8 de agosto de 2016

Como os Trumps ficaram ricos

A fortuna dos Trumps foi construída a partir do roubo - dos trabalhadores, do Estado e dos bens comuns

Samuel Stein

Jacobin

Tradução / A maioria dos norte-americanos conhece o candidato republicano às presidenciais dos EUA como uma estrela de reality shows. No entanto, no seu estado de residência – Nova Iorque – o nome Trump tem uma reputação mais específica: um charlatão do imobiliário.

Trump herdou a fortuna e o negócio – que consiste em condomínios espelhados, clubes, casinos, edifícios de escritórios, hotéis e campos de golfe por toda a cidade de Nova Iorque e arredores – do seu pai, Fred Trump. Espelhando outras famílias como os Dursts, os Zeckendorfs e os LeFranks, o pai Trump geria um império imobiliário através da família.

Apesar de estas famílias ainda gerarem um enorme poder de influência nas políticas de investimento em Nova Iorque, estão hoje cada vez mais sob pressão de grandes corporações do imobiliário – como a Extell, a Vornado, a Related, BlackRock e outras – que usam fundos de investimento de capital internacionais para comprar complexos de habitação social baratos e substituí-los por imóveis chamativos. Donal Trump navega entre estes dois modos de investimento, combinando negócio familiar com kitsch corporativo.

De uma perspetiva capitalista, Trump, apesar de odioso, é um homem de negócios trabalhador e sério: herdou uma fortuna que fez crescer. Contudo, de um ponto de vista socialista, ganhou o seu dinheiro de outra forma: o roubo.

Numa tese recente, Ruth Wilson Gilmore argumenta que as famílias ricas dos EUA possuem “fortuna duas vezes roubada – a) lucro protegido de b) impostos”. No entanto, e utilizando o mesmo esquema de análise, a fortuna de Donald Trump é fruto de roubo em triplicado – roubo de salários dos trabalhadores que constroem e mantêm os seus projetos imobiliários; roubo de impostos de um Estado permissivo; e terra roubada de espaço público para projetos privados de Trump. Ou seja, apesar de usufruir dos benefícios da iniciativa privada, a sua fortuna foi construída à custa do erário público.

O seu comportamento não é único: qualquer (todos) capitalista lucra explorando trabalhadores; todas as corporações evitam impostos de uma forma ou de outra; e num país de colonizados, toda a terra é roubada. Mas Trump personifica a podridão do sistema ao extremo.

Salários roubados

Os negócios imobiliários de Donald Trump assentam na premissa de lucrar à custa de milhares de trabalhadores da construção, manutenção e serviços. Cada salário representa um pequeno roubo, uma doação a taxa fixa do salário do trabalhador a favor dos lucros do seu patrão. A particularidade de Trump é sustentar todo o seu modelo de negócio, e a sua fortuna, neste esquema de roubo de salários.

Em 1980, reuniu os lotes e as licenças para lançar o seu maior projeto até então: Midtown Manhatan's Trump Tower. Segundo o projeto, Trump teria de demolir o edifício repleto de amianto que ocupava o lote. O empreiteiro de Trump contratou duzentos trabalhadores polacos sem documentos pagando cinco dólares por hora.

Trabalharam doze horas por dia, sete dias por semana, sem qualquer pagamento de horas extraordinárias. Muitos deles não recebiam parte do salário e, alguns, não receberam nada. Processaram o empreiteiro bem como o próprio Trump que negou e prorrogou o caso até chegarem a um acordo, 16 anos mais tarde.

Entretanto, Trump repetiu a estratégia num novo projeto, o Trump Soho, um misto de condomínio e hotel terminado em 2010. O projeto foi acompanhado por controvérsia, incluindo a morte trágica de Yutiy Vanchytsky, um imigrante ucraniano que caiu de um andaime mal colocado enquanto aplicava cimento no quadragésimo segundo andar.

Assim que o novo condomínio/hotel ficou operacional, Trump aplicou as tradicionais deduções salariais aos trabalhadores de serviços do hotel. Quando os clientes contratavam catering, era-lhes aplicada uma taxa de serviço de 22%; mas nenhum dos proveitos desta taxa foi transferida para os trabalhadores que responderam com um processo em tribunal exigindo salários em atraso.

Trump fez estes golpes não apenas aos seus trabalhadores de obras e serviços, mas também a outros profissionais de renome. Contratou Andrew Tesoro, um arquiteto nova-iorquino, para desenhar o Trump National Golf Club nos subúrbios de Nova Iorque. Apesar de satisfeito com o trabalho de Tesoro, Trump recusou-se a pagar o que lhe devia retendo milhares de dólares. Tesoro recupera a história em vídeos da campanha de Hillary Clinton (acusada ela própria de salários por pagar e abuso laboral).

