18 de agosto de 2016

Quando nós amávamos Mussolini

Adam Tooze

Os Estados Unidos e a Itália fascista: A ascensão da finança americana na Europa por Gian Giacomo Migone, traduzido do italiano e com um prefácio de Molly Tambor

Cambridge University Press, 405 págs., $ 110,00

Benito Mussolini e o secretário de Estado americano Henry Stimson, Roma, julho 1931

New York Review of Books

Tradução / No início dos anos 1960, em pleno refluxo do atlantismo do pós-guerra, Gian Giacomo Migone, descendente de uma família cosmopolita de diplomatas italianos, chegou a Harvard para estudar história. Como um católico liberal, seguidor de John F. Kennedy e admirador do Papa João XXIII, Migone escapava do conservadorismo e do neofascismo das universidades italianas do pós-guerra. Ele veio para os Estados Unidos em busca da promessa de democracia e novos desenvolvimentos em sua bolsa de estudos. O que ele encontrou foi algo mais complicado. Era o auge da luta pelos direitos civis e ele e outros estudantes estrangeiros aventuraram-se para o Sul para testemunhar os últimos dias de Jim Crow. No entanto, não era o presente da América que iria desestabilizar-lo, mas o passado e, em particular, a história recente da América em relação ao seu próprio país.

Em 1965, o tema do legendário seminário de Ernest May em Harvard, sobre relações exteriores da América, eram os anos 1920, e Migone recebeu o encargo de explorar a política da América para a Itália. Era missão delicada num duplo sentido. Os anos 1920 foram uma década comumente identificada com o isolacionismo americano, período durante o qual se dava por decidido que os América não tinham qualquer real política externa. E Itália, nos anos 1920, era o regime de Mussolini. A questão era como as administrações republicanas de Harding, Coolidge e Hoover, comprometidos com seu programa nacionalista de "normalidade" e modernização, haviam se envolvido com o primeiro esforço para construir uma ditadura fascista na Europa. Com a guerra do Vietnã em escalada no pano de fundo, foi encargo que abalaria as crenças ingênuas que o jovem Migone acalentava sobre o alinhamento da potência ocidental com/pela democracia.

Publicado em italiano em 1980, após muitos anos de pesquisa pioneira nos arquivos americanos e italianos, o livro de Migone estabeleceu-o na Itália como uma autoridade entre os estudiosos da esquerda-liberal da era fascista e lançou uma carreira que o levaria por meio da Universidade de Turim a um assento no Senado italiano. Mesmo assim, em tempos ainda antes da Internet e de Google Translate, a tese doutoral de Migone permaneceu praticamente desconhecida para leitores do mundo anglófono. Como outros trabalhos clássicos da historiografia internacional europeia dos anos 1960 e 1970, muitos dos quais centrados na América – em alemão, pensa-se logo em Hitler's Strategie, de Andreas Hillgruber; Aufrüstung oder Sicherheit, de Michael Geyer; e Die amerikanische Stabilisierungspolitik in Deutschland de Werner Link –, essa interpretação europeia do poder da América permaneceu praticamente ignorada na própria historiografia americana. E devemos agradecimentos à Cambridge University Press e a Molly Tambor, ela também historiadora da Itália do pós-guerra, por termos afinal essa excelente tradução.

O antifascismo é o mito fundador da república italiana depois de 1945. Mas não só uma ressentida minoria de italianos permanecia ligada à memória de Mussolini, como também, como Migone descobriu nos National Archives em Washington, a América só surpreendentemente tarde decidiram declarar Il Duce inimigo, no final da década dos 1930. No período entre guerras, diferente do que se viu depois de 1945, os americanos não assumiam que a democracia fosse destino natural de todos os estados da Europa Ocidental. Admiradores americanos de Mussolini iam das empresas de mídia de Hearst ao presidente da Universidade de Columbia, Nicholas Murray Butler, que deu uma plataforma à propaganda fascista na "Casa Italiana" no Upper West Side. Dois presidentes, Hoover e Roosevelt manifestaram aprovação e apoio ao regime de Mussolini. O fascismo prometia levar ordem e progresso à Itália, ao mesmo tempo em que mantinha ao largo qualquer ameaça vinda da esquerda.

