25 de junho de 2012

Eleição é um marco, mas resultado sugere negociação com militares

Salem H. Nasser

Folha de S.Paulo

Ao final, o vencedor levou. Mas isso não significa, necessariamente, que as instituições funcionaram.

Desde o começo das revoltas no mundo árabe, tem-se perguntado se a democracia é possível naquelas paragens.

E ainda que não seja fácil definir exatamente uma democracia ou se pode haver mais de um tipo, talvez seja seguro dizer que tem a ver com o desenho de instituições sadias e que essas funcionem de modo a reduzir o exercício arbitrário do poder.

Nos últimos dias, no Egito, as instituições do Estado tomaram decisões que evidentemente serviam a dar uma roupagem elegante ao arbítrio e aos desvios de poder.

Será uma exceção a decisão que declarou vitorioso o vencedor de fato?

A dúvida é legítima. A demora do anúncio não podia se justificar senão porque algo estava sendo cozinhado em outra cozinha e, por um bom momento, pensou-se que o candidato do regime seria declarado vencedor.

Há algumas hipóteses. Os militares talvez estivessem testando a disposição popular e a dos partidários da Irmandade para saber se passaria uma vitória de Ahmed Shafiq. Ou estavam negociando com a Irmandade e com os interessados externos, entre eles os EUA, um novo status quo de compromisso.

O fato de que um tal acordo foi costurado e era do conhecimento de muitos se fez sentir nas rápidas boas-vindas que muitos, inclusive Israel, deram ao resultado.

Aceitou-se o inevitável, mas conta-se com a capacidade dos militares de assegurar que a Presidência seja despida de poderes e, por isso mesmo, que a Irmandade fracasse na função.

Aos olhos do Ocidente, ou de parte dele, estaria assim desenhado um paradoxo, ou absurdo, do tipo que vigorou na Turquia por tanto tempo: os militares garantindo uma democracia para a qual os islamitas seriam um perigo.

Ainda assim, a chegada da Irmandade à Presidência é um evento de monumental importância.

A Irmandade, que há muito vem fazendo prova de uma crença tranquila em sua própria força, faz também os seus cálculos e acredita poder disputar o Egito com os militares e com forças externas. Tenha ou não havido um acordo que inclua a Irmandade Muçulmana, esse jogo acaba apenas de começar.

SALEM H. NASSER é coordenador do Centro de Direito Global da Faculdade de Direito da FGV (Fundação Getulio Vargas)

21 de junho de 2012

Por que eles não foram gratos? Mossadegh

Mossadegh, cuja família pertencia à nobreza, era um líder improvável na transição do Irã de uma monarquia dinástica para a política de massas.

Pankaj Mishra

London Review of Books


Patriot of Persia: Muhammad Mossadegh and a Very British Coup por Christopher de Bellaigue
Bodley Head, 310 pp, fevereiro 2012, ISBN 978 1 84792 108 6

Tradução / Em 1890, um ativista muçulmano itinerante de nome Jamal al-din al-Afghani estava no Irã, quando o então governante Naser al-Din Shah Qajar, entregou uma concessão de tabaco a um empresário britânico, G.F. Talbot, que, na prática, lhe garantia um monopólio de compra, venda e exportação. Al-Afghani chamou a atenção, sob um coro de aprovação de intelectuais seculares e também de comerciantes conservadores, que os plantadores de tabaco ficariam à mercê de infiéis, e a sobrevivência dos pequenos distribuidores, destruída. Organizou grupos de pressão em Teerã – inovação política até então desconhecida no país – que enviaram cartas anônimas a funcionários e distribuíram panfletos e cartazes conclamando os iranianos a se revoltarem. Na primavera seguinte, eclodiram protestos furiosos nas principais cidades. Ajudados pelo telégrafo, então recém introduzido no país, os manifestantes reunidos no Protesto do Tabaco – como se tornou conhecido – foram tão cuidadosamente coordenados como novamente o seriam na Revolução Islâmica de Khomeini cem anos depois, quando fitas-cassetes fizeram o papel do telégrafo e as mulheres participaram em grande número.

Al-Afghani também escreveu ao Aiatolá Mirza Hassan Shirazi em Najaf, dando ao clérigo xiita e imensamente influente embora apolítico, uma precoce lição sobre os "ajustes estruturais" que os financistas ocidentais viriam a aplicar aos países pobres: "O que os fará compreender o que é o Banco?", perguntava ele. "Significa entregar completamente as rédeas do governo ao inimigo do Islã, a escravização do povo àquele inimigo, a rendição do povo e de todo domínio e autoridade, entregue ao inimigo estrangeiro". É possível que Al-Afghani tenha exagerado. Mas ele sabia, de suas experiências na Índia e no Egito, o quão rapidamente comerciantes e banqueiros ocidentais aparentemente inócuos podem converter-se em diplomatas e em soldados. O xá, imprestável, já havia cedido a relativa imunidade do Irã aos imperialistas informais europeus. Em 1872, com o país já exaurido de capitais e padecendo sob o peso de massivo déficit no orçamento, cedera um monopólio para construção de ferrovias, estradas, fábricas, barragens e minas a outro cidadão britânico, o Barão Reuter (fundador da agência de notícias de mesmo nome). Até Lord Curzon surpreendeu-se vinte anos depois, quando soube dos termos do negócio, e descreveu-o como "a mais completa rendição de todos os recursos de um reino que se entrega a mãos estrangeiras, com que alguém algum dia sonhou, nem com muito menos do que isso, em toda a história". Protestos da Rússia, vizinha do Irã e grande rival dos britânicos na região, fizeram naufragar essa negociação específica; mas Reuter tinha outros ferros no fogo.

Feita apenas oito anos depois de os britânicos terem ocupado o Egito, a concessão-dádiva do tabaco pareceu obscena a al-Afghani. Expulso do Irã pelo xá, ele sustentou uma barragem de cartas endereçadas a todos os mais influentes clérigos xiitas nas cidades sagradas da Mesopotâmia, pedindo que saíssem eles também da apatia em que viviam e se erguessem contra o xá. Pouco meses depois, Shirazi escreveu sua primeira carta sobre tema político ao xá, denunciando bancos estrangeiros e o poder crescente que estavam adquirindo sobre a população muçulmana, e as concessões comerciais feitas a europeus. O xá, desesperado para manter a seu favor o corpo de clérigos, estudiosos do Islã e homens santos [ulema], enviou intermediários para negociar com Shirazi. Em vez de ceder, o clérigo emitiu uma fatwa que declarava anti-islâmico o hábito de fumar, até que o monopólio fosse cancelado. Foi espantosamente bem-sucedido – até o palácio do xá tornou-se área sem fumo. Finalmente, o xá capitulou a uma aliança de intelectuais, clericato e comerciantes nativos e, em janeiro de 1892, cancelou a concessão do tabaco.

Nessa época, Muhammad Mossadegh era o muito precoce filho de nove anos de um alto funcionário que trabalhava para o xá. Homa Katouzian, seu biógrafo anterior em inglês, atribui a consistente oposição de Mossadegh a "qualquer tipo de concessão a qualquer potência estrangeira" à impressão profunda que lhe causara a fúria popular contra os enclaves europeus que visavam a minar a soberania do Irã. Mossadegh, cuja família pertencia à nobreza e que ainda menino recebeu o título de mussadiq al-saltaneh, "garantidor da monarquia", foi um bem improvável líder da transição do Irã, de monarquia dinástica, para a política de massas. Mas cresceu em tempos de agitação política sem precedentes em toda a Ásia.

Intelectuais e ativistas asiáticos começaram a desafiar o poder arbitrário dos imperialistas ocidentais e seus aliados nativos no final do século XIX. A primeira geração incluiu polemistas como al-Afghani, que congregou em volta dele jovens anti-imperialistas cheios de energia, mas desorganizados, em Cabul, Istanbul, Cairo e Teerã. A geração seguinte produziu homens como Mossadegh, que sabiam da vida no ocidente ou foram educados em instituições de estilo ocidental e eram mais bem equipados para oferecer aos compatriotas, cada vez mais mobilizados, uma ideologia e uma política coerentes de nacionalismo e anticolonialismo.

Na biografia politicamente astuta que Christopher de Bellaigue construiu, Mossadegh não é o "velho bruxo tolo" e "Scheherazade birrento" de incontáveis memórias e matérias jornalísticas anglo-americanas, mas membro "daquela geração de asiáticos educados à ocidental que voltaram para casa com bigodes elegantemente aparados, para vender liberdade aos seus compatriotas": "Apaixonados pela mesma amante, A Pátria, esses turcos, árabes, persas e indianos vieram a liderar movimentos anticoloniais que transformaram o mapa do mundo." Mossadegh tinha mentalidade mais democratizante que Atatürk, por exemplo: de Bellaigue o chama de "primeiro líder liberal do Oriente Médio moderno" – sua "concepção de liberdade era tão sofisticada quanto qualquer outra na Europa ou na América". Mas foi menos bem-sucedido que seus heróis, Gandhi e Nehru; estava chegando aos 70 anos, hipocondríaco, quando afinal se tornou primeiro-ministro do Irã em 1951. Teve a má sorte de ser liberal-democrata num momento em que, como Nehru observou, com os canhões dos navios britânicos ditando o rumo da política egípcia, "democracia, para país oriental, parecia significar uma única coisa: levar adiante os planos e ordens do poder imperialista reinante." Embora mais focados e mais cheios de recursos que al-Afghani, liberais moderados como Mossadegh frequentemente se tornavam presas fáceis para as trapaças imperialistas. Jamais tiveram senão uns poucos aliados simbólicos no ocidente e, em casa, eram desprezados pelos linhas-duras que, adiante, assumiram a tarefa pós-colonial de construir dignidade e força nacionais. Khomeini, para citar um nome, sempre falou com desdém do fracasso de Mossadegh, que não soube proteger o Irã contra o ocidente.

Iranianos liberais e iranianos radicais citam vários casos em que o país foi humilhado pelo ocidente no século XIX, quando era dominado por britânicos e russos. Os eventos do início do século 20 minaram ainda mais a autonomia política, num momento em que as instituições políticas estavam sendo liberalizadas (resultado da Revolução Constitucionalista de 1905-7, fora criado um Parlamento). Na Primeira Guerra Mundial, Grã-Bretanha e Rússia primeiro ocuparam e depois dividiram o país, para manter longe os exércitos otomano-alemães. O fim da guerra não trouxe qualquer alívio. O Exército Vermelho ameaçava pelo note e os britânicos, já fracionando os territórios do Império Otomano, viram uma chance para anexar o Irã. Lorde Curzon, agora secretário do Exterior e convencido, como disse Harold Nicolson, de que "Deus selecionou pessoalmente a classe alta britânica como um instrumento da Vontade Divina", elaborou um acordo anglo-persa que era quase inteiramente destrutivo da soberania iraniana.

Diz-se que Mossadegh chorou ao saber do acordo. Em desespero, decidiu viver o resto da vida na Europa. Como depois se viu, Curzon, que jamais soube interpretar corretamente o ânimo nativo, avaliou mal o sentimento iraniano. O acordo foi denunciado; membros pró-britânicos do parlamento iraniano, Majlis, foram fisicamente atacados. Ante tal oposição, Curzon fincou pé: "Essa gente tem de aprender custe a eles o que custar, que não podem prosseguir sem nós. Pouco me importa se tiver de esfregar o nariz deles na poeira." Apesar da teimosia de Curzon, a revolta iraniana realmente enterrou o acordo anglo-persa. Mas já havia outro arranjo desigual que amarrava o Irã à Grã-Bretanha. Presciente, comprando ações do governo na empresa de petróleo anglo-persa Anglo-Persian Oil Company (APOC) em 1913, Winston Churchill já dera jeito de assegurar que 84% dos lucros da empresa viajassem diretamente para a Grã-Bretanha. Em 1933, Reza Khan, um soldado autodidata que aproveitara o caos do pós-guerra para abocanhar o poder e fundar uma nova dinastia governante (para grande desgosto de Mossadegh), já negociara novo acordo com a APOC, impressionantemente parecido com o primeiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, tropas britânicas e russas novamente ocuparam o país, e os britânicos trocaram o xá reinante, afobadamente pró-nazistas, pelo filho dele, Muhammad Reza.

Naqueles anos, a política britânica era dominada pelo que Bellaigue chama, sem exagero, de "profundo desprezo pela Pérsia e seu povo" – o que serviu de faísca, não só para o moderno nacionalismo iraniano, mas, também, pela suspeita, que parece inafastável, de que a Grã-Bretanha sempre será "força maligna". Quando em 1978 o xá chamou Khomeini de agente britânico, usou a expressão como ofensa grave; o ataque acabou saindo-lhe pela culatra, porque marcou o início do primeiro dos movimentos de massa contra seu reinado. APOC, já rebatizada como Anglo-Iranian Oil Company em 1935, gerou gordos lucros de $3 bilhões entre 1913 e 1951, mas apenas $624 milhões permaneceram no Irã. Em 1947, o governo britânico recebeu £15 milhões em impostos só sobre os lucros da empresa, enquanto o governo do Irã ficou com metade dessa soma, em royalties. A empresa também excluiu iranianos da administração e impediu que Teerã examinasse as contas.

O crescente sentimento antibritânico finalmente levou o xá Muhammad Reza a nomear Mossadegh como primeiro-ministro no início de 1951. Os nacionalistas iranianos, então, já reuniam partidos secularistas e partidos religiosos e partidos da esquerda comunista e não comunista. Mossadegh, que, como escreve de Bellaigue, "era o primeiro e único estadista iraniano a comandar todos os ramos nacionalistas", tratou rapidamente de nacionalizar a indústria do petróleo. Dezenas de milhares ocuparam as ruas para saudar os funcionários mandados de Teerã para assumir o comando das instalações britânicas de petróleo em Abadan, beijando os carros cobertos de poeira – um dos quais pertencia a Mehdi Bazargan, que adiante seria o primeiro primeiro-ministro da República Islâmica do Irã. O embaixador dos EUA relatou que Mossadegh tinha o apoio de 95% da população; e o xá contou ao diplomata Averell Harriman que não se atrevera a dizer uma palavra em público contra a nacionalização. Mossadegh sentiu-se conduzido nas asas da história. "Centenas de milhões de asiáticos, depois de séculos de exploração colonial, ganharam afinal a liberdade e a independência", disse ele na ONU em outubro de 1951: os europeus reconheceram os clamores por soberania e dignidade nacional da Índia, da Indonésia, do Paquistão – por que continuaram a ignorar o Irã?

Foi apoiado por uma ampla coalizão de novos países asiáticos. Até o delegado de Taiwan, que ganhou lugar na ONU à custa da República Popular da China de Mao, lembrou aos britânicos que "longe vão os dias quando o controle da indústria iraniana de petróleo podia ser partilhado com empresas estrangeiras." Outros regimes pós-coloniais nacionalizariam em pouco tempo as respectivas indústrias nacionais do petróleo, adquirindo assim o controle sobre os preços internacionais e expondo as economias ocidentais a choques graves. Mas os britânicos, enraivecidos pela impertinência de Mossadegh e desesperadamente carentes de retorno do que era o maior investimento dos britânicos no além mar, nada viam e nada ouviam.

A Grã-Bretanha já não podia sustentar o próprio império, mas, como de Bellaigue destaca, em muitos locais, "particularmente no Irã, homens de bochechas rosadas andavam de casaca, de um lado para o outro, como se nada estivesse acontecendo". Muitos deles estavam na diretoria da Anglo-Iranian Oil Company – e, como um deles confessou, estavam "desamparados, ansiosos, sem qualquer ideia comum a todos, confusos, sem perspectiva, cegos". Ainda convencidos de que "tinham prestado enorme favor aos iranianos por encontrar e extrair petróleo", os britânicos rejeitaram uma proposta, apoiada pelos EUA, de que os lucros fossem partilhados igualmente, e lançaram um bloqueio devastadoramente efetivo contra a economia iraniana. "Se nos curvamos a Teerã, amanhã nos curvamos a Bagdá", disse o Express, com lógica Curzoniana.

O retorno de Churchill a Downing Street em 1951, empoderou ainda mais os neoimperialistas: o Daily Mail exortava o governo a "fazer alguma coisa antes que a podridão se dissemine ainda mais". Rapidamente cresceu um consenso anti-Mossadegh, mesmo entre os liberais. Em 1891, al-Afghani desafiara a imagem criada por Reuter, de iranianos lutando por soberania como fanáticos religiosos, suspeitando que houvesse alguma relação com interesses comerciais britânicos no Irã. Em 1951, o Observer de David Astor não protegia menos os interesses britânicos ao apresentar Mossadegh como 'fanático" e "trágico Frankenstein... obcecado com uma única ideia xenofóbica".

"Havia preocupação em todo o mundo branco", escreve de Bellaigue, ante o "show de maus modos orientais de Mossadegh". O departamento de Relações Exteriores da Grã-Bretanha iniciou uma campanha para persuadir o público dos EUA da correção da causa britânica, e a imprensa dos EUA rapidamente aderiu. O New York Times e o Wall Street Journal compararam Mossadegh a Hitler, ainda que seu populismo ocasionalmente autoritário tivesse de enfrentar um parlamento dividido e uma crescente oposição interna formada de comerciantes, proprietários de terra, saudosos da realeza, militares e clérigos de direita (alguns dos quais garantiriam a entrada de que careciam os aventureiros da CIA e do MI6). Em The US Press and Iran: Foreign Policy and the Journalism of Deference (1988), William Dorman e Mansour Farhang mostram que nenhum grande jornal nos EUA sequer algum dia noticiou as manifestações dos iranianos contra a AIOC. Em vez disso, o Washington Post dizia que o povo do Irã não era capaz de sentir "gratidão". Rememorando aqueles tempos, com remorso tardio, o correspondente do New York Times em Teerã, Kennett Love, descreveu Mossadegh posteriormente como "homem razoável", atuando sob "pressões nada razoáveis". Mas o próprio Love foi sutilmente coagido a acompanhar os que chamou de seus "editores obtusamente pró-establishment" em New York, e a colaborar com a embaixada dos EUA.

Tendo proclamado o "Século Norte-americano", o Time de Henry Luce assumiu interesse direto no Irã rico em mercadorias, argumentando que os "russos podem intervir, passar a mão no petróleo e até disparar a Terceira Guerra Mundial". Já decididos a derrubar Mossadegh, os britânicos não tardaram a explorar a crescente obsessão dos EUA com o expansionismo soviético: o Irã seria como um teste de como "desqualificar" o nacionalismo asiático associando-o ao comunismo. Encontraram audiência receptiva nos irmãos Dulles, o secretário de Estado e o diretor da CIA no novo governo de Eisenhower em 1953.

Apoiado em fontes persas, de Bellaigue apresenta relato bem informado da "Operação Ajax", o golpe de CIA/MI6 que derrubou o governo de Mossadegh e impôs o Xá Reza Pahlavi como todo-poderoso governante do Irã em agosto de 1953. A história da destruição, por forças anglo-americanas, das esperanças do Irã de estabelecer-se como moderno estado liberal já foi contada várias vezes, mas a mensagem de 1953 ainda não parece ter sido absorvida. Ainda em 1964, Richard Cottam, adido político na embaixada dos EUA nos anos 1950 e depois professor especialista em Irã, alertava que as "distorções" distribuídas pela imprensa e por acadêmicos relacionadas à era Mossadegh beiraram o "grotesco, e até hoje parece que praticamente não há qualquer esperança de alguma política exterior norte-americana sofisticada para o Irã." (Cottan teria acrescentado "ou para todo o Oriente Médio".) O New York Times resumiu o clima neoimperial de imediatamente depois do golpe: "Países subdesenvolvidos ricos em recursos têm agora lição bem concreta do alto preço que terá de pagar qualquer deles que se deixe tomar por nacionalismo fanático."

Apesar de ter sido informado repetidas vezes por Kennett Love, o Times nunca fez qualquer referência ao papel central que teve a CIA na derrubada de Mossadegh – e foi a primeira grande operação da Guerra Fria, da então desconhecida agência. Ao festejar a visita oficial do xá aos EUA em 1954, o Times exultava: "Hoje Mossadegh está onde tem de estar – na cadeia. E o petróleo volta a correr para os livres mercados do mundo." O Irã, prosseguia o jornal, caminha "rumo a novos e auspiciosos horizontes". A imprensa americana, que começara a denunciar Mossadegh como o Führer iraniano, aplaudia agora os esquemas de modernização faraônica do xá. Foi pelo menos em parte resultado da prodigalidade com que recebeu os barões da mídia americana, dentre os quais, segundo lista que os revolucionários divulgaram em 1979, estavam Walter Cronkite, Barbara Walters, Peter Jennings e Mrs. Arthur Sulzberger.

Reforçado por esse apoio, o antes tímido xá começou a exibir sintomas da síndrome que al-Afghani já identificava em um de seus predecessores: "Por bizarro que pareça, fato é que, cada vez que o xá voltava de uma de suas visitas à Europa, aumentava a crueldade e a tirania contra o próprio povo." Com certeza a imprensa americana não tinha tempo a perder com opiniões de iranianos comuns, para quem, como de Bellaigue destaca, os EUA, em 1953, já se haviam tornado "quase do dia para a noite", "cúmplices do xá na injustiça e na opressão". Empresas americanas ganharam fatia de 40% da produção de petróleo depois da derrubada de Mossadegh, e no início dos anos 1960, intelectuais iranianos, muitos dos quais forçados ao exílio, já começavam a examinar, como Jalal al-e Ahmad escreveu em Gharbzadegi (traduzido imperfeitamente como Weststruckness), como foram completamente ignorados enquanto outras pessoas mudaram-se "indo e vindo para nosso meio, até que acordamos, para ver cada torre de petróleo como um espinho empalando a terra".

A hostilidade iraniana contra os EUA cresceu, com os negócios entre a CIA e os carrascos e torturadores da polícia secreta do xá. Até irromper em 1979, chocando políticos e a opinião pública americana, que buscavam interpretar os eventos revolucionários em interpretações do "Islã", exatamente como fizeram depois de 11/9. Não tinham como compreender que, como acontecera no Protesto do Tabaco de 1891 e no levante nacionalista que levou Mossadegh ao poder, brotara uma ampla coalizão iraniana contra o xá e seus aliados estrangeiros. De fato, nos primeiros dias da revolução, Mossadeghistas como Bazargan pareciam tão fortes quanto seus aliados socialistas e islâmicos. Foram Jimmy Carter, ao oferecer asilo ao xá em 1979, e o ataque de retaliação contra a embaixada dos EUA em Teerã, que fizeram pender a balança a favor dos revolucionários islâmicos.

O ataque brutal de oito anos de Saddam Hussein contra o Irã, cnicamente assistido pelos EUA, consolidou os republicanos islâmicos ao mesmo tempo em que fortalecia a imagem popular do Grande Satã. Sempre pressionados, reformadores liberalizantes em torno de Mohammad Khatami foram ainda mais enfraquecidos pela repentina inclusão do Irã, por George W. Bush, no seu "eixo do mal". Desde então, as invasões e ocupações americanas só confirmaram a percepção, predominante no Irã, de que o ocidente é pateticamente incompetente e culpado do que Khomeini chamou de istikbar i jahani ("arrogância global").

A guerra entre o Irã e os Estados Unidos nunca pareceu mais provável do que nos últimos meses, enquanto políticos e jornalistas norte-americanos apoiam obedientemente a fanfarronice de Binyamin Netanyahu. Há poucos sinais na imprensa mainstream aqui ou nos EUA de que alguém esteja prestando atenção a De Bellaigue e a outros escritores estudiosos sobre o Irã. Uma recente resenha do The Guardian sobre o livro de De Bellaigue alegou que o xá "trouxe ao Irã uma prosperidade, segurança e prestígio desconhecidos desde o século XVII. Mahmoud Ahmadinejad, um banqueiro oportunista cujo apoio está diminuindo e que sofre a desaprovação do líder supremo, é rotineiramente retratado como o próximo Hitler.

7 de junho de 2012

Salve-nos dos salvadores: a Europa e os gregos

Justiceiros de camisa preta do movimento neofascista Aurora Dourada têm patrulhado as ruas e espancado todos os imigrantes que encontram.

Slavoj Žižek


Vol. 34 No. 11 · 7 June 2012

Tradução / Imagine uma cena de um filme distópico que mostre nossa sociedade num futuro próximo. Guardas uniformizados patrulham ruas semivazias dos centros das cidades, à caça de imigrados, criminosos e desocupados. Os que encontram, os guardas espancam. O que parece fantasia de Hollywood já é realidade hoje, na Grécia.

Durante a noite, vigilantes uniformizados com as camisas negras do partido neofascista Golden Dawn [Aurora Dourada], de negadores do Holocausto –, que receberam 7% dos votos no segundo turno das eleições gregas e que contam com o apoio, como ouve-se pela cidade, de 50% da Polícia de Atenas – patrulham as ruas, espancando todos os imigrados que cruzem seu caminho: afegãos, paquistaneses, argelinos. É como a Europa defende-se hoje, na primavera de 2012.

O problema de defender a civilização europeia contra a ameaça dos imigrantes é que a ferocidade com que os defensores europeus defendem-se é ameaça muito maior a qualquer ‘civilização’, que qualquer tipo de invasão de muçulmanos, e ainda que todos os muçulmanos decidissem mudar-se para a Europa. Com defensores como esses, a Europa não precisa de inimigos. 

