul Wolfowitz, designado pela imprensa como o "idealista-em-chefe" da administração, repreendeu os militares turcos por permitir a prevaricação do governo e exigiu um pedido de desculpas. Sem se perturbar por estas e inúmeras outras ilustrações do nosso lendário "anseio pela democracia", o comentário respeitável continuou a elogiar o presidente George W. Bush por sua dedicação à "promoção da democracia", ou, por vezes, o criticaram por sua ingenuidade ao pensar que uma potência externa poderia impor seus anseios democráticos sobre os outros.

O público turco não estava sozinho. Oposição global para a agressão anglo-americana foi esmagadora. O suporte para planos de guerra de Washington não chegou a 10% em quase nenhum lugar, de acordo com pesquisas internacionais. A oposição provocou enormes protestos em todo o mundo, nos Estados Unidos, bem como, provavelmente, a primeira vez na história que a agressão imperial foi fortemente contestada mesmo antes de ser lançada oficialmente. Na primeira página do New York Times, o jornalista Patrick Tyler informou que "ainda pode haver duas superpotências no planeta: os Estados Unidos e a opinião pública mundial".

O protesto sem precedentes nos Estados Unidos foi uma manifestação da oposição à agressão que começou décadas antes na condenação das guerras dos EUA na Indochina, atingindo uma escala que foi substancial e influente, mesmo que tarde demais. Em 1967, quando o movimento anti-guerra estava se tornando uma força significativa, historiador militar e especialista em Vietnã Bernard Fall advertiu que "o Vietnã como uma entidade cultural e histórica ... está ameaçado de extinção... [como] a zona rural morre literalmente sob os golpes da maior máquina militar já desencadeada em uma área deste tamanho. "

Mas o movimento anti-guerra se tornou uma força que não pode ser ignorada. Nem poderia ser ignorado quando Ronald Reagan assumiu o cargo determinado a lançar um ataque sobre a América Central. Sua administração imitou de perto os passos que John F. Kennedy tinha tomado 20 anos antes de lançar a guerra contra o Vietnã do Sul, mas teve que recuar por causa do tipo de protesto público vigoroso que tinha sido ausente no início de 1960. O assalto foi horrível o suficiente. As vítimas ainda têm de recuperar. Mas o que aconteceu com o Vietnã do Sul e mais tarde em toda a Indochina, onde "a segunda superpotência" imposta seus impedimentos só muito mais tarde no conflito, era incomparavelmente pior.

Afirma-se frequentemente que a enorme oposição da opinião pública para a invasão do Iraque não teve efeito. Isso parece incorreto para mim. Mais uma vez, a invasão foi horrível o suficiente, e seu resultado é absolutamente grotesco. No entanto, poderia ter sido muito pior. O vice-presidente Dick Cheney, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, e o resto dos mais altos funcionários de Bush nunca poderiam sequer contemplar o tipo de medidas que o presidente Kennedy e o presidente Lyndon Johnson adotaram 40 anos antes, em grande parte sem protestar.

Poder ocidental sob pressão

O problema de quem domina o mundo leva então, de vez, a preocupações tais como a ascensão da China ao poder e seu desafio aos Estados Unidos e à “ordem mundial”; a nova guerra fria que se desenvolve na Europa Oriental; a Guerra Global ao Terror; a hegemonia americana e o declínio dos Estados Unidos, e uma série de considerações semelhantes.

Os desafios enfrentados pelo poder ocidental no início de 2016 são frequentemente sintetizados no quadro convencional por Gideon Rachman, colunista-chefe de relações exteriores no Financial Times de Londres. Ele começa por rever o cenário ocidental da ordem mundial: “Desde o fim da Guerra Fria, o poder militar avassalador dos EUA tem sido o fato central da política internacional.” Isso é particularmente crucial em três regiões: no Leste da Ásia, onde “a Marinha dos EUA acostumou-se a tratar o Pacífico como um ‘lago americano’”; na Europa, onde a OTAN – significando os Estados Unidos, que respondem por assombrosos três-quartos dos gastos militares [da aliança]” – “garante a integridade territorial de seus estados-membros”; e no Oriente Médio, onde as gigantescas bases navais e aéreas dos EUA “existem para proteger os amigos e intimidar os rivais”.

