4 de janeiro de 2021

Como C.L.R. James escreveu a história definitiva da revolução haitiana

O historiador socialista C.L.R. James nasceu há 120 anos atrás. Seu texto de referência, The Black Jacobins, é um relato majestoso da Revolução Haitiana e ainda é a história oficial de uma luta heróica pela liberdade e dignidade.

Uma entrevista com
Rachel Douglas


O historiador marxista trinidadiano C. L. R. James (1901-1989).

Tradução / Em uma entrevista de 1980, C.L.R. James disse que queria ser lembrado acima de tudo por suas contribuições ao marxismo. Em Making the Black Jacobins: C. L. R. James and the Drama of History, Rachel Douglas explora as muitas facetas do autor de Trinidad e oferece uma nova interpretação de sua marca única no marxismo.

O livro de Douglas traça o desenvolvimento do pensamento de James ao longo de mais de 30 anos, desde suas atividades intelectuais como pan-africanista em Londres e Paris na década de 1930 até sua militância política como um dos fundadores da tendência Johnson–Forest na década de 1940 (nascida de uma cisão com a organização trotskista estadunidense, o Partido dos Trabalhadores). Douglas também revisita o envolvimento de James com os movimentos Black Power e dos Direitos Civis na década de 1960 e dá uma atenção especial ao seu trabalho como dramaturgo. O pensamento em constante transformação de James é explorado virtuosamente através do uso magistral que Douglas fez dos arquivos – suas principais obras, manuscritos, notas, bem como entrevistas e fontes secundárias são todas enlaçadas em um rico retrato intelectual do autor.

No centro do livro de Douglas está a obra mais renomada de James, Os Jacobinos Negros. Como mostra a autora, a evolução do pensamento político e de militância de James está profundamente ligada a um processo de 6 décadas de escrita e reescrita daquela obra clássica de análise histórica marxista. Na reconstrução do livro, Douglas também destaca as conexões entre os textos de James e a história emancipatória das Índias Ocidentais e de África.

Para revelar a criação de Os Jacobinos Negros, a autora oferece uma leitura única que conecta peças de James inspiradas na Revolução Haitiana (1934 e 1967) e sucessivas edições de Os Jacobinos Negros (1938 e 1963). Em cada ponto, Douglas reconstrói cuidadosamente o diálogo que ocorre entre os textos de James e seu contexto político e social circundante.

O argumento central de Douglas é que Os Jacobinos Negros devem ser entendidos como um palimpsesto – um texto que, nas palavras do autor, consiste em um “repositório em camadas de vestígios embutidos, o que significa que as inscrições anteriores permanecem e nunca são apagadas, porque ‘estas narrativas tornam-se parte de um todo’”. No caso de James, isso significava que a história da Revolução Haitiana foi reescrita por vários meios: como artigos, histórias e, talvez, o mais impressionante, por meio de peças de teatro. Como Douglas argumenta, ao recontar a história da Revolução Haitiana por meio da representação teatral, James foi capaz de dramatizar os conflitos políticos e trazê-los para um foco mais nítido.

Em um golpe de mestre, Douglas aplica o próprio método histórico pioneiro de James ao estudo dele próprio. Como explica a autora, essa abordagem ofereceu uma crítica única à historiografia imperialista, revigorou as categorias marxistas de análise e forneceu uma interpretação convincente das lutas anticoloniais do século XX.

Para rememorar a vida de James, Viviane Magno falou com a autora de Making the Black Jacobins para recordar o legado de C.L.R. James – não apenas o autor de Os Jacobinos Negros, mas um marxista gigante do século XX.

Viviane Magno

Deixe-me começar dizendo o quanto eu amei Making the Black Jacobins. De alguma forma, seu livro ajuda os leitores a entender melhor certas questões que C.R.L James deixou em aberto ou que pareciam um pouco enigmáticas.

Por exemplo, no prefácio da edição de 1938, quando James escreve: “No entanto, Toussaint não fez a revolução. Foi a revolução que fez Toussaint. E mesmo isso não é toda a verdade.” Por que você acha que não é toda a verdade?


Rachel Douglas

Esta frase que você citou é típica de James. Suas sentenças muitas vezes se desdobram assim. Outro exemplo é “os grandes homens fazem história, mas apenas a história que lhes é possível fazer”. Aqui James ecoa a introdução d’O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx, sobre indivíduos fazendo história, mas apenas em certas circunstâncias. O que James faz é levar a correlação do indivíduo e das circunstâncias ao seu modelo biográfico. No entanto, o autor mostra que não podemos compreender a história por meio da personalidade de um grande homem, apesar dos retratos vívidos que ele desenhou de Toussaint Louverture. As reviravoltas no prefácio de James sinalizam que Os Jacobinos Negros será principalmente um retrato da revolução através da personalidade de Louverture, mas que as circunstâncias em evolução também são cruciais para seus desenvolvimentos históricos.

Acho que você está correta em afirmar que o prefácio é importante. Ele mantém seus escritos sobre a Revolução Haitiana em aberto, como um livro sempre aberto que é sua lápide em Tunapuna. Em Notes on Dialectics, James comentou que “um livro fechado” é uma “frase vil”. A reescrita de James age repetidamente contra formas fixas, estáticas e finitas – qualidade que ele associou a categorias stalinistas negativas e de falsificação. Em vez disso, a reescrita de James volta a si mesma como um círculo, que não tem começo nem fim. Um padrão emerge: os escritos de James sobre a Revolução Haitiana podem ser considerados – seguindo seu comentário em Notes on Dialectics – como círculos continuamente ampliados.

Sobre a importância do prefácio, fui influenciada pela noção de Umberto Eco na “Obra Aberta”. De particular relevância para James foram as ideias do dramaturgo e ativista político brasileiro Augusto Boal sobre a leitura de rascunhos inacabados de peças de teatro como o oposto radical do teatro burguês pronto. Podemos aplicar essa perspectiva sobre a abertura inacabada aos escritos de James sobre a Revolução Haitiana como um todo. O trabalho de James sobre este assunto – como a própria Revolução Haitiana – nunca pode terminar complacente com uma imagem do mundo burguês completo e finalizado. Em vez disso, está sempre voltando para si mesmo e sempre em estado de devir.

Viviane Magno

Ainda sobre o processo de escrita: além de ser um estudioso, James foi um militante marxista ao longo da vida. Como você acha que isso influenciou sua abordagem ao escrever a história?

Rachel Douglas

Apenas uma pequena fração do que C.L.R. James realmente escreveu foi publicada, e seus métodos de trabalho eram frequentemente colaborativos. James mandava digitar os documentos, anotava-os e depois os despachava para camaradas ao redor do mundo para discussões políticas e devolutivas. Note on Dialectics – que mais tarde (em 1980) ele declararia ser seu trabalho mais importante – foi originalmente elaborado em 1948 em forma de cartas entre James e seus camaradas da tendência Johnson-Forest Raya Dunayevskaya e Grace Lee [Boggs].

Este tipo de trabalho também levou Os Jacobinos Negros para se tornar um “livro-texto underground” [Marty Glaberman] no contexto do apartheid na África do Sul. Lá, o livro foi copiado clandestinamente e distribuído em partes para os leitores. Grant Farred contou como ele se deparou com a história exatamente dessa maneira quando Richard Owen Dudley – um dos líderes do Movimento de Unidade Não-Europeia (NEUM) para o qual James foi uma figura importante – deu a ele aqueles capítulos mimeografados para comentar.

Viviane Magno

Você poderia comentar sobre seu próprio processo para produzir Making the Black Jacobins? O que a atraiu para o método que você escolheu? A quais influências teóricas você recorreu?

Rachel Douglas

Tudo começou em Trinidad em 2007, quando participei do seminário “Haiti Agora! Artes, Cinema e Literatura”, organizado por Elizabeth Walcott-Hackshaw e Martin Munro. Enquanto eu estava na Universidade das Índias Ocidentais – no campus de São Agostinho, fiz algumas visitas aos arquivos de West Indiana e nas Coleções Especiais na biblioteca Alma Jordan. Encontrei um texto datilografado da primeira peça de James, Toussaint Louverture, de 1936, que havia sido completamente rabiscado. O que mais chamou minha atenção foi que um novo personagem foi adicionado pela trêmula caligrafia de James. Esse personagem era Moïse, sobrinho adotivo de Toussaint Louverture.

Pelo programa da montagem londrina de 1936 e de outros roteiros dessa peça, sabemos que Moïse não apareceu como personagem na primeira montagem da peça. Nas mudanças manuscritas, Moïse passou de completamente ausente a principal interlocutor de Louverture. Essa grande mudança chamou minha atenção e eu queria descobrir por que James havia mudado alguns dos principais personagens. Eu também queria saber mais sobre a história do livro Os Jacobinos Negros. É um livro muito famoso e ainda é considerado o maior clássico da história da Revolução Haitiana até hoje, o que é uma façanha, considerando que foi publicado há mais de 80 anos. Queria conhecê-lo melhor e, em particular, saber mais sobre as duas peças de teatro que marcam a história mais conhecida. Foi fascinante descobrir mais sobre o papel de Paul Robeson e suas contribuições para a primeira peça, que só foi encenada duas vezes em Londres em 1936.

O que descobri foi que os escritos de James sobre a Revolução Haitiana estão em constante movimento e mudança, e isso influenciou meu próprio processo de elaboração do livro. Para James, reescrever é um método dialético. Os próprios comentários do autor sobre os escritos de Marx n’O Capital podem ser adaptados a seus escritos sobre a Revolução Haitiana. Vemos como James escreveu um rascunho, reorganizou-o completamente e, em seguida, o reorganizou novamente. Tentei seguir o processo de desenvolvimento do próprio Os Jacobinos Negros e seu movimento dialético essencial refletido na forma. A reescrita liga sua teoria e prática.

Para abordar a história em Os Jacobinos Negros, recorri ao método da crítica genética, que é uma metodologia jovem, principalmente francesa, para ler e ordenar de forma inteligível todos os rascunhos de uma obra literária. Este foi um modelo útil para abordar a dinâmica da longa gênese e evolução das peças e da história de James com base na Revolução Haitiana. A crítica genética me ofereceu um guia prático com o qual pude documentar o manuseio das caixas de arquivo, pastas e seu conteúdo empoeirado, manuscritos frágeis e páginas datilografadas em papel de seda, o rastro de suas marcas.

Alguns aspectos da crítica genética pareciam um tanto estranhos ao projeto do livro Os Jacobinos Negros, incluindo a aplicação de um método franco-francófono que geralmente é restrito – uma metodologia de abordar a genética textual que não viajou tão bem para outros países fora da França. O modelo franco-francófono da crítica genética precisa ser descolonizado e politizado para confrontar obras como essa. Minha abordagem teve que levar em conta que os escritos de James relacionados à Revolução Haitiana são escritos de um ponto de vista fortemente marxista e guiados por idéias políticas, pelas próprias lutas políticas e pela respostas de James aos acontecimentos mais significativos do século XX.