Há cem anos, G.K. Chesterton deu forma articulada ao impasse em que se metem todos os que criticam a religião:

“Homens que se ponham a combater igrejas em nome da liberdade e da humanidade espantam de si mesmos a liberdade e a humanidade, no momento em que atacam a primeira igreja (...). Os secularistas não provocaram o naufrágio das coisas divinas; só fizeram naufragar coisas seculares... se isso lhes serve de consolo”.

Tantos guerreiros liberais andam tão furiosamente decididos a combater o fundamentalismo não democrático, que acabam esquecendo qualquer liberdade e qualquer democracia, tudo em nome de combater o terror. Se os “terroristas” só pensam e fazer naufragar esse nosso mundo por amor pelo outro mundo, os nossos guerreiros antiterror só pensam em por a pique qualquer democracia, por ódio ao próximo muçulmano. Alguns deles são tão perdidamente apaixonados, fanatizados pela dignidade humana [e, no Brasil, pela chamada “ética”], que chegam a legalizar a tortura... para defender a dignidade humana. É a inversão do processo pelo qual os fanáticos defensores da religião começaram por atacar a cultura secular contemporânea e acabaram por sacrificar até as próprias credenciais religiosas, na ânsia de erradicar todos os aspectos que odeiam no secularismo.

Mas os defensores que insistem em defender a Grécia contra imigrantes não são o principal perigo: não passam de subproduto do perigo muito maior, da ameaça mãe de todas as ameaças: a política de “austeridade” que causou a desgraça da Grécia. As próximas eleições na Grécia estão marcadas para dia 17 de junho.

O establishment europeu alerta que são eleições cruciais: não estaria em jogo só o destino da Grécia, mas o destino de toda a Europa. Um resultado – o correto, segundo eles – levará ao processo doloroso,. mas necessário de recuperação, pela austeridade, para continuar. A alternativa – no caso de vitória do Partido Syriza, de “extrema esquerda” – seria votar pelo caos, pelo fim do mundo (europeu) como o conhecemos.

Os profetas do apocalipse estão corretos, mas não como supõem ou pretendem. Críticos dos arranjos democráticos hoje vigentes reclamam que as eleições não oferecem opção real: votamos para escolher apenas entre uma centro-direita e uma centro-esquerda cujos programas são quase absolutamente idênticos. Mas dia 17 de junho, afinal, haverá escolha significativa: de um lado o establishment (Nova Democracia e Pasok); do outro lado, a Coalizão Syriza. E, como acontece quase sempre em que haja escolhas reais no mercado eleitoral, o establishment está em pânico: caos, pobreza e violência eclodirão imediatamente, dizem, se os eleitores escolherem “errado”. A mera possibilidade de vitória da Coalizão Syriza, como se ouve, já dispara convulsões de medo nos mercados. A prosopopéia ideológica é rampante: os mercados falam como se fossem gente, manifestam “preocupação” pelo que acontecerá se as eleições não produzirem governo com mandato para manter o programa de austeridade e reformas estruturais de UE-FMI. Os cidadãos gregos não têm tempo para pensar nas preocupações “dos mercados”: mal conseguem ter tempo para preocupar-se com a sobrevivência diária, numa vida que já alcança graus de miséria que não se viam na Europa há décadas.

Todas essas são previsões enunciadas para se autocumprirem, causar mais pânico e, assim, forçar as coisas a andarem na direção “prevista”. Se a Coalizão Syriza vencer, o establishment europeu ficará à espera de que nós aprendamos com nossos erros o que acontece quando alguém tenta interromper, por via democrática, o ciclo vicioso de cumplicidade bandida, entre os tecnocratas de Bruxelas e a demagogia suicida do populismo anti-imigrantes.

Foi exatamente o que disse Alexis Tsipras, candidato da Coalizão Syriza, em entrevista recente: que sua prioridade absoluta, no caso de sua coalizão vencer as eleições, será conter o pânico: “Os gregos derrotarão o medo. Não sucumbirão. Não se deixarão chantagear.”

A tarefa da Coalizão Syriza é quase impossível. A coalizão não traz a voz da “loucura” da extrema esquerda, mas a voz do falar racional contra a loucura da ideologia dos mercados. No movimento de prontidão para assumir o governo da Grécia, já derrotaram o medo de governar, tão característico do “esquerdismo”; já mostraram que não temem fazer a faxina do quadro confuso que herdarão. Terão de mostrar-se capazes de montar e cumprir uma formidável combinação de princípios e pragmatismo; de compromisso democrático e presteza para intervir com firmeza onde seja preciso. Para que tenham uma mínima chance de sucesso, precisarão de toda a solidariedade dos povos europeus; não só de respeito e tratamento decente pelos demais países europeus, mas, também, de ideias mais criativas – como a de um “turismo solidário” nesse verão, que já propuseram.

Em suas Notes towards the Definition of Culture, T.S. Eliot [2] observou que há momentos em que a única escolha é entre a heresia e o não crer – i.é, quando o único meio para manter viva uma religião é promover uma divisão de seitas. Essa é, hoje, a posição em que está a Europa. Só uma nova “heresia” – representada hoje pela Coalizão Syriza – pode salvar o que valha a pena salvar do legado europeu: a democracia, a confiança no voto do povo, a solidariedade igualitária etc.. A Europa que haverá para nós, se a Coalizão Syriza for descartada, é uma “Europa com valores asiáticos” – os quais, é claro, nada têm a ver com a Ásia, e tem tudo a ver com a tendência do capitalismo contemporâneo, para suspender a democracia.

Eis o paradoxo que mantém o “voto livre” nas sociedades democráticas: cada um é livre para escolher, desde que faça a escolha certa. Por isso, quando se faz a escolha errada (como quando a Irlanda rejeitou a Constituição da União Europeia), a escolha é tratada como erro; e o establishment imediatamente exige que se repita o processo “democrático”, para que o erro seja reparado.

Quando George Papandreou, então primeiro-ministro grego, propôs um referendum sobre a proposta de resgate que a Eurozona apresentara no final do ano passado, até o referendum foi descartado como falsa escolha.

Há duas principais narrativas na mídia, sobre a crise grega: a narrativa alemã-europeia (os gregos são irresponsáveis, preguiçosos, gastadores, não pagam impostos, etc.; e têm de ser postos sob controle, com aulas de disciplina financeira); e a narrativa grega (nossa soberania nacional está ameaçada pelo tecnologia neoliberal imposta por Bruxelas).

Quando se tornou impossível ignorar o suplício do povo grego, emergiu uma terceira narrativa: os gregos estão sendo apresentados hoje como vítimas de desastre humanitário, carentes de ajuda, como se alguma guerra ou catástrofe natural tivesse atingido o país.

As três são falsas narrativas, mas a terceira parece ser a mais repugnante. Os gregos não são vítimas passivas. Os gregos estão em guerra contra o establishment econômico europeu. Precisam de solidariedade nessa luta, porque a luta dos gregos é a luta de todos nós.

A Grécia não é exceção. É mais uma, dentre várias pistas de testes de um novo modelo socioeconômico de aplicação quase ilimitada: uma tecnocracia despolitizada, na qual banqueiros e outros especialistas ganham carta branca para demolir a democracia.

Ao salvar a Grécia de seus ditos “salvadores”, salvaremos também a Europa.

Terroristas? Nós?

Owen Bennett-Jones


Vol. 34 No. 11 · 7 June 2012

Terror Tagging of an Iranian Dissident Organisation 
by Raymond Tanter.
Iran Policy Committee, 217 pp., £10, December 2011, 978 0 9797051 2 0

Tradução / “Mas a verdade é outra. Os apoiadores norte-americanos dos MEKs creem que a organização ainda tenha potencial “de combate”, precisamente por sua longa história de violência e terrorismo. Por isso creem que esses terroristas sejam úteis para arrancar do poder os mulás iranianos. Por isso a secretária Clinton acabará por excluir os MEKs, da lista de organizações terroristas”

Essa história dos “Mujahedin do Povo” (Mujahedin e Khalq, MEK), também conhecidos como “Mujahedin do Irã”, é o relato de como gerenciamento competente e insistente de marketing & imagem pode fazer, de um inimigo mortal, um muito prezado aliado.

Os MEKs estão hoje em campanha massiva para serem excluídos da lista dos EUA de organizações terroristas. Tão logo sejam tirados da lista, estarão livres para usar o apoio que sempre deram aos EUA, e tornarem-se o grupo mais bem amado, mais favorecido e, sem dúvida, o que mais fundos receberá, dentre outros grupos da oposição iraniana.

Outro artifício, também usado para conseguir resultado bem semelhante a esse, foi o Congresso Nacional Iraquiano (CNIq) – grupo de lobby liderado por Ahmed Chalabi que falou de democracia e pavimentou o caminho para a invasão do Iraque, presenteando Washington com “provas” altamente questionáveis da existência de inexistentes armas de destruição em massa e de laços entre Saddam Hussein e a al-Qaeda. Em seguida, quando George Bush levou os EUA à guerra, o CNIq e seus líderes só tiveram de descansar um pouco e preparar-se para governar.

Muitos em Washington acreditam que, para o bem ou para o mal, os EUA irão à guerra contra o Irã, e que os MEK terão papel a desempenhar. Mas, antes, eles terão de convencer Hillary Clinton a retirar o grupo de sua lista oficial de terroristas. Alguns funcionários de Clinton têm insistido para que ela deixe os MEK exatamente na lista onde estão; mas há cachorros grandes em Washington que exigem furiosamente que ela converta os MEK em organização oficialmente declarada não terrorista. Depois de exaustiva caminhada entre várias agências, o processo dos MEK está agora sobre a mesa de Clinton. Declarações recentes do Departamento de Estado indicam que a “desterrorificação” dos militantes MEK já é, agora, bem provável.

Organizados nos anos 1960s como grupo islamista anti-imperialista, com tendências socialistas e dedicado à luta para derrubar o xá, os MEK originalmente defenderam não só a revolução islâmica, mas, também, muitos direitos para as mulheres – combinação que atraiu muitas simpatias nos campi das universidades iranianas. Conseguiram construir genuína base popular e tiveram papel destacado na derrubada do Xá em 1979. Tornaram-se tão populares, que o Aiatolá Khomeini sentiu que precisava destruí-los; ao longo dos anos 1980s, Khomeini fomentou julgamentos e execuções públicas de membros do grupo. Os MEK retaliaram, com atentados contra clérigos influentes no Irã.

Temendo pela vida, membros dos MEK fugiram, primeiro para Paris, depois para o Iraque, onde Saddam Hussein, desesperado para encontrar aliados para a guerra contra o Irã, ofereceu-lhes milhões de dólares, além de tanques, peças de artilharia e armas de vários tipos. Também deu-lhes terras. Camp Ashraf tornou-se lar dos MEK, uma fortaleza no deserto, 80 km ao norte de Bagdá, a uma hora de viagem por terra até a fronteira do Irã.

A partir dos anos 1970s, a retórica dos MEK mudou, de islamista para secular; de socialista para capitalista; de pró-revolução para anti-revolução.

E desde a queda de Saddam o grupo apresenta-se como pró-EUA, “da paz”, dedicado a promover a democracia e os direitos humanos. Mas essa incansável “reinvenção” pode ser perigosa, e o novo governo iraquiano, favorável ao Irã, está sendo pressionado por Teerã para fechar definitivamente a fortaleza de Camp Ashraf, que cresceu ao longo das décadas e abriga hoje população equivalente à de qualquer das pequenas cidades da região. E não só o Irã. Muitos iraquianos também não veem com bons olhos os MEK, não só por terem-se aliado a Saddam Hussein, mas porque os MEK também participaram da violenta supressão de curdos e xiitas.

Forças de segurança do Iraque já, por duas vezes, atacaram Camp Ashraf, em 2009 e 2011, ataques que deixaram mais de 40 mortos. Vídeos de tanques blindados lançados contra moradores desarmados de Ashraf podem ser vistos em YouTube. Agora, o Iraque decidiu que Camp Ashraf tem de ser fechado; e os moradores, relutantemente, começaram a mudar-se para Camp Liberty, ex-base do exército dos EUA próxima do aeroporto de Bagdá, atualmente sob supervisão da ONU e protegida por forças da segurança iraquiana. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados [orig. UNHCR] está cadastrando os residentes, com vistas a distribuí-los por outros países, como refugiados; mas poucos países deram sinais de interesse em receber pessoas que, do ponto de vista oficial dos EUA, são terroristas, e que, segundo outros, não passariam de fiéis adoradores de uma espécie de culto satânico.

Os MEK passaram a viver sob regras típicas de grupos de fanáticos religiosos – os fiéis foram separados das respectivas famílias e amigos; e toda a informação que chegava até eles era controlada – depois de 1989, ano em que o casal que lidera o movimento, Massoud e Maryam Rajavi, lançou a Operação Luz Eterna [orig. Operation Eternal Light]. Depois que Saddan fracassou no golpe para “mudar o regime” no Irã, a Operação Luz Eterna foi a alavanca escolhida para, afinal, levar o grupo a controlar o país. O sucesso, disse Rajavi aos seus guerreiros-fiéis, era garantido, porque o povo iraniano, civis e militares, desertaria em massa e seguiria os MEK na marcha sobre Teerã. Seria fácil, disse ele. Mas, à parte ninguém ter desertado, as forças iranianas resistiram ferozmente e contra-atacaram. Morreram mais de mil seguidores dos MEK de Massoud e Maryam Rajavi, e muitos outros foram feridos. Os MEK perderam cerca de 1/3 de seus quadros.

Rajavi tinha de encontrar alguma explicação para a derrota. A ideia ortodoxa que lhe ocorreu foi dizer aos seus seguidores, que haviam perdido a guerra porque se deixaram distrair por amor&sexo. Ordenou que os seguidores se divorciassem, abraçassem o celibato e passassem a viver numa habitação comunitária, só de homens, como soldados de exércitos regulares. Tomados de ideias de autossacrifício e martírio, os combatentes MEK obedeceram. (Até hoje a regra do celibato é tão rígida que há turnos no posto de combustível de Camp Ashraf, para que mulheres e homens abasteçam os carros sem se encontrarem.) Os combatentes MEK foram treinados para transferir a paixão pelas antigas esposas, para os líderes. Conscientes de que a frustração sexual já gerava novas dificuldades, os Rajavis passaram a organizar reuniões nas quais os MEK deveriam confessar, em público, suas fantasias sexuais. E os que confessavam eram espancados por outros fiéis. Não se estimulavam nem amizades, nem filhos em Camp Ashraf.

A partir de meados dos anos 1980s, sob alegação de que a segurança ali seria precária, os líderes ordenaram que várias crianças que viviam em Camp Ashraf fossem entregues para adoção a famílias pró-MEK na Europa e no Canadá. Alguns pais passaram mais de 20 anos sem ver os filhos.

Essas práticas, e as frequentes sessões de doutrinação, além do bloqueio total de qualquer informação vinda do mundo exterior (os MEK são proibidos também de usar telefones), ajudaram a firmar o controle sobre os membros. Mas os MEK que viviam  fora do Iraque também manifestaram extraordinária devoção à causa. Em 2003, quando autoridades francesas prenderam Maryam Rajavi e a acusaram de terrorismo (adiante, ela foi libertada), 10 militantes dos MEK, em diferentes pontos do mundo, puseram fogo ao corpo, em sinal de protesto: dois deles morreram.

O grupo MEK nega, evidentemente, que tenha organização de culto religioso. Mas vários observadores externos – militares norte-americanos de alto escalão, agentes do FBI, jornalistas e a Rand Corporation (financiada pelo Pentágono) – que estiveram em Camp Ashraf insistem em repetir que, sim, são organizados como seita. Um alto funcionário do Departamento de Estado (hoje aposentado), que foi enviado ao Iraque para entrevistar milhares de membros dos MEK, concluiu que, sim, se tratava de seita e culto religiosos; que a fortaleza de Camp Ashraf, praticamente uma cidade, mas não qual não se via uma única criança, era “completa tragédia, em termos humanos”; que os membros eram “mal atendidos e mal dirigidos” pelos líderes; e que muitos haviam sido subornados ou, no geral, “enganados”, para que se unissem ao grupo.

Os MEK usavam vários métodos de recrutamento. A elite do grupo reuniu-se no Irã, antes da revolução popular islâmica. Outros eram prisioneiros iranianos, capturados durante a guerra Irã-Iraque. A esses, Saddam ofereceu uma barganha: se se alistassem no grupo dos MEK, poderiam trocar os campos de prisioneiros de guerra e mudar-se para o complexo de Camp Ashraf, muito mais confortável. Outros membros foram recrutados em campi de universidades dos EUA, com promessas de emprego, dinheiro, novos passaporte e a oportunidade de lutar contra os exércitos dos mulás. Outros, mais simplesmente, foram enganados.

A um ativista dos MEK que vivia no Irã e que estava em visita a Camp Ashraf contaram que sua mulher e filho haviam sido mortos; e que ele, se quisesse poderia ficar vivendo ali. Só depois de dez anos, afinal, o homem voltou a encontrar um telefone; ligou para o número de sua casa no Irã e, afinal, soube que estavam todos vivos. Outros ex-membros dos MEK contam que, na chegada ao Iraque, eram passados clandestinamente pelos controles de imigração, de modo que seus passaportes não registravam qualquer carimbo de entrada. Depois, quando decidiam deixar o país, eram informados que corriam o risco de ser presos por ter entrado ilegalmente no país.

Ouvi horas de depoimentos desse tipo, de ex-membros. O grupo insiste que todos os que contam essas histórias são agentes iranianos; que não separou famílias nem expulsou crianças. Mas as lágrimas de pais, mães, esposas e filhos me pareceram mais convincentes.

Mas, apesar de tudo isso, alguns oficiais militares norte-americanos que trabalharam em Camp Ashraf depois da invasão do Iraque saíram de lá convencidos de que os MEK poderiam ser aliados muito úteis.

O general David Phillips, policial-militar que serviu lá em 2004, argumenta que, se os MEK são organizados como culto e facção religiosa, o mesmo se pode(ria) dizer dos Marines dos EUA: os Marines e os MEK são obrigados a usar uniformes, obedecem ordens e seguem rituais que, para os não iniciados, parecem bizarros.

Esse tipo de simpatia pelos MEK e a avaliação positiva que se ouve de vários militares dos EUA são fáceis de explicar. Em 2003, foram informados de que os EUA encontrariam pesada resistência, de um exército de terroristas uniformizados e pesadamente armados, que combateriam a favor de Saddam e contra as forças dos EUA. Mas aconteceu que, entre o momento em que a informação foi recolhida e a chegada dos americanos, os líderes dos MEK rapidamente entenderam que não havia futuro para Saddam; e, numa pirueta política, trocaram de lado.

Quando os soldados dos EUA chegaram a Camp Ashraf, foram recebidos por anfitriões cordiais, que falavam inglês e logo manifestaram integral apoio à “causa” dos EUA. Para muitos soldados dos EUA, Camp Ashraf tornou-se refúgio e abrigo, onde encontravam segurança, num país massivamente hostil.

Mas nada disso explica a popularidade de que gozam os MEK entre políticos em Londres, Bruxelas e Washington, hoje. Boa parte dessa popularidade é comprada. Cerca de três dúzias de ex-altos comandantes militares e políticos norte-americanos são conferencistas regulares nos eventos dos MEK e de amigos dos MEK: Rudy Giuliani; Howard Dean; o ex-conselheiro para segurança nacional do governo Obama, general James Jones; e o ex-senador Lee Hamilton. O pagamento, por dez minutos de fala, com pose para fotografias, está entre $20 mil e $40 mil dólares. O tema dessas “palestras” pode ser qualquer um: muitos dos palestrantes sequer mencionam a sigla MEK. 

Em meses recentes, o governo Obama sinalizou que poderá proibir a realização dessas “palestras” e eventos. O Tesouro investiga denúncias de que os “palestrantes” norte-americanos estariam recebendo dinheiro de organização terrorista “listada”. O que querem de fato saber, em outras palavras, é se os exilados iranianos que pagam o “soldo” dos “palestrantes” são membros dos MEK; os que fazem campanha a favor do grupo, sem receber pagamento, não serão afetados. A maioria dos apoiadores apóiam os MEK porque apoiariam qualquer coisa que ajude ou pareça ajudar a derrubar o governo em Teerã. Parecem não se dar conta de que a organização tem sido definida como culto de fanáticos e não tomam conhecimento do que dizem os ex-membros.

Grande número dos mais conhecidos lobbyistas pró-MEK dizem que aceitam fazer as tais “palestras” porque outros intelectuais e políticos que também participam das atividades dos MEK são prova da respeitabilidade do grupo.

Mas os MEK também têm lobbyistas contratados em Washington, que se dedicam a escrever longas respostas às críticas. As 105 páginas do relatório da Rand Corporation sobre os MEK foram escritas por quatro desses lobbyistas, que trabalharam durante 15 meses nos EUA e no Iraque, para produzir a mais aprofundada análise que há, dos aspectos considerados “de culto” do movimento. A resposta veio de um grupo dito “de Ação Executiva”, que se autodescreve como “uma CIA e Departamento de Defesa privados, disponíveis para cuidar dos seus mais complexos problemas e desafios mais difíceis”. O relatório da “Ação Executiva” levava o título de Courting Disaster: How a Biased, Inaccurate Rand Corporation Report Imperils Lives, Flouts International Law and Betrays Its Own Standards. [1] O autor que assina pela “Ação Executiva”, Neil Livingstone, hoje candidato dos Republicanos ao governo do estado de Montana, contou que fora contratado por um “cidadão norte-americano” para avaliar a objetividade do Relatório Rand.

Concluiu que, dentre outros problemas, os autores do Relatório Rand eram demasiadamente inexperientes para tratar de tema tão complexo como os MEK. Até hoje, os que apoiam o trabalho publicado por Neil Livingston, publicado há três anos, desqualificam o relatório Rand como “serviço de alunos calouros”. A Rand diz que a crítica visa aos assistentes do autor principal, que foram apenas coadjuvantes e cujos nomes só foram incluídos como autores para oferecer-lhes algo para engordar-lhes os currículos. Todo esse lobby custa quantias astronômicas de dinheiro.

Parte do dinheiro é reunido pelos militantes encarregados de levantar fundos para os MEK, na Grã-Bretanha e em outros pontos, que trabalham de porta em porta. Funcionários dos EUA também creem que os MEKtenham à sua disposição os ganhos auferidos do (muito) dinheiro que receberam de Saddam Hussein e aplicaram bem.

Muitos dos que militam pró-MEK não respondem diretamente às acusações de que não passariam de grupo dedicado a cultos satânicos: os lobbyistas falam insistentemente da questão de os MEK serem excluídos da lista de grupos terroristas.

Em 1996, resolução da Assembleia Geral da ONU criou comissão encarregada de redigir versão inicial de uma Convenção sobre Terrorismo Internacional. Desde então, funcionários reúnem-se anualmente para discutir a questão. Mas, até o momento, ainda não encontraram definição do que seja “terrorismo” que satisfaça todos. Dois pontos parecem emperrar sempre.

Primeiro, a Organização da Conferência Islâmica insiste que movimentos de resistência contra forças de ocupação e que lutem em nome da libertação nacional – por exemplo, na Caxemira –, não podem ser considerados movimentos terroristas. Segundo, os governos temem que estejam, eles próprios, incluídos em toda e qualquer definição de terrorismo que apareça à discussão naquela comissão.

Assim, com cada um tentando construir definições de “terrorismo” que mais claramente excluam as próprias práticas, não parece haver qualquer resultado à vista, no plano internacional.

Evidentemente, decidir quais grupos são terroristas e quais não são é sempre ato político: o IRA nunca foi considerado grupo terrorista, nas listas norte-americanas; e Nelson Mandela, ainda em 2008, permanecia listado como terrorista aos olhos dos EUA.

O histórico de ataques terroristas organizados pelos MEK remonta aos anos 1970s, quando fizeram oposição ao Xá e lutaram contra os EUA que apoiavam o Xá. Para o Departamento de Estado, os MEK, em 1973, assassinaram um soldado do exército dos EUA que servia em Teerã; e, em 1975, assassinaram dois membros do US Military Assistance Advisory Group. Além de três executivos da Rockwell International e um da Texaco, também assassinados. A hostilidade dos MEK contra os EUA continuou depois da Revolução Popular Iraniana.

Dia 4/11/1979, estudantes iranianos ocuparam a Embaixada dos EUA em Teerã e sequestraram 52 diplomatas norte-americanos, que foram mantidos presos por 444 dias. Um dos diplomatas sequestrados contou que não estaria na embaixada naquele dia, se não tivesse sido atraído para lá por seus contatos com os MEK. Outro relatou que não tinha qualquer dúvida de que os MEK haviam apoiado o sequestro e, de fato, não defendiam qualquer negociação diplomática. Muito tempo depois de Khomeini ter decidido que era mais que hora de acertar aquela questão, os MEK ainda insistiam que seu apoio aos sequestros não passaria de boatos, uma farsa ardilosamente concebida; hoje já negam peremptoriamente qualquer participação. Sobre os assassinatos, dizem que, naquela época, seu principal líder era prisioneiro nas prisões do Xá; e que, com isso, uma facção marxista havia invadido a organização e assumido o comando. Essa facção, de fato, um grupo dissidente, teria sido responsável pelos ataques e assassinatos; e os ataques cessaram quando os líderes legítimos foram libertados e reassumiram o comando. São discussões que, em todos os casos, estão ultrapassadas. Os anos 1970s já vão longe. As organizações mudam.

