22 de junho de 1995

Ur-Fascismo

Liberdade e libertação são uma tarefa sem fim.

Umberto Eco


June 22, 1995 issue

Tradução / Em 1942, quando tinha dez anos, recebi o Primeiro Prêmio Provincial do Ludi Juveniles (uma competição voluntário-compulsória para jovens fascistas italianos, isto é, para todos os jovens italianos). Eu discorrera com destreza retórica sobre o tema: "Deveríamos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália? Minha resposta foi afirmativa. Eu era uma criança esperta.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício.

Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder a resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos... aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade...”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica.

Alguns dias depois vi os primeiros soldados americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j'aime le champagne...” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d'água para que ficasse fresco para o dia seguinte.

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido liberados.


Hoje na Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela liberação. Penso que, também para os jovens americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.

Hoje na Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.

Grudado ao rádio, passava as noites – as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso – escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem legendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A liberação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.

Hoje na Itália tem gente que diz que a guerra de liberação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.

Mas quem são “eles”?

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do Movimento Social e Italiano (MSI), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?


Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos.

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem "Por quem os sinos dobram", de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e de seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” - entendendo com isso que combater Hitler nos anos 40 era um dever moral de todo bom americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 30, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazista”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários.

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini.


O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se – conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 30 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista.

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contra-revolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prêmios artísticos: o Prêmio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prêmio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceito.

O poeta nacional era D'Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do heroísmo –com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês.

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d'Italia, que tratava o luar com grande respeito.

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas idéias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los.

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro.

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).


A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”:

1 2 3 4

abc bcd cde def

Suponhamos que exista uam série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.


A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra-reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.

Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.

Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo.

Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabem muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heróica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte. 


12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma invidia penis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia ou do estádio de Nuremberg. Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo da TV ou da Internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “Voz do Povo”. 

Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no parlamento italiano foi: “Eu poderia ter transformado esta assembléia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do parlamento por não representar mais a “Voz do Povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.


Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. 

Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista. Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” - Deus meu -, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está a nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”.

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:

Na amurada da ponte
A cabeça dos enforcados
Na água da fonte
A baba dos enforcados 
No calçamento do mercado
As unhas dos fuzilados
Sobre a grama seca do prado
Os dentes dos fuzilados 
Morder o ar morder as pedras
Nossa carne não é mais de homens
Morder o ar morder as pedras
Nosso coração não é mais de homens. 
Mas lemos nos olhos dos mortos
E sobre a terra a liberdade havemos de fazer
Mas estreitaram-na nos punhos os mortos
A justiça que se há de fazer.

2 de junho de 1994

O triunfo do capital financeiro

Este artigo foi originalmente uma palestra apresentada em uma conferência organizada pela Associação de Graduados da Faculdade de Economia da Universidade de Istambul, Turquia, em 21 de abril de 1994.

Paul M. Sweezy


Monthly Review Vol. 46, No. 02 (June 1994)

Tradução / O assunto desta conferência é "Novas Tendências na Turquia e no Mundo". Eu não devo tentar dizer qualquer coisa sobre as novas tendências na Turquia, parcialmente devido à minha ignorância, mas fundamentalmente porque a Turquia é parte do mundo e neste período a mãe de todas as novas tendências possui natureza global. Para compreender o que está acontecendo em qualquer parte do mundo, deve-se começar a partir do que está acontecendo no mundo todo. A máxima de Hegel que diz "A Verdade está no todo", jamais foi tão verdadeira e relevante como hoje. Em uma passagem muito citada, escrita em 1936, John Maynard Keynes disse:

"É provável que os especuladores não causem prejuízos como as bolhas num rio caudaloso quando o empreendimento é estável e a economia é saudável. Mas a situação é grave quando a bolha vira um redemoinho e o negócio torna-se mera especulação. Quando o desenvolvimento de capital de um país toma-se um subproduto das atividades de um cassino, é provável que a tarefa seja mal feita."

Presumivelmente, Keynes estava aludindo à situação que existia nos anos 20 nos Estados Unidos, o país capitalista mais avançado do mundo. Hoje, esta passagem tem o tom sinistro de uma profecia que estava para ser completamente realizada há mais de um século atrás, nos anos 80 e 90 — não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo.

O capital financeiro, uma vez liberado do seu papel original de ser apenas um catalisador modesto de uma economia eminentemente de produção, para atender às necessidades humanas torna-se sempre um capital especulativo, mantendo-se exclusivamente para sua própria auto-expansão. Em tempos anteriores, ninguém nunca sonhou que o capital especulativo, um fenômeno tão antigo quanto o próprio capitalismo, pudesse se desenvolver para dominar uma economia nacional, deixando desprotegido o mundo inteiro. Mas isto ocorreu.

Esta é a realidade que enfrentamos hoje. Suas conseqüências terríveis são visíveis por todos os lados, a partir dos 35 milhões de desempregados nos países industrialmente avançados, até o recrudescimento da pobreza e da miséria no Terceiro Mundo e a deterioração ecológica incontrolada em todo lugar.

O que está em questão aqui e que precisa ser explicado é como tudo isto aconteceu. A acumulação de capital sempre foi a força motora do sistema capitalista e tem sido tratado como tal por todas as principais escolas de análise econômica — clássica, marxista e neoclássica. Tomou-se como certo de um modo geral, que a acumulação de capital contribui para a riqueza, renda e padrão de vida dos países nos quais isto ocorre. Sempre houve, naturalmente, um outro lado para o processo de acumulação — os pânicos periódicos e as quebras aos quais o mesmo está propenso, os benefícios desiguais conferidos a vários segmentos da população, etc. Mas no todo, tem sido e ainda é visto como um processo necessário, cujos aspectos positivos têm de longe mais importância que os negativos.

Não é a minha finalidade presente, colocar isto em discussão, como um julgamento do funcionamento e das conseqüências à acumulação de capital, vistos sob a perspectiva de sua história, que já dura séculos. O que eu quero argumentar é que as mudanças recentes, a maioria ocorrida desde a Segunda Guerra Mundial, modificaram de tal modo as modalidades da acumulação de capital que o mesmo deixou de ser, no todo, uma força positiva e benigna, tendo-se tornado terrivelmente destruidora.

A história do capitalismo como o conhecemos hoje, começa na revolução industrial, na segunda metade do século dezoito. Os atores principais foram as pequenas empresas operando em mercados competitivos. Os avanços tecnológicos, começando e se expandindo a partir das indústrias têxteis, motivaram o que logo se transformou em um processo de auto-reprodução e auto-expansão de acúmulo e crescimento econômico. Este processo foi a base empírica da primeira ciência social real, a economia política clássica.

Nos primeiros estágios do capitalismo industrial, os mercados eram ainda amplamente locais, um fato que não apenas limitava seu tamanho, mas também agia como um retentor para o comportamento competitivo dos participantes. Mais tarde, com o desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação (canais, barcos a vapor, ferrovias, telégrafo), os mercados expandiram-se muito, produzindo uma concorrência impessoal e acirrada. Até a segunda metade do século passado, a acumulação de capital e o crescimento econômico já haviam chegado a um grau de intensidade febril.

De um ponto de vista, isto era esplêndido. O capitalismo estava fazendo o que se esperava dele. Mas, de um outro ponto de vista, no que se refere à rentabilidade do capital, as coisas pareciam bem diferentes. A dificuldade era que cada vez mais na atividade industrial, os capitalistas, na tentativa de obterem melhores resultados que os outros, expandiram sua capacidade de produção muito além do ponto de lucro máximo, em muitos casos além do ponto de qualquer lucro. As empresas mais fracas caíram em grupos à beira do caminho, e mesmo as mais fortes tinham que lutar para sobreviver. Para os Estados Unidos, já brigando por um lugar de liderança no mundo capitalista, um número conta a história. O índice de preços de venda no atacado (1910-1914) chegou a 185 no final da Guerra Civil em 1865. Em 1890, caiu para 82, um declínio de 57% em vinte e cinco anos. Tanto o capital quanto o trabalho foram gravemente arrochados; a agitação industrial e a violência alcançaram novas alturas; a literatura econômica do período é cheia de pessimismo e presságios terríveis.

Foi nestas circunstâncias que a história deu uma virada decisiva. Em todos os países capitalistas avançados, as duas últimas décadas do século XIX testemunharam um processo intenso de concentração e centralização de capital. As companhias mais fortes abocanhavam as mais fracas e uniam-se de várias formas e combinações (cartéis, "trustes", "holdings", corporações gigantes), visando eliminar a concorrência estreita e obter o controle das políticas de preço e produção. Foi neste período também que os capitalistas dos países principais, buscando avidamente novos mercados e fontes mais baratas de matérias primas, chegaram a colonizar ou por outro lado ganhar o controle de países mais fracos da África, Ásia e América Latina. Até a virada do século XX o que já tinha sido em pequena escala, o capitalismo local de pequeno alcance do século dezenove, transformou-se no sistema imperialista controlado por monopólio típico do século XX .

