1 de maio de 2017

Um ponto de inflexão eco-revolucionário?

Aquecimento global, os dois negacionismo climáticos e o proletariado ambiental

Paul Burkett

Monthly Review

Tradução / No verão de 2016, a aceleração da mudança climática fez outra vez manchetes. Em julho, a Associação Meteorológica Mundial anunciava que os seis primeiros meses de 2016 haviam quebrado todos os recordes globais de temperatura, sendo junho o décimo-quarto mês numa série de recordes de calor tanto em terra quanto nos oceanos e o 378.º mês consecutivo de temperaturas mais elevadas que a média histórica. O aquecimento tem sido especialmente rápido nas regiões árticas, onde, por efeito do derretimento, grandes quantidades de metano e dióxido de carbono vêm sendo liberadas. Em 21 de julho de 2016, a temperatura em lugares como Kuwait e Iraque atingiu 129º F, a mais alta jamais registrada no hemisfério oriental. Os efeitos disruptivos do aquecimento bipolar ficaram evidentes com o cruzamento sem precedentes do equador pela corrente oceânica do hemisfério norte, onde esta se fundiu com aquela do hemisfério sul, ameaçando ainda mais a integridade das estações com impactos imprevisíveis nos extremos climáticos e em todo o sistema.[1] Enquanto isso, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente descrevia o Acordo de Paris de dezembro de 2015 como “ultrapassado antes mesmo de entrar em vigor”, com os climatologistas projetando um aquecimento global de pelo menos 3,4º C (mais que dobrando o limite de 1,5º C supostamente estabelecido no acordo) mesmo se os objetivos de emissões prometidos pelas nações signatárias forem de alguma forma alcançados, apesar da falta de mecanismos vinculantes. “O mundo ainda estará emitindo 54-56 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalentes por ano por volta de 2030 na atual perspectiva, bem acima das 42 gigatoneladas, limite necessário para deter o aquecimento em 2 graus Celsius,” segundo o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.[2]

É difícil não observar a ironia histórica da situação. Duas décadas antes, diziam-nos que o capitalismo neoliberal assinalava o “fim da história.” Agora, tudo indica que os ideólogos do sistema podem ter tido razão, mas não do jeito que imaginavam. O Sistema de capitalismo neoliberal baseado em combustíveis fósseis está de fato levando ao fim da história, mas apenas no sentido do fim de qualquer avanço histórico da humanidade enquanto espécie produtiva, cultural ou política devido à crescente barbárie das condições ambientais e socioeconômicas criadas pelo sistema. Não há agora alternativa ao fim da história tal como a conhecemos. O desenvolvimento sustentável da sociedade humana, em coevolução com a natureza, inclusive com as outras espécies, depende agora de uma ruptura histórica definitiva com o capitalismo (trabalho assalariado, mercado competitivo, produção para o lucro) como modo de produção dominante. Esta é a principal lição de três livros recentemente publicados: Facing the Anthropocene, de Ian Angus; Fossil Capital, de Andreas Malm e This Changes Everything, de Naomi Klein. Para resolver a crise climática – a qual é apenas parte de uma mais ampla crise ambiental criada pelo capitalismo – a produção competitiva, guiada pelo lucro sob o desigual controle de classes, deve ser substituída por um sistema no qual o povo trabalhador e suas comunidades coletivamente e democraticamente regulem a produção e outras interação com seu meio ambiente material e social. O desenvolvimento sustentável de pessoas coevoluindo cooperativamente de maneira saudável com outras espécies deve substituir a competição e a exploração motivadas pelo lucro e a competição como força motriz mor na produção e no inteiro sistema de abastecimento material. Negar que a crise climática está conectada com o capitalismo, e que precisamos de um novo sistema para lidar com ela, é simplesmente tão enganador e tão perigoso quanto negar a existência de um aquecimento global induzido pelos seres humanos. Ambas as formas de negacionismo devem ser superadas tanto na teoria quanto na prática.

Levei necessariamente para casa esta lição no último outono com o crescimento da monumental luta dos Sioux de Standing Rock, seus aliados indígenas e seus simpatizantes contra o oleoduto Dakota Access. Alinhados com o “capitalismo de sempre”, a mídia e o presidente Obama só deram respostas visíveis a esta luta (e isso muito timidamente) quando os manifestantes foram fisicamente atacados pela polícia e pelas forças de segurança das corporações, sendo isso transmitido ao vivo pela guerrilha informativa em Internet, ao que se seguiu a chegada de militares veteranos e milhares de outras pessoas (inclusive algumas figuras de peso do mundo politico e do entretenimento) para apoiar os protetores da água. Enquanto a mídia corporativa e Obama descreviam o conflito como sendo apenas uma questão hídrica e fundiária local, muitos indígenas e seus aliados viam-no como uma luta pela proteção de toda a Terra contra um sistema econômico cujo imperativo de extração de combustíveis fósseis para o lucro não reconhece a integridade do território e de seus habitantes como uma teia de forças vivas físicas, culturais, e espirituais.[3] Outra razão pela qual todos devemos ler os livros supracitados é que, tomados em seu conjunto, eles fornecem uma poderosa análise do significado político de lutas aparentemente locais sobre direitos fundiários, como Standing Rock- desmentindo assim o pensamento sobre o fim da História. Eles mostram que conflitos sobre oleodutos e outras instalações relativas a combustíveis fósseis podem ser vistos como a vanguarda de uma intensificação da luta de classes global entre os setores dominantes do capital e o que John Bellamy Foster e outros denominaram como “proletariado ambiental”.[4]

Embora os três livros se sobreponham em sua coberta da história e da economia política da crise climática, eles têm a vantagem de apresentar análises complementares distintas. Angus analisa o aquecimento global através de uma interpretação ecológica marxista do Antropoceno, definido pelos cientistas naturais como uma nova época da história biosférica na qual os humanos desempenham um papel primordial na alteração dos processos geológicos globais, incluindo o clima.

Já o livro de Malm detalha as íntimas conexões entre a queima de combustíveis fósseis (a principal fonte de mudança climática induzida pelos humanos) e o desenvolvimento do capitalismo industrial – uma convergência que ele nomeia “capital fóssil.” Sua análise histórica estabelece que o uso de combustíveis fósseis na economia não se deve a considerações gerais de escassez ou eficiência técnica, mas antes a exigências da exploração de mão-de-obra, e à preferência do sistema pela competição privada sobre a cooperação social no campo do uso de energia.

Finalmente, Naomi Klein enfoca o papel das políticas neoliberais como um facilitador do capitalismo baseado em combustíveis fósseis e como uma barreira contra as soluções à crise climática socialmente progressistas e sustentáveis. Ela argumenta que a crise pode ser transformada em oportunidade positiva na medida em que se possa esclarecer a radical oposição entre capitalismo e valores ecológicos, mas isso apenas à condição de podermos combater o uso oportunista do capitalismo neoliberal de desastres climáticos para implementar retrógrados “remendos” tecnicistas de livre mercado, nisso incluindo a chamada “engenharia climática”. Klein descreve como os proletários ambientais (ou, como ela os nomeia, os “bloqueadores”) estão forjando combinações inovadoras de indígenas, comunheiros, feministas e formas científicas de pensar, na medida em que resistem às incursões de projetos de extração e transporte de combustíveis fósseis em terras comunais e começam a construção de uma alternativa sustentável ao capital fóssil.

