20 de abril de 2016

Trotsky e o problema da burocracia soviética

Kevin Murphy resenha o livro Trotsky e o problema da burocracia soviética escrito por Thomas Twiss

Kevin Murphy

historical materialism

Tradução / A academia nunca foi muito amável com Leon Trotsky. Como parte do seu trabalho demonizar a revolução inteira, esta escola totalitária desde o seu inicio retratou Lênin e Trotsky como não melhores do que Stalin. O que ainda hoje se conhece por “estudos acadêmicos” sugere que os padrões ainda melhoram muito. Geoffrey Swain afirma que Trotsky, que era certamente a autoridade contemporânea mais importante no contexto da ascensão do fascismo, “não tinha absolutamente nenhuma compreensão da política europeia”.[1] No lançamento de Trotsky: uma biografia, em Londres, Robert Service (2009) declarou: “Há ainda vida no velho Trotsky – mas se o picador de gelo não fez completamente seu trabalho o matando, eu espero ter conseguido”. Da mesma forma, em sua biografia de Stalin, Stephen Kotkin lamentou que “o golpe bolchevique poderia ter sido evitado por um par de balas” atiradas em Lênin e Trotsky. Para diminuir Trotsky, Kotkin afirma que Stalin não somente o enganou, mas supostamente encontrou sua “vocação” como uma “pessoa do povo” no aparato do partido.[2]

O livro de Thomas Twiss (2014), Trotsky and the problem of Soviet bureaucracy [Trotsky e o problema da burocracia soviética], vai contra esse clima anti-Trotsky. Esta é uma obra atenciosa e meticulosa em muitos níveis. Twiss visa “explicar o desenvolvimento do pensamento de Trotsky sobre o problema da burocracia soviética”. Embora se concentre na burocracia soviética, Twiss não a isola da economia política do sistema stalinista. Este talvez seja o trabalho mais sistemático sobre as análises dinâmicas e em constante movimento de Trotsky. Embora claramente simpático a Trotsky, Twiss frequentemente contesta suas posições sem deixar-se levar pela última moda dos estudos russos que o tratam como um inepto.

Grande parte da análise Twiss é baseada em uma integração habilidosa do que hoje se conhece sobre vários aspectos do sistema stalinista. Ele repetidamente critica Trotsky por aceitar a veracidade da propaganda stalinista, como o julgamento - espetáculo dos engenheiros de Shakhty, em 1928, e o julgamento - espetáculo Menchevique, em 1931.[2] Enquanto Trotsky oferecia insights sobre os julgamentos - espetáculos de Moscou em 1936, os comentários de Twiss apontam para a inexistência de evidências de que “os defensores da repressão” tenham antevisto a possibilidade da restauração capitalista melhor do que “suas vítimas”. Ele também desafia a alegação absurda de Trotsky de que os julgamentos foram uma resposta por parte da burocracia devido ao sucesso da Quarta Internacional. De fato, Twiss repetidamente repreende Trotsky por afirmações exageradas acerca da força da oposição que, supostamente, pressionou o regime para a industrialização para a “esquerda” e que ainda declarava ter milhares de apoiadores em 1936.

As mais importantes críticas de Twiss à análise de Trotsky dizem respeito as coletivizações forçadas de Stalin e aos kulaks (supostamente camponeses ricos). Ele observa que Trotsky aceitou a propaganda stalinista de uma “greve kulak” em 1928 e que as autoridades frequentemente “aplicavam o rótulo de ‘kulaks’ ou ‘kulaks ideológicos’ para camponeses médios ou pobres que resistiram à coletivização”. Significativamente, Twiss enfatiza o erro crucial de Trotsky no apoio à coletivização, que este “aceitou em essência a caracterização da liderança da coletivização como um movimento espontâneo do campesinato”. Somente em 1935 Trotsky reconheceria que os “mujiques assustados” foram levados para as fazendas coletivas “pelo chicote” e, somente em 1939, embora isto não seja mencionado por Twiss, Trotsky começaria a aceitar os resultados do catastrófico custo humano da coletivização na Ucrânia.

De fato, todos os argumentos de Trotsky a respeito da coletivização e dos supostos kulaks foram refutados por evidencias esmagadoras das pesquisas em arquivo. Mesmo antes da abertura dos arquivos, Moshe Lewin mostrou que os kulaks eram propaganda e não um termo econômico, frequentemente aplicado aos camponeses médios e até pobres, o que significa que a coletivização implicava represálias violentas “contra setores inteiros da ampla massa do campesinato”. Conforme argumentou o chefe da Federação Socialista Russa, “se não temos os kulaks, devemos adquirir alguns por nomeação” (LEWIN, 1968, p.77 e 491). Um estudo sistemático dos relatórios da OGPU feitos para Stalin mostra que, no início de 1924, a polícia secreta ainda era simpática à difícil condição do campesinato, mas os relatórios cada vez mais hostis, especialmente sob Yagoda, mostram que eles perderam a fé na própria propaganda, que o termo kulak tornou-se indistinguível ao de campesinato (HUDSON, 2012). Reuniões nas aldeias frequentemente nomeavam viúvas, pessoas idosas ou mesmo sorteavam lotes para atender as absurdas cotas da OGPU de“deskulakização”. Resistências massivas às coletivizações, particularmente pelas mulheres, frequentemente envolviam aldeias inteiras. Mesmo as distorcidas estatísticas soviéticas que tentaram usar os “kulaks” como bode expiatório reconheceram que a maioria dos 2,5 milhões de camponeses envolvidos em 13.754 rebeliões somente em 1930, era formada por camponeses médios ou pobres (VIOLA, 1996, p. 100-131). Esta informação é tão avassaladora que os textos-padrão da história da União Soviética hoje em dia se referem à coletivização como a “guerra aos camponeses” de Stalin. O total de mortes desta guerra, incluindo a coletivização, a deskulakização, a fome e os camponeses que morreram em transito ou nos gulags é superior a seis milhões, incluindo 700 mil presos políticos executados entre 1937-1938 (SUNY, 1998, p. 235-250).