Viviane Magno

Sobre o processo de reescrita de James, você se baseia no conceito de palimpsesto em todo o livro. Qual é a relevância desse método para escrever sobre os processos revolucionários?

Como aponta James sobre o novo apêndice de Os Jacobinos Negros em uma carta citada no livro: “Pretendo mostrar o que todos os comentaristas anteriores ignoraram, que o passado e o futuro das ilhas só podem ser estudados seriamente à luz do desenvolvimento haitiano durante a revolução e depois… as Índias Ocidentais são um território que não pode ser considerado até o ponto que se aproximam ou se afastam dos padrões ocidentais. São territórios com uma história própria e única, uma história das Índias Ocidentais”.


Rachel Douglas

Sim, acho que a ideia de palimpsestos e camadas de escrita é a chave porque o livro tenta ver como James tece as múltiplas relações entre o passado, presente e futuro. Os Jacobinos Negros pode ser visto como um objeto editorial palimpséstico e confuso, que é como O Capital de Marx foi descrito. Podemos usar o modelo do palimpsesto para conectar as múltiplas versões de Os Jacobinos Negros em jogo na forma de história com os memoriais associados a James. Os locais de memória pós-coloniais podem ser considerados palimpsestos embutidos em locais físicos.

A escrita de James sobre a Revolução Haitiana pode ser vista como um palimpsesto, com novas camadas adicionais sobre os vestígios dos escritos anteriores. James disse que sua “fundação permaneceria imperecível” em 1938 com a história substancialmente se mantendo a mesma para as novas edições subsequentes e os vestígios embutidos se tornando parte do novo todo. A nova escrita é colocada sobre a anterior, deixando rastros visíveis da reescrita e transformando a obra como um todo. Essas camadas sucessivas de reescrita e os vestígios originais podem ser vistos como um palimpsesto ou repositório em camadas dos passados, presentes e futuros caribenhos que James construiu ao longo de um período de quase 60 anos, enquanto escrevia sobre a Revolução Haitiana. O que ele produziu foi uma rede multicamadas de textos que pode ser reativada para mudar de acordo com o novo “futuro no presente”.

Acho que esse método foi uma ferramenta útil para James escrever sobre processos revolucionários e a história da independência, em relação à história nacional dos países pós-coloniais. Essa citação é o que James sempre dizia sobre as Índias Ocidentais: que elas eram exclusivamente “sui generis” e “sem paralelo em nenhum outro lugar”. Na verdade, quando James estava investigando essa qualidade “peculiar” da identidade caribenha, ele até cunhou sua própria expressão dupla “o índio ocidental das Índias Ocidentais”.

Particularmente, a versão de 1963 de Os Jacobinos Negros reescreve a história através de uma lente caribenha, onde a ênfase está em transformar os objetos passivos da história de outras pessoas e a escrita de viagens no sujeito e agente ativo da própria história de cultura do Caribe, se concentrando nos próprios heróis caribenhos, sua história e cultura. É por isso que o foco em se auto-modelar e se tornar visível na própria imagem do Caribe é tão crucial para a reescrita de Os Jacobinos Negros.

Viviane Magno

Os historiadores notoriamente têm uma dificuldade em lidar com fontes de países pós-coloniais. Você acha que C.L.R. James desenvolveu um método para escrever a história mais adequada à realidade desses países?

Rachel Douglas

Sim, acho que James desenvolveu um método para escrever a história mais adequada às realidades dos países pós-coloniais. Ele leu muitas fontes anti-coloniais e escreveu de volta relatos de imigrantes da Revolução Haitiana. Ele também tinha uma fonte viva haitiana que foi muito importante para sua pesquisa entre as guerras na Paris negra na década 1930: Alfred Auguste Nemours (1883-1955) que foi um general haitiano, diplomata e historiador militar. James lembrou no prefácio de 1980 de Allison e Busby de Os Jacobinos Negros que Nemours usava xícaras de cafés e livros nos cafés de Paris para dar vida às histórias militares dos revolucionários haitianos.

Como Stuart Hall nos lembra, as habilidades linguísticas francesas de James eram incomuns naquela época para alguém educado no Caribe anglófono. A história de James refere-se aos pilares da historiografia da Revolução Haitiana em língua francesa. Léon-Gontran Damas, um dos escritores da Negritude, mostrou a James os locais de encontro da Paris negra.

Entre as décadas de 1930 a 1970, James teve um grande repensar sobre o tipo de fontes que queria usar. Em uma palestra de 1971 com um título tentador, “Como eu posso reescrever Os Jacobinos Negros”, proferida no Institute of the Black World em Atlanta, James indicou que, se escrevesse sua história do zero, ele se concentraria em diferentes tipos de fontes de arquivo mais próximas da maioria dos ex-escravos, em vez de fontes externas. James disse sobre essas fontes alternativas: “Eu sei que elas estão lá se você olhar com atenção”.

Viviane Magno

Acho que um dos elementos que você explora tão bem em seu livro é o método imperialista de historiografia contra o qual James também lutou. Afinal, Hegel disse certa vez que a África não era um continente histórico.

Você poderia comentar um pouco sobre esse método historiográfico anti-imperialista e o uso de fontes que James, de certa forma, inaugura?


Rachel Douglas

Sim, responder aos historiadores imperialistas é um dos principais eixos de Os Jacobinos Negros. James escreve em sua bibliografia sobre “supressio veri” e “sugestio falsi”, e a história de James é escrita para se opor a atos deliberados de manipulação, supressão e falsificação em algumas narrativas históricas da Revolução Haitiana. Contornar deturpações históricas é um dos principais objetivos da história que James conta no livro, onde ele se opõe diretamente aos “whitewashers profissionais” da história e aos “historiadores conservadores, professores régios e sentimentalistas”.

Um dos alvos é o livro de história racialista de T. Lothrop Stoddard. A Revolução Francesa em São Domingos (1914). Outro é o notório diário de viagem de James Anthony Froude, The English in the West Indies: Or, the Bow of Ulysses (1888). Uma fonte crucial foi claramente a famosa refutação do mestre-professor de Trinidad Jacob Thomas ao notório diário de viagem de 1888 do historiador inglês Froude, apropriadamente intitulada Froudacity: West Indian Fables Explained (1889). Na verdade, o próprio James escreveria mais tarde, em 1969, uma introdução a Froudacity, corrigindo longamente a fraude de Froude. Lá, James literalmente reescreveria cada frase racista sobre o Haiti, transformando cada uma das vozes passivas em ativas.

Já em 1938, a história de James está voltando para gente como Froude e Stoddard. Não apenas isso, a primeira publicação de James destacando o líder revolucionário Toussaint Louverture foi seu artigo de 1931 “A Inteligência do Negro: Algumas Palavras para Dr. Harland”. Este artigo foi uma resposta ao Dr. Sidney C. Harland, um cientista inglês da Imperial College of Tropical Agriculture em Trinidad, e seu artigo “Mistura de Raças”. Aqui, James já esboça um retrato biográfico de Toussaint para mostrar que não havia nada inatamente inferior nas Índias Ocidentais.

Viviane Magno

Uma questão presente em todo o seu livro é a do “sujeito da história”. Em um ponto no Capítulo 1, você afirma: “A ação, portanto, não é apenas o assunto da passagem biográfica, é também uma característica constitutiva fundamental dos meios de representação.”

Seguindo esse argumento, você parece sugerir que James desenvolveu uma teoria de agenciamento inovadora...


Rachel Douglas

Sim, eu argumento que o protagonista de Os Jacobinos Negros em suas diferentes formas não é um sujeito, tanto quanto uma ação. O esboço biográfico que James faz no início de 1931 apresenta Louverture como o sujeito ativo em quase todos os verbos ativos. Toussaint Louverture é aqui a ação personificada: o homem de ação definitivo.

James lista as muitas realizações de seu herói no artigo de 1931, acumulando ações sem fôlego por meio de parataxes de disparo rápido em frases curtas. As harmonias de verbos ativos representam o revolucionário saltando de uma ação para a próxima em uma velocidade vertiginosa. A ação é o assunto da passagem biográfica, mas também é uma característica constitutiva fundamental dos meios de representação ao esboçar o esqueleto da biografia de Toussaint. Desde os primeiros textos de James, vemos esse claro foco na ação e no agenciamento, como na capacidade de exercer poder e de lutar.

Viviane Magno

O agenciamento parece um ponto de transição adequado para discutir o marxismo de James. Obviamente, falar do método de James já é falar de seu método histórico-materialista. Mais especificamente, Os Jacobinos Negros é considerado pioneiro na abordagem da história dos vindo de baixo.

Você escreve: “Já na década de 1930, James imaginou ex-escravos negros funcionando como um coro grego em sua peça Toussaint Louverture, de 1936, e sua história em 1938 já constitui uma história marxista pioneira avant la lettre dos anos 1960 nas obras de Albert Soboul, George Rudé, E.P. Thompson, Eric Hobsbawm e outros”.

Aceitando que a abordagem de James da história dos de baixo foi pioneira, você não acha que ela também tem suas peculiaridades?


Rachel Douglas

Sim, eu concordaria com isso: sua abordagem da história dos de baixo não era apenas pioneira, mas também tinha suas peculiaridades. Ela se concentra nas multidões da Revolução Haitiana, embora represente apenas alguns rostos na multidão. Ela também chama a atenção para protagonistas alternativos, incluindo Moïse (sobrinho de Louverture). Sua protegida Carolyn Fick, cuja dissertação James supervisionou ao lado do especialista francês em multidões revolucionárias George Rudé, iria se aprofundar ainda mais em líderes populares alternativos.

A abordagem da história dos de baixo de James é marcada com as ideias-chave da tendência Johnson-Forest, que incluem: a rejeição do conceito marxista-leninista ortodoxo de partido de vanguarda e um foco na auto atividade, auto-organização e mobilização das massas. O que a segunda montagem da peça de James nos mostra em particular é que houve revoluções haitianas dentro da revolução.

Viviane Magno

Falando de divisões internas dentro da colônia, há duas questões que parecem inter-relacionadas: a denúncia que James faz de “revolucionários negros” autoritários se comportando como governantes brancos e a questão da independência real do Haiti.

Em outras palavras, você acha que, pensando no contexto colonial, James chega a uma teoria mais complexa de uma divisão da sociedade de classes?


Rachel Douglas

Sim, acho que James chega a uma teoria mais complexa de uma divisão social dialética marxista. No contexto colonial, James nos mostra que as relações de classe são importantes, mas também como as relações de poder entre colonizador e colonizado têm a ver com a raça. James fez isso muito antes de Albert Memmi, Frantz Fanon e Jean-Paul Sartre.