Para o objetivo a que ora me proponho, no entanto, convém começar pela síntese da ciência climática e pela história moderna do capitalismo feitas por Angus.

Uma crise material e histórica

Angus não vê a mudança climática como uma questão isolada. Para ele, não se trata de um problema ambiental separado, que possa ser tratado isoladamente. Ao invés disso, ele o situa numa vasta tendência de atividades humanas (especialmente a produção e o consumo, mas também as operações militares) de provocar efeitos ambientais de grande monta. Com base no trabalho de cientistas do Sistema-Terra, ele argumenta que, no fim dos anos 40, o mundo entrou numa nova época geológica, o Antropoceno, na qual impactos ambientais causados pelo homem se tornaram a principal força motriz das mudanças no sistema-Terra como um todo, e que estes impactos planetários estão agora colocando em perigo as condições necessárias a um saudável e estável desenvolvimento da civilização humana. Nem precisa falar das ameaças que pairam sobre as espécies não humanas. Na era do Antropoceno, a capacidade de produção e consumo humanos (e as atividades militares) está atingindo pontos de inflexão além dos quais haverá impactos amplos e parcialmente imprevisíveis para toda uma variedade global de subsistemas geológicos.

Além do sistema climático, estes pontos de inflexão abrangem questões como: (1) declínio da integridade da biosfera – redução da diversidade da vida, funcionalmente e geneticamente falando. (2) a capacidade dos sistemas ecológicos para absorver e se adaptar à introdução de novas entidades (novas substâncias químicas e biológicas) consistentes com estados do sistema favoráveis à vida humana e a outras formas de vida; (3) depleção da camada de ozônio, ou seja, redução da concentração de ozônio na estratosfera, a qual aumenta a exposição da vida terrestre a cânceres causados pela radiação ultravioleta. (4) acidificação dos oceanos, a qual destrói as cadeias alimentares oceânicas e suas afins, começando por corais, plâncton e conquícolas; (5) fluxos biogeoquímicos, especialmente dos ciclos do nitrogênio e do fósforo, que têm sido sobrecarregados por escoamentos de fertilizantes em reservas de água doce e nos oceanos, mais uma vez destruindo sistemas ecológicos. (6) transformação do sistema-solo, ou seja, a expansão da agricultura e de outras atividades sobre pradarias, savanas e áreas florestais; (7) uso de água doce, a absorção da água doce pela agricultura e pela indústria está rapidamente atingindo um limite global, e muitas áreas já alcançaram seus limites regionais; (8) Poluição atmosférica, ou “carga atmosférica de aerosóis”, a qual está relacionada a 7,2 milhões de mortes por ano.[5]

O íntimo entrelaçamento entre estes fenômenos deveria ser algo óbvio. Por exemplo, o desflorestamento piora o aquecimento global, o qual em seguida leva ao derretimento acelerado e à exposição de zonas de turfa em todo o mundo, o que posteriormente acelera as emissões de gases de efeito estufa, e assim por diante. (Enquanto eu escrevia este artigo, o New York Times reportava que “no outono de 2015, os incêndios em zonas de turfa da Indonésia lançaram mais carbono por dia que toda a União Europeia.”)[6] A poluição das águas por escoamento de fertilizantes e a acidificação dos mares afetam a integridade do sistema oceânico. Tais interligações aumentam a probabilidade de que estes pontos de inflexão do sistema ambiental se cruzem, levando a mudanças abruptas e irreversíveis altamente imprevisíveis, e o que é ainda mais importante: tornar-se-á difícil para a humanidade dar respostas que posam manter o planeta como “uma zona do espaço operacionalmente segura para a humanidade.”[7]

O relato de Angus sobre a emergência do conceito de Antropoceno dentro da comunidade científica e os dados que ele organizou para apoiar sua explanação deveriam por um ponto final a qualquer persistente dúvida sobre a realidade multidimensional da crise ambiental planetária. Não obstante, Angus vê claramente a dinâmica climática não apenas como a mais ameaçadora, mas também como a força primária que guia a crise climática do Antropoceno como um todo. Para entender isso, pode-se primeiro reconhecer que, para Angus, o Antropoceno não pode ser adequadamente compreendido apenas pela ciência natural. A produção energética e material da atividade humana e seus efeitos ecológicos não devem ser considerados separadamente das relações sociais específicas que historicamente estruturam esta atividade. Isto significaria render-se àqueles que tratam a crise como um resultado direto da natureza humana ou de uma ética ecologicamente incorreta ou de valores não historicamente considerados – um beco sem saída analítica e politicamente falando. A crise é, em suma, tanto histórica quanto material e deve ser analisada como tal, usando as ferramentas do materialismo histórico. Assim, Angus vê “o projeto Antropoceno como uma oportunidade para unificar a análise marxista ecológica e o as últimas pesquisas científicas numa única síntese.”[8]

Por conseguinte, Angus explica o desenrolar do Antropoceno não como um repentino ataque de mania global de crescimento econômico, mas como o produto histórico de um sistema total de produção e consumo capitalistas, de atividades militares. Esse sistema só se consolidou globalmente, com sua base central nos Estados Unidos, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, e ele depende crucialmente da extração, da queima e do processamento industrial de combustíveis fósseis. Como diz Angus: “Os combustíveis fósseis não são uma camada que posa ser descascada do capitalismo, deixando o sistema intacto. Eles estão embutidos em cada aspecto do sistema.”[9] É neste sentido histórico que Angus vê as raízes do Antropoceno no crescimento do “capitalismo fóssil” em escala global, liderado pelos Estados Unidos. Esta afirmação é, em parte, baseada na análise histórica de Malm de uma íntima afinidade entre as relações capitalistas e o uso de combustíveis fósseis (ver a próxima parte do artigo). Angus também se baseia na reconstrução de John Bellamy Foster da análise de "fratura metabólica" de Marx sobre a crise ambiental, especialmente as tensões entre o ritmo e o padrão espacial dos fluxos matéria-energia como estruturados pela produção capitalista e os fluxos necessários a uma reprodução saudável e sustentável dos sistemas ecológicos. O imperativo de constante crescimento do capital, para acelerar a acumulação de mais valia (um imperativo reforçado pela competição), também vai muito longe para explicar a invasão sem precedentes da produção humana nos limites da biosfera- uma intrusão crucialmente possibilitada pelo processamento e pela queima de combustíveis fósseis.[10]

Como já referido acima, no entanto, Angus dá a estas questões gerais uma muito concreta significação em sua análise do “complexo petrolífero-automobilístico”, cujos desenvolvimentos tiveram por centro inicial os Estados Unidos. Este complexo implicou muito mais que carros e gasolina. Através de várias articulações tecnológicas e de oferta e procura, a “automobilização” (nisso incluindo o desenvolvimento industrial e a suburbanização residencial) e o uso intensivo de combustíveis fósseis foram peças chave em todo o sistema de acumulação do pós Segunda Grande Guerra, englobando setores econômicos importantes como a química industrial, siderurgia, plásticos, transporte de mercadorias, transporte aéreo, construção, agroindústria (pesticidas, fertilizantes, alimentação animal, maquinaria agrícola, etc.), sendo o inteiro complexo dependente, sobretudo, de termoelétricas. Angus nos mostra claramente o papel preponderante dos combustíveis fósseis no desenvolvimento da aglomeração industrial capitalista, que finalmente pressionariam toda uma variedade de sistemas da biosfera, inclusive o sistema climático.[11]