Se, além dos trabalhadores de Trump, tivermos em conta também os seus clientes, os lucros que ganhou por roubo crescem exponencialmente. Dos inquilinos com renda controlada que tentou expulsar até às pessoas, em geral de classe baixa, que enganou inscrevendo-os na Trump University, o candidato Republicano fez uma fortuna considerável explorando os salários, as poupanças e o tempo de pessoas que o tomaram por verdadeiro.

Ao longo de toda a sua carreira, Donald Trump fugiu a impostos e acumulou subsídios. Desta forma, não só enganou o público, mas esvaziou também os orçamentos de programas sociais e redistributivos.

Esta prática teve início com o seu pai, Fred Tump, já de si particularmente bem sucedido a conseguir subsídios públicos e benefícios fiscais. Apesar de o seu filho declarar que iniciou a sua carreira nos negócios com um empréstimo de 1 milhão de dólares do seu pai, isto não é inteiramente fatual. Fred Trump criou de fato um fundo de investimento protegido de impostos em nome de cada um dos seus filhos e netos e, de acordo com o Washington Post, Donald Trump ganhou 19 mil dólares em 1977, 47,2 mil em 1978, 70 mil em 1979, 90 mil em 980 e 214,6 mil dólares em 1981. Em paralelo, D. Trump recebeu cerca de 12 mil dólares por ano de um fundo de investimento criado em 1949 pelo seu pai e quase 2 mil dólares/ano de um segundo fundo de investimento criado pela sua avó também em 1949. Além disso, como prenda de natal, recebia 6 mil dólares todos os anos dos seus pais.

Na verdade, Fred Trump não fez nenhum empréstimo ao filho. Pelo contrário, criou uma fonte de rendimento que aumentou sustentadamente todos os anos. Depois, quando Fred Trump morreu, Donald recebeu cerca de 40 milhões de dólares da fortuna avaliada em cerca de 250 milhões no total.

A primeira grande oportunidade de Donal Trump surge na compra do Commodore Hotel em 1980. No processo de remodelação para o que viria a ser o Grand Hyatt Hotel, ele destruiu as esculturas emblemáticas do edifício, cobrindo-o de uma superfície espelhada e sorrateiramente demolindo tudo aquilo que deveria preservar. Graças ao histórico de doações que o seu pai fazia a políticos e funcionários do município, Trump recebeu uma isenção de impostos por 46 anos da Urban Development Corporation - o dobro da norma para este tipo de investimentos. Até hoje, não paga qualquer imposto sobre o hotel de luxo.

Quando a construção da Trump Tower teve início, requereu um benefício fiscal ao município de Nova Iorque no valor de 20 milhões de dólares. O vereador Anthony Gliedman recusou o requerimento.

Mas Trump processou o vereador e ganhou, obrigando a cidade a garantir o benefício no seu todo. Três anos mais tarde, Gliedman foi trabalhar para Trump, aconselhando-o sobre futuras negociações. Em 2004, a New York City Economic Development Corporation concedeu a Trump um benefício fiscal adicional a parte da Trump Towerno valor de 164 milhões de dólares numa propriedade avaliada em 237 milhões.

À medida que o seu negócio crescia, Trump consolidava a sua rede de empresas fictícias numa única entidade. As empresas fictícias que detêm o 40 Wall Street, Trump Carousel Central Park, e cerca de 400 outras empresas de Trump não estão registadas na sua sede de Nova Iorque mas sim num edifício incaracterístico no Delaware, o paraíso fiscal onshore dos EUA. (Hillary Clinton utiliza exatamente o mesmo edifício para os seus registos corporativos).

Além de benefícios fiscais, Trump arrecadou um número considerável de subsídios estatais e municipais. O campo de golfe do Bronx – que se situa no meio de um jardim público no bairro mais pobre de Nova Iorque – é apenas o exemplo mais recente. A cidade pagou 230 milhões para limpar o local e construir o campo de golfe; Trump foi responsável apenas por construir o edifício do clube e explorar o próprio jardim público.

No entanto, os subsídios públicos garantem a Trump a isenção de pagamento de renda nos primeiros quatro anos do leasing; no quinto ano pagará 7% da renda e, no décimo ano do leasing pagará 10%. Entretanto, os residentes de Nova Iorque serão chamados a pagar todas as suas faturas de água e esgotos – cerca de 1 milhão de dólares por ano. Nenhum dos bairros de renda controlada que rodeiam o jardim receberam subsídios públicos sequer equiparáveis aos que Trump recebeu.

Donald Trump não paga sequer impostos sobre a sua residência em Manhattan, pela qual recebe um benefício fiscal de 20,5 mil dólares por ano incluindo um pequeno crédito (de 500 mil dólares) da New York State School Tax Relief Program.