Viviane Magno

Eric Williams recebe o crédito por traçar a conexão entre capitalismo e escravidão em seu Capitalism and Slavery (1944). Seu livro mostra que James – mentor não oficial de Williams – já estava investigando essa ideia em Os Jacobinos Negros.

Você concordaria que a hipótese de James foi pioneira não apenas em mostrar que o comércio de escravos foi a base econômica para a ascensão do capitalismo, mas que o modo de produção de plantações era uma instituição essencialmente moderna de exploração capitalista? Me lembro de W.E.B. Du Bois, em Black Reconstruction in America (1935): “Os escravos negros na América experimentavam as piores e mais baixas condições entre todos os trabalhadores modernos...”


Rachel Douglas

Sim, essas palavras de Du Bois são muito adequadas. Em junho de 1971, James deu outra palestra no Institute of the Black World, que era uma análise comparativa de Os Jacobinos Negros e Black Reconstruction de Du Bois. Ambas as obras nasceram quase no mesmo momento.

Concordo com a hipótese de que James foi pioneiro porque ele deixou claro que o modo de produção escravista das plantações no Caribe era uma instituição essencialmente moderna de exploração capitalista. James traçou a conexão entre capitalismo e escravidão antes de Eric Williams, que publicaria Capitalism and Slavery em 1944. De acordo com James, sua pesquisa para Os Jacobinos Negros gerou diretamente a tese central da dissertação de doutorado de Williams e o livro de história subsequente. Em sua autobiografia inédita, James se apresenta “[escrevendo] com [suas] mãos” e “[escrevendo] em 2/3 páginas” o assunto da tese de doutorado de Williams.

As lembranças de James são claramente coloridas por seu subsequente rompimento com Williams, que é apresentado como um escriba fiel que copia palavra por palavra a tese de seu mentor. Williams acompanhou James em algumas das viagens de pesquisa a Paris nos anos 1930, e James discute como Williams escreveu certas notas de rodapés que apareceram em Os Jacobinos Negros, enquanto James escreveu certas linhas em Capitalism and Slavery. Ambos os trabalhos publicados se encaixam.

No entanto, também poderíamos falar sobre um caso de Os Jacobinos Negros versus Capitalism and Slavery. O Capítulo 12 “The Slaves and Slavery” [Os Escravos e a Escravidão] do livro de Williams é onde as duas obras claramente se sobrepõem. Mas questões foram levantadas se esse Capítulo 12 se encaixava no resto do livro, especialmente por Michael Craton. Na gênese do capítulo de Williams, Selwyn Ryan observa que, depois de receber as provas, James disse que Williams havia deixado os escravos completamente de fora. O que está claro é que Williams tem uma dívida particular com James pela formulação de sua tese central. Dois mestres da música calipso de Trinidad – Black Sage (Phillip Murray) e Short Pants (Llewellyn McIntosh) ­­– são conhecidos por seus riffs sobre C.L.R. James contra Eric Williams.

Viviane Magno

Você aponta que um modelo importante para a narrativa histórica marxista de James foi O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Você também sinaliza que James deriva muito de seu método e estilo de História da Revolução Russa, de Trotsky e suas duas teorias principais – desenvolvimento desigual e combinado e revolução permanente. No entanto, você mostra como na década de 1960 James começou a trabalhar com novas fontes que o levaram a reformular seu próprio marxismo, enfatizando as massas sobre a liderança.

Você poderia falar sobre essas mudanças, particularmente em referência ao influente livro de Henri Lefebvre sobre a Revolução Francesa? Você afirma que com essa mudança de ênfase – da liderança para as massas – o livro de James seria melhor intitulado “Black Sansculottes”.


Rachel Douglas

Sim, as duas obras são ambas modelos-chave para James. Quanto às ideias veiculadas – revolução permanente e desenvolvimento desigual e combinado – elas também são essenciais para a história que James narrou em 1938, onde encontraram os contextos coloniais da sociedade escravista de plantações em São Domingos e da revolução anticolonial na África e no Caribe, muito além da Rússia e da China usada como exemplo por Trotsky.

A revolução permanente é usada em Os Jacobinos Negros como um modelo para explicar o desenvolvimento da Revolução Haitiana como a única revolta de escravos bem-sucedida na história. No passado mais distante da Revolução Haitiana, esses escravos sofreram, de acordo com James, com as “opressões concentradas da escravidão” e responderam como “revolucionários por completo […] irmão dos Cordeliers em Paris e dos trabalhadores de Vyborg em Petrogrado.”

Mais tarde, após seu distanciamento de Trotsky, James atacaria ferozmente a noção de revolução permanente, tornando-a um de seus alvos em Notes on Dialectics (1948), onde a descreveu como “precisamente carente de vida, espírito, cor, contéudo” e como a ideia que sempre impulsionou Trotsky em direção aos mencheviques e contra o leninismo (isso é citado na introdução de Paul Le Blanc ao seu livro de 1994 com Scott McLemmee intitulado C.L.R. James e o Marxismo Revolucionário). A crítica de James à revolução permanente é menos dura em algumas obras posteriores. No entanto, James chegaria ao ponto de criticar a teoria de partido revolucionário de Trotsky como “erro permanente” ou “uma ficção”, como observado pela coleção de seus discursos de Martin Glaberman, Marxismo para o Nosso Tempo (1999).

Nos anos 1950, 60 e 70, James começou a trabalhar com novas fontes, especialmente no que diz respeito à historiografia da Revolução Francesa. James comprou as palestras mimeografadas de Lefebvre em 1956 de um dos bouquinistes ao longo das margens do Sena. Os Jacobinos Negros não é apenas um texto da década de 1930, ele novamente se torna um texto ativo na década de 1960. James se baseia no trabalho de Lefebvre, um dos pioneiros da abordagem da Revolução Francesa a partir da história dos de baixo. A edição revisada de Os Jacobinos Negros foi publicada em 1963, quando as histórias definidoras dos de baixo estavam começando a ser publicadas por E.P. Thompson, Albert Soboul e George Rudé, entre outros.

Nas novas notas de rodapé, James esboça como uma história de uma Revolução Haitiana vista pela perspectiva dos de baixo poderia ser. As duas notas de rodapé gigantescas da edição revisada de Os Jacobinos Negros fazem referência à análise de Lefebvre dos sans-culottes. Em meu livro, sugiro que James atualizou sua declaração de 1938/1963 sobre o Haiti e Os Jacobinos Negros com seu ensaio de 1964, “Black Sansculottes”: “This is now!”, foi escrito por James em 1964. Em suas palestras de 1971 sobre Os Jacobinos Negros em Atlanta no Institute of the Black World, o autor faz um comentário sobre as notas de rodapé de Lefebvre, indicando: “Se eu escrevesse este livro novamente, teria algo a dizer sobre aqueles dois mil líderes. Mencionei alguns aqui e ali, mas não o fiz com isso em mente”. Nestas palestras, James inclui verbalmente Albert Soboul – principal historiador dos sans-culottes – indicando ainda mais o deslocamento de sua atenção para esse assunto.

Viviane Magno

Uma das questões centrais do seu livro é a representação e o drama. Como você cita James: “Não há melhor drama como o drama da história”, e como você acrescenta: “Se não há melhor drama como o drama da história, de acordo com o próprio C.L.R. James, qual foi o papel do drama real na formação de seus próprios relatos da Revolução Haitiana nas diversas versões de Os Jacobinos Negros?”

Uma resposta que você oferece é: “O drama é usado como um meio de dar voz àqueles que não têm nenhuma, ou quase nenhuma, no arquivo imperial, e de tornar as multidões de escravos mais audíveis e visíveis”. Como mostra seu livro, os ex-escravos e suas vozes de oposição são representados como “princípios fundamentais do coro no teatro radical: conflito, contradição, choque e combate”.

Pensando na relação entre política, história e drama, como você entende a vocação do teatro para dramatizar a política?


Rachel Douglas

James é uma pessoa fundamentalmente política que se apresenta inclusive como um “não-dramaturgo” nas notas do programa da segunda montagem de Os Jacobinos Negros, apresentada pela primeira vez em 1967. A razão pela qual ele se volta para o teatro é para dar vida no palco à política. Relativamente poucas pessoas perceberam que Os Jacobinos Negros começou e terminou como duas peças muito diferentes. Toussaint Louverture: A história da única revolta de escravos bem-sucedida da história só foi apresentada duas vezes no Teatro Westminster em março de 1936, com Paul Robeson como protagonista.

Essas duas performances foram notáveis pela presença considerável de pessoas negras no elenco. Em ambas as peças, James explora os recursos do drama para mostrar o passado da Revolução Haitiana. Ele claramente foi influenciado por teatros de esquerda e movimentos teatrais na Grã-Bretanha e na América. Quanto às duas edições do livro Os Jacobinos Negros em 1938 e 1963, há páginas e páginas de diálogos dramáticos, o que nos dá a impressão que estamos lendo uma peça de teatro.

Foi interessante pensar nas qualidades especiais do teatro. David Scott invocou brilhantemente algumas das revisões da história de James para contrastar dois modos de narrativas históricas: o romance da primeira edição de 1938 versus a tragédia da segunda edição de 1963. A tragédia está, no entanto, também na primeira edição, e a segunda edição não é desprovida de esperança. Vários analistas se referem ao sentimento literário de Os Jacobinos Negros. O que procuro fazer é analisar a trajetória da obra como drama factual e como obra literária.

A relação entre o teatro e a política é tão estreita que muitas vezes ambos são apresentados como primos de segundo grau. O teatro tem sido descrito como a “mais pública das artes” e como uma das artes da apresentação/representação que, tal como a fotografia, tem um acesso privilegiado à verdade. Este papel intrinsecamente político do teatro como uma máquina de representação também o conecta fortemente com a ação, já que personagens mortos e eventos históricos de muito tempo atrás podem ser trazidos à vida por atores de carne e osso que realizam esses feitos no palco, como se estivesse acontecendo agora.

As peças de teatro político, como Toussaint Louverture (1936) e Os Jacobinos Negros (1967), tem o objetivo de encenar a política e a revolução (com a peça representando a situação dos escravos/oprimidos que alimentam a economia capitalista e sua revolução que pode mudar o mundo), para provocar o público a fazer política e revolução por sua vez, resistindo a um estado de coisas semelhante ao apresentado na peça. Na história versus a peça, é o caso de contar versus mostrar. Transformar o passado em drama permite que James mostre povos negros “agindo em larga escala” – uma de suas motivações-chave, como ele próprio afirma em seu prefácio de 1980 para Os Jacobinos Negros.

Viviane Magno

Sobre o Apêndice “De Toussaint Louverture a Fidel Castro”, você escreve, “por meio da adição do Apêndice, a rede de argumentação de Os Jacobinos Negros se torna mais do que a soma de todas as suas partes (...) o desenvolvimento dialético criativo do livro como um todo – o processo de mudança total de sua reescrita – é decretado neste Apêndice.”