O desenvolvimento, o crescimento e finalmente a mundialização deste complexo fóssil recebeu poderosos estímulos de uma prévia concentração de capital industrial no seio de gigantescas corporações, e da ascensão do complexo militar-industrial. Angus demonstra como a combinação de imperativos militares estratégicos durante a guerra fria (e aquela que a antecedeu), com um concentrado controle corporativo-burocrático, reforçou o movimento de produção numa trajetória ecologicamente insustentável. O complexo militar fornece um mercado já pronto para produtos do complexo capital-fóssil (armas, veículos e várias mercadorias necessárias para o sustento do pessoal militar) e abundante financiamento governamental para novos desenvolvimentos de produtos (como, por exemplo, plásticos, embalagem a vácuo e tecnologia informática inicialmente desenvolvida desta forma). Na medida em que o próprio complexo militar se torna crescentemente industrializado – um processo altamente acelerado durante as duas grandes guerras e em curso desde então – ele se torna um grande consumidor de combustíveis fósseis, e uma importantíssima fonte de emissões de carbono, precipitações radioativas e outras formas de poluição que lhe são próprias. Obviamente, ao mesmo tempo em que mantém outros países presos à órbita capitalista, uma diretiva principal do complexo militar tem sido garantir para as empresas capitalistas e para o próprio complexo militar o acesso permanente ao petróleo e a outras fontes estratégicas em todo o mundo – uma diretiva cumprida através de várias intervenções armadas pelos Estados Unidos e governos capitalistas aliados em diversas partes do mundo.[12]

Com tal sistema industrial-militar nutrido a combustíveis fósseis, não fica difícil ver por que a “idade do ouro” dos Estados Unidos e da Europa, de um crescimento econômico relativamente rápido no período 1943-1973, e a subsequente expansão da indústria capitalista monopolística transnacional para novos centros periféricos de rápida acumulação, especialmente China e lesta da Ásia, resultou no que os cientistas do sistema-Terra chamam de “Grande Aceleração” de impactos humanos no ambiente planetário.[13] O Antropoceno e a crise climática em particular são crises do capitalismo realmente existente. Isto é um fato histórico e científico. A União Soviética e os chamados países socialistas contribuíram para estas crises (e suas contribuições foram, no conjunto, certamente inferiores àquelas do capitalismo), mas isso aconteceu, sobretudo, na medida em que adotaram os sistemas industriais capitalistas baseados em combustíveis fósseis, reproduzindo assim a mesma fratura metabólica entre produção e leis da sustentabilidade ecológica.[14]

Como a mudança climática se conectou ao capitalismo

Malm vê a instalação de um motores a vapor a base de carvão pelas manufatureiras têxteis britânicas como um ponto chave crucial no desenvolvimento da economia de capital fóssil, ou seja, aquela em que os combustíveis fósseis “são utilizados através de todo o espectro da produção de mercadorias em geral”, tornando-se assim, “a alavanca geral da produção de mais-valia.”[15] Sua análise enfoca o nível do solo dos locais de trabalho industriais e da luta de classes por salários e controle da produção, estabelecendo adicionalmente as profundas raízes do Antropoceno. O fato de que o próprio Malm seja cético em relação ao Antropoceno não deve nos deter. Sua preocupação é que alguns teóricos do Antropoceno ignoraram ou minimizaram as origens capitalistas da economia fóssil e ao invés disso atacaram a natureza humana ou algum “pecado original”, como o uso inicial do carvão ou do petróleo ou até mesmo a descoberta do fogo. Malm parece ter escrito seu livro antes de Angus mostrar que é possível reconfigurar o Antropoceno em termos marxistas enfocando o papel chave das relações capitalistas. De fato, o amplo tratamento que Angus dá ao complexo fóssil incorpora perfeitamente os principais pontos da análise de Malm sobre o capital fóssil. O que resta desta controvérsia amplamente semântica parece implicar principalmente o método de datação da transição. Começou o Antropoceno quando a produção humana de fato passou a ter impactos significativos sobre o meio ambiente? Esta abordagem, adotada por Angus e por outros, dataria o Antropoceno a partir do final dos anos 1940, quando o complexo fóssil se consolidou e começou sua longa expansão do pós-guerra.[16] Uma convenção alternativa, consistente com o espírito da análise de Malm, dataria a transição num período bem anterior, na Revolução Industrial do século XIX, quando as bases da economia fóssil foram lançadas com a adoção do carvão nos mais importantes setores manufatureiros e em todos os setores do transporte. Dado o caráter historicamente cumulativo das emissões de carbono da economia fóssil e outros impactos ambientais, pode-se aceitar como viáveis ambas as abordagens.

O que importa não é o método formal de datação das transições, mas antes o enfoque consistente no caráter capitalista de todo o processo histórico. Uma distinção chave que permite a Malm manter este foco é aquela entre economia fóssil e economia protofóssil. O uso o carvão para aquecer edificações e para o aquecimento da produção manufatureira é bem anterior à Revolução industrial. É preciso distinguir tal uso pré-industrial da economia fóssil moderna na qual “o crescimento autossustentado” está “baseado no crescimento do consumo de combustíveis fósseis... gerando um crescimento sustentável das emissões de dióxido de carbono."[17] Por conseguinte, Malm descreve a economia protofóssil como “aquela na qual (1) uma indústria do carvão se desenvolveu, com minas no subsolo e uma comércio regular; (2) o carvão se tornou a maior fonte de aquecimento na esfera doméstica; (3) o carvão penetra na indústria como fornecedor de aquecimento; (4)o consumo doméstico é predominante ; e (5) impressionantes taxas de crescimento no consumo de carvão são atingidas durante as fases de substituição, sem nenhum crescimento econômico autossustentável sendo baseado em combustíveis fósseis.”[18]

Essa distinção entre economia fóssil e economia protofóssil permite facilmente a Malm desconsiderar argumentos malthusianos segundo os quais a transição para a economia fóssil deveu-se ao crescimento populacional e consequente escassez de madeira e outros combustíveis. Os malthusianos, obviamente, confundem o aumento transitório da demanda de carvão sob a economia protofóssil com a muito mais explosiva economia fóssil, um processo autossustentado do uso de carvão na indústria. Como demonstra Malm, a principal fonte da crescente demanda por carvão depois de 1830 foram os motores industrial a vapor, e não as funções associadas à economia protofóssil. Para dizer simplesmente, a crucial significação da Revolução Industrial foi que ela “dissociou a queima de carvão do crescimento populacional.” A “espiral” da aceleração da combustão fóssil foi “iniciada no momento em que os grilhões da fertilidade foram rompidos – ou seja, quando a população deixou de determinar o padrão do consumo de carvão.” [19] Acrescente-se a isso que a Inglaterra sofreu de uma escassez de madeira durante os séculos XVI, XVII e durante o começo do século XVIII, que não se deveu principalmente ao crescimento da população como tal, mas antes à crescente demanda de carvão vegetal para o derretimento do ferro. A substituição do carvão por carvão vegetal (através de novo processo de cozimento para derretimento do ferro) implicou assim um efeito transicional dentro da economia protofóssil, que teve pouca ou nenhuma significação para a futura economia fóssil e para a mudança climática.[20]