E importante compreender o papel das finanças nesta transformação histórica. Até o último trimestre do século dezenove, os bancos e os intermediários das finanças, tinham duas funções principais: de um lado, prover o crédito de curto prazo necessário para manter o ritmo da indústria e o giro do comércio e, do outro lado, abastecer as exigências de longo prazo dos governos (especialmente para sustentar exércitos e travar guerras), sejam empresas de serviços privadas ou públicas (canais, estradas de ferro, instalações para distribuição de água, etc.) e grandes companhias de seguro. Após a Guerra Civil (1861-1865), em cujo financiamento e abastecimento foram feitas muitas fortunas, muitos capitalistas direcionaram sua atenção de maneira crescente para a indústria e tornaram-se os principais movimentadores no processo global de concentração, freqüentemente detendo a propriedade ou o controle de vastos títulos e ações no que viria a ser mais tarde chamado de ponto culminante do comando da economia. Em tudo isto, a carreira de J.P. Morgan, o financista mais famoso da América, tornou-se paradigmática de um modo que raramente ocorre no caso de um único indivíduo. Eu deveria mencionar também a literatura extensa, tanto analítica quanto artística, que foi estimulada pela transformação histórica do capitalismo. Três exemplos importantes vêm à mente: nos Estados Unidos, "The Theory of Business Enterprise" (1904) de Thorstein Veblen; na Alemanha, "Das Finanzkapital" (1910) de Rudolf Hilferding; e na Rússia, "Imperialism" (1917) de Lênin.

De nosso ponto de vista atual, aquele das novas tendências globais deste fim do século XX, é importante compreender que o que ocorreu cem anos atrás, já estabeleceu o cenário para o triunfo final do capital financeiro, mas não conseguiu cumprir seus objetivos iniciais. Durante a primeira metade do século XX, o processo de acumulação de capital continuou a se concentrar sobre o capital industrial, como tinha sido no início da revolução industrial. Os financistas desempenharam um papel importante como parceiros e freqüentemente parceiros dominantes dos capitalistas industriais. Os dois grupos partilharam o objetivo de maximizar os lucros do capital produtivo (aço, óleo, produtos químicos, utilidades, papel, etc.), no entanto, muitos deles devem ter lutado pela divisão dos despojos. Havia, naturalmente, especialistas como banqueiros comerciais, corretores da bolsa de valores e negociadores de títulos que viviam em um mundo financeiro onde a especulação sempre foi uma tentação e oportunamente, como em toda a história do capitalismo, poderiam encarregar-se da atividade de seus próprios seguimentos com grande envolvimento na sociedade e com conseqüências desastrosos para muitos. Mas no todo, as finanças eram ainda subordinadas à produção.

No processo de acumulação de capital propriamente dito, ocorreu uma mudança significativa nos últimos anos do século XX , seguindo o período tempestuoso de concentração e centralização que precederam. Os preços 110 atacado que, conforme observado anteriormente, estavam caindo desde a Guerra Civil, começaram a subir com a virada cíclica da metade do século XIX e após isto continuaram numa tendência de elevação (com um grande destaque na Primeira Guerra Mundial) até os anos 20. A contrapartida deste movimento de preços foi uma queda no investimento de capital visto que as corporações oligopolísticas emergentes mais recentes aprenderam como ajustar suas políticas de produção à capacidade de absorção de seus mercados. Os historiadores deste período observaram de maneira geral que a década anterior à guerra foi apática com um nível elevado de do desemprego e declínios não frequentemente longos e curtos períodos de ascensão.

Na retrospectiva, parece claro que o início do século XX foi também o começo de um longo período de estagnação como aquele característico das os anos 30. O que impediu isto de acontecer mais cedo foi a Primeira Guerra Mundial. Após isto, veio um crescimento rápido conseqüente, que por sua vez foi sustentado por uma série de fatores especiais, mais particularmente a primeira onda da revolução automobilística com suas implicações. Mas forças profundamente estabelecidas, tinham sido implantadas na economia capitalista durante a transformação do século XIX e era apenas uma questão de tempo antes que as mesmas emergissem como fator dominante no funcionamento do sistema. Isto finalmente aconteceu como a quebra financeira espetacular de 1929, abrindo caminho gradualmente para a Grande Depressão dos anos 30.

A Grande Depressão era algo novo na história do capitalismo, uma década inteira na qual não houve crescimento: o processo de acumulação de capital simplesmente sofreu uma interrupção. Nos Estados Unidos, já então o país líder capitalista, o desemprego chegou a 25% da força de trabalho em 1933. Uma virada para um novo ciclo de crescimento à qual muitos economistas baseando-se em experiência passada, imaginavam que levaria ao pleno emprego, foi freada com uma taxa de desemprego ainda nos níveis de 14% em 1937. Seguiu-se uma recessão dentro da depressão. O desemprego subiu para 19% em 1938 e a década parecia destinada a terminar não apenas com a economia, mas com toda a sociedade em profunda crise. O Novo Acordo de Roosevelt que tinha introduzido reformas há muito esperadas e que salvou milhões da fome, através de programas de emergência, estava perdendo suporte e pela primeira vez na história dos EUA, o futuro do próprio capitalismo começou a ser questionado seriamente.

O que colocou um fim a este período, naturalmente, foi a Segunda Grande Guerra. Como John Kenneth Galbraith expressou tão apropriadamente, a Grande Depressão nunca terminou, simplesmente fundiu-se à economia de guerra. Nos cinco anos de 1939 a 1944, o Produto Interno Bruto do país aumentou em cerca de 75% e o desemprego praticamente desapareceu. Mas isto não era parte da lógica interna do sistema capitalista. Esta lógica tinha sido exposta em sua forma mais pura na Grande Depressão: a condição normal do sistema capitalista maduro é a estagnação. Na medida em que este não é o estado real dos países capitalistas avançados, a explicação tem que ser buscada nas forças externas e não econômicas.

Aproximadamente 25 anos após a Segunda Guerra Mundial, ou seja, da metade dos anos 40 até os anos 70, estas forças externas estavam influindo fortemente: a reparação dos danos da guerra, a reposição da escassez causada no tempo da guerra, pelo desvio de recursos da produção civil, o aproveitamento das tecnologias desenvolvidas para fins militares, tais como eletrônica e aviões a jato, principalmente uma nova fase de guerras, seja quente ou fria. Durante duas décadas, nos anos 50 e 60, as condições para a acumulação de capital eram extremamente favoráveis. O capitalismo entrou numa nova era dourada, remanescente dos melhores anos de sua juventude. Mas isto não poderia durar e não durou muito. E da natureza da acumulação eliminar a demanda que o estimula. E a menos que novos estímulos surjam, o processo se abate e volta a tendência à estagnação. Isto é o que estava começando a acontecer quando os anos 60 chegaram ao fim, culminando com uma recessão aguda de 1974-1975, de longe a mais séria desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Um novo estímulo era perversamente necessário e surgiu em uma forma que, muito embora e seguramente não previsto, era um resultado lógico de tendências bem estabelecidas dentro da economia capitalista global.

Devo interromper a história aqui, confessando que no território em que estamos para entrar, se não exatamente desconhecido, é em grande parte inexplorado e mapeado muito inadequadamente - além do que eu não estou particularmente bem qualificado, por treinamento ou experiência, a desempenhar o papel de explorador. Além disso, o assunto é tão importante que qualquer coisa que estimule o interesse e o debate pode provar ser útil.

O que estou falando é sobre o desenvolvimento nos últimos vinte anos, ou bem assim de uma superestrutura relativamente independente - relativa, ou seja, ao que foi antes — assentada no topo da economia do mundo e muitas de suas unidades nacionais. É constituído de bancos — central, regional e local — e uma multidão de negociadores em uma variedade atordoante de componentes do ativo financeiro e serviços, tudo interligado por uma rede de mercados, alguns dos quais estruturados e regulados, outros informais e não regulados. Tal entidade é multi- dimensional e não há unidade conceitual que possa ser utilizada para medir seu tamanho. Mas que ela é muito grande e crescente não é apenas intuitivamente evidente mas claramente refletido pelas estatísticas que relacionam aspectos mensuráveis importantes do todo.

Eu disse que esta superestrutura financeira havia sido a criação das últimas duas décadas. Isto significa que seu surgimento foi basicamente contemporâneo com o retorno da estagnação nos anos 70. Mas isto não vai contra toda a experiência anterior? Tradicionalmente, a expansão financeira tem seguido de mãos dadas com a prosperidade na economia real. É possível que isto não mais seja verdade, que agora no fim do século XX o contrário seria o mais próximo da verdade, ou seja, que agora a expansão financeira não se alimenta de uma economia saudável, senão de uma economia estagnada?

A resposta à questão, eu penso, é sim, é possível e isto vem acontecendo. E eu acrescento que estou absolutamente convencido de que a relação inversa entre o financeiro e o real é a chave para o entendimento de novas tendências no mundo com as quais esta conferência está preocupada.

