7 de outubro de 2018

Mercado, urna e democracia

É preciso combinar ajuste e estímulo na sequência correta

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo

O ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa em sessão no Senado, em 2016 - Alan Marques - 27.ago.16/Folhapress

Chegou o dia da votação, e a Folha me convidou para escrever sobre os desafios econômicos do próximo governo. É difícil falar de economia quando a continuação da democracia pode estar em votação, mas aceitei a tarefa.

As pesquisas mais recentes indicaram crescimento das intenções de voto na extrema direita, e o mercado financeiro respondeu com euforia. Alguns podem tomar isso como sinal de melhora econômica, mas a questão pode ser outra.

O mercado antecipou que, em um eventual governo ultraliberal que cogita "autogolpe", os direitos dos trabalhadores serão reduzidos, os salários crescerão menos do que a produtividade e, portanto, os lucros das empresas absorverão uma parcela maior da renda, mesmo que seja com lento crescimento da economia.

Como o preço das ações reflete o valor presente dos lucros esperados, o índice Ibovespa subiu.

Nesse cálculo o mercado não foi bom ou mau. O mercado foi pragmático, entendendo que a proposta da extrema direita aumenta o valor presente dos lucros em relação aos salários. Bom para uma pequena parcela da população, que vive de renda do capital. Provavelmente ruim para a maioria restante, que vive de salários, sobretudo se o crescimento continuar lento (vide euforia inicial com Macri e Argentina hoje).

Seria possível aumentar o valor presente de lucros e salários com mais crescimento e geração de empregos? Teoricamente sim, mas isso exige capacidade de coordenação, não de conflito. Este é o maior desafio para o próximo presidente.

Acabamos de sair de uma grande recessão, fruto de choques externos, erros internos e conflagração política. Vivemos a mais lenta recuperação após uma grande recessão devido à continuação da crise política, com intervenção judicial no funcionamento do governo e nas eleições. Para sair desse impasse com democracia será necessário construir consensos.

Nosso principal problema econômico é o alto desemprego. Há capacidade ociosa na economia e podemos crescer mais rapidamente com estabilidade da inflação. Para que isso aconteça, é preciso diminuir a incerteza econômica e insegurança jurídica que se abateram sobre o país desde 2013.

O reequilíbrio do Orçamento público é uma ação necessária, mas não suficiente, para recuperar o emprego. Também será preciso estimular o crescimento diretamente, via aumento do investimento público, mas isso só será possível mediante reformas fiscais estruturais, no gasto e na receita.

Só ajuste não funciona. Só estímulo também não funciona. É preciso combinar as duas coisas na sequência correta, daí a necessidade de coordenação e diálogo.

Do lado positivo, a inflação está sob controle, a taxa de juro real está baixa, o governo tem elevado estoque de reservas internacionais e o país tem baixo déficit em conta corrente com o resto do mundo. Há uma gama de investimentos represados, esperando mais previsibilidade econômica para se concretizarem. Se nos entendermos sobre a divisão da conta fiscal, o resto fluirá mais facilmente.

O problema fiscal é eminentemente interno, de coordenação entre o que queremos do Estado e o quanto estamos dispostos a pagar em impostos.

O Orçamento público é uma das formas de conflito distributivo na sociedade.

É normal existir divergências em uma democracia, sobretudo em uma sociedade tão desigual como a nossa, em que uma parcela da população paga mais ou se beneficia mais do que a outra em suas relações com o governo.

O que não é normal é querer resolver conflitos com "tiro, porrada e bomba", pois isso nega a própria democracia, além de piorar a situação econômica e social mais à frente, como comprova o fim da ditadura militar no Brasil (sim, foi ditadura) nos anos 1980.

A solução de nossos problemas está na "conversa, acordo e compromisso", como defendem quase todos os candidatos a presidente neste ano. Voto pela democracia e boa eleição para todos!

Sobre o autor

Doutor em economia e professor da FGV e da UnB; ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016, governo Dilma Rousseff).

6 de outubro de 2018

A virada repressiva do Syriza

O governo de Alexis Tsipras prometeu acabar com a austeridade. Agora está defendendo os bancos contra pessoas expulsas de suas casas - e perseguindo aqueles que protestam.

Stathis Kouvelakis e Costas Lapavitsas


O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, chega ao Conselho da União Européia para o primeiro dia da cúpula de líderes do Conselho Europeu em 22 de março de 2018 em Bruxelas, na Bélgica. Jack Taylor / Getty

Tradução / Muitos na esquerda internacional creem que as coisas na Grécia estariam melhorando devagar, e que o governo do Syriza ainda seria força de esquerda que protegeria os interesses de trabalhadores e dos pobres, mesmo nas difíceis condições atuais. Para os que ainda pensam assim, recentes desenvolvimentos no país serão terrível surpresa.

A amarga realidade é que, desde que se rendeu à Troika dos credores da Grécia (UE, Banco Central Europeu (BCE), FMI) em julho de 2015, Tsipras e seu governo têm seguido as mesmas políticas neoliberais radicais implementadas por todos os governos gregos desde 2010, quando foi assinado o primeiro acordo de resgate com a Troika.

O governo Tsipras promoveu cortes drásticos no gasto público, fez avançar a desregulação e estendeu as privatizações, além de arrochar salários, aposentadorias e benefícios sociais. Reduziu especialmente o investimento público, ao mesmo tempo em que elevou a níveis sem precedentes a taxação direta e indireta, o que feriu terrivelmente as famílias de renda média e baixa.

A única diferença em relação a governos anteriores é que Tsipras e seu partido foram eleitos em janeiro de 2015 precisamente para reverter essas políticas. Essa extraordinária virada no verão de 2015 — apenas dias depois de um referendo em que 61% do eleitorado rejeitou a imposição de ainda mais austeridade – foi choque traumático para o público grego. Nos três anos seguintes, o cinismo do governo Tsipras levou à desmoralização profunda que já contaminou todas as vias da vida pública. Passividade e desalento são os principais fatores que permitem ao governo implementar um novo resgate, já sem encontrar grande oposição.

O Syriza está pois prestando excelente serviço à Troika. Contudo, essas políticas de arrocho, desregulação e privatização, que agridem a maioria da população, são de fato impossíveis de implementar sem muita repressão e em contexto de coerção violenta. É impossível implantar todos os cortes nos serviços públicos, redução em pensões e em salários, aumentos de impostos, e condições de extraordinária exploração do trabalho, sem levantar oposição ativa e sem gerar medo do que possa acontecer a quem não se submeta.

É coisa já amplamente confirmada pela experiência política da Europa Ocidental, mas também dos EUA e de vários outros países nas últimas quatro décadas. De 2010 a 2015, a própria Grécia também assistiu a uma extraordinária proliferação de medidas repressivas e autoritárias, a cada novo governo e seus pacotes de resgate. Lentamente – e inevitavelmente – também o governo de Alexis Tsipras tomou o mesmo rumo.

Especialmente violento, nos últimos meses, é o modo como a pressão sobre os bancos gregos levou ao aumento no número de despejos e retomada de casas de moradia, pelos credores. Se um dia o Syriza levantou a bandeira do “nenhuma moradia na mão de bancos”, hoje já ataca furiosamente manifestantes que tentam fazer parar os leilões de moradias. Novas leis ameaçam de prisão os que interfiram no processo dos leilões – na verdade, já começaram as prisões políticas, de críticos do governo.

Apertando os parafusos


Para compreender a crescente importância política da batalha para deter os despejos das famílias, deve-se considerar a situação precária em que estão os bancos gregos, e a pressão que exercem sobre o governo e, de modo mais amplo, sobre toda a sociedade grega. De fato, foi precisamente para impedir mais um surto de instabilidade dos bancos, que o governo recorreu a métodos cada vez mais repressivos.

Ao longo da crise, o sistema bancário grego veio a ser dominado por quatro bancos “sistêmicos” que controlam mais de 90% de todos os depósitos e ativos. Esses bancos foram os maiores apoiadores das estratégias de resgate desde 2010 e usaram o enorme poder econômico e social que têm para forças sucessivos governos gregos, inclusive o do Syriza, a aceitar as exigências dos credores, para evitar colapso de bancos e para se autoproteger da possível nacionalização.

Desde o começo da crise, houve duas grandes recapitalizações dos bancos, uma das quais já em governo do Syriza. Os custos totais passaram de €45 bilhões. Tudo financiado inteiramente por empréstimos a serem pagos pelos contribuintes. Apesar dessa extraordinária imposição sobre os ombros do povo grego, os bancos mesmo assim mantêm o recorde europeu de “maus empréstimos” e efetivamente já pararam de apoiar ativamente a atividade econômica. Esses “maus empréstimos” incluem Non-Performing Loans (NPLs), mas também Non-Performing Equity (NPEs), categoria mais ampla, que inclui empréstimos que não se espera que sejam inteiramente honrados, mesmo que ainda não haja atraso formal nos pagamentos.

Reduzir a exposição dos bancos gregos a NPEs e NPLs há anos é alta prioridade para o Banco Central Europeu (BCE). Desde 2016, o governo Tsipras acedeu obedientemente, facilitando uma onda de retomada de imóveis, inclusive casas de moradia, além de vendas de pacotes de empréstimos a preços baixos a fundos abutres. Leilões de imóveis tiveram, nisso, papel importante.

Não há absolutamente mistério algum quanto ao fracasso dos bancos, que não conseguiram controlar esse problema, por razões que começam no próprio acordo de resgate que Tsipras assinou. Em resumo, os bancos gregos esperam limpar gradualmente seus balanços varrendo de lá os maus empréstimos mediante leilões, vendas e práticas violentas de retomada e despejo, processo que com certeza demorará vários anos. Ao mesmo tempo, espera-se que os bancos apoiem a atividade econômica com oferta de novos créditos. Mas, como seria de esperar, os bancos tenderam a reduzir os novos empréstimos, ao mesmo tempo em que tentam sanear os respectivos balanços. O corte nos novos empréstimos já fez gorar a retomada do crescimento, o que tornou o problema dos maus empréstimos ainda mais grave para a economia. O declínio geral nos empréstimos também significa que maus empréstimos passam a ter maior peso relativo no total. É exemplo perfeito do nonsense econômico que jaz no coração do resgate concebido por Tsipras.

O fracasso dos bancos gregos, em relação aos maus empréstimos levou a um colapso das respectivas ações na bolsa de valores de Atenas desde o início do verão de 2018, que virou queda livre mês passado. Com efeito, todo o setor bancário grego foi dramaticamente desvalorizado desde que Tsipras assinou o acordo de resgate. Resultado disso, ouvem-se crescentes rumores sobre a necessidade de nova rodada de recapitalização. Se acontecer, será total desastre para o governo, que enfrentará eleições nacionais em 2019.