Você poderia comentar mais amplamente este trecho? Em um ponto, você destaca que James sentiu que o que liga Louverture a Castro não é o mais óbvio – que ambos lideraram revoluções nas Índias Ocidentais – mas, como você diz, “eles usam esses amparos na literatura para mapear a busca por uma identidade nacional...”


Rachel Douglas

O apêndice tem apenas 30 páginas, mas este ensaio telescópico consegue abranger o estilo dos panfletos políticos de James, seu comentário social composto e estilo de jornalismo, a crítica literária da literatura das Índias Ocidentais, incluindo a dissolução da Federação das Índias Ocidentais e movimentos de independência. O hibridismo realmente marca a forma e o conteúdo final em Os Jacobinos Negros.

Esse hibridismo é apropriado para apresentar a visão consolidada ideal de James na federação caribenha. Isso seria muito mais inclusivo do que a união política de curta duração da atual Federação Britânica das Índias Ocidentais, que durou de 3 de janeiro de 1958 a 31 de maio de 1962. A federação caribenha ideal de James abrangeria Martinica, Guadalupe, Haiti, Cuba e os antigos territórios caribenhos holandeses, bem como as ilhas anglófonas da região. É realmente no Apêndice que James muda as coordenadas do espaço-tempo em Os Jacobinos Negros, conforme caminhamos da África da década de 1930 para as Índias Ocidentais na década de 1960 em busca de uma identidade. Em última análise, James sublinha o hibridismo da identidade das Índias Ocidentais, que possui uma qualidade inacabada e provisória, como Os Jacobinos Negros é em si um projeto de história.

Viviane Magno

Uma das grandes passagens de seu livro trata da tradução que James faz, no apêndice, do famoso poema de Aimé Césaire, “Cahier d’un retour au pays natal” [Diário de retorno ao país natal], de 1939. Para encerrar, você poderia dizer algumas palavras sobre essa tradução?

Rachel Douglas

O Cahier, de Césaire, e Os Jacobinos Negros, de James, foram publicados nas vésperas da Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, foram rescritos várias vezes. Pouca atenção foi dada à importância fundamental da tradução que James faz do Cahier, publicada na edição de 1963. Bem no centro do apêndice está a tradução do próprio James e uma análise estendida do poema. A tradução criativa de James torna o poema de Césaire como se fosse seu. Ele reformulou o título como “Declaração de retorno ao país onde nasci”.

Em grande parte, o apêndice nos fornece a própria declaração de James e as perspectivas de seu próprio retorno à Trinidad para participar da política de lá. “Declaração” traz à mente uma comunicação como seu próprio panfleto político, Party Politics in the West Indies (1962), lidando com seu rompimento com Williams e o People’s National Movement, bem como seu agudo senso de decepção sobre a dissolução da Federação das Índias Ocidentais. Estas são, assim como o Cahier de Césaire, as placas de sinalização que marcam o apêndice. Ele incorpora parte do poema, de modo que ele literalmente se torna parte de Os Jacobinos Negros.

Quando comparamos a versão de James para o poema de Césaire, é então que a extensão da má leitura e da má tradução criativa de James emerge fortemente como uma reescrita criativa do original. O que James transforma completamente é o sentido do poema original, criando para ele um novo significado. Para tornar o poema seu, James inicia e termina sua tradução em pontos distintos de Césaire. James dialoga com Césaire. Os pronomes dos oradores costumam mudar à medida que James apresenta todos se reunindo no “encontro da vitória”, que é para ele o clímax do poema de Césaire. A reescrita envolve quebrar as longas linhas de prosa de Césaire em um arranjo de versos poéticos mais tradicionais. Desta forma, o Cahier é reescrito de forma que as linhas mais curtas agora se pareçam mais com versos, fazendo com que a forma do poema se destaque mais contra a prosa de James no resto do texto. Quando James reorganiza o poema, o que ele identifica como sendo seu centro e onde termina sua tradução está, na verdade, bem no meio de uma linha no meio de um estrofe.

James termina traduzindo “et il est place pour tous au rendez-vous de la conquête” como “e há um lugar para todos no encontro da vitória”. Em francês e inglês, as palavras equivalentes são “conquête” para “conquista” e “victoire” para “vitória”. Se James tivesse procurado traduzir isso mais de perto, ele poderia ter proposto “no encontro da conquista”. Essa mudança de apenas uma palavra é muito significativa. Enquanto “conquista” está ligada a conotações mais negativas, “vitória” é mais positiva: se refere aos vencedores, enquanto a conquista se refere aos perdedores. Assim, James muda o final do poema de Césaire, que não é o final real de Cahier, reescrevendo-o.

Isso – a própria reescrita de Césaire por James – mais tarde se tornaria um marco importante em seu trabalho. Subsequentemente, No Encontro da Vitória se tornaria o título de todo um volume de escritos de selecionados de James em 1984. C.L.R. James sempre citava sua própria tradução de Cahier, dizendo, “prefiro isso a qualquer outra, simplesmente porque eu o fiz”.

Sobre a entrevistada

Rachel Douglas é professora de francês na Universidade de Glasgow. Ela é a autora de Making the Black Jacobins: C. L. R. James and the Drama of History.

Sobre a entrevitadora

Viviane Magno é professora de filosofia do direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Suas áreas de pesquisa são filosofia política e história.

Guerra Fria da Grã-Bretanha na América Latina, antes e agora

Apesar de se autodenominar como um bastião da justiça internacional, documentos recentemente divulgados revelam o envolvimento da Grã-Bretanha em abusos e golpes em toda a América Latina - um envolvimento que continua até hoje.

Daniel Hunt, John McEvoy


Tribune

Tradução
/ Embora os Estados Unidos possuam um histórico notório de intervenções nas Américas, o envolvimento britânico na região permanece relativamente desconhecido, com sua política externa imune ao escrutínio público. Documentos recém-desclassificados dos Arquivos Nacionais do Reino Unido, entretanto, lançaram uma luz importante sobre a Guerra Fria da Grã-Bretanha contra a América Latina.

Apesar da perda considerável de comércio e influência da Grã-Bretanha na América Latina durante o século XX, a intervenção britânica durante o pós-guerra foi significativa. Entre as décadas de 1950 e 1970, a Grã-Bretanha interviu secretamente em diversos estados latino-americanos, com o objetivo de promover interesses comerciais e empresariais britânicos, apoiar os objetivos da política externa norte-americana e manter a região no “lado certo” da Guerra Fria.

Na prática, isso significou interferir em eleições e instituições democráticas, fornecer treinamento para a prática de tortura, patrocinar jornalistas e apoiar ditaduras militares.

Ofensiva de publicidade secreta

Em 1948, uma unidade secreta de propaganda – inocentemente chamada de Departamento de Pesquisa de Informações (DPI) – foi criada no Ministério das Relações Exteriores. De acordo com os primeiros documentos, o Departamento foi projetado para distribuir propaganda disfarçada, não atribuível ao Ministério, para “conter os avanços do comunismo, tomando a ofensiva contra o movimento”.

O trabalho do DPI na América Latina começou logo após sua criação, mas foi somente na década de 1960 que suas operações secretas “aumentaram consideravelmente” na região. A mudança foi motivada pela visita do diplomata Ronnie Burroughs em 1961 que, segundo o historiador Rory Cormac, nomeou Equador, Bolívia, Venezuela, Colômbia e Peru como prioridades estratégicas.

Três anos após a visita de Burroughs, um arquivo do Ministério apontava, novamente, que a América Latina havia se tornado “uma área vital na Guerra Fria” e que “impedir uma vitória comunista da região era um interesse tão importante quanto negociar comercialização e intensificação das exportações”.

Pare Allende

Conforme revelou o Desclassified UK, documentos oficiais recém-divulgados mostram que a Grã-Bretanha interferiu secretamente nas eleições presidenciais chilenas de 1964 e 1970.

Durante o início da década de 1960, o Chile entrou no radar do DPI com a ascensão da popularidade de Salvador Allende, um político socialista e líder da Frente de Acción Popular (Frente de Ação Popular).

Antes da eleição chilena de 1964, funcionários do Gabinete do Governo da Grã-Bretanha informaram ao DPI que “será importante prevenir ganhos significativos da extrema-esquerda” no Chile, “agora e no futuro”. Como tal, o DPI distribuiu seu “material mais sério para contatos confiáveis” e garantiu “a publicação de certos artigos na imprensa” no Chile, destinados a desacreditar Allende e favorecer seu então oponente democrata-cristão, Eduardo Frei.

Após a vitória convincente de Frei, a oficial sênior do DPI, Elizabeth Allot, declarou o Chile como uma prioridade, observando que “certamente há poucos locais que reivindicam melhor nossos recursos e onde há tanta oportunidade para nós”.

Em 1970, Allende – então líder da coalizão Unidade Popular do Chile – parecia provável de ganhar a presidência com um plano radical para uma reforma econômica estrutural. Os planejadores do DPI reagiram com preocupação, afirmando em 1969 que “o Chile está na linha de frente no que diz respeito ao avanço do comunismo na América do Sul”.

Nos meses que antecederam a eleição, Allott escreveu que o DPI estava, portanto, “concentrando-se em evitar que uma aliança da extrema-esquerda ganhasse poder […] e em ajudar organizações convenientes que provavelmente continuarão existindo, aconteça o que acontecer”.

A Grã-Bretanha também colaborou com a infame campanha de propaganda norte-americana no Chile, até mesmo auxiliando uma organização de imprensa fundada pela CIA que visitou o país em 1970. Depois que Allende foi derrubado por um golpe militar em 1973, o governo de Edward Heath agiu rapidamente para reconhecer o general Augusto Pinochet – uma relação fechada que foi notoriamente reacendida por Margaret Thatcher.

A Grã-Bretanha e a ditadura militar brasileira

Documentos recém descobertos também expõem as operações do DPI no Brasil durante a ditadura militar no país (1964-1985) e forneceram detalhes adicionais do treinamento britânico sobre tortura.

Além de trabalhar para manter as Forças Armadas brasileiras “informadas sobre as políticas e métodos comunistas, com o objetivo de tornar sua oposição ao comunismo mais racional e bem informada”, as autoridades britânicas tentaram moldar o panorama da mídia brasileira e até discutiram em transformar o presidente João Goulart em um alvo.

Assim, como Cormac descobriu, autoridades britânicas queriam fazer o presidente “temer que sua posição pessoal com o movimento sindical estivesse sendo minada. Isso poderia ser melhor feito sugerindo que o movimento estava sendo assumido por comunistas e pela extrema-esquerda ‘por meio de um’ documento ‘negro’ que tentaria provar que esse era o caso”.

Publicitários britânicos também tinham como alvo o Última Hora, um jornal brasileiro convencional e de esquerda fundado em 1951 pelo jornalista e autor Samuel Wainer. Em 1964, Última Hora era o único jornal brasileiro convencional a defender o governo de João Gourlart e se opor ao golpe militar.

