22 de maio de 2014

O desastre italiano

Perry Anderson


Tradução / A Europa está doente. Qual a profundidade da doença e quais as razões da doença são questões que nem sempre são de fácil resposta. Mas entre os diversos sintomas três deles são conspícuos e inter-relacionados. O primeiro e mais familiar, é a degenerativa deriva da democracia em todo o continente europeu, de que a estrutura da UE é ao mesmo tempo a sua causa e a sua consequência. O elenco oligárquico das suas disposições constitucionais, uma vez concebidas como um patamar provisório para uma soberania popular de escala supranacional a alcançar tem-se, ao longo do tempo, firmemente endurecido. Os referendos não são regularmente autorizados, se eles se cruzam contra a vontade dos governantes. Os eleitores cujas opiniões são desprezadas pelas elites que evitam as assembleias nacionais que nominalmente representam, levam a que os dirigentes em exercício caiam a cada eleição que se faça. Os burocratas que nunca foram eleitos policiam os orçamentos dos parlamentos nacionais sem que mesmo se tenha dado nenhuma transferência de poderes. Mas a União não é uma excrescência dos Estados-Membros o que, de outra maneira, até poderia ser saudável. Isso reflete, tanto quanto se aprofunda, as tendências de longo prazo que a mesma contém. A nível nacional, praticamente em todos os lugares, os executivos procuram domesticar ou manipular as legislaturas cada vez com mais facilidade; os partidos perdem sucessivamente militantes; os eleitores perdem a crença de que eles contam para alguma coisa, da mesma forma que as opções políticas se reduzem cada vez mais e as promessas de diferenças diminuem ou desaparecem nas assembleias legislativas ou nos gabinetes ministeriais.

Com esta generalizada regressão social e política veio uma corrupção generalizada da classe política, um tópico em que a ciência política, suficiente faladora sobre o que na linguagem da ética se chama défice democrático da União, fica normalmente silenciosa. Para estas formas de corrupção... ainda tem que se encontrar uma sistemática taxonomia. Há uma corrupção pré-eleitoral: o financiamento de pessoas ou de partidos a partir de fontes ilegais – ou legais – contra a promessa, expressa ou tácita, de favores futuros. Há uma corrupção pós-eleitoral: o uso do poder para obter dinheiro por desvio de rendimentos, ou luvas sobre contratos. Há também a compra de pessoas ou de votos nas assembleias. Há o simples roubo do erário público. Há a manipulação sobre credenciais para ganhos políticos. Há enriquecimento por abuso de cargos políticos, mesmo após a saída do cargo , bem como durante ou antes de o ocupar. O panorama desta corrupção a é impressionante. Para se apresentar um fresco do que se acaba de afirmar poderíamos começar com Helmut Kohl, líder da Alemanha durante dezasseis anos, que acumulou na altura qualquer coisa como 2 milhões de Marcos em fundos secretos vindos de dadores ilegais cujos nomes, uma vez que o tema foi conhecido, Kohl se recusou a revelar por medo que as benesses que tinha recebido viessem à luz do dia.. Do outro lado do Reno, Jacques Chirac, presidente da República francesa, cargo ocupado durante doze anos, foi condenado por desvio de fundos públicos, abuso de poder e conflitos de interesses, uma vez que a sua imunidade chegou ao fim. Também não sofreu qualquer penalização. Estes foram os dois políticos mais poderosos de seu tempo na Europa. Um olhar sobre a cena desde então é suficiente para dissipar qualquer ilusão de que eles eram, como corruptos, eram uma excepção.

Na Alemanha, o governo de Gerhard garantiu um empréstimo de bilhões de euros à Gazprom para a construção de um gasoduto no Báltico, a poucas semanas de abandonar o seu cargo de Chanceler e aparecendo depois na folha de pagamento da Gazprom com um salário maior do que aquele que recebia quando governava o país. Desde a saída de Schroeder, Angela Merkel já viu dois presidentes da República em demissão forçada, renunciando ao cargo, sob o seu reinado: Horst Köhler, um antigo Diretor-geral do FMI, saiu por ter explicado que o contingente da Bundeswehr no Afeganistão estava lá para proteger os interesses comerciais alemães; e Christian Wulff, da democracia-cristã e antigo chefe na Baixa Saxônia, saiu por causa de um empréstimo questionável para a sua casa que lhe foi concedido por um homem de negócios seu amigo. Dois dos ministros principais, um da Defesa, o outro da Educação, tiveram que abandonar o governo quando lhes foram retirados os seus graus de doutoramento – uma credencial importante para uma carreira política na República Federal – por plágio intelectual. Quando o último, Annette Schavan, uma íntima de Merkel (que expressou nela plena confiança), tentou , ainda, agarrar-se ao poder, o Bild-Zeitun sublinhou que ter como seu ministro da educação alguém que falsificou a sua pesquisa é equivalente a ter como ter como ministro das finanças alguém com uma conta secreta na Suíça.

Se mais cedo fosse dito, mais cedo seria visto! Em França, o ministro socialista para o orçamento, o cirurgião plástico Jérôme Cahuzac, cujo processo era o de confirmar a sua honestidade em termos de impostos e em termos de capitais próprios, descobriu-se ter algures entre € 600.000 e € 15 milhões em depósitos ocultos na Suíça e em Singapura. Enquanto isso, Nicolas Sarkozy, é acusado por convergentes testemunhas de receber uns US $ 20 milhões de Kaddafi para a sua campanha eleitoral, a que o levou à Presidência. Christine Lagarde, que foi, sob a presidência Sarkozy, a responsável pela pasta das Finanças e que agora dirige o FMI, está sob interrogatório pelo seu papel no prémio de € 420 milhões em ‘compensação’ para Bernard Tapie, um bem conhecido bandido com um registo de prisão, ultimamente um amigo de Sarkozy. A situação de desagradável proximidade face ao crime é pois bi-partidária. François Hollande, actual presidente da República, escondeu-se , para encontros com a sua amante no apartamento de uma “amiga” de um gangster Corso, morto durante um tiroteio na ilha no ano passado. Na Grã-Bretanha, e quase que ao mesmo tempo, o ex-primeiro ministro Blair foi conselheiro de Rebekah Brooks, que corre risco de prisão por cinco acusações de conspiração criminosa (‘Keep strong and definitely sleeping pills. It will pass. Tough up’) e instando-a a ‘publicar um relatório ao estilo de Hutton’, como ele próprio tinha feito para limpar qualquer ideia de responsabilidade da sua administração na morte de um forte crítico da guerra no Iraque: uma invasão da qual se quis depois limpar – naturalmente, para a sua Faith Foundation – com um conjunto de astúcias e negócios à volta do mundo e nestes é de sublinhar o dinheiro pago por uma companhia petrolífera da Coreia do Sul, dirigida por um criminoso já condenado e com interesses no Iraque e na dinastia feudal do Kweith.

Que recompensa ele poderá ter ganho ainda mais a leste pelos profusos conselhos à ditadura Nasarbajev está ainda por se saber (‘Kazakhstan’s achievements are wonderful. However, Mr President, you outlined new heights in your message to the nation.’ Ad litteram). Em casa, por uma troca de favores, sobre o que ele mentiu sem escrúpulos no Parlamento, as suas mãos foram untadas com £ 1 milhão para os cofres do partido, vindos do dono da F1, o magnata Bernie Ecclestone, actualmente sob acusação na Baviera por subornos no montante de € 33 milhões. Na cultura do New Labour, as figuras proeminentes no círculo de Blair, ministros de um dia – Byers, Hoon, Hewitt – podem eles próprios estar disponíveis para venda no próximo governo. Nestes mesmos anos, com ambos os partidos indiscriminadamente, a Câmara dos Comuns foi exposta como sendo um antro em que se verificaram muitos desvios de dinheiro dos contribuintes.

Na Irlanda, enquanto isso, o líder do Fianna Fáil, Bertie Ahern, tendo canalizado mais de 400.000 € em inexplicáveis pagamentos antes de se tornar o chefe do governo, taioseach, votou para ele próprio o salário mais alto de qualquer primeiro- ministro na Europa – €310.000, mesmo mais que o Presidente dos Estados Unidos – um ano antes de ter que abandonar o cargo por descrédito por toda esta sua desonestidade. Em Espanha, o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, dirigindo um governo de direita, foi apanhado em flagrante no recebimento de luvas da construção e de outros negócios totalizando 250 mil euros em mais de uma década, que lhe foram passados por Luis Bárcenas. Tesoureiro do seu partido desde há vinte anos, Bárcenas está agora preso por acumular um tesouro de € 48 milhões em contas não declaradas na Suíça. Os livros de contabilidade manuscritos, detalhavam as suas transferências a Rajoy e a outros notáveis do Partido Popular – incluindo Rodrigo Rato, outro antigo-director geral do FMI – tem apresentado em fac-símile abundantes dados na imprensa espanhola. Uma vez que o escândalo se tornou conhecido, Rajoy mandou a Bárcenas uma mensagem em termos praticamente idênticos aos da que Blair enviou a Brooks: “Luis, eu entendo. Mantenha-se firme. Eu telefono-te amanhã. Um abraço.” Com uma insolente audácia face a este escândalo em que 85 por cento do público espanhol acredita que ele está a mentir, Rajoy está firmemente sentado no Palácio da Moncloa.

Na Grécia, Akis Tsochatzopoulos, sucessivamente ministro do interior, da defesa e de desenvolvimento nos governos do Pasok, um delfim talhado para líder da social-democracia grega teve menos sorte: condenado no outono passado a vinte anos de prisão por uma carreira formidável de extorsões e de lavagem de dinheiro. Nas mesmas águas, Tayyip Erdoğan, desde há muito tempo aclamado pelos media da Europa pelo establishment intelectual como o maior estadista democrático da Turquia, cuja conduta terá virtualmente obtido o direito do país passar a ser considerado membro honorário da UE ante diem, tem mostrado que, na verdade, é digno de inclusão nas fileiras da União Europeia de uma outra forma: numa conversa gravada, instruía o seu filho a esconder dezenas de milhões em dinheiro, um outro levantamento como preço de um suborno feito à volta de um contrato de construção. Três ministros caíram após divulgações similares, antes de Erdoğan ter tempo de limpar a força policial e judiciária para poder estar seguro de que as coisas não iam mais longe. Depois de ter feito isso, a Comissão Europeia publicou o seu primeiro relatório oficial sobre a corrupção no seio da União, cuja dimensão o Comissário seu autor descreve como sendo a corrupção de tal dimensão que nos deixa estupefactos : numa estimativa baixa, custa à UE tanto quanto o todo o orçamento da União, alguns € 120 mil milhões por ano – na verdade sendo “provavelmente muito maior”. Prudentemente, o relatório cobriu somente os Estados-Membros. A própria UE, toda a Comissão de memória recente a ficar assim protegida na opacidade, foi excluída.

Um lugar comum numa União que se apresenta como um tutor moral para o mundo, a poluição do poder pelo dinheiro e pela fraude decorre do branqueamento da substância ou do envolvimento em democracia. As elites libertadas verdadeiramente da divisão acima, ou da significativa responsabilidade abaixo, pode enriquecer-se ela própria sem nenhuma distracção ou retribuição. A exposição pública deixa de importar muito, tanto quanto a impunidade se torna a regra. Tal como os banqueiros, os líderes políticos não vão parar à prisão. Da fauna acima, somente um idoso grego sofreu essa indignidade. Mas a corrupção não é apenas uma função do declínio da ordem política. É também, naturalmente, um sintoma do regime económico que tomou conta desta Europa desde a década de 1980. Num universo neoliberal, onde os mercados são o indicador do valor, o dinheiro torna-se, mais directamente do que nunca, a medida de todas as coisas. Se os hospitais, as escolas e as prisões podem ser privatizadas como empresas com fins lucrativos, porque não também os cargos políticos?

Para lá da precipitação cultural do neoliberalismo, contudo, encontra-se o seu impacto como um sistema socioeconómico – o terceiro e, na experiência popular, é a muito mais aguda de todas as maleitas que afligem a Europa. Que a crise económica desencadeada em todo o Ocidente em 2008 foi o resultado de décadas de desregulamentação financeira e da expansão do crédito, até mesmo os seus arquitectos o estão agora mais ou menos a admitir – ver Alan Greenspan. Interligados, através do Atlântico, os bancos europeus e as operações imobiliárias estavam tão profundamente envolvidas no descalabro como as suas contrapartes americanas. Na UE, no entanto, esta crise geral foi sobre determinada por uma outra característica, esta peculiar à União, as distorções criadas por uma moeda única imposta amplamente a diferentes economias nacionais, levando a que os países mais vulneráveis ficassem à beira da falência, uma vez que a crise global atingiu o seu máximo.

O remédio para isso? Por insistência de Berlim e de Bruxelas, não exactamente um regime clássico de estabilização do tipo Churchill-Brüning de entre as duas guerras, cortando nas despesas públicas, mas um pacto fiscal, definindo um limite uniforme de 3 por cento para todo e qualquer défice como uma disposição constitucional, efectivamente como a consagrar uma fixação dos olhos sobre uma parede como um princípio económico básico do Rechtsstaat, em pé de igualdade com a liberdade de expressão, igualdade perante a lei, habeas corpus, divisão de poderes e o resto. Não se fosse a sua participação em comportamentos sobre a tortura ontem, seria difícil encontrar um exemplo mais agudo sobre a consideração com que estes princípios são mantidos pelas oligarquias da UE hoje.

Economicamente, os ganhos resultantes da integração foram, desde o início, sobreavaliados e assim foram propagandeados. Na Primavera de 2008, a estimativa mais cuidadosa, feita por Andrea Boltho e Barry Eichengreen, dois economistas distintos e claramente defensores da perspectiva pró- União Europeia , concluíam que o mercado comum pode ter levado ao aumento do crescimento em 3 a 4% do PIB da CEE ao longo do período que vai desde meados da década de 1950 a meados da década de 1970, enquanto o Acto único europeu será responsável por apenas 1% de crescimento, enquanto o impacto positivo da União Monetária tinha até à data sido insignificante – tendo-se dado origem globalmente a um total no crescimento de apenas 5 por cento do PIB em mais de metade de um século. Isto antes do início da crise. Qual é o balanço desde então? Até ao final de 2013, cinco anos após o aparecimento da crise, o PIB da zona euro ainda não terá recuperado ao nível de 2007. Quase um quarto da sua juventude está desempregada. Na Espanha e na Grécia, os dados são uma verdadeira catástrofe: 57 e 58 por cento, respectivamente, estão no desemprego. Mesmo na Alemanha, que acumula excedentes comerciais, ano após ano e amplamente aplaudidos como sendo o resultado de uma história de sucesso da época, o investimento tem estado entre o mínimo nas economias do G7 e a proporção de trabalhadores de baixos salários (aqueles que ganham menos de dois terços do rendimento mediano) é a proporção mais alta de entre todos os países de qualquer Estado na Europa Ocidental. Estes são as leituras mais recentes sobre a União Monetária. Os charlatães da austeridade têm estado a sangrar o paciente, não a restituírem-lhe a saúde.

