4 de fevereiro de 2014

A liberdade dos poucos: o liberalismo desnudado por Domenico Losurdo

Ao reconstruir a história intelectual do liberalismo a partir de suas exclusões constitutivas — escravidão, colonialismo e racismo — Losurdo desmonta o mito universalista da tradição liberal e revela seu papel central na formação violenta da ordem moderna.

Editorial

Choldraboldra

Verso Books

Liberalism: A Counter-History
Domenico Losurdo
Londres: Verso, 2014. 384 p.

Em Liberalism: A Counter-History, Domenico Losurdo realiza uma das mais contundentes e sistemáticas desconstruções do liberalismo já produzidas no campo da história das ideias e da filosofia política. Longe de tratar o liberalismo como uma doutrina abstrata de liberdade, direitos e constitucionalismo, o autor o reconstrói como uma formação histórica concreta, profundamente entrelaçada, desde sua origem, com práticas de exclusão, dominação e violência estrutural. O resultado é uma obra que não apenas revisa criticamente o cânone liberal, mas redefine os termos do debate contemporâneo sobre democracia, direitos humanos e ordem internacional.

A tese central do livro é clara e provocadora: o liberalismo nunca foi uma ideologia universalista no sentido pleno que seus defensores proclamam. Ao contrário, desde o século XVIII, ele se constituiu como um regime de liberdade para poucos, sustentado pela negação sistemática da liberdade para muitos. Escravidão, colonialismo, genocídio indígena, racismo científico, segregação racial e imperialismo não foram desvios ocasionais da tradição liberal, mas componentes estruturais de sua consolidação histórica. Para Losurdo, a história do liberalismo é inseparável da história das “linhas de demarcação” que definiram quem podia ser portador de direitos e quem estava condenado à exclusão.

O livro desenvolve essa argumentação por meio de uma ampla reconstrução intelectual que atravessa os séculos XVIII, XIX e XX. Losurdo examina criticamente figuras centrais do liberalismo clássico — como John Locke, Edmund Burke, Benjamin Constant, Alexis de Tocqueville, Jeremy Bentham e Emmanuel Sieyès — demonstrando como muitos desses autores, frequentemente celebrados como defensores da liberdade, legitimaram ou toleraram práticas profundamente iliberais. Locke, por exemplo, aparece não apenas como teórico da propriedade e do consentimento, mas como investidor e justificadora intelectual da escravidão. Tocqueville surge como defensor da liberdade política na Europa ao mesmo tempo em que legitima a violência colonial na Argélia. Esses contrastes revelam o que Losurdo identifica como a dialética liberal da emancipação e da exclusão.

Um dos conceitos mais importantes mobilizados pelo autor é o de “comunidade dos livres”, que opera como núcleo normativo do liberalismo histórico. A liberdade liberal, segundo Losurdo, sempre foi concebida como um privilégio circunscrito a um grupo social específico — proprietários, homens brancos, europeus — enquanto vastas parcelas da humanidade eram colocadas fora do campo da igualdade moral e jurídica. A expansão histórica dos direitos, quando ocorreu, não foi fruto automático da lógica liberal, mas resultado de lutas políticas e sociais que frequentemente se deram contra o liberalismo dominante, e não a partir dele.

Outro mérito central da obra está em sua recusa de uma narrativa linear e progressista da modernidade ocidental. Losurdo desmonta a ideia de que o liberalismo teria passado por uma evolução contínua rumo à inclusão e à universalidade. Ao contrário, ele mostra que mesmo no século XX — após a abolição formal da escravidão e a consolidação dos regimes constitucionais — o liberalismo seguiu convivendo com políticas raciais, imperialistas e autoritárias, tanto nas metrópoles quanto nas colônias. A democracia liberal, nesse sentido, aparece como uma forma política historicamente compatível com a violência sistêmica e a dominação global.

Ao mesmo tempo, o autor evita uma leitura homogênea e simplista da tradição liberal. Um aspecto importante do livro é a identificação de correntes dissidentes e contra-hegemônicas no interior do próprio liberalismo — posições mais radicais, igualitárias ou anticoloniais, que foram derrotadas ou marginalizadas no processo de constituição da ordem mundial moderna. Essa atenção às bifurcações históricas permite a Losurdo sustentar que a associação entre liberalismo e liberdade não é natural nem inevitável, mas resultado de disputas políticas concretas.

Do ponto de vista teórico e político, Liberalism: A Counter-History tem implicações profundas para o debate contemporâneo. Ao evidenciar que os valores liberais frequentemente funcionaram como linguagem legitimadora da dominação, o livro lança uma luz crítica sobre o uso atual de conceitos como democracia, direitos humanos e Estado de Direito na política internacional. Em um mundo marcado por intervenções militares, sanções seletivas e hierarquias globais persistentes, a análise de Losurdo ajuda a compreender como o liberalismo pode operar simultaneamente como discurso moral e como instrumento de poder.

Em síntese, trata-se de uma obra fundamental para quem busca compreender os fundamentos ideológicos da ordem moderna e suas contradições. Mais do que uma história “alternativa” do liberalismo, o livro de Losurdo é uma acusação histórica rigorosamente documentada, que obriga o leitor a repensar criticamente uma das tradições intelectuais mais influentes do mundo contemporâneo. Para o debate pós-neoliberal e para as perspectivas do Sul Global, Liberalism: A Counter-History oferece uma chave interpretativa decisiva: a compreensão de que a superação da crise atual exige não apenas reformar o liberalismo, mas confrontar seus limites históricos estruturais.

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