1 de janeiro de 2026

Parte 1 — Formação civilizacional e integração eurasiática inicial

1. Formação civilizacional e integração eurasiática inicial
 
c. 2000 a.C. – século III a.C.

Introdução

A história mais antiga da China costuma ser apresentada como o surgimento gradual de uma civilização singular, marcada desde o início por traços próprios e relativamente isolados do restante do mundo. No entanto, quando observada a partir da perspectiva da História Global, essa narrativa se transforma profundamente. A formação da civilização chinesa não foi um processo excepcional nem desconectado, mas parte de um conjunto mais amplo de transformações que atravessaram a Eurásia e outras regiões do planeta desde o final da Pré-História.

Esta primeira parte examina o período que vai aproximadamente do surgimento da agricultura até a unificação política sob a dinastia Qin, em 221 a.C. Trata-se de um longo intervalo histórico no qual se estabeleceram as bases materiais, sociais, políticas e intelectuais que sustentariam a civilização chinesa por milênios. Ao invés de seguir apenas a sucessão de culturas e dinastias, o enfoque recai sobre processos estruturais: a revolução agrícola, a complexificação social, o desenvolvimento da metalurgia, a formação do Estado, a circulação de ideias e as interações constantes com outras sociedades da Eurásia.

Ao enfatizar paralelismos globais e conexões regionais, esta abordagem busca situar a China no interior de uma história compartilhada da humanidade. A agricultura do arroz e do milheto, o surgimento da escrita, a emergência de sistemas de pensamento ético-políticos e a construção de formas imperiais de poder não foram fenômenos isolados, mas respostas históricas a desafios comuns enfrentados por sociedades em diferentes partes do mundo. Compreender esse percurso inicial é fundamental para entender não apenas a singularidade da experiência chinesa, mas também sua profunda inserção em dinâmicas globais de longa duração.

1.1. Núcleos agrícolas, revolução produtiva e paralelismos globais

(c. 8000 – 3000 a.C.)

Muito antes de existir algo que pudéssemos chamar de “China”, extensas regiões do Leste Asiático já passavam por uma transformação profunda e silenciosa: a passagem de sociedades caçadoras-coletoras para comunidades agrícolas estáveis. Esse processo, conhecido como revolução agrícola, não foi exclusivo da China nem resultado de um “gênio civilizacional” isolado. Ele ocorreu de forma paralela e relativamente autônoma em diferentes partes do mundo, marcando um dos grandes pontos de inflexão da história global.

No território que hoje associamos à China, dois grandes núcleos agrícolas se destacaram. Ao norte, nas bacias do rio Amarelo, desenvolveram-se técnicas de cultivo do milheto, um cereal resistente ao clima mais seco e frio. Ao sul, nas regiões úmidas do vale do rio Yangtzé, comunidades humanas passaram a domesticar o arroz, planta que exigia controle cuidadoso da água e trabalho coletivo intensivo. Essas duas matrizes agrícolas moldariam, por milênios, a organização econômica, social e cultural do espaço chinês.

O domínio progressivo da agricultura alterou radicalmente a relação entre os grupos humanos e a natureza. A produção regular de alimentos permitiu o crescimento populacional, a formação de aldeias permanentes e o surgimento de formas mais complexas de organização social. Ferramentas de pedra polida, cerâmica para armazenamento e técnicas iniciais de irrigação indicam que essas comunidades já dominavam conhecimentos sofisticados sobre o ambiente. A agricultura não significou apenas mais comida, mas novas formas de trabalho, cooperação e hierarquia.

Vista em perspectiva global, essa transformação insere a China em um movimento mais amplo que também ocorria, em momentos próximos, no Crescente Fértil, no vale do Nilo, no vale do Indo e em partes da América Central e dos Andes. Cada região domesticou plantas e animais distintos, adaptados às suas condições locais, mas os efeitos históricos foram semelhantes: sedentarização, diferenciação social e a lenta construção de sociedades cada vez mais complexas. Não houve um centro irradiador único; houve múltiplos começos da história agrícola.

Esse dado é fundamental para compreender a trajetória chinesa sem recorrer a explicações excepcionalistas. A agricultura na China não foi uma cópia de modelos externos, nem um desenvolvimento tardio em relação ao Ocidente. Ela foi contemporânea e estruturalmente comparável aos grandes processos agrícolas do mundo antigo. O que diferencia a experiência chinesa é a combinação específica entre ambientes naturais, plantas domesticadas e formas de organização coletiva, especialmente nas regiões de cultivo do arroz, onde o manejo da água exigia coordenação social permanente.

Ao longo de milênios, esses núcleos agrícolas deram origem a redes de troca regionais, nas quais circulavam sementes, técnicas e conhecimentos. Ainda que essas sociedades não estivessem integradas a circuitos intercontinentais amplos, elas já participavam de um mundo conectado em escala regional, no qual inovação e adaptação eram processos contínuos. A base material da futura civilização chinesa foi construída nesse contexto de experimentação, trabalho coletivo e interação com outros grupos humanos.

Assim, o início da história chinesa não pode ser entendido como o despertar isolado de uma civilização singular, mas como parte de um processo global de transformação produtiva que redefiniu o destino da humanidade. A partir desses primeiros campos cultivados, lançaram-se as bases para o surgimento do Estado, da escrita, das cidades e das tradições culturais que, séculos depois, fariam da China um dos principais polos da história mundial.

1.2. Complexificação social, metalurgia e redes regionais

(c. 3000 – 1600 a.C.)

À medida que a agricultura se consolidava e a produção de alimentos se tornava mais estável, as sociedades do Leste Asiático passaram por um novo salto histórico: a complexificação social. Aldeias agrícolas deram lugar a assentamentos maiores, com funções diferenciadas, e as relações internas tornaram-se progressivamente mais hierarquizadas. Esse processo não foi abrupto nem uniforme, mas acompanhou uma dinâmica observada em várias regiões do mundo antigo, nas quais o crescimento produtivo criou as condições materiais para novas formas de poder e organização social.