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Neste cenário, um país é amplamente visto como o caso mais agudo de todos os casos de disfuncionamento na Europa. Desde a introdução da moeda única, a Itália apresentou o pior recorde económico de qualquer Estado-membro da União: vinte anos praticamente ininterruptos de estagnação com uma taxa de crescimento bem abaixo da verificada na Grécia ou em Espanha. A sua dívida pública é hoje de mais de 130 por cento do PIB. Ainda por cima não é um pequeno país nem sequer um país médio no conjunto dos países desde há pouco tempo considerados dserem a periferia da União. É um país membro fundador dos seis, com uma população comparável à da Grã-Bretanha e uma economia tão grande novamente como a de Espanha. Depois da Alemanha, a sua indústria transformadora é a segunda maior na Europa, onde é igualmente posicionada quanto á exportação de bens de capital. As suas emissões de dívida pública via Tesouro representam o terceiro maior mercado de títulos soberano no mundo. Quase metade da sua dívida pública é vendida no exterior: os dados similares do Japão estão abaixo dos 10 por cento. Combinando importância e fragilidade, a Itália é verdadeiramente o elo mais fraco na UE, um elo que teoricamente poderá quebrar.

Assim , é agora também , não por mero acaso, o único país onde a desilusão com o esvaziamento das formas democráticas, não gerou uma adormecida indiferença mas antes uma revolta activa que abalou as suas estruturas políticas desde a sua base ao topo do poder, transformando a paisagem política. Os movimentos de protesto de um ou outro tipo surgiram noutros Estados da União, mas até agora nenhum deles se aproxima à novidade ou ao sucesso do Movimento 5 Estrelas na Itália como uma rebelião travada nas urnas. Assim também, por sua vez, a Itália oferece o espectáculo mais familiar de todos os teatros sobre a corrupção do continente e a sua mais celebrada materialização é o multimilionário que tem governado o país durante quase metade da vida da Segunda República, sobre quem mais palavras tem sido escritas do que sobre todos os seus concorrentes em conjunto. As reflexões sobre a situação que a Itália atingiu começam inevitavelmente por falar de Silvio Berlusconi. Que ele se distingue e destaca bem entre todos os seus pares no que respeita às relações entre o dinheiro e o poder é inquestionável. Mas a forma como o tem feito pode ser obscurecida pelo empenho da imprensa estrangeira em criticá-lo, com estrondosas denúncias feitas sobretudo pela revista The Economist e pelo Financial Times.

Duas coisas fizeram de Berlusconi um caso à parte. A primeira é que ele inverteu o caminho típico a partir do poder , tendo lucrado e acumulado uma fortuna antes de alcançar o poder. Berlusconi serviu-se então não tanto para aumentar a sua fortuna mas sim para a proteger e para se proteger a si-mesmo das acusações penais múltiplas sobre os meios de que se serviu para a adquirir.

A segunda é que a principal, embora longe de ser única, fonte da sua riqueza é uma televisão e um Império publicitário que lhe possibilitou um aparato de poder independente do poder governamental e que, uma vez que ele entrou na arena eleitoral, pode ser convertido numa verdadeira e poderosa máquina de propaganda e um instrumento do governo. As ligações políticas – laços com o Partido Socialista, em Milão e com o seu chefe Craxi – foram cruciais para a sua ascensão económica e em particular para a construção de uma rede nacional para os seus canais de televisão. Mas enquanto ele desenvolveu consideráveis meandros do poder, essencialmente, ao nível da comunicação e da sua própria capacidade de manobra, como político, a visão que dele queria dar era primeiro e sobretudo a de um empresário, para quem poder significava segurança e glamour, mais do que uma acção governamental ou um projecto. Embora ele tenha expressado a sua admiração por Thatcher e assumindo-se como um campeão do mercado e da liberdade económica, o imobilismo das suas coligações de centro-direita nunca diferiram grandemente das coligações de centro-esquerda do mesmo período.

Esta é a principal queixa que contra ele e na opinião neoliberal dos anglo-saxónicos pode ser vista a partir do seu tratamento que esta imprensa faz dos dois emblemas simétricos da corrupção, a dos chefes de Estado a ocidente e a dos chefes de Estado a leste da Itália. Durante anos, Erdoğan – um amigo próximo de Berlusconi – tem sido o destinatário de bajuladoras entrevistas, de perfis e de relatórios publicados peloFinancial Times e noutros media, apresentando-o como o arquitecto clarividente de uma nova democracia turca e como sendo igualmente uma ponte vital entre a Europa e Ásia, a ser bem vindo e com a rapidez possível à União Europeia. Ao contrário de Berlusconi, no entanto, cuja regra é anódina em matéria de liberdades civis, Erdoğan foi e é uma ameaça a estas liberdades. Ainda com um boom a descolar na Turquia cheio de privatizações, há a assinalar a prisão dos jornalistas, a morte de manifestantes, a truncagem de processos jurídicos, a intimidação brutal da oposição – para não falar de peculato e por grosso – o seu regime conta por pouco. Mesmo quando a extensão de sua selvageria e corrupção já não pode ser ignorada, os detalhes dos escândalos em que se envolveu foram mantidos geralmente a um mínimo e a culpa é rapidamente deslocada para a UE por ter falhado em estender-lhe uma mão redentora e com suficiente rapidez . Depois das gravações de Erdoğan, the Frankfurter Allgemeine observou que, em qualquer democracia e qualquer que ela seja, desde que que funcione normalmente, haveria provas suficientes dez vezes mais que o suficiente para obrigar o governo e Eerdogan a cairem. Nem um sussurro sequer disto é alguma vez referido no Financial Times. Muito do mesmo tipo de comentário poderia ser feita sobre Rajoy e seus parceiros em Espanha, onde a arma do crime é mais evidente do que no labirinto das vigarices de Berlusconi. Mas Rajoy, ao contrário de Berlusconi, é um confiável servidor do regime neoliberal: nenhuma suplemento especial em The Economist para vender ao grande público as suas ideias neoliberais a este respeito, tendo o cuidado de dizer o mínimo possível sobre Rajoy, tal como o fazem Bruxelas e Berlim. Os líderes europeus e os seus altos funcionários têm estado extraordinariamente silenciosos sobre o escândalo, dado a importância da Espanha para a zona euro, comenta Gavin Hewitt, editor de Europa da BBC. « A Chanceler alemã Angela Merkel e outros tem colocado muita fé no primeiro-ministro Rajoy, que é considerado como um seguro par de mãos para aplicar as reformas dolorosas que visam revitalizar a economia da Espanha.» Berlusconi pagaria pela falta de uma tal confiança.

Na hora do triunfo de Berlusconi na Primavera de 2008, quando ele venceu a sua terceira e mais decisiva vitória eleitoral, as opiniões muito pobres que a seu respeito circulavam no exterior eram-lhe pouco importantes. A coligação de centro-direita que tinha organizado e reorganizada desde 1994 – agora composta pelo Povo da Liberdade- uma fusão do seu anterior partido com o de seu aliado de longa data, o antiga fascista, Gianfranco Fini, mais a Liga do Norte de Umberto Bossi, que manteve separada a sua base e a sua identidade – obteve uma maioria absoluta nas duas Câmaras no Parlamento. Nos seus primeiros meses de governo foi dado um passo ao longo das linhas de trabalho de Thatcher/Blair, a primeira fase de um conjunto de mudanças, começando com as escolas primárias e terminando nas universidades, em que cortou nas despesas do sistema de ensino em cerca de 8 mil milhões, em nome dos interesses da economia e da concorrência: reduzindo o número de professores, imposição de contratos a curto prazo, impondo a formação de novas administrações empresariais, quantificando e medindo as avaliações na investigação. Mas isso foi a extensão do zelo reformista do governo. O máximo na sua agenda política constituía a legislação ad personam para proteger o próprio Berlusconi das acusações de comportamentos passiveis de serem tomados como crimes em processos pendentes contra ele – muitos tinham sido anulados pelos estatutos da imunidade, outros pela sua própria descriminalização devido a legislação por ele publicada. Em 2003, o seu governo aprovou uma lei em que concedia imunidade face à lei a cinco gabinetes ministeriais; rejeitada esta lei, Berlusconi voltou ao ataque com uma lei apresentada pelo seu braço direito no Ministério da Justiça, o advogado siciliano Angelino Alfano, suspendendo os processos levantados a quatro dos ministros anteriores.

Alguns meses mais tarde, a tempestade financeira vinda de além-Atlântico atingiu a Europa, primeiro na Irlanda, em seguida, na Grécia. Na Itália, a segunda República tinha sido desde o início um insucesso económico, apesar dos primeiros e melhores esforços de centro-esquerda nesse mesmo insucesso – (Giuliano Amato tinha cortado na despesa pública e privatizado, Romano Prodi ajudou o país a entrar para dentro da camisa de forças que é o Pacto de Estabilidade). As taxas de crescimento italiano afundaram-se ao longo dos anos 1990. Depois de 2000, estagnou-se e ficou-se com um crescimento, em média, de 0,25 por cento do PIB ao ano. No espaço de um ano após a reeleição de Berlusconi, em 2008, começaram a aumentar os spreads entre os títulos da dívida pública italiana e alemã . Em 2009 a recessão foi mais profunda do que em qualquer outro país da zona euro, com o PIB a cair mais de cinco pontos percentuais. Para manter os mercados financeiros calmos, foram aplicados sucessivos pacotes de emergência com reduções nos défices orçamentais mas com as taxas de juros a subirem e estamos a falar da terceira maior dívida pública do mundo, pelo que no final de 2010 o governo estava a chegar ao limite da sua capacidade económica.

Politicamente, tinha-se saído um pouco melhor. De Março a Outubro de 2009, as grandes notícias dos medias foram dominadas por revelações sensacionais à volta das extravagâncias sexuais de Berlusconi, dando assim uma enorme vivacidade à profética descrição da regra de Giovanni Sartori– tomando de empréstimo um termo de Weber – como um sultanate222. Sempre dado a gabar-se das suas proezas na cama, com arrogância agora disposto a desafiar também a sua idade, deixou de ter a elementar prudência, misturando nas suas orgias donzelas e raparigas menores, a ponto de provocar uma ruptura pública com a sua esposa, Veronica Lario. Logo a seguir passou a receber prostitutas na sua residência romana. Desapontada por não conseguir uma licença de construção prometida em Bari, uma delas relatou as suas visitas. Na sua mansão palaciana em Arcore, fora de Milão, as orgias foram encenadas ao estilo agora actualizado das fantasias do século XVIII, com as mulheres vestidas como freiras – agora também como enfermeiras e como policias – a cabriolarem e a despirem-se para a posse colectiva. Quando uma das participantes, uma jovem marroquina, posteriormente foi presa por roubo em Milão, Berlusconi interveio para assegurar a sua libertação como sendo uma sobrinha de Mubarak. Uma vez que ela ainda não tinha 18 anos, seguiram-se processos judiciais contra Berlusconi. Embora não tão prejudicial como o foi o desastre que a seguir apanhou Dominique Strauss-Kahn, Presidente do FMI e candidato favorito para o cargo de Presidente da República francesa, Berlusconi foi claramente enfraquecido pela degradação da sua imagem. Mas, entretanto, politicamente sobreviveu.

Uma ameaça mais séria à sua posição veio de uma outra direcção. Dado o seu excesso de confiança, que surgiu na sequência do seu sucesso eleitoral, Berlusconi perdeu o sentido dos seus limites políticos, humilhando gratuitamente Fini, que anteriormente Berlusconi tinha ele-mesmo pensado para ser o seu sucessor e que era agora porta-voz no Parlamento. No Verão de 2010, percebendo que ele já não podia esperar ser o herdeiro natural do centro-direita e não resistindo à bajulação de oposição que ele poderia até provar ser o melhor líder de um responsável centro-esquerda, Fini tinha pois desertado da sua ligação a Berlusconi. Levando com ele suficientes deputados e privando então o governo de estar assente numa maioria estável, por pouco não conseguiu derrubá-lo no Outono. Na primavera de 2011, os eleitores também foram abandonando o governo, Berlusconi perdeu o controle até numa fortaleza sua como o era o caso de Milão.

Durante o Verão, como a crise da zona euro se intensificou, com a Grécia a aproximar-se da situação de incumprimento, aumentou a pressão feita pelos mercados obrigacionistas sobre a Itália. A Alemanha, ladeada pela França e pelo Banco Central Europeu, fez então pouco segredo da sua determinação em querer quebrar toda e qualquer resistência às medidas de austeridade draconianas e em eliminar dirigentes que hesitassem em as aplicar, em Atenas ou Roma. Em Agosto, Trichet e Draghi – presidente a sair, presidente a entrar, respectivamente, do BCE – enviaram um virtual ultimato a Berlusconi. Dois meses mais tarde, Papandreou foi forçado numa cimeira da UE a aceitar mais cortes selvagens nos gastos públicos e a prometer desencadear um forte processo de privatizações. Entrando em pânico na maré da ira popular contra tudo isto – o Presidente da Grécia foi conduzido de carro aberto – em Salónica no Dia Nacional – este anunciou um referendo sobre as medidas e foi imediatamente convocado para Cannes por Merkel e Sarkozy que lhe terão dito para cancelar uma tal coisa. Uma semana depois, ele abandona o governo. No prazo de três dias, Berlusconi seguiu o mesmo caminho.

A dinâmica da queda de Berlusconi, no entanto, não era a mesma. Na Grécia, Papandreou estava a presidir a um governo que às ordens de Berlim, Paris e Frankfurt estava a conduzir o país para uma situação de empobrecimento generalizado e com isso tinha gerado um enorme protesto social. Até a sua ideia súbita de um referendo, ele tinha sido um instrumento perfeitamente aceitável e cumpridor da vontade da União Europeia – uma disposição que a velocidade com a qual se submeteu depois a Merkel e Sarkozy ao retirar a sua proposta prontamente confirma. Papandreu demitiu-se porque a sua posição se tornou internamente insustentável. Na Itália, não havia uma tal mobilização popular nem um processo de pauperização em curso. A maioria de Berlusconi na Câmara estava agora no fio da navalha e alguns dos seus deputados temiam fortemente o disparar dos spreads entre a dívida pública italiana e a alemã. Mas Berlusconi manteve o controle total do Senado e ainda tinha que ser vencido nos tribunais. A sua posição interna era substancialmente mais forte do que a de Papandreou. Na União Europeia em geral, no entanto, a hostilidade para com ele era muito maior, como um embaraço desde longa data para a classe política; e a determinação de Berlim e Frankfurt para se livrar dele, como um obstáculo para a purga necessária na ordem económica e social italiana, tornou-se cada vez mais implacável.