Assim sendo, acelerar o programa de faxina de maus empréstimos passou para o topo da agenda da Troika, e de seus obedientes executores dentro do governo de Tsipras. E dado que o problema parece ser mais persistente entre empréstimo para compra de imóveis e para o consumo, fixou-se meta muito ambiciosa para retomada de imóveis e leilão, que passou, de 8-10 mil imóveis para 2018, para 50 mil em 2019.

Repressão aos atos de protesto


Desde a meia-volta do Syriza, a questão da retomada de moradias tornou-se o mais espinhoso problema político para Tsipras e seu partido. Até 2015 o slogan “nenhum lar entregue aos bancos” era o grito que mais se ouvia nos comícios do Syriza. Mas ante as pressões geradas pelo resgate que ele próprio inventou, o governo de Tsipras aprovou leis para punir qualquer ação que vise a impedir leilões de moradias de famílias endividadas, com penas que variam de três a seis meses de prisão.

Assim se formou o cenário para terrível batalha entre o governo e um movimento muito ativo que se pôs contra os leilões de propriedades executadas pelos bancos. Esse movimento, na verdade, ganhou novo ímpeto depois que os leilões recomeçaram no outono de 2016. Durante muitos meses, a mobilização de grupos de ativistas determinados, presentes em locais de julgamento dos casos de retomada de imóveis já conseguiu cancelar centenas desses leilões, o que conseguiu desacelerar significativamente o processo. Essa sem dúvida é uma das causas de os bancos não terem conseguido cumprir as próprias metas.

A reação do governo, ao se curvar à pressão da Troika, foi transferir o procedimento dos leilões, depois do verão de 2017, para uma plataforma eletrônica ativada pelos leiloeiros de dentro de seus escritórios, com portas fechada, em vez de manter os leilões públicos. Claro que, com isso, ficou mais difícil organizar os protestos nos locais dos leilões. Mesmo assim, continuaram os protestos, embora em menor escala, a impedir vários leilões, com considerável impacto negativo sobre a disposição dos leiloeiros para participar do processo.

Durante esse período começaram a se intensificar os confrontos com a Polícia, na entrada dos prédios dos escritórios dos leiloeiros. Durante os protestos, ativistas foram filmados e formalmente acusados de praticar atos de agitação social. Desde o início do ano, dúzias de ativistas enfrentaram acusações formais feitas pela Polícia. Dentre esses, Elias Smilios, conselheiro municipal na região de Ambelokipi-Menemeni, na cidade de Thessaloniki, a segunda maior cidade da Grécia, e também membro da Antarsya, uma coalizão de organizações de extrema esquerda. Na pequena cidade provincial de Volos, nada menos de 20 ativistas estão sendo investigados, além de outros 15 nas cidades de Argos e Nafplio. Três ativistas começaram a ser julgados em Atenas, dia 21 de setembro.

A intensificação da repressão judicial relacionada a leilões de casas de moradia é apenas a instância mais óbvia das práticas autoritárias às quais o governo de Tsipras tem recorrido. A repressão judicial também está sendo usada contra os que tentam defender o meio ambiente, como no caso da repressão policial contra manifestantes que protestavam contra o projeto de mineração a céu aberto operado por uma empresa do Canadá em Skouries, norte da Grécia. Mais amplamente, o governo usou força direta para suprimir todos os protestos contra suas políticas, especialmente quando há possibilidade de o movimento disseminar-se. O uso da Polícia antitumultos contra aposentados é apenas o exemplo mais repugnante. Por fim, há relatos frequentes de funcionários públicos, inclusive policiais, mobilizados para fazer cumprir as políticas do governo no setor de eletricidade e outros. Começa a emergir um padrão bem claro, pelo qual o governo confia nos mecanismos de repressão do “estado profundo” para defender as duras realidades criadas pelo ‘resgate’ dos bancos concebido por Tsipras.

Lafazanis


Um limite simbólico na escalada da repressão foi derrubado dia 26 de setembro, quando Panagiotis Lafazanis, veterano resistente da esquerda radical grega foi acusado de participar em movimentos de agitação nas ações semanais de protesto contra os leilões de imóveis de moradia.

Lafazanis foi ministro de Energia do governo do Syriza antes da meia volta para trás, e principal figura da “Plataforma de Esquerda,” que naquele momento mobilizava a maior parte da ala esquerda do Syriza. Hoje é secretário da Unidade Popular, uma frente política criada no verão de 2015 principalmente pelas forças da Plataforma de Esquerda que se separaram do Syriza e foram acompanhadas por várias outras organizações da esquerda radical.

É a primeira vez desde a derrubada da ditadura nos anos 1970 — quando Lafazanis foi perseguido por atividade clandestina no movimento estudantil e na organização da juventude do então ilegal Partido Comunista – que um líder de partido de esquerda é outra vez processado por atividade política. Está sendo acusado de infringir nada menos que 15 artigos do Código Penal, com penas que podem chegar a dois anos de prisão. Se for considerado culpado em todas as acusações, a sentença pode chegar a nove anos.

Também notável é que os procedimentos acusatórios partiram do “Departamento para Proteção do Estado e da Ordem Política Democrática” – braço especial dos Serviços de Segurança da Grécia, encarregado de atividades de terrorismo ou outras que se entende que ameacem a democracia. O departamento foi criado em 2000, no tempo de uma onda de “modernização” na Grécia, quando o país preparava-se para se integrar à União Monetária Europeia, e foi reforçado em 2011, depois de o país entrar no regime de ‘resgate’ dos bancos. Sempre operou sistematicamente como agência para monitorar protestos de rua, e, no governo do Syriza teve as suas funções ampliadas para atividades de vigilância mais ampla. Notável que, desde que foi criado, o departamento jamais agiu contra o Partido Alvorada Dourada, nem qualquer outro partido da extrema direita ou organização terrorista.

Lafazanis não é o único ativista visado pelo departamento. Quatro outros, dentre os quais um membro da Unidade Popular e duas conhecidas figuras da rede “Não Pago”,” Leonidas e Elias Papadopoulos, também foram acusados de longa lista de crimes. Já se sabe também que Lafazanis foi seguido e mantido sob vigilância por uma equipe de policiais disfarçados de jornalistas que filmavam as ações de protesto. Esse material foi complementado por fotos e vídeo que o Departamento requisitou das empresas de TV. Mensagens de Facebook também foram usadas para identificar ativistas em várias ações de protesto.

E agora? O que virá?


A maré montante dos processos judiciais forçou a mídia-empresa grega a dar alguma atenção à escalada da repressão pelo Estado. Também provocou alguma reação pública, inclusive um questionamento encaminhado ao Ministro da Justiça por 43 Parlamentares do Syriza. Na verdade, essas reações ganharam impulso com os desenvolvimentos muito graves que se veem nos intestinos do Estado grego sob governo do Syriza, e os Parlamentares tentam salvar o que ainda reste da postura moral da coalizão governante. Contudo, a posição oficial do governo é que a questão pertence inteiramente ao âmbito do Judiciário e da Polícia, sem nada a ver com decisões políticas.

Seja como for, fato é que a iniciativa para as acusações e processos não partiu do Judiciário, mas do “estado profundo”, a saber, do “Departamento para Proteção do Estado e da Ordem Política Democrática”, submetido ao Ministro da Ordem Pública. Não há como escapar da evidência de que o governo do Syriza está envolvido e é cúmplice, envolvimento e cumplicidades que são diretamente relacionados ao terceiro ‘resgate’ e à mais recente outra crise dos bancos gregos.

Não há resgate neoliberal de bancos sem repressão contra a população. O governo do Syriza não escapa a essa regra. A democracia grega já foi duramente ferida até aqui, e as coisas devem tornar-se ainda mais graves nos próximos meses, conforme se aproximem as eleições e os problemas dos bancos muito provavelmente virem o centro das atenções. O desastre econômico e social causado pela capitulação de Tsipras já é perfeitamente visível para camadas cada vez mais amplas do eleitorado, e os sentimentos de frustração alastram-se.

Dado que este governo já vendeu sua alma ao comprometer-se com os credores, não terá remorso em aumentar a repressão contra todos aqueles que se opõem a ela. Toda a solidariedade internacional é urgentemente necessária para deter essa perigosa deriva na Grécia. Rapidamente se vai configurando a necessidade imperiosa de defender a democracia grega.

Sobre os autores


Stathis Kouvelakis leciona Teoria Política no King’s College em Londres. Foi membro do Comitê Central do Syriza.

Costas Lapavitsas leciona Economia na SOAS. Foi deputado eleito ao Parlamento grego.

Epopeia democrática

Vitória de Bolsonaro neste domingo (7) poderia representar um tiro nas liberdades civis

André Singer


A elevação das intenções de voto em Jair Bolsonaro (PSL) nesta semana criou um compreensível sobressalto nos círculos democráticos do país. Uma vitória sua no primeiro turno neste domingo (7) poderia representar um tiro nas liberdades civis.

Tendo passado de 28% para 35%, segundo o Datafolha, o capitão reformado ganhou chances de tornar-se presidente já  —embora não pareça, no momento em que escrevo, o mais plausível. O extremista de direita teria que obter, em dois dias, uma vez e meia o que conquistou em uma semana.

Da mesma maneira que as manifestações do #elenão, de sábado passado (29), podem ter ocasionado uma reação conservadora que explica, em parte, os ganhos atuais de sua candidatura, agora está em curso uma corrente voltada para lhe tirar apoios, reforçar outras postulações e desestimular a opção pelo branco e nulo. 

Quanto maior o número de votos válidos, menor a chance de a parada se resolver de imediato. Apenas a segunda volta deverá revelar de que lado está a maioria absoluta dos eleitores (excluídas abstenções, brancos e nulos).

Confirmado o prognóstico acima, podem-se prever três semanas de intensa divisão social.


A recente subida de Bolsonaro colocou-o em situação de virtual empate com Fernando Haddad (PT), o seu oponente provável, quando a pergunta se refere à escolha final. Lulismo e antilulismo, protagonistas dos grandes embates desde junho de 2013, vão se defrontar em situação de equilíbrio.

O vaivém das sondagens de opinião nos últimos dias mostra que, apesar dos prognósticos em contrário, a democracia brasileira continua viva. 

Machucada por atos arbitrários, como o do juiz Sergio Moro ao novamente divulgar excertos de uma delação politicamente explosiva às vésperas de um pleito, como já havia feito em 2014, mas ainda respirando. 

No final dos anos 1980, quando o Brasil se preparava para a primeira eleição presidencial direta em quase três décadas, circulou por aqui um artigo preciso do cientista político Adam Przeworski. Nele, o polonês radicado nos EUA afirmava que a mola propulsora da democracia era a incerteza. Se fosse possível prever com segurança os resultados eleitorais, o sistema não funcionaria.

O problema é que, desta feita, o que está em questão não é apenas a próxima Presidência, mas a própria continuidade da democracia. 

As incessantes denúncias de corrupção da Lava Jato, o fracasso do plano econômico do governo Temer e um ambiente internacional de corte fascista deram musculatura a propostas liberticidas, que chegam fortes à etapa conclusiva do processo. 

