5 de maio de 2020

Adam Smith retorna a Pequim: China, hegemonia e as linhagens de um século em transição

Ao reinterpretar Adam Smith e a ascensão chinesa, Giovanni Arrighi revela o esgotamento da hegemonia ocidental e aponta para a possibilidade histórica de uma ordem mundial pós-liberal, centrada no deslocamento do eixo do poder global para o Leste Asiático e o Sul Global.

Editorial

Choldraboldra

Verso Books

Adam Smith in Beijing: Lineages of the Twenty-First Century,
Giovanni Arrighi
London: Verso, 2009. 432 p.

Em Adam Smith in Beijing, Giovanni Arrighi oferece uma das interpretações mais ambiciosas e influentes sobre a transição histórica em curso no sistema mundial. Publicado originalmente em 2007 e relançado em 2009, o livro articula história global, economia política e teoria dos ciclos sistêmicos de acumulação para sustentar uma tese central: a ascensão da China não representa apenas a emergência de uma nova potência econômica, mas sinaliza o esgotamento da hegemonia ocidental e a possibilidade de uma reorganização não capitalista — ou ao menos não liberal — da economia mundial.

O ponto de partida da obra é uma releitura original de A Riqueza das Nações, de Adam Smith. Arrighi desafia a interpretação dominante que associa Smith à defesa do capitalismo industrial liberal. Ao contrário, argumenta que Smith descreveu dois caminhos históricos distintos de desenvolvimento: o “caminho natural” asiático, baseado na agricultura, no mercado interno e na estabilidade social, e o “caminho antinatural” europeu, marcado pela conquista, pela acumulação primitiva e pela expansão imperial. Para Arrighi, a China contemporânea retoma, em novas condições históricas, elementos centrais desse caminho asiático descrito por Smith, configurando uma economia de mercado não capitalista, fortemente regulada pelo Estado e orientada para a reprodução social, e não para a acumulação financeira desenfreada.

A partir dessa releitura, o autor insere a ascensão chinesa no quadro mais amplo da teoria dos ciclos sistêmicos de acumulação, desenvolvida em obras anteriores como *O Longo Século XX*. Segundo Arrighi, a hegemonia dos Estados Unidos encontra-se em uma fase terminal, caracterizada pela financeirização extrema, pela militarização da política externa e pela incapacidade de oferecer um novo regime de acumulação estável. As tentativas norte-americanas de construir um império global pleno — especialmente após o fim da Guerra Fria — não apenas fracassaram, como aceleraram o deslocamento do dinamismo econômico para o Leste Asiático.

Nesse sentido, a análise da Guerra ao Terror ocupa um lugar estratégico no livro. Arrighi sustenta que as guerras do Afeganistão e do Iraque, longe de reafirmarem a hegemonia dos EUA, revelaram seus limites estruturais. Enquanto Washington se afundava em conflitos custosos e politicamente deslegitimadores, a China expandia silenciosamente sua influência econômica, comercial e diplomática, apresentando-se como parceira preferencial do Sul Global. O resultado paradoxal, segundo o autor, foi que a China emergiu como a principal vencedora indireta da Guerra ao Terror.

Um dos aspectos mais instigantes da obra é a recusa de Arrighi em enquadrar a China simplesmente como uma nova potência capitalista nos moldes ocidentais. Ele enfatiza o papel central do Estado chinês no controle do sistema financeiro, na regulação do investimento e na orientação estratégica do desenvolvimento. Esse arranjo híbrido — mercado sob comando político — desafia os pressupostos do neoliberalismo e reabre a questão histórica das múltiplas formas de economia de mercado. Ao fazê-lo, Arrighi desloca o debate da dicotomia “capitalismo versus socialismo” para uma discussão mais profunda sobre formas civilizacionais de organização econômica.

Ao mesmo tempo, o autor não romantiza a experiência chinesa. Reconhece contradições importantes, como desigualdades regionais, tensões sociais e pressões ambientais, mas sustenta que essas contradições não anulam o significado histórico mais amplo da trajetória chinesa. Para Arrighi, o verdadeiro dilema do século XXI não é se a China se tornará hegemônica nos moldes dos Estados Unidos, mas se a transição em curso permitirá a emergência de uma ordem mundial menos violenta, menos financeirizada e menos dependente da guerra como mecanismo de regulação sistêmica.

Do ponto de vista teórico, Adam Smith in Beijing dialoga criticamente com a tradição da teoria do sistema-mundo, especialmente com Immanuel Wallerstein, ao mesmo tempo em que a expande. Arrighi desloca o foco da simples sucessão de hegemonias para a possibilidade de uma bifurcação histórica mais profunda, em que o próprio modelo ocidental de desenvolvimento perde centralidade. Nesse aspecto, o livro tornou-se referência obrigatória para debates contemporâneos sobre multipolaridade, declínio hegemônico dos EUA e alternativas pós-neoliberais.

Em síntese, trata-se de uma obra fundamental para compreender a crise da ordem liberal internacional e o deslocamento do eixo dinâmico da economia mundial. Mais do que explicar a ascensão da China, Arrighi convida o leitor a repensar as “linhagens” históricas do capitalismo e a reconhecer que o futuro pode não repetir os caminhos do passado ocidental. Para estudiosos do Sul Global, o livro oferece não apenas uma análise, mas uma abertura teórica: a possibilidade de imaginar trajetórias de desenvolvimento não subordinadas ao liberalismo, à financeirização e à lógica da guerra permanente.

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