A distinção entre fóssil e protofóssil é útil à análise de Malm para enfocar a transição histórica entre estas duas modalidades econômicas. A questão chave se torna então: como o crescimento econômico autossustentável se tornou a principal força motriz da queima de carvão durante a Revolução Industrial? Em um nível, a questão responde a si mesma. Só há um único sistema econômico a gerar crescimento autossustentável e combustão fóssil ao ponto de causar a mudança climática: o capitalismo. Isso porque o capitalismo é o único sistema guiado pela competição para obtenção de crescentes valores monetários pela extração de mais valia dos trabalhadores na produção através de todos os meios necessários, inclusive através de combustíveis fósseis. Naturalmente, o diabo reside nos detalhes. Exatamente como e porque a queima de fósseis foi adotada e depois generalizada no processo de industrialização capitalista? Aqui, Malm nos dá a segunda parte de sua explicação. A primeira parte baseia-se na análise madura de Marx sobre os sistemas fabris e o maquinário industrial da indústria têxtil britânica. No volume 1 do Capital, Marx ressaltou que um prerrequisito para que os capitalistas mecanizassem e aplicassem totalmente fontes de poder externas à produção era a remoção do controle sobre o processo de trabalho dos trabalhadores no chão de fábrica. Isso pressupunha que os trabalhadores estivessem alienados do controle sobre as ferramentas e o maquinário empregados na produção – e tão alienação é uma característica determinante das relações de classe capitalistas. Mas esta alienação aconteceu em duas etapas, as quais Marx chamou submissão real e submissão formal do trabalho sob o capital. a submissão formal, o capitalista estabelece o controle sobre os meios de produção, mas não ainda os transforma de maneira a garantir a reprodução da relação capitalista. Aqui, os trabalhadores mantêm algum controle sobre os processos laborais, porque suas habilidades, desde então sua força motriz – seu próprio poder animado – ainda limita o ritmo da produção. Na submissão real, por contraste, os capitalistas mecanizam a produção para liberá-la dos impedimentos residuais colocados pelo trabalho habilidoso, deixando que o processo seja cada vez mais guiado por poderosas fontes externas. Em suma, a submissão real, que Marx vê nos sistemas fabris mecanizados e integrados, completa a tríplice alienação dos trabalhadores dos meios de produção, do processo laboral e das fontes de energia usadas na produção.[21]

A primeira parte da análise de Malm detalha a transição da submissão formal à submissão real na indústria têxtil britânica. Ele descreve como a longa explosão do setor algodoeiro terminou com severas crises de superprodução, começando em 1825 e terminando em 1848. Quedas de preços e lucros e a ameaça de bancarrota fizeram com que capitalistas individuais buscassem a redução dos salários e a aceleração das cadências, levando a ondas de sindicalização, greves e intensificação da luta de classes no ponto da produção. Em resposta, os capitalistas buscaram soluções mecânicas para seus “problemas laborais”: a máquina de fiar à energia hidráulica, o tear de algodão e as máquinas de escovar (com teares mecânicos) no setor lanífero. Na medida em que “a mecanização se espalhou por outros setores além do algodoeiro, a demanda pelo trabalho dos fabricantes de máquinas naturalmente cresceu,” após o que os sindicatos destes mestres artesãos “fizeram com que subissem salários e preços.” As pressões por submissão real se espalharam ao setor de maquinário, onde novas “máquinas-ferramenta” foram criadas e instaladas – “Cujo princípio básico era um instrumento autônomo para cortar ou moldar um objeto, com o poder de um motor primário não-humano e a precisão dentro do próprio instrumento.”[22] Enquanto isso, a mecanização da fiação, tecelagem e de outras operações facilitou a aplicação conjunta de um único "motor central" em fábricas combinadas que "integraram toda a cadeia produtiva em um complexo expandido".[23]

Uma questão-chave colocada aos capitalistas era o que seria o "principal motor" da produção mecanizada. Os principais competidores para este papel eram água, rodas e motores a vapor movidos a carvão. Até aquele momento, a energia hidráulica havia sido predominante na indústria britânica. Por que o carvão assumiu seu lugar? A resposta está na segunda parte da análise de Malm. Contrariamente à narrativa Ricardo-malthusiana, a vitória do carvão sobre o “fluxo hidráulico” tem pouco a ver com qualquer absoluta ou relativa escassez da energia hidráulica. Durante a transição para a energia a vapor “não havia escassez de água no horizonte, nem mesmo nos principais centros de produção algodoeira.” De fato, o que havia era “uma abundância generalizada de bacias hidrográficas inexploradas” em todo o crucial período de transição. Além do mais, não havia “sinal de nenhuma queda substancial nos preços do carvão nas décadas de transição e nenhuma revolução tecnológica na atividade mineira do carvão.” O custo da unidade de energia hidráulica era evidentemente menos que aquele da energia a carvão até os anos 1870. Em suma, “A transição para o carvão na indústria algodoeira britânica ocorreu apesar de uma persistente vantagem dos preços da energia hidráulica.[24]

Como mostra Malm, a principal razão da vitória do carvão é que ele era mais compatível com a exploração do trabalho assalariado. A portabilidade do carvão permitiu que os capitalistas deslocassem a produção para cidades maiores, com abundantes fontes de força de trabalho e suprimentos criadas por prévias migrações das áreas rurais despovoadas pela capitalização da agricultura. O movimento em larga escala da indústria para as cidades resultou em aglomerações econômicas (proximidade dos mercados, fornecedores, serviços de negócios, etc.) que vieram a beneficiar os capitalistas. Em suma, “concentrações de população treinadas para hábitos diligentes – como mercados, oficinas de trabalho e outras características atrativas da cidade – fizeram com que os capitalistas se voltassem para a energia a vapor.”[25] Comparado à roda hidráulica, o uso dos motores a vapor facilitaram uma exploração dos trabalhadores mais contínua e intensa, permitindo uma maior continuidade e regularidade espacial no funcionamento das máquinas. Aparentemente, a tendência à explosão dos motores a vapor (especialmente quando funcionam acima dos níveis seguros de pressão para acelerar a maquinaria e o processo de trabalho) foi mais do que compensado pela mais-valia adicional obtida pelos capitalistas ao evitar as irregularidades sazonais e locacionais da força hídrica. Esta comparação torna-se ainda mais importante com a instalação das próprias máquinas de produção, na medida em que a competição determinou que tais investimentos em capital fixo podiam ser rápida e regularmente amortizados. Assim, o uso do carvão criou um incentivo adicional para que os capitalistas aumentassem e intensificassem a jornada de trabalho.[26] De fato, Malm mostra que a vitória do carvão sobre a força hidráulica foi finalmente selada pelas crescentes lutas sobre as jornadas laborais, que levaram à Lei das Fábricas de 1833 e à Lei das 10 horas de 1847. Tais restrições legais ao tempo de trabalho tornaram mais complicado para os capitalistas que ainda usavam a energia hidráulica competir com os que usavam o carvão, compensando tempos de inatividade sazonal e outros com a extensão da jornada de trabalho quando do escoamento das águas. “Na medida em que a disponibilidade da força de trabalho foi temporalmente reduzida, as manufatureiras algodoeiras passaram para uma força motriz capaz de maximizar o trabalho no tempo restante.”[27]