É possível que os MEK tenham parado de assassinar norte-americanos, mas continuam comprometidos com a luta armada no Iraque e no Irã. Os esforços que empenharam a favor de Saddam Hussein contra os curdos e os xiitas nada são, se comparados às bombas, assassinatos e vastas ofensivas que organizaram e executaram dentro do Irã do final dos anos 1980s aos anos 1990s. A história de violência dos MEK está bem documentada, mas a organização insiste que a violência é coisa do passado.

Essa ideia tem recebido considerável estímulo nas cortes europeias. Em 2007, a Comissão de Apelação para Organizações Proscritas, um organismo britânico especializado oficial, declarou que os MEK teriam renunciado ao uso da força e acolheu recurso impetrado pelo grupo e contra decisão do Foreign Office britânico, que preferia manter o grupo na lista de organizações terroristas. Em 2009, a União Europeia tirou os MEK da lista europeia de organizações terroristas, amparada numa tecnicalidade que beira o absurdo: antes de qualquer outra ação, o grupo deveria ter sido formalmente informado dos motivos pelos quais seria listado como “organização terrorista”.

Para manter os MEK na lista dos EUA, Hillary Clinton terá de demonstrar que o grupo ainda tem capacidade para ou projeto de cometer atos terroristas. Os apoiadores dos MEK lembram que, no processo para convencer a corte britânica de que são grupo pacífico, em julho de 2004, todos os que vivem em Camp Ashraf assinaram documento no qual rejeitam o terrorismo e todos os tipos de violência. Há quem não tenha sido plenamente convencido.

Dado o que se viu acontecer em Guantánamo e na base aérea de Bagram, dizem eles, surpresa seria se alguém se recusasse a assinar o tal documento de renúncia ao terror. Em novembro de 2004, o FBI relatou atividades do grupo em Los Angeles; o relatório fala de telefonemas gravados, nos quais líderes dos MEK na França discutiam “específicos atos de terrorismo, inclusive bombas”.

Segundo o FBI, a inteligência francesa e a polícia de Colônia também têm informações semelhantes e gravações. O relatório FBI-2004 foi divulgado há mais de um ano, mas praticamente todo o material no qual a secretária Clinton fundamentará sua decisão é sigiloso. Em 2010, a Corte de Apelação do Distrito de Columbia julgou acusação contra os MEK, e um dos três juízes, Karen LeCraft Henderson, observou que material sigiloso ao qual a corte teria tido acesso oferecia “apoio substancial” à acusação de que os MEK continuam engajados na prática de ações terroristas ou, no mínimo, que não desmontaram a infraestrutura terrorista básica, não perderam capacidade de ataque e têm planos para empreender novas ações terroristas. Matéria apresentada em fevereiro pelo canal NBC News citava funcionários não identificados do governo dos EUA, que teriam dito que os MEK seriam responsáveis pelo assassinato, em tempos recentes, de vários cientistas nucleares iranianos. Apesar de alguns apoiadores dos MEK já terem sugerido que essas ações não desmereciam os MEK, a própria organização negou qualquer envolvimento naqueles atentados.

O livro de Raymond Tanter aqui resenhado é parte da campanha de marketing-publicidade-Relações Públicas para mudança de imagem dos MEK – espécie de briefing dos que pregam que o grupo seja excluído da lista norte-americana de organizações terroristas. Tanter, que é apoiador ativo do grupo já há muito tempo, produziu um guia compacto, completo, com fotos e ilustrações em cores do grupo e transcrições de discursos feitos por defensores pagos para defender os MEK.

O livro nada diz sobre ataques perpetrados nos anos 1970s ou a ajuda que o grupo deu a Saddam Hussein. Também ignora outros ataques no Irã, nos anos 1990s. Tanter crê que, nos termos da legislação nos EUA, só as leis aprovadas nos EUA nos últimos anos seriam aplicáveis à questão de excluir ou manter o grupo na lista de organizações terroristas; o que nos leva à questão de excluir ou não excluir o grupo, daquela lista; e só considera o período pós- 2001.

O autor diz que os MEK seriam a melhor esperança disponível para a chamada “terceira alternativa”: um modo pelo qual os EUA consigam provocar mudança de regime da Síria, sem ter de depender de sanções ou de guerra.

É onde mais claramente se vê o vício que há no argumento dos lobbyistas pro-MEKs: de um lado, dizem que os MEK teriam renunciado à violência, o que lhes daria condições para pleitear que o grupo seja excluído da lista de organizações terroristas. Mas, mesmo que tenham realmente desistido da violência, ainda assim não se entende por que os EUA se aliariam a eles.

Mas a verdade é outra. Os apoiadores norte-americanos dos MEKs creem que a organização ainda tenha potencial “de combate”, precisamente por sua longa história de violência e terrorismo. Por isso creem que esses terroristas sejam úteis para arrancar do poder os mulás iranianos. Por isso a secretária Clinton talvez exclua o grupo, da lista de organizações terroristas.

Os apoiadores dos MEKs dizem que ainda são rede poderosa no interior do Irã e que não perderam as bases populares. Os que se opõem ao grupo dizem que o regime usa os terroristas MEKs para divulgar teorias conspiracionais sobre “complôs” armados fora do país. Dizem também que, ao apoiar o Iraque de Saddam, na guerra Irã-Iraque, os MEKs perderam a considerável base de apoio popular que chegaram a ter.

A secretária Clinton não poderá ignorar as considerações políticas. O lobby a favor dos MEKs insiste que seus ativistas correm risco de serem massacrados no Iraque. Se o Iraque decidir lançar novo ataque aos MEKs que vivem em Camp Ashraf, seja porque o grupo provoque demais, seja porque o grupo monte a encenação de algum ataque no qual surjam como vítimas indefesas, a resposta do lobby pró-MEKs será violenta.

Atualmente, a prioridade do Departamento de Defesa é garantir que os que ainda vivem em Camp Ashraf sejam transferidos em segurança para [o campo de refugiados] Liberty. Em fevereiro, Clinton disse que uma “transferência bem-sucedida teria peso decisivo em qualquer posição dos EUA sobre o status da organização terrorista estrangeira dos MEKs”. Em termos legais, nada significa e não faz qualquer sentido.

O que diz o acordo segundo o qual os MEKs aceitam deixar Camp Ashraf, sobre o grupo desejar ou ser capaz de organizar e executar atentados terroristas? Nada. O acordo não toca nesses temas.

De fato, as declarações da secretária Clinton revelam qual é o verdadeiro medo de Clinton e de seu departamento de Estado: temem que, deliberadamente ou como efeito de alguma provocação lançada pelos MEKs, os iraquianos ataquem os MEKs pela terceira vez, e que os EUA sejam denunciados por ignorarem os sinais de alerta. Em maio, o Departamento de Estado avançou alguns passos, e chegou a dizer que já considerava a possibilidade de excluir os MEKs da lista de suspeitos de associação, desde que continue a evacuação de Ashraf.

A declaração de Clinton sugere que ela já decidiu tirar os MEKs da lista de grupos terroristas. Sinal de que o lobby pró MEKs nos EUA trabalhou bem. Mas há mais uma coisa que se deve ter em mente.

Como disse recentemente um experiente observador em Washington: "Hillary Clinton é homem-político. Nesse momento, muitos de seus parceiros e associados estão ganhando bom dinheiro com a ajuda dos MEKs e eles absolutamente não apreciariam perder essa galinha de ovos de ouro, o que fatalmente acontecerá se o grupo continuar listado como organização terrorista." Se, porém, os MEKs forem excluídos da lista de organizações terroristas - como, antes, aconteceu ao INC [Congresso Nacional Iraquiano (CNIq)] de Chalabi -, os MEKs passam a poder receber "incentivos" pagos pelo Congresso dos EUA, e os Rajavis serão automaticamente convertidos a candidatos prováveis à presidência, depois da "mudança de regime" no Irã, com que sonham os EUA.

Há dez anos, Donald Rumsfeld e os neocons estavam de tal modo irmanados com Ahmed Chalabi, do Congresso Nacional Iraquiano (CNIq), que lhe forneceu um helicóptero para que Chalabi e um punhado de apoiadores viajassem até Nasiriya, de modo a aparecerem nas fotografias oficiais da “libertação do Iraque”. Mas bastou o helicóptero pousar, para que o mundo soubesse que ninguém, no Iraque, algum dia ouvira falar de Chalabi. E Chalabi foi derrotado nas eleições por outro ex-exilado, Nouri al-Maliki; e teve de contentar-se com o ministério do Petróleo. Até hoje, Al-Maliki lá continua, no Iraque, como sempre foi, dedicado apoiador do governo do Irã. Nada mais distante dos objetivos do golpe dos EUA no Iraque, tão longamente planejado.

Mas os lobbyistas incansáveis que operam em Washington a favor de outros grupos terroristas amigos dos EUA, preferem o lado alegre das histórias. Chalabi, eles concedem, jamais fora o que se supunha que fosse. Mas com os MEKs a coisa agora é diferente. Um coronel aposentado do exército dos EUA, que trabalha em lobbys a favor de grupos terroristas amigos dos EUA, como os MEKs iranianos, costuma escrever que Maryam Rajavi "é um George Washington".

Os EUA estão a um passo de comprovar, mais uma vez, que não são capazes de aprender com os próprios erros.

2 de junho de 2012

Igualdade, identidades e justiça social

Nancy Fraser

Logos

Tradução / O "reconhecimento" se impôs como um conceito-chave de nosso tempo. Herdado da filosofia hegeliana, encontra novo sentido no momento em que o capitalismo acelera os contatos transculturais, destrói sistemas de interpretação e politiza identidades. Os grupos mobilizados sob a bandeira da nação, da etnia, da "raça", do gênero e da sexualidade lutam para que "suas diferenças sejam reconhecidas". Nessas batalhas, a identidade coletiva substitui os interesses de classe como fator de mobilização política - cada vez mais a reivindicação é ser "reconhecido" como negro, homossexual ou ortodoxo em vez de proletário ou burguês; a injustiça fundamental não é mais sinônimo de exploração, e sim de dominação cultural.


Essa mutação é um desvio que conduzirá a uma forma de balcanização da sociedade e à rejeição das normais morais universais? Ou oferece a perspectiva de corrigir a cegueira cultural associada a certa leitura materialista, desacreditada pela queda do comunismo de tipo soviético, que, cego à diferença, reforçaria a injustiça ao universalizar falsamente as normas do grupo dominante?

Essas perguntas revelam duas concepções globais de injustiça. Na primeira, a injustiça social resultaria da estrutura econômica da sociedade e se concretizaria na forma de exploração ou miséria. A segunda, de natureza cultural ou simbólica, decorreria de modelos sociais de representação que, ao imporem seus códigos de interpretação e seus valores, excluiriam os "outros" e engendrariam a dominação cultural, o não reconhecimento ou, finalmente, o desprezo.

Essa distinção entre injustiça cultural e injustiça econômica não deve mascarar o fato de que, na prática, as duas formas estão imbricadas e, em geral, se reforçam dialeticamente. A subordinação econômica impede de fato a participação na produção cultural, cujas normas, por sua vez, são institucionalizadas pelo Estado e pela economia.

A solução contra a injustiça econômica passa por mudanças estruturais: distribuição de renda, reorganização da divisão do trabalho, submissão das decisões de investimentos ao controle democrático, transformação fundamental do funcionamento da economia. Esse conjunto, como um todo ou em partes, depende da "redistribuição". A solução para a injustiça cultural, por sua vez, está em mudanças culturais ou simbólicas: reavaliação de identidades desprezadas, reconhecimento e valorização da diversidade cultural ou, mais globalmente, alteração geral dos modelos sociais de representação, o que modificaria a percepção que cada um tem de si mesmo e do grupo ao qual pertence. Esse conjunto de fatores depende, pois, do "reconhecimento".

Os dois conceitos divergem na concepção de quais são os grupos que vivenciam injustiças. No sistema em que a prioridade é a distribuição, são as classes sociais no sentido amplo, definidas primeiro em termos econômicos, que sofrem injustiças segundo a relação com o mercado ou com os meios de produção. O exemplo clássico, oriundo da teoria marxista, é a classe trabalhadora explorada, mas essa concepção inclui também grupos imigrantes, minorias étnicas etc. No sistema em que o reconhecimento é prioridade, a injustiça não está diretamente ligada às relações de produção, mas a uma falta de consideração. O exemplo mais comum são os grupos étnicos que os modelos culturais dominantes proscrevem como diferentes e de menor valor, assim como os homossexuais, as "raças", as mulheres. As reivindicações ligadas à redistribuição exigem, em geral, a abolição dos dispositivos econômicos que constituem a base da especificidade dos grupos, e como consequência desse processo essas reivindicações tenderiam a promover a indiferenciação entre esses grupos. Ao contrário, as reivindicações ligadas ao reconhecimento, que se apoiam nas diferenças presumidas dos grupos, tendem a promover a diferenciação (quando não o fazem performativamente, antes de afirmar seu valor). Política de reconhecimento e política de redistribuição figuram, portanto, em tensão.

Como, nessas condições, pensar a justiça social? Deve-se priorizar a classe em detrimento do gênero, da sexualidade, da raça e da etnia e rejeitar todas as reivindicações “minoritárias”? Insistir na assimilação de normas majoritárias em nome do universalismo ou do republicanismo? Ou será preciso tentar aliar o que resta de impreterível na visão socialista e o que parece justificado na filosofia “pós-socialista” do multiculturalismo?

Há duas formas de acabar com a injustiça. As soluções corretivas, em primeiro lugar, visam melhorar os resultados da organização social sem modificá-la em suas causas profundas. As soluções transformadoras, por outro lado, se aplicam em profundidade às causas: a oposição se situa, dessa forma, entre sintomas e causas.

No âmbito social, as soluções corretivas, historicamente associadas ao Estado de bem-estar social liberal, são empregadas para atenuar as consequências de uma distribuição injusta, deixando a organização do sistema de produção intacta. Durante os dois últimos séculos, as soluções transformadoras foram associadas ao socialismo: a mudança radical da estrutura econômica que sustenta a injustiça social, ao reorganizar as relações de produção, modifica não somente a repartição do poder de compra, mas também a divisão social do trabalho e das condições de existência.

Um exemplo esclarece essa distinção. Os auxílios atribuídos em função dos recursos dos quais dispõe certo grupo, orientado geralmente ao apoio material aos mais pobres, contribuem para cimentar as diferenciações que levariam ao confronto. Assim, a redistribuição corretiva no âmbito social toma a forma, nos Estados Unidos, de ação afirmativa(em geral traduzida por "discriminação positiva"). Essas medidas buscam garantir a minorias uma parte equitativa dos postos de trabalho e da formação, sem modificar sua natureza ou nome. No âmbito cultural, o reconhecimento corretivo se traduz por uma nacionalização cultural, que se esforça por garantir o respeito a essas minorias valorizando, por exemplo, a "negritude", mas sem alterar o código binário branco-negro que lhe dá sentido. A ação afirmativa pode ser vista, portanto, como uma combinação de política socioeconômica liberal antirracista com política cultural - no caso dos negros - blackpower.

A questão é que essa solução não ataca as estruturas que produzem desigualdades de classe e raciais. As reacomodações superficiais se multiplicam sem limites e contribuem para tornar ainda mais perceptível a diferenciação racial, para dar aos mais desprovidos a imagem de uma classe deficiente e insaciável, que sempre necessita de ajuda e até mesmo da orientação de um grupo privilegiado; muitas vezes, essa interação resulta em tratamento de favor. Assim, uma aproximação que visa reverter as injustiças ligadas à redistribuição pode terminar criando injustiças em termos de reconhecimento.

Combinando sistemas sociais universais e imposição estritamente progressiva, as soluções transformadoras, por outro lado, visam restaurar a todos o acesso ao trabalho, com tendência a dissociar esse elemento da satisfação de necessidades fundamentais. Daí a possibilidade de reduzir a desigualdade social sem criar categorias de pessoas vulneráveis, apresentadas como necessitadas da caridade pública. Tal aproximação, centrada nas injustiças da distribuição, contribui para a solução de certas injustiças de reconhecimento.

Redistribuição corretiva e redistribuição transformadora pressupõem, ambas, uma concepção universalista do reconhecimento, ou seja, a igualdade moral das pessoas. Mas elas repousam em lógicas diferentes no que concerne à diferenciação dos grupos.

As soluções coletivas para a injustiça cultural dependem do chamado multiculturalismo: trata-se de acabar com o desrespeito de identidades coletivas injustamente desvalorizadas, ao mesmo tempo deixando intactos o conteúdo dessas identidades e o sistema de diferenciação identitária sobre o qual repousam. As soluções transformadoras, por outro lado, são habitualmente associadas à desconstrução. Buscam acabar com o desrespeito transformando a estrutura de avaliação cultural subjacente. Ao desestabilizarem as identidades e a diferenciação existentes, essas soluções não se limitam a favorecer o respeito a alguém: mudam as percepções que temos de nós mesmos.

O exemplo das sexualidades desprezadas esclarece essa distinção. As soluções corretivas à homofobia são, em geral, associadas ao movimento gay e buscam revalorizar a identidade homossexual. As soluções transformadoras, ao contrário, se parecem mais com o movimento queer, que busca desconstruir a dicotomia homossexual/heterossexual. O movimento gay considera a homossexualidade uma cultura, dotada de características particulares, um pouco como a etnicidade. Esse "modelo identitário", adotado em diferentes lutas pelo reconhecimento, pretende substituir imagens negativas de si, interiorizadas e impostas pela cultura dominante por uma cultura própria, que, manifestada publicamente, obteria o respeito da sociedade em seu conjunto. Esse modelo traz avanços, mas, ao sobrepor política de reconhecimento e política de identidade, pode engendrar a naturalização da identidade de um grupo e essencializá-la por meio da afirmação da "identidade" e da diferença.

O movimento queer, ao contrário, aborda a homossexualidade como correlato construído e desvalorizado da heterossexualidade: nenhum dos dois termos tem sentido sem o outro. O objetivo não é mais valorizar uma identidade homossexual, mas abolir essa dicotomia. O movimento gay busca valorizar a diferenciação existente entre os grupos sexuais - como as políticas corretivas de redistribuição do Estado de bem-estar social o fazem para as diferenças sociais -; o movimento queer pretende problematizá-la – como o socialismo e a sociedade sem classes.

Ao tratar a falta de reconhecimento como um prejuízo engendrado de forma autônoma por valores ideológicos e culturais, a corrente identitária oculta seu vínculo com a justiça distributiva e o abstrai de sua relação com a estrutura social. Por isso, muitas vezes seus defensores ignoram a injustiça econômica e concentram seus esforços unicamente na transformação da cultura, considerada uma realidade em si. Por exemplo, esse sistema poderia negligenciar os vínculos, institucionalizados nos sistemas de assistência social, entre as normas heterossexuais dominantes e o fato de que certos recursos sejam negados às pessoas homossexuais. Por outro lado, essa corrente pode interpretar a desigualdade econômica como simples expressão de hierarquias culturais: a opressão de classe decorre, nessa lógica, da depreciação da identidade proletária. Como imagem inversa de um marxismo vulgar que outrora deixava a política de reconhecimento de lado para priorizar a política de redistribuição, o culturalismo vulgar supõe que a revalorização de identidades depreciadas atacaria também as origens da desigualdade econômica.

Ao modelo identitário (corretivo) se opõe o chamado modelo estatutário (transformador): a negação do reconhecimento não é mais considerada uma deformação psíquica ou um prejuízo cultural autônomo, e sim uma relação institucionalizada de subordinação social, produzida por instituições sociais. O objeto do reconhecimento não deveria ser a identidade própria de um grupo, mas o estatuto dos membros desse grupo de pertencimento integral ao meio social onde estão inseridos. Essa política propõe desconstruir as duas formas conexas (econômica e cultural) de transformar a sociedade e decifrar quais são os obstáculos à igualdade. Não se trata, portanto, de postular direitos iguais a todos, mas de reivindicar a paridade da participação de todos nas relações sociais, definir o campo da justiça social como, simultaneamente, redistribuição e reconhecimento, classe e estatuto nas relações sociais. Evitar a psicologização e a moralização talvez seja a chave para construir uma estratégia coerente, que contribua para eliminar os conflitos e contradições entre esses dois grandes modelos de luta.

Nancy Fraser é Loeb Professor of Philosophy and Politics, New School for Social Research, bem como Einstein Visiting Fellow, Freie Universität-Berlin, e também ocupa a Cátedra de Justiça Global, Collège d'études mondiales, Paris.

22 de maio de 2012

Sobre intelectuais e democracia

A atividade intelectual é um pouco como a sedução. Se você for direto ao alvo, é quase certo que não seja bem-sucedido.

Tony Judt

The New York Review of Books

March 22, 2012 issue

O texto a seguir foi extraído de Thinking the Twentieth Century, escrito com Timothy Snyder e publicado recentemente pela Penguin.

Tradução / A atividade intelectual é um pouco como a sedução. Se você for direto ao alvo, é quase certo que não seja bem-sucedido. Se quiser ser alguém que contribui para os debates históricos mundiais, é quase certo que não tenha êxito se já começar contribuindo para os debates históricos mundiais. A coisa mais importante a fazer é falar sobre as coisas que têm, por assim dizer, ressonância histórica mundial, mas no nível em que você é capaz de ser influente. Se a sua contribuição à conversa for então captada e se tornar parte de uma conversa maior, ou parte de conversas travadas também em outros locais, tanto melhor.

Assim, não penso que os intelectuais façam bem falando sobre a necessidade de que o mundo seja democrático, ou sobre a necessidade de que os direitos humanos sejam mais respeitados mundo afora. Não que essas declarações sejam pouco desejáveis, mas o fato é que elas contribuem muito pouco, seja para a consecução do objetivo, seja para incrementar o rigor da discussão. Mas, se a mesma pessoa mostrar exatamente o que há de imperfeito na democracia e nas democracias, estará lançando uma base muito melhor para a argumentação de que a nossa é uma democracia que as outras deveriam ser incentivadas a emular. Dizer meramente que a nossa é uma democracia ou dizer que não estou interessado na nossa, mas quero ajudar a construir a sua, provoca a resposta: bem, vá em frente, conserte a sua e então talvez consiga uma plateia estrangeira, e por aí vai. Para sermos internacionais, temos primeiro que ser nacionais.

Com o que deveríamos estar nos preocupando hoje? Estamos no final de um ciclo muito longo de avanço. Um ciclo que começou em fins do século XVIII e que, não obstante tudo o que ocorreu desde então, continuou essencialmente até os anos 1990: a contínua ampliação do círculo de países cujos governantes são compelidos a aceitar algo como o regime da lei. Creio que isso foi abafado, a partir dos anos 1960, por duas expansões distintas, mas relacionadas: a da liberdade econômica e a da liberdade individual. Estes dois últimos desenvolvimentos, que parecem estar relacionados com o primeiro, são na verdade potencialmente perigosos para ele.

Vejo o século atual como um século de crescente insegurança suscitada parcialmente por uma liberdade econômica excessiva, usando a palavra liberdade num sentido muito específico, e a crescente insegurança provocada também por mudanças climáticas e Estados imprevisíveis. Como intelectuais ou pensadores políticos, é provável que nos vejamos confrontados com uma situação na qual nossa principal tarefa não é imaginar mundos melhores, mas pensar em como evitar piores. E essa é uma espécie ligeiramente diferente de situação, na qual o tipo de intelectual que delineia grandes quadros de situações idealizadas e improváveis talvez não seja a pessoa a quem mais vale a pena dar ouvidos.

Talvez nos vejamos perguntando como podemos defender direitos legais, constitucionais ou humanos estabelecidos, normas, liberdades, instituições e assim por diante. Não estaremos perguntando se a Guerra do Iraque era uma maneira boa ou má de levar democracia, liberdade, o mercado etc. ao Oriente Médio, mas sim: era um empreendimento prudente, mesmo que alcançasse seus objetivos? Pensemos no custo da opção: o potencial perdido que poderia ser utilizado para alcançar outras coisas com recursos limitados.

Tudo isso é duro para os intelectuais, a maioria dos quais se imagina defendendo e propondo grandes abstrações. Mas penso que nas próximas gerações o modo de defender e propor grandes abstrações será defender e cuidar de instituições, leis, normas e práticas que encarnam nossos melhores esforços em relação a essas grandes abstrações. E os intelectuais que se importarem com elas serão as pessoas que terão mais importância.

Se você observar a história das nações que maximizaram as virtudes que associamos à democracia, notará que o que veio primeiro foi a constitucionalidade, o império da lei e a separação de poderes. A democracia quase sempre veio depois. Se entendermos por democracia o direito de todos os adultos participarem da escolha do governo que vai dirigi-los, isso foi implantado muito tarde – no meu tempo de vida, em alguns países que hoje vemos como grandes democracias, como a Suíça, e certamente, no tempo de vida de meu pai, em outros países europeus, como a França. Portanto, não devemos dizer a nós mesmos que a democracia é o ponto de partida.