Embora Twiss pareça reconhecer tudo isso, ele falha em reconhecer a única conclusão lógica. Esta não é uma questão obscura a respeito de um aspecto menor do stalinismo. Apesar de suas reservas e revisões posteriores, a posição de Trotsky na época da coletivização colocou-o no lado errado da rebelião camponesa mais violenta do século XX.

As seções mais fascinantes e provocativas deste estudo são aquelas que detalham a mudança de definição de Trotsky da burocracia soviética como um regime bonapartista. Em O Estado e a Revolução, Lênin (2007) sumarizou o papel do Estado como um instrumento para a exploração das classes oprimidas, mas ele também citou Engels com relação à “exceção”, quando “ocorrem os períodos em que as classes em conflito se equilibram tão perto que o poder do Estado como mediador ostensivo adquire, momentaneamente, um certo grau Revista Outubro, de independência de ambos”. Tal foi o caso do bonapartismo no Primeiro e no Segundo Império na França, de Bismarck na Alemanha e, acrescenta Lênin, de Kerensky em 1917. Em 1928, Trotski começou a descrever o regime dentro desse referencial teórico, como um “kerenskysmo ao reverso”. Esse modelo claramente emoldurou muito do seu pensamento sobre o stalinismo, conforme Trotsky faria referência ao bonapartismo soviético em mais de uma centena de
artigos e entrevistas nos doze anos seguintes.

Ao longo dos anos 1930, Trotsky repetidamente usou o paradigma do Estado bonapartista em termos gerais, embora, conforme Twiss descreve, às vezes de maneira inconsistente, favorecendo o termo “centrismo burocrático” ou fazendo referência ao bonapartismo em um tempo futuro como uma força
potencial para a restauração do capitalismo. No início de 1935, ele mudou para uma definição mais precisa tomada da comparação específica com regime do Primeiro Império na França, argumentou que a conquista política do Termidor havia ocorrido uma década antes, e estabeleceu o paralelo com a derrota da oposição de esquerda em 1924. No entanto, assim como Napoleão não “restabeleceu a economia do feudalismo”, argumentou Trotski, “o conteúdo social da ditadura da burocracia é determinado pelas relações produtivas criadas pela revolução proletária”.

Embora faça referência à discussão magistral de Hal Draper sobre os escritos de Marx e Engels a respeito do bonapartismo, Twiss não fornece uma definição precisa para avaliar a análise de Trotsky. Citando longamente Marx e Engels, Draper mostrou que o Estado avança para a autonomização temporária durante períodos de crise por conta de uma classe “guardiã”, fruto de uma “luta de classes não resolvida que equilibra o poder das classes em competição, umas contra as outras”. Compara, assim, o bonapartismo a um molde de gesso que surge porque “não há outra alternativa para impedir a agitação da sociedade, que se divide em conflitos internos”. O bonapartismo fornece as condições, então, para a necessária “modernização da sociedade”, quando nenhuma classe existente é “capaz de realizar esse imperativo sob seu exclusivo poder político”. No entanto, esse arranjo transitório carrega as “sementes da própria dissolução”, uma vez que a modernização significa que a burguesia em fase de maturação começaria a reconhecer seu próprio poder e o Estado bonapartista “começaria a sobreviver do valor deseus serviços” (DRAPER, 1976, p. 439-463).

A tentativa de aplicar a análise de Trotsky a esse modelo coloca muitas questões. Embora ele reconheça a aceitação acrítica de Trotsky de grande parte da autopropaganda do regime sobre os kulaks, Twiss (2014) subestima o papel crucial que essa classe contrarrevolucionária fantasmagórica teve na análise de Trotsky sobre o bonapartismo soviético. A fixação de Trotsky e as centenas de referências a kulaks são inexplicáveis fora do contexto do paradigma bonapartista.

Conforme ele escreveu em abril de 1929:

“O problema do Termidor e do bonapartismo é, no fundo, o problema do kulak. Aqueles que se esquivam desse problema, aqueles que minimizam sua importância e distraem a atenção para as questões do regime partidário, para o burocratismo, para os polêmicos métodos injustos, e outras manifestações superficiais e expressões dos elementos de pressão do kulak sobre a ditadura do proletariado, assemelham-se a um médico que persegue os sintomas, ignorando os distúrbios orgânicos e funcionais”.