Um dos elementos centrais dessa transformação foi o avanço da metalurgia do bronze. Na China, o uso do bronze não se limitou à produção de ferramentas utilitárias; ele assumiu forte valor simbólico e político. Objetos ritualísticos, armas e recipientes cerimoniais tornaram-se marcas de prestígio, associados às elites emergentes e às práticas religiosas. O controle do acesso aos metais, da produção metalúrgica e do conhecimento técnico passou a funcionar como um importante instrumento de diferenciação social.

Esse desenvolvimento não ocorreu em isolamento. A metalurgia do bronze na China dialogava com um horizonte tecnológico eurasiático mais amplo, no qual técnicas, estilos e matérias-primas circulavam por rotas regionais que conectavam o vale do rio Amarelo às estepes da Ásia Central. Ainda que essas redes não configurassem um comércio de longa distância plenamente estruturado, elas permitiam trocas regulares entre comunidades agrícolas sedentárias e grupos nômades ou semi-nômades. Cavalos, metais, artefatos e conhecimentos militares circulavam nesses espaços de contato.

Ao mesmo tempo, o aumento da produtividade agrícola e a especialização do trabalho favoreceram o surgimento de autoridades políticas mais estáveis. Chefaturas regionais passaram a concentrar excedentes, organizar obras coletivas e coordenar atividades rituais e militares. A religião, longe de ser apenas uma esfera espiritual, funcionava como um poderoso mecanismo de legitimação do poder, articulando o controle material com a mediação simbólica entre os vivos, os ancestrais e as forças da natureza.

Comparada a outras regiões do mundo, essa fase da história chinesa apresenta paralelos claros. Processos semelhantes ocorreram na Mesopotâmia, no Egito e no vale do Indo, onde o domínio do bronze, a expansão agrícola e o crescimento populacional também impulsionaram a estratificação social e o surgimento de elites político-religiosas. A diferença chinesa não reside na ausência dessas tendências, mas na forma específica como elas se combinaram e se enraizaram em contextos regionais diversos.

As redes regionais de troca e interação desempenharam um papel decisivo nesse período. Elas permitiram a circulação de bens materiais e imateriais, ampliando horizontes culturais e estimulando a inovação. Ao invés de uma civilização em gestação fechada sobre si mesma, o que se observa é um mosaico de sociedades em constante contato, aprendendo umas com as outras, competindo e se transformando.

Essa fase de complexificação social lançou as bases para o surgimento dos primeiros Estados plenamente organizados nas planícies do norte da China. A metalurgia, a hierarquização social e as redes regionais não foram elementos acessórios, mas pilares estruturais de uma trajetória histórica que, nos séculos seguintes, culminaria na formação de sistemas políticos centralizados e duradouros. Vista em chave global, essa etapa reafirma que a história inicial da China se desenvolveu em sintonia com grandes transformações compartilhadas pela humanidade, ainda que marcadas por trajetórias próprias.

1.3. Primeiros Estados, escrita e cosmologias do poder

(c. 1600 – 1046 a.C.)

Por volta do segundo milênio antes de nossa era, as transformações acumuladas ao longo de séculos — agricultura intensiva, metalurgia avançada e hierarquias sociais consolidadas — abriram caminho para o surgimento dos primeiros Estados plenamente organizados no território chinês. Esse momento, associado sobretudo à dinastia Shang, marca uma virada decisiva: o poder deixa de ser apenas local ou tribal e passa a se estruturar em formas políticas centralizadas, capazes de controlar territórios amplos, mobilizar recursos e impor autoridade de maneira sistemática.

O Estado Shang era profundamente ritualizado e militarizado. A guerra desempenhava papel central na expansão territorial e na obtenção de prisioneiros, tributos e prestígio. Ao mesmo tempo, a autoridade política se legitimava por meio de uma cosmologia que conectava o governante aos ancestrais e às forças sobrenaturais. O rei não governava apenas pela força das armas, mas como mediador entre o mundo humano e o mundo espiritual, função essencial para garantir a ordem e a prosperidade.

É nesse contexto que surge a escrita chinesa, inicialmente registrada em ossos oraculares e cascos de tartaruga. Longe de ser um instrumento neutro, a escrita estava profundamente vinculada ao exercício do poder. Ela servia para registrar rituais divinatórios, decisões políticas e campanhas militares, reforçando a autoridade do Estado e sua capacidade de organizar o conhecimento. Assim como na Mesopotâmia ou no Egito, a escrita nasce associada à administração, à religião e à legitimação do domínio político.

A metalurgia do bronze atinge, nesse período, um grau notável de sofisticação. Vasos rituais ricamente decorados, armas e instrumentos cerimoniais expressavam não apenas habilidade técnica, mas uma estética do poder. Esses objetos funcionavam como símbolos visíveis da hierarquia social e da centralidade do Estado, marcando a distinção entre elites governantes e o restante da população. O controle da produção e da distribuição do bronze reforçava a autoridade estatal e a dependência das comunidades locais em relação ao centro político.

Em perspectiva global, os Estados Shang compartilham características fundamentais com outros Estados arcaicos. A associação entre poder político, religião e guerra é um traço comum às civilizações do Nilo, do Tigre-Eufrates e do vale do Indo. Em todos esses casos, a consolidação do Estado implicou a criação de narrativas cosmológicas que naturalizavam a desigualdade e apresentavam a ordem social como reflexo de uma ordem cósmica. A China, portanto, não foge a esse padrão; ela o expressa de maneira própria.