Gostaria de ser capaz de explicar tudo isto em termos simples e compreensíveis. Mas não posso, não apenas por falta de tempo. Estes são problemas muito complicados e eu não conheço ninguém que tenha surgido com soluções satisfatórias. A maior parte dos economistas mais importantes, simplesmente nega sua existência e ao fazer isto, em minha opinião, perde o contato com a realidade. Tudo que posso fazer é tentar sugerir a lógica subjacente do argumento.

A economia real, aquela que produz produtos e serviços que fazem com que as pessoas vivam e reproduzam, é de propriedade de uma minoria diminuta de oligopolistas. É estruturada para proporcionar a eles grandes lucros, muito além do que poderiam ou mesmo quereriam consumir. Sendo capitalistas, querem investir a maior parte de seus lucros. Mas exatamente a mesma estrutura que proporciona estes lucros, coloca limites estritos sobre as rendas da população que está abaixo. Estas pessoas podem simplesmente comprar de maneira escassa, o nível atual de produção oferecido a elas a preços calculados para render a taxa existente de lucro do oligopólio. Não há, portanto, lucro a ser feito a partir da expansão da capacidade de produção de bens que entram em consumo de massa. Fazer isto seria investir em excesso de capacidade, uma irracionalidade capitalista patente. O que, então, eles devem fazer com seus lucros?

Retrospectivamente, a resposta parece óbvia: deveriam investir em ativos produtivos não reais, financeiros. E que, eu penso, é justamente o que começaram a fazer em uma escala crescente quando a economia entrou uma vez mais em estagnação nos anos 70. Do lado do abastecimento, também, a situação estava amadurecida para a mudança. A atividade financeira, geralmente de um tipo tradicional, tinha sido estimulada pelo crescimento rápido do pós-guerra nos anos 50 e 60, sofrendo algo como uma decepção com a volta da estagnação. Os financistas estavam, portanto, procurando novos negócios. O capital que migrava para fora da economia real, foi alegremente recebido no setor financeiro. Então começou o processo que durante as próximas duas décadas resultou no triunfo do capital financeiro.

Quando comecei a me preparar para esta palestra, eu tinha noções pomposas acerca do que queria incluir. Primeiro viria uma afirmação do tema central, a ascensão ao domínio por parte do capital financeiro; depois, um esboço, tanto histórico quanto analítico, das origens e desenvolvimento deste processo; finalmente e o mais importante, pensamentos sobre as implicações para o entendimento do que está acontecendo no mundo e o que esperar quando olhamos para o futuro. Eu até mesmo pensei que poderia encontrar tempo para dizer algo sobre o que poderia ou deveria ser feito por aqueles de nós que não estão satisfeitos com a maneira pela qual as coisas vão.

Ai que ilusão! Eu logo me dei conta que tentar lidar com uma agenda dessas numa palestra poderia resultar apenas em uma cobertura inadequada. Então eu fui obrigado a voltar atrás e concentrar-me no aspecto histórico. Mas eu não quero terminar sem pelo menos algumas observações sobre as implicações.

1) O lugar do poder econômico e político foi transferido juntamente com a ascendência do capital financeiro. Considerou-se como certo por muito tempo, especialmente dentre os radicais, que o lugar do poder na sociedade capitalista estava nas salas de diretoria de umas poucas centenas de corporações multinacionais gigantes. Muito embora não haja dúvidas quanto ao papel destas entidades na alocação de recursos e outros assuntos importantes também, creio que há uma consideração a mais e que precisa ser ampliada. Os ocupantes destas salas de diretoria são por si próprios, numa extensão crescente, constrangidos e controlados pelo capital financeiro, visto que este funciona através da rede global dos mercados financeiros. Em outras palavras, o poder real está nem tanto nas salas de diretoria das corporações, quanto nos mercados financeiros. Aqui uma observação: as corporações gigantes são também os maiores jogadores nestes mercados e ajudam a lhes dar importância. Parece que a mão invisível de Adam Smith está representando um reaparecimento em uma nova forma e com força aumentada.

2) O que se crê para os chefes executivos das corporações, também se crê para os controladores do poder político. Mais e mais eles também são controlados no que podem e não podem fazer pelos mercados financeiros. Isto é muito óbvio com relação aos membros economicamente mais fracos da comunidade internacional, muitos dois quais estão diretamente sob o domínio do FMI e do Banco Mundial. Mas isto é dificilmente menos verdade no que se refere aos membros mais fortes, incluindo os Estados Unidos. Tudo, como conseqüência assegurada pela administração Clinton, desde a política fiscal até a reforma da saúde, deve passar pelo teste de aceitabilidade nos mercados financeiros. Apenas duas semanas atrás, o The New York Times publicou um relato feito por um de seus mais importantes jornalistas, intitulada "Stock Market Diplomacy" (Diplomacia na Bolsa de Valores) com um subtítulo "A Política Externa de Clinton inclui uma Consideração de Como Uma Mudança Influi no Comércio Mundial". No que se refere às forças intermediárias, aquela que estão entre o mais fraco e o mais forte, é preciso apenas apontar para a experiência da França no início dos anos 80. O povo francês elegeu um governo socialista por uma maioria impressionante. O novo governo, respondendo ao eleitorado, embarcou num curso de reformas sociais suaves e expansão fiscal. O resultado não tardou a chegar: uma séria crise no balanço de pagamentos seguida de um ligeiro retrocesso. Como entre a democracia e o capital financeiro no mundo, como estruturados hoje, existe pouca dúvida sobre qual é o mais forte.

3) O que deve ser feito? Se minha análise estiver correta, no sentido de que tanto a economia global, operando sob suas regras atuais, e o governo compelido a cumprir estas regras, pode proporcionar o que a grande maioria das pessoas no mundo precisa — empregos decentes, segurança, sobrevivência — parece claro que não têm escolha, mas desafiar a própria estrutura. Estou confiante de que eles o farão — eventualmente. A espécie humana está sofrendo há muito tempo, mas não é provável que tolerará para sempre o que parece um escorregão entre a ingovernabilidade e o caos. Nesse ínterim, presságios das coisas que estão para vir podem ser visíveis aqui e lá. Estou particularmente impressionado pela revolta dos camponeses mais pobres no estado mais pobre do México, um país sob um regime que abraçou entusiasticamente o bravo novo mundo da ortodoxia financeira. Os Chiapas não estão prontos para assumir o poder, longe disso. Mas abalaram toda a sociedade em suas bases e o México pode nunca mais ser novamente o que era antes de 1 de janeiro de 1994. Coisas semelhantes provavelmente devem ocorrer em outros lugares. Assim espero.

7 de abril de 1994

Por que o fascismo é a onda do futuro

Em seu artigo, Edward Luttwak conclui que com a ‘insegurança econômica pessoal completamente sem precedentes dos trabalhadores, desde trabalhadores industriais e funcionários administrativos até gerentes de nível médio-alto’, um vasto novo espaço político foi deixado aberto para um ‘partido fascista com produtos aprimorados, dedicado ao aprimoramento da segurança econômica pessoal das grandes massas’.

Edward Luttwak

The London Review of Books

Vol. 16 No. 7 · 7 April 1994

Tradução / Que o capitalismo livre de regulações públicas, cartéis, monopólios, sindicatos eficientes, inibições culturais ou obrigações de parentesco é a máquina mais sofisticada de crescimento econômico constitui uma verdade surrada, hoje só contestada por um punhado de entusiastas da Gosplan preservados criogenicamente e um número razoável de acadêmicos anglo-saxões mal pagos. Que a máquina capitalista alcança o crescimento tão bem como o faz porque sua competição inexorável destrói velhas estruturas e métodos, permitindo assim que surjam em seu lugar estruturas e métodos mais eficientes, é a parte mais famosa das idéias schumpeterianas, até mais famosa do que as escapadas amorosas do ex-professor da Universidade de Czemowitz. E, finalmente, que a mudança estrutural pode infligir mais danos às vidas profissionais, firmas, indústrias inteiras e suas localidades do que as pessoas podem absorver, ou o tecido conjuntivo de amizades, famílias, grupos eletivos, vizinhanças, povoados, vilas, distritos, cidades ou mesmo nações pode suportar, é outra verdade surrada mais fácil de reconhecer do que se pode soletrar Gemeinschaft e Gesellschaft.

O que há de novo na presente situação é só uma questão de grau, uma mera aceleração no ritmo das mudanças estruturais que acompanham o crescimento econômico, qualquer que seja sua taxa. Mas isso, na medida em que se produz, é suficiente para fazer toda a diferença no mundo. A mudança estrutural, com todas as suas revoluções pessoais e rupturas sociais, é agora muito rápida mesmo quando há crescimento zero, e ainda mais rápida quando as economias crescem. A máquina gira, triturando vidas e desgastando relações humanas estabelecidas, mesmo quando o carro é freado; e alcança rotações por minuto de uma Ferrari nas velocidades mais modestas de um rolo compressor.