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No entanto, para a sua destituição, foi necessário um mecanismo que ligasse a erosão da sua posição interna, ainda não totalmente realizada, com a aversão absoluta para com ele vinda do exterior. Para seu azar, estava tudo preparado e pronto para se actuar contra ele. Menos notada do que outras mudanças forjadas pela segunda República, tinha havido um aumento constante no papel da Presidência nos assuntos políticos da Itália. Sob o reinado da democracia cristã na primeira República, quando um partido dominou sempre o poder legislativo, este enorme e aparatoso cerimonial raramente tinha sido muito importante. Mas uma coligação política rival lutou pelo poder na Segunda República, um novo espaço de manobra se abriu pela Presidência. Scalfaro – o incumbente do Quirinale de 1992 a 1999 – tinha sido o primeiro a fazer uso disto, recusando qualquer dissolução do Parlamento quando Berlusconi perdeu a sua primeira maioria em 1994, em vez disso, facilitando uma coligação de centro-esquerda no poder, uma verdadeira manta de retalhos , para dar tempo a que Berlusconi reunisse as suas forças para uma vitória nas urnas sob Prodi no ano seguinte.

Agora o presidente era, como Scalfaro, um antigo ministro do Interior, Giorgio Napolitano. Berlusconi tinha apoiado a eleição de Napolitano para o cargo em 2006 e tinha razão para pensar que tinha feito uma escolha sensata em ajudar este veterano da classe política tradicional para o Quirinale. Como Vicar of Bray, Napolitano ao longo da sua longa carreira exibiu um princípio fixo, adesão a qualquer tendência política que lhe pareça ser a vencedora no momento. A ideia de uma longa ordem vem-lhe deste longa data, desde os seus tempos de estudante, quando ele se juntou ao Gruppo Universitario Fascista, na altura em que a Itália foi enviando tropas para se juntarem às forças Nazis para atacar a Russia.3 Uma vez o fascismo caído, o jovem Napolitano optou por se ligar às forças do comunismo. Juntando-se ao PCI em 1945, subiu rapidamente através das suas fileiras, atingindo o Comité Central em pouco mais de uma década. Quando os tanques e as tropas russas esmagaram a revolta húngara de 1956, aplaudiu esta situação. “A intervenção soviética deu um contributo decisivo, não só para impedir a Hungria de cair no caos e na contra-revolução e defendendo os interesses militares e estratégicos da URSS, mas para salvar a paz do mundo” disse Napolitano no Congresso do partido em Novembro. Saudando a expulsão de Solzhenitsyn da Rússia em 1964, declarou: ‘Somente os comentadores facciosos e tolos podem evocar o espectro do estalinismo, passando por cima da maneira como Solzhenitsyn empurrou a questão para um ponto de ruptura.” Por esta altura, ele era o braço direito de Giorgio Amendola, após a morte de Togliatti e este último foi, na verdade, a figura mais importante no PCI. Tal como o seu patrono, Amendola, ele era um firme disciplinador das dissidências internas, votou sem hesitação para a erradicação do partido do grupo Manifesto por falar de modo discordante da tese oficial contra a invasão da Checoslováquia. Com as fendas existentes na unidade do secretariado e na direcção do Partido, Amendola era largamente olhado como o próximo secretário-geral do PCI.

Na nomeação, o cargo foi para Enrico Berlinguer, uma figura com mais apoios e menos geradora de divisões. Mas Napolitano permaneceu um ornamento do Partido enquanto que este se deslocava para o eurocomunismo. Na década de 1970, Napolitano foi escolhido como primeiro representante do PCI para tranquilizar os Estados Unidos quanto à confiança nas suas posições atlantistas, e, nesta altura, tornava-se “ o comunista favorito de Kissinger “, nas palavras de satisfação do New York Times. Na década de 1980, a transferência de total fidelidade para um novo suserano estava completamente alcançada.

Com o Terceiro Reich de má memória, com a União Soviética em declínio, os EUA era agora o novo poder a cultivar. Responsável pelas relações internacionais do PCI, Napolitano tomaria o cuidado de olear as relações com Washington, mesmo muito tempo depois de o Partido ter desaparecido. Uma vez Presidente, ele foi ao encontro de Bush e Obama igualmente a afirmar a sua disposição em apoiar a política americana.

Internamente, o fracasso da oferta do PCI para se alcançar um “compromisso histórico” com a Democracia cristã que lhes teria dado entrada no governo e, em vez disso, a ascensão – no meio de uma corrupção cada vez mais evidente – do Partido Socialista de Craxi como o parceiro-chave da DC, levou a que Berlinguer tenha feito uma viragem à esquerda . Denunciando a degeneração do sistema político italiano criada pela corrupção , ele lançou um apelo para que a vida pública em Itália se tornasse bem mais limpa. Napolitano respondeu com raiva, atacando-o pelo seu isolacionismo sectário e “pelo vazio do seu ataque ‘. As relações entre os dois homens foram sempre frias. Mas o que estava em jogo era bem mais que a rivalidade pessoal entre estes dois homens. Napolitano chefiou a corrente mais à direita no PCI daquela altura, miglioristi que tinha uma certa afinidade com Craxi e não queria assumir hostilidades para com este. A sua base principal foi Milão, onde a máquina de Craxi dominava a cidade. Por meados da década de 1980, eles publicaram um jornal, IL Moderno, não somente subsidiado por Berlusconi, mas em que saudavam a sua conquista revolucionária na modernização dos meios de comunicação e na televisão fazendo de Milão a capital televisiva da Itália. Isto foi em 1986, quando Craxi era primeiro-ministro. Um tribunal mais tarde viria acusar a sociedade holding de Berlusconi, a Fininvest, de responsável pelo financiamento ilegal dos miglioristi. Em Fevereiro, no período que antecedeu um referendo anti-nuclear em Itália, o jornal do PCI recusou um artigo pro-nuclear escrito por Giovanni Battista Zorzoli, um dos fieis seguidores de Napolitano. Furioso, Napolitano exigiu a cabeça do editor. Por volta de 1993, Zorzoli foi algemado, condenado a quatro anos anos e meio de prisão por corrupção quando ele era um alto-executivo da empresa estatal de energia da Itália.

Pouco tempo depois, Napolitano tornou-se ministro do Interior no governo de centro-esquerda, em 1996. Foi a primeira vez que alguém da esquerda se tinha tornado o responsável por este ministério. O envolvimento da polícia italiana e o aparato dos serviços secretos na chamada estratégia da tensão – uma série de atentados à bomba desde o massacre de Piazza Fontana em Milão em 1969 até à estação de comboios de Bolonha, em 1980 – tinha sido certificada mas nunca investigada. Qualquer que tenha sido o nervosismo que a primeira vez que um comunista tenha ocupado este ministério possa ter causado, este possível nervosismo desde logo se dissipou. Napolitano assegurou aos seus subordinados que não estava “à procura de esqueletos no armário”. Nem as revelações a despropósito perturbaram o seu ministério. Foi nomeado senador vitalício em 2005. Tornou-se presidente da República um ano mais tarde, e nessa função lamentou publicamente que Craxi – que morreu no exílio na Tunísia, depois de ter sido condenado à revelia a 27 anos de prisão por uma monumental corrupção – tenha sido tratado de modo muito injusto, ao mesmo tempo que elogiava o seu papel construtivo como um homem de Estado.

Napolitano não teve a mesma consideração para com Berlusconi, vendo-o com uma benigna condescendência– e também alguma justiça – como não sendo de modo nenhum um verdadeiro político, no sentido do que tinham sido as principais figuras da primeira República. Os dois homens de qualquer forma não poderiam ter estado em mais clara oposição em termos de estilo, uma vez que o decoro cerimonioso do Napolitano era um contraste estudado relativamente ao comportamento e ar afectado de Berlusconi. Mas eles partilharam um fundo comum no conjunto das simpatias e das ligações criadas à volta de Craxi em Milão, e um interesse comum em estabilizar o que cada um via como sendo os ganhos potenciais da Segunda República: um sistema político bipolar ao longo de linhas anglo-saxónicas, confinado entre um centro-direita e um centro-esquerda, limpo de hostilidade para com o mercado e para com o seu guardião transatlântico. Pelas suas próprias razões, cada um deles também temia a persistência dos seus adversários em desenterrarem acusações contra o líder mais popular do país, e o ressentimento das minorias irresponsáveis em insistirem nelas.

Para Berlusconi estas eram, claro, ameaças existenciais. Para Napolitano eram simplesmente acusações divisionistas, tal como o tinha sido o moralismo do Berlinguer, que com a sua insatisfação fazia balançar o barco do consenso moderado que o país exigia. Napolitano estava mais que disposto a ajudar Berlusconi a proteger-se de tais problemas, assinando em lei e sem hesitação o Lodo Alfano de 2008 garantindo a imunidade a Berlusconi como primeiro-ministro e a ele próprio como Presidente ; e quando isto foi considerado inconstitucional, ratificou-se com igual rapidez a lei substituta aprovada em 2010, legitimo impedimento a permitir aos ministros evitarem julgamentos, invocando as obrigações prementes como ministros servidores da Res pública e que foi considerada, por sua vez, inconstitucional em 2011. Napolitano foi publicamente criticado pela sua inconveniente aprovação da primeira por Ciampi, seu antecessor na Presidência e não tinha nenhum obrigação de andar ao sabor das ondas, antes pelo contrário, como se mostra com os resultado jurídicos sobre cada uma das suas aprovações. As acções do Napolitano, no entanto, estavam de acordo com as expectativas de Berlusconi relativamente ao modus vivendi entre eles, na base do qual este o tinha apoiado para ser Presidente. Uma expressão ainda mais pronunciada desse entendimento deu-se quando a deserção de Fini privou o governo de Berlusconi de uma maioria na Câmara, e a oposição apresentou um voto de censura com os votos na mão para derrubar o governo. Em 2008, Prodi tinha estado numa situação semelhante depois de Berlusconi ter comprado votos suficientes no Senado para o derrubar, um episódio relativamente ao qual está actualmente indiciado de ter pago a um senador € 3 milhões para virar de casaca, um suborno que o destinatário já confessou. Então, Napolitano perdeu pouco tempo – menos de uma quinzena – para utilizar a sua prerrogativa presidencial para dissolver o Parlamento e exigir novas eleições, o que foi uma avalanche para Berlusconi. Agora, no entanto, Napolitano persuadiu Fini a manter-se por mais de um mês, até que fosse aprovada uma lei orçamental, permitindo que Berlusconi ganhasse tempo para comprar o punhado de deputados necessário para restaurar a sua maioria.

Este foi, no entanto, o último favor que Napolitano concederia. Ele estava a preparar-se para tomar o assunto nas suas próprias mãos. Na Primavera de 2011, o governo anunciou que não se estava a juntar ao ataque americano sobre a Líbia, ao qual a Liga do Norte se tinha categoricamente afirmado contra, ameaçando derrubá-lo se o fizesse. Napolitano sabia melhor: as expectativas sobre Washington eram mais importantes do que as subtilezas da Constituição. Sem qualquer votação no Parlamento, ou mesmo sem nenhum debate sobre o assunto, lançou a Itália na guerra tendo obtido o apoio dos ex-comunistas para o envio de uma expedição da sua força aérea para bombardear um vizinho com o qual tinha assinado um Tratado de Amizade, Cooperação e Aliança Militar, ratificada por uma maioria esmagadora na Câmara – incluindo os ex-comunistas – apenas dois anos antes.

No Verão, encorajado pelo aumento da bajulação sobre si-mesmo nos media como sendo a rocha onde se apoia a República e com o apoio de Berlim, Bruxelas e Frankfurt, Napolitano decidiu então correr com Berlusconi. A chave para o fazer e sem problemas foi encontrar um substituto que fosse aceite pelos parceiros citados e o mundo dos negócios de Itália. Felizmente, a figura ideal para todos eles estava ali mesmo à mão : Mario Monti, ex-comissário da UE, membro do Grupo Bilderberg e da Comissão Trilateral, um assessor de Goldman Sachs e agora presidente da Universidade Bocconi. Monti estava ansioso desde há algum tempo pela situação que se acabava de lhe ser apresentada . “O governo italiano pode tomar decisões difíceis”, confidenciou a The Economist em 2005, “se estiverem reunidas duas condições: deve haver uma clara situação de emergência e uma forte pressão do exterior.” Na época, lamentou ele, “um tal momento de verdade está a faltar.” Esse momento chegou.

Logo em Junho ou Julho, em completo sigilo, Napolitano preparou Monti para assumir o governo. No mesmo período, encomendou à direcção do maior grupo bancário do Itália, Corrado Passera, a elaboração de um plano económico confidencial para o país. Passera foi um ex-assessor de Berlusconi, um arqui-inimigo político e rival de negócios de Carlo De Benedetti, proprietário do La Repubblica e L’Espresso, que estava a par dos movimentos de Napolitano. Em itálico urgente, o documento de 196 páginas de Passera propôs uma terapia de choque: € 100 mil milhões como sendo o valor das privatizações a alcançar, impostos sobre a habitação, impostos, sobre o capital, um aumento do IVA. Napolitano, telefonou a Merkel e, sem dúvida, a Draghi, tinha agora o homem e o plano para colocar Berlusconi na rua. Monti nunca tinha sido proposto em nenhuma eleição, e embora um lugar no Parlamento não fosse necessário para a investidura como primeiro-ministro, ter um assento poderia ajudá-lo.

Não havia tempo a perder: em 9 de Novembro, abandona Bocconi, e Napolitano nomeia Monti como senador vitalício, com o aplauso da imprensa do mundo financeiro. Sob a ameaça de destruição pelos mercados obrigacionistas se resistisse, Berlusconi capitulou e no espaço de uma semana Monti foi empossado como o novo governante do país, à frente de um gabinete não eleito composto por banqueiros, empresários e tecnocratas. A operação que tinha sido realizada é bem uma ilustração expressiva do que os procedimentos ditos “democráticos” e do Estado de direito podem significar na Europa de hoje. Isto foi totalmente inconstitucional. O presidente italiano é suposto ser o guardião imparcial de uma ordem parlamentar, que não interfere com as suas decisões de a salvar quando se está perante uma violação da constituição – situação em que ele claramente falhou. Ele não tem poderes para conspirar, por detrás das costas de um primeiro-ministro eleito, com indivíduos da sua escolha, nem mesmo no Parlamento, para formar um governo a seu gosto. A corrupção dos negócios, a burocracia e a política na Itália é agora agravada pela corrupção da Constituição.

No momento, o que se terá passado nesse Verão por debaixo da protecção presidencial permaneceu no segredo dos Deuses. Isto veio somente à luz do dia este ano e pela boca do próprio Mario Monti, um naif em tais assuntos, com os desmentidos agressivos de Napolitano.4 Entretanto, a reacção do estalishment para com o novo governo variou entre o alívio e a euforia. Aqui, finalmente – na opinião generalizada de comentadores nacionais e estrangeiros – foi uma segunda chance para a Itália virar a página que teria sido perdida depois da queda da primeira República. Finalmente, um governo honesto e competente está ao leme do país, não apenas empenhado em sérias reformas do muito do que está errado na Itália – rigidez dos mercados de trabalho, pensões exorbitantes, nepotismo das Universidades , restrições corporativas sobre os serviços, a falta de concorrência industrial, insuficiente privatização de empresas e serviços, um bloqueio da justiça, a evasão fiscal – mas capaz de dominar as tempestades financeiras que agora nos estão a atingir. Uma nova segunda República, o que é importante, poderia agora surgir depois de vinte anos de andarmos a assistir a um baile de máscaras. Profundos cortes nas despesas públicas, duras medidas fiscais e o início de mudanças na legislação laboral desastrosa da década de 1970 seriam as primeiras etapas bem-vindas para restaurar a confiança no país.