Ao mesmo tempo, o Estado Shang não existia isolado. Ele mantinha relações de conflito, aliança e troca com sociedades vizinhas, incorporando técnicas, práticas e influências externas. Essas interações contribuíram para a expansão territorial e para a adaptação contínua das instituições políticas. A história inicial do Estado chinês é, assim, uma história de formação em movimento, marcada por contatos regionais constantes.

A consolidação dos primeiros Estados na China representa um passo fundamental na construção de uma tradição política de longa duração. A articulação entre escrita, ritual, guerra e autoridade criou um modelo de poder que, com adaptações e transformações, continuaria a influenciar as formas de governo chinesas por milênios. Em chave global, esse período confirma que a China antiga participou plenamente das grandes experiências estatais da humanidade, contribuindo de forma decisiva para a história política do mundo antigo.

1.4. Fragmentação política, inovação e circulação de ideias

(c. 1046 – 771 a.C.)

A queda da dinastia Shang e a ascensão da dinastia Zhou não significaram apenas uma mudança de governantes, mas inauguraram uma nova fase na história chinesa, marcada pela fragmentação política e pela redefinição das bases do poder. Em termos globais, trata-se de um fenômeno recorrente: grandes formações estatais entram em crise, e, a partir dessa instabilidade, emergem novas ideias, instituições e formas de organização social.

Os Zhou estabeleceram inicialmente um sistema de dominação descentralizado, frequentemente descrito como “feudal”. Territórios eram concedidos a aliados e parentes do rei, que governavam localmente em seu nome. Essa estrutura permitiu a expansão do controle territorial, mas também criou condições para o enfraquecimento da autoridade central ao longo do tempo. À medida que os senhores regionais acumulavam poder militar e econômico, o centro político tornava-se progressivamente mais simbólico do que efetivo.

Esse contexto de fragmentação estimulou inovações institucionais e tecnológicas. A competição entre diferentes unidades políticas levou ao aperfeiçoamento de técnicas agrícolas, ao desenvolvimento de novas armas e à reorganização dos sistemas de administração local. A necessidade de governar populações maiores e mais diversas impulsionou experimentações políticas que buscavam conciliar autoridade, lealdade e eficiência. A instabilidade, longe de paralisar a sociedade, funcionou como motor de transformação.

Ao mesmo tempo, esse período foi marcado por uma intensa circulação de ideias e práticas culturais. A descentralização do poder abriu espaço para o surgimento de especialistas — conselheiros, administradores, rituólogos — que transitavam entre diferentes cortes regionais oferecendo seus serviços. Esse trânsito favoreceu a troca de conhecimentos e a difusão de concepções sobre governo, moralidade e ordem social. O debate intelectual começa a ganhar autonomia em relação ao poder central, preparando o terreno para uma explosão de pensamento nos séculos seguintes.

Em chave global, essa fase da história chinesa dialoga com processos semelhantes observados em outras partes do mundo antigo. Na Grécia arcaica, por exemplo, a fragmentação política das pólis estimulou inovação institucional e reflexão filosófica. No Oriente Próximo, o colapso de impérios também abriu espaço para novas formas de organização política e religiosa. Em todos esses casos, a ausência de um poder central absoluto criou condições para a experimentação e o conflito produtivo.

É importante notar que essa fragmentação não significou isolamento. As unidades políticas chinesas continuaram inseridas em redes regionais de troca e interação, tanto com outras sociedades agrícolas quanto com povos das estepes. Cavalos, técnicas militares e bens de prestígio circulavam entre diferentes regiões, reforçando a interdependência e a constante adaptação institucional.

A fase inicial da dinastia Zhou, portanto, deve ser compreendida não como um período de decadência, mas como um momento de transição criativa. A fragmentação política desafiou antigas formas de autoridade e abriu espaço para novas soluções históricas. Foi nesse ambiente de competição, circulação e inovação que se gestaram as bases intelectuais e políticas que moldariam profundamente a civilização chinesa nos séculos seguintes, em diálogo permanente com transformações mais amplas do mundo antigo.

1.5. A Era Axial chinesa e as convergências intelectuais globais

(c. 770 – 221 a.C.)

Entre os séculos VIII e III antes da era comum, a China viveu um dos períodos intelectualmente mais férteis de sua história. Conhecido tradicionalmente como o tempo das Primaveras e Outonos e dos Reinos Combatentes, esse momento foi marcado por intensos conflitos políticos, transformações sociais profundas e, sobretudo, pela emergência de um extraordinário conjunto de correntes de pensamento. Em perspectiva global, trata-se de um capítulo da chamada Era Axial, período em que diferentes regiões do mundo produziram, de forma quase simultânea, reflexões duradouras sobre moral, política, sociedade e o sentido da vida humana.

O enfraquecimento definitivo da autoridade central dos Zhou e a multiplicação de Estados rivais criaram um ambiente de competição permanente. Governantes buscavam não apenas vencer guerras, mas também fundamentar sua legitimidade e organizar sociedades cada vez mais complexas. Esse contexto abriu espaço para a atuação de intelectuais itinerantes, que percorriam os reinos oferecendo projetos de reforma política, códigos morais e modelos de governo. A instabilidade tornou-se, paradoxalmente, uma incubadora de ideias.

Foi nesse cenário que surgiram as principais escolas do pensamento clássico chinês. O confucionismo, associado a Confúcio e seus discípulos, enfatizava a moralidade, a educação e a harmonia social como fundamentos do bom governo. O taoismo, ligado a textos como o Dao De Jing, propunha uma visão crítica da ação excessiva do poder e defendia a adaptação ao curso natural das coisas. O legalismo, por sua vez, oferecia uma resposta pragmática e dura à crise política, defendendo leis rígidas, punições severas e a centralização do poder estatal. Outras correntes, como o mohismo, também participaram ativamente desse debate plural.