A democracia está para uma sociedade liberal bem-ordenada como um mercado excessivamente livre está para um capitalismo bem-sucedido e bem regulado. A democracia de massa numa era de meios de comunicação de massa significa, por um lado, que você pode revelar muito rapidamente que Bush roubou a eleição de 2000, mas, por outro lado, que grande parte da população não está preocupada com isso. Ele teria menos condições de roubar a eleição numa sociedade liberal e antiquada do século XIX, baseada num sufrágio mais restrito: as relativamente poucas pessoas de fato envolvidas teriam se importado muito mais. Portanto, pagamos um preço pela massificação de nosso liberalismo, e deveríamos compreender isso. Não é um argumento em favor do retorno ao voto restrito ou a duas classes de eleitores, ou o que isso signifique – os informados e os desinformados. Mas é um argumento em favor da compreensão de que a democracia não é a solução para o problema das sociedades não livres.

Timothy Snyder: Mas não seria a democracia um bom candidato para um século mais pessimista? Porque ela é, creio, melhor defendida como algo que impede o surgimento de sistemas piores, e melhor enunciada como política de massa capaz de garantir que as pessoas não serão enganadas da mesma maneira o tempo todo.

A máxima de Churchill de que a democracia é o pior sistema possível, com exceção de todos os outros, encerra alguma verdade, ainda que limitada. A democracia tem sido a melhor defesa em curto prazo contra alternativas não democráticas, mas não é uma defesa contra suas próprias deficiências genéticas. Os gregos sabiam que a democracia não é muito passível de sucumbir aos encantos do totalitarismo, do autoritarismo ou do poder oligárquico; ela é muito mais passível de sucumbir a uma versão corrompida de si própria.

As democracias se corroem bem depressa; elas se corroem linguisticamente, ou retoricamente, se você preferir – é esse o argumento de George Orwell quanto à linguagem. Elas se corroem porque a maioria das pessoas não se preocupa muito com elas. Note que a União Europeia, cujas primeiras eleições parlamentares, realizadas em 1979, tiveram um comparecimento médio de 62%, está agora temendo um comparecimento de menos de 30%, embora o Parlamento Europeu hoje tenha mais importância e mais poder. A dificuldade de sustentar o interesse voluntário na questão da escolha das pessoas que vão governar você é algo bem patente. E a razão pela qual precisamos de intelectuais, bem como de todos os bons jornalistas que pudermos encontrar, é preencher o espaço que cresce entre as duas partes da democracia: os governados e os governantes.

Tony Judt (1948-2010) foi o fundador e diretor do Remarque Institute na NYU e autor de Postwar: A History of Europe Since 1945, Ill Fares the Land, e The Burden of Responsibility: Blum, Camus, Aron, and the French Twentieth Century, entre outros livros.

21 de maio de 2012

O comandante ianque

Uma história de amor, revolução e traição.

David Grann


William Alexander Morgan sendo aplaudido por Fidel Castro, em Havana em 1959. Morgan disse que se juntou à Revolução Cubana porque "o mais importante para os homens livres é proteger a liberdade dos outros". Fotografia cortesia de Ramiro Lorenzo

Tradução / Por um momento, ele sumiu na noite de Havana. Ficou invisível, exatamente como era antes de ir para Cuba, durante a revolução. Uma explosão de holofotes o iluminou: William Alexander Morgan, o grande comandante ianque. Estava parado, de costas para a parede crivada de balas, no fosso vazio que circundava La Cabaña – um forte de pedra do século XVIII, no alto de um penhasco com vista para o porto de Havana, agora transformado em prisão. Manchas de sangue ainda secavam no chão de terra onde seu amigo havia sido baleado instantes antes. Morgan, com 32 anos, piscou para as luzes. Estava diante de um pelotão de fuzilamento.


Os homens armados encararam o sujeito a quem tinham ordem de matar. Com quase 1,80 metro, Morgan tinha braços e pernas fortes, de um sobrevivente da selva. Com maxilar saliente, nariz afilado e cabelos loiros em desalinho, tinha o olhar desafiador dos personagens de filmes de aventura. Suas fotos haviam sido estampadas em jornais e revistas do mundo inteiro. As mais sedutoras – feitas enquanto combatia nas montanhas ao lado de Fidel Castro e Che Guevara – mostravam Morgan com a barba desgrenhada, segurando uma submetralhadora Thompson. Mesmo sem barba e vestindo roupas de prisioneiro, seus executores o reconheceram como o misterioso Americano, outrora saudado como herói da revolução.

A cena se deu no dia 11 de março de 1961, dois anos depois de Morgan ter ajudado a derrubar o ditador Fulgencio Batista, levando Fidel ao poder. A revolução já havia se dividido e seus líderes se devoravam uns aos outros. Ainda assim, ver Morgan diante de um pelotão de fuzilamento era um choque. Em 1957, quando a maioria das pessoas acreditava que Fidel lutava por democracia, Morgan viajou da Flórida para Cuba e se enfurnou na selva, juntando-se a um grupo de guerrilheiros. Alguém o definiu como uma espécie de “Holden Caulfield [1] com uma metralhadora na mão”. Era o único americano do exército rebelde e o único estrangeiro – além de Che Guevara, que era argentino – a alcançar o mais alto posto daquela organização: o de comandante.

Depois da revolução, com a ilha posta no centro das batalhas da Guerra Fria, o papel de Morgan despertou fascínio ainda maior. Um americano que conheceu Morgan disse que ele era espião de Fidel, e a revista Time o chamou de "o sagaz agente duplo americano de Castro".

Agora Morgan estava sendo acusado de conspirar para derrubar Fidel. O governo cubano alegava que durante todo esse tempo ele estava trabalhando para a espionagem dos Estados Unidos - que era, na verdade, um agente triplo. Morgan negou as acusações, mas até mesmo alguns de seus amigos se perguntavam quem ele realmente era e por que tinha ido para Cuba.

Antes de ser levado para fora de La Cabaña, um preso lhe perguntou se tinha algo que poderia fazer pelo companheiro. Morgan respondeu: "Se você sair daqui vivo, o que eu duvido, tente contar minha história." Naquele momento, ele se deu conta de que algo além de sua vida estava em jogo: o regime cubano distorceria seu papel na revolução - isso se não o banisse do registro público -, e o governo americano esconderia documentos sobre ele em arquivos secretos ou, no mínimo, "limparia" esses documentos, ocultando passagens inteiras. Ele seria apagado - primeiro do presente, depois do passado.

O chefe do pelotão de fuzilamento gritou: "Atenção!" Os soldados ergueram seus rifles belgas. Morgan temia por sua mulher, Olga - que ele havia conhecido nas montanhas - e por suas duas filhas pequenas. Até então, ele sempre tinha conseguido dobrar as forças da história, e fez um último apelo para falar com Fidel. Morgan acreditava que o homem que ele um dia chamara de “fiel amigo” jamais o mataria. As armas dos carrascos, no entanto, já estavam engatilhadas.

O primiero truque

Morgan chegou a Havana em dezembro de 1957. Vendida como o “playground das Américas”, a cidade oferecia uma tentação atrás da outra: a boate Sans Souci, onde dançarinas requebravam em palcos ao ar livre ao som do chá-chá-chá; o hotel Capri, com suas máquinas caça-níquel cuspindo dólares; e o Tropicana, onde convidados como Elizabeth Taylor e Marlon Brando assistiam a espetáculos extravagantes protagonizados pelas Diosas de Carne.


Na época um sujeito meio gordo de 29 anos, Morgan tentava parecer apenas mais um em busca de diversão. Vestia um terno branco de 250 dólares, uma camisa branca e sapatos novos. “Eu parecia um turista cheio da grana”, disse ele depois.

Mas, de acordo com membros do círculo íntimo de Morgan e com o relato inédito de um amigo próximo, ele evitou o brilho da vida noturna da cidade, abrindo caminho por uma rua em Havana Velha,
perto de um cais que oferecia uma vista de La Cabaña, com sua ponte levadiça e paredes cobertas de musgo. Morgan parou em uma cabine telefônica, onde encontrou um contato cubano chamado Roger Rodríguez. Um estudante radical de cabelos negros com um bigode grosso, Rodríguez já havia sido baleado pela polícia durante uma manifestação política e era membro de uma célula revolucionária.

A maioria dos turistas se mantinha alheia aos problemas de Cuba, onde era frequente viver sem água potável e eletricidade. Em Nosso Homem em Havana, de 1958, Graham Greene admitiu ao recordar sua experiência na ilha: “Aproveitei a atmosfera permissiva da cidade de Batista, mas nunca fiquei tempo suficiente para tomar conhecimento de sua triste realidade, das prisões arbitrárias e das torturas.” Morgan, no entanto, estava bem informado a respeito de Batista, que tomara o poder com um golpe, em 1952. Sabia, por exemplo, do quanto o ditador gostava de ficar no palácio do governo, se empanturrando de comida e vendo filmes de terror, e de como torturava e matava dissidentes, cujos corpos às vezes eram despejados em terrenos baldios, com os olhos arrancados e os testículos esmagados recheando suas bocas.

Morgan e Rodríguez voltaram a caminhar pela Havana Velha e começaram uma conversa furtiva. Morgan raramente ficava sem um cigarro e normalmente se comunicava por meio de uma névoa de fumaça. Ele não sabia espanhol, mas Rodríguez falava um inglês ruim. Eles já haviam se conhecido em Miami, tornando-se amigos, e Morgan acreditava que podia confiar nele. Morgan confidenciou que planejava se infiltrar na Sierra Maestra, uma cordilheira na remota costa sudeste de Cuba, onde os revolucionários pegaram em armas contra o regime. Ele pretendia alistar-se com os rebeldes, que eram comandados por Fidel Castro.

O nome do inimigo mortal de Batista tinha a aura do proibido. Em 25 de novembro de 1956, Fidel, um advogado de 30 anos, filho bastardo de um grande proprietário de terras, empreendera uma ambiciosa invasão à ilha, partindo do México com outros 81 guerrilheiros, incluindo Che Guevara. Depois que seu velho barco encalhou, Castro nadou com seus homens até um pântano, atravessando um emaranhado de vegetação. O Exército de Batista logo emboscou o grupo, e Che foi baleado no pescoço. Apenas doze rebeldes sobreviveram, incluindo Che, ferido, e Raúl, irmão mais novo de Fidel. Exaustos e mortos de sede – um deles bebeu a própria urina –, eles fugiram para as selvas da Sierra Maestra.

Morgan contou a Rodríguez que vinha acompanhando o progresso dos insurgentes. Depois que Batista anunciou por engano que Castro havia morrido na emboscada, Fidel autorizara que Herbert Matthews, correspondente do New York Times, fosse escoltado até seu acampamento na Sierra Maestra. Amigo de Ernest Hemingway, o repórter estava fascinado pelo líder rebelde de barba selvagem e charuto preso à boca. Matthews concluiu que Fidel tinha “fortes ideais de liberdade, democracia e justiça social, e convicção da necessidade de se restaurar a Constituição do país”. Em 24 de fevereiro de 1957, a matéria foi estampada na primeira página do jornal, fortalecendo a aura romântica da rebelião. Matthews depois colocou as coisas do seguinte modo: "Um sino de esperança dobra nas selvas da Sierra Maestra."


Mesmo assim, por que diabos um americano estaria disposto a morrer pela Revolução Cubana? Pressionado por Rodríguez, Morgan respondeu que queria estar ao mesmo tempo do lado do bem e na mira do perigo, mas queria também outra coisa: vingança. Ele disse que um de seus amigos americanos tinha sido assassinado pelos soldados de Batista durante uma viagem a Havana. Algum tempo depois, contou mais detalhes do caso para outras pessoas em Cuba: o tal amigo se chamava Jack Turner, foi pego contrabandeando armas para os rebeldes e acabou sendo “torturado e atirado aos tubarões por Batista”.

Morgan contou a Rodríguez que tinha feito contato com um outro revolucionário que tentaria arrumar um jeito de levá-lo às montanhas. Rodríguez levou um choque: o suposto rebelde era, na verdade, agente da polícia secreta de Batista. O cubano alertou Morgan de que ele havia caído numa armadilha.

Temendo pela vida do americano, Rodríguez ofereceu ajuda. Não poderia levá-lo até Sierra Maestra, mas o deixaria no acampamento de um grupo rebelde nas montanhas de Escambray, que cortavam a parte central do país. Esses guerrilheiros estavam abrindo uma nova frente de batalha e Fidel lhes dera as boas-vindas em nome da "causa comum".

Morgan partiu com Rodríguez e um motorista na jornada de duzentos e dezessete milhas. Como Aran Shetterly detalha em sua incisiva biografia “The Americano” (2007), o carro logo chegou a um bloqueio militar. Um soldado olhou para dentro de Morgan em seu terno brilhante, a única roupa que ele parecia possuir. Morgan sabia o que aconteceria se fosse capturado – como disse Guevara, “em uma revolução, um ganha ou morre” – e havia preparado uma reportagem de capa, na qual era um empresário americano a caminho de ver plantações de café. Depois de ouvir a história, o soldado os deixou passar, e Morgan e seus conspiradores subiram a estrada, subindo até o Escambray, onde o ar ficou mais frio e rarefeito, e onde os picos de novecentos metros tinham uma estranha tonalidade púrpura.

Morgan descansou num esconderijo e em seguida foi levado para uma montanha perto da cidade de Banao. Um camponês os guiou por entre cipós e folhas de bananeira até chegarem a uma clareira remota. O camponês fez um som de pássaro que ecoou pela floresta e foi correspondido por um assobio distante. Um sentinela surgiu e os levou a um acampamento cheio de baldes, redes e uns poucos fuzis enferrujados. Não havia ali mais de trinta homens e a maioria deles parecia ter acabado de sair do ensino médio e tinham a aparência emaciada e desgrenhada de sobreviventes de naufrágios.

Os rebeldes olharam para Morgan com incerteza. Max Lesnik, um jornalista cubano encarregado da propaganda da organização, logo se encontrou com o grupo e se lembra de ter se perguntado se Morgan era “algum tipo de agente da CIA”.

Desde a Guerra Hispano-Americana, os EUA frequentemente se intrometiam nos assuntos cubanos, tratando a ilha como uma colônia. O presidente Dwight D. Eisenhower apoiou cegamente Batista - acreditando que ele "lidaria com os comunistas", como disse ao vice-presidente Richard Nixon - e a CIA havia espalhado agentes em toda a ilha. Em 1954, em um relatório confidencial, um general americano advertiu que, se os EUA quisessem sobreviver à Guerra Fria, precisariam “aprender a subverter, sabotar e destruir nossos inimigos por métodos mais inteligentes, sofisticados e eficazes do que os usados contra nos." A CIA chegou ao ponto de contratar um mágico renomado, John Mulholland, para ensinar prestidigitação e desorientação aos operadores. Mulholland produziu dois manuais ilustrados, que se referiam às operações secretas como "truques".

Enquanto a CIA tentava avaliar a ameaça a Batista, seus agentes tentavam penetrar nas forças rebeldes nas montanhas. Entre outras coisas, acredita-se que os agentes recrutaram ou se fizeram passar por repórteres. Mulholland aconselhou os operativos que "ainda mais prática é necessária para representar uma mentira habilmente do que é necessário para contar uma".

Os rebeldes também precisavam ter certeza de que Morgan não era um agente da KGB ou um mercenário trabalhando para a inteligência militar de Batista. Na Sierra Maestra, Castro descobrira recentemente que um camponês de suas fileiras era informante do Exército. O camponês, depois de convocado, caiu de joelhos, implorando que a revolução cuidasse de seus filhos. Em seguida, ele foi baleado na cabeça.


Morgan foi levado para ver o comandante do grupo rebelde, Eloy Gutiérrez Menoyo. Com 23 anos, fala mansa e magrelo, Menoyo tinha um rosto comprido e bonito, protegido por óculos escuros e uma barba que lhe dava a aparência de um fugitivo. A C.I.A. mais tarde observou, em seu arquivo sobre ele, que ele era um jovem inteligente e capaz que não cederia “sob técnicas normais de interrogatório”.


Quando menino, Menoyo havia emigrado da Espanha - um ceceio estava levemente presente quando ele falava espanhol - e herdou a postura militante de sua família em relação à tirania. Seu irmão mais velho foi morto, aos dezesseis anos, lutando contra os fascistas durante a Guerra Civil Espanhola. Seu outro irmão, que também imigrou para Cuba, foi morto a tiros enquanto liderava um ataque fracassado ao palácio de Batista, em 1957. Menoyo identificou o corpo em um necrotério de Havana antes de seguir para as montanhas. “Queria continuar a luta em nome do meu irmão”, lembra.

Por meio de um tradutor, Morgan contou a Menoyo sua história sobre querer vingar a morte de um amigo. Morgan disse que serviu no Exército dos Estados Unidos e era habilidoso em artes marciais e combate corpo a corpo, e que poderia treinar os rebeldes inexperientes na guerra de guerrilha. Lutar era mais do que atirar com um rifle, argumentou Morgan; como ele disse mais tarde, com as táticas certas eles poderiam colocar "o temor de Deus" no inimigo. Para demonstrar sua proeza, Morgan pegou uma faca emprestada e atirou-a em uma árvore a pelo menos vinte metros de distância. Acertou o alvo com tanta precisão que alguns rebeldes engasgaram.

Naquela tarde, os rebeldes discutiram se Morgan poderia ou não ficar no acampamento. Ele parecia simpático – “como um cubano”, diz Lesnik. Mas muitos guerrilheiros temiam que fosse um infiltrado e queriam mandá-lo de volta para Havana. O chefe de inteligência do grupo, Roger Redondo, lembra que fizeram o possível para que fosse embora. Puseram-no para marchar sem parar, subindo e descendo as montanhas. Morgan era tão gordo que só podia ser da CIA, brincava um dos rebeldes.

Faminto e cansado, o americano gritavaa uma das poucas coisas que sabia dizer em espanhol: No soy mulo. Em dado momento, os rebeldes o conduziram a uma região repleta de arbustos com espinhos, que machucavam a pele como se fossem picadas de vespas. Morgan ficou com o peito e o rosto inflamados. Não conseguia dormir direito à noite. “Ele tinha a pele muito branca e agora parecia um pimentão”, lembrou Redondo.

O corpo de Morgan também trazia sinais de um passado violento. Tinha marcas de queimadura no braço direito e uma cicatriz de quase 30 centímetros, que parecia ser de faca, no peito. Tinha ainda uma pequena cicatriz embaixo do queixo, outra próxima ao olho esquerdo e várias no pé esquerdo. Era como se já tivesse sofrido durante anos na selva.

Morgan suportou todas as provações e perdeu 12 quilos. “Fiquei irreconhecível com apenas 75 quilos e de barba”, escreveu mais tarde. “O gringo era durão. Meus homens em Escambray passaram a admirar sua persistência”, disse Redondo.

Várias semanas após a chegada de Morgan, um vigia do grupo notou algo se movendo na mata. Com um binóculo, conseguiu contar seis homens em uniformes cáqui e chapéus de abas largas armados com rifles Springfield. Era uma patrulha do Exército de Batista.

A maioria dos rebeldes nunca tinha combatido de verdade. Morgan depois descreveu o grupo como "um bando de médicos, advogados, agricultores, químicos, estudantes e velhos reunidos". O sentinela acionou o alarme e Menoyo ordenou que todos assumissem suas posições. Explicou que ninguém deveria atirar sem sua ordem. Morgan se agachou ao lado de Menoyo, segurando um dos poucos rifles semiautomáticos disponíveis. Enquanto os soldados se aproximavam rastejando, um tiro ecoou.

Era Morgan.

Menoyo xingou baixinho quando os dois lados começaram a atirar. As balas partiram as árvores ao meio e uma névoa de fumaça de gosto amargo pairou sobre a encosta da montanha. Os sons estrondosos das armas tornavam quase impossível a comunicação. Um soldado de Batista foi atingido no ombro, uma mancha escarlate penetrou em seu uniforme, e ele caiu montanha abaixo como uma pedra. O comandante da patrulha do Exército resgatou o soldado ferido e, junto com o restante de seus homens, retirou-se para o deserto, deixando um rastro de sangue.

Diante do silêncio repentino, Menoyo virou-se para Morgan e berrou: “Por que diabos você atirou?” 

Quando uma boa alma se dignou a traduzir o que Menoyo havia gritado, Morgan se mostrou perplexo. “Pensei que você tivesse dito para atirar assim que os visse.” Ninguém havia traduzido o comando original a Morgan.

O erro, no entanto, apenas precipitou uma batalha inevitável. Menoyo ordenou que todos limpassem a área, antes que uma multidão de soldados de Batista viesse atrás deles. 

Os homens enfiaram seus pertences em mochilas feitas com sacas de açúcar. Menoyo levou consigo um medalhão que sua mãe lhe dera, representando a Imaculada Conceição. Morgan guardou suas próprias lembranças: fotos de um menino e uma menina. Os rebeldes se dividiram em dois grupos, e Morgan partiu com Menoyo e vinte outros, marchando por mais de 160 quilômetros pelas montanhas.

Eles costumavam se mover à noite. Ao amanhecer, procuravam um abrigo, comiam o pouco que tinham e se revezavam para vigiar o sono uns dos outros. Seus corpos definhavam de fome e a barba cobria seus rostos. Quando um rebelde de 19 anos caiu e quebrou o pé, Morgan o ajudou, certificando-se de que não fosse deixado para trás.

Certa manhã, um deles tinha ido procurar comida quando viu cerca de 200 soldados de Batista num vale próximo. O grupo entrou em pânico: não teriam chances contra 200 homens alimentados. Morgan ajudou Menoyo a planejar uma emboscada: eles se esconderiam atrás de um bloco de pedras que formava uma letra “U”. “Nós tínhamos que deixar uma rota de fuga, isso era crucial”, disse Morgan. Os rebeldes se agacharam atrás das pedras, sentindo o calor da terra contra o corpo, segurando os fuzis contra o rosto. Anteriormente, alguns dos jovens haviam professado alegre indiferença à morte, mas seu brio desapareceu quando eles enfrentaram a perspectiva.

Morgan se preparou para a luta. Ele havia se inserido em um conflito estrangeiro e agora tudo estava em risco. Sua situação era semelhante à de Robert Jordan, o protagonista americano de “Por Quem os Sinos Dobram”, que, ao ajudar os republicanos na Guerra Civil Espanhola, deve explodir uma ponte: “Ele só tinha uma coisa a fazer e que era o que ele deveria pensar. ... Preocupar-se era tão ruim quanto ter medo. Simplesmente tornava as coisas mais difíceis.”

Os soldados de Batista aproximaram-se do cume. Embora os rebeldes pudessem ouvir o estalo dos ramos sob as botas, Menoyo ordenou que todos ficassem imóveis, sem atirar, certificando-se de que Morgan tivesse compreendido desta vez. Quando os soldados estavam perto a ponto de Morgan ver o cano de suas armas, Menoyo finalmente fez sinal para que seus homens atirassem. Em meio à gritaria, caos e sangue, alguns rebeldes recuaram, mas perceberam que “Morgan avançava na frente de todos, completamente focado na luta”, escreveu Aran Shetterly. 

Os soldados de Batista começaram a fugir. “Eles recuaram”, recorda Armando Fleites, um médico que estava com os rebeldes. “Foi uma vitória completa.”

Mais de doze soldados de Batista foram mortos ou feridos. Os rebeldes, que tomaram as armas dos mortos, não perderam um único homem. Pediram que Morgan os ajudasse a aprimorar suas táticas. Um ex-rebelde lembra: “Ele me treinou nas técnicas de guerrilha, me ensinou a manipular diferentes tipos de arma, a plantar bombas.” Morgan iniciou os homens no judô e os ensinou como respirar debaixo d’água usando um caniço oco. “Ele sabia tanta coisa de que a gente não fazia ideia”, diz o rebelde. Morgan sabia até mesmo um pouco de japonês e de alemão.

Aprendeu espanhol e se tornou um legítimo membro do grupo, que foi apelidado de Segunda Frente Nacional de Escambray. Assim como os outros rebeldes, Morgan jurou “lutar e defender com a própria vida este pedaço de território livre”, guardar “todos os segredos de guerra” e “denunciar traidores”. Ele subiu rápido na hierarquia da organização. 

A cada batalha vencida, a notícia sobre sua curiosa presença na ilha ia se espalhando. Uma rádio rebelde noticiou que guerrilheiros “liderados por um americano” mataram quarenta soldados de Batista. Outra rádio alardeou que Morgan era “um ianque lutando pela liberdade de Cuba”. O Diario Las Américas, publicado em Miami, disse que o americano tinha sido “membro dos Rangers, grupo que desembarcou na Normandia e abriu caminho para as forças aliadas, destruindo instalações nazistas na costa francesa antes do Dia D”.

Agentes da inteligência americana e cubana também começaram a ouvir rumores sobre um certo comandante ianque. No verão de 1958, a CIA registrou boatos sobre um rebelde “identificado apenas como El Americano” que teria desempenhado um papel crucial ao “planejar e executar ações de guerrilha”, e que praticamente havia exterminado uma das unidades de Batista numa emboscada. Um informante infiltrado no grupo revolucionário disse ao FBI que El Americano na verdade se chamava Morgan. Um outro disse que ele havia “arriscado sua vida inúmeras vezes” para salvar a pele dos rebeldes e que era “considerado um verdadeiro herói entre os guerrilheiros”. Os relatórios logo desencadearam uma corrida entre as agências do governo americano – incluindo a CIA, o Departamento de Estado, a inteligência do Exército e o FBI – para descobrir quem, afinal, era William Alexander Morgan e para quem ele estava trabalhando.