O problema da ordem mundial hoje, continua Racman, é que “essas ordens de segurança estão agora sendo desafiadas nas três regiões”, por causa da intervenção russa na Ucrânia e na Síria, e porque a China está transformando seus mares vizinhos, de lago americano, em “águas claramente contestadas”. A pergunta fundamental das relações internacionais, então, é se os Estados Unidos poderiam “aceitar que outros grandes poderes pudessem ter algum tipo de zona de influência em sua vizinhança.” Rachman pensa que poderiam, por razões de “difusão do poder econômico através do mundo – combinada com simples senso comum.”

Há, por certo, modos de olhar o mundo a partir de diferentes pontos de vista. Mas, vamos nos ater a essas três regiões, com certeza criticamente importantes.

Os desafios atuais: o leste da Ásia

Começando pelo “lago americano”, pode provocar alguma surpresa um relato de meados de dezembro de 2015, segundo o qual “um bombardeiro B-52 americano, em missão rotineira sobre o Mar do Sul da China, voou involuntariamente para dentro da área de 3,5 quilômetros de uma ilha artificial construída pela China, como declarou um oficial sênior da defesa, acirrando uma questão que divide Washington e Pequim.” Quem está familiarizado com os sinistros setenta anos de registros da era nuclear sabe bem o que esse é o tipo de incidente, que várias vezes esteva a ponto de levar à deflagração final de uma guerra nuclear. Mas mesmo quem não apoia as ações agressivas e provocadoras da China no Mar do Sul da China notará que o incidente não envolveu um bombardeiro chinês, com capacidade nuclear, no Caribe, ou ao largo da costa da Califórnia, onde a China — para sorte do mundo — não tem pretensões de estabelecer um “lago chinês.”

O líderes chineses compreendem muito bem que as rotas de comércio marítimo de seu país estão cercadas por poderes hostis — do Japão ao Estreito de Málaca e além, apoiados pela avassaladora força militar dos EUA. Por isso, a China procura expandir-se para o oeste, com grandes investimentos e movimentos cuidadosos para alcançar integração. Em parte, esses desenvolvimentos estão dentro do âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), que inclui os países da Ásia Central e a Rússia, e em breve a Índia e o Paquistão, com o Irã como observador – um status negado aos Estados Unidos, que foram também chamados a fechar todas as suas bases militares na região. A China está construindo uma versão moderna da velha Rota da Seda, com a intenção não apenas de integrar a região sob influência chinesa, mas também de alcançar as zonas produtoras de petróleo da Europa e do Oriente Médio. Está investindo enormes somas para criar um sistema asiático de energia e comércio integrado, com oleodutos e linhas ferroviárias extensas e de alta velocidade.

Uma das peças do programa é uma estrada que corta algumas das mais altas montanhas do mundo e chega até o novo porto construido pela China em Gwadar, no Paquistão, para proteger os navios petroleiros contra a potencial interferência dos EUA. O programa poderá também, esperam a China e o Paquistão, incentivar o desenvolvimento industrial do Paquistão, que os Estados Unidos não facilitaram apesar da ajuda militar maciça. Pequim ainda procura incentivar o Paquistão a reprimir o terrorismo doméstico, uma questão séria para a China na província ocidental de Xinjiang. Gwadar será parte do “colar de pérolas” da China, formado por bases que estão sendo construídas no Oceano Índico, com objetivos comerciais mas também para uso militar, na expectativa de que a China possa algum dia, pela primeira vez na era moderna, ser capaz de projetar seu poder até o Golfo Pérsico.

Todas estas ações se mantêm imunes ao poder militar avassalador de Washington, para não dizer da aniquilação por uma guerra nuclear, que destruiria igualmente os Estados Unidos.

Em 2015, a China criou também o Banco Asiático de Investimentos em Infra-Estrutura (AIIB), do qual é o principal acionista. Cinquenta e seis nações participaram de sua abertura em Pequim, em junho, incluindo aliados dos EUA como Austrália, Grã Bretanha e outros — que aderiram desafiando os desejos de Washington. Estiveram ausentes Estados Unidos e Japão. Alguns analistas acreditam que o novo banco pode tornar-se um competidor das instituições de Bretton Woods (o FMI e o Banco Mundial), nas quais os Estados Unidos têm poder de veto. Há também algumas expectativas de que a Organização de Cooperação de Xangai possa eventualmente tornar-se uma contrapartida da OTAN.