Essas tradições não eram meramente especulativas. Elas buscavam responder a problemas concretos: como governar territórios extensos? Como garantir obediência e estabilidade? Qual o papel da moral, da lei e da força na organização da sociedade? As respostas oferecidas influenciaram diretamente reformas administrativas, práticas educacionais e estratégias militares. A filosofia, na China antiga, estava profundamente entrelaçada com a prática política.

Em chave global, esse florescimento intelectual apresenta paralelos notáveis. Na Grécia, filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles refletiam sobre ética, política e conhecimento. Na Índia, o budismo e o jainismo questionavam a ordem social e o sofrimento humano. No Oriente Médio, tradições proféticas elaboravam códigos morais universais. Embora não houvesse contato direto sistemático entre todas essas regiões, os desafios enfrentados eram comparáveis: crise das antigas autoridades, expansão das sociedades e necessidade de novos fundamentos éticos e políticos.

A especificidade chinesa reside na forte orientação prática e estatal dessas correntes. Diferentemente de outras tradições, o pensamento chinês clássico desenvolveu-se em diálogo constante com a administração pública e a arte de governar. Essa característica explicará, em parte, a longa continuidade de certas ideias — especialmente confucionistas e legalistas — na formação do Estado imperial nos séculos seguintes.

A Era Axial chinesa, portanto, não foi um momento isolado de genialidade cultural, mas uma resposta histórica a transformações estruturais profundas. Ao produzir sistemas de pensamento que moldaram a política, a moral e a educação por milênios, a China participou ativamente de um movimento intelectual global que redefiniu as bases da vida social em várias partes do mundo antigo.

1.6. Conexões com a estepe e o mundo nômade

(c. 1000 – 221 a.C.)

Desde muito cedo, a formação histórica da China esteve profundamente marcada pela interação com os povos da estepe eurasiática. Longe de constituir uma fronteira rígida entre “civilização” e “barbárie”, a zona de contato entre as sociedades agrícolas do norte da China e os grupos nômades e seminômades foi um espaço dinâmico de trocas, conflitos e adaptações mútuas. Em chave global, essa relação insere a China em um padrão recorrente da história da Eurásia: a interdependência estrutural entre mundos sedentários e pastoris.

Os povos da estepe dominavam técnicas fundamentais, como a criação de cavalos e formas avançadas de mobilidade militar. O contato com esses grupos teve impactos decisivos sobre as sociedades chinesas, especialmente no campo da guerra. A introdução e o aperfeiçoamento da cavalaria, o uso de novas armas e estratégias de combate transformaram os conflitos entre os Estados chineses, intensificando a militarização e acelerando processos de centralização política. A pressão externa funcionou, assim, como um fator permanente de mudança interna.

Essas relações, porém, não se limitaram à violência. As fronteiras eram porosas, e nelas circulavam bens, pessoas e saberes. Metais, animais, produtos artesanais e práticas culturais cruzavam esses espaços, criando redes de interdependência regional. Muitos grupos nômades alternavam entre confronto e cooperação, atuando como aliados militares, mercadores ou intermediários entre diferentes regiões. A história chinesa inicial é inseparável dessas interações contínuas.

O contato com o mundo nômade também teve consequências políticas e simbólicas. A necessidade de defender fronteiras e garantir a segurança interna levou os Estados chineses a investir em fortificações, sistemas de vigilância e formas mais eficientes de mobilização de recursos. Ao mesmo tempo, esses desafios estimularam reflexões sobre identidade, ordem e autoridade, reforçando a ideia de um centro político responsável por manter a estabilidade frente a ameaças externas — tema recorrente na tradição política chinesa posterior.

Em perspectiva comparada, essa dinâmica não foi exclusiva da China. Impérios como o persa, o romano e, mais tarde, os califados islâmicos também se desenvolveram em constante interação com povos nômades das estepes ou dos desertos. Em todos esses casos, a relação foi ambígua: os nômades representavam tanto uma ameaça quanto uma fonte de inovação militar e circulação econômica. A China, portanto, compartilha uma experiência eurasiática mais ampla.

É importante destacar que essas interações contribuíram para a formação de fronteiras culturais flexíveis, nas quais identidades eram negociadas e redefinidas. Muitos elementos considerados “tipicamente chineses” resultaram, na verdade, de longos processos de contato e adaptação. A civilização chinesa não se formou apesar do mundo nômade, mas em diálogo constante com ele.

Ao reconhecer o papel central das conexões com a estepe, torna-se possível compreender a China antiga não como um espaço fechado, mas como parte de uma vasta ecologia histórica eurasiática. Essa perspectiva ajuda a explicar por que, nos séculos seguintes, a unificação política apareceu como uma resposta recorrente às pressões internas e externas, preparando o terreno para o surgimento do império.

1.7. Unificação como resposta sistêmica

(221 a.C.)

Ao final de séculos marcados por fragmentação política, guerras constantes e intensas transformações sociais, a unificação da China sob a dinastia Qin, em 221 a.C., representou uma ruptura decisiva na história do Leste Asiático. Longe de ser apenas a vitória de um Estado sobre seus rivais, a unificação deve ser entendida, em chave global, como uma resposta sistêmica a pressões acumuladas ao longo de todo o período anterior — pressões internas de governabilidade e externas de competição regional.

Durante os Reinos Combatentes, a guerra deixou de ser episódica e tornou-se permanente. Estados rivais mobilizavam populações inteiras, aperfeiçoavam técnicas militares e buscavam maximizar a eficiência administrativa. Nesse contexto, modelos políticos baseados em tradições aristocráticas e vínculos pessoais mostraram-se insuficientes. A sobrevivência passou a depender da capacidade de centralizar o poder, organizar a arrecadação de impostos, controlar a força de trabalho e impor autoridade de maneira uniforme sobre vastos territórios.