O dossiê secreto

J. Edgar Hoover estava sentindo tremores de instabilidade. Primeiro, o coração: em 1958, sofrera um pequeno ataque, aos 63 anos. O chefe do FBI, Hoover, era obcecado por sua privacidade e manteve o incidente em grande parte para si mesmo, mas começou um regime implacável de dieta e exercícios, disciplinando seu corpo com a mesma força de vontade que havia erradicado a gagueira infantil. Ele instruiu a seção de pesquisa e análise do departamento a informá-lo sobre qualquer avanço científico que pudesse estender o tempo de vida humano.

Entre os problemas que perturbavam Hoover estava a “pequena e infernal República de Cuba”, como Theodore Roosevelt a descrevera. Hoover advertiu seus agentes que o número crescente de seguidores de Fidel dentro dos Estados Unidos poderia “representar uma ameaça à segurança interna” do país, e ordenou que eles se infiltrassem nas organizações simpáticas ao cubano.

Hoover queria transformar o FBI num aparato de espionagem internacional. Tal como havia criado dentro dos Estados Unidos, sua rede era conhecida por lançar mão de métodos pouco ortodoxos, como grampos ilegais, paparazzi, documentos capturados no lixo e fofocas de ex-amantes.

Os braços da inteligência americana ainda não tinham encontrado evidências de que Fidel e seus seguidores fossem comunistas e, dada a brutalidade de Batista, alguns oficiais americanos acabavam enxergando os rebeldes com certa complacência. Mais tarde, o oficial da CIA encarregado das operações no Caribe reconheceria: “Eu e minha equipe éramos todos fidelistas.”

Mesmo assim, Hoover permanecia alerta: de todos os inimigos que havia caçado, os comunistas eram os “mestres do embuste”, como os chamou num livro que publicou em 1958. Um insider da Embaixada dos Estados Unidos em Havana lhe havia informado que a liderança de Batista estava se enfraquecendo. Agora, ele recebia essas notícias sobre um gringo maluco nas montanhas. Seria Morgan um agente soviético? Ou um agente da CIA infiltrado? Ou apenas um patife qualquer?

No fim de 1958, Hoover escalou uma equipe de agentes especiais para descobrir o que Morgan estaria escondendo. Um deles bateu na porta de uma enorme casa em estilo colonial em Old West End, bairro histórico da cidade de Toledo, em Ohio. Um senhor de aparência distinta o cumprimentou. Era o pai de Morgan, Alexander, diretor de contabilidade aposentado de uma empresa que prestava serviços públicos. O filho o descrevia como um “republicano convicto”. Ele era casado com Loretta, uma mulher magra, conhecida na região como “Miss Catedral” por sua devoção à Igreja Católica, cuja paróquia ficava logo no fim da rua. Além do filho, eles também tinham uma filha, Carroll. O pai de Morgan disse ao FBI que não tinha notícias do filho, que ele chamava de Bill, desde que ele desapareceu de casa. De todo modo, ele contou ao FBI muita coisa sobre Morgan, o que, somado a entrevistas de outros parentes e colegas, ajudou Hoover e seus agentes a traçarem um perfil do rebelde ianque.


Morgan deveria ter sido o americano por excelência - um produto brilhante dos valores do Meio-Oeste e de uma classe média em ascensão. Frequentou uma escola católica e, pelo menos no começo, tirava notas altas (seu teste de QI apontou uma “inteligência superior”). Adorava atividades ao ar livre e era um escoteiro dedicado, recebendo a mais alta medalha da organização em 1941. Cheio de energia, parecia estar sempre conversando e era chamado pelos amigos de Gabby. “Ele era tão simpático”, sua irmã me disse. “Ele faria você comprar qualquer coisa.”

Mas Morgan também tinha um lado desajustado. Detestava a escola e vivia escapando das aulas para ler histórias de aventura, especialmente contos sobre o rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda, enchendo sua cabeça de lugares bem mais exóticos que a vizinhança com grama aparada e casas padronizadas que via da janela de seu quarto. A mãe de Morgan dizia que ele tinha “uma imaginação muito, muito viva” e que fazia questão de trazer suas fantasias para a vida real, construindo coisas como um “capacete de mergulho” digno de Júlio Verne. Ele raramente demonstrava ter “medo de alguma coisa” e uma vez teve que ser resgatado quando estava prestes a pular do telhado de casa munido apenas de um paraquedas caseiro.

A inteligência do Exército americano também investigou Morgan e montou um dossiê sobre ele. (O dossiê, com centenas de outros documentos da CIA, do FBI, do Exército e do Departamento de Estado, foi obtido através da Lei de Liberdade de Informação e através do Arquivo Nacional.) Durante a avaliação psicológica do Exército, um analista da inteligência militar afirmou que o jovem Morgan “parecia bem ajustado à sociedade”. Mas, desde a adolescência, ele resistia às estruturas de poder a seu redor e àqueles que pretendiam enquadrá-lo. Como sua própria mãe dizia, ele estava decidido a sair de Toledo e se aventurar sozinho pelo mundo.

No verão de 1943, aos 15 anos, Morgan fugiu de casa. Retornou alguns dias depois, mas logo roubou o carro do pai e se mandou novamente. Foi pego pela polícia avançando o sinal vermelho. Entregue a um centro de detenção, escapou pela janela e desapareceu. Foi parar em Chicago, onde se juntou ao circo Ringling Brothers. Dez dias depois, o pai o encontrou cuidando de elefantes e o levou de volta para casa.

No 1º ano do colegial, Morgan largou a escola e começou a zanzar pelo país, ganhando trocados em subempregos. Fez de tudo um pouco. Foi operador de máquinas de perfuração, caixa de supermercado, caseiro em um rancho, carregador de carvão, porteiro de cinema e marinheiro. Seu pai parecia resignado com a falta de rumo do filho. “Viva todas as aventuras que quiser e nós ficaremos felizes em te receber em casa quando você decidir voltar”, escreveu em uma carta.

Morgan explicou mais tarde que ele nunca foi infeliz em casa, que seus pais deram a ele e a sua irmã “tudo o que queríamos” – e que ele só fugiu porque desejava “ver novas paisagens”. Segundo a mãe, ele sempre teve uma imagem mítica de si mesmo, “sempre quis ser um figurão, alguém realmente importante”, mas acreditava que ele tinha uma natureza “muito afetuosa” e nunca quis “nos magoar ou preocupar”.

Apesar disso, a verdade é que Morgan começou a se relacionar com o “tipo de garoto errado”, como ele diria mais tarde, e sujou sua ficha na polícia. Quando ainda eram menores de idade, ele e seus amigos roubaram o carro de um estranho e amarraram o motorista para que não fugisse. Também chegou a ser investigado por porte ilegal de arma.

Ninguém – nem seus pais, nem o FBI, nem a inteligência militar – jamais conseguiu desvendar o comportamento antissocial de Morgan. Sua mãe se perguntava se algo teria acontecido durante a gravidez, lamentando: “Esse menino não me deu um segundo de paz… Fiquei cheia de cabelos brancos.” O pai disse ao FBI que o filho talvez precisasse de “um desses médicos para a cabeça”. Um psiquiatra, citado pela inteligência do Exército, especulou que Morgan talvez tivesse “embarcado em um longo ciclo de autodestruição a fim de satisfazer uma necessidade neurótica de punição”.

Mesmo assim, era possível ver Morgan, com seus olhos loucamente azuis e o cigarro preso entre os dentes, como o precursor de um novo tipo social: um beatnik, um rolling stone. “Jack Kerouac ainda estava imaginando como seria a vida na estrada quando Morgan já estava lá fora, vivendo-a”, disse um de seus amigos a um repórter. 

Sua personalidade, “nômade, egocêntrica, impulsiva e totalmente irresponsável”, como os agentes de Hoover a descreveram, também guardava semelhanças com a de um adolescente de classe média a quilômetros de distância. “Como Fidel Castro, embora numa escala menor, Morgan era um delinquente juvenil”, disse em 1960 um jornalista conservador americano.

Hoover e o FBI descobriram que, ao contrário do que a imprensa dizia, Morgan nunca havia servido durante a Segunda Guerra Mundial. Ele até tentou se alistar, mas foi dispensado por ser jovem demais. Somente em agosto de 1946, quando a guerra estava encerrada e ele finalmente tinha 18 anos, foi que pôde ingressar no Exército. Quando foi informado de que seria enviado para o Japão em dezembro, chorou diante de sua mãe pela primeira vez em anos, mostrando que, apesar de toda a casca, ainda era apenas um adolescente. Embarcou em um trem rumo a uma base na Califórnia, onde ficaria antes de ir para o Japão. No caminho, escreveu um telegrama para os pais:

Surpresa: casei ontem ao meio-dia com Darlene Edgerton. Estou feliz, escrevo ou ligo assim que possível. Não fiquem preocupados nem animados demais.

Trajando seu uniforme engomado, ele se sentara ao lado dela no trem. “Ele era alto, bonito e tinha um magnetismo natural”, relembrou Darlene, hoje cega, aos 87 anos. “Para ser sincera, eu estava voltando para casa e ia me casar com outra pessoa quando nos conhecemos e nos demos incrivelmente bem. Paramos em Reno e simplesmente nos casamos.” Eles se conheciam havia apenas 24 horas e passaram dois dias em um hotel antes de pegar outro trem. Quando chegaram à Califórnia, Morgan se apresentou à base e partiu para o Japão. “O que a gente não faz quando é jovem”, disse ela. 

Com Morgan longe, o casamento acabou em um ano e meio e Darlene conseguiu que ele fosse anulado - embora mesmo depois de se casar com outro homem ela mantivesse uma carta de Morgan escondida, que ela ocasionalmente desdobrava, achatando as bordas com os dedos, e lia novamente, movida pela memória da figura do cometa que brilhou brevemente em sua vida.

Morgan ficou desanimado com o fim do relacionamento, mas sua mãe disse à Cruz Vermelha: "Conhecendo Bill, tenho certeza de que se ele tivesse a oportunidade de namorar outras garotas, ele logo esqueceria esse amor atual".

No Japão, Morgan logo começou a sair com Setsuko Takeda, uma descendente de japoneses e alemães que trabalhava como recepcionista numa boate em Kyoto. Ele a engravidou. Quando Setsuko estava prestes a dar à luz, no outono de 1947, Morgan não conseguiu tirar uma licença do Exército. Fez então o que sempre fizera: fugiu. Preso por deserção, implorou para vê-la. Durante o encontro, com a ajuda de um chinês que também estava preso, Morgan rendeu o oficial que o vigiava e pegou sua 45. “Ele ordenou que eu tirasse a roupa e mandou que o chinês me amarrasse”, testemunhou o militar. Vestido com o uniforme e carregando a arma do guarda, Morgan escapou no meio da noite.

Os militares localizaram Setsuko e ela os conduziu até a casa onde Morgan a esperaria. Quando viu o pai de seu filho, ela se jogou em seus braços. “Até que vocês foram rápidos”, disse Morgan aos militares, e pediu um cigarro.

Em 15 de janeiro de 1948, aos 19 anos, ele foi condenado a cinco anos de prisão por um tribunal militar. “Acho que entendi o que estava vindo para mim”, disse ele.

Sua mãe, em sua declaração à Cruz Vermelha, implorou por ajuda: “Eu sinceramente quero que ele seja um menino do qual eu possa me orgulhar com justiça, e não alguém que abaixe a cabeça de vergonha por tê-lo dado à luz”.


Morgan acabou transferido para uma prisão federal em Michigan. Matriculou-se num curso de história americana; estudou japonês e alemão, as línguas que Setsuko falava; assistiu a “aulas de orientação religiosa” e cantou no coro da igreja. Em um relatório sobre seu progresso, um funcionário da prisão escreveu: o capelão notou que o preso estava “fazendo todo o possível para melhorar a si mesmo e ser útil à sociedade”.

Morgan foi liberado em 11 de abril de 1950, antes do fim de sua pena. Ainda nutria alguma esperança de reencontrar seu filho e Setsuko, mas o relacionamento tinha acabado. Ele se mudou para a Flórida, onde conseguiu emprego em um circo como engolidor de fogo e aprendeu a manipular facas. Teve um caso com a encantadora de cobras, Ellen May Bethel, uma mulher franzina e impetuosa de cabelos pretos e olhos verdes. Na primavera de 1955, Morgan e Ellen tiveram uma filha, Anne. Eles se casaram alguns meses mais tarde, e tiveram outro filho, Bill, em 1957.

Ele se esforçou bastante para ser “útil à sociedade”, mas parecia preso a seu passado. No fim das contas, era um ex-presidiário e um soldado desertor – manchas que tentava, em vão, expurgar de seu currículo. A um amigo, Morgan contou que naquela época “não era nada”.

Segundo um informante do FBI, ele começou a trabalhar para a máfia, entregando encomendas para Meyer Lansky, gângster judeu e baixinho conhecido como Little Man. Além de seus negócios escusos nos Estados Unidos, Lanksy tornou-se um chefão em Havana, onde controlava alguns dos maiores cassinos e casas noturnas. Um associado da máfia certa vez descreveu como Lansky "levou Batista direto para o nosso hotel, abriu as malas e apontou para o dinheiro. Batista apenas olhou para o dinheiro sem dizer uma palavra. Então ele e Meyer apertaram as mãos."

Morgan voltou às ruas de Ohio, onde se juntou a Dominick Bartone, criminoso local famoso no submundo desde os tempos de Al Capone. Corpulento, com cabelos pretos e olhos escuros, Bartone tinha “cara de um bandido caricato”, segundo sua ficha no FBI. Dividia as pessoas entre “pontas firmes” e “trouxas”. Sua ficha criminal incluía condenações por suborno, contrabando de armas, evasão fiscal e fraude bancária. Um de seus maiores comparsas era Jimmy Hoffa, líder de um dos sindicatos mais importantes do país, os Teamsters.

Um dos amigos de Morgan em Ohio me disse que ele definitivamente pertencia ao grupo dos pontas firmes. “Sabe o que significa ter conexão? Morgan certamente era um cara conectado.” O amigo, que disse ter sido indiciado por extorsão, calou-se repentinamente e acrescentou: “Não sei se você é do F.B.I. ou a C.I.A.”

Alguns membros da máfia, entre eles Bartone, começaram a enviar armas para os rebeldes cubanos. Tinham a intenção de manter seus negócios na ilha caso o poder mudasse de mãos. O pai de Morgan achava que o primeiro contato do filho com essa história de Cuba tinha sido na Flórida, em 1955, quando ele teria conhecido Fidel, que estava lá para angariar apoio da comunidade de exilados à invasão que planejava. Dois anos depois, com Fidel já na Sierra Maestra, Morgan largou a mulher e os filhos em Toledo e começou a comprar armas nos Estados Unidos para enviar aos rebeldes. É possível que tenha sido movido por simpatia pela revolução, pela vontade de ganhar dinheiro ou simplesmente para se ver livre das responsabilidades domésticas. O pai de Morgan disse ao FBI que seu filho tinha fugido “de seus problemas desde que era um adolescente”, e que sua aventura cubana era só mais um exemplo disso. Antes de embarcar para Havana, Morgan disse a outro contrabandista de armas que se veriam de novo, na Flórida, “assim que essa maldita revolução terminar”. Mais tarde, no entanto, ele deu sua própria explicação, dizendo que sempre viveu “em busca de alguma coisa maior”.

Até hoje alguns pesquisadores (e mesmo pessoas que conheciam Morgan) especulam que ele foi enviado a Escambray pela CIA. Mas, como documentos recém-liberados revelam, Hoover e seus agentes tinham descoberto algo mais desconcertante. Morgan não estava trabalhando para a agência nem para a espionagem de outro país, nem mesmo para a máfia. Ele estava lá por conta própria.

Por que diabos estou aqui

"Chamando comandante William Morgan! Comandante William Morgan!"

Era um de seus homens em Escambray, contatando pelo rádio.

“Na escuta!” Foi a resposta de Morgan. “Envie reforços. Precisamos de ajuda, munição! Se ficarmos aqui, eles vão nos varrer do mapa.”

No verão de 1958, Morgan já tinha enfrentado inúmeras batalhas. “Estávamos sempre em desvantagem, coisa de pelo menos trinta homens para cada um”, disse ele. “Éramos uns gatos pingados, mas sempre muito firmes e ágeis no deslocamento. Ficamos conhecidos como os fantasmas das montanhas.”

Ele testemunhara de perto as crueldades do regime cubano: aldeias saqueadas e queimadas pelo Exército de Batista, amigos baleados na cabeça, um velho que teve a língua cortada e arrancada da boca. “Sei bem o que essas pessoas têm feito”, disse Morgan sobre os capangas de Batista. “Elas matam, torturam, espancam e fazem umas coisas que não podem sequer ser nomeadas.”

Morgan tinha costurado uma bandeira dos Estados Unidos em uma das mangas de seu uniforme. “Eu nasci americano”, gostava de dizer.

À noite, ele frequentemente se sentava perto da fogueira, onde faíscas espalhadas criavam constelações fugazes, e ouvia os rebeldes compartilharem suas visões da revolução. As várias facções do movimento – incluindo outros dois grupos em Escambray e as forças de Fidel na Sierra Maestra – eram um emaranhado de ideologias e ambições pessoais. A frente de Escambray defendia uma democracia no estilo ocidental e era fervorosamente anticomunista, posição aparentemente compartilhada por Fidel Castro, que, ao contrário de seu irmão Raúl e de Che Guevara, demonstrava ter pouco interesse no marxismo-leninismo. Na Sierra Maestra, Fidel disse a um repórter: “Não sou nem nunca fui comunista. Se fosse, teria coragem de assumir.”

Em Escambray, Morgan e Eloy Menoyo se tornaram cada vez mais próximos. Ele se dirigia a Menoyo como mi jefe y mi hermano e lhe contou tudo sobre seu passado conturbado. O chefe rebelde achava que Morgan estava amadurecendo tanto como soldado quanto como homem. “Pouco a pouco, William estava mudando”, disse ele.

No Escambray, Morgan e Menoyo ficaram cada vez mais próximos. Morgan era mais velho e tinha uma coragem quase suicida, como o irmão de Menoyo, que morrera na invasão de Batista. Morgan se dirigiu a Menoyo como “*mi jefe y mi hermano*” — “meu chefe e meu irmão” — e contou-lhe sobre seu passado conturbado. Menoyo sentiu que Morgan estava amadurecendo, como soldado e como homem. “Pouco a pouco, William foi mudando”, diz Menoyo.

Em julho, depois de ter sido promovido a comandante, Morgan escreveu uma carta a sua mãe, algo que não fazia havia seis meses, desde que tinha se enfurnado nas montanhas. A carta dizia: “Eu sei que você não aprova nem entende por que estou aqui, mesmo sendo a única pessoa no mundo que acredito que me entenda. Estive em muitos lugares nesta vida e fiz muita coisa que você não aprova nem entende. Nem eu consigo me entender neste momento.”

Na mensagem, falava de seus antigos pecados, admitindo o quanto havia magoado Ellen, sua segunda mulher, e seus filhos ao abandoná-los (“Feri os três profundamente”). “É difícil de entender, mas eu os amo muito e penso neles muitas vezes”, escreveu. Ellen pediu o divórcio alegando abandono. “Não espero que ela ainda me ame ou acredite em mim”, disse Morgan. “E ela deve estar certa.”

Mesmo assim, ele queria que a mãe entendesse que ele já não era a mesma pessoa. “Estou aqui com homens e garotos que lutam por… liberdade”, ele escreveu. “E, se acontecer de eu ser morto, quero que saiba que não será por uma fantasia tola ou, como diria papai, por um sonho impossível.” Um amigo que também contrabandeava armas para os rebeldes disse mais tarde ao Palm Beach Post: “Ele encontrou uma razão de ser em Cuba. Ele queria algo em que acreditar, um propósito maior. Queria ser alguém, não apenas mais um.” 

Num ensaio um pouco mais filosófico sobre as razões que o levaram a se juntar aos rebeldes, intitulado “Por que estou aqui”, Morgan dizia:

Por que luto aqui, nesta terra estrangeira para mim? Por que vim para um lugar tão longe da minha casa e da minha família? Por que me preocupo com esses homens que estão aqui comigo nas montanhas? Será porque são todos meus amigos íntimos? Não! Quando cheguei aqui, eram estranhos, eu não conseguia nem sequer falar sua língua ou entender seus problemas. É porque procuro aventura? Não existe nenhuma aventura por aqui, somente a boa e velha luta pela sobrevivência. Então, por que estou aqui? Estou aqui porque acredito que a coisa mais importante que um homem livre pode fazer é proteger a liberdade dos outros. Estou aqui para que, quando meu filho crescer, não tenha que lutar ou morrer em uma terra que não é sua só porque um grupo de homens tentou tomar sua liberdade. Estou aqui porque acredito que os homens livres devem unir forças para lutar e destruir qualquer grupo que tente tirar os direitos das pessoas.


Em sua pressa para derrubar o passado de Cuba, assim como o seu próprio, Morgan frequentemente se esquecia de fazer pausas para períodos ou quebras de parágrafo. Ele reconheceu: “Não posso dizer que sempre tenha sido um cidadão exemplar.” Mas explicou que, “estando aqui, posso apreciar o estilo de vida que é nosso desde sempre”, e contou as coisas excepcionais que viu: “Onde mais um menino de 19 anos marcharia por doze horas com um pé quebrado por um terreno cheio de obstáculos sem reclamar? Onde mais um único cigarro é fumado por dez homens? Onde mais um homem fica sem água para que outros possam ter o que beber?” Observando que as políticas americanas tinham favorecido a ascensão de Batista, ele concluiu: “Por que apoiamos pessoas que destroem em outras terras os ideais que nos são tão caros?”

Morgan enviou seu texto para alguém que, tinha certeza, iria simpatizar com o que escreveu: Herbert Matthews, o repórter do Times, que o considerava "a figura mais interessante na sierra de Escambray". Matthews publicou um artigo sobre a Segunda Frente de batalha e o "jovem americano rude" que a liderava, citando um trecho literal de sua carta.

Outros jornais começaram a falar das façanhas do “aventureiro americano”, o “intrépido Morgan”. O Washington Post relatou que aos 3 anos ele já era conhecido pela “ousadia”. Foi o que bastou para fazer “estudantes babarem de amor por ele”, como escreveu um jornal. Um empresário de Ohio declarou que ele “mais parecia um caubói saído de algum livro de Hemingway”. Morgan finalmente transformou suas ficções interiores em realidade.


Um dia, na primavera de 1958, Morgan participava de uma reunião de líderes da Segunda Frente quando deu de cara com um rebelde que nunca tinha visto antes: um sujeito pequeno e magro, com o rosto encoberto pelo boné. Só chegando muito perto percebeu que o rebelde, na verdade, era uma mulher. Tinha 20 e poucos anos, olhos escuros, pele bronzeada e cabelo castanho-claro, que cortava bem curto e pintava de preto para se camuflar no meio dos homens. Morgan observava seu encanto e delicadeza enquanto a moça carregava uma pistola com a desenvoltura de um ladrão de banco. “Ela realmente sabia usar aquilo”, diria ele mais tarde.


Seu nome era Olga Rodríguez. Vinha de uma família de camponeses muito pobres da província de Santa Clara que muitas vezes passava dias sem comida. Era dedicada aos estudos e queria ser professora. Inteligente, teimosa e questionadora, era “sempre um pouco diferente dos outros”, como ela mesma se define. Cada vez mais inconformada com a repressão do regime de Batista, Olga se juntou à resistência clandestina. Organizava protestos, montava bombas caseiras. Até que um dia agentes da polícia secreta apareceram em seu bairro, procurando-a de casa em casa com uma foto dela. “Eles vinham me matar”, lembra Olga.

Sem encontrá-la, os policiais espancaram seu irmão e o deixaram na porta da casa dos pais “como um saco de batatas”, diz ela. Em abril de 1958, disfarçada de homem e com uma minúscula pistola calibre 32 escondida na calcinha, Olga se tornou a primeira mulher a se juntar aos rebeldes em Escambray. Ela cuidava dos feridos e ensinava os guerrilheiros a ler e a escrever. “Meu espírito é revolucionário”, gostava de dizer.

Quando se conheceram, Morgan fazia piadinhas espirituosas a respeito de seu cabelo, tirando o boné da moça e dizendo: Hey, muchacho. Ele chegou ao acampamento montado literalmente sobre um cavalo branco e Olga sentiu seu coração fazer “tum, tum, tum”.

"Sou muito romântica e a ideia de que uma pessoa de outro país pudesse se importar com meus compatriotas a ponto de lutar por eles era comovente”, diz ela. Morgan passou a bater ponto em seu acampamento. Ela às vezes preparava arroz com feijão para ele (“sou guerrilheira, não cozinheira”), e ele reclamava: “Rápido demais!” enquanto ela falava, em espanhol de tiros, sobre a necessidade de realizar eleições e construir hospitais e escolas. Ela parecia diferente de muitas das mulheres com quem ele se envolvera impetuosamente. Como sua mãe, ela tinha um profundo senso de convicção, e foi sua influência, diz Menoyo, que promoveu a “transformação de William”, embora Rodríguez visse de forma diferente: Morgan não estava apenas mudando, mas descobrindo quem ele realmente era. “Eu sabia que William nem sempre foi um santo”, diz Rodríguez. “Mas por dentro, eu poderia dizer, ele tinha um coração enorme – um que ele abriu não apenas para mim, mas para o meu país.”