Uma causa óbvia da crescente destrutividade do processo capitalista é a retração mundial da propriedade pública, do planejamento central, da direção administrativa e do controle regulatório, e igualmente de todas as suas rigidezes contrárias à inovação, à mudança estrutural, ao crescimento econômico, ao deslocamento individual e à ruptura social. Da Argentina a Zâmbia, com todo o mundo comunista incluído, a propriedade estatal de empresas econômicas era antes aceita como o garante do interesse público: agora ela aparece como o garante da ociosidade burocrática, da estagnação técnica e da roubalheira conspícua. O planejamento central, antes distinguido como a via aritmética para a prosperidade segura, é agora tido como impossível simplesmente porque nenhum grupo de meros humanos pode predeterminar a demanda do próximo ano para cada um das centenas de diferentes polímeros, sem falar nos três milhões de outros itens, de guindastes de escavadeiras a palitos de dente. A direção administrativa, antes gloriosamente bem-sucedida no Japão, na Coréia e em Taiwan, pelo menos útil na França, um fracasso conhecido na Inglaterra de George Brown, e ineficiente ou corrupta, ou ineficiente e corrupta em quase todos os outros lugares, está agora sendo (lentamente) abandonada mesmo no Japão, tendo sido abandonada há muito tempo em todos os outros lugares.

Quanto aos controles regulatórios, seu número não pára de crescer, porque mesmo não sendo mais necessário impor limites de velocidade às locomotivas a vapor para evitar que elas provoquem abortos em vacas, muitas novidades técnicas bem mais recentes acarretam a regulação, e algumas mesmo a requerem — por exemplo, a alocação de frequências. Outras razões para a regulação são velhas conhecidas, mas a regulação comercial (p. ex. de companhias aéreas), enquanto oposta à saúde e à segurança, e a regulação ambiental definitivamente se retraíram, e continuam a fazê-lo. Com isso, aumenta a eficiência, empresas Outrora seguras enfrentam os riscos do mercado, e empregados outrora igualmente seguros não o são mais.

Outra causa parcialmente relacionada e igualmente óbvia da mudança estrutural acelerada é a muito celebrada unificação das poças, lagunas, lagos e mares de economias locais, provinciais, regionais e nacionais num único oceano econômico global, e consequentemente a crescente exposição dessas mesmos poças, lagunas, lagos e mares aos vagalhões do oceano econômico global, devido à remoção de barreiras à importação, proibições de exportação de capital, controles do investimento e restrições de licenciamento sobre a venda de serviços transna￾cionais; o advento e a rápida disseminação geográfica de telecomunicações instantâneas rápidas e baratas que facilitam a formação de novos relacionamentos comerciais tanto materialmente como psicologicamente; à importância decrescente dos custos de transporte devido à evanescência do conteúdo material do comércio, bem como ao barateamento do transporte com a melhoria dos serviços aéreos, dos portos e das estradas — notadamente estradas rurais na Ásia e na América Latina quando não na África; à difusão de tecnolgias atualizadas para a produção de bens ou componentes para exportação, mesmo em economias em outros aspectos atrasadas; e à uniformização por achatamento de preferências de consumidores antes diversas pelas imagens e o marketing de meios de comunicações de massa internacionais.

O efeito geral da "globalização" é que qualquer produção em qualquer lugar pode expandir-se enormemente, muito além dos limites do mercado doméstico, desde que seja competitiva — e, é claro, que qualquer produção em qualquer lugar, e o emprego correspondente, possa ser deslocada a qualquer tempo por uma produção mais barata de algum outro lugar do mundo. A vida na economia global é cheia de surpresas excitantes — e desastres catastróficos.

Outra causa ainda da mudança estrutural desproporcionalmente rápida é a chegada muito repentina dos há tanto esperados, e igualmente adiados, aumentos de eficiência administrativos e burocráticos que as máquinas para computação eletrônica, armazenamento de dados, reprodução e comunicação interna deveriam assegurar já faz tempo. Em parte porque com a mudança geracional mesmo os executivos sênior podem agora, se quiserem, operar eles mesmos essas máquinas, o que permite que eles entendam seus usos, abusos e não-usos; em parte porque os executivos mais jovens são cada vez mais compelidos a usar essas máquinas em lugar do auxílio e do acompanhamento burocrático; e em parte porque as redes de computadores permitem que os executivos no nível imediatamente superior literalmente supervisionem, diretamente em suas telas, o trabalho que seus subordinados estão fazendo ou não fazendo, o que lhes permite, portanto, a mesma transparência do trabalho na linha de montagem, com a mesma visibilidade imediata dos procedimentos ineficientes, hábitos ineficientes e empregados inefi￾cientes — por todas essas razões o tão esperado e tão adiado aumento na eficiência do trabalho burocrático finalmente chegou, expondo doravante os trabalhadores de colarinho branco mais seguros a deslocamentos de lugar de trabalho e demissões em massa ou, pelo menos, às perspectivas minguantes de emprego que foram por muito tempo o quinhão dos trabalhadores manuais industriais nas economias maduras.

No presente momento, por exemplo, muito embora a economia dos EUA esteja em plena recuperação, reduções de empregos de colarinho branco aos milhares estão sendo anunciadas por uma corporação famosa atrás da outra. Eles chamam isso de "reestruturação" ou, de forma mais imaginativa, de "reengenharia da empresa", e enfeitam devidamente os procedimentos com a verborragia da última moda, aqueles slogans atraentes, sugestivos embora profundamente frívolos cunhados pelos autores dos últimos best-sellers de negócios, que os proclamam a preço de ouro e com insistência evangélica no circuito de palestras empresarial, com o resultado de que eles são a seguir repetidos com grande solenidade a públicos de empregados deferentes e atônitos em briefings, "workshops" e "retiros" corporativos. Mas as economias reais que Wall Street antecipa ao provocar a subida de preços das ações — recompensando assim enormemente executivos demitidores que detêm opções na bolsa — não provêm da música de fundo da verborragia dos consultores administrativos, mas sim da substituição de secretárias eletrônicas por sistemas de correio eletrônico comandados por voz, da substituição de datilógrafas por processadores de textos e aparelhos de fax, da substituição de secretárias arquivistas por memórias eletrônicas, e da consequente substituição de supervisores burocráticos; assim como da substituição de gerentes jovens pelo processamento de fluxo de arquivo automatizado e da consequente substituição de seus supervisores administrativos; e também da substituição de todos os gerentes de nível médio que não são mais necessários para supervisionar os mandos e desmandos seja dos empregados burocráticos seja dos administrativos. É por isso que as empresas cujas vendas estão crescendo não estão, não obstante, aumentando seus postos de colarinho branco; as empresas cujas vendas estão estacionadas estão eliminando alguns postos de colarinho branco; e as empresas em declínio estão eliminando muitíssimos — dezenas de milhares no caso das gigantes doentes IBM e GM.

Os economistas deploraram por muito tempo os desapontadores ganhos de produtividade da superestrutura administrativa nas economias avançadas, a despei￾to da proliferação dos produtos eletrônicos para escritório. Isso era numericamente irritante para a fraternidade porque o setor de produção de bens, cuja produtividade manteve um crescimento regular, há muito tempo vem tendo sua importância diminuída, de modo que o hiato de produtividade das atividades administrativas estava rebaixando os números da economia como um todo. Esses economistas não precisam mais se procupar: a produtividade do trabalho de escritório está finalmen￾te crescendo num ritmo rápido, permitindo que os empregadores se desfaçam de empregados na mesma velocidade.

Pode haver explicações adicionais para a aceleração da mudança econômica estrutural. O que conta, todavia, é o resultado: a "destruição criadora" de Schumpeter — a substituição de velhas especializações, ofícios e indústrias inteiras com suas localidades dependentes, por novas especializações, ofícios e indústrias inteiras mais eficientes — pode agora durar alguns anos, frequentemente muito poucos, em vez de gerações. E é suficiente para fazer a diferença colossal mencionada acima. A mesma taxa de mudança estrutural que favorece a prosperidade global, que beneficia muitos países e regiões, e que muitos outros países e regiões podem pelo menos suportar, excede agora brutalmente os limites adaptativos de indivíduos, famílias e comunidades. Quando os filhos e filhas de metalúrgicos norte-americanos, mineiros britânicos ou soldadores alemães são obrigados a se tornarem programadores de software, professores, advogados ou mesmo balconistas, porque as respectivas indústrias paternas oferecem cada vez menos empregos, poucos deles têm razão para se queixar. Mas quando os mesmos mecanismos de troca funcionam tão rapidamente que os metalúrgicos, mineiros de carvão ou soldadores têm eles próprios de abandonar inclinações, auto-imagens e companheiros de local de trabalho de toda a vida para adquirir as novas habilitações demandadas — sob pena de desemprego crônico ou empregos mal pagos e desqualificados —, os resultados prováveis são fracasso e frustração. Certamente, nada poderia ser mais surrado do que se preocupar com as tributações dos metalúrgicos, mineiros ou soldadores, remanescentes obsoletos da classe operária industrial branca/masculina irremediavelmente passé. De modo que a grande novidade é o deslocamento também do emprego dos colarinhos brancos.