O Estado Qin levou essa lógica ao extremo. Inspirado principalmente nas ideias do legalismo, promoveu uma centralização radical do poder. Leis padronizadas, punições severas e uma burocracia diretamente subordinada ao centro substituíram antigas lealdades regionais. A unificação não buscava apenas conquistar territórios, mas homogeneizar o espaço político, eliminando diferenças que pudessem gerar novos focos de instabilidade.

Um dos aspectos mais duradouros desse processo foi a padronização. Pesos e medidas, sistemas de escrita, moedas e até a largura dos eixos das carroças foram uniformizados, facilitando a administração, o comércio e a circulação em todo o império. Grandes obras de infraestrutura — estradas, canais e fortificações — integraram regiões antes separadas, criando um espaço político contínuo sob controle estatal. Essas medidas não apenas consolidaram o poder Qin, mas lançaram as bases estruturais do império chinês.

Em perspectiva global, a unificação chinesa apresenta paralelos claros com outros processos históricos. O Império Romano, por exemplo, também emergiu de um longo período de guerras internas, impondo uma ordem centralizada baseada em leis, infraestrutura e poder militar. No mundo persa, estratégias semelhantes foram utilizadas para administrar vastos territórios multiétnicos. Em todos esses casos, a centralização aparece como uma solução histórica recorrente para contextos de competição intensa e complexidade crescente.

Ao mesmo tempo, a unificação Qin teve um custo social elevado. A repressão política, o controle rigoroso da população e a exploração intensiva do trabalho geraram resistências e revoltas, levando à queda rápida da dinastia. Ainda assim, o modelo imperial criado nesse momento revelou-se extraordinariamente duradouro. As dinastias posteriores, especialmente a Han, rejeitariam os excessos do Qin, mas preservariam sua arquitetura fundamental de poder.

A unificação de 221 a.C. encerra a fase inicial da história chinesa e inaugura uma nova etapa, na qual a China passa a existir como entidade política integrada e reconhecível. Em chave global, esse evento marca a entrada definitiva da China no conjunto das grandes formações imperiais do mundo antigo, capazes de moldar, por séculos, a história de vastas regiões e populações.

Conclusão

Ao longo desta primeira parte, torna-se evidente que a civilização chinesa não surgiu de maneira abrupta nem isolada, mas por meio de um processo histórico longo, complexo e profundamente conectado a transformações mais amplas do mundo antigo. A passagem da economia de subsistência para a agricultura intensiva, o avanço da metalurgia, a estratificação social e a formação de Estados centralizados acompanharam padrões observados em diversas regiões da Eurásia, ainda que assumindo configurações próprias no espaço chinês.

A fragmentação política e os conflitos prolongados não representaram simples momentos de desordem, mas fases decisivas de inovação institucional e intelectual. Foi nesse contexto que emergiram tradições de pensamento que buscavam responder a problemas concretos de governo, moralidade e ordem social, inserindo a China no grande movimento intelectual da Era Axial. Ao mesmo tempo, as interações constantes com povos da estepe demonstram que as fronteiras culturais sempre foram permeáveis, e que a formação da China esteve marcada por trocas, tensões e adaptações mútuas.

A unificação sob a dinastia Qin aparece, assim, como o desfecho de pressões sistêmicas acumuladas ao longo de séculos, e não como um ponto de partida mítico. Ao estabelecer um modelo imperial duradouro, a China se afirmou como uma das grandes formações políticas do mundo antigo, comparável a outros impérios eurasiáticos em termos de escala, organização e impacto histórico.

Cuba à Beira do Abismo

Onde Terminará a Crise da Ilha?

MICHAEL J. BUSTAMANTE
MICHAEL J. BUSTAMANTE é titular da Cátedra Emilio Bacardí Moreau de Estudos Cubanos e Cubano-Americanos na Universidade de Miami e autor de "Guerras da Memória Cubana: Política Retrospectiva na Revolução e no Exílio".

Foreign Affairs

Soldados cubanos em uma cerimônia em Havana, novembro de 2025
Norlys Perez / Reuters

Em 2014, após o governo Obama e o governo cubano anunciarem um acordo para restabelecer as relações diplomáticas, o mundo convergiu para Havana. De Rolling Stones a potenciais investidores, todos correram para garantir uma participação no futuro da ilha. Raúl Castro, o ministro da Defesa de longa data, havia assumido o poder de seu irmão mais velho, Fidel, que estava doente, alguns anos antes, e lançado reformas econômicas moderadas: permitindo a abertura de mais pequenas empresas privadas, flexibilizando as regras para investimentos estrangeiros e reduzindo a folha de pagamento do Estado. Juntas, a normalização das relações com os Estados Unidos e a "actualización" interna do governo (ou "atualização", segundo o eufemismo preferido do Partido Comunista Cubano) pareciam destinadas a ajudar a ilha a entrar no século XXI.

Infelizmente, Cuba ficou muito aquém dessas expectativas. Nos últimos cinco anos, bem mais de um milhão de pessoas — mais de um em cada dez cubanos — fugiram do país, principalmente para os Estados Unidos. Hoje, sob o governo do presidente Miguel Díaz-Canel, a ilha enfrenta sua pior crise econômica desde o colapso da União Soviética. O PIB caiu 11% desde 2020. A rede elétrica está em colapso. As forças de segurança reprimem duramente os protestos antigovernamentais. Em outubro, o furacão Melissa devastou o leste da ilha, danificando ou destruindo cerca de 90.000 casas e 250.000 acres de terras agrícolas. Agora, um surto de dengue e outros vírus transmitidos por mosquitos atingiu proporções epidêmicas.