O motor a vapor por queima de carvão ajudou assim o capital britânico a resolver a crise industrial e a luta de classes da maneira mais proveitosa para ele. A quebra da resistência dos trabalhadores ao vapor (veja a próxima secção) inaugurou a época da economia fóssil. No entanto, houve uma dimensão adicional da transição, segundo Malm. Comparada ao carvão e aos motores a vapor, as instalações hídricas tinham o caráter de bem público, o que contradizia a regulação da produção pela competição entre as empresas capitalistas individuais, ou seja, o sistema de mercado e o direito de propriedade privada. Malm descreve como, na Grã-Bretanha, redes de reservatórios autônomos foram concebidas para equilibrar a quantidade de energia disponível tanto horária como sazonalmente. Mas a implementação destes projetos apresentou problemas de precificação, coordenação e cooperação entre capitalistas individuais. Diferenças residuais na quantidade e regularidade de energia disponíveis em diferentes locais na grade significavam que "as taxas a serem pagas poderiam muito bem desviar do benefício exato colhido pela empresa". A "incongruência básica entre as exigências de fábricas individuais e os suprimentos de uma estrutura de grande escala" gerou "grandes colisões de interesses" entre os capitalistas individuais. Os planos tenderam a se tornar disfuncionais frente a falta de vontade dos capitalistas concorrentes para se engajarem em um comportamento cooperativo para o bem do coletivo, mesmo que esse coletivo fosse capitalista. As máquinas a vapor a carvão, que poderiam ser financiadas com recursos privados e monopolizadas (e localizadas com maior discrição) não sofriam desses "problemas de coordenação e distribuição de recursos". Comparado ao poder da água, o carvão em si era muito mais "fragmentado, passível de concentração e acumulação, [e] divisível".[28]

Mais uma vez, as deficiências do "fluxo de energia" dos cursos de água não tinham nada a ver com escassez, ineficiência ou custos relativos. O verdadeiro defeito da água era que ele "não parava diante das cercas da propriedade privada, ...não respeitava nenhum ato ou título, não se curvava a nenhuma transação monetária"; mas "continuava em seu curso, sem ser detido pelas concepções de propriedade privada, porque estava sempre em movimento".[29] Com os projetos de energia de rios, "o consumo de energia tornou-se uma questão de controle público e de tomada de decisões". Eles "representavam uma forma de movimentação coletiva, as res communes de água impondo sua lógica aos fabricantes cautelosos", que queriam ser "totalmente seu próprio patrão ". Em suma," o planejamento, a coordenação e o financiamento coletivo necessários para a expansão do poder hídrico "ameaçaram politizar o uso de energia de forma a limitar o monopólio da classe capitalista sobre as decisões de produção.[30] Nada disso significa que os capitalistas nunca cederão a infraestrutura necessária ao governo ou às associações cooperativas, especialmente quando não há alternativa lucrativa mais consistente com o controle capitalista. Mas o carvão era apenas uma alternativa para a indústria britânica - uma que deu aos capitalistas uma arma poderosa na luta de classes. É assim que os combustíveis fósseis tornaram-se "requisitos materiais para a criação de valor" sob o capitalismo, inaugurando a era do capital fóssil ou "valor autoexpansivo, passando pela metamorfose dos combustíveis fósseis em CO2".[31] Historicamente falando, denegar esta conexão é uma forma de negacionismo climático tanto quanto o é a denegação da própria mudança climática antropogênica.

Transição e contradições energéticas

Desde suas origens na Revolução Industrial do século XIX, o capital fóssil tornou-se um complexo monstruoso, gerando múltiplas crises biosféricas, inclusive a mudança climática. Para evitar um aquecimento catastrófico da atmosfera, será necessário “desfossilizar” a economia global nas próximas décadas. O crescimento do uso de combustíveis fósseis deve parar agora, seguido por reduções absolutas das emissões de carbono para níveis quase nulos. Nada menos que isso é aceitável se queremos um planeta habitável para a maioria da humanidade e outras espécies. Tal transição mostrou-se, fisicamente falando, bastante exequível. A tecnologia necessária para uma substituição total de combustíveis fósseis com energia renovável em todos os sistemas produtivos, de transporte e residenciais nos países desenvolvidos já existe e poderia ser instalada dentro de um par de décadas.[32] Economicamente, os investimentos em conversão de energia parecem fazer sentido, especialmente com a economia global sofrendo de uma estagnação mais profunda, uma crise de emprego e uma superabundância de atividade financeira especulativa.[33]

Infelizmente, sob o capitalismo maduro, as coisas não são feitas de acordo com as necessidades humanas, a sustentabilidade ambiental ou o senso comum. Tanto economicamente quanto politicamente, este sistema é dominado pelo monopólio do capital financeiro (MCF) e seus funcionários do Estado. Dois fatos básicos devem ser observados aqui. Primeiro, a ideologia e o programa político do MCF são ambos constituídos pelo neoliberalismo (desregulamentação, privatização e políticas antissindicais - em suma, o fundamentalismo de mercado - combinado com o militarismo e o imperialismo). Em segundo lugar, o MCF está inextricavelmente ligado ao complexo de capital fóssil. Segue-se a partir desses dois fatos que, neste momento da história, “desfossilizar” a economia significa derrubar o poder do MCF e avançar rumo a uma economia controlada pela comunidade operária, o socialismo.[34]

Como Klein, Malm e Angus observam, a rápida conversão de energia que o planeta necessita implica investimentos governamentais maciços e a reatribuição planejada de recursos local, nacional e globalmente. Fora das circunstâncias especiais da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, um crescimento tão grande e rápido do investimento público e do planejamento tem sido um anátema para o capitalismo. É certamente em contradição direta com o neoliberalismo, especialmente se o investimento público é financiado, como parece necessário, taxando os lucros do capital fóssil e dos bancos do MCF.[35] Significará também uma desvalorização severa do estoque gigantesco de capital fixo que reside em instalações de combustíveis fósseis em todo o mundo. Dada a escassez sistêmica do capitalismo maduro de oportunidades de investimento produtivo e lucrativo, esse capital fóssil é um ativo chave do MCF. O mesmo pode ser dito dos muitos novos projetos de combustíveis fósseis que estão sendo construídos ou planejados em todo o mundo.[36] Como Klein amplamente documenta, o capital fóssil e seus financiadores do MCF não demonstraram nenhum sinal de concordar, de bom grado, em "perder trilhões de dólares de ganhos futuros deixando a vasta maioria de reservas comprovadas de petróleo no solo".[37] Em suma, se o capital fóssil e os grandes bancos se tornarem instrumentos em vez de barreiras à conversão de energia renovável, eles provavelmente terão de ser nacionalizados e sujeitos ao controle público. Essa estratégia combinaria muito bem com a necessidade de municipalizar e descentralizar as instalações de energia (ver abaixo), mas isso não está exatamente em voga entre os gerentes do estado neoliberal e seus patronos do MFC. Isso provavelmente exigiria o que Bernie Sanders chamou de revolução política.