Não disponho de estatísticas que meçam o declínio na segurança de emprego. Mas as estatísticas mostram muito claramente o impacto de um enfraquecimento da demanda por trabalhadores de colarinho branco no declínio de seus ganhos. Lá nos anos 80, quando os dirigentes sindicais e os proletariófilos incuráveis se queixavam amargamente de que os trabalhadores americanos estavam sendo expulsos do emprego industrial bem pago para empregos "hamburger-flipping"* de salário mínimo, os defensores entusiásticos da infalibilidade da economia de livre mercado os silenciavam em editoriais do Wall Street Journal apontando para o rápido crescimento dos empregos "money-flipping" ** nos serviços bancários, de seguros e financeiros, bem como nos escritórios imobiliários, que na época experimentavam um crescimento explosivo. Foi nesse ponto que o debate terminou — prematura￾mente. No final de 1992 mais de 6,8 milhões de americanos estavam realmente empregados no setor financeiro (escritórios bancários, de seguro, financeiros e imobiliários). Poder-se-ia supor, como o Wall Street Journal certamente presumia, que essas pessoas eram uma parcela bem paga: mas entre elas, os 4,9 milhões de empregados em funções que não as de chefia recebiam apenas US$ 10,14 por hora, comparados a US$ 10,98 para os trabalhadores de produção na indústria. O 1,1 milhão de secretárias, caixas e outros empregados subalternos de bancos ganhavam muito menos que a média do setor de US$ 8,19 por hora, enquanto 45.800 de seus correspondentes em corretoras de ações e de mercadorias — no verdadeiro coração do "money-flipping" — ganhavam seguramente muito mais de US$ 13,35 por hora. Todavia, se qualquer trabalhador industrial desempregado se equipasse com o suspensório largo vermelho obrigatório para buscar sua fortuna em Wall Street, teria achado a recompensa surpreendentemente modesta.

Numa época em que se dizia o tempo todo que era bobagem se preocupar com o declínio dos empregos industriais na era dos "serviços", a história inteira, muito maior, é que os empregados em serviços em toda a economia dos EUA recebem realmente muito menos do que seus correspondentes que ainda mantêm empregos industriais. Além do mais, os ganhos médios por hora dos empregados em serviços têm decaído durante anos em dólares reais — descontada a inflação. No comércio varejista como um todo, por exemplo, das lojas de departamento até as bancas de jornal da esquina, os 17,7 milhões de empregados "não-chefes" ganhavam uma média de US$ 6,88 por hora em novembro de 1990. Na verdade, sua média de ganho horário caiu de um pico de US$ 6,20 em 1978 para US$ 5,04 em 1990 em dólares constantes de 1982. Por certo, o comércio varejista está cheio de adolescentes que ainda estão na escola e trabalham só nos finais de semana e feriados, e de mulheres casadas que trabalham só meio período. É de se esperar que isso rebaixe os ganhos, e isso ocorre. Além disso, muitos empregados no comércio varejista ganham comissões que não são relatadas aos coletores de estatísticas trabalhistas. Mas nem os empregados em tempo parcial com demandas modestas nem as comissões podem ser encontradas no setor de transportes e nos serviços públicos (incluindo ferrovias, empresas de ônibus locais, transporte de massa, transporte rodoviário, serviços de correio, transporte hidroviário, empresas aéreas, companhias telefônicas etc.). Não obstante, os 4,9 milhões de empregados "não￾chefes" em todo aquele setor tinham ganhos horários médios de US$ 13,07 em novembro de 1990 — substancialmente mais, de fato US$ 2,09, do que seus correspondentes na indústria, mas ainda substancialmente menos do que esses mesmos empregados haviam ganho na década de 1970 em dólares reais. Na verdade seus ganhos atingiram em 1978 o pico de US$ 11,18 por hora em dólares constantes de 1982 — comparados a US$ 9,58 no final de 1990 nesses mesmos dólares.

Na massa variada do conjunto dos empregados em serviços, há picos previsíveis, por exemplo, os 135.400 "não-chefes" da indústria do cinema que ganhavam US$ 18,87 por hora, e os empregados subalternos dos serviços de computação e processamento de dados a US$ 15,29 por hora, que somavam apenas 87.700 em 1972 mas alcançaram o total impressionante de 637.700 no final de 1990. Os vales são também previsíveis. O 1,3 milhão de empregos que não de chefia em hotéis/motéis pagavam só US$ 7,14 por hora em média — embora muito poucos também recebam gorjetas, é claro. Mas ninguém dá gorjeta aos 436.900 empregados das agências de detetives, dos carros blindados e das empresas de segurança que ganhavam só US$ 6,35 por hora em média. De Agências de propaganda a Zoológicos, muitos empregos em serviços certamente pagavam melhor do que isso, mas os ganhos médios de todos os empregados não agrícolas e não governamentais eram menores, de US$ 10,17 por hora, do que os dos trabalhadores industriais, de US$ 10,98 — logo, a admirável nova economia de serviços obviamente paga menos do que a antiquada indústria. Mesmo isso é só metade da história, porque a maior volatilidade dos serviços torna esses empregos cada vez menos seguros. Em outras palavras, o empobrecimento relativo dessas vidas profissionais é acompanhado de ainda mais deslocamentos.

Uma novidade ainda maior é o deslocamento das vidas profissionais dos executivos. Essa é a última tendência nos sempre progressistas EUA — e é mais precisamente uma tendência estrutural, e não meramente cíclica. Agora que a corporação "satisfaciente"* conservadoramente segura (dividendos moderados, salários moderados, crescimento lento e regular) está quase extinta, os altos executivos ganham, enquanto classe, muito mais do que antes, os executivos subalternos que conseguem manter seus empregos ganham muito menos, e é muito difícil para aqueles executivos que são expulsos encontrar qualquer emprego comparável em outro lugar. Poucos estão destinados a adornar as páginas de revistas de negócios como prodígios empresariais, não inatos mas criados pelo desemprego. Alguns se ajustam facilmente embora dolorosamente, aceitando qualquer emprego de classe média que puderem conseguir, normalmente com remuneração menor. Outros estão em situação muito pior. O homem de 50-55 anos, branco, com curso superior, ex-exemplar do sonho americano, talvez ainda vivendo em sua casa suburbana equipada suntuosamente, com dois ou três carros na garagem, um ou dois filhos em cursos superiores de US$ 20.000 por ano (ensino, alimentação e moradia — tudo o que estiver fora é por fora) e um ex-emprego extinto pela "reengenharia", que agora sobrevive da poupança, de uma segunda e uma terceira hipotecas e ganhos irrisórios como um autodescrito "consultor", se tornou uma figura familiar nos Estados Unidos contemporâneos. Eles ainda enviam currículos às dúzias. Eles ainda se mantém no circuito (isto é, imploram por empregos a qualquer pessoa que conheçam). Eles ainda vestem seus ternos de negócios para ir a almoços de "negócios" com o artigo genuíno ou para visitar agências de emprego, mas, em uma época em que mais de 10% dos formados em Harvard na classe de 1958 estão desempregados, almas menores na mesma posição têm pouco a esperar.

Se o anedotário sentimental é pouco persuasivo, ou parece absurdamente desproporcional quando comparado às dificuldades de, digamos, camponeses indianos endividados, há agora estatísticas que quantificam a decadência de toda a população de onde é extraída a classe dos executivos médios. Os ganhos médios de todos os homens na faixa de 40-54 anos com quatro anos de formação superior — uns dois milhões de americanos, dos quais só 150 mil brancos — realmente atingiram em 1972 o pico de US$ 55 mil em dólares de 1992; eles estagnaram ao longo de três ciclos econômicos até 1989, antes de declinar rapidamente para US$ 41.898 em 1992. Por outros indicadores nós sabemos que esses números revelam dois fenômenos que são igualmente inéditos na experiência americana: nessa mesma população, a renda total combinada do 1% mais rico de todos os que recebem alguma remuneração teve um crescimento sensacional, e o total combinado dos 80% mais pobres caiu radicalmente. De novo, isso implica de um modo ou de outro um quantum mais que proporcional de deslocamento. Nem é preciso dizer que as vidas profissionais individuais não podem ser deslocadas sem causar danos a famílias, filiações e comunidades eletivas — todo o musgo de relações humanas que só pode crescer sobre as pedras da estabilidade econômica. Finalmente, é inteiramente certo que o que já aconteceu nos Estados Unidos está acontecendo ou vai acontecer em todas as demais economias avançadas, porque todas elas estão expostas às mesmas forças.

Nesta situação, o que a direita moderada — republicanos convencionais dos EUA, tories britânicos e todos os seus correspondentes em outros lugares — têm a oferecer? Só mais livre comércio e globalização, mais desregulação e mudança estrutural, portanto mais deslocamento de vidas e relações sociais. É engraçado, mas só um pouco, que nos dias de hoje o discurso-padrão do horário nobre dos republicanos/fortes seja um tema em duas partes, no qual a parte um celebra as virtudes da competição desenfreada e da mudança estrutural dinâmica, enquanto a parte dois lamenta o declínio dos "valores" da família e da comunidade que foram erodidos precisamente pelas forças elogiadas na parte um. Assim, no presente, o coração das crenças republicanas/tories é uma perfeita descontinuidade. E o que a esquerda moderada tem a oferecer? Só mais redistribuição, mais assistência pública, e preocupação particularista com grupos particulares que podem reivindicar sua condição de vítimas, do sublime patamar das velhas deficientes negras lésbicas até os simplesmente pobres.