Já em 1972, John Patrick Diggins, em seu Mussolini and Fascism: The View from America, revelara o entusiasmo que Mussolini gerava entre intelectuais americanos do campo progressista. O que o livro de Migone expõe a nu é que aquelas afinidades eram fundadas em mais do que só ideias e política. Por trás do palco, havia interesses financeiros que orquestravam o conúbio entre os EUA e o fascismo italiano. Como ele diz em seu prefácio, Migone pode não ter começado como um marxista, mas através da "leitura de documentos produzidos pelos bancos centrais e os bancos de investimento" às vezes ele se sentia como se pudesse "tornar-se um".


Um dos obstáculos que muito dificultaram que se reconhecesse mais amplamente as relações amistosas entre Wall Street e o fascismo italiano foi a visão generalizada sobre o período entre guerras como era de nacionalismo econômico. Mussolini é famoso pela defesa empenhada da autarquia e por triunfos como a drenagem dos pântanos de Pontine e a "batalha pelo grão" na agricultura. A Itália, por sua vez, foi severamente afetada pelas quotas impostas pela América no início dos anos 1920, que limitavam o número de imigrantes.

Mas políticas de desenvolvimento nacional absolutamente não eram incompatíveis com incentivar as interconexões comerciais e financeiras internacionais. Aqui se tem de tomar seriamente os adjetivos "nacional" e "internacional". As elites empresariais italianas jamais cogitaram admitir que o desenvolvimento econômico nacional fosse amputado da economia mundial. O efeito imediato da Primeira Guerra Mundial nem foi tanto desencadear uma desglobalização, quanto promover um rearranjo das interações econômicas internacionais. Se, antes de 1914, empresários visionários como Giuseppe Volpi procuravam a Alemanha em busca de assistência para desenvolver indústrias modernas na Itália, como usinas hidrelétricas, a partir de 1917 a economia italiana passou a depender de empréstimos da Grã-Bretanha e da América, os quais, em 1919 já chegavam a $2 bilhões e $1,65 bilhão respectivamente. Depois da Conferência de Paz de Paris, apesar do confronto que houve com Woodrow Wilson, por os italianos exigirem o controle sobre Fiume, os liberais italianos continuaram de olhos postos em Wall Street.

Tragicamente, após o fracasso de Wilson para convencer o Senado a ratificar o Tratado de Versalhes, a mente de América estava em outro luga. Por mais que o Senado e o Departamento de Estado estivessem interessados na estabilização europeia, o que realmente os preocupava era o destino da Alemanha. Foi o desastroso conflito franco-alemão no Ruhr que levou a América a se reengajar nos negócios europeus, no outono de 1923. Naquela altura, para a primeira geração dos liberais atlantistas da Itália, já era tarde demais. Mussolini tinha tomado o poder em outubro 1922.

Migone mostra como, com a Alemanha como prioridade de Washington, Mussolini posicionou seu governo como muito mais maleável que a França republicana, com vistas à nova hegemonia da América. Por mais que Mussolini rugisse seus resultados de guerra, não teve política agressiva contra a Alemanha. Deixou bem claro desde o início que compreendia o poder da América, e disse ao rei Vittorio Emanuele III em 1923, para empurrá-lo a fazer uma visita oficial à América:

"A volta do fluxo migratório para os EUA e a cooperação com o capital americano são dois elementos de importância vital para nós. Além das vantagens econômicas... seria imenso benefício para a Itália... por causa da indiscutível influência que podem ter sobre nossas relações com outros estados, dentre os quais, sobretudo, a Inglaterra."

Ao contrário dos políticos eleitos democraticamente que governavam em Paris, na ditadura de Mussolini na Itália a política financeira foi delegada a uma sucessão de empresários e tecnocratas. Ao contrário do francês, eles aceitaram os termos econômicos básicos estabelecidos pelo Congresso e articulados pelo secretário de Comércio, Herbert Hoover e Andrew Mellon no Tesouro. Circulando entre eles, como facilitadores onipresentes de conversas em ambos os lados, estavam banqueiros proeminentes e, acima de tudo, J. P. Morgan.