Visto de outro ângulo, havia de facto semelhanças entre a conjuntura do início dos anos 1990, quando Ciampi, então governador do Banco de Itália, foi convocado para ser o forte primeiro-ministro no auge da crise Tangentopoli. Mas estas semelhanças não são tranquilizadoras. A administração Monti assemelhava-se na composição e na intenção à de Ciampi. Mas muito tinha mudado neste intervalo de tempo, sobretudo sobre o meio de que as novas figuras eminentes da nova ordem – Monti e o seu fiador em Frankfurt, Draghi – vieram, [ou seja, vieram de Goldman Sachs]. Em 1994, Berlusconi apresentou-se como um inovador vindo de uma base empresarial cuja vitória poderia levar a que fosse enterrada a corrupção e a desordem da classe política da Primeira República, quando na realidade ele devia a sua fortuna esmagadoramente a isso mesmo. Em 2011, a crise que aflige Itália e a zona euro tinha sido desencadeada por uma enorme onda de especulação financeira e pela manipulação sobre os mercados de derivados nos dois lados do Atlântico. Não há nenhum operador que tenha sido tão notoriamente importante nessa deriva financeira como a própria empresa em cujo folha de pagamento tinham figurado ambos, Monti e Draghi. Goldman Sachs, claramente merecedor do alcunha que lhe foi dado além-Atlântico “de lula-vampiro ‘, tinha organizado a falsificação das contas públicas gregas, e foi acusado de fraude pela Securities and Exchange Commission, pagando meio milhar de milhões para resolver o caso fora dos tribunais. Esperar por uma ruptura com o passado nos seus funcionários teria sido apenas um pouco mais realista do que acreditar que o patrocínio de Craxi não iria deixar nenhuma marca em Berlusconi.

Outras lembranças do passado não terão sido menos impressionante. No Verão de 2012, verificou-se que Napolitano interveio para bloquear um possível interrogatório de Nicola Mancino, Ministro democrata cristão do interior em 1992, quando o magistrado Palermo Paolo Borsellino foi assassinado pela máfia. Mancino foi um dos quatro ministros do interior – Scalfaro tinha sido um outro – a receber mensalmente dinheiro enlameado dado pelos serviços secretos, SISDE. Mancino negou que tinha recentemente encontrado Borsellino, um pouco antes da sua morte, apesar de evidências em contrário, negação esta que nunca tinha sido esclarecida. Um novo inquérito oficial sobre as ligações entre o Estado e a máfia estava em andamento em que Mancino estava sob a ameaça de ser confrontado com dois outros Ministros do período em que assenta a sua mentira . Em grande agitação, ele telefonou para o Quirinale e suplicou ao braço direito de Napolitano em assuntos jurídicos, Loris D’Ambrosio, a sua protecção. Longe de ser rejeitada, foi-lhe dito que o presidente estava muito preocupado com o assunto. Em tempo útil, Napolitano telefonou a Mancino, sem saber que o seu telefone estava sob escuta como parte da investigação.

Quando as transcrições dos telefonemas entre Mancino e D’Ambrosio foram publicadas na imprensa, juntamente com a notícia de que as fitas da conversa do próprio Presidente com Mancino estavam na posse do juiz de instrução, Napolitano invocou a total imunidade para o seu gabinete e, ao estilo de Nixon, exigia que as fitas fossem destruídas. O irmão do Borsellino Salvatore apelou ao seu impeachment; uma vez que estava em causa uma obstrução à Justiça, nos Estados Unidos teria havido motivos para isso. Na Itália, esse resultado era impensável. A classe política e os media cerraram fileiras imediatamente em torno do Presidente, como haviam feito quando Scalfaro utilizou o seu mordomo para abafar o escândalo do SISDE. O assessor de Napolitano, o Ehrlichman do caso, morreu vítima de um ataque cardíaco na altura do escândalo. Como tantas outras vezes, Marco Travaglio, indiscutivelmente um dos maiores jornalistas da Europa, foi o único a ligar os factos pelos nomes; no seu livro Viva il Re!, publicado no ano passado, em que elaborou um extenso registo acusatório do registo de Napolitano no poder, através de seiscentas páginas de documentação altamente condenatória. Noutros lugares, em face do perigo de sua posição, o coro de bajulação em torno do Presidente – cujo volume tinha desde há algum tempo aumentado – atingiu um crescendo quase histérico

Enquanto isso, Monti – saudado com entusiasmo desde o início, o Financial Times até o apelidou de ‘Super Mario’ – estava a mostrar ser uma decepção. Instalado no poder com o consentimento relutante do centro-direita e igualmente do centro-esquerda , o seu espaço de iniciativa era limitado, dado que nenhum bloco explicitamente o apoiava e a base de cada um deles estava inquieta com a solução encontrada- a nomeação de Monti. Mas logo ficou claro que os remédios aplicados não trariam nenhuma retoma económica. Sob o que um crítico italiano teria apelidado de regime ‘austeritariano’: tratava-se de uma combinação de impostos mais altos de Monti e de um mais baixo valor da despesa pública para poder reduzir o défice e reduzir drasticamente os spreads entre a dívida pública alemã e italiana, mas o que daqui resultou foi a intensificação da recessão. O consumo caiu, o desemprego da juventude aumentou. As reformas estruturais, como a Comissão Europeia e BCE as entendem foram um fiasco total. Em 2012, o PIB diminuiu em 2.4 por cento. Politicamente, havia pouco a ganhar ao continuar a sustentar o que se tinha tornado um governo completamente impopular. No final do ano o centro-direita retirou o apoio e Napolitano foi relutantemente forçado a dissolver o Parlamento, mantendo Monti em funções de gestão até que as eleições foram realizadas.
As sondagens durante algum tempo indicaram que o centro-esquerda mantinha uma liderança firme nas intenções de voto e estava prestes a vingar a sua humilhação de 2008. Monti provou ser um fracasso. Berlusconi estava cada vez mais desacreditado e a coligação de centro-direita estava dividida em três partes. Não só Fini tinha rompido com Berlusconi mas Bossi tinha também se separara dele, recusando-se a dar apoio ao governo Monti antes de ele próprio ter sido envolvido num escândalo de corrupção e marginalizado numa liga muito enfraquecida. No Outono, as três partes da antiga coligação estavam a ter pouco mais de um quarto do eleitorado.

O centro-esquerda, embora em si longe de estar florescente, estava em melhor forma. O renomeado partido democrático, nascido de uma fusão entre os remanescentes do que outrora fora o Partido Comunista italiano e uma ala da democracia cristã, tinha tido resultados desastrosos em 2008 sob a direcção de Walter Veltroni – aos olhos afectuosos de Napolitano, ‘Obamaante litteram’. Depois de Veltroni ter sido substituído, o PD adquiriu um novo líder, Pierluigi Bersani, vindo das fileiras dos Emilian administradores do antigo PCI e uma mudança de imagem para melhor, passando da insípida à fleumática. Sem ser inspiradora, a liderança de Bersani impedia pelo menos que o Partido continuasse a descer nos seus apoios, deixando-o num nível relativamente estável nas sondagens de opinião, bem à frente do centro-direita. No Outono de 2012, desafiado pelo jovem prefeito de Florença, Matteo Renzi, que tinha feito um nome para si mesmo, apelando a toda a geração mais velha dos políticos fosse enviada para o ferro-velho da política, Bersani derrotou-o confortavelmente nas primárias do partido, com uma participação substancial que levantou a base do PD, aumentando a sua liderança nas sondagens.

Permanece um cartão-convite, um wild card. Três anos antes, o comediante Beppe Grillo tinha lançado um movimento contra o sistema político com o qual teve alguns sucessos nas eleições locais. Ficou claro que não devia ser levado a sério. Mas uma vez que não tinha havido até agora nada de semelhante na Europa, e não havia nenhum precedente para o analisar e julgar, não podia ser ignorado. Grillo tinha começado como um comediante em cabarés na década de 1970, tendo aumentado a sua popularidade com os shows populares na televisão em que o seu sentido crítico foi –se tornando cada vez mais agressivo. Em 1986, depois de ironizar à volta de um banquete com Craxi em Pequim, um de seus ajudantes perguntou-lhes com ares de muito perplexo: ‘Se todo o mundo aqui é um socialista, como é que podem eles andar a roubar?’, e Grillo foi retirado dos canais públicos. Não foi a sua única previsão do que estava para acontecer. Nos anos 90, levou cada vez mais para os seus espectáculos em teatros e praças monólogos com uma moldura ambiental forte, a que acrescentava os escândalos inumeráveis do período que se vivia, com uma combinação de bruta profanidade e de grande sagacidade.

O seu público cresceu e aumentou ainda mais quando começou a utilizar a internet como um meio alternativo para realizar contundentes demolições da ordem dominante e dos seus políticos – centro-direita e de centro-esquerda, televisão e a imprensa escrita, igualmente. O seu blog tornou‑se um sucesso verdadeiramente corrosivo e quase que selvagem. Escravos modernos, um livro de desenho com as respostas dos leitores, ampliou os seus alvos sobre o destino do trabalho informal na Itália. Por esta altura, trabalhava de perto com um especialista em software, Gianroberto Casaleggio, e em 2009 os dois lançaram o Movimento Cinco Estrelas como uma revolta contra o sistema político. As 5 estrelas representavam as questões-chave que pretendem levantar: o circuito de abastecimento de água (sob a ameaça de privatização), o meio ambiente, os transportes, as redes de interesses e o desenvolvimento. Os candidatos do M5S que concorreram às eleições tiveram que assumir – o que é único em todo o mundo – não aparecer na televisão, e se eles fossem eleitos, a obrigação de reduzir os seus salários de parlamentares ao salário mediano, atribuindo o resto para fins públicos. Grillo foi impedido de entrar para o Parlamento por uma condenação de homicídio involuntário no início dos seus 30 anos, quando o seu jipe patinou numa estrada com gelo e caiu numa ravina, matando três dos seus passageiros. Mas não foi eliminado da campanha. Viajando em torno do país numa excursão apelidada Tsunami por cerca de oitenta cidades, com o seu ar grisalho e pugnaz de juba de leão familiar agora a toda a gente, atacou não somente as “duas castas” – políticos e jornalistas – de Itália, mas o sistema burocrático europeu e o sistema financeiro no seu conjunto e sua ideologia neoliberal de que sobressai a imposição de políticas de austeridade e a única moeda. Largas multidões, de curiosos a gente simpatizante, enchiam os seus comícios.

Quando os resultados começaram a aparecer, o PD teve um choque duplo. Embora a coligação residual com Berlusconi tenha perdido 7 milhões de votos, a sua resiliência como um militante tinha trazido o centro-direita, que no início parecia um caso perdido, para muito próximo de poder cantar vitória : somente 0,35 por cento atrás do centro-esquerda, e estes também eles perderam milhões de votos, cerca de 3 milhões mais precisamente, não tendo assim nenhum bloco atingindo os 30 por cento do total dos eleitos. O M5S, por outro lado, tinha passado de zero para 25 por cento, tornando-se – se os expatriados fossem excluídos – o maior partido a concorrer sozinho no país, tirando votos a ambos os campos convencionais. O lema de Grilo de três fases para fazer disparar uma revolta popular – riso, informação, acção política – provou ser incrivelmente eficaz. Os grillini tiveram mais votos dos operários, dos pequenos empreendedores, dos trabalhadores independentes, estudantes e desempregados do que o centro-direita ou o centro-esquerda; o centro-direita prevaleceu apenas entre as donas de casa, o centro-esquerda entre os pensionistas e os trabalhadores de colarinho branco.

Tal era a aritmética eleitoral. Os números de parlamentares são uma outra questão. Central para a segunda República tinha sido, desde a sua criação em 1993, uma mudança no sistema eleitoral – a abolição da representação proporcional, a favor de um sistema de pluralidade simples largamente ao estilo anglo-saxônico. Nenhuma mudança foi tão mais acaloradamente exigida pelo pensamento único, como sendo a chave para um governo responsável e eficiente. Nada disso se seguiu. Uma década mais tarde, em 2005, a coligação de centro-direita no poder, temendo a derrota sob este sistema – do qual tinha anteriormente beneficiado – mudou o processo eleitoral para um sistema nominalmente proporcional, mas acoplado com um prémio dado à coligação que tenha tido o melhor resultado, não importando sequer qual a percentagem dos votos que tenha tido , e obteve uma maioria automática de 54 por cento dos lugares na Câmara. Descrito este processo eleitoral desdenhosamente como uma nojeira, até mesmo pelo ministro responsável pela sua arquitectura de base o fiel e corajoso membro da Liga do Norte , Roberto Calderoli, o Porcellum, como ficou conhecido, resultava de duas outras distorções notórias da vontade popular em Itália: o Acerbo Law de 1923, de Mussolini criado para consolidar o seu poder, premiava com dois terços dos assentos no Parlamento qualquer que seja o partido que tivesse a maior votação acima de um limite de 25 por cento; e a Legge Truffa de Scelba de 1953, que dava 65 por cento dos assentos à coligação que tivesse mais de 50 por cento dos votos e foi tão impopular que teve que ser revogada depois da coligação da DC não conseguido ganhar os necessários 50 por cento mais um voto na única eleição realizado sob este sistema eleitoral. O Porcellum foi menos generoso do que os seus antecessores sistemas, o fascista e o criado pela Democracia Cristã na dimensão do prémio atribuído – 54 contra 65/66 por cento dos deputados –, mas também menos exigente no requisito para o ganhar, pois mesmo menos de um quarto dos votos seria o suficiente para obter mais da metade dos assentos na Câmara.

Em 2013, isto significava que o centro-esquerda – que, mesmo aos seus próprios olhos, tinha conseguido resultados desastrosos nos escrutínios eleitorais – no entanto, em virtude de gozar de uma pequena margem de vantagem, obteve uma esmagadora maioria dos Deputados: 345 para o centro-esquerda , 125 para o centro-direita e 109 para M5S, num total de 630. Mas isso não garante o caminho para alcançar o poder. Nos termos da Constituição, o Senado – cujos poderes são de igual nível – requer uma base regional da eleição. O prémio atribuído pelo Porcellum numa base nacional, portanto, pôde não lhes ser aplicado, como Ciampi, que era presidente na época que o Porcellum foi introduzido, muito bem salientou. O prémio tem que ser atribuído à coligação com o maior número de votos dentro de cada região. O resultado foi muito menos favorável para o PD, que ganhou não mais do que 123 dos 315 lugares. Para formar um governo exige-se um voto de confiança em ambas as Câmaras.