O problema com a fuga aos impostos de Trump não é apenas o fato de – tal como tantos outros bilionários – pagar menos impostos do que qualquer um de nós; é o fato de os impostos serem uma das formas de a sociedade reclamar aquilo que os capitalistas retiram aos trabalhadores. Ao fugir aos impostos e ganhar subsídios simultaneamente, Trump cria uma segunda camada de roubo ao seu modelo de negócio.

Terra roubada

A expropriação de terra é outra das manobras de negócio que Donald aprendeu do seu pai. Uma parte importante dos negócios de Fred Trump era a “reabilitação urbana”. Este programa permitia ao governo apreender e limpar propriedade justificando com “usufruto público”, e depois entregando o terreno a investidores para novos projetos.

Para que Fred Trump pudesse terminar o seu maior projeto – Trump Village em Coney Island – o estado expulsou cerca de mil famílias do terreno, muitas delas Afro-Americanas. Na realidade, a propriedade estava reservada para um projeto social de habitação gerido por sindicatos, mas Fred Trump recorreu aos seus amigos políticos para bloquear o projeto até que a cidade lhe desse metade da propriedade e um benefício fiscal considerável.

Num local próximo, o simpatizante do Klu Klux Klan construiu ainda o Beach Haven Apartments, um condomínio com segregação racial onde Woodie Guthrie escreveu a canção Old Man Trump. ("I suppose old man Trump knows just how much racial hate he stirred up in the bloodspot of human hearts when he drawed that color line here at his eighteen hundred family projetct.") É esta a herança de Donald Trump.

Trump filho tentou copiar o pai explorando o “usufruto público”, sem grande sucesso. Num ato que se tornou famoso, tentou retirar um idoso da sua casa em Atlantic City de forma a construir um parque de estacionamento, mas os tribunais impediram-no. Por volta da mesma altura, Trump tentou um esquema similar em Bridgeport, Connecticut, onde tinha a expectativa de expulsar cinco pequenas empresas de forma a construir um complexo turístico. Novamente, falhou nos processos de licenciamento.

Apesar do insucesso em roubar propriedade privada, Trump tornou-se bem sucedido em privatizar espaço público. No seu mais famoso incidente, apreendeu o ringue de patins no gelo de Central Park. O ringue esteve fechado entre 1980 e 1986, após uma desastrosa (mas bem intencionada) experiência com energias renováveis. O gelo não congelava, causando um escândalo ingerível para o Mayor Ed Koch, que foi obrigado pelo City Council a mudar de plano.

Ainda com a recusa do benefício fiscal para a construção da Trump Tower fresca na memória, Donald Trump aproveitou a oportunidade para humilhar o Mayor. De acordo com o biógrafo de Ed Koch, Jonathan Soffer, “Um neoliberal convicto, [Donald Trump] viu aqui a sua oportunidade para transmitir uma mensagem ideológica, que o setor privado era mais eficiente que o Estado, e ofereceu-se para tomar conta da reconstrução do ringue”. Apoiando-se novamente nas relações políticas do pai, D. Trump convenceu o City Council a chumbar o plano de Ed Koch e, em alternativa, a financiar a sua própria empresa para fazer a mesma coisa, no mesmo período de tempo, e pelo mesmo orçamento.

Obtendo favores de empreiteiros que queriam trabalhar em futuros projetos de Trump, e beneficiando da supervisão do ex-membro da administração Koch Gliedman, Trump concluiu a reconstrução em apenas cinco meses.

O clientelismo político bem sucedido tornou-se num estudo de caso no triunfalismo do livre mercado, e, segundo o historiador Joshua Freeman, "o mídia o aclamou como a personificação de uma das lições da crise fiscal [de 1975 em Nova Iorque]: deixe o gênio da iniciativa privada substituir o emaranhado da burocracia do governo". O ringue funciona agora como uma concessão privada dentro do parque e contribui para a enorme riqueza de Trump.

A mais recente aquisição de um campo de golfe no Bronx é um caso ainda maior de roubo de terras públicas. A cidade adquiriu o espaço - o lado leste da Ferry Point Park - em 1937 para construir a ponte Whitestone. Durante décadas, esta seção do parque foi usada como depósito de lixo, mas o Departamento de Parques de Bloomberg empreendeu uma reforma audaciosa para transformá-lo num espaço público utilizável.

Depois de gastar milhões em limpeza, a administração Bloomberg passou a maior parte do parque para Trump. A cidade ficou com cerca de 40 mil metros quadrados dedicados ao "parque da comunidade", e o campo de golfe de Trump, com perto de 900 mil metros quadrados, domina completamente a paisagem. Para utilizar as instalações, Trump cobra 141 dólares durante a semana, e 169 dólares aos fins de semana - muito mais do é cobrado nos campos de golfe administrados pelo Departamento de Parques. Somente no seu primeiro ano, este campo rendeu 8 milhões de dólares a Trump.