Em seu prefácio, Molly Tambor observa que uma das decisões mais difíceis que ela e Migone tiveram que fazer na versão de seu livro para o Inglês era como traduzir classe dirigente. Em atenção a sensibilidades modernas, rejeitaram a tradução mais óbvia "classe dominante," em favor de expressões como "elites" e "líderes de negócios". Mas mesmo através do filtro dessa tradução que aspira a ser despolitizada, o quadro que Migone pinta é muito claro. O novo poder da América nos anos 1920 baseava-se em sua economia e na projeção de uma visão americana de ordem internacional que ultrapassava a Liga das Nações: e no comando, estavam banqueiros norte-americanos. As questões cruciais da diplomacia italiana-americana não eram questões de democracia, mas de finanças. Tinham a ver com a quitação das dívidas de guerra da Itália e com a restauração do padrão ouro. E com a orientação fraterna de J.P. Morgan, o regime de Mussolini rapidamente aceitou os termos de acertos financeiros com a América. O acordo sobre dívida de guerra negociado em 1925 foi o mais generoso que a América firmou com qualquer de seus associados de tempos de guerra. E desencadeou um fluxo de investimento americano para a Itália que ainda acelerou depois de 1927, tão logo a Itália estabilizou-se sobre o padrão ouro.

O investimento total dos EUA na Itália fascista rapidamente ultrapassaram os $400 milhões. A destacar que, à altura de 1930, quando o presidente Hoover iniciou o movimento para restaurar a ordem mundial (começando com a conferência de Londres sobre controle de armas navais), a Itália fascista, depois do governo trabalhista de Ramsay MacDonald na Grã-Bretanha, era a parceira preferida de Washington na Europa. Quando o ministro de Relações Exteriores de Mussolini, o carismático ex-squadistra Dino Grandi, encontrou Hoover em 1931, o presidente disse ao seu hóspede italiano que a minoria expressiva de antifascistas na América devia ser ignorada: "Eles não existem para nós americanos, e nem devem existir para vocês."


O que destruiu a harmonia dos anos 1920 não foram as tendências crescentemente ditatoriais do regime de Mussolini, mas a Grande Depressão. O colapso do padrão ouro e o fim do empréstimo internacional romperam os laços de "soft power" que haviam contido o regime de Mussolini. Mussolini sempre falara de guerra e conquista, mas desde o incidente de Corfu em 1923, quando a Itália fora arrastada para uma crise diplomática e militar com a Grécia, em que disputavam aquela ilha, ele moderara suas ações de agressão a outros países. Em 1935 o expansionismo explodiu à plena luz. Com o ataque não provocado contra a Abissínia, Mussolini quebrou a ordem do entre guerras. Em seguida vieram a militarização da Rhineland por Hitler; o golpe de Franco na Espanha e a Anschluss da Áustria. Se ainda houvesse qualquer esperança de conter essa escalada, estaria em sanções rápidas e agressivas contra Mussolini por causa da Abissínia. Mas, em vez disso, as potências liberais vacilaram. Por quê?

Hitler disse a famosa frase que tinha visto os estadistas do Ocidente em Munique e eles eram "vermes". Nisso, pelo menos, Churchill concordava. Para Migone, a lógica de apaziguamento não era uma questão de fraqueza moral. Foi sistemática. A ação de não impor sanções aos fascistas foi uma espécie de eco abafado de uma estratégia de hegemonia financeira antes poderosa. Consideradas as políticas dos anos 1920, a recusa da América, que se posicionou contra até as mínimas sanções impostas pela Liga das Nações, era totalmente previsível. Em vez de sanções, as importações crescentes de veículos motorizados e petróleo deram forte impulso à agressão assassina da Itália, contra o único membro africano da Liga das Nações, que era u, estado independente. A principal preocupação do Departamento de Estado não era punir a violação da lei internacional, mas o medo de que se Mussolini viesse a ser humilhado o governo fascista entrasse em colapso e a Itália se tornasse palco de uma revolução.

Examinar os movimentos pró-paz (ou a ausência deles) contra o pano de fundo das relações financeiras e políticas nos anos 1920 é certamente muito esclarecedor. Mas também revela uma unilateralidade na história da Migone. Ele não leva suficientemente a sério a confusão e a surpresa em Washington e Londres, ao responderem à repentina agressão de Mussolini. Mas, e o que Mussolini quereria na Abissínia? Era uma questão real. Conforme o modelo aceito de hegemonia capitalista, à qual os americanos acreditavam que eles mesmos estivessem visando com seus amigos fascistas, não havia resposta óbvia. Nem Migone cuida de nos oferecer alguma. Em seu esforço para refutar as leituras excessivamente ideológicos do fascismo como uma religião política violenta, ele deixa de nos dar um relato sistemático de agressão fascista.