Para garantir o voto de confiança, Bersani teve que garantir um acordo – coligação ou tolerância – com Berlusconi ou com Grillo. O primeiro destes dois era um anátema para a base do PD de modo que Bersani tentou então o segundo. Mas Grillo não estava interessado. Para o M5S, o resultado ideal do impasse pós-eleitoral era um governo constituído à base do conjunto Berlusconi – Bersani, provando a sua afirmação de que o centro-direita e o centro-esquerda eram os dois lados da mesma moeda (uma vez que a sigla para o partido de Berlusconi é PDL, Grillo refere-se a Bersani como ‘PD menos L’) e contra os quais ele era a verdadeira oposição. Assim, Grillo deixou em aberto a formação de um governo de centro-esquerda com um apoio minoritário no Parlamento a depender portanto da tolerância face às medidas que iriam sendo tomadas. Napolitano, cujo convite para formar governo era necessário, rejeitou esta hipótese. Infelizmente o regime de Monti, que tinha tido o apoio das duas coligações, a de centro-esquerda e a de centro-direita, acabou por ter um fim bem prematuro quando, ao contrário, Monti esperava ser reeleito. Consistente com uma carreira em que se colou sempre ao que em cada momento eram os poderes fortes do momento, para Napolitano este poder era agora a UE cujas directivas constituíam a pedra de toque da responsabilização. Sendo assim, o imperativo seria o de formar um governo bipartidário que garantiria a estabilidade e a austeridade exigida por Frankfurt e Bruxelas contra a agitação popular. Nesta base, Bersani insistiu na sua posição. Não estava à vista nenhuma resolução sobre o impasse quando – após seis semanas de acusações pós-eleitorais – chegava ao fim o mandato de Napolitano como Presidente. Os media insistiram em que aceitasse um segundo mandato, como sendo ele o único dique que protegeria a Itália do caos, diziam em grandes caixas os jornais. Mas era uma regra não escrita de que nenhum presidente italiano se tinha servido no final de um mandato e Napolitano, categórica e repetidamente, desaprovou tal hipótese. Ele tinha feito o seu dever e estava a arrumar as suas malas.

Um último serviço ele assegurou, e fê-lo. Em 5 de Abril, concedeu o perdão presidencial ao coronel americano Joseph Romano, condenado à revelia a sete anos pela sua participação no rapto em Milão de um sacerdote egípcio, que foi então metido num um avião militar americano e enviado para o Cairo onde esteve sujeito a meses de tortura nas mãos da polícia de Mubarak. Constitucionalmente, um perdão presidencial só pode ser concedido por razões ‘humanitárias’, e nunca por razões políticas. Romano nem sequer tinha passado um dia na prisão, tendo fugido do país. Mas Obama tinha pessoalmente pedido que essa “ bagatela” fosse negligenciada e Napolitano não hesitou, como muitas vezes antes, em desrespeitar a Constituição, explicando que tinha perdoado a Romano ‘ para obviar a uma situação de evidente delicadeza para com um país amigo’. O suserano tinha mudado e daí também os crimes. A sua atitude para com um poder mais forte é que não.

Um presidente italiano é eleito numa sessão conjunta das duas Câmaras do Parlamento, além dos representantes das regiões, por escrutínio secreto. Uma maioria de dois terços é necessária para a eleição nas três primeiras rondas eleitorais, posteriormente apenas uma maioria simples. Porque os votos são secretos, a disciplina partidária é fraca, e muitas rondas eleitorais podem ser necessárias para eleger com sucesso um candidato. Em 2006, Napolitano passou ao quarto escrutínio. Em 2013, os eleitores votaram 1007 vezes, exigindo-se 672 votos no primeiro conjunto de rondas eleitorais e 504 posteriormente. O centro-esquerda tinha 493 destes eleitores, uma clara posição inicial de força sem precedentes. Mas desde que o Presidente é suposto ser super partes, a convenção mantém que um candidato deve ter um grau de consenso interpartidário. O PD procurou, portanto, o acordo de centro-direita para uma figura que ambos poderiam apoiar. Franco Marini, um veterano democrata-cristão e ex-presidente do Senado, foi o escolhido. Marini foi rapidamente desacreditado por Renzi, de cuja facção desertou no PD, e por este foi criticado como sendo um fóssil. Franco Marini obteve 521 votos, muito aquém dos dois-terços, mas os votos suficientes para uma maioria simples.

Enervado por este contratempo, ao invés de se manter firme no seu apoio para a quarta ronda, o PD abandonou Marini e na confusão criada votou em branco nas rondas seguintes, em que o jurista Stefano Rodotà, proposto pelo M5S, atingiu o máximo dos votos 230-250. Grillo, abandonou a sua recusa em não ter nada a ver com o PD e apelou para se unirem forças com o M5S e eleger Rodotà na próxima ronda eleitoral, insinuando que se isto fosse feito a cooperação entre os dois partidos, tendo em vista o acordo para formar um governo, era possível. Rodotà não era uma escolha sectária; amplamente respeitado, ele tinha sido mesmo um ex-presidente das eleições anteriores proposto pelo PD. Mas sendo um grande defensor da legalidade constitucional, Rodotà não era aceitável para o partido a que tinha pertencido, o qual temia que ele pudesse impedir as alterações institucionais que o PD tinha em mente, para não falar já da hipótese de recusar qualquer entendimento com Berlusconi, para quem era um anátema.

Reunindo as suas tropas, Bersani propôs, em vez disso, Romano Prodi, cujo nome recebeu uma ovação no seu partido. Agora, era necessário apenas uma maioria simples. O centro-direita deserta na votação. Ainda quando os votos foram contados, Prodi tinha recebido apenas 395 – cem votos a menos relativamente ao total dos eleitores do centro-esquerda. Desta vez não terá sido tanto a facção de Renzi mas terão sido, isso sim, os seguidores do seu arqui-opositor, D’Alema, que foram os sabotadores da eleição de Prodi, uma vez que havia um grande rancor contra Prodi desde o tempo da sua rivalidade na década de 1990. O PD ficou exposto e considerado como sendo um partido de gente desunida e desmoralizada, aparentemente incapaz de um mínimo de lealdade política e de unidade. Em lágrimas, Bersani demitiu-se como líder e, no meio de um barulho ensurdecedor de uivos na imprensa sobre os perigos da ingovernabilidade que o país enfrentava, o partido apressou-se a juntar-se a Berlusconi a mendigar a Napolitano que salvasse a Itália com um segundo mandato. Com muitos afirmações suas de que isso era contra a sua vontade Napolitano graciosamente aceitou e no sexto escrutínio obteve a votação que suavemente o levaria de volta para o palácio presidencial, de onde tinha ostensivamente deixado o lugar vago. Com a idade de 87 anos, ultrapassado na idade apenas por Mugabe, Peres e pelo moribundo rei saudita.

Um governo teria ainda que ser formado, mas com Bersani – uma figura demasiado directa e de contacto agradável – fora do caminho, Napolitano poderia proceder para re-criar o governissimo conforme os seus desejos, um governo de centro-esquerda interligado com o centro-direita. Desta vez, poderia fazê-lo mais abertamente, convocando os líderes para conferir com ele e ditar as suas escolhas. Como primeiro encontro escolheu o vice-líder do PD, Enrico Letta, um antigo democrata-cristão cujo tio Gianni Letta foi o mais urbano dos conselheiros de Berlusconi. Alfano, responsável pela legislação confere imunidade sobre Berlusconi e Napolitano, tornando-se vice-primeiro. Um funcionário do Banco Central foi instalado no Tesouro como garantia de continuidade com as políticas do Monti e em conformidade com o Compacto Fiscal. Berlusconi, no entanto, que deveu muito da sua recuperação eleitoral como candidatos à sua promessa de que iria revogar o imposto sobre a habitação criado por Monti, o correspondente ao nosso IMI, e bloquear qualquer novo aumento do IVA, fez do respeito a estas suas duas promessas a condição do parecer favorável à coligação.

O resultado foi um governo zig-zagueante e ineficaz entre compromissos incompatíveis. No final do ano, a economia tinha-se contraído em mais de 1,9 por cento e a dívida pública aumentado para 133 por cento do PIB. O seu registo económico à parte, o governo de Letta rapidamente estava manchado por dois escândalos de um tipo bem familiar. Alfano, que também era ministro do interior, esteve envolvido no transporte da esposa e filha de um dissidente cazaque a fugir das garras de Nasarbajev, enquanto o Ministro da justiça, Anna Maria Cancellieri, foi apanhada a afirmar que a filha encarcerada de um magnata da construção era acusada de fortes ligações à máfia (em tempos passados, uma apoiante do Il Moderno) mas que como uma amiga da família ela, a Ministra, faria o que pudesse pela rapariga e em tempo útil, até porque esta estava a cair numa situação de anorexia. Embora houvesse grande tumulto em ambos os casos, nenhum ministro caiu, Napolitano e Letta defenderam-nos. No Parlamento, o culto do presidente chegou a um ponto tão grotesco que os porta-vozes em ambas as Câmaras proibiam formalmente toda e qualquer menção a Napolitano a partir das intervenções dos deputados como uma afronta à dignidade da República. Naturalmente, l’innominabile terá ele próprio suplicado uma tal excessiva protecção.

O principal objectivo do governo era a reforma eleitoral para acabar com a Porcellum e a alterar a Constituição para acabar com o Senado. Desde que de acordo com as regras existentes este último tema seria um processo demorado, foi introduzido um projecto de legislação para poder reduzir o tempo necessário para conseguir este objectivo. A atenção do público, no entanto, foi rapidamente desviada pelo drama dos infortúnios de Berlusconi. Em Junho, este foi considerado culpado de prostituir menores e condenado a sete anos de prisão. Nada ajudava a sua imagem, o veredicto afectava-o pouco em termos de curto prazo: sucessivos recursos contra isso foram capazes de atrasar a data do julgamento por vários anos. Mas em Agosto foi apresentada a sentença: quatro anos de prisão (três deles renunciada – (three of them waived)) por sonegação do pagamento de impostos pessoais – sobre € 7,3 milhões – e uma proibição de dois anos de ocupação de cargos públicos. A sentença de prisão, por sua vez, desencadeou a aplicação de uma lei aprovada nos meses finais do governo do Monti, que excluía os membros do governo de serem julgados até ao período de seis anos depois de saírem do governo, A aplicação da sentença significava a expulsão de Berlusconi no Senado.

Consciente de que com isso arriscava uma rebelião pelo centro-direita que iria derrubar o seu governo, Letta não tinha pressa para forçar a resolução da questão Berlusconi enquanto este, por seu lado, fez apelos cada vez mais frenéticos a Napolitano para o salvar, na esperança ou na crença, de que a sua compreensão passada , e por ele bem conhecida, se poderia estender à sua situação de agora. Napolitano estava disposto a isso se Berlusconi pedisse perdão, admitindo a sua culpa ( mas ele estava a protestar pela sua inocência ) e somente naquele caso poderia receber o perdão presidencial tendo em conta a sua importância para a vida política do país. Mas não havia nenhuma chance de Napolitano poder ir mais longe. Ele não era sentimental: Berlusconi já não estava a ser reconhecido como antigamente. Furioso com esta frieza, Berlusconi exigiu que os ministros do seu partido se demitissem do governo, preparando-se para o deitar abaixo. Estes seus ministros tinham inicialmente aceite; mas, depois, pensaram nos seus postos de trabalho e no destino provável do centro-direita se, nestas circunstâncias, houvesse novas eleições. O resultado foi uma divisão aberta, Alfano levou bastante parlamentares para fora do controlo de Berlusconi e com o objectivo de formar um novo partido de centro-direita, para assim dar ao governo uma maioria estável que deixaria de estar sujeita aos caprichos de Berlusconi. Dez dias depois, Berlusconi foi expulso do Senado.
A vitória do Letta apareceu como sendo completa. A sua capacidade em termos de diplomacia, temperada numa tradição da democrática cristã, tinha exercido um papel chave em separar Alfano e os que o seguiram do domínio de Berlusconi. Fini tinha sido um outsider. Alfano foi um verdadeiro “insider”, o herdeiro potencial de Berlusconi : a sua deserção era a primeira verdadeira divisão no partido que Berlusconi tinha construído em torno de si mesmo. Mas o triunfo de Letta provou-se ser de muito curta duração. Em poucos dias, depois, Renzi tinha literalmente varrido as primárias para a liderança de PD que estava livre depois da saída de Bersani e limpou a velha guarda do partido, compondo a direcção responsável pelo aparelho do Partido com os seus adeptos e os fãs da sua própria geração. Ainda prefeito de Florença e nem estando mesmo no Parlamento, mas agora ao comando do seu maior contingente de deputados, ele tinha mais poder do que Letta e não perdeu tempo a demonstrar isso.

Berlusconi poderia ser um criminoso condenado, mas não era um pária - ao invés disso, era o interlocutor natural do novo líder, um político que se retirou para a oposição, mas não foi nocauteado, à frente do segundo maior partido do país. O caminho a seguir era fazer um acordo com ele. Em poucas palavras, Renzi estava mantendo conversas confidenciais com Berlusconi e os dois homens haviam chegado a um acordo sobre mudanças constitucionais e eleitorais a serem atingidas por um Parlamento do qual nenhum dos dois era membro, num pacto que passaria por cortar a maioria de Letta. E o primeiro-ministro? Em tweets como um adolescente acalmando uma namorada prestes a ser abandonada, Renzi escreveu para ele: “Enrico stai sereno nessuno ti vuol prendere il posto” (“Enrico, fique clamo, porque ninguém quer tomar o seu cargo”). Um mês depois, ele expulsou Letta e se instalou como o primeiro-ministro mais jovem da Itália.

Tal como a sua vítima, Renzi vem de uma base da democracia-cristã, o seu pai era um vereador DC na sua cidade natal, fora de Florença – mas embora e por razões de idade ele cresceu através do movimento de escuteiros católicos, não como o fez Letta, a organização de juventude da DC. A família tinha um negócio de marketing onde trabalhou até à sua entrada na política a tempo inteiro; entre as suas tarefas está o seu trabalho no jornal local La Nazione. Juntou-se a um dos resíduos da DC depois desta ter sido dissolvida, Renzi seguiu-o para o partido centrista Democrazia è Libertà – La Margherita (abreviatura DL) que oportunamente se fundiu com os remanescentes do comunismo italiano para formar a ala direita do PD e com de 29 anos , foi eleito presidente da província de Florença: o tipo de posto que, mais tarde, iria denunciar como um desperdício de dinheiro e contra o que , mais tarde, procurou conseguir a sua abolição. Na época fez muito disto, para rapidamente construir um aparato de assessores e de funcionários, projectando-se ele-próprio com uma série de eventos dos media orquestrados por uma empresa criada e controlada por ele, como um órgão de propaganda da província, cujas dívidas aumentaram sob a sua responsabilidade e em que as contas poderiam e deveriam ser questionadas pelos auditores do Estado.