Morgan sabia dos riscos de se entregar à emoção em plena guerra. O regime de Batista estabeleceu uma recompensa de 20 mil dólares por sua cabeça. Certa vez, quando os dois estavam juntos, um avião militar passou por eles com o motor desligado, de forma que eles só perceberam do que se tratava quando bombas começaram a cair lá do alto. “Simplesmente precisávamos mergulhar para nos proteger”, lembra Rodríguez. Eles mal escaparam ilesos. Durante outros bombardeios, eles se abraçavam, sussurrando: “Nossos destinos estão entrelaçados”.

Quando Robert Jordan é dominado pelo amor por uma mulher durante a Guerra Civil Espanhola, ele teme que eles nunca experimentem o que as pessoas comuns fazem: “Nem tempo, nem felicidade, nem diversão, nem filhos, nem uma casa, nem um banheiro, nem um pijama limpo, não o jornal da manhã, não para acordar juntos, para não acordar e saber que ela está ali e que você não está sozinho. Não. Nada disso.

Enquanto Morgan lutasse em Escambray não poderia haver passado nem futuro para os dois, só o presente. “Desde o início, eu tinha essa sensação terrível de que as coisas acabariam mal”, diz Olga. A impossibilidade, no entanto, apenas inflamava mais o romance. Não muito depois de se conhecerem, um menino de uma aldeia próxima se aproximou de Rodríguez no acampamento, carregando um ramo de flores silvestres roxas. “Olhe o que o 'Americano' mandou para você”, o menino disse a ela. Alguns dias depois, o menino apareceu novamente, segurando um novo buquê. “Do 'Americano'”, disse ele.

Morgan dizia a ela que eles precisavam “roubar tempo”. Num desses momentos, um fotógrafo flagrou os dois numa clareira, ambos vestindo uniformes. Ele está com um rifle no ombro direito e ela se apoia sobre outro rifle, como se fosse uma bengala. Com as mãos livres, acariciam um ao outro. “Quando eu te encontrei, encontrei tudo que poderia desejar no mundo”, ele escreveu para ela. "Só a morte pode nos separar."


“MORGAN FOI MORTO NA NOITE DE ONTEM DURANTE UM CONFRONTO COM O EXÉRCITO CUBANO”, dizia a mensagem enviada em caráter de urgência pela embaixada dos Estados Unidos em Havana para Hoover, em 19 de setembro de 1958. O regime de Batista, que já tinha vazado a notícia para a imprensa cubana, enviara ao FBI duas fotos de um cadáver sem camisa, todo quebrado e ensanguentado.


A mãe de Morgan ficou destruída com a notícia. Semanas depois, recebeu uma carta vinda de Cuba, com a letra do filho: “No mês passado, a imprensa cubana disse que eu estava morto. Como pode ver, não estou.” 

Assim como o regime de Batista havia declarado falsamente a morte de Castro, cometeu o erro de acreditar em sua própria propaganda sobre Morgan, ficando preso no circuito fechado de informações que isola os tiranos não apenas de seus compatriotas, mas da realidade. Enquanto isso, a aparente emergência de Morgan dos mortos, como um dos feitos mágicos de Mulholland, criou uma poderosa contra-ilusão: que ele era indestrutível.


Em outubro, Che Guevara apareceu em Escambray com uma centena de soldados de aparência assustadora. Chegaram da Sierra Maestra depois de seis semanas dormindo em pântanos e caminhando em meio ao fogo dos inimigos. A essa altura, as fileiras da Segunda Frente já tinham mais de mil homens. Guevara descreveu seus homens como "moralmente quebrados, famintos ... seus pés ensanguentados e tão inchados que não cabem no que sobrou de suas botas". Guevara — a quem outro rebelde uma vez descreveu como “meio atlético e meio asmático” e propenso a mudar na conversa “entre Stalin e Baudelaire” — tinha cabelos escuros quase até os ombros. Durante a marcha, ele havia usado o boné de um camarada morto, mas, para sua tristeza, o havia perdido e passou a usar uma boina preta.

As fileiras da Segunda Frente cresceram para mais de mil homens. Morgan escreveu para sua mãe: “Estamos muito mais fortes agora” e disse que seus homens estavam “se preparando para descer das colinas e tomar as cidades”.

Che fora enviado a Escambray para assumir o comando da Segunda Frente a pedido de Fidel, ansioso para acelerar a ofensiva contra Batista e eliminar qualquer ameaça ao seu controle. Mas muitos rebeldes de Escambray resistiram à usurpação de sua autoridade. Tensões vieram à tona. Che e seus homens foram confrontados por Jesús Carreras, um dos líderes da Segunda Frente particularmente combativo. Depois de exigir uma senha de Guevara, Carreras se recusou a deixar que ele e seus homens passassem.

Morgan e Olga Rodríguez, em 1958. O relacionamento deles, diz ela, era “un gran amor”. Cortesia Olga Morgan Goodwin

Morgan e Che, os dois comandantes estrangeiros, desconfiavam amargamente um do outro. O barulhento, divertido e anticomunista americano tinha muito pouco em comum com o médico argentino erudito, asceta e marxista-leninista. Morgan acusou o grupo de Guevara de desviar armas pertencentes à Segunda Frente. Che, por sua vez, desprezava Morgan e seus companheiros. Apelidou-os de comevacas – aqueles que viviam à custa da generosidade dos camponeses. Che e a Segunda Frente chegaram a um “pacto operacional”, mas o atrito permaneceu.

Em novembro de 1958, antes de um ataque decisivo contra o Exército de Batista, Morgan fugiu com Olga para uma fazenda nas montanhas, onde se casaram. Como não tinham anéis, ele pegou uma folha, enrolou e colocou no dedo dela, prometendo: “Eu vou te amar e te honrar todos os dias da minha vida.” Olga respondeu: Hasta que la muerte nos separe.

Após a cerimônia, Morgan pegou sua arma e voltou para a batalha. “Mal tivemos tempo de nos beijar”, lembra Rodríguez. À medida que a luta se intensificava, ela sentia uma crescente inquietação. Para lhe fazer companhia, ele lhe dera um papagaio que gritava "'We'-liam" e "eu te amo!" Mas um dia ele voou e nunca mais voltou.

No fim de dezembro, Guevara e seu grupo fizeram um ataque feroz na província de Santa Clara, obtendo uma vitória decisiva. No mesmo mês, Morgan e a Segunda Frente tomaram a cidade de Manicaragua, centro da produção de tabaco, e depois seguiram até chegar a Topes de Collantes, a 257 quilômetros a sudeste de Havana. Um dos comandantes de Batista avisou: “O quartel-general já não pode resistir. O Exército não quer lutar.” Pouco antes, a Segunda Frente havia emitido um comunicado declarando que a ditadura estava “praticamente esmagada”.

Às quatro da manhã do dia do Ano-Novo, David Atlee Phillips, agente da CIA em Havana, estava na varanda de casa, bebendo champanhe, quando olhou para cima e viu uma mancha de luz – um avião – riscando o céu. Ele se deu conta de que não havia voos partindo naquela hora e telefonou para o chefe dando uma informação de ouro: “Batista acaba de voar para o exílio.”

"Você está bêbado?", foi a resposta.

Mas Phillips estava certo – Batista estava mesmo fugindo com sua comitiva para a República Dominicana – e a notícia logo se espalhou por toda a ilha: Se fue! Se fue!

Meyer Lansky estava em Havana na época e foi uma das primeiras pessoas a serem avisadas. “Pegue o dinheiro”, ele ordenou a um associado. "Tudo isso. Até o dinheiro e os cheques na reserva.

De manhã, Morgan estava se preparando para a batalha por Cienfuegos quando o grito chegou a ele e a Olga: Se fue! Se fue! Morgan então ordenou que todos os seus homens partissem para tomar a cidade imediatamente. Todos, incluindo Olga, saltaram para dentro de carros e caminhões rumo a uma cidade onde esperavam uma batalha frenética, mas encontraram o Exército de Batista – outrora invencível – completamente desmantelado. Eufórica, a população local saiu às ruas, buzinando e rufando tambores improvisados. A multidão saudava Morgan aos gritos: “Americano! Americano!” Com uma bandeira rebelde nos ombros, fazendo as vezes de capa, ele disse aos repórteres: “Estou esquecendo meu inglês.” A multidão o agarrava berrando: Victoria! Libertad!

Em entrevista ao "Look", Morgan disse: “Quando descemos das montanhas, foi um choque para todos nós... para descobrir quanta fé o povo cubano tinha nesta revolução. Você sentia que simplesmente não podia trair suas esperanças.

Morgan foi encarregado de tomar conta de Cienfuegos. Ele finalmente se tornara alguém, como disse a um amigo. Em 6 de janeiro de 1959, à uma da manhã, Fidel fez uma parada em Cienfuegos durante sua marcha triunfante rumo a Havana. Era a primeira vez que ele e Morgan se encontravam em Cuba.

Em entrevistas, Fidel reafirmou sua oposição ao comunismo e prometeu convocar eleições em dezoito meses. Em Havana, diante de milhares de pessoas, ele prometeu: “Não podemos nos tornar ditadores.” Quaisquer que fossem as dúvidas que Morgan tivesse sobre Guevara, ele parecia não ter nenhuma sobre Castro, que certa vez declarou: “A história me absolverá”.

“Tenho uma enorme admiração, um enorme respeito por esse homem”, disse Morgan sobre Fidel ao apresentador de tevê americano Clete Roberts. “Respeito sua coragem moral e sua honestidade.” Sobre ele próprio, disse que já estava na hora “de o carinha aqui ter um descanso”.

Roberts observou que a vida de Morgan, incluindo seu romance com Rodríguez, soava "como todos os roteiros de filmes que já foram sonhados em Hollywood". Morgan insistiu que não tinha interesse em vender sua história: “Não acredito que você deva lucrar com seus ideais. Não acredito que eu fosse um idealista quando subi as montanhas, mas sinto que sou um idealista agora.”

Morgan tinha passado dois dias sem dormir depois que Batista fugiu e ficou feliz em poder se barbear e limpar a sujeira acumulada em seu corpo. Olga logo aposentou o uniforme, confiante de que “a guerra tinha acabado e nós poderíamos formar uma família e viver em uma democracia”. Em Cienfuegos, trocaram alianças de verdade.

Olga ficou grávida. De repente, Morgan achava que eles poderiam ter tudo: uma casa, filhos, o jornal fresquinho pela manhã. “Tudo que eu quero é uma vida boa e tranquila”, afirmou.

A conspiração

Em março de 1959, um americano misterioso apareceu de repente no hotel Capri, onde Morgan e Olga estavam hospedados. O homem, de 40 e muitos anos, tinha cabelos pretos e crespos e usava óculos de lentes grossas. Chamou por Morgan no saguão do hotel, dizendo que precisava vê-lo. Seu nome era Leo Cherne. “Tenho certeza de que ele nunca ouvira falar de mim antes disso”, Cherne lembrou em um depoimento até hoje não publicado.


Culto e discreto, Cherne era um empresário bastante rico que havia aconselhado vários presidentes americanos, incluindo Franklin Roosevelt e Eisenhower. Em 1951, tornou-se presidente do International Rescue Committee [Comitê Internacional de Resgate] [3]. Alguns especulavam que, sob o comando de Cherne, o comitê funcionava como entidade de fachada para a CIA, o que ele negava. De todo modo, sabia-se de seu envolvimento com pessoas da inteligência, e ele era do tipo que gostava de estar a par de tudo o que acontecia no submundo da espionagem.

Cherne disse que por um tempo tinha sido “fortemente atraído” por Fidel, competindo com Herbert Matthews para ver quem tinha “entusiasmo mais cego” pelo cubano. Depois da revolução, foi ficando apreensivo. Com uma frieza perturbadora, Fidel enviou centenas de membros do regime de Batista para o “paredão”.

Foi então que a CIA decidiu acompanhar Fidel mais de perto, chegando a lhe atribuir um criptograma: AMTHUG, um código secreto usado pela agência para se referir a Castro. Morgan deve ter parecido um alvo tentador para recrutamento. Tinha acesso aos altos círculos do poder, falava espanhol e, sendo americano, parecia alguém mais fácil de ser convencido, uma vez que não teria que trair seu próprio país. O apoio de Morgan a Fidel e à revolução era um empecilho, mas, como qualquer oficial experiente sabia, quase todo mundo tem um “ponto fraco”: ganância, inveja, um fraco por mulheres. Tudo o que um recrutador precisava fazer era encontrar o ponto vulnerável e trabalhar nele até incorporar seu alvo ao sistema de informações.

Morgan parecia guardar em si uma centelha de ressentimento prestes a pegar fogo a qualquer momento. Fidel temia as rivalidades e havia negado posições de destaque no novo governo para muitos membros da Segunda Frente Nacional de Escambray, incluindo Menoyo. Adam Clayton Powell, congressista de Nova York, tinha acabado de voltar de uma missão de coleta de informações em Cuba, onde ouvira Morgan – a quem descreveu como um “sujeito doce, mas muito difícil” – criticar o novo regime.

No hotel Capri, Cherne ficou surpreso ao descobrir que Morgan estava instalado em um quarto apertado e parcamente mobiliado. Olga não estava lá, mas homens barbudos armados entravam e saíam a todo instante, como se o aposento fosse um quartel-general improvisado. Morgan usava seu uniforme de rebelde com a estrela de comandante estampada em cada uma das dragonas. O revólver descansava sobre uma cômoda.


Cherne disse a Morgan que o procurou para promover o trabalho do I.R.C. em Cuba e para obter uma audiência com Castro, mas Morgan estava cauteloso. Ele sabia que Havana havia se tornado uma cidade de espiões, e Cherne havia mostrado a ele um I.R.C. brochura apresentando William Joseph (Wild Bill) Donovan - o famoso espião mestre da Segunda Guerra Mundial, que foi presidente honorário do conselho do comitê. Morgan suspeitava que Cherne era um oficial da inteligência americana representando “forças muito substanciais e poderosas”.

Enquanto conversavam, Morgan, talvez acreditando que seus segredos estariam seguros com um guardião profissional deles, confessou algo que não havia revelado nem mesmo para seus amigos mais próximos, incluindo Menoyo. Morgan admitiu que a história que havia contado sobre um amigo americano morto por Batista era uma invenção - um truque que lhe permitiu entrar furtivamente na narrativa da história. “Morgan disse a verdade, confiando que eu não a tornaria pública”, lembrou Cherne. Morgan tocou em seu passado conturbado, e Cherne acreditava que Morgan era “corajoso, duro, capaz, engenhoso, mas um menino mau. . . . E foi esse bad boy que encontrou nos eventos em desenvolvimento em Cuba algo emocionante.”

Cherne reparou o quanto o espanhol de Morgan era bom, como ele impunha respeito aos rebeldes que zanzavam no quarto e como ele parecia brilhante, apesar de só ter estudado até a 8ª série. “Raramente conheci alguém tão esperto, em alguns aspectos até mesmo brilhante, e tudo isso instintivamente”, Cherne observou.

Ele logo voltou ao Capri para outra reunião. Desta vez, um barbudo estava esparramado na cama, aparentemente cochilando. Ignorando o rapaz, Morgan disse que queria revelar algo “muito importante”. 

Ansioso, Cherne olhou em volta e perguntou: “Como você sabe que este quarto é seguro?” 

Morgan assegurou-lhe que era, mas Cherne apontou para o ar-condicionado, onde um grampo poderia ter sido instalado. “Me desculpe”, disse o rebelde. “Você está certo.” Pegou um rádio de pilha, colocou na frente do aparelho e ligou uma música.

Cherne continuava preocupado com o cubano adormecido. “A alegre disposição de Morgan para assumir riscos era demais para o meu gosto”, relembra. Mas, sentindo que ele tinha informações “irresistíveis”, resolveu deixá-lo prosseguir. Com sua permissão, chegou até mesmo a usar um gravadorzinho que levara consigo. Morgan então confidenciou que Che Guevara e Raúl Castro eram marxistas-leninistas que punham em risco a revolução. Segundo o rebelde, Che havia encomendado sua morte, mas Morgan capturara o agente que deveria matá-lo e, antes de libertá-lo, o obrigou a fazer uma confissão por escrito. “Essa é a apólice de seguro que vai me manter vivo.”

Cherne perguntou a Morgan se Fidel Castro era comunista. Ele disse que não e salientou que muitos cubanos estavam comprometidos com a democracia. Cherne achou o conto de intriga de Morgan "cheio de fatos perspicazes".

Morgan esperava que Cherne pudesse usar sua influência para conseguir ajuda econômica internacional a cerca de 3 mil famílias de Escambray bombardeadas durante a guerra. Também temia que o governo dos Estados Unidos revogasse sua cidadania, como alguns anticastristas pediam. Foi então que Cherne achou ter encontrado o ponto fraco de Morgan: o comandante ianque queria ter certeza de que, se as coisas ficassem feias, poderia voltar para a América com sua família. Tinha medo de ser deixado do lado de fora, no frio.

Cherne acreditava que Morgan não estava buscando vantagens pessoais. Em vez disso, Morgan esperava “igualar o placar” com seu amado país, onde havia falhado como cidadão e soldado. “Este foi seu ato de expiação”, concluiu Cherne.

Morgan entregou a Cherne uma moeda de 5 centavos emitida em 1946 com um pequeno entalhe na borda. Se ele quisesse mandar alguém para vê-lo algum dia, a pessoa deveria trazer essa moeda como sinal de que era de confiança.

Depois de deixar o hotel com a moeda e sua gravação da conversa, Cherne foi ficando nervoso, com medo de estar sendo espionado. Para que correr um risco tão bobo? Rabiscou o que tinha ouvido num papel e enviou a um amigo de confiança em Havana. “Caso eu não conseguisse escapar”, contou ele.

Cherne voltou ao hotel e permaneceu em seu quarto. O telefone tocou, mas ele não atendeu. “Ouvi passos do lado de fora da minha porta e suei muito”, lembrou ele. Por fim, ele correu para o aeroporto, esperou um “período interminável” e “não ficou aliviado até o avião decolar”.

No dia 20 de março, Cherne foi até a sede da CIA – na época, um complexo de edifícios malconservados no noroeste de Washington. Uma placa dizendo "U.S. Government Printing Office" ficava na frente, mas, depois que o presidente Eisenhower e seu motorista lutaram para encontrar a entrada, foi substituído pelo emblema da CIA.

Lá se reuniu com o chefe interino da Divisão para o Hemisfério Ocidental. Na linguagem da CIA, Cherne estava identificado dentro de uma pasta sobre Morgan apenas como “contato HQS”. Servia como olheiro, alguém que identifica pessoas que podem vir a ser recrutadas pela agência. Ele disse para a CIA que Morgan seria uma aquisição valiosa, pois Fidel o tinha em alta conta. Por fim, entregou a moeda de 5 centavos.

Um relatório da CIA concluiu que Morgan tinha “possibilidades KUCAGE”. Em seu livro Dentro da “Companhia”: Diário da CIA, de 1975, Philip Agee, um ex-oficial que se voltara contra a CIA e que supostamente ajudara o regime de Fidel, revelou que KUCAGE designava operações psicológicas e paramilitares altamente complexas. “Operações de ação, e não de coleta de informações”, escreveu Agee. “Operações de coleta precisam ser invisíveis, o alvo não pode saber de nada. Operações de ação, por outro lado, sempre produzem efeitos visíveis. Esses efeitos, no entanto, nunca devem ser atribuídos à CIA ou ao governo dos Estados Unidos.”

Pouco depois de Castro assumir o poder, a C.I.A. passou a buscar operadores de ação que pudessem apertar o “botão mágico”: o assassinato. Além de encomendar os manuais de Mulholland, a C.I.A. havia criado um documento intitulado “Um estudo de assassinato”. Depois de observar que os “moralmente melindrosos não deveriam tentar”, o estudo expôs várias técnicas:

O acidente mais eficiente... é uma queda de 75 pés ou mais em uma superfície dura. Poços de elevador, poços de escada, janelas sem tela e pontes servirão. ... O ato pode ser executado por [levantamento] súbito e vigoroso dos tornozelos, derrubando o sujeito sobre a borda. Se o assunto for deliberadamente atropelado, é necessário um tempo muito exato e a investigação provavelmente será completa. ... O sujeito pode ser atordoado ou drogado e depois colocado no carro, mas isso só é confiável quando o carro pode ser jogado de um penhasco alto ou em águas profundas sem observação.

No final de março, a CIA autorizou uma investigação mais aprofundada sobre El Americano. Os agentes precisavam de mais “dados biográficos” antes de tentar recrutá-lo. No dia 30 de março, a Divisão Central da agência pediu para ser avisada assim que Morgan fosse “ativado” como espião.


Duas semanas depois, Fidel chegou a Washington para uma visita que anunciou como de “boa vontade”. O presidente Eisenhower se recusou a encontrá-lo, mas, quando ele apareceu em público vestindo seu uniforme verde amarrotado e um coldre vazio, foi aplaudido por americanos que o viam como um herói popular. “Viva Fidel!”, gritavam.

A essa altura – relata Aran Shetterly, biógrafo de Morgan –, outro visitante curioso apareceu no hotel Capri: um renomado caixeiro-viajante da máfia chamado Frank Nelson. A máfia temia com razão que Fidel planejasse fechar seus cassinos e clubes noturnos. (“Não estamos apenas dispostos a deportar os bandidos, mas a atirar neles”, proclamou Castro mais tarde.)

Nelson disse que um amigo em Miami estava interessado nos “serviços” de Morgan.

“Nos meus serviços?”, perguntou Morgan, confuso.

Foi a vez de Nelson passar os olhos pelo quarto nervosamente. Em voz baixa, ele disse: “Meu amigo está disposto a pagar bem se você ajudá-lo.” Fez uma pausa. “Um milhão de dólares.”

A conversa continuou em Miami, onde Morgan encontrou o “amigo” de Nelson em um quarto de hotel. Era o cônsul da República Dominicana, que estava servindo como intermediário a fim de ocultar a identidade dos conspiradores. Um dos idealizadores do encontro havia sido Rafael Trujillo, o tirano que governou a República Dominicana por três décadas, uma figura ainda mais sádica do que Batista. Seu chefe de segurança comparou seu governo ao de “Calígula, o louco César”.


Uma das máximas de Trujillo era “Quem não sabe enganar não sabe governar”, e ele tinha uma tendência a tramar para matar seus oponentes no exterior. Em 1956, teria orquestrado em Nova York o sequestro de um professor da Universidade de Columbia prestes a publicar uma tese criticando seu regime. Carregado de volta para a República Dominicana, onde havia trabalhado no governo, o professor foi amarrado a um guindaste e colocado lentamente numa tina de água fervente. Trujillo agora queria eliminar Fidel Castro.

O cônsul de Trujillo estava acompanhado pelo ex-chefe de polícia de Batista (ainda na República Dominicana, Batista ajudava a financiar a operação). Também estava presente um homem forte de peitoral largo que Morgan reconheceu de seus dias de crime organizado: Dominick Bartone. Depois da revolução, o bandido tinha procurado Morgan tentando vender vários aviões militares de carga Globemaster para Fidel. Agora Bartone tentava vender esses mesmos aviões para os conspiradores que queriam derrubar Castro. Jimmy Hoffa, seu aliado, tinha sido acusado de desviar 300 mil dólares do fundo de pensão do sindicato Teamsters para viabilizar o negócio. Um dos assessores de Hoffa mais tarde informou o governo de que o esquema “foi pura e simplesmente uma maneira de ajudar alguns dos companheiros de máfia de Hoffa que estavam com medo de perder seus negócios em Cuba”.

Os homens no quarto do hotel representavam interesses ligados à máfia, ao sindicato, a Batista e a Trujillo, um antigo aliado dos Estados Unidos. Essas forças díspares conseguiram se unir em torno de um único e audacioso plano.

Para convencer Morgan, também haviam sondado seu ponto fraco. “Eu sei que você e seus companheiros foram maltratados”, disse Nelson. “Além disso, 1 milhão de dólares é sempre 1 milhão de dólares.”

Para o resto do mundo, Morgan podia até ter se tornado o comandante ianque, mas os conspiradores acreditavam que, no fundo, ele continuava sendo o bom e velho Billy Morgan.

“Daremos tudo o que você pedir”, disse o ex-chefe da polícia de Batista.

Morgan logo voltou a encontrar o grupo. Contou que tinha conversado com Menoyo e que os dois refletiram bastante sobre o que havia se passado em Cuba desde a revolução. Concluíram que ele e os outros membros da Segunda Frente estavam prontos para entrar na conspiração.


Hoover percebeu que algo estava acontecendo. Informantes tinham relatado que Morgan recebera dezenas de milhares de dólares do cônsul da República Dominicana nos últimos meses. O dinheiro costumava chegar dentro de “sacos de papel”. Corriam rumores de que Morgan, que se mudara com Olga para uma casa em Havana, andava recebendo mensagens de um padre que agia não no interesse de Deus, mas no de Rafael Trujillo. Falava-se ainda que Morgan teria encontrado Johnny Abbes García, chefe da polícia secreta de Trujillo, na Flórida.

Hoover e seus homens procuravam descobrir o sentido dos dados que estavam coletando. O chefe do FBI ficou obcecado por Morgan – um ex-engolidor de fogo! – e pressionou seus homens a intensificar suas buscas, explorando as ligações de Morgan com Dominick Bartone. O mafioso, classificado pelo birô como “armado e perigoso”, tinha sido preso recentemente com seus comparsas no aeroporto de Miami, flagrados ao encher um avião de armas. Os compradores da carga seriam mercenários e exilados cubanos que estavam sendo treinados na República Dominicana.