Salvar o Estado democrático de Direito vai transformar o segundo turno numa verdadeira epopeia nacional.

4 de outubro de 2018

O efeito Bolsonaro

O que significa um simpatizante fascista de extrema direita ser um dos principais candidatos às eleições presidenciais no Brasil neste domingo?

Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco

Jacobin

Um vendedor ambulante vendendo bugigangas anti-Lula em um comício para Jair Bolsonaro em 30 de setembro de 2018. Jacobin / Flickr

Jair Bolsonaro é um nome inevitável na política brasileira hoje em dia. De fato, tem sido por alguns anos. Poucos dias antes do dia das eleições, em 7 de outubro, as pesquisas mais recentes indicam que Bolsonaro é agora o principal candidato na corrida presidencial, seguido por Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT).

A linguagem política de Bolsonaro é o ódio. Ele freqüentemente pede a aniquilação da esquerda. Poucos dias depois de falar em matar os partidários do PT com uma metralhadora em um comício de campanha, um homem o esfaqueou no estômago. À medida que a situação no Brasil aumenta, e a possibilidade de Bolsonaro se tornar presidente aumenta, é importante entender mais sobre o candidato da extrema-direita.

O "voto de protesto"

Jair Bolsonaro é um ex-oficial militar do pequeno Partido Social Liberal (PSL) e agora serve como deputado federal. Ele é um político de extrema direita que combina posições econômicas liberais com declarações inflamadas contra os direitos humanos. Ele é anticomunista e apologista do uso da tortura pela ditadura. Seu lema de segurança pública é “bandido bom é bandido morto”. Quando se trata de economia, ele se dirige ao economista neoliberal Paulo Guedes, a quem escolheu para comandar  a política econômica em um governo de Bolsonaro.

Embora o estereotipado eleitor de Bolsonaro seja sexista, racista e alinhado com a política de extrema-direita, nem sempre é esse o caso. Para muitos, votar em Bolsonaro significa uma renovação da esperança e da energia política. Alguns até chamam isso de "revolucionário" ou "voto de protesto". Nossa pesquisa mostra uma surpreendente diversidade de pessoas e ideologia entre sua base de eleitores.

Recentemente, estávamos discutindo política com um grupo de jovens em um restaurante na periferia empobrecida de Porto Alegre, no sul do Brasil. Dois garçons interromperam a conversa para declarar espontaneamente seu voto a Bolsonaro. Dois outros homens da mesa ao lado pularam na conversa para gritar com orgulho “eu também!” Em questão de segundos, outros estavam entrando na conversa, dizendo com entusiasmo que pela primeira vez poderiam apoiar a campanha de um candidato baseada na “fé”, “amor” e “esperança”, em vez de em troca de dinheiro ou empregos - uma prática padrão na política clientelista ainda predominante em muitas partes do Brasil.

Os eleitores americanos estão familiarizados com as razões que fazem os políticos como Bolsonaro um fenômeno. Como Donald Trump, ele emprega o ódio como mobilizador político e até mesmo incita a violência diretamente contra seus concorrentes políticos. Ele também, como Trump, é hábil em fingir ser um outsider anti-establishment.

No entanto, Bolsonaro não é de modo algum novo no cenário político. Ele é um congressista desde 1991, junto com seu irmão e filhos. Passou a maior parte de sua carreira política no Partido Progressista (PP), do qual o ex-governador de São Paulo Paulo Maluf é uma figura chave. Maluf é o arquétipo do político brasileiro corrupto, incorporando o famoso slogan “rouba mas faz”.

Apesar de sua história e associações, Bolsonaro tem sido amplamente visto como uma novidade nesta eleição, um candidato sinônimo de renovação e honestidade. Embora ele tenha acumulado privilégios políticos e tenha se aproveitado deles, ainda não há escândalos significativos de corrupção pairando sobre ele. Sua formação militar e a promessa de disciplina e ordem são atraentes em meio ao clima político caótico. E depois do golpe suave que tirou do poder a presidente do PT, Dilma Rousseff, seus pedidos de intervenção militar não são mais tabus.

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) costumava desfrutar da hegemonia da direita como a principal oposição do Partido dos Trabalhadores. O PSDB tentou retardar a ascensão de Bolsonaro afirmando ser o verdadeiro garantidor da eficiência e do bem-estar da classe empresarial. No entanto, seu candidato, Geraldo Alckmin, continua atrás de seu colega de extrema-direita.

O caráter de extrema-direita de Bolsonaro é mais evidente quando ele está agitando contra os direitos humanos básicos. Quando ele votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, ele o fez em homenagem à memória do general Carlos Brilhante Ustra. Ustra é conhecido como um dos torturadores mais cruéis da era da ditadura no Brasil. Ele ordenou a tortura de Dilma Rousseff quando ela foi presa como uma militante anti-ditadura em sua juventude, e ficou notório por inventar técnicas horripilantes de tortura, como inserir ratos nas vaginas das mulheres.

Tais controvérsias fazem parte da estratégia de Bolsonaro para permanecer no centro das atenções. Quando um jornalista o confrontou sobre suas opiniões inflamadas, ele simplesmente riu. "O ponto é esquecer esses pequenos deslizes do passado e focar no futuro", disse ele no conhecido programa de entrevistas Roda Viva. Em uma greve, ele pode atacar a grande mídia e dizer algo significativo para os brasileiros desesperados por uma mudança de curso.

Bolsonaro sabe aproveitar as mídias sociais e sua capacidade de disseminar informações falsas. Ele acumulou 6,6 milhões de seguidores no Facebook (um milhão apenas nas últimas três semanas), comparado aos 3,5 milhões de Lula e aos seiscentos mil e duzentos de Haddad. Ele é visto como "engraçado", "autêntico" e é admirado por "dizer o que pensa", encorajando outros a expressarem seus preconceitos também. Sua campanha on-line é uma máquina de notícias falsas, rumores e difamação. Uma análise recente fornecida pelo Monitor de Debates Políticos mostra que 80% de seu conteúdo on-line está focado em atacar a ala esquerda, o feminismo e o gigantesco conglomerado de TV Globo.

Tudo o que ele diz é transformado em memes virais. Bolsonaro não é apenas um fenômeno da Internet. De fato, sem Lula na disputa, ele ocupou o primeiro lugar em todas as pesquisas presidenciais, com 31% das intenções dos eleitores, de acordo com a última pesquisa do Ibope. Lula está preso e impossibilitado de disputar, com seu sucessor Fernando Haddad assumindo seu lugar como candidato do PT. Mais importante do que as pesquisas, no entanto, é a legião de fãs que Bolsonaro acumulou, que lotam aeroportos, cantam e choram quando ele chega a qualquer cidade.

A narrativa odiosa e misógina de Bolsonaro é mais bem sucedida em atrair homens, que compõem dois terços de seus eleitores em potencial. Essa estratégia, no entanto, levou à sua esmagadora rejeição entre as mulheres. Pesquisas recentes sugerem que cerca de 50% das mulheres "nunca votariam nele". É a mais feroz discrepância de gênero nos últimos vinte e quatro anos da democracia brasileira.

Nossa pesquisa também identificou uma forte afinidade por Bolsonaro entre os jovens eleitores. Figuras conservadoras e autoritárias são geralmente associadas à nostalgia de um passado perdido. Mas para muitos jovens brasileiros, Bolsonaro representa o oposto: uma mudança radical, uma saída para as crises atuais e a possibilidade de um futuro melhor. Muitos eleitores declararam que vêem o PT e o PSDB amigável aos negócios como mais do mesmo. Isso se deve tanto à fragmentação da direita quanto ao forte sentimento anti-PT, impulsionado pela percepção da associação do partido com a corrupção.

Da esperança ao ódio

Bolsonaro ganhou muita força ao discutir a violência urbana. Nos arredores das grandes cidades brasileiras, espaços coletivos onde as pessoas poderiam discutir problemas comunitários estão ausentes. As pessoas sabem que, independentemente de representarem a esquerda ou a direita do espectro, os políticos só aparecerão nas suas comunidades durante as eleições, oferecendo cerca de vinte dólares para as pessoas distribuírem panfletos.

Bolsonaro rapidamente ganhou popularidade em meio a esse vácuo democrático oferecendo soluções punitivas, abraçando descaradamente o ditado popular de que "bandido bom é bandido morto". Ele promete soluções simplistas para problemas complexos, como a adoção de políticas que permitam o armamento da população em geral, aumento das penas no código penal, e castração química de estupradores.

O bolsonarismo também faz parte de uma reação social mais ampla contra os direitos das mulheres. As manifestações em massa de junho de 2013 constituíram um marco na política brasileira, marcada pelo surgimento e proliferação de grupos feministas autônomos, queer e anti-racistas, especialmente entre os jovens. Em 2016, adolescentes de baixa renda ocuparam escolas secundárias públicas em todo o país. Meninas adolescentes foram as principais protagonistas deste movimento, dando origem ao agora famoso slogan lute como uma garota.

Por outro lado, os rapazes que procuram Bolsonaro o chamam de “mito” ou “lenda”. Ele se tornou um símbolo da autoridade masculina.

Este cenário levou muitos, incluindo a esquerda, a identificar todos os partidários de Bolsonaro como homens ultraconservadores. No entanto, com base em nossa pesquisa, além do fato de que a maioria de seus apoiadores serem de fato homens, ainda precisamos identificar qualquer outro padrão discernível. Há jovens e idosos, trabalhadores formais e informais, cantores de funk, protestantes, católicos e assim por diante. Em suma, eles não são os "fascistas" que os retratos da mídia social fizeram deles.

É claro que o esteriótipo do homem racista, misógino, homofóbico e raivoso aparece entre as fileiras de Bolsonaro. Mas ele não é de modo algum a regra. Muitos partidários acham Bolsonaro excessivamente extremo ou muito misógino, mas estão convencidos de que não há outra alternativa. Já encontramos pessoas que votariam em Lula se ele estivesse livre, mas recorrem a Bolsonaro como seu plano B. Em ambos os casos, esses eleitores não estão necessariamente julgando os candidatos pelo quão de direita ou de esquerda são. Em vez disso, eles estão procurando por um salvador nacional.

Muitos apoiadores de Bolsonaro são inegavelmente conduzidos por preconceitos de gênero, sexual e racial. Mas não podemos descartar o peso pesado da estabilidade econômica como um fator que impulsiona sua popularidade. O crescimento econômico brasileiro despencou de 7,5% em 2010 para -3,77% em 2015, exacerbando uma crise política e institucional que culminou com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

A administração de Michel Temer estabeleceu uma intensa agenda de austeridade neoliberal, priorizando cortes na educação e saúde públicas. Esse cenário cria uma mistura complexa, embora ainda pouco clara, de fatores econômicos, políticos e sociais que impulsionam o efeito Bolsonaro.