Tentativas de influenciar o Última Hora começaram em seis meses antes do golpe. Em uma carta enviada do embaixador britânico RJD Evans ao funcionário do IRD JE Jackson, datada de 30 de setembro de 1964, Evans discute “acordos não oficiais” para reuniões do IRD com “os diretores do Jornal do Brasil e um vice-presidente e editor do Última Hora’.

Em 1968, autoridades britânicas no Brasil se gabavam de que o “estímulo” ao Última Hora já era um fato consumado. Como diz um arquivo do IRD: “Nosso material vai para altos membros das Forças Armadas, o Serviço Nacional de Inteligência, a imprensa incluindo o Última Hora de esquerda, cujo editor, Samuel Wainer, foi cultivado assiduamente pelo [oficial de informação] Sr. Welligton; a igreja, estudantes e líderes sindicais”.

Oficiais britânicos estavam triunfantes. “A transformação do Última Hora de um jornal quase-comunista de extrema-esquerda para um diário de oposição respeitável e respeitado”, diz outro documento desclassificado, foi ajudado pela relação especial entre o oficial do IRD e o fundador e presidente do jornal, Dr. Samuel Wainer.

Um arquivo acrescente que “o suplemento produzido por ocasião da visita de Sua Majestade a Rainha pelo Última Hora foi considerado o melhor produzido por qualquer jornal brasileiro — e os americanos até nos perguntaram quanto tínhamos pago ao jornal por ele. “Nem um centavo, é claro”, foi a resposta.

A situação degenerativa dos direitos humanos no Brasil ao final dos anos 1960 evidentemente não preocupava os britânicos.

Em sua revisão anual de dezembro de 1972, o embaixador do Reino Unido no Brasil, David Hunt, foi indiferente às questões de direitos humanos. Absolvendo a liderança, ele culpou o policiamento deficiente e a má imprensa estrangeira, organizações maliciosas como a Anistia Internacional e deu seu apoio entusiástico ao governo sangrento do ditador Médici, chamando-o de “um presidente genuinamente popular que é patentemente honesto e sincero em seu desejo de promover o bem-estar de todos os setores do povo brasileiro”.

Além de ajudar na propaganda, a Grã-Bretanha ofereceu “um curso de treinamento de quinze dias em junho de 1969 para dois membros de um grupo especial de inteligência dentro do Ministério de Relações Exteriores”, bem como conselhos sobre “métodos sofisticados de interrogatório [tortura]”.

Escrevendo em 1970, o adido de defesa britânico PB Winstanley concluiu: “Apesar da apatia obtusa do povo, o país está avançando tão rápido quanto, talvez, a natureza de seus milhões de mulatos permitir”.

Agenda Canning

Desde novembro de 2010, o relacionamento do Reino Unido com a América Latina tem sido direcionado por uma iniciativa de política externa chamada de Agenda Canning, lançado pelo então secretário de Relações Exteriores, William Hague. Dez anos depois, podemos avaliar a direção da política externa britânica, do Brasil à Bolívia, de Honduras à Venezuela, e notar que isso serviu para minar a democracia e ajudar os responsáveis pelos principais abusos dos direitos humanos.

Na Bolívia, o Reino Unido reconheceu e apoiou abertamente o regime liderado por Jeanine Añez, que chegou ao poder por meio de um golpe sangrento em 2019. No mesmo ano, a Grã-Bretanha também se apressou para reconhecer o autodeclarado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, congelando mais tarde quase 2 bilhões de dólares de ouro venezuelano mantido no Banco da Inglaterra, estabelecendo uma “Unidade de Reconstrução da Venezuela” dentro do Ministério de Relações Exteriores, e financiando iniciativas anticorrupção e pró-oposição.

A Grã-Bretanha evidentemente teve um lado na própria crise democrática do Brasil. De acordo com arquivos obtidos sob o Freedom of Information Act, autoridades britânicas também mantiveram reuniões secretas com o candidato neofascista Jair Bolsonaro antes, durante e depois da campanha eleitoral brasileira de 2018. Meses antes da votação, por exemplo, o embaixador britânico Vijay Ringarajan enviou um convite a Bolsonaro sobre uma reunião secreta com os “Parceiros Estratégicos” britânicos – um lobby de empresas farmacêuticas, extrativas e de armas, incluindo BP, AstraZeneca e a gigante da mineração, Anglo American.

A Grã-Bretanha também mantém as Ilhas Malvinas e Belize como possessões imperiais. Como revelou o Declassified UK, o exército britânico ainda está “usando um sexto da massa terrestre total de Belize para treinamento de guerra na selva”.

Agora, como antes, a Grã-Bretanha vê a América Latina em termos geoestratégicos e comerciais. No contexto de uma nova Guerra Fria, com as potências do Atlântico Norte buscando afastar o continente das alianças com a Rússia e China, observamos que o relacionamento da Grã-Bretanha com a região está ainda mais parecido com os dias sombrios de meados do século XX do que se imagina.

Sobre os autores

Daniel Hunt é editor fundador da Brasil Wire.

John McEvoy é um jornalista independente, cujo trabalho foi publicado na Jacobin, Brasil Wire e na International History Review.

3 de janeiro de 2021

Depois de Bacurau, a indústria cinematográfica brasileira está sob ameaça no governo de Jair Bolsonaro

O filme brasileiro Bacurau foi aclamado internacionalmente como um dos melhores filmes de 2020. No Brasil, porém, desencadeou a ira de um governo de extrema direita, que quer esmagar a indústria cinematográfica do país. Diretores de Bacurau conversaram com a Jacobin sobre a revitalização da cena cultural brasileira pelo governo Lula e o que Bolsonaro tem feito desde então para destruí-la.

Uma entrevista com
Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho

Jacobin

Bacurau (2019), direção de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Tradução / Bacurau foi recebido como um dos melhores filmes de 2020, anunciado como um novo marco cinematográfico de filmes com consciência de classe. O filme, dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, foi comparado pela crítica com Parasita de Bong Joon-ho, e os dois cineastas recifenses aproveitaram os holofotes para debater algumas questões políticas. Era inevitável que os comentaristas enquadrassem Bacurau como uma espécie de manifesto anti-Bolsonaro. Apesar do anacronismo (Bacurau foi filmado antes da vitória de Jair Bolsonaro em 2018), há um grão de verdade na descrição.

Desde o início da carreira, eles se empenham em colocar o Nordeste no centro do mapa cultural nacional. Com o sucesso do Aquarius, de 2016, e especialmente com o Bacurau, eles chamaram atenção internacional, causando consternação entre os conservadores da extrema direita. Os diretores de Bacurau estão numa batalha contra a direita que remonta pelo menos a 2016, quando fizeram um protesto em Cannes denunciando o golpe que a elite brasileira estava impondo à ex-presidente Dilma Rousseff. Desde então, Kleber Mendonça tem sido alvo de sabotagem apoiada pelo governo – tanto Aquário quanto Bacurau foram visivelmente ostracizados para não serem indicados ao Oscar.

O governo Bolsonaro tem sido especialmente agressivo em seus esforços para destruir importantes instituições culturais, como a Agência Nacional de Cinema do Brasil e a Cinemateca Brasileira. Seus ataques violentos ao financiamento das artes e da educação são um movimento típico no manual de extrema direita. Mas também servem como um lembrete de que, apesar de todas as suas deficiências, o Partido dos Trabalhadores (PT) deixou um legado considerável em relação à cultura e à educação que não pode ser apagado tão rapidamente.

Nesta conversa com Nicolas Allen e Daniel Carneiro, editores da Jacobin, os diretores do Bacurau fazem questão de ressaltar esse legado. Como destacam ambos, foi o Nordeste que viu importantes avanços com os sucessivos governos do PT, tanto em termos culturais quanto sociais. Na verdade, o apoio do governo à região historicamente marginalizada foi tão significativo que Juliano e Kleber não podem deixar de reconhecer o entrelaçamento das histórias do PT e de suas próprias trajetórias artísticas.

Nicolas Allen / Daniel Carneiro Leão

Como foi o processo de elaboração do filme ao longo desses últimos anos, em meio a tantas mudanças políticas, com a reeleição da Presidenta Dilma, o golpe de estado, o assassinato da vereadora Marielle Franco e a tragédia da última eleição nacional?

Juliano Dornelles

Bacurau nasce de um desconforto, uma discordância que eu e Kleber Mendonça Filho sentimos sobre muita coisa que tem sido produzida no cinema nacional, principalmente documentários sobre o sertão que retratavam seus personagens como pessoas simples, que viviam em lugares isolados e mais pobres. Fomos ao festival de Brasília e vimos uma série de documentários sobre o tema e havia sempre um olhar condescendente sobre os personagens. Concorremos com um curta chamado “Recife Frio” (2009), uma espécie de falso documentário de ficção científica. O Recife assistiu em peso, aliás, o DVD do filme vendeu mais do que o de “Harry Potter” na Livraria Cultura. Foi um hit aqui.

O filme foi premiado e na noite da comemoração começamos a pensar como no Brasil não há uma tradição de cinema de gênero, que tem sua grande fundação e surge com a indústria hollywoodiana nos Estados Unidos. Já no Brasil, o realizador de cinema de gênero nunca foi respeitado – e a gente teve um dos maiores artistas da história da humanidade, o Zé do Caixão, um gênio absoluto do cinema e de qualquer coisa que você possa imaginar. E, ele nunca foi tratado com o devido respeito.

Há uma destruição em curso, é preciso dizer. A Agência Nacional do Cinema (ANCINE) está por um fio, já faz algum tempo. A reconstrução vai levar mais tempo, enquanto que destruir é quase que instantâneo. No primeiro dia da presidência, Jair Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura.

Bacurau vem dessa vontade de fazer um filme de gênero que fosse brasileiro. Não é emular o que é feito fora, queríamos fazer o nosso. A natureza dessa tradição do jornalismo e das telenovelas de representar o próprio povo assim, isso já permitiu um mote perfeito que é rico em conflito e contradição, para iniciar um trabalho de roteiro.

Começamos dez anos atrás. Trabalhamos em vários outros projetos ao longo desse tempo, outros filmes, outras coisas, tivemos filhos e Bacurau nunca deixou de ser um projeto nosso, sempre estivemos conversando com e sobre Bacurau, mas era um filme que demandava muito. Então chegou o momento em que Donald Trump deixou de ser uma piada e passou a ser uma possibilidade real à presidência dos Estados Unidos, isso fez com que o roteiro subisse um degrau. Kleber fala muito sobre a subida de tom nos filmes dele, que eu participei: “O Som ao Redor” (2012) tem um tom, “Aquarius” (2017) sobe um pouco e Bacurau (2019) sobe lá para cima. Tem muito a ver com essa possibilidade real de eleição de Donald Trump. Nesse momento, a gente descobriu quem seriam os nossos vilões, digamos assim.