Além dos parques, Trump tem tentado também privatizar o espaço público na base da Trump Tower. O átrio resultou de uma reorganização municipal de 1961, que criou uma classe de propriedade de "espaços públicos de propriedade privada". O programa permitiu que os construtores construam acima dos limites fixados, desde que forneçam espaço aberto para o público, dentro ou fora dos seus edifícios.

O mais famoso espaço deste gênero é o Zuccotti Park, que chegou a ser o lar do Occupy Wall Street.

Ao tornar o átrio da Trump Tower totalmente acessível ao público, foi permitido a Trump construir mais vinte andares - no valor de cerca de 530 milhões de dólares – na parte superior do arranha-céu.

Contudo, recentemente, Trump tornou o espaço praticamente inutilizável, através da substituição do seu longo banco de mármore de perto de sete metros por um quiosque que vende materiais de campanha de Trump e mercadoria da Apprentice. A cidade multou Trump em 14.000 dólares, mas o átrio não foi restaurado. Entretanto, aqueles vinte andares extra continuam a gerar receita.

O sucesso de Trump depende do argumento de que pode gerir esses espaços de forma mais eficiente e eficaz do que qualquer autoridade pública. As suas parcerias público-privadas, no entanto, apenas têm sucesso em transformar espaços públicos em espaço efetivamente privados: estão abertos apenas para clientes que pagam. Ainda que o seu argumento não seja válido, tem ajudado a fazer de Trump um bilionário.

“Como nos tornamos propriedade do setor imobiliário”

Trump insiste que é um empreendedor. Claro que não é: a sua riqueza veio do roubo do trabalho, dos impostos, e da terra por parte do seu pai. Donald Trump tem aperfeiçoado estes métodos e acumulou ainda mais riqueza. O seu sucesso, e o do seu pai, dependeu de uma capacidade de convencer primeiro as autoridades públicas e agora o público em geral que eles são melhores para serem roubados. Esta é a ideologia imbecil do setor imobiliário: o que é bom para eles é bom para si, então deve deixá-los lucrar por furto de bens públicos e parasitar trabalhadores.

A ascensão política de Trump pode ser explicada como a sua ideologia de "capitalismo de Estado" a suplantar a política nacional. Na verdade, porém, a relação inverte-se: Donald Trump ergueu-se apenas após a sua classe ganhar uma guerra para desfazer o consenso do pós-guerra.

Vejamos a crise financeira de 2008. Normalmente, os comentadores associam a crise do subprime à nomeação presidencial de Trump, assinalando que o desemprego induzido pela recessão tornou o slogan de Trump "fazer a América grande de novo" especialmente sedutor. Isto é certamente verdade, mas ignora a causa da crise de 2008: uma indústria imobiliária financializada comprou o país, atirou-o para um buraco, e depois usou o financiamento público para restabelecer o seu modelo de negócio. Como o subtítulo do livro de Alyssa Katz atesta, a crise de 2008 mostrou “como nos tornamos propriedade do mercado imobiliário”.

Agora o mercado imobiliário - encarnado por Trump - está também a tentar governar-nos. A sua campanha ganhou o apoio da indústria, das antigas famílias imobiliárias aos novos conglomerados empresariais. Os seus apoiadores - e o próprio candidato - louvam a sua experiência em roubar salários, impostos e terra como prova da sua tão propalada habilidade para os negócios. Os Estados Unidos estão obcecados com o setor imobiliário – de reality shows que documentam a compra, reabilitação e venda de casas à políticas urbanas promotoras da máquina de crescimento, que equiparam o aumento dos valores dos imóveis à prosperidade generalizada - e Donald Trump é o seu candidato.

Os nova-iorquinos que testemunharam a ascensão em 2001 do autarca Michael Bloomberg reconhecem esta dinâmica. Como Julian Brash argumentou em Bloomberg's New York, não é que Bloomberg tenha levado à ascensão do capitalismo transnacional e das classes profissionais ligadas à gestão em Nova York, mas, sim, que o crescimento dessas classes criou as condições necessárias para a sua eleição.

O mesmo com Trupm: a ascensão dos capitalistas imobiliários e o sucesso da sua proposta ideológica - que a riqueza triplamente roubada é socialmente benéfica – preparou o terreno para o candidato republicano.

A tarefa dos socialistas não é apenas derrotar Trump, mas arrancar o poder de volta do capital imobiliário e lutar contra o seu domínio sobre as nossas vidas.

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