Cinco anos depois, Renzi conseguiu a nomeação de PD para prefeito de Florença, um dos bastiões da centro-esquerda na Itália. Com muito sucesso, a sua administração tornou o centro histórico em zona pedonal e poliu a sua imagem turística: os cidadãos poderiam, mais uma vez, ter orgulho na sua cidade. Pouco progresso, no entanto terá havido em termos de poluição. Fora do centro, o transito ficou pior, os autocarros foram privatizados, contra a opinião da oposição unida. Depois de inicialmente ter garantido os aplausos em geral como sendo o melhor prefeito do país, a sua posição caiu depois, em parte porque muitas realizações das quais se gabava provaram-se como falsas. Mas desde o início que Renzi fundamentalmente olhava para fora de Florença. As actividades municipais eram concebidas não tanto como uma expressão das realizações locais mas, sobretudo, como um trampolim para subir a nível nacional. A prioridade era então os shows de alta visibilidade, estrelado por celebridades de todo o país, em eventos multimédia, com uma série de grandes festas político-culturais na convertida estação ferroviária Leopolda, alardeando “Next Stop Italy”’, ‘Big Bang’ e assim por diante: música rock e vídeos em plena profusão enquanto vários empresários e variados actores, filósofos, músicos, escritores, diziam uns soundbites às multidões, com um final empolgante proferido pelo próprio prefeito. O prémio era sempre a sua imagem difundida.

Isto nem sempre funcionou bem. Típico das operações de Renzi foram dois peditórios para obter fundos destinados a apoiar os artistas da cidade. Por debaixo de um dos frescos de Vasari no Palazzo Vecchio, Renzi assegurou ao mundo, ainda leigo sobre a batalha de Anghiari de Leonardo, que com tecnologia moderna este painel iria ser recuperado, se pudessem ser encontrados financiadores dispostos a financiar a investigação necessária, pelo que – numa campanha publicitária , às custas do município – viajou várias vezes para a América. Depois de meses de atenção dados pelos media , isto não deu em nada. Num bluff mais que vazio ainda, Renzi anunciou planos para cobrir a Basílica de San Lorenzo, com a fachada em mármore que Michelangelo tinha projectado para este local, mas que nunca tinha sido feita. Isso também valia metros de cobertura na imprensa e muitas imagens na televisão, antes de ter sido posta a ridículo pelos historiadores de arte e desapareceu então de vista.

A partir desta altura, como figura política máxima na província, Renzi tinha vindo a construir uma rede de ligações com algumas empresas locais. O seu principal apoiante e financiador, era um patrão da construção local, Marco Carrai, cujos interesses se estendiam para lá do Atlântico e com ligações alargadas à Opus Dei. Uma vez Renzi colocado no Palazzo Vecchio, Carrai foi encarregado de construir o lucrativo complexo de estacionamento da cidade e do aeroporto, enquanto Renzi se instalou sem pagar nenhuma renda num apartamento que lhe foi colocado à disposição por Carrai – um arranjo actualmente sob investigação judicial. Três anos mais tarde concorria para ser o líder do PD, com a sua campanha a ser financiada até à quantia de €600.000 pela Fundação Big Bang e com muitos dos doadores a permaneceram secretos, Renzi não se poupou a despesas. Uma das maiores contribuições veio do director de um hedge fund, Davide Serra, cujo Algebris Investments inclui um esconderijo nas Ilhas Cayman. Residente em Londres, Serra tornou-se um ponto de ligação entre Renzi e o mais amplo mundo da finança, onde um banquete em honra do candidato reuniu a elite financeira de Milão durante a campanha. Em Florença, o Instituto municipal de poupança tem – sem dúvida, por pura coincidência – investido nos títulos Algebris. A noiva do Carrai, entretanto, uma graduada em filosofia de 26 anos, tornou-se uma das responsáveis pela exposição principal deste ano em Florença, um golpe de publicidade a promover as fictícias ligações entre Michelangelo e Jackson Pollock com um custo de €375.000. Um dos slogans mais populares do Renzi é a sua expressão reclamando um país onde “ se arranje emprego pelo que se conhece e não por causa de quem se conhece”.

Os negócios podem dar origem a que se desfrute de uma troca de favores a nível municipal, mas é sobretudo a um nível mais geral que a mensagem ideológica de Renzi lhe fez ganhar os apoios da gente de muito dinheiro. Reclamando que a gente mais velha da classe política pertencente ao PD fosse atirada para o armazém da sucata política funcionou bem com a imprensa e com a população, com esta fortemente desiludida com a classe política. Para os banqueiros e industriais, o seu apelo foi incisivamente mais económico. O enorme mal-estar da Itália provinha de um estado perdulário e das obstruções corporativistas feitas sobre os mercados, nomeadamente – se não exclusivamente – pelo comportamento altamente egoísta dos sindicatos. Os sindicatos tinham então que ser desmantelados. Liberismo – livre comércio sobre as commodities, incluindo terra e trabalho – era uma doutrina não de direita , mas de uma esquerda esclarecida, como a de Renzi. A palavra de ordem desta esquerda deve ser inovação, mais do que igualdade e se este último termo é, no entanto, digno de representar e de ser um ideal, só o pode ser, se devidamente compreendido como expressando uma carreira aberta ao talento e acima de tudo, empreendedor. Blair foi o líder que melhor compreendeu tudo isto, estabelecendo o exemplo inspirador do tipo de política de que a Itália tinha urgentemente necessidade.

O culto de Renzi por Blair reflecte, em certo sentido, as limitações provinciais da sua cultura: Renzi claramente desconhece que o objecto de sua admiração mal ousa mostrar a cara em público no país que ele governou. Mas, por outro lado, serviu como um cartão de visita para o maior amigo de Blair na Itália. Contactos informais com o centro-direita já existiam desde o início da subida do Renzi em Florença, onde a sua vitória sobre um candidato bem mais conhecido nas eleições primárias do PD em que não se exigia nenhum registo no partido é muitas vezes atribuída a votos daí resultantes. À volta deste período, estava em boas relações com um banqueiro florentino, Denis Verdini, cujo Crédito Cooperativo Fiorentino entraria em colapso no meio de acusações de crime formuladas contra ele, mas em que, como uma figura de liderança na organização de Berlusconi na Toscana, poderia oportunamente tornar-se um interlocutor fundamental do centro-direita. Enquanto Renzi era o prefeito, viajou para a villa de Berlusconi em Arcore, para com ele discretamente jantar, uma peregrinação tabu na altura para o PD e que só mais tarde foi revelada. Não apenas um gosto em comum com Blair e a apreciação do valor do empresário terão, no entanto, juntado Renzi e Berlusconi. Este último, frequentemente explicou que vê em Renzi, uma versão mais jovem de si mesmo: o mesmo talento, a mesma audácia e o mesmo encanto com o qual ele tinha cativado a nação, vinte anos antes. Claramente, quanto ao estilo político os dois homens na verdade têm muito em comum. Primeiro que tudo, uma intocável autoconfiança na sua capacidade única em conduzir o país. A personalização de Berlusconi na política é lendária. A projecção de Renzi de si mesmo é dada num registo diferente, mas combina com o anterior. Colocado em cartazes ao longo da rota da sua viagem pela Itália, o slogan da sua campanha para ganhar o comando do seu partido dispensa qualquer agenda para isso, para além da sua própria pessoa. Nestes cartazes, simplesmente lia-se: ‘Matteo Renzi agora!’ Como com o Sílvio, isto foi suficiente.

Tal auto-confiança coloca qualquer um acima de quaisquer dúvidas ou escrúpulos dos seus pares. As suas formas de crueldade são tacticamente diferentes. Mas os políticos partilham uma qualidade a de não hesitarem perante nada, stop-at-nothing, cuja justificação vem de duas convicções : que somente se pode realizar o que em cada momento se exige e que eles somente gozam de um bom relacionamento com os eleitores – não com todos os italianos, mas os melhores deles, os que formam a maioria da nação – o que confere ao que eles fazem uma legitimidade incontestável. Ambos também, é claro, se tornam proeminentes em conjunturas de crise, prometendo ao país um novo começo, uma vez que a ordem política tenha caído em descrédito generalizado.

Estes são pois os paralelos óbvios. Existem também diferenças óbvias. Destas, são quatro as mais significativas. Berlusconi entrou para a política, já à frente de um império de negócios, utilizando a sua vasta fortuna para ganhar um poder com o qual poderia proteger os seus interesses. Ele estava a aproximar-se dos sessenta quando ele assim o fez. O seu principal instrumento para ganhar e reter o poder era o controle da televisão como um meio para esse efeito. As suas capacidades em comunicação eram as de um verdadeiro profissional do pequeno ecrã que conhece muito bem os seus rituais e os recursos e quando como comerciante e proprietário dos canais se dirigia à Nação, aparecia sempre numa forma cuidadosamente encenada.

Renzi, pelo contrário, é uma criatura da pura política. A sua ascensão pode ter deixado uma fraca lufada de fedor atrás dele – pecunia non olet dificilmente se aplica aqui. Mas fundos, duvidosos ou acima da lei, foi só um meio para a sua ambição: a riqueza não é um fim. O objectivo é o poder. A posse do poder – esta é a segunda maior diferença – foi alcançada por um indivíduo, na casa dos quarenta, não dos sessenta: uma geração mais jovem. Berlusconi baseou muito da sua atracção inicial baseado na pretensão, não só de que ele era um estranho ao sistema político, mas era também um homem que demonstrou as suas capacidades na criação de riqueza como um gestor e um empreendedor: ele podia fazer andar a Itália como o tinha feito, e muito bem, com as suas estações de televisão e o seu clube de futebol. A atracção de Renzi está na idade, não na experiência. Em si-mesmo, jeunisme é um cartão banal, jogado crescentemente pelos políticos em todos os lugares nas sociedades pós-modernas. Mas Renzi fez da sua juventude- algo muito mais do que um simples atributo individual: fez dela a espada emblemática de um rejuvenescimento colectivo em curso, cortando através das disfunções geriátricas do sistema político e dos seus detritos na vida económica e social em geral. Este tipo de promessa não tem as credenciais tangíveis de sucesso material que Berlusconi reivindicava, mas ligando-se directamente com as frustrações de duas gerações de italianos sufocados pela imobilidade e pela decadência da Segunda República, é verdadeiramente potente como apelo.

Juntamente com o contraste na mensagem, há uma variação pelo meio. Renzi chamou primeiramente a atenção do público ao ser o vencedor de um show popular e nunca perdeu o seu entusiasmo por aparições de todos os gêneros na televisão, onde a sua bonita e gordinha aparência e a sua forma arrogante fizeram dele uma natural atração assim que entrou na política. Mas em tempos, o seu verdadeiro forte foi a WEB. Facebook para projetar a sua imagem e cultivar os seus apoios de maneira bem mais contínua do que lhe poderia oferecer um estúdio de televisão e sob o seu controle muito mais completo (mesmo que assim ele se exponha a uma ou outra gaffe ocasional, como o ter colocado uma imagem de si-mesmo ao lado da cama de Mandela no hospital, uma fracção de segundo após o aparecimento da notícia da morte de Mandela); Twitter para fornecer um fluxo contínuo das suas frases consideradas emblemáticas e os seus pareceres sobre assuntos do momento. Berlusconi, que gosta de contar piadas de bares de hotel em contextos informais, tendia a ser bombástico nos seus discursos políticos supostamente informais mas na verdade preparados e que eram ditos também nos grandes salões entre gente de casaco assertoado em Arcore. Renzi, pelo contrário, é ostensivamente casual no vestir e no falar. Ao tomar o poder, Renzi dirigiu-se ao Senado com as mãos nos bolsos. Isso não foi bem recebido. Mas em geral ele é muito superior a Berlusconi como um comunicador, muito mais rápido nas suas passadas políticas, com um dom excepcional para responder on-line e com um bom reportório de piadas. Por comparação, os seus modelos de referência, Blair e Obama, são pessoas muito pesadas nos discursos escritos. Renzi é muito mais rápido na resposta verbal. Como a sua melhor retratista tem observado, diferentemente de todos os outros líderes atuais do Ocidente, ele não precisa de conselheiros.[5] Sem esforço, dispensa os conselheiros. O seu perigo reside numa arrogância demasiado visível, convidando à zombaria. Pelo caminho, ele sabe como transformar paródias de si mesmo numa alegre auto-ironia. Se isso irá continuar assim, agora que está no topo, onde também há muitas das suas descartáveis farpas e o risco de algumas humilhações incômodas, é o que se está para ver.

No momento, ele está na maior. Desde há vinte anos, os descendentes do comunismo italiano procuraram em vão o que ele com um aperto de mão a Berlusconi obteve num par de semanas. Para o PD, como para os seus antecessores, o problema em cada eleição na Itália é a presença, representação permitida pelo sistema eleitoral, de rivais bem menores à sua esquerda, ou – mas com menor dor de cabeça – de aliados um pouco à sua direita. Se ao menos o partido desejasse ardentemente poder eliminar tais concorrentes com uma segunda volta ao estilo francês, em que depois de um show sobre a proporcionalidade na primeira volta , a vitória por maioria simples seria obtida na segunda volta , ele entraria sem entraves no seu meio natural como um partido do governo de centro-esquerda num sistema político limitado seguramente a ele mesmo e ao seu homólogo do centro-direita. Isto sempre permaneceu fora do seu alcance, em parte devido à relutância natural dos partidos marcados pela impotência ou pela extinção sob tal sistema, para o votar no Parlamento. Foi também – mais criticamente – porque Berlusconi, embora muitas vezes fazendo um barulho semelhante, só não foi melhor do que o centro-esquerda a segurar uma ampla coligação de forças atrás dele com menos ganhos eleitorais, devido a uma redução drástica no número destas mesmas forças, mas em que também era necessário o apoio de uma força particular, a liga do Norte, que tinha uma identidade forte e organizada base que não poderia ser facilmente obrigada a uma Gleichschaltung do tipo da prevista pelos antigos comunistas.

Uma representação justa da opinião política na Itália, uma característica da primeira República, tinha sido lançada no acto fundador da segunda. Mas os sistemas eleitorais híbridos instalados posteriormente não foram satisfatórios para ninguém. Destes, o Porcellum foi amplamente considerado como o pior de todos eles. Napolitano, uma vez firmemente montado na sua sela ultra presidencial, pressionou o Parlamento para acabar com isso. Tal como o partido ao qual ele outrora pertenceu e pelas mesmas razões, não era nenhum segredo que Napolitano achava que uma segunda volta era o sistema ideal. O resultado da eleição de 2013 e o clamor do impasse institucional que se seguiu, desencadeou muitos apelos para uma reforma eleitoral – durante anos o rei Charles à frente dos media – cada vez mais altos e mais urgentes. Esta era a situação quando na primeira semana de Dezembro do ano passado o Tribunal Constitucional longamente considerou o Porcellum inconstitucional, por dois motivos. O prémio de uma maioria absoluta atribuído ao partido com maior número de votos, não importa se muitos se poucos, era uma distorção da vontade democrática. As listas fechadas, apresentadas por cada uma das partes, a fixação dos seus candidatos numa hierarquia de importância de cada distrito eleitoral, negava aos eleitores a liberdade de escolha na selecção dos seus representantes.