Com isso, fizemos o roteiro, durante oito meses. Isso não aconteceu num lugar afastado como uma montanha, com lareira acesa e duas máquinas de escrever, mas a gente estava com os monitores ligados, os podcasts, assistindo filmes novos e antigos, discutindo muita história. E, aí, talvez isso seja algo que explique um certo poder “premonitório” que foi identificado no filme, muita coisa que já estava escrita no roteiro começou a acontecer no Brasil também.

Kleber Mendonça Filho

Nunca conseguiria fazer um filme que não refletisse o que está acontecendo na sociedade. “O Som Ao Redor” foi escrito em 2008, quando o Brasil vivia uma estabilidade muito interessante e até então inédita, o que não significa que estava tudo bem, porque nosso país é tenso e contraditório, como as sociedades em geral são –– mas alguma coisa existia ali, plana e difusa ao mesmo tempo. Um certo mal-estar difuso.

Gravei o filme “O Som Ao Redor” em 2010. Quando saí dele, fui para “Aquarius” e já estava trabalhando com Juliano Dornelles no Bacurau. Quando começamos a filmar “Aquarius” em 2014, no ano da reeleição de Dilma Rousseff, percebi a volta de alguns elementos que não via e ouvia no Brasil, especialmente, uma divisão invisível que para mim é muito visível, invisível porque não existe uma fronteira oficial, entre o Sul e o Nordeste. Como pernambucano, sempre fui muito sensível a essa separação e percebi também que alguns personagens que estavam desaparecidos, ou, até, que não tinha visto nem nos anos 90, pessoas agressivas de um corte político da direita e depois vistos como de extrema-direita, passaram a se manifestar sem tanta timidez.

Em “Aquarius”, escrevi coisas que não teria escrito em “O Som Ao Redor”, de maneira muito natural, como uma cena em que há uma discussão em voz alta onde uma pessoa aponta o dedo na cara de outra. Vemos isso em “Aquarius”, porque estava vendo isso acontecer no Brasil. Durante a filmagem de “Aquarius”, já existia uma intriga política que não fazia sentido do ponto de vista factual, mas era só uma narrativa de mentiras e a própria perseguição totalmente absurda contra o Lula e isso aos poucos foi entrando no roteiro de “Aquarius”.

Durante todo esse tempo a gente estava pensando em Bacurau, um filme de gênero, ficção científica, thriller e aventura, muito brasileiro, mas também um pouco australiano, estadunidense, italiano, com todas essas influências. Em 2016, ano do lançamento de Aquarius, ano do golpe, da expulsão de Dilma do governo federal, foi a eleição de Donald Trump. Isso foi muito impressionante, em uma semana Trump era uma piada e na próxima, era o presidente dos Estados Unidos. De repente, a realidade alcançou o roteiro e a gente precisou, depois da eleição de Trump, aumentar ainda mais a voltagem do filme.

Então, eu e Juliano, sempre estivemos muitos conectados enquanto escrevíamos Bacurau, de olho nas redes sociais, na imprensa brasileira e estadunidense, YouTube, Instagram, etc., percebendo como as pessoas estavam reagindo a tudo isso. O roteiro de Bacurau veio primeiro de um ponto de vista teórico e depois do ponto de vista prático aplicado ao cinema de gênero, foi muito estranho, na verdade, como muitas das ideias se confirmaram a partir da realidade. As pessoas pensam: “Que filme futurista”, tem muita coisa ali que é repetição da realidade. Ela é a base de Bacurau, a repetição histórica.

Nicolas Allen/Daniel Carneiro Leão

Qual a expectativa de vocês sobre o cenário político brasileiro e o cinema nacional?

Juliano Dornelles

Há uma destruição em curso, é preciso dizer. A Agência Nacional do Cinema (ANCINE) está por um fio, já faz algum tempo. A reconstrução vai levar mais tempo, enquanto que destruir é quase que instantâneo. No primeiro dia da presidência, Jair Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura. A reconstrução vai acontecer. Hoje acordei otimista depois de muito tempo, a gente está se reorganizando. O que é bonito no audiovisual é que a gente aprendeu a se organizar antes da tragédia acontecer, existe uma classe organizada que fala sobre os caminhos a serem seguidos. Acho que esse ciclo da extrema direita que até poucos dias atrás parecia que iria demorar muito mais, segue outro curso com a derrota de Trump e de Bolsonaro, que quase não elegeu ninguém (prefeitos e vereadores) que apoiou nessas eleições. Isso tem um significado, esse ciclo não vai ser tão longo como parecia. O cinema, e, a cultura de modo geral, vai levar mais tempo, porque nunca é prioridade, inclusive, em governos de centro-esquerda.

Foi uma revolução o que aconteceu nos governos Lula, não há como negar que aqui em Pernambuco aconteceu algo que não acontece em lugar nenhum do mundo, com relação ao fomento para o audiovisual. Não sei quanto tempo vai levar para voltar nesse mesmo status em que o Brasil estava, de produzir 300 filmes por ano, isso nunca tinha acontecido antes, a gente estava vivendo a era de ouro. Não eram só 300 filmes sendo produzidos, mas filmes que participavam dos festivais de cinema mais importantes do mundo, o cinema brasileiro estava se impondo como um cinema forte e relevante. O que não acontecia há décadas no Brasil.

O ciclo de destruição aparentemente não vai ser tão longo quanto todo mundo achava que seria, isso é uma ótima notícia. Para mim, a melhor parte, é de que o que se plantou em termos humanos não se destrói, há uma geração de novos realizadores que não vão deixar de fazer filmes por falta de dinheiro, a expressão artística continua e os filmes continuam a ser feitos.

Kleber Mendonça Filho

O lançamento de Bacurau foi constrangedor para esse governo, pelo sucesso, alcance e capacidade de gerar debate. Os números comerciais de público, a capacidade que teve de ser exibido internacionalmente, o prêmio no festival de Cannes, a estreia nos Estados Unidos, tudo isso é constrangedor para um governo que não acredita no produto cultural brasileiro, que não o vê como parte de uma indústria que também é forte economicamente no final das contas.

Para mim, o cinema fala muito alto como identidade, voz e cidadania, é a capacidade que a gente tem de ter o nosso lugar, de falar alguma coisa, é saber que Bacurau passou na “tela quente” da Rede Globo, na mesma programação onde o público assiste “Os Vingadores” e “Homem Aranha 4”. Tudo isso é muito importante. Hoje, a gente tem uma situação no Brasil onde essa indústria está sendo sabotada como parte do plano de governo. Então, como pernambucano, sinto que o clima aqui em Recife ainda é mais saudável do que em outras cidades do Brasil politicamente na área de cultura.

Estamos muito distantes de estarmos organizados da maneira que devemos. No Brasil, acho que a classe trabalhadora está atônita, em grande parte desarticulada, não significa que todos estejam, o “X” da questão é que, quando você tem uma estrutura no melhor dos momentos – que é a democracia – a situação já é complexa, complicada e burocrática. Se quiserem sabotar a política cultural no Brasil, não é muito difícil fazer isso. É isso que vemos hoje. Gosto de acreditar que estamos passando por um momento ruim, além de totalmente estranho e injusto, mas ele vai passar. Com alguns anos, a gente vai conseguir juntar as peças do quebra-cabeça e remontar uma ideia de indústria cultural, que é o que os grandes países fazem.

Nicolas Allen / Daniel Carneiro Leão

Com o cuidado de elaborar uma obra sobre o sertão, com as particularidades que possui, em especial, de evitar estereótipos e não inferiorizar as pessoas, a cultura e a história dali, mas, também, de enfatizar a pluralidade, a comunidade e as vidas locais, como vocês lidaram com o sertão nordestino em Bacurau?

Juliano Dornelles

Sempre tivemos a consciência de que a gente não é sertanejo, somos do litoral e da cidade grande. Sempre trabalhamos com a postura de deixar o lugar e as pessoas entrarem no filme, que são uma coisa só. O sertanejo e o sertão são uma coisa só. A construção de uma obra dessas precisa ser muito aberta, você não pode achar que sabe tudo o que você está falando. Existem várias maneiras de se fazer um filme, mas eu não acredito em fazer filmes que não sejam completamente honestos com o objeto do filme, em que o cineasta inventa uma coisa da cabeça dele e impõe isso em determinado lugar. E, acho que esse erro é cometido diversas vezes, na forma como o sertanejo é representado no cinema, no jornalismo e nas novelas.

É preciso pontuar que o sertão é um lugar de riquezas culturais e históricas muito fortes, muita literatura e música. A postura era de estar completamente aberto e deixar com que esse lugar e as pessoas desse lugar ajudassem a construir a história e o olhar do filme. Funcionou muito bem. Outro aspecto, a gente viajou cerca de onze mil quilômetros para achar aquele lugar específico, aquela locação que escolhemos para filmar. Tem pessoas que vivem lá e nos arredores, milhares de pessoas, a gente teve tempo para que as pessoas que cuidavam do elenco fizessem uma pesquisa extensa e conhecessem muita gente. A gente viveu meio que nesse ambiente de comunidade com muito carinho, afeto e respeito.

Isso se reflete, pois existem coisas que estão no filme e não estavam escritas, por conta dessa experiência horizontal que se estabeleceu. O tempo é a grande chave de tudo, a gente teve o privilégio de poder fazer o filme de uma forma não muito comum, estender os prazos, de escolher o local, os atores, etc., investimos o orçamento nisso. E o resultado foi esse. Estávamos confortáveis e o caminho foi o da honestidade, de buscar e construir processos juntos, não fazer imposições nem dizer como as coisas tinham que ser feitas.

Kleber Mendonça Filho

Essa pergunta funciona em três chaves. A primeira é entender qual é a representação do sertão dentro do próprio Brasil através da mídia, da televisão, do jornalismo, das novelas, do cinema, etc., das conversas na rua e das mesas de bar. O que é o sertão para as pessoas? O olhar da mídia brasileira é uma catástrofe, uma visão de sertão simplória, preconceituosa e desinformada. Tudo isso, nos dá um retrato muito ruim do sertão, mas grande parte desse retrato não tem a intenção de ser ruim. Uma coisa é fazer um filme nazista onde todo sertanejo é sub-raça, mas que “ama” o sertão, a simplicidade do povo, o jeito de falar, tudo isso faz parte de uma visão positiva do sertão, mas que na verdade não é positivo. A primeira chave era entender isso foi no festival de Brasília com “Recife frio” (2009), que é uma ficção científica de 25 minutos sobre mudanças climáticas, que foi muito bem recebido, e, lá, vimos alguns filmes, documentários brasileiros, e achamos alguns dos filmes muito invasivos e assim surgiu o desejo de fazer Bacurau.