Nos últimos dez anos, o Brasil passou por um ciclo que chamamos “da esperança ao ódio”. 2010 foi o auge do lulismo, marcado pelo crescimento econômico amplamente baseado no consumo interno e na inclusão financeira. As políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, estimularam o consumo e um senso de autoestima individual entre os mais pobres.

Enquanto o lulismo trouxe melhorias sociais dramáticas, ele também sistematicamente desmobilizou sua base para sustentar as contradições políticas do seu período no governo. O PT pagou um alto preço por isso. A partir de 2014, a economia piorou e a população se tornou cada vez mais endividada à medida que o desemprego cresce e os bens e serviços públicos são atacados. Sob os cortes de Temer na rede de segurança social, a qualidade de vida diminuiu drasticamente.

Os protestos de junho de 2013 inauguraram um período de instabilidade política, que, combinado à crise econômica, abriu a janela para a ofensiva da direita contra o PT. Esse processo acabou no impeachment de Dilma alguns anos depois. Desde então, os sistemas políticos e judiciários tornaram-se desonestos e a vida cotidiana das pessoas se deteriorou.

A reação do senso comum, graças à profunda desconfiança em relação aos políticos, tem sido culpar a corrupção, e não da economia neoliberal ou da economia subdesenvolvida do Brasil. Bolsonaro e sua narrativa autoritária ganharam espaço precisamente em meio a esse limbo nacional e à sensação de caos. Pesquisas mostram que desde o impeachment e o escândalo de corrupção que afetou o ex-candidato do PSDB, Aécio Neves, em maio de 2017, as intenções de voto de Bolsonaro saltaram de 8% para 31%. Ele ganhou terreno com algumas pessoas que se decepcionaram com o PT. Mas principalmente o aumento foi encontrado entre os eleitores de direita que mudaram suas lealdades partidárias. O efeito Bolsonaro é a reorganização e radicalização dos polos ideológicos na sociedade brasileira.

Por empregar freqüentemente a expressão “isso é uma pouca vergonha”, Bolsonaro se apresenta como um homem honesto que está ansioso para resolver, através da disciplina militar, todas essas questões estruturais nacionais complexas. Essa linha de raciocínio impulsionou os protestos contra Dilma Rousseff em 2015-16, ajudando a polarizar os que se enfureceram com os escândalos de corrupção em apoio a Bolsonaro e contra a esquerda.

Reorganizando a esquerda

O fenômeno do bolsonarismo vai além de um único candidato: representa o surgimento de um zeitgeist conservador em um tempo de profunda transformação social, política e econômica. Todas as análises de hoje prevêem que o segundo turno da corrida presidencial será altamente polarizada, com Bolsonaro e Haddad enfrentando altas taxas de rejeição. Independentemente do resultado, o Brasil passará por mais alguns anos de instabilidade política.

Os desafios para a esquerda são enormes. Em primeiro lugar, é preciso admitir os problemas do modelo de desenvolvimento lulista, que resultou na desmobilização da base popular do PT e deslocou a ênfase da esquerda dos direitos sociais coletivos para a inclusão financeira individual.

É também crucial reavaliar as alianças políticas que foram forjadas por Lula e Dilma Rousseff em nome da governabilidade. A popularidade de Lula reflete seu carisma individual e sua associação com os bons tempos econômicos, mais do que a lealdade generalizada ao PT ou à esquerda.

A esquerda, já fragmentada no Brasil, sofreu grandes perdas após o impeachment de Rousseff em junho de 2016. A maioria das organizações não conseguiu criar novos líderes credíveis, e o PT se concentrou quase exclusivamente em denunciar o golpe suave e o crescimento do fascismo. Essa postura antifascista é, obviamente, crucial. No entanto, a falta de um programa positivo pode criar um vácuo político. A esquerda precisa primeiro construir uma agenda política nova e radical que permita um diálogo com as pessoas e suas preocupações e, em segundo lugar, seja capaz de abordar e mobilizar a base popular.

Em relação à primeira questão, a ascensão do bolsonarismo tornou claro que a falta de segurança nas áreas urbanas e a corrupção são questões fundamentais a serem abordadas na agenda política. Isso requer linguagem simples, mas não simplista, que possa atingir os cidadãos comuns. Os grandes partidos de esquerda, paralisados pela polarização que define as redes sociais brasileiras, negligenciaram esses assuntos, permitindo que a direita se apropriasse cinicamente deles.

A segunda questão é um pouco mais complexa, pois exige o abandono de um modo hierárquico ultrapassado de fazer política, abraçando novos atores políticos, às vezes imprevisíveis. Esse é o caso dos novos movimentos juvenis que demandam políticas descentralizadas e diversidade social em épocas em que os encontros políticos de esquerda permanecem anacronicamente o domínio dos homens brancos.

Este é também o caso das novas mobilizações precárias, que funcionam de maneira ambígua, às vezes denunciando o sistema político, às vezes solicitando intervenção militar. Na recente greve dos caminhoneiros que paralisou o país, a reação do PT foi criticar o movimento como um bloqueio liderado por grupos autoritários. Em tempos de uberização e automatização, essa postura é altamente arriscada. Bolsonaro, por outro lado, visitou a greve e declarou seu apoio aos motoristas. Sua atitude forneceu uma lição básica à esquerda: os trabalhadores devem ser apoiados, uma vez que a consciência de classe exige investimento político.

Desde 2013, o que temos visto é uma esquerda paralisada que rejeita todos os grupos que ela não consegue entender nem lidar. Este é um erro estratégico. O bolsonarismo nos mostra como a frustração radical sobre o sistema pode ser aproveitada para ganhos políticos. Ativistas de esquerda devem entender e abraçar essa insatisfação, agindo através das lacunas das contradições do capitalismo, ao mesmo tempo em que oferece uma agenda radical alternativa que faz sentido para os cidadãos comuns.

Em meio a esse cenário pessimista, parece que a reorganização radical da esquerda pode emergir do movimento feminista. Foram os esforços de organização das mulheres que ajudaram a remover Eduardo Cunha, o presidente corrupto da Câmara dos Deputados que orquestrou o impeachment. Militantes feministas também são as líderes por trás do movimento # elenão, que pressiona por uma aliança nacional contra o Bolsonaro. Elas estão conseguindo fomentar uma frente antifascista no Brasil da maneira que os partidos de esquerda falaram, mas não conseguiram produzir. No último sábado, milhões de mulheres e outras minorias tomaram as ruas e marcharam contra o fascismo. Esse movimento de base sem precedentes e extraordinário, espalhado por todo o tecido social, on-line e off-line, transcende a fragmentação da esquerda e tem o potencial de reorganizar o campo nos turbulentos anos vindouros.

Tréplica: Há diferentes visões e um passado no setor financeiro

O que interessa é que um dos maiores problemas do Brasil é a injusta distribuição de renda

Paulo Feldmann e Marcio Pochmann

Folha de S.Paulo

Fila sob o Viaduto do Chá, no centro de São Paulo, para o segundo mutirão do emprego; sindicato calculou 5.500 candidatos. Rivaldo Gomes/Folhapress

O economista Alexandre Schwartsman resolveu nos atacar, mas não achamos razoável cansar o leitor com xingamentos ou desqualificações porque não é assim que se debate.

Por mais que os temas econômicos devam ser tratados de forma técnica ou científica quando possível, é inegável que economistas têm visões de mundo diferentes.

E essa é a grande diferença que temos em relação a Alexandre Schwartsman. Por isso não vamos nos ater às estatísticas por ele citadas para saber se o desemprego em maio de 2016 era de 11% ou de 10,9%, pois apenas cansaria o leitor.

O que interessa é que, para nós, um dos maiores problemas econômicos do Brasil é a injusta distribuição de renda que nos coloca na lista dos dez piores países do mundo ao lado de oito países africanos bem pobres.

Esse é o problema principal que precisa ser atacado e nada melhor do que alterando a nossa estrutura tributária.

Nossa visão é que existem rendimentos altamente concentrados na mão de muitos poucos, que, se taxados devidamente, poderiam contribuir para atenuar o déficit fiscal estimado em R$ 160 bilhões neste ano.

Ou seja, a chave para o Brasil voltar a crescer está em promover mudanças no nosso injusto sistema de Imposto de Renda.

No artigo anterior, Alexandre nos critica porque propomos cobrar mais impostos de apenas 0,14% da população brasileira, justamente aquela que tem rendimentos mensais acima de R$ 160 mil por mês.

Alexandre, por favor, nos responda sem ódio e sem agressão: onde está o erro em querer taxar tão poucos, em benefício da quase totalidade da população brasileira?

Mas há outras mudanças no Imposto de Renda que poderiam ser feitas.

Considere-se o lucro dos bancos no Brasil. A estimativa é que neste ano ele atinja R$ 100 bilhões.

Ao contrário de outros países onde há um grande número de bancos competindo entre si, no Brasil não apenas o lucro é muito mais alto mas está concentrado em apenas quatro bancos.

A própria revista The Economist questionou o descalabro do lucro dos bancos no Brasil em 2017. E, apesar de o país estar em crise profunda, os bancos continuam aumentando os seus ganhos a cada ano.

Não deveria haver um imposto especial sobre o lucro para que os bancos dessem sua contribuição? Há países que fizeram isso —por exemplo, a Hungria em 2011— e se deram muito bem. Conseguiram zerar seu déficit fiscal.

Claro que Alexandre não vai concordar, mas é aí que dissemos que há diferentes visões de mundo por parte dos economistas.

Alexandre tem todo um passado ligado ao setor financeiro, tendo sido diretor do Banco Central. Por essa visão taxas de juros devem ser altas para combater a inflação.

É por esse falso argumento que faz mais de 20 anos que estamos entre os países que praticam as mais altas taxas de juros no mundo.

Apenas no Brasil, por que não há hoje nenhum país sério que ainda acredite nessa história.

Enfim, nosso objetivo foi aproveitar esta oportunidade que a Folha nos dá para expor ao leitor que existem, sim, alternativas, relativamente fáceis, para debelar a crise fiscal que nos assola.

Mas o que se faz necessário é coragem para enfrentar justamente os mais poderosos, que, por sinal e felizmente, são poucos.

3 de outubro de 2018

Torrada com avocado para todos

A recente tendência de reduzir a classe aos hábitos de consumo e ao gosto pela comida é cansativa e sem fundamento.

Dawn Foster

Jacobin

Foto: Rab Fyfe / Wikimedia

Tradução / Talvez tenha começado com as “guerras do café”: toda a controvérsia forjada por comentários depreciativos sobre as escolhas de bebidas quentes pelos políticos britânicos. Um exemplo anterior desse gênero veio do oponente de Jeremy Corbyn pela liderança trabalhista em 2016:

Recebendo seu “café espumante” no café Prince, durante a passagem da campanha por Pontypridd, Owen Smith parou no meio da frase para expressar seu contentamento. “Vou te contar que é a primeira vez que recebo pequenos biscoitos e uma xícara elegante por aqui”, disse Smith, olhando para o proprietário David Gamberini, enquanto seu pedido era colocado sobre a mesa. “Sério, normalmente eu teria recebido uma caneca comum”, acrescentou o deputado, examinando as bebidas à sua frente.