A tragédia que se desenrola em Cuba é em parte resultado de choques externos, como a eleição do presidente dos EUA, Donald Trump, em 2016. Após assumir o cargo, Trump restabeleceu muitas das sanções que seu antecessor havia suspendido. Entre 2019 e 2020, por exemplo, ele restringiu drasticamente voos, remessas e viagens para a ilha e, em 2021, reclassificou Cuba como um Estado patrocinador do terrorismo, principalmente por abrigar alguns fugitivos da justiça dos EUA. O presidente dos EUA, Joe Biden, apenas afrouxou parcialmente essas restrições, e Trump restabeleceu algumas delas em seu segundo mandato. Enquanto isso, a pandemia de COVID-19 devastou a indústria do turismo da ilha. Com o segundo governo Trump intensificando a pressão para depor o presidente venezuelano Nicolás Maduro, a já acentuada redução da ajuda petrolífera de Caracas para Havana nos últimos anos ameaça piorar, e Cuba corre o risco de perder seu parceiro econômico e geopolítico mais importante.

Mas a atual crise também é fruto das próprias ações do governo cubano. Apesar das reformas de Raúl, as autoridades se mostram relutantes em romper decisivamente com o modelo de planejamento centralizado e ineficiente do país. A expansão do setor privado tem sido irregular, e a má política monetária contribuiu para a inflação severa. O governo, da mesma forma, tem se mostrado avesso a qualquer mudança significativa no sistema unipartidário da ilha. Como resultado, a economia cubana permanece frágil e pouco receptiva, e o entusiasmo anterior em Washington por um maior engajamento com Havana foi substituído por ceticismo, hostilidade ou desinteresse.


É difícil ter esperança no futuro de Cuba. Raúl, de 94 anos, que ainda exerce o papel de eminência parda, morrerá em breve, juntamente com o último membro da geração que forjou a Revolução Cubana de 1959. Mas, para sair do atoleiro atual, uma nova geração de líderes teria que se comprometer seriamente, no mínimo, com uma liberalização econômica mais profunda — por mais dolorosa que seja no curto prazo. Para colocar o país definitivamente no caminho certo, eles também precisariam democratizar. Infelizmente, após uma década de ajustes políticos, a atual liderança cubana deu poucos sinais de estar pronta para enfrentar os desafios da ilha de frente ou ceder o controle a quem pudesse.


T
OO LITTLE, TOO LATE

“We reform, or we sink,” declared Raúl in 2010, four years after assuming power. Cuba’s socialist system had survived the immediate post-Soviet period, when aid to the island plummeted and its GDP shrank by a third. But it had only partially recovered from the contraction. To put the economy on firmer footing, Raúl devised a straightforward plan: shrink a bloated state by laying off half a million workers while expanding a tiny private sector of “self-employed” workers running restaurants, homestays, and other small businesses. Authorities would allow foreign investors to hold majority stakes in ventures, and the state would turn over fallow public lands to private farmers to address the country’s dependence on imports for 70 percent of the country’s food.


Cuba’s best economists quickly pointed out the plan’s flaws. The list of 200-plus activities authorized for self-employment was comically micromanaged. Farming a plot of public land and selling most of the harvest in a price-controlled ration system, for example, is not the same as owning property and selling the resulting produce in a market. And state companies still maintained an unfair edge by being allowed to treat one Cuban peso as the equivalent of one dollar, thus artificially overvaluing their assets and lowering the cost of their imports. Private citizens, by contrast, could sell pesos to Cuban state banks for dollars at a rate of 24 to one. Still, many people remained optimistic. To visit Cuba in these years was to feel the winds of change as small businesses opened, tourists from Canada and Europe arrived in droves, and a zone of tolerance expanded for independent journalism, academic analysis, and civic debate.

U.S. President Barack Obama took notice. Even before the normalization breakthrough in late 2014, his administration authorized Americans to travel in group tours to the island if they wished to “support the Cuban people.” Members of the Cuban diaspora visited family and brought in millions of dollars in remittances, providing seed capital for small businesses. After the countries formally restored ties, airlines established direct commercial flights between them. There were cruises, self-guided visits, and new foreign investment exceptions to the long-standing embargo on U.S.-Cuban trade. In 2016, more than 580,000 U.S. and Cuban passport holders (in other words, Cuban Americans) boarded island-bound flights from Miami International Airport alone.

Yet for all the excitement, it quickly became clear that Havana was not prepared to seize the moment. U.S. investors found Cuban authorities wedded to preapproved projects, leading to few commercial deals of consequence. Hard-liners in the Cuban government bristled at Obama’s hopeful rhetoric, decrying it as a Trojan horse that would bring unwelcome political change. Calls for deepening market reforms went unheeded as party leaders feared unleashing economic forces that they could not control.
FROM BAD TO WORSE

As a result of Cuba’s shortsightedness, after the 2016 U.S. election, there was little to stop the Trump administration from reversing course. And sure enough, six months into his first term, Trump declared that he was “canceling” Obama’s “one-sided Cuba deal.” Cruise ships carrying U.S. tour groups continued to land at Cuban docks, but the Trump administration barred Americans from taking self-guided trips or from staying in Cuba’s many military-owned hotels. Soon after, news organizations began reporting on mysterious health incidents afflicting U.S. diplomats on the island, which was dubbed “Havana syndrome.” In response, Washington closed the U.S. consulate and effectively halted legal Cuban migration to the United States.

In 2019, U.S. policy took an even more punitive turn. That year, Trump eliminated the general license for “people-to-people” group travel that fueled the remaining American visits to the island and capped Cuban American remittances to $1,000 a quarter. His administration also activated the long-dormant Title III of the Helms-Burton Act of 1996, allowing U.S. citizens to sue American and non-American companies for “trafficking” in property the Cuban government confiscated in the early 1960s, which had the effect of immediately chilling foreign investment to the island. In early 2020, the White House barred flights to or from Cuban cities other than Havana, and it blocked the U.S. financial services company Western Union from partnering with a financial entity owned by the Cuban military for remittance forwarding. Ignoring the humanitarian consequences, officials billed these measures as part of a “maximum pressure” campaign on both Cuba and Venezuela. That same campaign included sanctions on Venezuelan oil shipping—which tightened crucial energy supplies to the island.