A decisão do Tribunal veio como um calafrio repentino para o PD. Se era permitido manter as coisas como estavam, as próximas eleições deveriam desenrolar-se num sistema proporcional, sem nenhuma compensação, e os eleitores poderiam seleccionar e escolher entre os candidatos da lista por eles preferida – repugnante para todos os senhores do Partido, como estando a enfraquecer-lhes o poder sobre as suas tropas. Um tal cenário era o que o PD mais razões tinha para temer.. Era vital bani-lo, portanto.

Providencialmente, o homem para conseguir isto tinha chegado. Cinco dias depois da decisão do Tribunal, Renzi assumiu a direcção do PD. Em apenas umas poucas sessões feitas à pressa e à porta fechada, Renzi e Berlusconi, cada um apoiado por um assessor com especialização técnica – o cientista político Roberto D’Alimonte, há muito tempo na Universidade de Florença, como assessor de Renzi; para Berlusconi o seu assessor florentino Verdini,– estabeleceram um acordo para dividir o bolo eleitoral entre eles. Juntos poderiam apresentar no Parlamento um sistema concebido para lhes garantir a maior parte da representação política no futuro.

Depois de pequenas alterações, as disposições da lei para entrar em vigor, dariam um prémio de 15 por cento dos assentos na Câmara para qualquer partido que alcançasse 37 por cento ou mais , na primeira volta , com um limite máximo de 55 por cento dos assentos; e se nenhum dos partidos atingisse 37 por cento, um total de 52 por cento dos assentos seria para o partido com a maior votação na primeira volta e que viesse à frente na segunda volta . Em cada distrito eleitoral, de que haveria muitos mais, ainda haveria listas fechadas dos partidos, mas estas seriam mais curtas – três a seis candidatos – tornando mais fácil para os eleitores a escolher entre eles. O objectivo deste regime era o de contornar as objecções do Tribunal face ao Porcellum, especificando um limite abaixo do qual o prémio não desceria, preservando assim a essência do Porcellum – uma flagrante distorção da opinião eleitoral, enganando com um gesto simbólico a possibilidade de maior liberdade de escolha entre candidatos. Limando o texto – grandiosamente intitulado o Italicum pelos seus arquitectos; apelidado de Renzusconi pelos seus críticos – constituía uma maior segurança contra as tentações desgarradas entre o eleitorado. Três limites separados para a representação política de todos os tipos foram estabelecidos: um partido que se apresentasse por si-próprio, sozinho, teria que ter mais de 8 por cento para ganhar um qualquer lugar que seja, um partido em coligação precisa apenas de 4,5 por cento e uma qualquer coligação precisaria de 12 por cento.

O pacto entre os dois líderes, no entanto, também estipulava que o Senado seria oportunamente abolido como um órgão eleito tout court, dando lugar a um assembleia com muito menos poder e constituída por notáveis regionais – em efeito uma folha de figueira a esconder que se trata de um sistema com uma só Câmara . Mas enquanto um novo sistema eleitoral pode ser aprovado por uma maioria simples nas duas Câmaras, a Câmara alta não pode ser modificada sem se alterar a Constituição italiana. Letta tinha tentado curto-circuitar os procedimentos para tal objectivo mas tinha falhado. O artigo 138 da Constituição permanece em vigor, inquebrável: estabelece que as alterações à Constituição exigem duas deliberações sucessivas por cada Câmara , com um intervalo não inferior a três meses entre elas, e na segunda ocasião as alterações devem obter a aprovação da maioria absoluta em cada Câmara e devem então ser sujeitas a um referendo popular, no prazo de três meses após a sua publicação, se um quinto dos membros de qualquer Câmara , ou meio milhão de cidadãos, o pedir – uma disposição que somente uma maioria de dois terços em ambas as Câmaras pode evitar, o que não tem actualmente nenhuma chance. A lei eleitoral poderia ser apressada e apresentada numa questão de dias. A abolição do Senado levaria pelo menos um ano, com a certeza de um referendo, no final do processo.

***

A falta de sincronia entre os dois processos permitiu que os partidos menores da coligação de centro-esquerda governante e uma minoria no próprio PD colocassem um pequeno travão nas rodas do vagão em movimento chamado Renzusconi. Se a lei eleitoral passasse como proposto, abrangendo ambas as Câmaras antes do Senado ser abolido, não haveria nada para impedir Renzi de querer uma eleição de urgência, sem demora, em que os partidos menores seriam destruídos e a parte do PD cuja fidelidade tinha sido dada a Bersani ou d’Alema, sobre cujos corpos ele tinha ganho o poder, seria igualmente arrasada. Mas se isto estava confinado à Câmara, enquanto o longo processo para alterar a Constituição de modo a conseguir abolir o Senado estava a decorrer, haveria pelo menos a possibilidade de decorrer um ano antes destes grupos enfrentassem os camiões pesados e, neste intervalo, algo poderia acontecer que os salvasse. Embora diminuindo em número, enquanto os adversários antigos começaram a aglomerar-se em torno do novo líder, os calafrios de uma minoria no interior do PD não poderiam ser completamente ignorados. Durante a noite, o novo sistema eleitoral foi restrito à Câmara, impedindo-se eficazmente o recurso às urnas até que o Senado fosse derrubado, uma vez que este último iria ser eleito pelo Porcellum, agora limpo do prémio e das listas fechadas, tudo isto a garantir um resultado assimétrico com o da Câmara, como em 2013.
O cálculo de Renzi em alcançar o seu pacto com Berlusconi foi duplo. Ele tinha um objectivo a curto prazo. Para garantir um tão fundamental acordo com o maior partido de oposição ao governo, ele mostrou que Letta era agora irrelevante e poderia ser destituído sem mais delongas. De importância muito maior e mais duradoura foi a clara vantagem que o acordo concedeu ao PD, permitindo-lhe mover-se muito mais para o centro, invadindo assim o eleitorado de Berlusconi, sem ter de temer prejuízos à sua esquerda. A eleição em duas voltas tinha sido o seu Santo Graal: o partido tinha-o agora conseguido.

Com Renzi de longe muito à frente nas sondagens de opinião, porque aceitou Berlusconi um acordo em que ele tinha tão pouco para ganhar e, senão tudo, tinha muito certamente a perder? Três circunstâncias o terão empurrado no sentido desta armadilha. Desde a desgraça de Umberto Bossi, a liga do Norte – que, no passado, sempre tinha sido sempre necessária para ganhar uma eleição, e por razões óbvias vetaria um acordo deste tipo – estava em claro eclipse. Berlusconi contou que poderia agora descartar-se dela. Além disso, ele era agora um criminoso condenado, proibido de ocupar cargos políticos por dois e talvez por mais anos, que tentou e não conseguiu derrubar o governo, com o custo de uma cisão no seu partido. Ao selar um pacto com Renzi para transformar o sistema eleitoral e o constitucional, poderia ele próprio regressar ao centro da vida política, não só independentemente das sentenças judiciais contra ele, mas na esperança de que poderia ser adequadamente compensado pelo seu serviço desinteressado a favor da Itália, como um estadista responsável por ter estes conjunto de serviços. Alguns dos elementos do pacote legislativo, reforçariam os poderes do executivo em detrimento do legislativo eram, aliás, todos aqueles que ele próprio defendeu muitas vezes, mesmo se nunca bem sucedido em alcançar estes objectivos. Ele podia sentir-se com direito a uma quota-parte da inspiração do acordo alcançado e a ser convenientemente recompensado como co-arquitecto de uma nova e melhor ordem política.

Por último, e criticamente desde a primavera de 2012, quando o torniquete do Ministério da justiça começou a fechar-se à sua volta, o julgamento político de Berlusconi tinha-se tornado cada vez mais errático. Retirado do poder por Napolitano, sem nunca se tornar plenamente consciente do que lhe tinha acontecido, Berlusconi tornou-se cada vez mais distante dos seus assessores mais experientes, envolvendo-se com um par de semi-alfabetizadas dançarinas do Sul, uma delas a sua companheira actual, é desde aí que se começaram a disparar sobre ele os tiros do seu partido, para além do seu poodle e de um indescritível jornalista de televisão. Ilusões que seria fácil limpar, com o Norte claramente desligado da Liga, e escapar mais ou menos impune às sentenças contra ele, ilusões estas que foram criadas neste bunker de combinações, de orquestrações políticas. Mesmo Verdini, arriscando o exílio de Arcore, dava sinais de desânimo. Nestas condições Renzi, vendo como Berlusconi estava enfraquecido poderia, basicamente, ditar as linhas gerais de um acordo favorável ao PD.

A manipulação dos sistemas eleitorais para maquilhar os resultados não é nenhuma raridade nas democracias liberais: se há alguma coisa, esta até é a regra e não a excepção. Na Inglaterra e na América, os primeiros sistemas maioritários partiram dos acordos pré-modernos de uma sociedade hierarquizada dominada por uma classe aristocrática constituída pelos mais ricos e poderosos, acabada de emergir das suas origens feudais, em que poucas eleições foram mesmo contestadas. No início do século XVII, apenas 5 a 6 por cento dos círculos eleitorais tinham mais de um candidato; até mesmo no Longo Parlamento , não havia mais do que 15 por cento. A sua manutenção nos tempos modernos expressa o peso da natureza da democracia anglo-saxónica. A quinta República em França e na Espanha, a monarquia restaurada oferece outros exemplos familiares de sistemas eleitorais manipulados para manter de fora a concorrência indesejável da esquerda. Na Itália, o regime oligárquico que se seguiu ao Risorgimento – em 1909, o eleitorado foi de 3 milhões numa população de 33 milhões – dava um ar de um sistema maioritário à primeira volta modificado, a partir do modelo da Inglaterra. Depois da primeira guerra mundial, o sufrágio universal masculino e a representação proporcional apareceram em simultâneo, como complementos lógicos da democratização. O fascismo, não menos logicamente, anulou esta última com a lei de Acerbo. Quando a democracia foi restaurada após a segunda guerra mundial, a Constituição italiana que saiu da resistência foi projectada para impedir qualquer retorno ao regime autoritário. Na primeira República, uma Presidência honorífica de poderes estritamente limitados, duas Câmaras legislativas, de peso igual entre elas, sem direito a que o primeiro-ministro pudesse demitir ministros, segredo no voto parlamentar aquando de aprovação de leis, referendos populares sob petição de cidadãos – e representação proporcional – tudo isto em conjunto.

Com a segunda República, esta configuração começou a ficar anormalmente distorcida para os dois lados, acima e abaixo. Distorcida para baixo, com a representação proporcional primeiramente a ser reduzida para não ser mais do que um resíduo do sistema eleitoral e, em seguida, abolida completamente com a introdução de um prémio na mesma linha do sistema Acerbo. Distorcida para cima, com a Presidência a tornar-se eventualmente o centro do poder mais poderoso na terra, a fazer e a desfazer os governos. Com o segundo pacto estabelecido entre Renzi e Berlusconi ir-se-á introduzir a Terceira República, concentrando o poder no executivo e reduzindo a possibilidade de escolha do eleitor muito mais drasticamente. Por qualquer padrão que a questão seja analisada, o novo sistema eleitoral, que passou sua primeira audiência, é um monstrum . Não contente com um prémio, premiando o vencedor quase que em metade dos votos, quase tantos lugares de prémio como pelos votos dos eleitores recebidos, vai ainda mais longe até do que o conseguido pelo regime de Mussolini nos obstáculos que coloca no caminho de qualquer partido menor ou coligação poder garantir um qualquer assento que seja . Nas palavras do advogado Aldo Bozzi – actuando como um cidadão privado – cujo reclamação acabou por receber um veredicto do Tribunal Constitucional contra o Porcellum, o Renzusconi é um Super-Porcellum. Mesmo D’Alimonte, um dos seus próprios arquitectos, publicamente tem-se questionado se os seus limites são constitucionais.

Irá este veredicto significar que, tal como o seu antecessor, será deitado abaixo ? Uma tal hipótese pode parecer ingénua. Na Europa, os tribunais constitucionais são raramente surdos às exigências do governo em exercício – a maleabilidade do Bundesverfassungsgericht na Alemanha é bastante típica – e o italiano não o é nada menos. Dez dos seus quinze juízes são nomeações políticas directamente, com metade escolhida pelo Presidente e a outra metade pelo Parlamento. Para ter uma noção do efeito, é suficiente notar que a mais recente escolha de Napolitano foi um conselheiro de Craxi, Amato, enquanto o seu actual vice-presidente, Mazzella – escolhido pelo Parlamento sob o governo Berlusconi – foi proposto a Alfano, Berlusconi e a Letta durante um jantar privado, poucos meses antes do tribunal se ter pronunciar-se sobre o Lodo Alfano. Depois de atingir as listas partidárias bloqueadas pelo Porcellum, em Dezembro, quando o Tribunal publicou as razões da sua decisão em Janeiro este deixou aberto – ‘após consultas informais’ – a sua permissibilidade, apesar de tudo, em circunscrições menores. Três dias mais tarde, Renzi e Berlusconi, tendo questionado o Tribunal com antecedência, anunciaram o seu pacote com apenas essa pequena modificação do Porcellum nele contida.

As performances judiciais estão porém longe de serem peculiares à Itália. Na Grã-Bretanha, basta-nos só pensar nos casos de Denning, Widgery ou Hutton. Único, no entanto, é o espectáculo de um assembleia composta por deputados cujos lugares são devidos a uma legislação revogada como sendo um abuso inconstitucional sobre os direitos dos cidadãos e, apesar disto , não só continuarem a sentar-se e legislar imperturbavelmente, mas também a redigir a própria Constituição. Nos anais do direito público, não se viu até agora nada que lhe seja comparável. Mas na Itália, o Tribunal Constitucional é imperturbável. Explicando que ‘a continuidade do Estado’ estaria em perigo se a ilegalidade do Porcellum pusesse em causa a legitimidade do Parlamento por ele eleito e, por isso apenas, o Tribunal já autorizou o Parlamento a mudar a Constituição. De acordo com a lógica de Alice no país das maravilhas, se amanhã um governo defraudasse as eleições fortemente ou proclamasse um estado de emergência suspendendo as liberdades civis, poderia estar errado, mas deve continuar em acção , pois caso contrário a existência contínua da República poderia estar em risco – a doutrina dos dois corpos do rei, o corpo político e o corpo natural, actualizada para os pós-modernos.

Durante a revolução de 1848, no alvorecer dos princípios da proporcionalidade democrática – o primeiro regime de representação política equitativa tinha sido proposto por um seguidor de Fourier dois anos antes – Lamartine sublinhou : “ as leis eleitorais são as dinastias da soberania nacional”. Rapidamente como se apontou, e profética, a analogia afirmava-se ser, ela não era para se saber. A dinastia que agora está a ser impingida ao povo da Itália é retrógrada mesmo entre seus pares: Bourbon da variedade napolitana, pode-se dizer. Mas o seu criador pode legitimamente exultar com isso. Sendo assim, o momento que Renzi actualmente goza poderia ser protegido, mantido e guardado a sete cadeados e durar muito tempo.

