Salem H. Nasser
Folha de S.Paulo
Um filme, de péssimo gosto, e a fúria toma conta do mundo muçulmano.
De imediato, a resposta tem por alvo os EUA. Isso se explica por algo mais do que o simples fato de ter sido o estopim produzido, financiado ou exibido nesse país.
A essa responsabilidade os revoltosos somam a percepção negativa, e rancorosa, que têm do papel do país nos universos combinados do Oriente Médio, do mundo árabe e do muçulmano.
A frustração e a raiva decorrem do que é percebido como a atuação imperial de quem tem uma presença militar incômoda e ubíqua, manipula os destinos dos povos como se fossem marionetes, apoia regimes despóticos, sufoca as aspirações do povo palestino, e, finalmente, desrespeita o islã.
Diante desse quadro, o discurso do presidente Barack Obama no Cairo em 2009, em que propôs aos islâmicos um novo começo, é visto como palavras ao vento, há muito esquecidas.
Esse sentimento informa a revolta e a violência contra as instalações americanas, ainda que não tenha sido, ao que parece, a razão imediata da morte dos diplomatas na Líbia, que deve ser posta na conta de organizações que travam a sua guerra particular com os Estados Unidos.
E justamente, a ação mais desenvolta dessas organizações é uma das consequências de um processo de transição, potencialmente fecundo, mas em alguma medida caótico, por que vem passando o mundo árabe.
Quando o curso natural da transição é corrompido ou desviado por ações arbitrárias, como no caso da Líbia, e como foi antes disso no Iraque e no Afeganistão, o caos ganha uma feição específica: a multiplicação dos agentes detentores de meios de violência.
Talvez seja um lembrete importante no que concerne à Síria.
As mudanças nos países árabes também iluminam o fato de que o islã, enquanto identidade, cultura e religião, constitui uma componente inescapável do tecido social e da vontade popular.
No Ocidente, onde se estabeleceu historicamente, e persiste, uma perigosa combinação de ignorância e fobia em relação ao islã, estamos despreparados para aceitar o fato de que há aqueles que percebem de modo diferenciado o sagrado e para quem ele continua a ser justamente isso, sagrado.
SALEM H. NASSER é coordenador do Centro de Direito Global da Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas
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