O que podemos fazer para mostrar a nossa própria visão do sertão? Entra a segunda chave. Eu sou do Recife, moro na cidade e sou do litoral, desde criança, parte da minha família é do sertão, significa muito você receber um telefonema ou mensagem dizendo: “Aparece lá em casa que chegou o queijo”; “Voinha trouxe queijo, lá de Serra Talhada, ou de Petrolina, ou do Crato”; o jeito de falar das pessoas, a literatura, a música e o cordel. Tudo isso faz parte dessa ideia.

Essas duas chaves são importantes. A terceira aconteceu de uma maneira muito linda, quando chegamos para gravar o filme, até mesmo antes, quando fizemos algumas viagens longas para procurar a locação, confirmamos muitas coisas que havíamos observado com o contato com as pessoas e os pequenos museus nas pequenas comunidades. Não sei se Juliano contou para vocês a história de uma senhora que o chamou para ir visitar o museu da comunidade, que era na sala de estar da casa dela, uma parede na sala de estar era o museu. Quando a gente chegou para filmar a produção naturalmente atraiu um grupo grande de pessoas que vieram trabalhar no filme, como carpinteiros, eletricistas, atores, atrizes, etc., não só nós nos alimentamos muito do que eles tinham para mostrar e falar durante a produção, como muitos deles passaram a ser personagens em Bacurau.

Aconteceu uma coisa muito linda, que, soube depois, aquelas pessoas que trabalharam com a gente durante seis meses, na verdade eram os marginalizados das comunidades onde viviam. Havia poetas, pessoas trans, músicos, palhaços, atores, doidos, homossexuais... os maluquinhos de cada comunidade. A primeira vez que a gente falou sobre isso foi numa entrevista ao Mubi na praia, no festival de Cannes, eu e Juliano meio que travamos e começamos a chorar. Hoje, consigo falar sobre isso sem parar a conversa e chorar. Foi muito forte quando a gente entendeu que essa união que aconteceu lá foi anormal. Foi uma experiência difícil de narrar.

Nicolas Allen / Daniel Carneiro Leão

Muito se falou da violência do filme, alguns afirmaram que Bacurau estimula práticas de violência, lembro desse pudor e moral reprovando outros filmes também, como se fossem “panfletos”, fizeram isso com outros realizadores, como Quentin Tarantino e Cláudio Assis. Qual a sua impressão sobre isso e como vocês trabalharam a violência no filme? Em algum momento, surgiu a pergunta: “Vocês não acham que exageraram, não?”

Juliano Dornelles

É muito importante dizer que não temos controle da reação do público e, dentro do filme, a violência não é retratada como algo banal ou divertido. No cinema comercial vemos a violência sendo retratada dessa forma, como um fetiche. Já no nosso a violência é uma tragédia. O filme termina e não há uma celebração. Ninguém comemora o que acabou de acontecer, as pessoas estão devastadas, as pessoas estão com raiva e tristes. É isso que está no filme. E faz toda a diferença. A violência é uma coisa feia, Kleber fala uma coisa que gosto muito, uma pessoa puxar um revólver e apontar para alguém, é algo muito extremo e sério, e, está acontecendo. Começamos a assistir isso no cinema como se não fosse nada, como se fosse alguém escovando os dentes. É assim que o cinema constrói a violência. No Bacurau não é assim.

Kleber Mendonça Filho

Em primeiro lugar, um filme é muito do que você esperava que ele fosse ou desejaria que fosse. E quando você finalmente o assiste, e, precisa sincronizar o que você criou na sua cabeça e o que você viu. Nós partimos para fazer um filme de gênero, de ação e aventura, do tipo que o cinema brasileiro não tem feito ou não faz, por questões de mercado e de cultura. Queríamos um filme que fosse muito brasileiro e honesto com relação ao que ele mostra. Não tenho problema em utilizar a violência gráfica no filme, se essa violência faz parte da construção do filme e da narrativa dos livros de história, da realidade e da sociedade que estou retratando e, também, da história do cinema. A história do cinema precisa ser contemplada. A violência gráfica sempre existiu, mas a partir do final dos anos 50, houve um aumento na forma e capacidade de mostrar a violência, e, hoje, a violência é muito livre, cabe a você entender se ela é “livre” de uma maneira estúpida, ou, se tem uma base humana e é considerada relevante.

Se você assistir “O Poderoso Chefão” (1972), o que pensa? “Aquilo ali é uma violência idiota ou gratuita? Ou uma violência que faz parte do comportamento humano e das relações humanas, de poder, de dinheiro, de política?” Eu acho que faz parte do filme e faz muito sentido. Quando Pacote fala, “Tu não acha que Lunga exagerou, não?” Acho uma fala muito boa, porque é muito importante que um filme não normalize a violência. Não aguento mais ver filme que por qualquer coisa uma pessoa puxa uma arma e aponta para outra, isso não aconteceu na minha vida e espero que nunca venha acontecer. Peguei numa arma uma única vez, num set de filmagem, 23 anos atrás, e, estava sem balas, peguei e falei: “Pô, pesado né?” Então, a ideia de violência é dramatizada, tenho um interesse muito grande em dramatizar a violência, ela precisa fazer parte de um contexto e, infelizmente, o contexto de violência no interior do Brasil é muito forte. Não estaríamos sendo verdadeiros com o filme, com o Brasil, com o mundo… fazendo um filme onde cada cena tivesse um elemento de violência verdadeiro pelo menos na filosofia e na forma humana de retratar aquele momento. Estou totalmente seguro e tranquilo da forma como nós lidamos com isso nesse filme.

Agora, para quem acha que o filme é irresponsável, é impossível você fazer um filme que utiliza da violência com forma gráfica, ou, se fosse o caso, questões de sexualidade, que ainda são um tabu no cinema. Toda vez que alguém cruza a barreira do mercado e expõe a sexualidade de maneira franca e explícita, sem chegar à controvérsia de que aquilo não era necessário, que é gratuito. Bacurau recebe muitas críticas de gente que diz que tem muita gente nua no filme. Nua e feia. Nua e fora dos padrões. Mas, a ideia é justamente essa. As pessoas ficam nuas e isso faz parte da vida. Posso jurar para você, que elas foram filmadas com muito respeito pela câmera. O espectador sabe disso, as cenas de nudez não são engraçadas, elas são só naturais. São pessoas que estão nuas em sua intimidade.

Nicolas Allen / Daniel Carneiro Leão

O que você pensa em relação a tantas conexões e aproximações ao redor do mundo com Bacurau, considerando a forma como foi feito e sendo um filme que parte de uma cidade do interior e mostra realidade social específica do Brasil, particularmente, do nordeste? Notadamente, com detalhes sobre o colonialismo e a formação da sociedade brasileira, como um quadro na casa grande que tem escrito embaixo: “Que saudade da casa grande”. Como foi realizar o filme com o encontro de pessoas vindas de diversas partes do mundo naquele local (atores estrangeiros, cineastas de Recife, atores locais, pessoas do sertão, atores de vários estados, etc.?

Kleber Mendonça Filho

Essa pergunta é difícil de responder, sobre como cada frame desse filme é importante para nós, no sentido de trazer informações sobre o Brasil. Vejo que o filme foi e tem sido muito bem recebido mundo afora. Agora vai estrear no Japão. Quando você faz um filme e o exibe fora do Brasil, da sua cultura, é uma coisa, quando ele passa na sua cultura é a mesma coisa só que diferente, é curioso, mas tem muita gente que diz assim: “Eu não sei nada sobre o Brasil, mas eu acho que...” Como se fosse uma prerrogativa você ter lido um livro sobre o Brasil.

Quando o filme começa a ser exibido internacionalmente, havia um posicionamento que vinha de pessoas no Brasil, uma percepção do cinema brasileiro de um olhar incrivelmente conservador, e que chamamos de “complexo de vira-lata”.

Quando eu vi “Os incompreendidos” (1959) de François Truffaut, não sabia nada sobre a França, era adolescente e gostei do filme, quando vi os filmes norte-americanos sem saber falar inglês, também gostei dos filmes. Essa falta de prática de alguns estrangeiros de lidar com o filme brasileiro e talvez de ficarem em pânico por não terem entendido o filme, quando na verdade tudo envolve o comportamento humano e a história. Essa troca que é desigual, a gente recebe muito, mas oferece pouco, manda pouca coisa de volta. E, quando manda, as pessoas ficam confusas porque não tem a prática de decodificar isso. É difícil responder à pergunta porque nós fizemos o filme de maneira intuitiva e apaixonada, não é um filme que foi arquitetado e construído como uma peça de engenharia.

É claro que passamos muito tempo trabalhando nos filmes, inclusive, estou agora trabalhando num novo roteiro, e a grande pergunta quando você está escrevendo é: “Essa ideia é boa? Essa ideia vai ser boa amanhã? E daqui há um mês?” Depois de um mês você lê e parece que é uma boa ideia, mas tem ideias que vão se esfarelando. Acho que Bacurau teve muito tempo para pensar nas ideias. Você citou “saudade da casa grande” e quando a gente chegou naquele lugar que é uma casa grande, de extração de algodão, no sertão do Rio Grande do Norte, viu que, de fato, os quadros da sala da casa grande são aqueles: “O que você vai fazer? Mandar tirar, por que não combina com minha decoração?” Deixa lá e filma esse quadro. Outra coisa incrível, num dos anexos dessa fazenda, eram os equipamentos de cultivo do algodão: todos os equipamentos são norte-americanos, de Massachussets, máquinas de “Cotton Gin”: “O que você vai fazer, tirar esses equipamentos daqui?” Não, traz a câmera. Vira um momento no filme.

O colonialismo está em todos os lugares, ele está nesse iPhone aqui e naquela máquina de “Cotton Gin”. Eu gosto de filmar esses detalhes, embora apareça rápido. A experiência completa de ter feito Bacurau é a experiência perfeita para quem trabalha com cinema. Juntar todas essas pessoas diferentes no sertão do Rio Grande do Norte. Para mim, que ainda continuo sem entender como aquele lugar nunca foi realmente filmado, entram várias outras questões, voltando lá para a primeira pergunta, do que o sertão deve ser quando aparece numa tela de cinema.

Mostramos um sertão verde e isso não está no padrão da imagem e do cinema brasileiro. Bacurau faz algo que o “Baile Perfumado” (1996) já tinha trazido, que é mostrar que essa área fica verde, mas não tem nenhum problema com isso, não há problema dela estar verde e continuar sendo sertão. Quando o filme começa a ser mostrado internacionalmente, havia um posicionamento que vinha de pessoas no Brasil, uma percepção do cinema brasileiro de um olhar incrivelmente conservador, e que chamamos de “complexo de vira-lata”, por que diziam que esse filme jamais seria exibido nos Estados Unidos, que é um filme anti-americano, mas o filme apenas questiona o papel dos Estados Unidos no mundo. O filme foi bem recebido lá e no resto do mundo e a ideia é muito clara. No final das contas há uma percepção muito forte no filme, ele tem muita compaixão, é o que pega muito a gente, não é uma obra cínica, onde a vida não vale nada, a vida é importante em Bacurau.