Portanto, nem a direita moderada nem a esquerda moderada nem mesmo reconhecem, muito menos oferecem alguma solução para o problema central de nossos dias: a insegurança econômica pessoal completamente inédita da massa trabalhadora, dos trabalhadores industriais e burocráticos de colarinho branco até os executivos médios. Nenhum deles é pobre e, portanto, não podem beneficiar-se dos pagamentos de seguridade mais generosos que a esquerda moderada está inclinada a oferecer. Nem eles têm particularmente inveja dos ricos, e portanto tendem a estar desinteressados em redistribuição. Poucos deles estão realmente desempregados, e portanto eles estão imunes às promessas republicanas/tories de mais crescimento e mais empregos por meio da mágica do mercado sem freios: o que eles querem é segurança nos empregos que já têm — isto é, precisamente o que o mercado sem freios ameaça.

Um vasto espaço político é assim deixado vazio pela descontinuidade republicana/tory, por um lado, e pelo particularismo e assistencialismo da esquerda moderada, por outro. Foi este o espaço ocupado por algum tempo nos EUA pelos caprichos eleitorais de Ross Perot em 1992, e que os excessos bizarros de Zhirinovsky estão agora ocupando nas condições peculiares da Rússia, onde a insegurança econômica pessoal é o único problema que conta para a maioria das pessoas (talvez sejam raros os ex-professores de marxismo-leninismo residentes em Latvia que perderam simultaneamente seus empregos, profissões e nacionalidades, mas a maioria dos russos que ainda trabalham enfrenta agora no mínimo a ameaça iminente de perder o emprego). E esse é o espaço que permanece completamente aberto para um partido fascista melhorado, voltado ao fortalecimento da segurança econômica pessoal das amplas massas de trabalhadores (principalmente) de colarinho branco. Um tal partido poderia mesmo estar tão livre de racismo quanto o original de Mussolini estava até a aliança com Hitler, porque o que ele teria realmente a oferecer seriam restrições corporativistas ao darwinismo corporativo, e barreiras dilatórias, se não impeditivas, contra a globalização. Não é necessário saber como soletrar Gemeinschaft e Gesellschaft para reconhecer a predisposição fascista engendrada pelo capitalismo turbinado de hoje.

21 de outubro de 1993

Sobre E.P. Thompson

Perry Anderson

London Review of Books

Vol. 15 No. 20 · 21 October 1993

Tradução / Ao chegar a minha casa uma noite, nas últimas semanas de 1962, encontrei uma garrafa de vinho, no apartamento vazio, com um bilhete embaixo. Edward Thompson havia terminado “The making of the English working-class”; vivia em Halifax, e necessitava ficar por algumas semanas no Museu Britânico. Nesses dias, eu vivia em Talbot Road e havia me casado recentemente com Juliet Mitchell. Ela dava aulas em Leeds, enquanto eu trabalhava para a New Left Review em Londres. Ocasionalmente, Edward e eu trocávamos ideias sobre nossas preocupações e conversávamos amigavelmente sobre história e sociologia. “Você acredita que Weber é realmente mais importante que Marc Bloch?”, perguntava-me com um ar de maliciosa perplexidade. Se éramos mais circunspectos em relação a temas políticos, isso se devia em parte a uma questão de tato – ele não queria se apoiar demais em mim, editor principiante de uma revista da qual ele era o fundador. Contudo, eu também estava sujeito a uma imagem enganosa.

Edward parecia não apenas uma, mas praticamente duas gerações mais velho, porque entre nós estavam aqueles – o grupo de Stuart Hall ou de Raphael Samuel – que co-fundaram a Nova Esquerda a partir do início dos anos cinquenta, em vez dos anos quarenta. Sua imagem contribuía para a ilusão: suas belas feições ao mesmo tempo revestidos de inquietude melodramática e geologicamente traçadas, uma paisagem de relevos selvagens e depressões. Era, desde já, a conjuntura, que confirmava aquela imagem; nunca as diferenças de idade, por pequenas que fossem, eram vistas tão grandes como neste momento. [...] Mas, provavelmente, para a época, o bibliotecário de Hull era menos sábio que o historiador de Halifax, que contemplava com impaciência as conversas sobre divisões geracionais como uma maneira de evitar discussões difíceis. O resultado era o mesmo, ainda que para mim significasse menos um alívio que uma inibição. Tínhamos poucas discussões políticas. Eu estava no trem que vinha de Leeds quando ele embarcou em Londres com o trabalho concluído, exibindo o que parecia ser uma natureza morta de frustrada boa vontade. Apenas recentemente, na década de 1970, dei-me conta da surpresa de que ele tinha apenas 38 anos.

No ano seguinte, as relações entre os fundadores da New Left Review e seus novos editores se esclareceram. A revista estava presa à causa da Campanha pelo desarmamento nuclear (CND), e lutava sem muito êxito buscando um novo direcionamento. As discussões práticas e as diferenças intelectuais criaram tensões entre Edward e a equipe da rua Carlisle. Ele pensava, com razão, que a revista estava se afastando de maneira amorfa do seu passado sem ter prestado contas a ele e não tinha confiança política alguma em seu futuro. Houve explosões ocasionais. Mas sua atitude em relação aos mais jovens era essencialmente generosa e, quando chegou o momento, eles lhe garantiram sem rancor uma ordem de transição entre o antigo e o novo conselho. Quais tenham sido suas premonições, ele não era possessivo.

Quando a revista formou-se à maneira como existe agora, a posição de Edward mudou. No final de 1964, a New Left Review desenvolveu o tipo de perspectiva política (que ele nos imputava não ter) e um conjunto de teses históricas sobre a relação entre o passado britânico e a crise atual, tal como nós a víamos. Edward não gostava de nenhuma das duas coisas. Mas, agora, finalmente era possível uma confrontação real. A revista aceitaria publicar uma crítica completa feita por ele, “escrita talvez em meu estilo polêmico e notoriamente malicioso?”, ele me escreveu então. Seria bem vinda, respondi o nervosamente, mas não queríamos uma disputa vulgar. Com tato, Edward a publicou, entretanto, na Socialist Register. O resultado foi um de seus ensaios mais famosos, “The peculiarities of the English” (“As peculiaridades dos ingleses”). Ferido por sua ferocidade, respondi o da mesma maneira. O intercâmbio apresentou uma sorte assimétrica. Edward nos atacava por nossas leituras imprecisas da evidência histórica; eu, pelo manejo incorreto da evidência textual. O que me desconcertou foi o recorte por mim elaborado na tentativa de expor argumentos que queria refutar, os que eu não podia enquadrar em tudo definido por ele mesmo como próprio do historiador. Este foi um erro genérico de minha parte. A polêmica é um discurso de conflito, cujos efeitos dependem de um equilíbrio delicado entre os requisitos da verdade e da tentação da ira, a obrigação de argumentar e o gosto de provocar. Sua retórica permite, e inclusive reforça, uma certa licença figurativa. Como os epitáfios dos aforismos de Johnson, que não está sob juramento.

Eu não era o único que ignorava isso. Uns anos antes, Edward havia publicado uma resenha de The long revolution de Raymond Williams na New Left Review, cujo tom era mais temperado que seu tratamento para mim e Tom Nairn, mas tinha um resultado mais doloroso. Uma de suas críticas era que Raymond havia sido em parte absorvido em suas maneiras e preocupações pela academia da classe dominante. “Oh, o pátio universitário iluminado, o brindar das taças de vinho, as conversas tranquilas dos homens ilustrados!”, não é surpreendente que o filho de um porteiro não tenha gostado disso. Na realidade, Edward havia justificado admiravelmente seu discurso. Falando de uma “comunicação genuína”, Raymond havia dito: “pode-se sentir o descanso e o esforço: a abertura e a honestidade necessárias para um homem escutar outro de boa fé e contestado depois”. Edward respondeu: “Burke insultava, Cobbet condenava, Arnold era capaz de insinuações maliciosas, Carlyle, Ruskin e Lawrence, em sua idade adulta, não escutavam ninguém. Isso pode ser lastimável; mas não posso aceitar que a comunicação da raiva, da indignação ou mesmo da malicia seja algo menos genuíno”. Aqui em toutes lettres, a garantia de um polemista. As próprias indignações de Edward dessa época eram artifícios literários, sem rancor pessoal. Uns poucos meses depois de meu contra-ataque, deparei-me com ele em um pub próximo à rua Tottenham Court. Edward, em que não o via por três anos, era um homem de bom coração.