A violência que explodiu em 1935 teve várias fontes. Mas conforme o próprio argumento de Migone ela pode ser mais bem interpretada como o verso da cumplicidade que o próprio autor descreve tão poderosamente nos anos 1920. A insurgência "ou faz ou morre" foi um tipo diferente de reação à nova ordem mundial criada em 1919. É impossível dar conta da singularidade do regime de Mussolini – ou do regime de Hitler – se não se reconhece essa dualidade. Il Duce não apenas não se curvou ante o poder do Império Britânico e da América: ele também conspirou contra as duas potências.

O modo como responder a essa violenta insurgência foi um verdadeiro desafio para a estratégia dos governos liberais depois da Primeira Guerra Mundial. A preferência deles pela paz tinha fundamentos sólidos. Interesses sociais e econômicos e um não-gostar de guerra também participaram. O potencial militar de uma aliança Alemanha-Itália-Japão não seria ameaça que se pudesse tratar com desdém. Mas o que levou realmente a amolecer contra os fascistas nem foi tanto o medo da derrota; foi, mais, o custo ruinoso de vencer novamente. A vitória das potências da Entente em 1918 custou preço tão alto que, fundamentalmente, pôs em questão o valor da guerra como ferramenta de poder político. Desde a conferência naval em Washington em 1921, a estratégia de ambos, americanos e britânicos consistira em solidificar a dominação estratégica nos oceanos. Em 1935, se quisessem afirmar essa dominação, a superioridade da frota britânica sobre a frota italiana teria sido enorme. Mas impor bloqueio total requereria mobilização política em casa e alianças estratégicas com França e América, que esses países não haviam oferecido e que os britânicos não desejavam assumir.

O que faltava era um sistema confiável de contenção, uma força tão formidável e tão clara em sua missão política e estratégica que tornaria implausível qualquer esforço para derrubar o status quo. Desde a Conferência de Paz de Paris, o governo francês clamava exatamente por tal sistema – mediante alguma combinação de exército da Liga das Nações, mecanismos automáticos de sanções e garantias de segurança com garras reais. Mas foi precisamente essa insistência que tornou a República Francesa tão intolerável para Washington.

O desastre subsequente revelaria as limitações de uma hegemonia financeira unidimensional. Para dar segurança a uma ordem liberal assim tão conveniente, seria necessária uma mistura muitíssimo mais densa de política, ideologia e poder militar. Depois de 1945, a promoção, pelos EUA, da integração europeia e do papel de âncora que teria na OTAN foram dois elementos vitais da nova ordem. O anticomunismo solidificou o apoio político doméstico. O New Look nuclear de Eisenhower, por mais horrendo pensamento que fosse, tornou a contenção financeiramente possível. Como o revisionismo de Migone energeticamente nos faz lembrar, outro elemento da ordem do pós-guerra foi um serviço de reescrever a história dos anos 1930s que fez descer um véu de silêncio sobre o fato de que bem recentemente, logo ali, em 1935, instituições tão crucialmente importantes como J.P. Morgan trabalhavam em relação muito próxima com homens que hoje são tratados como bandidos fascistas.

O trabalho de "acertar as contas com o passado" iniciado por Migone e sua geração, assim, iluminou, tanto o período entre guerras quanto as fundações políticas da ordem pós-guerra. E embora o fascismo tenha saído de cena, é o fio cortante da auto-reflexão crítica que dá ao livro de Migone sua relevância para os desenvolvimentos recentes. Qual é a relação entre democracia e capitalismo financeiro internacionalizado? Até que ponto podemos enfrentar as tensões entre um e outro? Na era do Vietnã e Pinochet, Migone colocou essas perguntas sobre o relacionamento dos Estados Unidos com a Itália de Mussolini. Elas ainda permanecem conosco até hoje. E ao enfrentá-las precisamos de toda a ajuda que pudermos obter. Embora o retorno das humanidades à "história do capitalismo" seja um efeito colateral bem-vindo da crise financeira, décadas de abandono cobraram seu preço em nossas faculdades críticas e analíticas. Vai nos fazer muito bem aguçar nossa inteligência sobre os esforços de uma geração anterior para compreender a economia política do capitalismo internacional. O lúcido e poderoso livro de Migone é um excelente ponto de partida.

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