Malm e Klein detalham a falta de interesse do MCF em desenvolver energia solar e eólica, mesmo como uma e substituição final para os combustíveis fósseis. O crescimento contínuo da procura global de energia em geral e, em especial, dos combustíveis fósseis, garante que estes continuem rentáveis ​​mesmo com a expansão das energias renováveis. É por isso que a transição energética requer uma supressão ativa de combustíveis fósseis, não apenas adicionando renováveis ​​como "outra fatia para uma torta de energia sempre crescente".[38] Uma vez que as instalações renováveis ​​são construídas, elas oferecem menos oportunidades para a objetivação contínua do trabalho excedente dos trabalhadores em valores de uso de materiais do que as instalações fósseis com seus fluxos contínuos de carvão, petróleo e gás natural. O sol e o vento não são facilmente monopolizáveis e, portanto, não são portadores eficientes de valor. As estruturas solares e eólicas parecem mais propícias ao controle descentralizado por comunidades individuais e famílias que priorizam o valor de uso em detrimento do valor de troca. Na verdade, mega projetos em solar e vento são fisicamente possíveis e foram realizados. Mas sua rentabilidade, em comparação com os investimentos fósseis, é muito menor, mais incerta e exige horizontes de decisão mais longos - todos repugnantes para o MCF, com a sua inextinguível sede de lucros máximos em curto prazo. Cada vez mais, os potenciais parceiros corporativos em megaprojetos renováveis ​​estão exigindo um financiamento governamental maciço que poucos governos neoliberais são capazes ou dispostos a pagar. Como resultado, as empresas de utilidade pública, as cooperativas e os particulares parecem ter assumido a liderança nas instalações de fontes renováveis, mesmo quando o MCF e seus funcionários neoliberais pressionam por uma maior privatização dos serviços públicos. Entretanto, os avanços nas tecnologias descentralizadas de energias renováveis ​​e a consequente redução dos preços das energias renováveis ​​fizeram com que o MCF, e as empresas de capital fóssil e privadas, em particular, se interessassem ainda menos pelo desenvolvimento destas energias ​​devido às reduções associadas às margens de lucro.[39]

Outro fator que faz da “desfossilização” uma proposição relativamente não lucrativa é a capacidade do MCF de lucrar com o próprio aquecimento global. Como Klein demonstra, o capital corporativo não só é capaz de obter contratos lucrativos para a reconstrução da infraestrutura à medida que os oceanos se elevam e as tempestades tropicais se multiplicam e pioram, mas também se posiciona para impor a desregulamentação neoliberal, destruição dos sindicatos, as privatizações e medidas policiais de segurança na sequência de tais choques climáticos, aumentando ainda mais as oportunidades de lucro.[40] Temperaturas crescentes significam mercados em expansão para condicionadores de ar e outros bens e serviços de melhora. As catástrofes climáticas ajudam a alimentar uma tendência crescente para o "sobrevivencialismo" de alta qualidade, ou seja, "preparar-se para um fim de civilização... entre executivos de tecnologia, gestores de fundos de cobertura e outros em sua coorte econômica" em lugares como Silicon Valley e New York City. Essas estratégias de abastecimento - até novas cidades flutuantes, colônias no espaço exterior ou deslocalização para outros planetas - oferecem grandes lucros potenciais a desenvolvedores aventureiros.[41] Além disso, existe um esquema de gerenciamento de clima corporativo definitivo, a geoengenharia, que, bem como os gastos de defesa, poderia ser uma bênção para os lucros (se os governos puderem ser trazidos a bordo), mantendo todas as operações de planejamento necessárias sob controle centralizado burocrático-corporativo para minimizar interferência com outras atividades do MCF. Que a geoengenharia provavelmente mataria centenas de milhões, por exemplo, ao interromper as Monções Asiáticas, é de pouca preocupação para suas fileiras crescentes de superricos patrocinadores do MCF, incluindo Bill Gates, à procura de alternativas à desfossilização.[42]

Começa-se a ver a complementaridade básica do MCF, do neoliberalismo e das duas formas de negação climática. Pode-se também entender por que os contratados de defesa do Pentágono e do MCF estão concoctando planos para a supressão militar mundial e o controle das vítimas das mudanças climáticas. A visão de elite, como Angus acha apropriadamente, é um "apartheid ambiental" (isolando áreas afluentes da agitação popular) através de "militarismo ambiental" e, quando necessário, absoluta "exclusão e extermínio".[43] Voltamos agora para a fonte humana desses medos da classe dominante.

A emergência do proletariado ambiental

Como uma classe em si mesma, isto é, na relação social objetiva com suas condições de existência, o proletariado sempre foi ambiental. Esta classe se origina na separação forçada dos produtores diretos da terra e de outras condições de produção, e na sua conversão em trabalhadores assalariados que devem se submeter à exploração pelo capital para ter acesso aos meios materiais necessários para sua sobrevivência e desenvolvimento como seres humanos. Desde o início, o proletariado é alienado da natureza e do próprio trabalho, já que os intercâmbios produtivos entre pessoas e a natureza se convertem em meios de lucro competitivo. A luta do proletariado por uma vida decente sempre foi uma luta em e contra condições insalubres tanto dentro como fora do local de trabalho, em casa e no trabalho - uma luta por uma conexão mais saudável com a natureza como condição do desenvolvimento humano.[44] A crise climática abre novas luzes sobre as diferentes fases desta luta e suas lições para hoje.

A destruição de máquinas pelos trabalhadores como uma tática de luta tem sido frequentemente tratada com condescendência por historiadores econômicos. À luz do desenvolvimento do capital fóssil e do aquecimento global, no entanto, pode ser vista como uma batalha inicial na luta para “desfossilizar” a produção e criar um sistema de energia mais sustentável. De acordo com Malm, a sabotagem de máquinas a vapor era uma tática fundamental na explosão da agitação dos trabalhadores na indústria britânica que levou à greve geral de 1842 (um episódio chave no movimento cartista). Os esforços dos trabalhadores para "puxar o plugue" do capital fóssil foram muitas vezes coordenados com paradas de trabalho por mineiros de carvão que interrompiam o fluxo de combustível para as fábricas. Como Malm descreve, "a greve geral de 1842 inventou uma fórmula para uma nova era: a classe trabalhadora poderia impor sua vontade ao capital fechando as torneiras da economia fóssil... motores ociosos e minas inativas eram selos do poder proletário".[45] Essa "negociação coletiva por tumultos contra a economia fóssil" foi impulsionada em grande parte pelo ódio que os trabalhadores sentiam pelas condições insalubres que a mineração e a queima de carvão criaram em seus locais de trabalho e em seus bairros. Evidentemente, havia "bastante demonologia em vapor nas mentes dos trabalhadores britânicos na década de 1840", pois "os trabalhadores vieram associar o aumento do vapor ao aumento das temperaturas" e à "atmosfera empobrecida" nos moinhos. Em casa, os trabalhadores "foram prejudicados por... fumaça, chuva ácida, névoa sulfurosa [que] literalmente mataram flora e fauna, a vista de árvores e pássaros e até mesmo o próprio sol." As condições nas minas de carvão e arredores eram muitas vezes piores. Em suma, os trabalhadores industriais britânicos não estavam apenas lutando por salários mais altos. Esta foi também uma revolta contra a "deterioração palpável do ambiente imediato" causada pela "concentração de trabalhadores assalariados em certos lugares onde o carvão foi queimado ou extraído". Nesta rebelião, havia uma percepção clara, porém um tanto menos tangível... da alienação do meio ambiente, na medida em que "a natureza tornou-se decadente e a qualidade de vida dos trabalhadores recuou". Neste sentido, era um movimento "protoambientalista".[46]

O neoliberalismo e as crises biosféricas, incluindo as mudanças climáticas, estão agora criando uma convergência similar de lutas econômicas e ambientais em todo o mundo. Como John Bellamy Foster observa, com "forças objetivas... eliminando progressivamente as distinções anteriores entre a exploração do local de trabalho e a degradação ambiental", surgiram "alianças mais amplas de grupos oprimidos em torno de condições materiais degradadas".