Passou outra década até que voltei a vê-lo novamente. No inverno de 1979, em uma fria igreja em Oxford, levantou-se como um clérigo raivoso para advertir uma vez mais a congregação sobre os perigos do dogma galês. Então, seu ataque a Althusser em The poverty of theory, publicado no ano anterior, havia despertado uma grande controvérsia. Sucedeu um debate diante de um público abalado e extasiado. Um dos que se posicionou foi Stuart Hall. Eu observava do meu assento. Minha própria reação a The poverty [...] foi um pouco diferente. Parecia-me mais importante acertar contas com Thompson do que com Althusser. Tentei empreender isso uns meses mais tarde.

O foco das energias de Thompson se alterou repentinamente. Havia explodido uma segunda onda de intensa Guerra Fria, e ele se lançou sem reservas a uma campanha de resistência. Finalizei meu escrito sobre ele dizendo que era melhor deixar para trás velhas pendências e explorarmos juntos novas questões. Ele respondeu publicando um manifesto de seus temores na New Left Review em notes on the exterminism, the last stage of civilization?, na primavera de 1980. A revista organizou um debate internacional em torno do texto. Apareceu um livro com as conclusões de Edward. O desacordo havia sido superado.

Em 1986 encontramo-nos em Nova York. Christopher Hill, Eric Hobsbawm e eu fomos mobilizados para discutir sobre as agendas para uma radical history na New School. No auditório lotado, pendurado em suas palavras, ele era a imagem do orador romântico com suas explosões do discurso apaixonado, marcadas com aquele típico gesto, um movimento rápido da palma de sua mão sobre sua cabeça – tocando sua sobrancelha ou sua massa de cabelos grisalhos – cujo efeito sempre oscilava entre a arte dramática e o jogo. Logo, quando saímos do jantar oficial – um quarteto incongruente – tive algo da mesma percepção enganosa da primeira vez. O mais jovem dos três doyens, parecia misteriosamente maior – perguntei-me se porque era fisicamente mais alto. Agora, de todos os modos, sua aparência havia mudado. Notei, pela primeira vez, ares de dandy, com o colete delicado e o charuto sem graça, insinuando uma silhueta clássica. Nossa conversa girou entre os escritores do século XVIII. Contestou-me por meu atrevimento com Swift, dizendo que estava escrevendo uma novela que seria algo semelhante à Viagens de Gulliver, porém em versão moderna.

Levou tempo para eu ter uma ideia mais precisa da distinção de Thompson como historiador e como escritor. Sua obra abarca muitas formas para ser julgada facilmente e sua aura pode ser uma tentação para os atalhos. Mas, no centro criativo de sua escrita há uma tensão entre o que se poderia chamar de sensibilidade adequada ao século XIX e o correspondente ao século XVIII. Se bem que no começo de The making of the English working-class, e que conecta ambas as épocas, ninguém nunca duvidou de onde descansa o peso de seu relato. Até onde apontam os trabalhos desenvolvidos por Thompson? Havia uma resposta óbvia: mais à frente, para o que se tornou a classe operária inglesa, uma vez formada, na época vitoriana. Contudo, ele se orientou na direção oposta: um século inteiro para trás, até 1720. O que produziu essa alteração no campo, esse salto tão incomum – ele fazia referência a um salto de paraquedas – para qualquer historiador? Poderia se suspeitar que o tranquilo mundo do sindicalismo vitoriano, por não falar do posterior trabalhismo, não lhe atraía: um retrocesso sobre Morris. Mas se havia um elemento político em sua escolha, como certa resistência a buscar algo que poderia se parecer com o epílogo de Guerra e paz, as razões pessoais deveriam ter mais importância.

Coincidindo com o deslocamento de período, houve uma mudança de residência. Em Yorkshire, ele vivia em uma arejada casa vitoriana, localizada acima das desoladas ruas de Halifax, em meio à horrível escória da revolução industrial. Em Worcestershire, seu lar era uma mansão georgiana, em um campo ondulante, que havia sido a propriedade de um bispo. A transferência permitiu a Williams, que recordava a imputação de Thompson, uma piada travessa sobre “O marxismo de country”. Na realidade, seria o quartel-general do mais ardente trabalho político de sua vida. Porém, houve uma mudança no tom de sua escrita. Whigs and hunters é um tipo de livro diferente de The making of the English working-class, não somente nos objetivos, mas também no estilo. Em um gesto mimético, onde a abundância romântica dá lugar a uma sóbria elegância, e a paixão expressa-se frequentemente de forma mais irônica. Sua distribuição mais à frente variará, mas, em diferentes composições, as cadências dos dois períodos contrapor-se-ão em seu discurso até o final. Essa combinação de expressões foi o segredo de seu sucesso. Foi o maior retórico da época. Mas como a retórica é uma arte estranha, sua resistência é visível na tensão que Thompson tinha com esta era. Seu punho era menos seguro quando seu discurso era mais contemporâneo. Tipicamente, sua escrita desfalece quando busca chegar ao demótico e pouco importante século XX. O resultado pode ser chamativo. Os obituários têm mencionado escassamente a ficção ou a poesia de Thompson. Ele, com toda razão, não as considerava marginais. Seus dois extensos poemas The place called choice e Powers and names (London Review of Books, 23 de janeiro de 1986), que são parecidos em tema e forma (guerra atômica – despotismo), são exemplos vívidos desta irregularidade: passagens de tenra beleza ao lado de outras alcaparras populares. Sua novela The Sykaos Papers é a mais completa expressão singular de seu pensamento; as ideias adquirem uma forma imaginativa que não tem expressão comparável em nenhum lugar de sua obra. Nela, o olhar alheio de uma razão incorpórea cai – tarde demais – no mundo da propriedade, da autoridade e da guerra, na medida em que se move em direção à destruição nuclear. O argumento metafísico está envolto em uma das mais vividas narrativas terrestres, e cada uma de suas máximas mobiliza, instrui e deleita. Mas há ainda um contrastante chamativo entre os breves começos das sessões da novela (carregados de zombarias a uma imprensa popular e da cena urbana dos anos 1980, cujo humor pode nos assustar) e a energia e a astúcia da trama central que segue. Seu clímax, antes da Terra se extinguir, é o idílio em que a razão está sexualmente encarnada, quando a heroína leva a estrela cativa em seus braços, no éden de um “parque de 1740” e “terminado no início do século XIX”.

O livro de Thompson sobre Blake, Witness against the beast, que aparecerá no mês seguinte, pode ser lido de alguma maneira como um anexo que ilustra sua novela. Os mesmos temas aparecem aqui de forma critica. Na News School ele contou a sua audiência como havia descoberto a história marxista lendo Chritopher Hill na sua época de estudante, e quando saiu The making of the English working-class, disse que esperava encontrar algum dia o túnel subterrâneo que podia conectar as ideias de Blake com o mundo da Guerra Civil, ligando diretamente as duas épocas revolucionárias que Thompson e Hill construíram juntos. Witness against the beast encontra essa filiação na seita fundada por John Reeve e Ludowick Muggleton em 1652. A mãe de Blake, sugere Thompson, pode ter sido uma muggletoniana, e muitas de suas noções devem ter derivado de seu ramo do antinomianismo.

O respeito e o afeto que mostra por esse suave e diminuto lado é persuasivo. Não ignora nenhuma sutileza teológica. À medida que explora sua complicada doutrina, aqueles leitores que recordam suas requisições contra o obscurantismo do marxismo parisiense podem esboçar um sorriso enquanto lutam contra os mistérios do influxo divino e das duas sementes, da dispersão versus a unidade de Deus, expostos detalhadamente aqui.

O propósito mais amplo desse livro não depende, contudo, da exatidão da ressurreição muggletoniana. Seu objetivo é sugerir uma nova interpretação de Blake. Thompson argumenta que o poeta é herdeiro de uma longa trajetória “anti-hegemônica”, enraizada entre os artesãos que rejeitavam o amável nacionalismo do século e o substituíam por uma religião do amor igualitário, hostil tanto à nova ciência materialista como à lei moral da igreja e do Estado estabelecidos. Mas Blake transformou sua perspectiva antinomianista em uma constelação mais radical e crítica, sob o impacto do jacobinismo e do deísmo. Do ambiente paineano, desenvolveu uma visão política dos males da propriedade e da pobreza, do clero e do exército, da monarquia e do matrimônio; enquanto que, a partir de Volney, chegou a uma nova crítica da fé alienada ao serviço dos poderes seculares. Em cada caso, porém, Blake viu mais profundamente que seus contemporâneos ilustrados sem reduzir a miséria humana meramente à opressão ou exploração sociais, nem o sentimento religioso à mistificação clerical. Só o chamado do amor pode curar a maldição de Caim, não a razão científica nem o interesse individual. Uma natureza humana alternativa, de acordo com o evangelho eterno, aguarda por ser realizada. “A intensidade dessa visão”, escreve Thompson, “impede Blake de cair nos caminhos de apostasia” quando os fogos revolucionários ardem suavemente em 1801 – enquanto que “os perfeccionistas obsessivos e racionalistas benévolos” de seu tempo “terminam quase todos desencantados”.