Como deputado trabalhista, o leitor deveria supor, Smith deveria ser um homem do povo. Como tal, a idéia de que ele poderia ser um apreciador de cappuccino – e pior, de que o seu cappuccino poderia ser servido em uma xícara com um biscoito caramelizado repousando delicadamente no pires – era simplesmente inaceitável. Foi uma maldição para sua estratégia eleitoral.

O Prefeito da Grande Manchester, Andy Burnham, tuitou sarcasticamente sobre a idéia levantada pela extrema-direita de um “visto de barista” que permitiria a pessoas da União Européia trabalhar na indústria de serviços no pós-Brexit, ironizando : “Deus os livre de ter de esperar mais tempo de manhã pelo seu café metido”. Avançando para a Irlanda, Leo Varadkar respondeu às críticas a um orçamento que não agradava a ninguém, chamando seus opositores de “socialistas do cappuccino”, em lugar da velha zombaria sobre “socialista do champanhe”. O chá, portanto, seria a bebida da classe trabalhadora britânica, do sal da terra, apesar do café estar amplamente disponível e muitas vezes ser mais barato do que o chá nas cafeterias.

Para um país tão obcecado com classe, o Reino Unido é terrível em definir a experiência que engloba a maior parte das vidas das pessoas. A tendência recente de reduzir a classe ao gosto por comida e aos hábitos de consumo é especialmente cansativa.

Durante o governo conservador de David Cameron, o ex-chanceler George Osborne declarou no orçamento de 2012 que a “comida quente para viagem” seria taxada em 20%, o que foi rapidamente apelidado de “imposto do pastelzinho”, atingindo pastéis assados e enroladinhos de salsicha, mas não a maioria dos sanduíches. O deputado trabalhista John Mann argumentou que isso demonstrava o quanto o primeiro-ministro e o chanceler estavam distantes das massas, que comem salgados. “Muito pelo contrário”, David Cameron respondeu – ele até tinha comido um recentemente na estação de trem de Leeds.

O jornal The Sun prontamente enviou um repórter para a estação de Leeds e descobriu que não havia comércios vendendo pastéis assados, tortas ou enroladinhos de salsicha por lá. Escândalo. A primeira linha da bancada do Partido Trabalhista viajou para uma padaria Greggs – a maior rede da Grã-Bretanha, famosa por vender enroladinhos de salsicha por kilo – para serem fotografados pelos paparazzi enquanto balançavam sacolas de guloseimas folheadas, reforçando suas credenciais da classe trabalhadora.

Quando Jeremy Corbyn anunciou que um acordo feito sob a liderança anterior seria cancelado e que o McDonald’s não patrocinaria um evento paralelo durante a conferência do Partido Trabalhista, as lamentações de jornalistas e políticos de classe média foi considerável. Muitos fizeram fila para tuitar que isso era uma afronta para com o trabalhador comum, que gostava de um Big Mac – de fato, uma afronta maior que o fato da empresa sistematicamente esmagar as tentativas dos trabalhadores de se sindicalizar e se recusar a lhes pagar um salário mínimo.

“Classe” é uma coisa complexa; categorizar as pessoas por seus gostos e desgostos culinários é bem fácil. Lamentavelmente é também algo completamente sem sentido. Ainda assim, políticos e os meios de comunicação se apegam a isso como se apegam a qualquer símbolo fácil que satisfaça seus próprios preconceitos. Jeremy Corbyn, um ciclista vegetariano e abstêmio, reúne em uma única pessoa todos os símbolos culturais de “esquisitão” – ele evita carne vermelha! Não bebe uma lata de cerveja durante os jogos, mesmo torcendo para um time de futebol! Provavelmente ele cultiva alimentos “orgânicos”, que bizarro! Um hippie extremamente suspeito, para todos os efeitos e propósitos!

O líder trabalhista anterior, Ed Miliband, de ascendência judaica, embora não seja um judeu praticante, foi coagido a comer um sanduíche de bacon – o que foi usado na capa de um jornal como uma mensagem subliminar, pouco antes das eleições de 2015. Digite o nome de Ed Miliband no Google e “Ed Miliband Sanduíche” é um dos primeiros resultados. A mensagem era universal. Olhe para ele! Ele quer liderar o país, e não consegue nem comer um sanduíche, a comida do povo, sem parecer um alienígena. Como confiar nele sobre qualquer coisa?

Com isso em mente, uma pesquisa que poderia ter sido criada por um algoritmo caça-cliques infectou a consciência britânica no final de 2018. Quando convidado a comparar o partido trabalhista com um alimento, um participante do grupo pesquisado aparentemente escolheu “quinoa”: aquele grão do dia a dia do imaginário do que seria a esquerda de classe média. As manchetes lamentavam o fato de que o Partido Trabalhista, antes o partido do “bingo, tortas e do canecão de cerveja”, agora era o partido do “protesto estudantil e da cerveja artesanal”. Isso se encaixa perfeitamente na caricatura preferida pela imprensa e grandes setores da classe política: uma modificação redutora do que seria classe, que retira qualquer vínculo com a geografia, o status econômico e a estabilidade no trabalho.

Reduzir a classe a totens preguiçosos é uma atitude paternalista em ambas as direções. Apoiadores de Jeremy Corbyn são desconsiderados como sendo pessoas de classe média, “comedores de croissant“, “moradores de Islington” (mesmo esse distrito eleitoral de Jeremy Corbyn tendo uma das maiores taxas de pobreza infantil no Reino Unido) e “bebedores de café”, ignorando o fato de que o Reino Unido tem assistido os níveis de posse de casa própria despencando, a precariedade nos contratos de trabalho explodindo e os salários não só deixando de crescer, mas caindo. Da mesma forma, desconsiderar os mais pobres com uma visão estereotipada de um eleitor mais velho, do Norte da Inglaterra, dono de um cachorro whippet, vivendo apenas de chá, tortas e canecas de cerveja, é uma atitude condescendente com uma classe inteira e intrinsecamente a codifica como sendo masculina e exclusivamente branca, apesar da crescente diversidade da classe trabalhadora no Reino Unido.

Reconhecer a complexidade das classes exige reconhecer as placas tectônicas em movimento das dinâmicas sociais no Reino Unido – como a geografia afeta as chances na vida, com as maiores proporções de riqueza sendo sugadas para Londres, deixando muitas áreas economicamente desoladas. Como os imigrantes têm sido mantidos em empregos de baixo escalão e como o trabalho sazonal depende de um fluxo constante de trabalhadores europeus dispostos a trabalhar na agricultura e nas indústrias de serviços por baixos salários. Como as bases da estabilidade que antes eram marcos da vida da classe média britânica desmoronaram, com os aluguéis como uma proporção da renda média aumentando de maneira insustentável; como a educação universitária não garante um emprego bem pago e como mais pessoas do que nunca estão presas na “nova economia compartilhada”. Culturalmente, um número considerável de pessoas com menos de 50 anos pode ser classificada como sendo de classe média, mas sua segurança financeira é efêmera, e para milhões de pessoas um salário não recebido representa o risco de ser jogado na penúria.

Compreender as mudanças na forma como as classes operam no Reino Unido é uma chave para se entender o apelo e o sucesso do Corbynismo, durante os seus anos de força crescente: não surpreende que essa tendência de rejeitar seus partidários como jovens diletantes de classe média esteja associada a uma completa falta de curiosidade pelo fenômeno da ascensão da esquerda dentro do Partido Trabalhista. Enquanto o Novo Trabalhismo e o Thatcherismo antes dele colhiam votos ao impulsionar a crença de que o ganho individual era uma preocupação muito maior do que a sorte da sociedade em geral, o Corbynismo prosperou por alguns anos porque o neoliberalismo falhou com milhões, o sistema habitacional está drenando a maioria das pessoas para financiar a minoria minúscula de proprietários de terras, e os efeitos da austeridade deixaram comunidade após comunidade com os serviços públicos reduzidos até os ossos e a rede de segurança estatal simplesmente inexistente.

O mantra pró-austeridade do ex-chanceler George Osborne “estamos todos juntos nessa” foi agressivamente ridicularizado, pois era evidente como as elites endinheiradas que causaram a crise financeira global e que constituíam os altos escalões do Partido Conservador estavam claramente isentas daquele “aperto de cinto” fiscal. Mas o argumento dele acabou por ter uma centelha de verdade, já que a austeridade inevitavelmente afundou ainda mais a economia, e os eleitores sentiram que mais e mais de seus vizinhos, filhos e amigos estavam passando por dificuldades, precipitando o entusiasmo momentâneo pelo slogan do manifesto trabalhista de 2017: “Para os muitos, não para os poucos.”

O capitalismo ampliou o acesso a algumas atividades culturais e os hábitos de consumo hoje são menos símbolos de codificação de classe social, especialmente entre os mais jovens. Porém, igualmente, a mobilidade social estagnou. Uma das razões pelas quais as preocupações com a crise imobiliária no Reino Unido estão atingindo um ápice febril é que poucas pessoas escapam dela: os jovens de classe média não conseguem fugir de moradias alugadas de baixa qualidade e seus pais estão escavando suas décadas de poupança para a aposentadoria, refinanciando as hipotecas de suas casas, ou encontrando seus filhos morando na casa da família até bem adentro da idade adulta. A classe trabalhadora britânica tradicional está sendo esmagada da mesma maneira que foi sob os conservadores pré-Blair.

E ainda assim, para muitos políticos e comentaristas, classe seria apenas um conjunto de marcadores culturais singulares, e não uma parte da existência que representa vida ou morte, o sentimento que milhões têm de que estão sendo explorados por um sistema que não se preocupa com eles. Lamentavelmente, esse mesmo sentimento pode ser explorado para impulsionar a demagogia de Extrema-Direita, como demonstrado por todo o quiprocó em torno do Brexit e na eleição de uma figura como Boris Johnson para primeiro ministro. Enquanto a elite política continuar a zurrar sobre o consumo de café e ignorar o quanto a economia do Reino Unido é uma farsa, as pessoas deveriam relegá-la à desaparecer em sua irrelevância.

Sobre o autor

Dawn Foster é escritora da equipe jacobina, colunista do The Guardian e autora do livro "Lean Out".

1 de outubro de 2018

Sobre a natureza do sistema econômico chinês

Há um debate considerável na China sobre a natureza da economia, incluindo o reconhecimento de tendências em direção ao capitalismo de estado. Conseqüentemente, a maioria dos escritores concentra-se na teorização dos muitos caminhos possíveis que a economia poderia tomar - seja em direção ao capitalismo ou fora dele. O presente artigo dá um passo adiante, argumentando que o sistema chinês hoje ainda contém alguns componentes-chave do socialismo e é compatível com um mercado, ou socialismo baseado no mercado, que é claramente distinto do capitalismo.