Durante a noite, o Partido tornou-se numa falange largamente submissa atrás dele. Muito satisfeito consigo mesmo e desdenhoso dos outros para além do seu círculo florentino a que está muito ligado, Renzi, no entanto, promete alcançar para o PD um poder que este partido nunca tinha tido. O Partido nunca tinha encontrado um vencedor, e por agora as frondas seriam poucas. Os seus membros do governo eram politicamente pesos-leves, incapazes de o questionarem, sobretudo quando a função é colocar em realce a sua juventude e a sua paridade de género, assim como colocar a sua personalidade em relevo. A grande imprensa é-lhe favorável através das suas direcções, quando não são líricos nesse mesmo apoio. Mas este entusiasmo da imprensa faz lembrar a euforia dos media britânicos ao redor do precoce Blair, mas o contexto mudou. Então o neoliberalismo estava no seu pico mais alto de importância e de domínio, reinava na política, nas ideias, na economia. Hoje, a sua maré está ainda a subir, mas os cavalos brancos estão a desfazerem-se e a exuberância desapareceu. Cameron e Clegg podem pressionar para além de Thatcher, mas não há nenhuma grande flutuação popular na sua agenda. Sob Hollande ou Rajoy, Kenny ou Passos Coelho, para não falar de Samaras, os cortes nas despesas públicas e a desregulamentação laboral podem continuar a prosseguir, mas num espírito de necessidade severa, e não de emancipação.

O estilo do Renzi não permite isso. A sua mensagem de esperança e de entusiasmo requer medidas que são algo mais do que sacrifícios, são algo mais do que andar a apertar ainda mais o cinto. Chegando ao poder por um golpe de estado no interior do Partido, sem um mandato popular, ele precisa de validação nas urnas, e as eleições europeias estão à porta. No passado, as variantes de centro-esquerda do neoliberalismo eram tipicamente compensatórias, oferecendo por um lado subsídios aos círculos eleitorais estratégicos para entorpecer o seu impacto social. Com a crise, diminuiu-se a margem para estas concessões. Para Renzi, é crítico que estes tenham de ser alargados novamente. Os subsídios devem vir à frente, sem demora, antes dos eleitores se decepcionarem. Assim, o seu pacote de medidas sociais para a abertura combina legislação que torna muito mais fácil que os novos trabalhadores sejam despedidos e de tal modo que até mesmo o the Economist levantou as suas sobrancelhas, com um folheto de oferta de €1000 em reduções fiscais para os menos bem pagos, descaradamente, apresentadas como uma prenda nas urnas.

Para pagar por estas e por outras despesas para induzir o crescimento, Renzi tem deixado claro que o espartilho do pacto fiscal terá de ser solto. A Itália, ele já informou Bruxelas, não pode ser tomada como um aluno a ser ensinado em frente ao quadro. Uma vez que os cálculos da Comissão Europeia, tal como os do Banco Central Europeu e não menos importante, como os do regime de Berlim – as três autoridades que importam – em última análise, são sempre mais políticos que técnicos, é susceptível de conseguir tomar o seu caminho. O zelo do Renzi pelas reformas estruturais pode ser confiável, o que não era assim com Berlusconi, então não há nenhuma razão para lhe dificultarem a vida por ter sido demasiado literal sobre o limite máximo admissível em termos de défice . As regras da UE, devem revelar-se inconvenientes, terão quer sensivelmente modificadas, não devem ser mecanicamente seguidas. Muito do mesmo se aplica para o governo de Manuel Valls em França, não menos ansiosamente saudado na imprensa de negócios e o FT num editorial local escrevia : “Os novos rapazes europeus sob aperto – Bruxelas deve considerar a hipóteses de orçamentos mais flexíveis para Valls e Renzi.’ Até que ponto tais ajustes irão fornecer sangue vital para a economia italiana em termos de longo prazo é o que permanece por ser visto . Para o seu novo governante o que conta no curto prazo é o oxigénio eleitoral. No momento, Renzi tem todos os motivos para estar confiante.

***

O que é o inverno do Patriarca? Numa farsa típica da justiça italiana, a sua condenação por sonegação de impostos de vários milhões terminou com o procurador a dispensar qualquer hipótese de prisão domiciliária e o Tribunal – movido pelos seus problemas de coração – atribuiu-lhe umas pesadas quatro horas por semana de serviços comunitários num lar de idosos perto do seu palácio em Arcore: exactamente o resultado necessário para mantê-lo na direcção do Renzusconi, que ele tinha ameaçado sabotar se qualquer pior punição lhe viesse a ser imposta – mas quem poderia suspeitar das regras da terra e numa linha que seja em face das autoridades legais ? Embora durante muito tempo tenha preservado a sua liberdade pessoal, Berlusconi enfrenta sanções muito mais fortes depois que a sua sentença em Junho passado de uma pena de prisão de sete anos por prostituição de menores se venha a tornar definitiva num tribunal superior, e é provável que a sua vida política esteja a chegar ao fim. E o seu partido, Forza Italia, já em posição baixa nas sondagens , vai afundar –se ainda mais, ou será capaz de capotar , deve já não ser capaz de aguentar o seu dia-a-dia. O nome dele, sendo o seu único verdadeiro activo, haverá então pressão no interior das suas fileiras para que um dos seus filhos o transporte nos seus porta-estandarte. Um filho vagabundo é não apresentável. Das suas filhas, Berlusconi está muito mais perto da mais velha, Marina, filha do primeiro casamento, que é quem comanda Fininvest e Mondadori como partes do seu império. Mas ela vai talvez reformar-se e não mostra nenhum sinal significativo de querer pegar no bastão. Barbara, a sua filha do meio, de 29, trabalha no clube de futebol de Berlusconi, AC Milan. Ela é encantadora, extrovertida e tem fama de ser muito profunda. A mãe, Veronica Lario, agora profundamente distanciada do seu pai, teve o cuidado de a educar tão longe dele quanto possível e as relações entre eles são muito mais distantes. Menos popular do que a sua meia-irmã, ela tem mais apetência pela política. Oportunamente, uma entrada de Barbara Berlusconi na política não é inconcebível.

Os herdeiros biológicos serão, no entanto, a parte menos importante do legado histórico do Berlusconi. Durante os vinte anos da Segunda República, a Itália considerou este período, em algo como um equivalente peninsular do ‘período de estagnação’ na URSS. A corrupção quase que não diminuiu, e o país entrou em declínio económico e social. Os governos de Berlusconi foram piores do que os dos seus adversários, mas não por uma grande margem, uma vez que nem a esquerda deixou muito marca legislativa. A principal mudança do período veio com a entrada da Itália na União Monetária, sob Romano Prodi, mas isto era ambíguo, reduzindo os custos do país nos seus empréstimos, mas minando as suas exportações. Além disso, o livro está em grande parte em branco e uma vez que Berlusconi governou por um pouco mais de tempo que o centro-esquerda, a sua responsabilidade é então maior.

Mas seria errado concluir que ele não conseguiu nada, mesmo que no final nem sequer tenha a imunidade pela qual ele tinha entrado na política. A grande realização de Berlusconi foi transformar os seus adversários na sua própria imagem. A Itália tem desde há muito tempo uma tradição de ciência política de alta qualidade. No ano passado uma das suas melhores mentes, Mauro Calise, publicou um livro intitulado Fuorigioco – ‘fora de jogo’. Nele, o autor argumentou que a personalização da política não era um espectro anti-democrático, recordando as tentações de um desacreditado passado, o que a esquerda italiana durante muito tempo temia, mas a força hegemónica da lei em todas as democracias atlânticas salvou a Itália. Weber pensou que a liderança por património ou por carisma estava historicamente em declínio no Ocidente. Mas na verdade era a autoridade legal-racional que ele acreditava ser a característica das formas modernas da lei que estava ultrapassada . A vídeo-política recriou a liderança carismática. Isto não é um perigo. Actualmente, a macro-personalização do poder é pública, responsável e é criticável . Esta corresponde e responde a um mundo em que a comunicação já não é um instrumento de política, mas a sua essência e em que não há nenhuma razão para se ter medo. Porque a vídeo-política é auto-limitada, produzindo líderes que são ao mesmo tempo muito poderosos e muito frágeis – vulneráveis às sondagens de opinião e às urnas de voto. O que faz estes políticos subir também os pode fazer descer . A verdade é que essa macro-personalização não é uma antítese da democracia, mas a sua condição, num momento em que os partidos perderam a sua força. A esquerda italiana recusara-se a entender isto, associando erradamente a norma liberal de um ‘presidencialismo monocrático’ com as memórias do fascismo e em seguida estigmatizando a situação como berlusconismo. Recuando em introvertidas formas colectivas de liderança, sem qualquer carisma, tinha-se entregue o campo da competição relevante a Berlusconi, que nisso é um verdadeiro mestre.

Calise publicou o seu livro alguns meses antes de Renzi ter capturado o PD, e pode ser lido como notas programáticas de uma extrema lucidez para o que se iria verificar, com o centro-esquerda a ter encontrado um líder capaz de ganhar a Berlusconi no seu próprio campo. O que está na mesma categoria, naturalmente, no seu diagnóstico sanguíneo sobre as formas necessárias da vida democrática de hoje, é uma reflexão sobre a sua própria substância. A macro-personalização não é ideologicamente neutra. Para adoptar os termos de Calise, isto responde a um mundo em que as personalidades se tornam grotescamente ampliadas – Super Mario e o resto – como diferenças partidárias, e com isso as escolhas dos eleitores, pari passu, reduzem-se. Uma duradoura realização de Berlusconi, de que ele está consciente, é a de ter reproduzido em Renzi não simplesmente um estilo de liderança, mas uma marca da política comparável à dele próprio, tal como Thatcher o fez com Blair. É graças a ele, ele disse-o várias vezes, que Renzi tem virado do avesso o PD, enterrando de uma vez por todas qualquer vestígio de um passado socialista-comunista. É uma sua reivindicação legítima. Mas a Itália, que, desde a guerra, tem conhecido rebeliões mais políticas, de um tipo ou de outro, contra a ordem estabelecida do que qualquer outra sociedade europeia, não está ainda completamente curada de tudo isto . Enquanto Berlusconi e Renzi falavam entre eles, estavam ambos muito longe da sua boa forma . O M5S dificilmente escapa à etiologia de Calise, apesar destes não fazerem parte da vídeo-política. Grillo personifica o Movimento Cinco Estrelas, como o seu principal fundador que é bem mais vasto que a vida do seu fundador e líder. Um autocrata que não tolera nenhuma dissidência, ele também opera fora do Parlamento, mantendo dentro margens de liberdade muito estreitas aos seus seguidores e capaz de proceder à expulsão sumária daqueles que quebrem a disciplina; enquanto o número daqueles que votam on-line nas deliberações do movimento permanece pequeno, não mais de trinta mil aproximadamente. A grosseria de muitas das intervenções do Grillo tanto podem repelir como atrair; o mesmo se pode dizer quanto à sua indeterminação ideológica de grande parte do seu apelo, a permitir inflexões tanto para a direita como para esquerda. A sua geral – não é completamente invariável – recusa em fazer acordos com os outros partidos ou coligações também tem sido uma atitude auto-destrutiva. Estivesse ele disposto , depois do sucesso do M5S nas eleições do ano passado, para dar apoio externo a Bersani em troca de um acordo sobre a reforma política, hoje o Quirinale estaria livre de Napolitano e Renzi ainda estaria no Palazzo Vecchio e a Itália poderia ter evitado um Neo-Porcellum.

Se o que se pretende é sermos eficazes então o protesto exige o trabalho da inteligência, juntamente com a intransigência da vontade. Talvez Grillo, aprendendo com a experiência, venha a mostrar ser mais versado e versátil e menos comandante, no futuro, e o movimento que ele criou seja na verdade mais do que um redemoinho resultante da passagem de uma turbulência. Os italianos devem esperar que assim seja, pois com o desaparecimento de toda e qualquer esquerda significativa e para a qual não há nenhum substituto, o M5S não só pode também emergir como a única oposição de importância no país e com todas as suas falhas e paradoxos, como ainda representa o único esboço algures em toda a Europa de uma contra-força para todos aqueles a quem roubaram a democracia representativa. Felizmente, no meio de um deserto de conformismo nos media – com uma benevolência cínica, um senador de centro-esquerda descreveu em privado o jornal La Repubblica, o diário líder da Nação, como o ‘nosso Pravda’ – a Itália possui um só jornal, Il Fatto Quotidiano, fundado há quatro anos atrás por um grupo de jornalistas independentes, que não têm medo de ninguém e que quebram todos os tabus: um caso único de uma ponta do continente à outra. Geralmente amigável para com o M5S, Il Fatto é, porém, muitas vezes profundamente crítico deles também: simplesmente o que é necessário.

Falar do milagre italiano, actual na época de Fellini e da Vespa, é um tempo que há já muito tempo mudou para o seu oposto. Durante décadas, os italianos superaram os estrangeiros nos lamentos à volta do Desastre Italiano e, no máximo, alguns espíritos corajosos defenderam algumas bolsas redentoras da excelência, aqui e ali: na moda, os carros Ferrari, o Banco Central. Não há dúvida que o país ocupa um lugar especial no conjunto dos Estados da Europa ocidental de hoje. Mas isto é normalmente mal interpretado. A Itália não é um membro médio da União. Mas também não apresenta fortes desvios relativamente a qualquer padrão que se tome como referência e a que deve ser ajustado. Esta é uma frase consagrada para descrever a sua posição, muito usada dentro e fora do país, mas está errada. A Itália não é uma anomalia dentro da Europa. A Itália está muito mais perto de ser um concentrado da própria Europa.

Notas

1. “The Economic Impact of European Integration” (Discussion Paper 6820, Centre for Economic Policy Research, 2008). The explanation of these findings no doubt lies in the similarity – rather than complementarity – of the output structures of the national economics so joined.

2. Giovanni Sartori’s book Il Sultanato appeared in 2009. Sartori seems to have first used the term on 5 July 2008, shortly after Berlusconi’s re-election.

3. On the internet and in print, there has long circulated in Italy the attribution to Napolitano of a fervent encomium to Operation Barbarossa, supposedly published in the summer of 1941 in Il Bò, the fortnightly publication of the GUF at the University of Padua, which now possesses the most complete holding of the journal, where this piece is not to be found, though two issues from the autumn are missing. At that point Napolitano, just about to matriculate, was too junior to be a plausible contributor to Il Bò, though appearing in due course in the GUF periodical in Naples. Oddly, the apocryphal quotation has never been denied by the Quirinale.

4. For Monti’s revelations, confirmed by De Benedetti, see ‘Il piano del presidente’ in Alan Friedman’s Ammaziamo Il Gattopardo (2014), an account all the more painful to the Quirinale for the warm agreement of its American author with the objectives of the Passera plan.

5. Chi commanda Firenze. La metamorfosi dei poteri e i suoi retroscena attraverso la figura di Matteo Renzi by Duccio Tronci (Castelvecchi, 139 pp., £14, May 2013, 978 8 87615 741 7): much the best study of its subject.

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