Este "alargamento das lutas da classe trabalhadora nas lutas ambientais" facilita "a forja de diversas alianças comunitárias... de movimentos de gênero, raça, classe, indígenas e ambientais". Estamos vendo, em suma, o surgimento de um proletariado ambiental globalizado como uma classe consciente para si, ou seja, como uma formação trabalhador-comunidade com "uma nova sociabilidade ecológica, abraçando uma visão da produção humana em seu sentido mais fundamental como o metabolismo da natureza e da sociedade".[47]

Aqui, Klein observa que as múltiplas crises socioeconômicas e ambientais geradas pelo capitalismo neoliberal alimentado por fósseis aprimoram cada vez mais certas questões-chave sobre os valores que irão conformar e moldar as instituições econômicas e política sem todo o mundo.[48] A natureza deve ser vista principalmente como uma fonte de valores de uso que podem ser extraídos de forma lucrativa para produção e consumo ou, em vez disso, como parceiro coevolutivo necessário em um processo de desenvolvimento humano sustentável - como valor de vida e não como um valor puramente econômico? Da mesma forma, a reestruturação e a renovação dos suprimentos de energia devem ser orientadas para a manutenção de negócios como de costume ou, em vez disso, tratadas como um projeto que melhora o controle democrático do trabalhador-comunidade sobre a produção e todo o sistema de abastecimento de materiais?[49] É correto tratar a ciência e a educação como meios para que as empresas permaneçam produtivas e "se deem bem", ou deveriam ciência e educação ser convertidas em ferramentas de convívio para a criação de seres humanos e instituições que abraçam valores básicos da vida, como a empatia, sustentabilidade, educação e autogestão nos níveis individual, do local de trabalho e comunitário?[50] Pois até mesmo os sindicatos às vezes ainda veem um conflito entre empregos e sustentabilidade ambiental, como no endosso da AFL-CIO ao oleoduto Dakota Access (apesar da oposição de vários sindicatos individuais), quando ficou claro há algum tempo que muito mais empregos podem ser criados com investimentos em energia renovável e conservação de energia do que com novas instalações de capital fóssil?[51] Qual é o valor de um emprego em fratura hidráulica ou oleoduto se este acelera a destruição do planeta para nossos filhos, netos e outras espécies?

Atualmente, os líderes da luta contra o capital fóssil são povos indígenas que se opõem a novas instalações de mineração e gasodutos invadindo suas terras. Como Klein e Angus mostram, no entanto, essas lutas defensivas têm um grande potencial para desencadear uma ampla coalescência de interesses antineoliberais e contra o MCF em um movimento socialista baseado na maioria.[52] Os valores ecológicos e comunitários trazidos à mesa por indígenas protetores da terra e da água (e seus aliados verdes) estão começando a fazer um contato produtivo com novas variedades de feminismo e com os valores da democracia econômica e do poder municipal, cooperativo e sindical defendidos por proletários mais "tradicionais". As sinergias políticas transversais estão sendo reforçadas pelos esforços das comunidades indígenas para defender e revigorar seus sistemas de propriedade comunal usando modernas tecnologias descentralizadas de energia e agricultura.[53] (O tão maligno modelo de superestrutura-base ainda funciona aqui). Enquanto isso, nos centros urbanos, os defensores do poder municipal e do transporte público, as cooperativas, os mercados agrícolas de circuito curto, os jardineiros urbanos e outros grupos de trabalhadores e comunidades estão construindo novos circuitos sustentáveis de abastecimento - muitas vezes com base em valores de vida indígenas. Mesmo as batalhas contra a privatização escolar e as reduções orçamentárias, e por alternativas de saúde comunitária podem ser vistas como parte desta coalizão pró-ecológica em pleno desenvolvimento. A solidariedade entre as pessoas e destas com a terra (com todos os seus habitantes) e a busca de modos sustentáveis ​​de bem- viver (colocando valor de uso antes do valor de troca) parecem ser as colas ideológicas que mantêm a coalizão ecoproletária emergente.
Este novo crescimento do movimento popular e sua reconstrução da base produtiva do planeta já começaram a se aproximar de "pontos de inflexão" ecorrevolucionários em algumas partes do mundo - e já não era sem tempo! A deterioração das condições ambientais e a despossessão dos trabalhadores e das comunidades pelo capitalismo neoliberal estão provocando soluções neofascistas (Trump, Le Pen e outros). O lema "socialismo ou a barbárie" tem hoje ao mesmo tempo um significado tradicional e um novo significado na era da crise planetária.

Notas:

1. Lisa Schlein, “WMO: Global Warming Happening Faster than Predicted,” Voice of America, July 21, 2016; Jason Samenow, “Two Middle East Locations Hit 129 Degrees,”Washington Post, July 22, 2016; David Edwards, “’Unprecedented’: Scientists Declare Global Climate Emergency After Jet Stream Crosses Equator,” Alternet, June 30, 2016.
2. Jessica Shankleman, “Climate Headed for Catastrophic Change Despite Paris Accord,” Bloomberg News, November 3, 2016; see also Megan Darby, “Scientists: Window for Avoiding 1.5C Global Warming ‘Closed,’” Climate Home, June 29, 2016, http://climatechangenews.org; Nika Knight, “Despite Paris Climate Pledge, Planet on Track to Surpass 3 Degree Temperature Rise,” Common Dreams, November 3, 2016, http://commondreams.org.
3. See various reports on the Standing Rock struggle from the following organizations and websites: Stand with Standing Rock, http://standwithstandingrock.net; Digital Smoke Signals, http://digitalsmokesignals.com; Indigenous Rising,http://indigenousrising.org; and Last Real Indians, http://lastrealindians.com. Kevin Gilbert’s on-site reports and eyewitness footage, posted on Facebook, were very important in getting the word out on the violence perpetrated by security forces against the water protectors.
4. John Bellamy Foster, Brett Clark, and Richard York,The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), 47, 398, 440.
5. Ian Angus,Facing the Anthropocene (New York: Monthly Review Press, 2016), 71–77.
6. Henry Fountain, “Scientists Map Vast Peat Swamps, a Storehouse of Carbon, in Central Africa,”New York Times, January 12, 2017.
7. Angus,Facing the Anthropocene, 73.
8. Angus,Facing the Anthropocene, 23.
9. Angus,Facing the Anthropocene, 173.
10. For Angus’s endorsement of Andreas Malm, see Angus,Facing the Anthropocene, 128–29, 135, 166, 171. On the metabolic rift approach see, 113–25; John Bellamy Foster,Marx’s Ecology (New York: Monthly Review Press, 2000). An excellent application of metabolic rift theory to the oceanic fishing and aquaculture industries is Stefano B. Longo, Rebecca Clausen, and Brett Clark,The Tragedy of the Commodity (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 2015). On the general ecological contradictions of capitalism and its value forms (money, prices, rents), see Paul Burkett,Marx and Nature (Chicago: Haymarket, 2014).
11. Angus,Facing the Anthropocene, 130-34, 153-60. On automobilization and suburbanization, see two articles by Paul M. Sweezy, “Cars and Cities,”Monthly Review 24, no. 11 (April 1973): 1–18, and “Capitalism and the Environment,”Monthly Review 41, no. 2 (June 1989): 1–10.
12. Angus,Facing the Anthropocene, 130–31, 134–35, 137–49, 160–63.
13. Angus,Facing the Anthropocene, 42–46. Angus also explains how Europe’s adoption of the fossil-economy model (albeit in a less extreme form than the United States) was encouraged through the tying of Marshall Plan aid to purchases of oil and other goods from U.S. companies (see 145-8). It should be added that Europe’s incorporation into this accumulation regime also involved covert and overt interventions by the United States in European elections and the use of Mafia enforcers to suppress communists in France and other countries, not to mention the ongoing direct U.S. military presence in Europe. For the emergence of China as the leading source of carbon emissions, see Andreas Malm,Fossil Capital (London: Verso, 2016), chapter 14.
14. Angus,Facing the Anthropocene, 208–11; John Bellamy Foster,The Vulnerable Planet (New York: Monthly Review Press, 1999), 96–101. This is not to say that the adoption of anti-ecological forms of production in the Soviet Union, especially during and after Stalin assumed leadership, was not contested by environmental thinkers and activists in the USSR itself. On this point, see Natalia Mirovitskaya and Marvin S. Soroos, “Socialism and the Tragedy of the Commons,”Journal of Environment and Development 4, no. 1 (1995): 77–110; John Bellamy Foster and Paul Burkett,Marx and the Earth (Chicago: Haymarket, 2017), 225–28.
15. Malm,Fossil Capital, 288 (italics in original).
16. See John Bellamy Foster’s foreword to Angus,Facing the Anthropocene, which argues that “the Anthropocene is probably best seen as arising in the late 1940s and early 1950s,” after which there was “a major spike, marking a Great Acceleration in human impacts on the environment” (9).
17. Malm,Fossil Capital, 11.
18. Malm,Fossil Capital, 52; emphasis added.
19. Malm,Fossil Capital, 256. “By 1870, three times more coal was burnt in general manufacturing, iron, and steel than in the hearths and homes of Britain, the fires decoupled from population growth and linked to self-sustaining economic growth” (Malm,Fossil Capital, 250).
20. For details see Foster and Burkett,Marx and the Earth, 19–21.
21. Karl Marx,Capital, volume 1 (New York: Vintage, 1976), 496–97, 645, 1019–25. For the classic update of Marx’s analysis of real subsumption, see Harry Braverman,Labor and Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1974). On the natural science background of Marx’s analysis, and the implications for ecological economics, see Foster and Burkett,Marx and the Earth, 151–56.
22. Malm,Fossil Capital, 197. For the mechanization of spinning, weaving, and wool combing, see 64–75, 196–97.
23. Malm,Fossil Capital, 75.
24. Malm,Fossil Capital, 83, 91.
25. Malm,Fossil Capital, 162.
26. Malm,Fossil Capital, 167-8, 246–47.
27. Malm,Fossil Capital, 175-7, 180–92 (quotation from 192).
28. Malm,Fossil Capital, 110, 118–19. On patterns of accumulation and monopolization in the British coal industry, see Paul M. Sweezy,Monopoly and Competition in the English Coal Trade (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1938); a useful discussion of Sweezy’s analysis is Michael A. Lebowitz, “Paul M. Sweezy,”Monthly Review 56, no. 5 (October 2004): 44–45.
29. Malm,Fossil Capital, 117.
30. Malm,Fossil Capital, 105, 118.
31. Malm,Fossil Capital, 289–90.
32. See the studies cited by Angus,Facing the Anthropocene, 172; Malm,Fossil Capital, 368; Naomi Klein,This Changes Everything (New York: Simon and Schuster, 2014), 101–02. The quicker the energy transition in the core capitalist countries, the more time that could be available for a full conversion to renewables in lower income nations.
33. Robert Pollin,Greening the Global Economy (Cambridge, MA: MIT Press, 2015).
34. On monopoly-finance capital and neoliberalism, see John Bellamy Foster and Fred Magdoff,The Great Financial Crisis (New York: Monthly Review Press, 2009); John Bellamy Foster and Robert W. McChesney,The Endless Crisis (New York: Monthly Review Press, 2012).
35. Klein,This Changes Everything, 401, 452; see also Malm,Fossil Capital, 385, on “wartime mobilization as a model for rapid abatement of climate change.”
36. For discussion of this worsening fossil capital overhang problem, see Angus,Facing the Anthropocene, 170–73; Malm,Fossil Capital, 358–61. In China the issue is a growing excess capacity of state-capitalist coal-fired power plants. Greenpeace has reported that “China is on track to add an average of one new coal-fired plant a week until 2020.” Edward Wong, “China Pledged to Curb Coal Plants. Greenpeace Says It’s Still Adding Them,”New York Times, July 14, 2016. Despite a subsequent central government announcement that more than a hundred of the new projects would be cancelled, the “glut of coal power plants” was still “acting as a dead weight on the country’s ongoing energy transition.” See Michael Forsythe, “China Cancels 103 Coal Plants, Mindful of Smog and Wasted Capacity,”New York Times, January 19, 2017.
37. Klein,This Changes Everything, 452.
38. Malm,Fossil Capital, 382. Here Malm draws on the analysis of Richard York, “Do Alternative Energy Sources Displace Fossil Fuels?”Nature Climate Change 2 (2012): 441–43.
39. Klein,This Changes Everything, 97, 130–33; Malm,Fossil Capital, 367–82.
40. This applies the argument made in Naomi Klein,The Shock Doctrine (New York: Penguin, 2008).
41. Klein,This Changes Everything, 46–52; Angus,Facing the Anthropocene, 184–88. Mike Ives, “As Climate Change Accelerates, Floating Cities Look Like Less of a Pipe Dream,”New York Times, January 27, 2017; Evan Osnos, “Doomsday Prep for the Super-Rich,”New Yorker, January 30, 2017. On the ability of capital to profit from environmental crises, and the need to distinguish accumulation crises from environmental crises in general, see Burkett,Marx and Nature, 107–32;Marxism and Ecological Economics (Chicago: Haymarket, 2009), 220–300.
42. Klein,This Changes Everything, 256–90; Malm,Fossil Capital, 386–88.
43. Angus,Facing the Anthropocene, 176–84.
44. Burkett,Marx and Nature, 57–68, 203–22; Frederick Engels,The Condition of the Working Class in England (Moscow: Progress Publishers, 1973); Marx,Capital, volume 1, part 8.
45. Malm,Fossil Capital, 234.
46. Malm,Fossil Capital, 236, 242, 244–48.
47. John Bellamy Foster, “The Epochal Crisis,”Monthly Review 65, no. 5 (October 2013): 10–11.
48. Klein,This Changes Everything;The Shock Doctrine.
49. Barry Commoner,The Poverty of Power (New York: Knopf, 1976).
50. See Ivan Illich,Deschooling Society (New York: Harper and Row, 1972);Tools for Conviviality (New York: Harper and Row, 1973).
51. Klein,This Changes Everything, 126–27; Pollin,Greening the Global Economy; andBack to Full Employment (Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2012), 102–09. On the conflicts within the union movement over climate change and fossil capital, see Paul Hampton,Workers and Trade Unions for Climate Solidarity (London: Routledge, 2011).
52. Klein,This Changes Everything, part 3; Angus,Facing the Anthropocene, 192–223.
53. On the wider ecological potential of indigenous efforts to defend and renew their communal production systems, see David Barkin,Wealth, Poverty, and Sustainable Development (Mexico City: Centro de Ecologia y Desarrollo, 1998); “Commentary on ‘Marxism and Ecology,’” Great Transition Initiative, October 2015, http://greattransition.org; David Barkin and Blanca Lemus, “Overcoming Rural Poverty from the Bottom Up,” in Julio Boltvinik and Susan Archer Mann, eds.,Peasant Poverty and Persistence in the Twenty-First Century (London: Zed, 2016), 345–65.

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