Zhiming Long, Rémy Herrera e Tony Andréani 

Monthly Review Vol. 70, No. 05 (October 2018)

Debates marxistas sobre a China

Tradução / Hoje em dia, os dirigentes chineses não negam a existência na sua economia um importante sector privado capitalista, autóctone ou estrangeiro. Em geral, eles o consideram antes como um dos componentes de uma economia mista em que a predominância é concedida ao sector público e em que o poder do Estado deve ser reforçado. Os discursos de numerosos líderes avançam que a China ainda se encontraria na "fase primária do socialismo", etapa considerada incontornável para desenvolver as forças produtivas e que exige muito tempo até a sua conclusão. O objectivo histórico permaneceria entretanto o do socialismo desenvolvido – mesmo se, é verdade, seus contornos estarem longe de serem claramente definidos. Serão tais declarações apenas de fachada, a roupagem de uma forma de capitalismo? Mereceriam elas serem tomadas a sério? O socialismo estaria morto e enterrado na China? Não pensamos assim.

Entretanto, nos debates entre autores marxistas, uma clara maioria deles afirma que a economia chinesa seria agora capitalista. Assim, Harvey (2005) crê detectar desde as reformas de 1978 um "neoliberalismo com características chinesas" em que um tipo singular de economia de mercado teria incorporado cada vez mais componentes neoliberais accionados no quadro de um controle centralizado muito autoritário. Arrighi (2009), para explicar o êxito da economia chinesa, mobiliza por sua vez uma releitura a contra-corrente da obra de Adam Smith, mais progressista do que o reconhecem seus discípulos partidários do liberalismo. Segundo ele, as elites chinesas utilizariam "o mercado como ferramenta de governo". Panitch e Gindin (2013) analisam as implicações da integração da China nos circuitos da economia mundial e vêem nisso menos a oportunidade de reorientar o capitalismo global do que a duplicação pela China do papel de "complemento" outrora mantido pelo Japão, fornecendo aos Estados Unidos os fluxos de capitais necessários para conservar sua hegemonia mundial, de onde uma tendência à liberalização dos mercados financeiros conduzindo ao desmantelamento dos instrumentos de controle dos movimentos de capitais e minando as bases do poder do Partido Comunista Chinês (PCC). [1] Outros marxistas, certamente mais raros, mas não menos importantes, chineses ou estrangeiros, [2] continuam entretanto a defender a ideia de que o sistema em vigor na China, ainda que assimilável a um capitalismo de Estado, deixaria aberto um vasto leque de trajectórias possíveis para o futuro. No presente artigo, levaremos mais adiante esta ideia, ao ponto de sustentar que o sistema chinês hoje contém ainda elementos chaves do socialismo. Assim, a interpretação da sua natureza torna-se compatível com a de um socialismo de mercado, ou com mercado, repousando sobre pilares que o distinguem ainda bastante claramente do capitalismo.

Características do socialismo de mercado à chinesa

Para Marx, o capitalismo implica uma separação muito forte entre o trabalho e a propriedade dos meios de produção, enquanto os detentores do capital seriam eles próprios tendencialmente colectivos, já não efectuando trabalho na produção. Isso se realiza plenamente no capitalismo financiarizado actual em que a gestão é delegada a administradores e o lucro da empresa assume a forma de valor accionista. De acordo com este critério fundamental de definição do capitalismo, verifica-se que numerosas pequenas empresas chinesas têm mais a ver com a produção familiar ou artesanal do que com o modo de produção capitalista estrito. Além disso, a lógica do capitalismo é a da maximização do lucro distribuível aos proprietários. Ora, não é isto que se observa nas grandes empresas públicas chinesas, como mostra a fraqueza (mesmo a inexistência) dos dividendos entregues ao Estado, assemelhando-se ao invés a um imposto sobre o capital. A separação capital-trabalho é muitas vezes relativa na China: ela é limitada nas empresas públicas, o que impede de considerá-las rigorosamente como uma forma de capitalismo de Estado, e mais ainda na economia dita "colectiva" onde os trabalhadores participam na propriedade do capital ou têm mesmo a propriedade como nas cooperativas (por acções ou não) e nas comunas populares preservadas. Naturalmente, mesmo nestas entidades colectivas os trabalhadores permanecem "separados" da gestão, mas toda esta economia colectiva não estatal não pode ser ignorada e não poderia ser classificada sob a bandeira do "capitalismo".

Fazemos uma leitura do sistema chinês como um socialismo de mercado, ou com mercado. Assim, este socialismo repousaria sobre os dez pilares seguintes, em grande medida estranhos ao capitalismo:

  1. a persistência de uma planificação poderosa e modernizada, que assume modalidades diversas e mobiliza instrumentos distintos conforme os sectores a que se refere;
  2. uma forma de democracia política tornando possíveis as escolhas que estão na base desta planificação;
  3. serviços públicos muito extensos, que condicionam a cidadania política, social e económica e, enquanto tais, estão fora do mercado ou fracamente mercantilizados;
  4. uma propriedade da terra e dos recursos naturais que permanece no domínio público, estatal ao nível nacional, colectivo ao nível local, garantindo assim o acesso à terra pelos camponeses;
  5. formas de propriedade diversificadas adequadas à socialização das forças produtivas: empresas públicas (diferindo das firmas capitalistas, nomeadamente pela participação dos trabalhadores na gestão), pequena propriedade privada individual ou propriedade socializada – sendo a propriedade capitalista, durante uma transição socialista longa, mantida e mesmo encorajada, para dinamizar a actividade e incitar as outras formas de propriedade à eficácia;
  6. uma política geral consistente em aumentar os rendimentos do trabalho em relação às outras fontes de rendimentos;
  7. a promoção manifestada da justiça social numa perspectiva igualitarista;
  8. a preservação da natureza, considerada como indissociável, não antagónica do progresso social, como objectivo do desenvolvimento a fim de maximizar a riqueza efectiva,
  9. relações económicas entre Estados fundamentadas sobre um princípio ganhador-ganhador;
  10. relações políticas entre Estados repousando na busca da paz e das relações mais equilibradas entre os povos.

A análise de cada um destes pontos não é indiscutível e é objecto de debates ásperos tanto na China como no exterior – debates que estão longe de estarem resolvidos, mas que existem e devem ser aprofundados sem a priori nem ideias preconcebidas. Apesar das críticas, veremos que ao confrontar o "socialismo à chinesa" com esta grelha de leitura, ele não está muito afastado. [3]

Empresas públicas, serviços públicos, planificação

Na China, a justificação das empresas públicas é tripla: elas podem distribuir mais a seus assalariados; o Estado é livre para nelas definir o modo de gestão (em matéria salarial nomeadamente); e ele pode mais facilmente colocá-las ao serviço dos seus projectos. Através das ferramentas ao dispor do organismo de gestão das participações, o Estado afecta os dividendos recebidos a um fundo especial de sustentação das empresas públicas, as quais beneficiam igualmente de vantagens em matéria de crédito e de taxa de juro. Isto se inscreve portanto numa via socialista.

Uma explicação para a força destas empresas públicas é que elas não são geridas como as firmas privadas ocidentais, cotadas em Bolsa e orientadas para a maximização do valor das acções por distribuição de dividendos, valorização das acções e retorno sobre o investimento porque pressionam sub-contratantes, locais ou deslocalizados. Se elas se comportassem de modo tão predatório, estas empresas públicas chinesas agiriam em detrimento do tecido industrial local, o que manifestamente não é o caso. Teríamos então negócios sob uma forma selvagem de "capitalismo de Estado" (como se pretende frequentemente) e não se vê como ele poderia produzir um crescimento económico tão dinâmico. Estas empresas públicas chinesas são (ou são tornadas) rentáveis porque a bússola que as guia não é o enriquecimento dos accionistas, mas sim o investimento produtivo e o serviço prestado aos seus clientes. Pouco importa que os seus lucros sejam menos elevados que os dos seus concorrentes ocidentais se eles servem parcialmente para estimular o resto da economia.

Uma das especificidades destas empresas públicas é, assim, a de entregar apenas poucos dividendos ao Estado accionista (cerca de 10%). Hoje, numerosos peritos internacionais preconizam aumentar estes dividendos e a Comissão de Regulação da Bolsa parece por vezes estar de acordo. Esta orientação, inspirada nas práticas capitalistas ocidentais, não parece a boa fórmula, pois as empresas públicas ficariam então privadas dos seus trunfos principais e, mesmo controladas pelo Estado, teriam tendência a distribuir sempre mais para obterem os favores dos accionistas privados, como fazem as firmas ocidentais – que dependem elas próprias muito frequentemente das estratégias de carteira dos oligopólios financeiros mundialmente dominantes. Aqui, mais valeria que o Estado chinês instaurasse um imposto sobre o capital, na forma de renda (loyer) pela colocação à disposição dos seus bens e que as empresas lucrativas pudessem conservar uma parte maior dos benefícios para fins de investimento e de I&D.

Na nossa opinião, as empresas públicas chinesas não devem ser geridas como firmas privadas. O "socialismo de mercado à chinesa" repousa sobre a manutenção de um poderoso sector público com papel estratégico na economia. Tudo leva a pensar que esta é uma das explicações essenciais dos desempenhos da economia chinesa, não obstante os neoliberais exaltarem a propriedade privada e a maximização do lucro individual. Isto sem dúvida também está ligado ao porte destas empresas, mastodontes a engendrarem economias de escala que reduzem os custos a todos os níveis e fornecem a uma miríade de pequenas e médias empresas insumos (intrants) baratos que asseguram condições de fabricação competitivas no mercado.

Uma "superioridade" das empresas públicas chinesas é a participação (limitada, mas real) do pessoal na gestão, através dos seus representantes no Conselho de Fiscalização e no Congresso dos Operários. A lógica accionista iria ao encontro de uma tal participação, que é preciso reforçar. Outra vantagem é que as empresas públicas podem mais facilmente responder aos objectivos da planificação. Não se trata de lhes impor tarefas políticas que poriam em causa a sua autonomia e onerariam os seus resultados. Mas ao controlar a nomeação e a gestão dos dirigentes, os poderes públicos, de que dependem empresas muito numerosas, têm os meios de assegurar que eles agem como convém aos serviços públicos – mas também aos sectores mercantis, que o plano pode orientar (por subvenções, fiscalidade, ...).

Na China, os serviços sociais (educação, saúde, reformas, ...) estão na totalidade ou na grande maioria nas mãos do Estado – governo central ou, mais frequentemente, governos locais. Tais serviços não fornecem bens mercantilizados pelo sector privado, mas bens sociais, necessários ao exercício da cidadania, dando aos indivíduos a capacidade de serem simultaneamente sujeitos políticos, sociais e económicos (formados, em boa saúde, tendo acesso ao emprego, com equipamentos de transporte, informados, etc). Mas a concepção chinesa estende os serviços públicos aos "bens estratégicos", fornecendo insumos essenciais ao resto da economia: energia, infraestruturas, materiais de base e mesmo serviços bancários ou investigação. Se o sector privado serve de complemento ou estimulante, o sector público é favorecido pelo Estado no exercício da concorrência. Esta concepção ampla dos serviços públicos "estratégicos" constitui uma das maiores forças da economia chinesa. O que está aqui em causa é a soberania nacional.