Then the pandemic hit. Tourism vanished, and Cuba’s GDP plummeted ten percent. This was a trial by fire for Cuba’s first non-Castro leader, Díaz-Canel, whom Raúl tapped as his successor in 2018. But Díaz-Canel responded to mounting economic difficulties by doubling down on state economic control, such as by freezing new self-employment licenses for over a year. As the state’s hard-currency earnings dwindled, his government sought to capture more remittances by launching state-run stores selling imported goods in a new digital-only currency—the “Freely Convertible Currency” (known by its Spanish abbreviation, MLC)—pegged to the value of the U.S. dollar. It was not freely convertible at all. Dollars deposited in so-called MLC accounts could not be reclaimed, further segmenting Cuban currency markets.



Cuba’s leadership has given few signs that it is ready to tackle the island’s challenges or cede control.

Díaz-Canel and his inner circle did eventually realize that this approach was not working. And in the summer of 2020, they announced a new strategy to handle the escalating economic emergency. Rather than enforce a narrow list of approved activities for the private sector, authorities adopted a list of prohibited activities, allowing everything else. The government also committed to legalizing small and medium-size private enterprises, moving beyond the “self-employment” framework. Finally, authorities agreed to unify the island’s multiple currencies and exchange rates. The separate exchange rates for private citizens and state companies had helped shield the state from the shock of the post-Soviet crisis, but they also introduced severe distortions into public companies’ accounting, worsening import reliance over time.

Yet the execution and sequencing of these reforms proved disastrous. Instead of first expanding the private sector, authorities launched their “monetary reorganization” plan on its own, unifying exchange rates across the economy at 24 pesos to the dollar in early 2021. For state-owned businesses used to operating at a one-to-one rate, this devaluation put upward pressure on prices for imported goods. A simultaneous increase in state salaries fueled further inflation, as too many pesos chased too few products. The printing of currency to finance soaring fiscal deficits made things even worse. The state also continued selling imports in its dollar-pegged digital currency, undermining the logic of currency unification and increasing demand for dollars, which the government did not have enough of. An informal currency market boomed, and by the end of 2021, the value of the Cuban peso had dropped by 75 percent, trading at 100 to the dollar even though the official rate remained 24 to one.

The result was a growing crisis in the state’s political legitimacy. This was most apparent when Cuba’s luck against COVID-19 ran out in the summer of 2021, and the delta variant of the virus tore through the country. Images of collapsing hospitals and dead bodies spread online. Fueled by the viral protest anthem “Patria y Vida” (“Homeland and Life”) by popular hip-hop and reggaetón artists and the power of livestreaming, Cubans in more than 50 cities and towns took to the streets on July 11, 2021, demanding food, medicine, and liberty. The government responded that very same day with repression that sent protesters to jail or back to their homes. More than a thousand were eventually arrested, and several hundred were sentenced to lengthy terms for crimes such as vandalism, public disorder, and sedition.
ONE STEP FORWARD, TWO STEPS BACK

For the first seven months of its tenure, the Biden administration ignored Cuba, leaving Trump’s sanctions in place. But the protests and their aftermath forced Washington to take notice. Three months after the demonstrations, Cuba lifted its final COVID travel restrictions to restart tourism. Then Nicaragua, a close ally of Havana, allowed Cubans visa-free entry, providing a shorter, if still dangerous, route to the U.S.-Mexico border. Flights to Managua soon topped $2,000, but that did not stop Cubans from fleeing to the United States. Cuba appeared to be deliberately exporting dissent, thus giving Washington political headaches. The Biden administration responded by restoring remittance processing, resuming flights to Cuban provincial cities (which are largely used by the diaspora), and reopening preexisting legal avenues for migration and creating new ones—all in a bid to restore a modicum of economic stability and slow the exodus. But these efforts were unsuccessful. By the fall of 2024, more than 850,000 Cubans had entered the United States, including through a new “advanced humanitarian parole” program that the Biden administration created.

At the same time, Cuba’s government was also making a new attempt to help the economy. In late 2021, authorities finally legalized private enterprises with up to 100 employees. Over three years, more than 10,000 such businesses were approved. And for the first time since the early years of the Cuban Revolution, they received permission to import goods from abroad, albeit through state intermediaries. Entrepreneurs who had built international and diaspora contacts during the Obama period opened private grocery stores. Others imported wholesale from Mexico, Panama, or even the United States. Supply chain companies such as Supermarket23 provided Cubans abroad with an Amazon-like online platform to purchase goods for their families from local importers, as well as warehouses and logistics on the ground, facilitating door-to-door delivery. All of this was once unthinkable. By the end of 2024, the private sector accounted for 23 percent of tax receipts, 31 percent of the labor force, and over half of retail sales, outstripping state-owned enterprises.

But several problems beset the sector. One was the lack of a stable exchange market or any other legal way to move foreign currency abroad. This forced private firms into the informal currency market, driving the peso to new lows: over 400 pesos to the dollar, at present. This exchange rate has put many goods out of reach for many Cubans who are still reliant on state pensions or salaries and have little access to remittances. As a result, although new private businesses have been crucial for providing Cuban families with basic necessities in the last few years, they have become the public face of rising inequality—a political challenge for a still self-described socialist state.