Os desafios atuais: a Europa Oriental

Examinemos a segunda região: a Europa Oriental. Há uma crise sendo fermentada na fronteira da OTAN com a Rússia. Não é uma questão menor. Em seu estudo acadêmico iluminador e sensato sobre a região,Frontline Ukraine: Crisis in the Borderlands, Richard Sakwa escreve – de modo muito plausível – que a “guerra entre Rússia e Geórgia de agosto de 2008 foi na verdade a primeira das ‘guerras para deter o crescimento da OTAN’; a crise da Ucrânia, de 2015, é a segunda. Não está claro se a humanidade sobreviveria à terceira.”

O Ocidente vê o crescimento da OTAN como um fato benigno. Não por acaso a Rússia, a maioria do Sul Global e algumas vozes ocidentais destacadas têm uma opinião diferente. George Kennan logo alertou de que o crescimento da OTAN é um “erro trágico”, e foi acompanhado por políticos sêniores norte-americanos, numa carta aberta à Casa Branca, que descrevem o movimento como “um erro político de proporções históricas”.

A crise atual tem suas origens em 1991, com o fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética. Havia então duas visões contrastantes sobre um novo sistema de segurança e economia política na Eurásia. Nas palavras de Sakwa, uma visão era a da “‘Europa mais extensa’, que teria União Europeia em seu núcleo, mas tenderia a coincidentir com a comunidade política e de segurança Euro-Atlântica. Do outro lado havia a ideia de uma ‘Europa Maior’, uma visão de continente europeu estendendo-se de Lisboa até Vladivostok, com múltiplos centros, incluindo Bruxelas, Moscou e Ancara, mas com um propósito comum de superar as divisões que tradicionalmente flagelaram o continente.”

O líder soviético Mikhail Gorbachev foi o maior defensor da Europa Maior, um conceito que teve também raízes europeias no gaullismo e outras iniciativas. Contudo, à medida em que a Rússia entrou em colapso, pressionada pelas devastadoras reformas de mercado dos anos 1990, a visão diluiu-se, para renovar-se apenas à medida em que a Rússia começou a se recuperar e buscar um lugar na cena mundial sob Vladimir Putin, que junto com seu parceiro Dmitry Medvedev tem repetidamente “demandado a unificação geopolítica de toda a ‘Europa Maior’, de Lisboa a Vladivostok, para criar uma genuína ‘parceria estratégica’”.

Essas iniciativas foram “saudadas com polido desprezo”, observa Sakwa, vistas como “pouco mais que uma cobertura para o estabelecimento de uma ‘Rússia Maior’ por dissimulação” e um esforço para fincar uma cunha entre a América do Norte e a Europa Ocidental. Tais preocupações têm origem nos medos, do início da Guerra Fria, de que a Europa posa tornar-se uma “terceira força” independente de ambos, o grande e o pequeno superpoder, movendo-se em direção a vínculos mais próximos do último (como pode ser visto na Ostpolitik de Willy Brandt e outras iniciativas).

A resposta ocidental ao colapso da Rússia foi triunfalista. O fato foi aclamado como sinal do “fim da história”, a vitória final da democracia capitalista ocidental, quase como se a Rússia estivesse sentido instruída a voltar ao seu status pré-Primeira Guerra Mundial — uma colônia econômica virtual do Ocidente. A ampliação da OTAN começou imediatamente, violando garantias dadas a Gorbachev. Elas estabeleciam que as forças do bloco não se deslocariam “uma só polegada para leste”, em contrapartida à concordância, pelo presidente russo, a que a Alemanha unificada se tornasse membro da OTAN – uma concessão extraordinária, à luz da história. A hipótese de que a OTAN pudesse expandir-se para além da Alemanha não foi discutida com Gorbachev, ainda que fosse considerada em privado.

Logo, a OTAN começou a mover-se além, até as fronteiras da Rússia. A missão geral da aliança foi mudada oficialmente, para um mandato de proteção a “infra-estrutura crucial” do sistema global de energia, rotas marítimas e oleodutos, o que deu dimensões globais à sua área de operação. Além disso, após a revisão, pelo Ocidente, da agora amplamente proclamada doutrina de “responsabilidade de proteger” — nitidamente diversa da versão oficial das Nações Unidas –, a OTAN também pode servir, agora, como uma força de intervenção sob o comando dos EUA.