Um traço notável do sistema político-económico chinês é a sua possante planificação que, apesar de ter mudado seus objectivos e instrumentos no decorrer das últimas décadas, continua a ser aplicada. Os discursos apresentados a cada ano diante da Assembleia Nacional Popular indicam se os objectivos quantificados inscritos no plano quinquenal foram realizados – e frequentemente é o caso –, e dão a conhecer o que esperar para o ano seguinte. Esta planificação, que se projecta para o futuro num mundo de incertezas, é o lugar onde são elaboradas e decididas as escolhas colectivas, expressão de uma vontade geral. Ela é o espaço onde uma nação escolhe um destino comum e o meio de um povo de se tornar o mestre, em todos os domínios da existência: modo de vida, modos de consumir, de se alojar, de ocupar o espaço... É o PCC que, hoje, efectua estas escolhas para os cidadãos – o princípio da consulta estando cada vez mais colocado como necessidade. Esta planificação "estratégica" forte, com técnicas modernizadas, adaptadas às exigências do tempo presente e que têm eficácia (taxas bonificadas, controle dos preços, encomendas públicas, etc) é um traço distintivo de uma via socialista.

Entretanto, com toda evidência, estamos hoje bem longe do ideal igualitarista do socialismo. A China é um país onde as desigualdades sociais são fortes. A aplicação da linha igualitarista foi "suspensa" para acelerar o crescimento (daí a palavra de ordem "enriquecer-se antes dos outros"), depois foi novamente retomada com a recente promoção de temas de justiça social. A defesa da "moral socialista" pelos responsáveis do PCC pode prestar-se ao cepticismo, mesmo aos sarcasmos, quando se sabe dos comportamentos da China actual: consumismo, negocismo, arrivismo, gosto do luxo, corrupção... Mas não se deve tomar este discurso moral com ligeireza: é o do Estado chinês, constantemente oposto a esta degradação dos costumes. Se ele se inscreve numa certa continuidade com a tradição, muitas vezes reivindicada, esta ética reclama-se da modernidade dos ideais do socialismo e não de uma justiça social restrita a uma redistribuição limitada dos rendimentos, de uma equidade justificando uma "justa desigualdade" e definida como ligeira melhoria da sorte dos destituídos e de uma democracia representativa que confisca de facto a participação do povo. Mas é no sector púbico que o Estado dispõe dos meios eficazes para reduzir realmente estas desigualdades. Podem aqui ser activados a participação dos trabalhadores na gestão e o papel de "locomotiva social" desempenhado pelas empresas públicas. Eis um argumento a mais que milita em favor de um reforço do sector público.

Controle do sistema bancário e dos mercados financeiros

Alguns julgam o sistema financeiro chinês obsoleto e apelam à sua modernização, devido ao auge dos mercados financeiros que seria, segundo eles, indispensável ao crescimento. [4] A reformas deste sistema financeiro aceleraram-se desde 2005 e tomaram a forma de uma abertura do capital dos bancos do Estado e da criação de bolsas de valores. Elas seguiram as das empresas públicas, tomadas anteriormente. Estas últimas haviam sido autonomizadas em relação às orientações do Plano, transformadas em sociedades por acções e incitadas a adoptar critérios de gestão mercantis, a inspirarem-se em métodos da finança de mercado e a desenvolver parcerias com investidores externos. A introdução em bolsa dos grandes bancos (Bank of China, Industrial and Commercial Bank of China e China Construction Bank) foi antecedida pela entrada de instituições estrangeiras na sua estrutura de capital (respectivamente Goldmann Sachs, UBS et Bank of America), a fim de facilitar a aprendizagem da corporate governance . Entretanto, o sistema de financiamento da economia chinesa hoje continua fundamentado na intermediação bancária – ainda que tenda a afastar-se bastante rapidamente, pois as autoridades políticas pretendem encontrar um "equilíbrio" entre os sistemas de financiamento pelos mercados financeiros e pelo crédito bancário.

Mas não se pode confundir "modernização" e adopção da via capitalista. Está longe de ser claro que uma opção em favor da finança de mercado tenha sido feita definitivamente, pois permanecem maciças as intervenções das autoridades monetárias no sistema financeiro e é perceptível o pragmatismo da sua actuação. Os poderes públicos chineses procedem de facto por solavancos, por avanços e recuos num contexto de integração mais aprofundado, mas contraditório, do país na mundialização. Isto aconteceu sobretudo nas fases de enfraquecimento do crescimento económico após 2007, marcadas por uma activação dos créditos bancários corrigindo as falhas da finança. Na viragem dos anos 1990, os bancos que se haviam empenhado em operações aventurosas (finança, seguros, imobiliário...) foram proibidos de o fazer entre 1992 e 1995, na sequência das desordens provocadas pela crise de 1989-1991 – ainda que tenham sido desde então autorizadas a efectuar operações mistas combinando crédito bancário e mercados financeiros. Mais recentemente, depois de 2008, como já vimos, as autoridades chinesas foram obrigadas a reagir firmemente para limitar o impacto social desestabilizador da crise mundial, fazendo evoluir o quadro institucional ao dotarem-se de instrumentos poderosos de controle e consolidarem suas estratégia de desenvolvimento.

Na China, a tese da "eficiência dos mercados financeiros" não tem partidários, como testemunham os apelos a uma nova ordem monetária e financeira mundial lançados regularmente pelos líderes políticos do país, que conhecem as vantagens da intermediação bancária e estão conscientes das graves disfunções dos mercados financeiros. Estes dirigentes preferem conservar o essencial do sistema bancário sob o controle do Estado, esforçando-se por melhorá-lo, repugnando-lhes abandonar o modelo de "banco universal" e orientando-se antes para um esquema consistente em tolerar operações mistas, mas efectuadas nas filiais especializadas, separadas do holding público e colocadas sob a vigilância da Comissão de Regulação bancária.

Além disso, as taxas de juro permanecem amplamente administradas, apesar das reformas iniciadas. Para aquelas que foram liberalizadas, a oferta de crédito é fortemente controlada pelo Banco Central, nomeadamente através das reservas obrigatórias. E o afrouxamento dos constrangimentos impostos aos bancos para fixar as taxas aplicadas aos depósitos não deve fazer esquecer que historicamente as autoridades monetárias voluntariamente reduziram ao mínimo (sob o ritmo da inflação) a remuneração destes depósitos – o que não influenciou a taxa de poupança nacional, muito elevada. Uma das especificidades (e forças) da China é a torção voluntarista dos preços dos factores. O governo teve razão em não deixar o mercado fixar "livremente" o preço do dinheiro de modo a continuar como mestre da oferta de crédito, difícil de controlar mas vital para a economia. As autoridades estatais, que têm uma visão macroscópica dos riscos, são as únicas em condições de guiar a economia no seu conjunto em função de um plano. Taxas de juros administradas não permitem ajustar rapidamente a oferta de poupança das famílias e as necessidades de financiamento das empresas, conviria talvez preferir um regime de taxas "semi-administradas", com tectos para a oferta de créditos e pisos para a remuneração da poupança – modificando estas taxas conforme as necessidades do plano. Mas neste debate sobre as taxas de juro, pendemos para a manutenção de um certo dirigismo.

A ampliação da esfera privada implica logicamente uma expansão do mercado de acções. Mas segundo a nossa opinião, este último deveria permanecer limitado. Se ele tem a sua utilidade para o sector privado, as empresas públicas em contrapartida deveriam ter cada vez menos necessidade na medida em que expandem suas capacidades de auto-financiamento e dispõem dos fundos de Estado para realizar aumentos de capital. A abertura do mercado de acções aos actores internacionais está no momento restrita aos investidores "qualificados". Os poderes públicos, que desconfiam – com razão – dos movimentos de capitais especulativos, até agora têm proibido às firmas estrangeiras emitirem acções em yuans sobre o mercado interno. Afrouxar estes travões, em particular para avançar rumo à plena convertibilidade do yuan e das suas supostas vantagens, equivaleria a submeter-se aos oligopólios financeiros, especialmente estado-unidenses. O recurso ao mercado de acções deveria permanecer tão limitado quanto possível e não conduzir a um alinhamento na prática do valor accionista. A poupança chinesa é bastante abundante para ser mobilizada por investidores institucionais nacionais, aos quais além disso se pode impor limites de rentabilidade.

Uma estratégia de desenvolvimento coerente e auto-centrada

Um traço frequentemente sublinhado para descrever o êxito desta economia é o florescimento das suas exportações de bens e serviços desde o princípio dos anos 1990 e, sobretudo, 2000. Conclui-se apressadamente que estas exportações seriam o motor do crescimento do país. Isto é esquecer que a estratégia de desenvolvimento, concebida e aplicada com regularidade e pragmatismo pelos dirigentes chineses, apoia-se num modelo mais auto-centrado do que parece, repousando – é um dos "segredos" dos seus desempenhos nos mercados mundiais, ainda que isso desagrade aos neoliberais – na manutenção de um sector estatal muito poderoso (na energia, nos transportes, nas telecomunicações, nos materiais de base e produtos semi-acabados, na construção, mas também no sistema bancário, etc), com papel dinamizador para o conjunto do tecido económico local.

Na China, a grande maioria dos empresários dos sectores manufactureiros chineses interessa-se sobretudo pelos mercados internos para as suas produções. É sobretudo o florescimento da procura interna, estimulada por um consumo das famílias em crescimento acentuado e pelas importantes despesas de capital do Estado que conduz os seus programas de investimento rumo ao optimismo. Graças aos progressos da inovação tecnológica em todos os domínios (inclusive das telecomunicações, na robótica, no espaço, etc), cada vez mais dominados nacionalmente, o esquema produtivo do país pôde evoluir do made in China para o made by China.

O ritmo acelerado dos ganhos de produtividade do trabalho permite acompanhar a alta rápida dos salários reais industriais, sem que o aumento de peso dos custos do trabalho chinês relativamente aos outros países concorrentes do Sul deteriore a competitividade. As exportações – tal como os investimentos directos estrangeiros, pois mais da metade das exportações são feitas por firmas estrangeiras implantadas na China – desempenham um papel complementar. Isso permite compreender porque em 2011, por exemplo, a contribuição líquida negativa das exportações para o crescimento do PIB (-5,8%) não prejudicou o dinamismo deste último (cerca de +10%), nem entravou a alta das margens de lucro. A previsão de crescimento do PIB para 2018 é de 6,7% (com uma taxa de inflação de 1,5%), com contribuições estimadas de 4,5% para o consumo, 2,0% para o investimento, mas apenas 0,2% para as exportações.