Enquanto o FBI rastreava seus movimentos, Morgan foi várias vezes a Miami, onde se reuniu com os outros conspiradores. Naquele verão, ele também foi a Toledo visitar seus pais, a quem não via desde o dia em que se mandou para Cuba, um ano e meio antes. Seus pais sentiram que o filho estava tenso. A mãe lhe perguntou em que tipo de confusão ele estava se metendo agora.

The incident had not only intensified Hoover’s scrutiny of Morgan and the plotters; it also aroused the interest of the Senate Rackets Committee and its chief counsel, Robert F. Kennedy, who was investigating links between Hoffa’s Teamsters and organized crime. At a hearing in June, 1959, Kennedy demanded, “Do we have any background on Mr. Morgan?” When a Teamster official was questioned by the committee about the weapons scheme, he said, more than once, “I decline to answer because I honestly believe my answer may tend to incriminate me.” Another witness, however, acknowledged that Morgan had “worked for Bartone in years past.”

While the F.B.I. tracked Morgan’s movements, he made repeated forays to Miami, where he met with his conspirators. That summer, he also travelled to Toledo for a visit with his mother and father, whom he had not seen since leaving for Cuba, a year and a half earlier. His parents savored the brief reunion, but they could tell that Morgan was feeling “heat and pressure,” as he later put it. When his mother looked at his clothing and belongings, she noticed that there wasn’t any identification on him—he’d become a man from nowhere.

She asked him what kind of trouble he was getting into now.

Nenhuma, ele garantiu.

Mas ela sentiu no ar que ele estava planejando aplicar, como disse mais tarde, um “novo truque”.


The hand is not “quicker than the eye,” Mulholland warned in his spy manuals. The key to an illusion is to make the audience explain away the fact that it has been deceived in plain sight.

Em 27 de julho de 1959, Morgan visitou Miami novamente, dessa vez com Olga. Grávida de oito meses, ela lhe proporcionava algum disfarce. Ainda assim, ele foi parado por autoridades no aeroporto de Miami e levado a uma sala de espera, onde foi interrogado por dois homens com cabelo escovinha, ternos e gravatas escuras. Eram agentes de Hoover.

Depois de informar a Morgan quais eram seus direitos, os agentes perguntaram o que ele vinha fazer em Miami. Ele primeiro insistiu que estava passeando com sua mulher por uns dias. Mas admitiu sob interrogatório que tinha sido procurado pelo representante de um governo estrangeiro interessado em fazer uma contrarrevolução em Cuba. “O interrogado se recusou a identificar seus contatos”, os agentes escreveram em um relatório.

Morgan disse que estava em uma “situação delicada” e acabou sendo liberado. Hoover ordenou que seus homens monitorassem seus movimentos “com vigilância física e outras técnicas confidenciais”. O FBI informou que a mulher grávida do “investigado” foi vista entrando em um Cadillac azul ano 1959 na porta do hotel Montmartre. Os agentes rastrearam o carro: pertencia a Dominick Bartone.

Em 31 de julho, Morgan ligou para o FBI informando que Olga tinha voltado para Cuba e que ele voltaria em dois dias, em um voo da Pan American. Poucas horas depois do telefonema, no entanto, ele foi embora deixando suas coisas no quarto do hotel. Mais tarde, o FBI descobriu que Morgan tinha embarcado clandestinamente em um pequeno barco de pesca na noite de 6 de agosto. Fora da costa de Miami, pegou um iate de 54 pés pilotado por dois mercenários. O barco não tinha nenhum tipo de identificação e estava abarrotado de metralhadoras, explosivos e outros armamentos. Com Morgan a bordo, o iate partiu para Cuba e, depois de despistar a guarda costeira americana e quase ficar sem combustível, entrou no porto de Havana, em 8 de agosto.

Hoover acreditava que Morgan estava procurando seu lugar ao sol na conspiração. Uma fonte do FBI disse que ele planejava “assassinar Fidel”. Outra fonte disse que o plano era tirar Fidel e Raúl Castro de cena. Várias fontes confirmavam que um bando de mais de mil mercenários e exilados cubanos seria levado de avião da República Dominicana para Trinidad, uma cidade colonial ao pé da serra de Escambray. Quando chegassem, seriam liderados por Morgan. Nessa época, um telegrama da embaixada americana classificou o americano como “um enigma”.

Morgan recebeu de Trujillo um rádio de ondas curtas – uma engenhoca volumosa com dezenas de botões. Ligou o rádio e ouviu uma voz estridente: era o espião de Trujillo, Abbes García, na República Dominicana.

Um informante depois disse ao FBI que Abbes García usava seu rádio depois da meia-noite e costumava se identificar como “Vaca Vermelha”. 


O codinome de Morgan era Henry – em referência a Henry Morgan, corsário galês do século XVII contratado pela Coroa britânica para saquear ouro de Cuba, então colônia espanhola. Certa vez, quando Henry Morgan se viu preso por uma armada espanhola, ele lançou em direção ao inimigo um navio, equipado com materiais incendiários e manequins de madeira, que então explodiu, permitindo-lhe escapar, em um dos maiores estratagemas da história marítima.


Em um fim de noite de agosto, Morgan ligou o rádio: “Henry falando. Venham… Venham…”

A Vaca Vermelha pegou o sinal e Morgan lhe disse que o plano havia sido ativado: “Nossas tropas estão avançando.”

Abbes García podia ouvir tiros e bombas ao fundo.

“Avante, Henry!”, respondeu empolgado.

Funcionários do alto escalão do FBI, da CIA, da Marinha, do Exército, da Força Aérea e do Departamento de Estado começaram a trocar informações a respeito de Morgan e de seu plano. Telegramas urgentes diziam: “Casa de Fidel em Cojimar foi alvejada… Fontes confiáveis afirmam que um pequeno grupo atacou a casa de Raúl… O paradeiro de Morgan é desconhecido… Telefones cortados nas províncias de Las Villas e Camagüey… Rumores de combates… Forças Armadas em alerta máximo… Esperando algo mais, provavelmente uma invasão… Porto de Havana será bombardeado às quatro da tarde… Espera-se que Castro seja aniquilado.”

Hoover e seus colegas souberam que Morgan e outros membros da Segunda Frente, incluindo Menoyo e Jesús Carreras, se reuniram em Trinidad, onde tomaram uma pista de pouso enlameada, na prática dividindo a ilha ao meio. Trujillo transmitiu uma mensagem de rádio ao povo cubano: “Morte, morte, morte ao demônio Fidel Castro e seu irmão Raúl!”

Na noite seguinte – aniversário de 33 anos de Fidel – Trujillo despachou para Cuba um avião que transportava os primeiros membros da força de ataque. Ao desembarcarem em Trinidad, os soldados ouviram Morgan e seus homens maldizendo Fidel aos berros. Os gritos se tornaram tão altos e intensos que pareciam vir de uma torcida num estádio: “MORTE A FIDEL!”

De repente, uma figura imponente e barbada que também gritava surgiu de trás de uma mangueira, onde estava escondido. Era Fidel Castro.

Morgan armara um truque dentro do truque. Ele não era um contrarrevolucionário – era um agente duplo. Ele e a Segunda Frente haviam atuado em conluio com Fidel. As mensagens de rádio, os telefones cortados, as bombas explodindo, tudo fazia parte da encenação do que ele descreveu como uma “guerra fictícia”.

Morgan e os homens leais a Fidel apontaram suas metralhadoras para os atordoados combatentes da força de ataque. Mais tarde, um dos homens de Trujillo diria: “Eu não deveria ser julgado como conspirador, mas como um imbecil.” Quando o tiroteio terminou, dois membros da força de ataque estavam mortos e os demais tinham sido capturados.

Morgan ajudou a desmantelar o primeiro grande complô contra o regime de Fidel. Em um discurso na tevê de mais de cinco horas que durou até as três da manhã, Castro explicou o que tinha acontecido. Morgan apareceu ao seu lado, sorrindo em seu reluzente uniforme rebelde. Nos meses anteriores, ele e Fidel passaram horas planejando aquela conspiração. Fidel foi visto colocando seu longo braço ao redor de Morgan, o valioso agente duplo. Saudado como um “cubano” por Fidel, Morgan o chamou de “fiel amigo”. “Eles confiavam plenamente um no outro”, lembra Menoyo.

O comandante ianque revelou ao público que, depois de ter sido abordado para liderar a contrarrevolução, ele e Menoyo alertaram Fidel. Castro os orientou a expor os inimigos. “Cada um interpretava seu papel, era melhor do que nos filmes”. Herbert Matthews, in a letter to Hemingway, described the events as “stranger than fiction but real.”

Morgan e Menoyo foram tão convincentes em seus papéis de contrarrevolucionários que Leo Cherne e outros agentes suspeitaram que eles originalmente tinham participado da conspiração, mudando de lado quando estavam prestes a ser descobertos. Menoyo e outros envolvidos insistiram que nunca tinham se voltado contra Fidel – que continuava sendo reverenciado em Cuba e reafirmara seu apoio aos princípios democráticos na visita a Washington, em abril. Apesar de suas preocupações com o regime, Morgan declarou enfaticamente que ele e os membros da Segunda Frente “jamais se uniriam” a tipos como Trujillo ou Batista.

Em 20 de agosto, Morgan ligou para os agentes do FBI que o seguiram em Miami pedindo desculpas por ter fugido deles. Ele explicou que não queria trair Cuba, onde tinha tantos amigos. Acrescentou que não tinha quebrado nenhuma lei americana, embora talvez as tivesse “entortado” um pouquinho.

O serviço secreto americano abriu uma investigação sobre Morgan e recomendou que não fossem tomadas medidas contra esse homem de “coragem inquestionável”, já que ele não representava nenhuma ameaça a “segurança e bem-estar do nosso presidente”. Mas Hoover ficou furioso por ter sido enganado e, em setembro, o Departamento de Estado revogou a cidadania de Morgan.

A CIA não fez nenhum esforço para interceder por Morgan. Naquele mês de maio, segundo documentos desclassificados, a agência desistiu de tentar recrutá-lo, depois de ter encontrado evidências de sua juventude delinquente e do seu escandaloso histórico militar. Um memorando interno afirmou: “A agência acredita que qualquer acordo secreto com Morgan é indesejável do ponto de vista da segurança.” No fim das contas, sua natureza genuinamente rebelde fazia de Morgan um sujeito imprevisível demais.

Trujillo – que mais tarde seria assassinado num complô da CIA – colocou a cabeça de Morgan a prêmio com uma recompensa de meio milhão de dólares. Quando Clete Roberts, o apresentador de tevê americano, visitou Morgan, em setembro de 1959, a casa estava cercada de guarda-costas com submetralhadoras Thompson. Ele perguntou a Morgan qual era a “sensação de ter sua cabeça avaliada em meio milhão de dólares”.

Morgan respondeu friamente: "Bem, não é tão ruim. Quem quiser minha cabeça terá de vir buscá-la. Vai ser difícil."

O governo de Fidel fez de Morgan um “cidadão cubano por nascimento” e prometeu protegê-lo. A Associated Press escreveu que ele havia alcançado “um status quase lendário” na ilha e Cherne disse que ele se tornara “o herói da República”. Sua reputação ficou ainda maior quando ele entregou ao governo os 78 mil dólares que recebera do cônsul dominicano, pedindo apenas que o dinheiro fosse investido na região de Escambray. Quando Morgan andava pelas ruas de Havana, as pessoas esticavam a mão para tocá-lo. Chegaram a fazer uma música celebrando suas façanhas.

Em agosto, Olga deu à luz uma filha, que recebeu o nome da mãe de Morgan, Loretta. Olga lembra que Fidel apareceu na clínica para parabenizá-los. “Ele queria ser o padrinho”, diz ela, mas a honra foi de Menoyo.

Morgan was astonished that so many Cubans had embraced him. “These are people who never saw me before in their lives,” he told Roberts. “They never knew me. They just know me by what I’ve done or how I’ve been with them.”

Morgan disse que a revolução tinha sido travada em nome de uma ideia muito bonita – a ideia de liberdade – e que ele não estava disposto a trair o juramento que fizera nas montanhas. Embora alguns marxistas-leninistas tenham tentado se “infiltrar” no poder em meio ao tumulto no país, falou, o povo cubano era demasiado individualista para aceitar tal sistema. “O comunismo é baseado na ignorância e na pobreza”, disse ele. “E a primeira coisa que a revolução tem feito é criar escolas e empregos, construir casas e dar às pessoas a terra de que precisam para aumentar sua renda.” He acknowledged that many of Cuba’s revolutionaries were young and inexperienced, and had made mistakes; but their main political aim remained helping “the little guy.”

Embora chateado por ter perdido a cidadania americana – “A melhor coisa que já me aconteceu foi ter nascido nos Estados Unidos”, comentou uma vez –, Morgan estava contente com sua família e ansioso para ajudar a construir uma nova sociedade cubana. “Sou um cubano agora”, disse ele. “E acredito na revolução.” Ou, como afirmou mais tarde, “estou apostando minha vida no sucesso da revolução”.

Eles vão te pegar!

Morgan não assumiu nenhum cargo no governo de Fidel: “Eu nunca fui um político, sou apenas um soldado.” Mas continuava sendo um aventureiro e, no outono de 1959, iniciou uma nova empreitada nos pântanos cubanos, sob os auspícios do Instituto Nacional de Reforma Agrária. Em troca de um pequeno salário, construiu vários viveiros – incluindo um em Escambray – que forneciam rãs de carne macia e pele valiosa para a produção de carteiras, bolsas e cintos. 

Morgan começou com poucos animais, mas eles se multiplicaram rapidamente, até que ele se viu tomando conta de um reino de mais de meio milhão de rãs. Morgan began with a few frogs, but they quickly multiplied, the tadpoles becoming stout creatures that, with their legs extended, were as long as a foot. The nurseries were soon filled with a mass of croaking creatures devouring, whole, virtually anything they could swallow—bugs, fish, mice, even other frogs—the wild proliferation continuing until Morgan presided over a kingdom of more than half a million frogs. It was like the story of Exodus that he had read as a child: “And the magicians did so with their enchantments, and brought up frogs upon the land of Egypt.”

Morgan costumava trabalhar dezoito horas por dia, cavando uma rede de trincheiras sombreadas para acomodar seu estoque cada vez maior. A imprensa cubana saudou o projeto de Morgan como um “milagre” e, quando um repórter perguntou se ele havia usado diagramas arquitetônicos para projetar as fazendas, ele respondeu: "Plantas, sua bunda. Eu cavei aquelas malditas valas."

Contratou centenas de camponeses para trabalhar nas fazendas, proporcionando o tipo de oportunidade econômica que os rebeldes haviam prometido durante a revolução. Viola June Cobb, uma americana que foi secretária de Fidel, testemunhou em segredo a uma comissão do Senado dizendo que Morgan era “um rapaz de ideais”, que tinha um “tremendo desejo de ser útil” e que, através de suas fazendas, tinha melhorado a vida de cerca de 2 mil camponeses.

Repórteres viajaram aos pântanos para ver o famoso agente duplo. Um artigo da Time o chamou de “improvável criador de sapos”. Mais uma vez ele provava o quanto era versátil. “As coxas de rãs cubanas são as melhores”, dizia. Or “Cuba shipped a million dollars’ worth of frogs’ legs to the U.S. last year. I’m going to double that.”

Em 31 de julho de 1960, Olga deu à luz uma segunda menina, Olguita. Antes de chegar a Cuba, Morgan tinha sido um pai negligente, algo que lhe causava arrependimento. Ele enviou uma carta para Anne, filha de seu segundo casamento, que tinha agora 5 anos:

Quando te vi pela última vez, você era uma garotinha que sentava na janela e gritava: “Papai, papai!” Sei que você sentiu minha falta quando não voltei mais para casa. Sei que olhou pela janela procurando seu pai – isso foi muito tempo atrás, lindinha, talvez você nem se lembre, mas eu me lembro, e vou me lembrar para sempre.

Morgan agora era um paizão para suas meninas e achava que “um homem com família era o homem mais feliz do mundo”. In a debriefing by the C.I.A., a reporter said of Morgan, “He seemed happy and secure.”

Mas, depois de frustrar o complô de Trujillo e ajudar a salvar a revolução, ele foi ficando desconfortável com os rumos da ilha. Morgan previra para o FBI que a influência de radicais como Che e Raúl Castro diminuiria em Cuba, mas Fidel colocou Raúl no comando das Forças Armadas e transformou Guevara em presidente do Banco Central, fazendo pressão por um maior controle do Estado sobre a economia.

Em 19 de outubro, o comandante rebelde Huber Matos renunciou ao governo, em protesto contra a influência crescente dos comunistas. Em uma carta a Fidel Castro, ele escreveu: “Por favor, em nome de nossos camaradas caídos, de nossas mães, de todo o povo, Fidel, não enterre a revolução”. Dois dias depois, foi preso e em seguida condenado a vinte anos de reclusão.

Antes disso, em março, a Casa Branca tinha aprovado um plano ultrassecreto para derrubar o regime de Castro. A operação era estranhamente parecida com a conspiração de Trujillo. Uma brigada de mais de mil exilados cubanos – dessa vez treinados pelos Estados Unidos em uma base na Guatemala – invadiria a ilha por mar, desembarcando em uma praia de Trinidad. Aviões B-26 bombardeariam preventivamente a Força Aérea de Fidel para proteger a brigada que, se necessário, escaparia para as montanhas de Escambray. Seria a operação secreta mais ambiciosa da história dos Estados Unidos.

Naquele verão, durante os preparativos para a invasão, a CIA apertou o botão mágico. Fazendo eco mais uma vez aos métodos de Trujillo, a agência recorreu a membros da máfia – incluindo um comparsa de Meyer Lansky – para assassinar Castro. Foram considerados vários estratagemas bizarros, entre eles detonar a cabeça de Fidel com um charuto explosivo, espetá-lo com uma caneta venenosa e contaminar suas roupas de mergulho com os germes da tuberculose.

Morgan se esforçava para encontrar alguma certeza em meio à confusão de complôs e contracomplôs. Já não era tão próximo de Fidel e não sabia dizer se o líder cubano estava reagindo às provocações de Washington, sendo pressionado pela facção mais radical do governo, ou se estava revelando que, sob a aparência do rebelde, existia apenas outro ditador disposto a agarrar qualquer ideologia que consolidasse seu poder.

Certo dia, membros do Partido Comunista tentaram organizar uma reunião em uma das fazendas de Morgan. Ele os expulsou: “Fidel e Raúl sabem que sou contra os comunistas.”

Um amigo da Segunda Frente recorda: “Eu disse para William: ‘Você tem que ter cuidado, está falando demais.’ Mas William gostava de falar.”


In April, 1960, a reporter observed of Morgan, “Behind the bravado one senses confusion, regret, anxiety over what lies ahead.” A casa de Morgan em Havana tinha sido baleada mais de uma vez – talvez por agentes de Trujillo, talvez por outro inimigo. “Chegaram a matar nosso cachorro”, lembra Olga. Depois disso, Morgan levou a família para um prédio protegido por mais de dez guardas, muitos dos quais moravam com eles. “Parece que a gente nunca pode ficar sozinho”, ele disse a Olga.

Um informante disse à CIA que “cada passo de Morgan era vigiado pelo Exército cubano”. Olga suspeitava que dois dos guarda-costas que moravam com eles fossem espiões do G-2, o serviço de inteligência militar de Fidel. “Eu queria que eles fossem embora”, lembra ela. Morgan tomou precauções, escolheu seu próprio motorista e passou a trabalhar em um Oldsmobile azul equipado com duas metralhadoras e um porta-luvas recheado de granadas.

Ele não tinha a menor vontade de fugir de Cuba. Como diria depois à sua mãe: “Isso seria como trair a mim mesmo, meus amigos e minhas crenças.” Ele continuou por lá, cuidando de seus sapos.

Morgan descobriu certo dia que um de seus companheiros rebeldes, Jesús Carreras, agora um opositor do regime, tinha sido preso pelos militares em Santa Clara. Correu até o quartel e exigiu que os guardas soltassem Carreras. “Eu sou um comandante!”, gritou. Os guardas obedeceram e Morgan levou Carreras embora. Passou a dar ouvidos à advertência de outro colega rebelde: “Cuidado! Eles vão te pegar!” 

Considerou pedir asilo político para sua família, mas confessou a um repórter: “Eu já troquei demais de país.” A outro jornalista disse: “É muito fácil apanhar um cara de meia-idade.”


A inclinação de Cuba rumo ao comunismo continuou se acentuando, e vários dos amigos de Morgan retornaram a Escambray para pegar em armas contra o regime. Conforme o jornalista Michael D. Sallah relatou, Morgan começou a contrabandear armas para as montanhas no outono de 1960. “Toda semana caminhões subiam com elas”, me disse um trabalhador. Once, Morgan was planning to take a shipment to a hideout himself, but Rodríguez said that it was too dangerous. Everyone will recognize you, she said, insisting on transporting the weapons herself. “We had an argument,” she recalls. Rodríguez prevailed, and this time it was Morgan who anxiously waited at home.

Sua oposição ao regime se tornou pública. “Se alguma coisa acontecer comigo, você vai saber que os comunistas realmente tomaram conta”, disse a um repórter. “Não sei quanto tempo ainda vou durar”, afirmou.

Ainda assim, Viola Cobb, a secretária, diz que Morgan não tinha perdido completamente a fé em Fidel: “Ele tinha esperança de que em algum momento Fidel perceberia que os comunistas estavam tomando conta das coisas e reagiria. Nesse momento, William Morgan, Gutiérrez Menoyo e alguns dos outros o ajudariam a resgatar o país.”

No dia 19 de outubro, dois dias depois que o governo Eisenhower retirou de Cuba seu embaixador, Philip Bonsal, antecipando o fim das relações diplomáticas, Morgan foi convocado para uma reunião no Instituto Nacional de Reforma Agrária. Ele levou consigo uma bolsa feita de pele de rã – um presente para a mulher de um dos funcionários.

Olga e Morgan tinham planos para aquela noite, mas eram sete horas e ele não voltava para casa. “Ele sempre foi pontual”, lembra Olga. Cheia de pressentimentos, ela deixou as crianças com a babá e pediu que o motorista do marido a levasse até o Instituto.

No portão, ela gritou para um guarda: “Onde está William?”

“William teve que ir a algum lugar”, ele disse.

“Preciso ver William. Eu tenho que vê-lo.”

“William disse para você vir com a gente.”

Os guardas do Instituto começaram a cercar o carro e ela gritou ao motorista: “Arranque! Vamos!”

Conseguiram fugir, mas os policiais logo bateram à porta de seu apartamento. “Eu sou a mulher do comandante Morgan”, disse ela, tentando intimidá-los. Os homens simplesmente a empurraram e revistaram o apartamento, aterrorizando as meninas de 2 meses e 14 meses de idade.

Olga ficou sabendo o que tinha acontecido com Morgan: ao chegar ao Instituto, foi cercado por agentes do Estado e levado para a sede da G-2. Jesús Carreras também fora capturado. Ela estava certa a respeito dos dois guarda-costas que moravam com eles: eram mesmo espiões.

Olga não conseguiu permissão para ver Morgan, que estava detido. Por quase um mês, o ex-comandante foi mantido numa solitária. Temia que o governo estivesse tentando envenená-lo e ficou seriamente doente ao provocar vômitos para se livrar das toxinas.

Depois de um mês, Morgan foi transferido para La Cabaña, a prisão com vista para o porto de Havana. Por várias vezes encontrou vidro moído em sua comida. Ainda se sentia muito doente e perguntou a um outro prisioneiro se ele não teria algo para “aplacar a dor”. Quando o homem disse que sim, Morgan implorou: “Me dê você mesmo a injeção.” Não confiava nos guardas. O companheiro de cela conseguiu uma seringa com o médico da prisão e injetou o remédio em Morgan.

Em dezembro, Menoyo visitou Morgan em La Cabaña. “Você é meu chefe e meu irmão”, Morgan lhe disse. Menoyo, que havia perdido seus dois irmãos para a guerra, respondeu: “Você é meu irmão.” Eles se abraçaram.

Pouco tempo depois da visita, Menoyo e outros doze membros da Segunda Frente fugiram do país em três pequenos barcos de pesca, rumo aos Estados Unidos.

No dia 31 de dezembro, Olga foi autorizada a ver o marido. Ratos corriam pelos cantos da sala de visitas. Embora não quisesse perturbar Morgan, ela acabou contando que vinha sendo mantida em prisão domiciliar e tinha pouca água e comida. “Ninguém pode nos visitar. Os bebês estão doentes”, disse. Ele pediu para que Olga fugisse – que tirasse as crianças de Cuba antes que fosse tarde demais. “Se puder, vá para Toledo”, disse ele. “Minha mãe vai te ajudar.”

Morgan urged her to flee—to get the children out of Cuba before it was too late. “If you can, go to Toledo,” he said. “My mother will help you.”

He took her hand. “Everything’s going to be O.K.,” he said. But Rodríguez, who rarely betrayed fear, was scared. “I was so worried about him and what would happen to our baby girls,” she recalls. After five minutes, the guards said that her time was up.

“I love you with every part of me,” he said. They stole a kiss before being separated.