Além disso, Twiss cita o estudo de Alec Nove (2011) sobre a economia soviética que mostra que o primeiro Plano Quinquenal resultou na “miséria e fome em massa” de 1933 e que foi a “culminação do mais precipitado declínio em tempos de paz dos padrões reconhecidos de vida da história registrada”. No entanto, Twiss persiste em descrever esta ofensiva estatal como uma virada à “esquerda”, embora ele nunca explique o porquê. Para Trotsky, a suposição era de que a classe trabalhadora se beneficiava da industrialização e, neste sentido, polarizaria contra os kulaks em relação ao qual o stalinismo vacilava. No entanto, nas fábricas o stalinismo havia convertido os sindicatos em órgãos de produtividade, silenciado amplamente seus dissidentes, utilizado rações alimentares como um meio de disciplinar os trabalhadores e prendido milhares de oposicionistas. Ao invés de oferecer estabilidade temporária para evitar que as classes em luta destruíssem a sociedade soviética, o stalinismo era uma força brutal, caótica que golpeava os camponeses e trabalhadores soviéticos numa tentativa de forçá-los a pagar pela rápida industrialização.

A busca de Trotsky por “classes conflitantes” para que estas se ajustassem ao seu modelo bonapartista se provaria ilusória. Em outubro de 1932, quase três anos após Stalin ter iniciado a “deskulakização” e um mês depois do primeiro relatório sobre a fome ucraniana aparecer em seu Biulleten ‘Oppozitsii, Trotsky continuou a alertar o regime sobre o “perigo kulak”. Sua definição refinada de bonapartismo, em 1935, foi orientada, em parte, como Twiss demonstra, pelas concessões do regime aos camponeses pauperizados nas fazendas coletivas. Aqui, a classe conflituosa de Trotsky, por sua própria admissão, sequer existia e a própria natureza da produção agrícola deveria inevitavelmente formar essa força reacionária em algum ponto no futuro. No final da década de 1930, Trotsky abandonou amplamente a retórica do kulak e considerou o imperialismo e, uma parte da burocracia, como as forças restauradoras da
contrarrevolução.

Twiss sustenta que, em 1936, Trotsky acreditava que a burocracia se afastara da “autonomia relativa” indo em direção a uma “extrema autonomia” e, segundo Twiss, “isso sugeria um grau de autonomia de classe”. No entanto, tal transformação para completar a autonomia, teria que ter negado o bonapartismo e representado uma classe, não uma formação “semelhante a uma classe”. Além do mais, durante a década de 1930, Trotsky afirmou dezenas de vezes que o colapso do sistema stalinista era iminente, um prognóstico inextricavelmente ligado ao seu modelo bonapartista – mesmo que seus epígonos mais tarde o ignorassem. Certamente, Trotsky nunca afirmou ter redefinido a teoria marxista do Estado, conforme Twiss sugere. Ou a burocracia era um fenômeno temporário que oscilava entre as classes em disputa ou representava os interesses de uma determinada classe, mesmo que essa classe fosse a própria burocracia. Esta era a posição na qual Trotsky estava se movendo, apesar da afirmação de Twiss de que, em um instantâneo de 1936, teria se congelado seu veredicto final. Twiss falha em responder à pergunta óbvia. Uma vez que classes conflitantes e a natureza temporária do bonapartismo stalinista são descartadas em favor da “extrema autonomia” da burocracia, o que exatamente restaria do modelo bonapartista de Trotsky?

Evidências arquivísticas decisivas têm demolido os mitos stalinistas sobre a  guerra brutal do regime ao campesinato soviético. Os marxistas que, anteriormente, haviam tentado se agarrar as análises remanescentes de Trotsky são agora confrontados com os enigmas de escolher entre repetir o que hoje conhecemos como propaganda estalinista ou, alternativamente, aceitar falhas graves em sua análise bonapartista. Quaisquer que sejam as lacunas deste estudo, Thomas Twiss merece o crédito por ter iniciado uma discussão historicamente mais precisa e não sectária sobre a natureza do sistema stalinista.

Notas:

1. SWAIN, G. Trotsky. Nova York: Routledge, 2006.

2. KOTKIN, S. Stalin: Paradoxes of Power (1878-1928). Boston: Penguin Press, 2014.

3. LEWIN, M. Russian Peasants and Soviet Power: A Study of Collectivization. Nova York: Norton, 1968.

4. HUDSON, H. The Kulakization of the Peasantry: The OGPU and the End of Faith in Peasant Reconciliation, 1924-1927. Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, 2012.

5. VIOLA, L. Peasant Rebels Under Stalin. Oxford: Oxford University Press, 1996.

6. SUNY, R. S. The Soviet Experiment. Oxford: Oxford University Press, 1998.

7. DRAPER, H. Karl Marx’s Theory of Revolution: State and Bureaucracy. Londres: Monthly Review Press, 1976, v. 1.

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