Ouve-se frequentemente dizer que o êxito das exportações chinesas seria devido ao custo muito baixo da mão-de-obra. O argumento é insuficiente: os custos de mão-de-obra não representam de facto senão uma parte fraca dos preços de venda (5% a 10% em média), o que não compensa – ainda que os salários chineses tenham tendência para crescer mais rapidamente que os dos concorrentes do Sul – os custos de transporte para os países importadores. O êxito da China na exportação deve-se numa grande medida aos custos menos pesados dos insumos fornecidos por empresas públicas a preços muito mais baixos, pois fixados ou fortemente controlados pelo Estado (exemplo: os combustíveis). Certamente os salários chineses são claramente mais baixos do que no Norte, mas bem mais elevados do que os pretensos "salários de miséria".

Em resposta à crise de 2008, cujo impacto na China se fez sentir alguns anos mais tarde, as políticas anti-crise do Estado têm visado corrigir os desequilíbrios da economia, nomeadamente por um florescimento maciço das infraestruturas públicas (inclusive em zonas rurais), pela promoção de novos pólos urbanos de porte intermediário no interior do país e pela adopção de medidas favoráveis à população agrícola. [5] Os rendimentos líquidos das famílias rurais aumentaram assim, em termos reais e per capita, significativamente mais rápido que os das zonas urbanas. Portanto, as partes consagradas ao consumo no rendimento nacional aumentam em relação à do investimento. Os serviços às famílias e às empresas progridem. O imobiliário também está controlado, em particular pelo crédito.

O destino do yuan

Ainda assim, o florescimento das exportações chinesas de bens e serviços – além das de capitais (refinanciamento do Tesouro estado-unidense, reestruturação de dívidas soberanas na Europa) [6] – cristaliza um outro ponto de tensão. A moeda chinesa, o renminbi, cuja unidade monetária é o yuan, estaria sub-avaliada, lê-se frequentemente no Ocidente, e portanto estaria na origem da persistência de défices comerciais bilaterais com a maior parte dos países do Norte, a começar pelos Estados Unidos [7] . As pressões exercidas por Washington no sentido de uma apreciação do renminbi frente ao dólar deparam-se com a resistência de Beijing, mas redundaram em várias reavaliações – a última datando de Abril de 2012, após a de Julho de 2005. Entre o Verão de 2005 (quando a China decide deixar de ligar as variação da sua moeda ao dólar) e a Primavera de 2012, o valor do renminbi apreciou-se em termos reais em 32% relativamente ao dólar. [8] Mas a lenga-lenga continuou: os produtos exportados pela China, já baratos, seriam tornados ainda mais competitivos por uma moeda depreciada artificialmente...

Sabe-se que as discussões sobre o "justo valor" das moedas, articuladas sobre decisões de políticas comerciais, são polémicas. Ora, dentre os critérios disponíveis, a relação saldo da balança das contas correntes sobre PIB é a mais utilizada pela administração estado-unidense. O referencial assim considerado para definir a taxa de câmbio "de equilíbrio" é um rácio excedente ou défice da balança de pagamentos correntes sobre PIB no intervalo entre +/- 3 ou 4%. Ao aplicar este critério à China, marcado pelo peso das trocas bilaterais com os Estados Unidos, vê-se que o rácio retrocede de 10,6% em 2007 para 2,8% em 2011 e 1,4% em 2012. A "sub-valorização" do renminbi não é evidente quando se utiliza o benchmark mais praticado nos Estados Unidos. O que não impede estes últimos, apesar dos graves desequilíbrios que caracterizam a sua economia, de prosseguir o que se assemelha a uma "guerra das moedas", por depreciação do dólar no mercado de câmbios, para impor a Beijing os termos daquilo que alguns chamam uma "capitulação" [9] – e um de cujos efeitos é desvalorizar as reservas em divisas da China, maioritariamente detidas em dólar.

Um renminbi internacionalizado, especialmente para transformá-lo em moeda de reserva global, exigiria a adopção de condições muito estritas: a abertura da conta de capital, assim como a flexibilidade da taxa de câmbio; a integração dos mercados financeiros chineses no sistema mundial capitalista; políticas macroeconómicas (de luta contra a inflação, de limitação do endividamento público, etc) que visem a obtenção da "confiança" dos mercados; e uma dimensão crítica da economia que justificasse esta ambição de internacionalização da moeda. As duas primeiras condições são exigências sine qua non; as duas últimas, não – e aliás nem sempre têm sido respeitadas pelos países do Norte com moedas utilizadas como reservas internacionais.

A dimensão crítica evidentemente já foi atingida: o peso da China coloca-a no segundo lugar mundial quanto ao PIB, atrás dos Estados Unidos, e entre estes últimos e a zona quanto às exportações. O critério relativo às políticas macroeconómicas parece igualmente cumprido, na medida em que a adopção das medidas anti-inflacionistas, de controle das contas públicas e de domínio do curso do renminbi trouxeram os seus frutos nestes últimos anos. Se as pressões inflacionistas permanecem um perigo, o índice de estabilidade dos preços é melhor na China do que nos outros BRICS. O endividamento das administrações públicas está contido a níveis menos elevados do que na maior parte dos próprios países ocidentais. Os índices de variabilidade da moeda nacional mostram também um renminbi menos instável que o real, a rupia, o rublo e o rand. Contudo, quanto à abertura da conta de capital e à integração mais profunda dos mercados financeiros chineses no sistema mundial, é forçoso reconhecer que, apesar da adopção de mecanismos de mercado em matéria de política monetária e da flexibilização das regulamentações relativas à conta de capital e à paridade do renminbi, as autoridades monetárias chinesas continuam a dispor de poderosas ferramentas de controle. Além disso, e sem estar totalmente ausente, o renminbi ainda é pouco utilizado nos mercados de produtos derivados over-the-counter , e concentrado nos instrumentos clássicos de cobertura (forwards) [10] .

A internacionalização da moeda traria benefícios à China, a começar por um "direito de seignieuriage" , bem visível no caso dos Estados Unidos. Entretanto, uma tal orientação significaria uma submissão prejudicial do país à alta finança mundial dominante, portanto uma perda relativa de controle da política monetária. Como é que a China chegaria a tirar proveito de um renminbi internacionalizado sem pagar demasiado caro – renunciando ao pleno exercício da sua soberania nacional e vendo recusar a autonomia da sua estratégia de desenvolvimento? Hoje, as pressões internas em favor de uma liberalização dos mercados financeiros são fortes, mas ficam atenuadas por discursos oficiais tranquilizantes, críveis, sobre o controle do processo de reformas. Mas estas pressões tornam-se preocupantes quando coincidem com as recomendações dos peritos do FMI ou dos líderes ocidentais que convidam a China a escolher a via do neoliberalismo – e se necessário, integrando o renminbi no cabaz monetário dos Direitos Especiais de Saque . Sobre o assunto, os dirigentes chineses, em geral com declarações nuançadas e prudentes, estão conscientes dos perigos que um renminbi internacionalizado implica para o futuro do socialismo de mercado. Esperamos que saibam resistir às sereias do liberalismo. Nesse meio tempo, eles reforçam suas parcerias com o Sul e o Leste, em particular no quadro do grupo de Shangai, e reabrem uma rota da sede para afrouxar a morsa do cerco agressivo dos Estados Unidos.

Conclusão

A evolução das relações entre, por um lado, o PCC no poder e o bloco social sobre o qual ele se apoia – classes médias beneficiárias do crescimento e empresários privados –, e, por outro, massas operárias e camponesas, que vão no sentido de uma restauração do capitalismo ou então de uma reactivação de um compromisso social mais favorável às classes populares, opera sobre perspectivas de confrontações de grande amplitude entre as forças políticas em presença, e sobre trajectórias divergentes de estruturas da economia. [11] Uma questão subsiste: como as elites dirigentes, cuja legitimidade se vê reforçada pelas repercussões positivas geradas pelo crescimento, chegariam a renovar as condições da "success story" do país sem se apoiarem sobre uma modificação da correlação de forças interna em favor das classes populares e sem reorientar o "projecto nacional" para uma prioridade às políticas sociais? Pois a escolha da via capitalista assumida francamente por estas elites, conducente a quebrar o equilíbrio dinâmico do sistema e a perder o controle sobre contradições crescentes, não garantiria o fracasso da estratégia adoptada até agora? Uma outra preocupação surge: qual será a atitude dos Estados Unidos, inclusive do ponto de vista militar, frente ao reforço de poder da China? O futuro desta última permanece em grande medida indeterminado, pela sua dinâmica própria, mas também porque o capitalismo dos oligopólios financeiros do Norte parece querer entrar frontalmente em conflito com ela – apesar da sua estreita interdependência. Por isso, continuamos a pensar, o sistema político-económico em vigor na China continua a conter elementos (e potencialidades de reactivação) do socialismo, assim como possibilidades de transformação da ordem global, no sentido da construção lenta e progressiva de um mundo multipolar, frente ao hegemonismo estado-unidense. 

Notas

[1] Ver: Harvey D. (2005), A Brief History of Neoliberalism, New York: Oxford University Press; Arrighi G. (2009), Adam Smith in Beijing: Lineages of the 21st Century, London: Verso; Panitch L. and S. Gindin (2013), "The Integration of China into Global Capitalism", International Critical Thought, (3)2, 146-158.
[2] Por exemplo: Wen T. (2001), "Centenary Reflections on the ' Three Dimensional Problem, ' of Rural China", Inter-Asia Cultural Studies , 2(2), 287-295. Amin S. (2013), "China 2013", Monthly Review , 64(10), online.
[3] Andreani T. and R. Herrera (2015), "Which Economic Model for China?", International Critical Thought, 5(1), 111-125.
[4] Mishkin F. (2010), The Economics of Money Banking and Financial Markets, Upper Saddle River: Pearson.
[5] Wong E. e T. Sit (2015), "Rethinking 'Rural China'", in Herrera R. and K.-C. Lau (dir.), The Struggle for Food Sovereignty, 83-108, London: Pluto Press.
[6] Ler: "More UK equities for China?", Financial Times, 3 June 2011.
[7] Ver os relatórios do US Congressional Research Service.
[8] Bank for International Settlements (BIS).
[9] Wolff M. (2010), Financial Times, 12 October 2010.
[10] Herrera R. (2014), "A Marxist Interpretation of the Current Crisis", World Review of Political Economy, 5(2), 128-148.
[11] Amin S. (2010), "Prefacio", in Herrera R., Avances revolucionarios en América Latina, Quito: FEDAEPS.

Zhiming Long é professor assistente na Escola de Marxismo da Universidade de Tsinghua, Pequim, República Popular da China. Rémy Herrera é pesquisador do National Centre of Scientific Research e do Centre d'Économie de la Sorbonne em Paris, França. Tony Andréani é Professor Emérito de Ciência Política na Universidade de Paris 8 Saint-Denis, Saint-Denis, França.

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