Naquela noite, ao voltar para casa, Olga esmagou soníferos em um chocolate quente e ofereceu a bebida aos homens que a vigiavam. Às duas da manhã, quando os guardas pareciam dormir, ela pegou suas filhas. Foi até a embaixada brasileira, onde conseguiu abrigo, e disse ao embaixador e a sua mulher: “Por favor, estou realmente encrencada.”

Morgan também tentava se libertar. Estudou a planta de La Cabaña e a rotina dos guardas à procura de falhas no sistema. “Morgan fez todo tipo de plano de fuga”, disse outro prisioneiro à CIA. "Morgan had all kinds of escape plots," another prisoner later told the C.I.A. Morgan worked to regain his strength. A press attaché at the U.S. Embassy later wrote, “Up at dawn, he would put himself through calisthenics, then march around the compound, shouting commands at himself.” The inmate who had given Morgan painkillers recalled, “He exercised like an athlete and marched like a soldier.” Morgan turned increasingly toward his Catholic faith. He wore a rosary and often prayed.

Hiram González, a twenty-four-year-old revolutionary who had been arrested for conspiring against the regime, had just arrived at La Cabaña, and watched in despair as prisoners were taken out and killed by firing squads, while birds swooped down to “peck at the bits of bone, blood, and flesh.” Morgan, he recalls, tried to cheer him up, offering his mattress. When Morgan found him crying in a corner, he went up to him and said, “Chico, men don’t cry.”

“At times like this, I’m not a man.”

Morgan put his hand on his shoulder. “If it helps your suffering, then it’s O.K.” Morgan walked him around the prison yard until he felt better. “He was the only one to help,” González recalls.

Em 9 de março de 1961, os guardas pegaram Morgan e o escoltaram até uma sala onde estava reunido um tribunal militar. Along the way, Morgan, trying to summon courage, murmured song lyrics to himself: “Over hill, over dale, we have hit the dusty trail / And those caissons go rolling along.”

Outros onze réus esperavam por suas sentenças, incluindo Carreras. Olga foi julgada à revelia. Algumas semanas antes, Che Guevara publicara um ensaio denunciando os membros da Segunda Frente. “Revoluções, mudanças sociais aceleradas e radicais, são feitas de circunstâncias”, escreveu. O erro da Revolução Cubana, argumentava Che, era ter se envolvido com homens como os comandantes da Segunda Frente. “A presença deles mostrou que nosso pecado foi nos comprometermos com traidores reais ou potenciais, com gente covarde e fraca de espírito.” E continuou: “A conduta revolucionária reflete a fé revolucionária, e aquele que se diz revolucionário, mas não age como tal, nada mais é que um herege. Vamos colocá-los no mesmo balaio.”

No julgamento, Morgan e Carreras foram acusados ​​de conspiração e traição. Mais tarde, Fabián Escalante, que serviu por muitos anos como chefe da contrainteligência cubana, detalhou o processo contra Morgan, alegando que ele era um antigo agente da inteligência americana – um “camaleão” que, em 1960, tinha tentado “organizar para a CIA um bando de contrarrevolucionários em Escambray”.

A CIA tentava sem dúvida nenhuma fomentar uma nova insurgência nas montanhas. No entanto, documentos americanos que desde então foram liberados para consulta sugerem que Morgan nunca foi um agente da CIA. Pelo contrário: um memorando da agência datado de 5 de outubro de 1960 – duas semanas antes de sua prisão – faz “veementes objeções” à ideia de usar Morgan. This followed an inquiry by Army intelligence, which had concluded that enlisting Morgan would be “extremely worthwhile.” (The Army had considered sending him a “secret writing system”—most likely, one involving invisible ink.) After Morgan’s arrest, an Army internal memo noted that Morgan had not become a registered operative.

“William nunca foi agente dos Estados Unidos”, diz Menoyo. “Isso não passa de uma mentira do regime de Fidel para justificar suas ações.”


No tribunal, Morgan queixou-se de que seu advogado havia acabado de tomar conhecimento das acusações contra ele. Com Carreras, ele foi considerado “pseudorrevolucionário” e condenado à morte por fuzilamento.

O prisioneiro que deu o analgésico a Morgan contou: “A prisão inteira ficou surpresa com a notícia de que Morgan e Carreras seriam mesmo julgados. Nem o mais fanático dos rebeldes acreditava que Fidel Castro mataria aqueles homens que desempenharam papel tão grande na Cubana.”

Morgan negou ter sido um agente estrangeiro e disse: “Defendi essa revolução porque acreditava nela.” E explicou: “Se eu for considerado culpado, caminharei para o paredão sem escolta, com força moral e a consciência limpa.”

Um jovem no fundo da sala ignorou os avisos das autoridades e falou em nome de Morgan. Era o rebelde que havia quebrado o pé em Escambray. “William jamais me abandonaria”, lembra ele.

O julgamento durou pouco mais de um dia. O destino dos réus costumava ser sinalizado pela cela para onde eram levados pouco antes do veredicto. “Quem ia para a copiea, uma pequena sala à direita que parecia uma capela, já sabia que ia morrer”, contou um prisioneiro. “Quem virava à esquerda e ia para outra sala era porque tinha pegado trinta anos de prisão.”

A maioria dos acusados ​​foi levada para a esquerda. Olga, na época com 24 anos, foi condenada a trinta anos. Morgan, juntamente com Carreras, foi levado para a direita e condenado a morrer no dia seguinte.

Morgan pediu para falar com a mãe pela última vez, mas o pedido foi negado. Ele tinha escrito para ela uma carta de cinco páginas em papéis com o símbolo de La Cabaña. Para Morgan, a mesma causa que lhe salvara a vida iria agora conduzi-lo à morte. “Me preparei para isso desde que vim para a prisão”, escreveu. “No fim das contas, o que importa não é quando um homem morre, mas como se morre.”

Morgan sabia que sua carta passaria pelos censores do governo, por isso criticou Fidel de modo apenas indireto. “Nenhum homem tem o direito de impor sua vontade e suas crenças aos outros”, escreveu. “Tenho pena dos que me acusam e são responsáveis pelo que está prestes a acontecer. Eles estão cheios de ambição na cabeça e medo no coração, sem saber que nada de bom pode surgir do mal.” Morgan estava pronto para dar a vida por Cuba: “O caminho da liberdade é difícil – e a estrada está coberta com o sangue dos que tiveram que morrer para que os direitos dos homens sobrevivessem.” He wanted to protect what he considered sacred about the revolution, and believed that only in time would a proper verdict be rendered on his life: “Humans leave their actions to be judged by other people in the pages of history so it is not what we do but the result of what we do that is finally judged.”

“Escrevo essas coisas”, continuou, “do jeito que elas passam por minha cabeça para que lendo isso você saiba melhor que tipo de homem seu filho é. Criar um garoto como eu não foi nada fácil e a gente nem sempre concordou sobre o que era certo fazer, mas eu sempre tive verdadeira adoração por você e por meu pai.” Ele disse à mãe: “Não chore por mim. Eu sei que você entende que nossas vidas estão nas mãos de Deus e que ele nos chama quando está pronto para nós. Poucos têm a sorte de ter tempo para se preparar para esse encontro. Se essa é a minha hora, então estarei pronto e encararei a morte não com medo, mas com expectativa. Deus te abençoe… Até nosso reencontro, cuide de Olga e das meninas.”

Loretta não poderia aceitar passivamente o destino de seu filho e lançou uma campanha furiosa para salvá-lo. Ela entrou em contato com o FBI e com a Casa Branca, que lhe responderam: “Nós entendemos perfeitamente a sua dor e somos profundamente solidários com sua preocupação pelo destino de seu filho.”

Depois que as autoridades cubanas recusaram seu pedido de falar com a mãe, Morgan perguntou se poderia dizer adeus a Olga. Recebeu outro não. Ele então começou a escrever uma carta para ela, sabendo que a única coisa que poderia separá-los havia chegado. “Não sou um grande escritor de cartas de amor”, disse ele. “Dizer que eu te amo não é suficiente porque palavras nunca poderão expressar o que sinto por você. Desde a primeira vez que te vi nas montanhas até a última vez, quando te vi na prisão, você tem sido meu amor, minha felicidade, minha companheira na vida e em meus pensamentos até a hora em que vou morrer.” He regretted how little time they had spent together, and he recalled the “beautiful plans” that they had made to settle in the “mountains with the girls, living in peace and tranquility.”

Ele tentou consolá-la, assegurando que não estava com medo nem considerava a morte uma “inimiga”. Embora alguns membros da Segunda Frente tivessem prometido retaliações caso ele fosse morto, Morgan disse a Olga que não queria ver ninguém buscando vingança em seu nome, nem mesmo contra os guarda-costas que o traíram. “Eles são jovens e terão de se acertar com suas consciências”, disse. “Eu não quero ver sangue derramado por minha causa. É melhor que eu morra porque defendi vidas. Só peço que algum dia a verdade seja revelada e que minhas filhas possam ter orgulho de seu pai.” Ele disse que sentia “uma imensa paz de espírito” em saber que ao menos ela e as meninas estavam a salvo.

As coisas, porém, estavam bastante tumultuadas. Pouco antes da aplicação da sentença, Olga descobriu que vários de seus aliados planejavam um ataque de última hora a La Cabaña. Numa espécie de delírio, ela disse à mulher do embaixador brasileiro que precisaria se ausentar por alguns dias. “Cuide de minhas filhas até eu voltar.” A mulher do embaixador, de quem ela havia se tornado amiga, pediu que ela não fosse. “Preciso salvar William”, ela respondeu. Levando sua pistola calibre 32, Olga entrou num carro que a esperava e saiu a toda velocidade.

Enquanto isso, Morgan conseguiu permissão para ver as filhas, levadas à prisão por um parente de Olga. Por alguns minutos, ele foi autorizado a conversar com elas, a abraçá-las. Em sua carta, Morgan disse a Olga: “Um dia, conte às meninas quem era o pai delas, quais eram suas crenças e seus ideais.” Ele também escreveu uma carta para Bill, filho de seu segundo casamento que agora tinha 4 anos. Na carta, ele dizia que Bill deveria “amar a Deus e ao seu país e lutar por ambos”, e que ele sabia que isso era a coisa certa a fazer “por experiência própria, na maior parte das vezes traumática”. Em sua carta a Anne, ele disse:

Quando chegar a hora de você casar e ter sua própria família, escolha um cara legal, lindinha, alguém que tenha a cabeça nas nuvens, mas os dois pés no chão. E, se o seu escolhido for do tipo que quer conhecer o mundo – ou que sonha com castelos no ar –, deixe que ele veja o mundo, querida, com seus próprios olhos. Você provavelmente nem sequer vai chegar a ler essa carta, mas, se o fizer, lembre que seu pai era desse tipo de gente que se aventura pelo mundo e que isso costuma ser muito difícil para os que amam esse tipo de homem.

Logo depois de Olga deixar a embaixada do Brasil, as forças de Fidel desmantelaram o plano para libertar Morgan, matando ou prendendo muitos de seus participantes. Olga buscou refúgio em um esconderijo em Santa Clara.

Carreras foi levado ao paredão na noite do dia 11 de março. Cinco minutos depois, Morgan – que tinha feito um apelo para falar diretamente com Fidel Castro – foi trazido para fora da prisão. Ele rezou o tempo inteiro, depois tirou o rosário que trazia no pescoço e entregou para um padre, pedindo que o enviasse para sua mãe. Escreveu para ela: “Deixo o amor de Deus e do meu país.”

Através dos holofotes, Morgan conseguia ver os canos das espingardas. Já não havia mais nenhuma esperança de escapar. Não havia mais castelos no ar.

Segundo o relato de um prisioneiro, uma voz gritou: “Ajoelhe-se e implore por sua vida.”

Foi a última coisa que Morgan pôde controlar. “Eu não me ajoelho para ninguém”, disse ele.

Um dos carrascos atirou em seu joelho direito. O comandante ianque tentou ficar de pé, enquanto o sangue escorria. Em seguida, foi baleado no joelho esquerdo. Finalmente caiu no chão e começou a receber tiros no peito e na cabeça. Seu rosto, disse uma testemunha, “ficou completamente estourado”.

“Muitos dos homens no pátio estavam chorando”, disse o prisioneiro que lhe deu o remédio. “A comoção, que quase virou um motim, foi uma homenagem à popularidade de William Morgan.” Olga, presa em seu esconderijo, ainda não sabia da morte do marido, mas sentiu uma presença no quarto. “Eu vi William”, diz ela. “Eu senti ele me dar um beijo. Nenhum som, só o calor de um beijo.”

Menoyo, que soube da morte do amigo quando estava em um centro de detenção de imigrantes em McAllen, no Texas, contou: “Foi como se tivesse perdido uma parte de mim.”

Quando o advogado de Morgan ligou para Loretta para dar a notícia, ela deixou o telefone cair. A filha de Morgan, Anne, estava na casa da avó: “Lembro de ver minha avó caindo no chão, gritando e chorando. É uma lembrança que nunca vou esquecer.”

After Morgan was killed, Herbert Matthews sent Ernest Hemingway a letter. By then, Matthews, who once claimed that he had “invented” Castro, had seen his reputation collapse as his reporting on Cuba was exposed as gullible and partisan. In his letter, he told Hemingway, “There were even some pickets parading in front of the Times last Saturday bearing placards against me.” Matthews was rattled by Castro’s decision to execute Morgan. He reread the “very moving” statement that Morgan had sent him from the mountains, and told Hemingway, “Here was an obviously uneducated and very simple, tough guy who yet went to Cuba, as he says, to fight for the American principles of freedom and against Communism. He went on doing so for so long that he got himself executed.” Matthews said that he thought Morgan’s saga was “like an Ernest Hemingway story,” adding, “if anybody writes it, it should be you.”

No dia 12 de março, ainda sem saber da morte de Morgan, Olga pegou um carro com um amigo rumo a outro esconderijo, dessa vez em Camagüey. Eles estavam a caminho quando, de repente, o carro foi cercado por policiais e Olga foi levada a um centro penitenciário de triagem em Havana, onde um sargento a saudou como “a viúva de William Morgan”. Foi assim que ela ficou sabendo. Olga pulou em cima do sargento aos socos e, em seguida, correu para a rua e saiu pela cidade com a polícia em seu encalço. Ela continuou correndo sem rumo definido. “Corri por uma hora inteira”, diz ela, até que a polícia a alcançou.

Olga foi levada para La Cabaña e forçada a caminhar ao longo da parede onde Morgan tinha sido executado. Depois, os guardas a levaram à outra prisão, onde ela ficou trancada em uma cela que tinha apenas uma cloaca. Durante a noite, lagartos rastejavam em cima dela. “Os guardas me bateram com paus”, ela lembra. “Deus, como me bateram.”


Um mês depois, o recém-empossado presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, iniciou a invasão a Cuba que tinha sido aprovada por Eisenhower em 1960. Embora o papel dos Estados Unidos fosse evidente, Kennedy queria ter condições para negá-lo; por isso, o desembarque das tropas foi deslocado da cidade de Trinidad para a remota baía dos Porcos – um lugar bem mais discreto, mas que não permitia aos invasores escapar para as montanhas de Escambray. No último momento, Kennedy cancelou uma segunda onda de ataques aéreos, temendo que eles entregassem o envolvimento direto dos Estados Unidos na operação.

A brigada contrarrevolucionária foi bombardeada assim que desembarcou na praia. Pelo rádio, o comandante enviou mensagens de socorro ao governo americano:

“P.M. 12:28: Sem apoio aéreo não vamos suportar. Os tanques não têm munição suficiente.”

Na madrugada daquele mesmo dia, o comandante mandou seu último recado: “Já não tenho com o que lutar… Adeus, amigos!” A brigada foi varrida do mapa: 114 soldados mortos e mais de mil capturados. A C.I.A. operative said that, for the rest of his life, he would have regrets about what happened, but added, “That is the echo of anybody who’s ever tried to do anything in history.”

Logo que a baía dos Porcos começou a ser atacada, Fidel declarou pela primeira vez que Cuba era socialista. Philip Bonsal, o ex-embaixador americano, disse que Fidel “não conseguia suportar qualquer partilha de autoridade. Sua ânsia pelo poder é um elemento muito mais definidor de seu temperamento do que qualquer ideologia revolucionária que ele tente vender por aí”.

Menoyo foi liberado do centro de detenção do Texas. Na Flórida, fundou a Alpha 66, uma organização paramilitar que pretendia derrubar Fidel. No dia 28 de dezembro de 1964, ele e outros três membros do grupo pegaram um barco na República Dominicana e desembarcaram no extremo sudeste de Cuba. Foram capturados depois de 28 dias de fuga pelas montanhas. Quando os guardas removeram a venda de seus olhos, ele viu que estava na frente de Fidel Castro. “Eu sabia que você viria, mas sabia também que eu iria pegá-lo”, disse Fidel. Menoyo foi jogado em uma prisão e esquecido, como tinha acontecido com Olga.

A última batalha

Não faz muito tempo – durante minhas pesquisas sobre Morgan –, fui até Miami me encontrar com Olga, uma mulher elegante na casa dos 70 anos, de cabelos grisalhos e ombros curvados que a fazem parecer menor que seu 1,60 metro. “Ainda tenho o espírito revolucionário”, ela disse.

Depois de ter sido presa, em 1961, ela passou uma década atrás das grades sob a condição de plantada, termo usado para quem se recusava a ter aulas de marxismo-leninismo e a ser “reabilitado” pelo Estado. Seu corpo foi se transformando em um raio X de si mesmo graças às greves de fome que fazia para protestar contra o tratamento dado aos prisioneiros. Ela era frequentemente deixada seminua em uma solitária, tendo que usar jornais para se aquecer. Sob a luz fraca da prisão, ela leu a história bíblica de Jó. Os constantes espancamentos a deixaram meio cega de um olho e com problemas de circulação. Suas filhas foram criadas por seus pais, em Cuba, e ouviam os professores dizerem que ela e o pai eram traidores. Segundo Olga, “as meninas sofreram um trauma enorme”.

One of her daughters once visited her in prison and screamed at her, “You abandoned us!”

Recalling those years, Rodríguez says, “I no longer know how to cry, but I cry inside.”

Loretta, mãe de Morgan, nunca tinha visto Olga pessoalmente, mas fez o que pôde para que a nora fosse libertada, entregando petições a membros do Congresso e pedindo apoio à Igreja Católica. Em 1971, em resposta à crescente pressão internacional, Olga foi liberada mais cedo da prisão. Embora vigiada pela polícia secreta cubana, tentou reconstruir sua família. Oito anos mais tarde, ela e suas filhas – já crescidas e casadas – tentaram ir para os Estados Unidos com parentes. Quando o grupo embarcou no avião, policiais prenderam Olga, forçando-a a ficar, o que a deixou à beira da loucura.

Ela continuou tentando escapar. Em 1980, Fidel iniciou o Êxodo de Mariel, permitindo que muitos cubanos emigrassem para os Estados Unidos, entre eles criminosos e doentes mentais. Olga alegou ser prostituta, mas foi reconhecida e barrada pelas autoridades. Ela passou um mês dormindo em uma barraca perto do porto até que, em agosto, quando o último barco estava prestes a sair, um funcionário lhe disse: “Você pode ir esta noite.” Ela embarcou em um barco caindo aos pedaços, levando apenas um pente e uma escova de dentes.

Quando o barco finalmente se afastou do porto, Olga ouviu um estalo tão alto que parecia um pelotão de fuzilamento. Era um barco da Marinha cubana atirando contra eles. Balas estilhaçaram o casco e o barco começou a afundar lentamente. Foi então que ela ouviu outro som: um helicóptero da guarda costeira americana. Um outro barco foi enviado para resgatá-la com os demais passageiros.

Ao chegar à Flórida, sua mente se encheu de lembranças de quando ela e Morgan estiveram lá, durante a conspiração de Trujillo, duas décadas antes. Na sala de imigração, ela disse a um oficial americano: “Eu sou Olga, a viúva do comandante ianque, William Alexander Morgan. Eu era uma prisioneira política.”

Olga logo foi liberada e partiu para Toledo para ver Loretta. “Ela me abraçou como se estivesse abraçando um pedaço de William”, recorda Olga. Loretta, que nunca viu os outros relacionamentos do filho com bons olhos, lhe disse: “Dá para entender por que meu filho te amou tanto.”

Se a vida com Morgan só tinha espaço para o presente, Olga agora parecia viver presa ao passado. A cada segundo ela era obrigada a rememorar o que tinha vivido. “O passado é o passado, mas é sempre o presente”, é o que ela sempre diz.

Olga soube então que, poucos anos depois da execução de Morgan, o pai dele morrera por complicações de saúde que alguns parentes atribuíram à dor de perder o filho. Também falecera de causas nunca esclarecidas o filho do segundo casamento de Morgan. Já sua filha Anne teve uma adolescência rebelde. “Eu sei que puxei ao meu pai”, disse ela. Anne se casou três vezes – “Sou uma moça aventureira” – e teve dois filhos. Ela guarda a última carta que Morgan lhe enviou. “Ainda choro quando leio isso. É o meu pai.”

Em sua última carta a Olga, Morgan implorava para que ela não deixasse “a vida ficar fria e sem graça. Se encontrar alguém que te ame e te respeite, case com ele. Desde que você esteja feliz, eu também estarei”. Em 1985, Olga de fato se casou com um ferreiro, em Toledo. “Ele é um homem muito bom”, ela me disse. Fez uma pausa, depois acrescentou: “O que tive com William foi…” Lutou para encontrar as palavras em inglês, então escolheu uma frase em espanhol: Un gran amor. A close friend of Rodríguez, Jon Richardson, told me, “She still loves William as if he’s just now coming up the mountain.”

Por mais de duas décadas, honrando um pedido da mãe de William, morta em 1988, Olga travou o que ela chama de “último combate”: restaurar a cidadania americana de William e recuperar seus restos mortais, para que “saíssem do frio” e pudessem descansar no túmulo da família, em Toledo. “Ele não merecia morrer sem um país”, diz Olga.

The U.S. government has reinstated a person’s citizenship only in rare instances, such as that of General Robert E. Lee, and for years Rodríguez’s pleas were rebuffed. Em 2005, ela enviou uma carta ao presidente George W. Bush, dizendo: “Por favor, senhor presidente, que Deus te faça tomar a decisão certa. Eu imploro.” Apesar de seus quase 70 anos, ela ameaçou fazer uma greve de fome em frente à Casa Branca. “I’m ready,” she told the Miami Herald. “I can go a long time without eating. This time, it’s for William.”


Em 2007, recebeu uma carta do Departamento de Estado reconhecendo que a acusação original contra Morgan era insustentável. A carta dizia: “O sr. Morgan nunca deveria ter perdido sua nacionalidade americana.”

Ainda assim, ela me disse que não poderia descansar enquanto Morgan não fosse enterrado nos Estados Unidos. Em 2002, Marcy Kaptur, uma congressista de Ohio, visitou Cuba e recebeu garantias de Fidel de que os restos mortais de Morgan poderiam ser retirados do cemitério Colón, em Havana, onde ele foi enterrado junto com Carreras. Desde então, Olga diz que tem sido impedida de fazer isso. As autoridades cubanas agora afirmam não encontrar os ossos de Morgan. “Estão brincando comigo.”

She has received support for her crusade from the aging, dwindling members of Alpha 66—though Menoyo is now an outcast from the group.  Em 1986, depois de quase 22 anos na prisão, durante os quais foi torturado seguidas vezes, Menoyo foi para o exílio na Espanha e renunciou a qualquer tentativa de derrubar o regime com violência. “Depois de muito tempo submetido à selvageria e à barbárie, você chega à conclusão de que tem que rejeitar esses métodos, tem que ser o primeiro a recusar o ódio, caso contrário ele irá destruí-lo”, afirmou.

Para a surpresa de Olga e de muitos outros amigos, Menoyo retornou a Cuba definitivamente em 2003, em busca de reconciliação. “No dia que eu perder os meus sonhos”, disse ele, “estarei frito.” Embora Olga ainda fale com carinho sobre Menoyo, muitos de seus companheiros rebeldes passaram a considerá-lo um traidor.

Recentemente, Menoyo sofreu um aneurisma. Quando falei com ele ao telefone pela última vez, sua voz estava fraca e ele ficou sem forças depois de poucos minutos de conversa. Ele assistiu a Fidel se agarrar ao poder até 2006, aos 80 anos, quando finalmente cedeu a Presidência a seu irmão, Raúl, que tinha 75. Menoyo afirmou ainda ter esperanças de ver “o fim deste filme”. Mas ele não acreditava que o regime algum dia entregasse os ossos de Morgan. “Ainda outro dia Fidel andava por aí denunciando William, dizendo que ele trabalhava para a CIA”, disse Menoyo. Ele explicou que, para o regime, acatar o pedido de Olga seria como ceder a um traidor da revolução.

Olga, no entanto, tem fé de que no fim das contas vai vencer. Quando eu a conheci em Miami, ela estava vindo de Ohio para uma reunião do Alpha 66, e afirmou: "Não posso desistir. Se for preciso, vou até o cemitério e carrego os ossos eu mesma." Ela acendeu um cigarro, seus dedos manchados tremiam. Por um momento, fechou os olhos como se estivesse segurando as lágrimas. Então disse: "Se eu puder fazer isso por ele, nós dois finalmente teremos paz, e seremos livres."

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