Particularmente preocupantes para a Rússia são os planos de expandir a OTAN para a Ucrânia. Esses planos foram articulados explicitamente na cúpula da aliança realizada em Bucareste em abril de 2008, quando a Geórgia e a Ucrânia receberam promessa de eventual admissão. As palavras foram perfeitamente claras: “A OTAN dá as boas vindas às aspirações Euro-Atlânticas da Ucrânia e da Geórgia de tornarem-se membros. Concordamos hoje que esses países se tornarão membros da OTAN.” Com a vitória de candidatos pró-ocidentais na “Revolução Laranja” da Ucrânia, em 2004, o representante do Departamento de Estado Daniel Fried correu lá para “enfatizar o apoio dos EUA às aspirações à OTAN e Euro-Atlânticas da Ucrânia”, como revelou documento do WikiLeaks.

As preocupações russas são facilmente compreensíveis. Elas são detalhadas pelo acadêmico de relações internacionais John Mearsheimer na publicação líder do establishment norte-americano,Foreign Affairs. Ele escreve que “a raiz da atual crise [sobre a Ucrânia] é a expansão da OTAN e a determinação de Washington de mover a Ucrânia para fora da órbita de Moscou e integrá-la ao ocidente”, o que Putin viu como “ameaça direta aos interesses vitais da Rússia”.

“Quem pode culpá-lo por isso?”, pergunta Mearsheimer, apontando que “Washington pode não gostar da posição de Moscou, mas deveria entender a lógica por trás dela.” Isso não deveria ser muito difícil. Afinal, como todo mundo sabe, “os Estados Unidos não tolera que grandes poderes distantes finquem forças militares em qualquer parte do hemisfério ocidental, quanto mais em suas fronteiras.”

De fato, a posição dos EUA é muito mais forte. Eles não toleram o que é oficialmente chamado de “rebeldia bem sucedida” à Doutrina Monroe de 1823, que declarou (mas poderia ainda não implementar) o controle dos EUA sobre as Américas. E um pequeno país que assuma tal rebeldia bem sucedida pode estar sujeito aos “terrores da terra” e um embargo esmagador – como ocorreu com Cuba. Não é necessário perguntar como reagiriam os Estados Unidos caso os países da América Latina se unissem ao Pacto de Varsóvia, planejando incorporar também o México e o Canadá. A mera sugestão de tentar qualquer passo nesse sentido teria sido “encerrada com preconceito extremo”, para adotar o jargão da CIA.

Como no caso da China, não é necessário defender razões e ações de Putin para entender a lógica por trás delas. Como no caso da China, há muita coisa em jogo. São questões de sobrevivência.

Os desafios atuais: o mundo islâmico

Voltemo-nos agora para a terceira região de grande interesse, o mundo islâmico (em sentido amplo), também cenário da Guerra Global ao Terror (GWOT) que George W. Bush declarou em 2001, depois do ataque terrorista de 9/11. Para ser mais preciso, re-declarou. A GWOT foi declarada pelo presidente Reagan quando assumiu o poder, com retórica febril sobre uma “praga espalhada por depravados opositores à própria civilização” (como definiu o então presidente) e uma “volta à barbárie na era moderna” (nas palavras de George Shultz, seu secretário de Estado). A GWOT original foi silenciosamente removida da história. Ela transformou-se rapidamente numa guerra terrorista assassina e destrutiva que afetou a América Central, a África do Sul e o Oriente Médio, com impiedosas repercussões no presente, levando inclusive à condenação dos Estados Unidos na Corte Mundial (rejeitada pelos EUA). De qualquer modo, não é a narrativa certa para a história, de modo que desapareceu.

O “sucesso” da versão Bush-Obama do GWOT pode ser prontamente avaliado, numa observação direta. Quando a guerra foi declarada, os alvos terroristas estavam confinados a uma pequena região do Afeganistão tribal. Eles eram protegidos por afegãos, a maioria dos quais não gostava deles e os desprezava, sob o código tribal de hospitalidade que desafiou os norte-americanos quando camponeses pobres recusaram-se a “entregar Osama bin Laden pela quantia, para eles astronômica, de 25 milhões de dólares.”