Witness against the beast é um brilhante final para uma vida de trabalho excepcional. Como honrar a esse impulso antinominista? Certamente não através de qualquer tipo de piedade. Lendo os obituários de Thompson, os de direita, centro e esquerda, já não sei quantas vezes encontrei a citação de seu desejo de resgatar “inclusive o mais marginal seguidor de Joanna Southcott de enorme condescendência da posteridade”. Essa frase é uma das mais veementes e programáticas. Mas, pela força da repetição, corre o risco de se transformar em uma fórmula estereotipada. Edward, que era a pessoa mais politicamente incorreta do mundo, nunca aceitaria isso. Ele desfrutou com a irreverência e seria melhor segui-lo, quando pudermos, por esse caminho. Para começar, poderíamos observar que Blake foi o primeiro a expressar sua condescendência para Joanna Southcott, sobre cuja inocência escreveu em tom desdenhoso: “O que se faça a ela, não posso saber/ e se lhe pergunta jurar-lhe-á / seja isto bom ou mal, não há a quem culpar;/ Ninguém pode estar orgulhoso, ninguém pode ser culpado”.

Mas há uma questão mais ampla aqui, que se embasa no argumento de seu último livro. Um escritor do século XVIII que nunca atraiu muita atenção de Thompson foi seu grande historiador. Em Witness against the beast, Gibbon, contudo, faz sua aparição. Aqui é apresentado como uma contrafigura, o deísta, cujo retrato de Constantino deverá atrair um antinomiano, mas cuja visão cética do cristianismo fez explodir compreensivamente a ira de Blake (“Gibbon aparece com seu chicote de aço e Voltaire com uma engrenagem”). Thompson cita as linhas de Blake com simpatia. Mas o poema é na realidade uma amostra das fraquezas de Blake – e precisamente nos dois pontos que Witness against the beast apresenta como suas características mais destacadas. Nesse poema, um lastimoso monge é torturado em uma cela por Gibbon e Voltaire por não participar na celebração da guerra: como se o belicismo fosse o gravame de sua crítica à fé. A History de Gibbon era realmente perturbadora, e não só para Blake. Mas se nos perguntarmos por que sua medicina era tão forte, o parecer de Thompson pode ser revertido. A emancipação intelectual de The decline and fall está no que se poderia chamar de sua “enorme condescendência” – que outra coisa é o tom inimitável desses seis volumes? Diante do cristianismo e inclusive do passado clássico. Thompson louva as indignadas anotações de Blake à Apology of the Bible do bispo Watson, dirigidas a Paine. Mas Blake não falou publicamente. Foi Paine que contestou Watson, como havia feito Gibbon antes dele.

O poema de Blake teve origem no julgamento que se iniciou em Chichester, motivado por uma obscura rixa com um soldado em seu jardim, do qual foi absolvido. Assustado com o episódio, imaginou-se como um dos monges acinzentados do antigo presbitério no qual se realizou o julgamento, ferido, porém triunfante: “o gemido amargo de dor de um mártir é / uma flecha do arco do Todo Poderoso!”. Dois anos depois do julgamento, quando ainda o importunava “a história completa de meus sofrimentos espirituais”, fez uma dedicatória à rainha. Na versão manuscrita de Jerusalém, o frade é um “sedicioso”, mas logo reconsiderou o fim e modificou sua publicação para “vago”. Não há, em tudo isso, motivos para censura. Blake tinha um certo lado temeroso; foi vítima do medo de perseguição e saiu mal disso. Eram tempos difíceis para qualquer pessoa progressista. De qualquer modo, é um erro apresentá-lo como politicamente mais intransigente que os oponentes menos místicos ao regime da guerra conservadora. Perseguiu com ímpeto Robert e Leigh Hunt por haver considerado que suas pinturas de Nelson e Pitt eram ícones da reação (um erro compartilhado – pois, Blake nunca o esclareceu – por não poucos historiadores da arte), acusando-os de serem responsáveis por uma guerra sobre a qual falaram com mais franqueza que ele. Processados três vezes, os irmãos foram finalmente encarcerados por insultar o Regente, para a gozação de Blake. “Não posso conceber que um monge possa ser hipócrita”, avisavam os deístas. A ilustração, depois de tudo, pode lhe ensinar algo.

Essas observações não tendem a diminuir o vigor da defesa que Thompson faz de Blake, como um iconoclasta quase genial, mas buscam situá-lo mais criticamente na tradição sobre a qual Thompson chama a atenção. Os muggletonianos foram um grupo atrativo, como ele mostra. Mas era também um grupo isolado e secreto, afastado do culto público e do proselitismo, e sua fé chegou a ser quietista. A ausência em Blake de qualquer forma coletiva de política radical, em tempo de agitação, é chamativa. Sua única experiência direta de contato com a multidão parece ter tido lugar quando, na juventude, mesclou-se, por um momento, com as revoltas de Gordon. Sua aversão a correr os riscos que outros aceitavam deve ter sido em parte de seu temperamento. Mas, por acaso, não refletia a mentalidade retraída do meio do qual provavelmente vinha? A noção de um evangelho eterno proporcionava uma via fácil de recuo do tumulto cotidiano. Contudo, descender da Terceira Comissão, por transfigurado que estivesse, acarreta custos. Não eram somente os limites de uma experiência política, entretanto, também literária. Os fracassos poéticos dos últimos trabalhos de Blake eram o resultado de seu auto-isolamento. Mas significava que sua distância dos círculos jacobinos era a ausência de qualquer resposta romântica a seus trabalhos, apesar dos valorosos esforços de Crabb Robinson, por interessar a Wordworth, Hazlitt e outros. Um bom antídoto para os patrióticos clamores de uma “Inglaterra, terra verde e agradável” é recordar hoje que o único eco significativo da obra de Blake enquanto vivo, encontra-se na Alemanha.

O último artigo de Thompson tratava do patriotismo nessa época. Em uma resenha crítica amistosa do livro de Linda Colley, Britons: forging the nation publicado este verão em Dissent, questionava a consistência da lealdade popular durante as guerras contra a França. A pesar de não negar sua existência, mostrava-se impaciente com aquelas análises que passavam por alto o fluxo de “patriotismo hipócrita” das danças e os desfiles dos voluntários. Embora pudesse irritar adotando os mesmos gestos ingleses, seus compromissos mais profundos foram evidentemente internacionalistas. O desarmamento nuclear europeu foi a causa à qual se dedicou durante toda uma década. Sua imaginativa resposta como escritor estendeu-se à China, Índia, América Latina e aos Estados Unidos. A unidade desses compromissos residiu em seu desejo de acabar com a Guerra Fria.

Em seus atos, demonstrou ser o profeta desse fim. Isso é por si só admirável. O quanto contribuiu o movimento pacifista para esse fim é outro problema; é o debate principal que Thompson deixa pendente. Nesse ponto, diferíamos. Entre os ideais do END (Movimento pelo Desarmamento Nuclear Europeu) e as realidades da queda da União Soviética, há uma grande brecha. Ao distinguir os defensores do fim da Guerra Fria de seus agentes, não os estou depreciando. A Primeira Guerra Mundial não foi concluída pela esquerda Zimmerwaldiana do “Chamado de Estocolmo”, mas pela vitória da Tríplice Entente. Não lhe concedemos menos honrarias por isso. Foi muito diferente o final da Guerra Fria? Edward sustentava apaixonadamente que foi. Ninguém teria mais direito a afirmar que ele. Seu juízo profissional – Ends and histories, concluído na primavera de 1990 e publicado no volume de Mary Kaldor Europe from bellow (A Europa vista de baixo) - é em parte uma resposta a Francis Fukuyama, sobre o qual tínhamos posições convergentes. É uma de suas mais atrativas análises é visionário e autobiográfico ao mesmo tempo. As pessoas o trarão à tona depois que os vereditos mais convencionais tenham sido esquecidos.

O primeiro rascunho foi terminado, explica, justo antes de a velha ordem ser arrasada em Praga, e ele estava à beira da morte em um hospital em Nova York. Em seus últimos anos, sofreu constantes enfermidades. Os leitores da London review of books recordaram um texto sobre a National Health Service (NHS). Não era velho quando morreu. Para nós, é uma perda enorme. Christopher Hill publicou meia dúzia de livros durante os doze anos posteriores à idade que tinha Thompson quando morreu. O que poderia ter escrito Edward? Em pleno auge do movimento pacifista, ele tendia a deixar de lado outras lutas políticas, porque poderiam dividir a causa comum. Com o final da Guerra Fria, seguramente havia contribuído mais uma vez para renovação da esquerda. Há vislumbres disso em Ends and histories. Qualquer que fosse o caminho tomado suas ideias, seriam de oposição. Seu temperamento não era de um contemporizador. A life of dissent é o filme afetuoso que Tariq Ali fez sobre Edward e Dorothy Thompson, no início deste ano, e que recentemente pude voltar a vê-lo. Durante a filmagem, conversaram sobre parentes em comum... “Que estará fazendo Perry por esses tempos?” perguntou Edward. Tariq mencionou algo que eu havia escrito sobre o conservadorismo nesta revista. “Sim, já sei”, respondeu Edward. “Oakshott era um cara ruim. Diga a ele para fortalecer seu tom”.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...