And even this limited privatization has faced setbacks. Over the last two years, the government imposed new banking transaction limitations, removed tax incentives for new companies, and temporarily restricted wholesale operations. Company owners or partners must now reside in Cuba most of the year, limiting the legal involvement of the Cuban diaspora, a heretofore primary source of seed capital, knowhow, and access to non-sanctioned financial services. Observers widely interpret these moves as an attempt by the military’s business conglomerate, the Grupo de Administración Empresarial S.A. (GAESA), to gain market share in the selling of marked-up foreign products, which it had dominated before the pandemic. Authorities still insist that private firms should be “complementary actors” in the economy, not the motors, even as dozens of state companies are operating at a loss.
TERMINAL DECLINE?

Cuba’s cascading problems are now so severe that even a more dynamic private sector would be insufficient to fix them. A nationwide blackout in September was the fifth in a year. Overhauling the aging, oil-dependent power grid would cost billions that the government does not have and that no country is willing to lend. The productivity effects are devastating. Authorities recently acknowledged that output in agriculture, livestock, and mining has declined 53 percent since 2019. Yet over the last decade, more of the state’s investment budget (38 percent) has gone to hotels and tourism facilities—which are also dominated by GAESA—than any other sector, despite the fact that visitor numbers are barely half what they were at the pre-pandemic peak. Tourists of all kinds are choosing Caribbean destinations that are less blackout prone. European tourists are choosing ones that won’t jeopardize their normal 90-day visa waiver for the United States (a risk that stems from Cuba’s placement on the list of state sponsors of terrorism).


Monetary policy also remains a pain point. In mid-December, Cuba’s central bank launched a new floating exchange rate for the general public and the private sector at one dollar to 410 Cuban pesos, only slightly below the informal rate, in an attempt to bring more transactions back into the formal financial system, undermine the informal market, and recover dollar reserves. But it is unclear whether the scheme will work, as popular trust in banking institutions has cratered. Moreover, the exchange system remains tiered: certain state companies, such as those in the tourism industry, still receive a preferential rate, of 120 Cuban pesos for one dollar, while state enterprises providing crucial services to the population receive a rate of 24 Cuban pesos to the dollar. Authorities have started outright dollarizing much state-run retail, reviving a practice from the 1990s. In other words, the latest maneuvers further entrench the existing segmentation of currency markets; they do not eliminate the fundamental distortions that such an arrangement introduces into the Cuban economy.

To fix—or elide—these problems, some Cuban officials may be counting on better international relations. They are likely to be disappointed. Waiting for Washington to change course is a fool’s errand: a battered Cuba, unlike oil-rich Venezuela, offers little of strategic interest to an increasingly transactional United States. But even Moscow and Beijing will be of limited help. Russian officials and business delegations have promised Cuba $1 billion in investment by 2030, and the Chinese have started building several dozen solar farms. But Havana can get only so much assistance from either country. How quickly these commitments materialize remains unclear, and both Moscow and Beijing have urged Cuba to lessen subsidies for unprofitable state companies and reduce restrictions on foreign investment and the private sector. Cuba, meanwhile, continues to run enormous trade deficits with both states and routinely asks to refinance its debts, which are thought to equal several billion dollars in the case of the Chinese. (Russia condoned most of the island’s Soviet-era debt in 2014, but Cuba has reportedly accrued hundreds of millions in obligations since.) Geopolitical motives and security ties mean Moscow and Beijing are willing to provide periodic aid and help Cuba’s government stay afloat, but neither is eager to completely bankroll an economic model they see as having failed.

Havana’s relationships with Caracas are even more vulnerable. The Trump administration has deployed significant military assets off the coast of Venezuela, launched controversial strikes on alleged drug-trafficking vessels and at least one port facility, and ordered a naval blockade of sanctioned oil shipments, including those heading Cuba’s way. If the Maduro regime falls—still a huge if—Cuba would lose what is left of a 25-year patronage relationship.


Cuba seems poised to slide further into economic decline.

Cuba, then, has just one choice: liberalize its economy. This includes permitting private business to operate in more industries, opening the private sector to foreign investment, and letting these firms trade free of state intermediaries. It also means cutting fiscal deficits and actually unifying exchange rates for government-owned and private businesses at levels that reflect real economic conditions. Just as important, the state must increase legal guarantees and tax incentives for domestic and foreign companies that build productive capacity. Even with U.S. sanctions, such steps would at least give Cuba the chance to begin rebuilding its economy and attract greater foreign investment.

But it is doubtful whether Cuba has the leadership to implement or inspire consensus around such a plan. Many officials seem out of touch with reality. Over the summer, the minister of labor denied that homelessness and mendicancy had increased on the island. (After a social media fury, she was forced to resign in a rare instance of public accountability.) Policymakers also continue to send mixed signals. In late November, authorities rolled out new rules to make foreign investment more agile by allowing the payment of Cuban employees without using state intermediaries. But they simultaneously barred foreign businesses from repatriating earnings held in Cuban banks. Likewise, a new government framework to “correct distortions and recharge the economy” is full of production targets but few ideas for transforming production incentives. Cuba thus seems poised to slide further into economic decline, marked by unaccountable military enterprises, constrained private businesses, and a labor force drained of talent by migration.

Whether these challenges could eventually bring about the government’s collapse is uncertain. Regime change is unlikely in the absence of a more unified opposition, and the opposition’s top figures have been largely exiled or imprisoned. There are no open divisions between the security apparatus and other realms of the state. But worsening social problems—crime, inequality, drug consumption, and corruption—could accelerate interregime fissures, transnational criminal penetration, or direct foreign intervention, precisely the things loyalists of the Cuban system have long sought to avoid. Sporadic, leaderless protests are now endemic.
Today, the island seems to be sinking, just as Raúl warned it might 15 years earlier. It is doing so because he and others delayed true reform. Change will come with steep costs thanks to years of economic policy waffling and the state’s refusal to give Cubans a meaningful political voice in shaping their future. But change is necessary. Each day of further delay prolongs the population’s suffering.

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