Há boas razões para acreditar que uma ação policial bem construída, ou mesmo sérias negociações diplomáticas com o Talibã poderiam ter colocado os suspeitos dos crimes de 9/11 nas mãos dos norte-americanos para julgamento e condenação. Mas essas opções não estavam colocadas. Ao contrário, a escolha era de violência em larga escala – não com o objetivo de derrubar o Talibã (isso veio depois), mas de deixar claro o desprezo dos EUA pelas tentativas de oferta do Talibã de extraditar Bin Laden. Não sabemos o quão sérias eram essas tentativas, uma vez que a possibilidade de explorá-las nunca foi levada adiante. Ou talvez os EUA estivessem apenas “tentando mostrar seus músculos, marcar uma vitória e assustar o mundo inteiro. Eles não se preocupam com o sofrimento dos afegãos ou quantas pessoas nós vamos perder.”

Essa foi a avaliação do líder anti-Talibã Abdul Haq, altamente respeitado, um dos muitos oposicionistas que condenaram a campanha de bombardeamento norte-americana lançada em outubro de 2001 como “um grande revés” a seus esforços de derrubar o Talibã desde dentro, um objetivo que considerava possível. Sua avaliação é confirmada por Richard A. Clarke, president do Grupo de Segurança Contraterrorista da Casa Branca durante a presidência de George W. Bush, quando foram feitos os planos de ataque ao Afeganistão. Segundo a descrição de Clarke, quando informado de que o ataque poderia violar as leis internacionais “o presidente gritou na estreita sala de reunião, ‘não me interessa o que dizem os advogados internacionais, nós vamos chutar a bunda de alguém”. Houve também forte oposição ao ataque pelas maiores organizações que trabalhavam no Afeganistão, alertando que milhões de pessoas encontravam-se à beira da fome e as consequências poderiam ser terríveis.

As consequências para os pobres afegãos, anos depois, mal precisam ser revistas.

O próximo alvo a ser golpeado era o Iraque. A invasão EUA-Reino Unido, sem qualquer pretexto realmente crível, é o maior crime do século XXI. A invasão levou à morte de centenas de milhares de pessoas num país onde a sociedade civil já havia sido devastada pelas sanções norte-americanas e britânicas, vistas como “genocidas” pelos dois notórios diplomatas internacionais que as administravam e que, por essa razão, renunciaram a seus postos, em protesto. A invasão também gerou milhões de refugiados, destruiu grande parte do país e instigou um conflito sectário que está agora destroçando o Iraque e toda a região. É um fato espantoso sobre nossa cultura moral e intelectual que, em círculos informados e iluminados, ela possa ser chamada, suavemente, de “a liberação do Iraque”.

Pesquisas do Pentágono e do ministério de Defesa britânico revelaram que apenas 3% dos iraquianos consideravam legítimo os EUA exercerem papel de segurança em sua vizinhança. Menos que 1% acreditavam que as forças da “coalizão” (EUA-Reino Unido) fossem boas para sua segurança. 80% opunham-se à presença das forças da coalizão no país e a maioria apoiava ataques às tropas da coalizão. O Afeganistão foi destruído muito além do que podem avaliar pesquisas confiáveis, mas há sinais de que algo semelhante pode ser igualmente verdadeiro. Particularmente no Iraque, os Estados Unidos sofreram uma severa derrota, abandonando seus objetivos oficiais de guerra e deixando o país sob a influência do único vitorioso — o Irã.

O massacre foi também desfechado em outros lugares, notadamente na Líbia. Os três poderes imperiais tradicionais (Grã Bretanha, França e Estados Unidos) asseguraram a resolução 1973 do Conselho de Segurança e a violaram imediatamente, tornando-se a força aérea dos rebeldes. O efeito foi inviabilizar a possibilidade de um acordo negociado e pacífico; o grande aumento das mortes (multiplicadas ao menos por dez, segundo o cientista político Alan Kuperman); deixar a Líbia em ruína, nas mãos de milícias beligerantes; e, mais recentemente, prover o Estado Islâmico com uma base que pode ser usada para espalhar o terror para mais longe. Propostas diplomáticas bastante inteligentes da União Africana, aceitas em princípio pelo líder da Líbia Muammar Qaddafi, foram ignoradas pelo triunvirato imperial, como analisa o especialista em África Alex de Waal. Um enorme fluxo de armas e jihadistas espalhou terror e violência desde a África Ocidental (agora campeã de assassinatos terroristas) até o Levante, enquanto o ataque da OTAN ocasionou ainda uma enchente de refugiados da África para a Europa.

Foi mais um triunfo da “intervenção humanitária” e — como revelam os longos e muitas vezes macabros registros históricos do início deste tipo de ação na época moderna, quatro séculos atrás — não foi nem um pouco surreendente.

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