A sequência na casa de Damiano, uma das mais discutidas do filme, foi muito importante termos feito como fizemos. De início, uma ação extremamente violenta, uma cena de guerra, seguida por uma perplexidade dos dois personagens brasileiros, querendo saber porque “vocês estão fazendo isso com a gente” e a personagem invasora não sabe responder. Esses detalhes fazem o filme viajar muito bem, fosse só um filme de ação onde o invasor perdesse a cabeça e Damiano chegasse com um machado para terminar, não seria o filme nosso.
 
Não é uma fórmula, é uma reação orgânica, a reação à Bacurau foi orgânica. E é muito bonito ver isso ao vivo numa sala de cinema cheia, é algo que eu nunca vou esquecer. Até o início da pandemia, o filme ficou em cartaz por quase seis meses no cinema São Luiz, que é no centro da cidade do Recife, uma sala 1952, conservada como palácio intacto muito bem equipado. Durante um mês, até em dias da semana, havia fila dando volta no quarteirão, exatamente como eu lembrava quando era criança e ia ao São Luiz. O valor do ingresso lá é cinco vezes mais barato do que num “Multiplex”. Então, é uma experiência muito autêntica de ver um filme em condições muito boas no centro da cidade, uma quebra de paradigma para um lançamento de filme nacional.

Sobre os entrevistados

Juliano Dornelles é codiretor de Bacurau (2019)

Kleber Mendonça Filho é codiretor de Bacurau (2019)

Sobre os entrevistadores

Nicolas Allen é editor contribuinte da Jacobin e editor-chefe da Jacobin América Latina.

Daniel Carneiro Leão é doutorando em direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

2 de janeiro de 2021

O socialismo de James Baldwin

James Baldwin deixou de defender a política radical quando adolescente e passou a repudiar a política socialista como doutrinária. Porém, no final de sua vida, inspirado pelo radicalismo dos Panteras Negras, Baldwin estava novamente pronto para se proclamar socialista.

Arvind Dilawar

Jacobin

James Baldwin no sul da França em novembro de 1979. (Ralph Gatti / Getty Images)

Tradução / No início da década de 1940, James Baldwin estava na adolescência e morando em Nova York quando se juntou à Liga Socialista dos Jovens, um ramo do Partido Socialista da América. Sua primeira incursão na vida política formal seguiu anos de atividade informal, incluindo agitação pública. "Aos treze anos, eu fui um companheiro de viagem convicto", escreveu Baldwin em seu livro de memórias políticas, No Name in the Street. "Eu marchei em um desfile de Primeiro de Maio, carregando faixas, gritando, East Side, West Side, em toda a cidade, queremos que os latifundiários derrubem as favelas!" A atração de Baldwin pela política de esquerda era prática, com base em sua experiência de crescer nos cortiços do Harlem. "Eu não sabia nada sobre comunismo", escreveu ele, "mas sabia muito sobre favelas".

A autoconcepção de Baldwin como um socialista em ascensão estava muito longe de como ele mais tarde descreveria sua relação com a esquerda. "Minha vida na esquerda não tem absolutamente nenhum interesse", escreveu ele na introdução de O Preço do Bilhete, uma coleção de suas obras de não-ficção. "Não durou muito. Foi útil porque aprendi que talvez seja impossível doutrinar-me."

O que aconteceu? Lendo os escritos de Baldwin, fica claro que foi a incapacidade percebida do socialismo contemporâneo de lidar com a questão racial que o afastou do movimento, levando o agitador outrora inspirado a ridicularizar a política de esquerda como mera doutrinação. Baldwin acabaria por regressar ao socialismo — mas o regresso a casa demoraria trinta anos e exigiria o advento de uma nova forma de política de esquerda, encarnada nos Panteras Negras.

"As vítimas do mundo"

Nascido em Nova York, em 2 de agosto de 1924, Baldwin cresceu em um Harlem que estava se tornando um centro da vida cultural negra. A Grande Migração de Afro-Americanos fugindo do Jim Crow para cidades do Norte como Nova York havia começado na década anterior, preparando o terreno para o Renascimento do Harlem.

Esse florescimento da arte e da cultura afro-americanas foi interrompido pela Grande Depressão, que mergulhou o bairro na pobreza e prejudicou a infância de Baldwin. Quando menino, ele passava grande parte de seu tempo cuidando de seus oito irmãos mais novos, enquanto sua mãe limpava as casas de mulheres ricas e seu padrasto pregava para um rebanho decrescente de congregados batistas.

O escritor e ativista dos direitos civis norte-americano James Baldwin (1924-1987). (Townsend / Getty Images)

A introdução de Baldwin ao socialismo provavelmente veio de um professor branco, Orilla "Bill" Miller, que também apoiou suas primeiras inclinações literárias. Em The Devil Find Work, seu livro de memórias e crítica de cinema, Baldwin credita a Miller "sugerir-me até que ponto os arranjos sociais e econômicos do mundo são responsáveis pelas (e para) as vítimas do mundo". Miller não apenas se interessou ativamente pela educação literária e política de Baldwin, mas visou defender todos os seus alunos contra as depredações de uma sociedade racista e capitalista, incluindo seus proprietários, donos de lojas e até mesmo a polícia — todos os quais, observa Baldwin, odiavam Miller por sua agitação. le se lembra de um episódio com gosto, quando Miller levou seus alunos (presumivelmente negros) a uma delegacia de polícia para tomar sorvete (presumivelmente reservado para crianças brancas). Miller se recusou a recuar para os policiais brancos, que acabaram cedendo e entregaram a sobremesa.

A experiência pessoal de Baldwin com a pobreza foi desencadeada por Miller, inspirando-o a se tornar ativo na política. Embora não haja registro da participação de Baldwin na Liga Socialista dos Jovens, seus escritos contêm referências às suas atividades políticas da época. Além do já mencionado desfile do Primeiro de Maio, onde denunciou proprietários e seus cortiços, Baldwin ajudou a organizar greves de aluguel com seu melhor amigo, outro jovem socialista negro chamado Eugene Worth. Baldwin descreve Worth como um crente muito mais fervoroso do que ele mesmo. Apaixonado por uma colega socialista que era branca, mas rejeitada por sua família, Worth pulou para a morte da Ponte George Washington em 1946.

"Oportunidades horríveis"

Se foi um apelo à pobreza que atraiu Baldwin para o socialismo, foi a marginalização da luta contra o racismo americano que o afastou — mais evidentemente na estratégia da Frente Popular da Internacional Comunista.

Após o fracasso em estancar o fascismo na Europa, a Internacional Comunista começou a defender uma coalizão antifascista de esquerdistas e liberais em 1935. Como parte dessa estratégia, as organizações apoiadas pelos comunistas nos Estados Unidos foram orientadas a abandonar seus esforços antirracistas em favor de apoiar a guerra a todo custo — uma decisão que deixou os radicais negros justificadamente amargos. De repente, a alegação de que os comunistas tinham segundas intenções ao agitar entre trabalhadores negros ou apoiar réus negros acusados injustamente, como os Scottsboro Boys, parecia ter mérito. Foi assim que Baldwin descreveria a reviravolta décadas depois, em um discurso de 1960 intitulado Papel do escritor na América (reimpresso como “Notas para um romance hipotético” em Ninguém sabe meu nome), onde insistiu que o caso Scottsboro deu “oportunidades hediondas ao Partido Comunista”. Embora a Frente Popular tenha sido acima de tudo um esforço comunista, muitos outros socialistas também apoiaram a estratégia, provocando a ira de Baldwin.

No entanto, apesar de ocasionalmente se descrever como anticomunista, Baldwin nunca apoiou o macartismo ou qualquer outro episódio americano de histeria da Guerra Fria. Em seu livro No Name in the Street, ele descreve o retorno a Nova York em 1952, depois de quatro anos em Paris, para encontrar uma cidade "em que quase todos corriam sem graça para se abrigar, em que amigos entregavam seus amigos aos lobos e justificavam sua traição com discursos eruditos (e tomos tremendos) sobre a traição da Internacional Comunista".

Em vez de levá-lo para os braços dos anticomunistas, o macartismo apenas deu a Baldwin uma prévia da hipocrisia liberal com a qual ele se familiarizaria durante o auge do Movimento dos Direitos Civis:

O pretexto para tudo isso, é claro, era a necessidade de "conter" o comunismo, que, eles me informaram sem pestanejar, era uma ameaça ao mundo "livre". Eu não disse até que ponto esse mundo livre me ameaçava, e milhões como eu. Mas eu me perguntava como a justificativa da tirania descarada e irracional, em qualquer nível, poderia operar no interesse da liberdade, e me perguntava que urgências interiores e não ditas dessas pessoas tornavam necessária uma ilusão tão completamente pouco atraente.

Após a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, quando a guerra nuclear dos Estados Unidos quase desencadeou uma guerra nuclear, Baldwin criticou os Estados Unidos por sua incessante ofensiva e defendeu o direito dos povos à autodeterminação. No ano seguinte, Baldwin fez um discurso intitulado "The Negro Child - His Self-Image" (reimpresso como "A Talk to Teachers", onde argumentou que os Estados Unidos estão “desesperadamente ameaçados, não por Kruschev, mas por dentro”, referindo-se ao fracasso do país em atender às demandas do Movimento dos Direitos Civis. Baldwin comparou os delírios da supremacia branca aos delírios do anticomunismo:

É o homem branco americano que há muito perdeu o controle da realidade. tendo criado esse mito sobre pessoas não-brancas, e o mito sobre a sua própria história, criou mitos sobre o mundo de modo que, por exemplo, ficou espantado que algumas pessoas pudessem preferir Castro, espantado por haver pessoas no mundo que não se escondem quando ouvem a palavra "comunismo", espantado que o comunismo é uma das realidades do século XX que não vamos superar fingindo que não existe.

Socialismo Ianque Doodle

Embora Baldwin não fosse vítima da histriônica do macartismo, levaria vários anos para que ele voltasse a abraçar a política socialista. E foi preciso que os Panteras Negras, que fundiram o anticapitalismo com uma forma distinta de antirracismo, o puxassem de volta para o rebanho. O apoio de James Baldwin aos Panteras, após seu envolvimento mais direto no Movimento dos Direitos Civis, lhe rendeu impressionantes 1.884 páginas em seu arquivo do FBI.

Fundado por Huey Newton e Bobby Seale em 1966, o Partido dos Panteras Negras pressionou pela autodefesa armada dos afro-americanos, particularmente contra a polícia, bem como por programas imediatos de ajuda mútua, reformas radicais e autodeterminação negra. Enquanto comenta sobre o partido, Baldwin se concentra nas patrulhas policiais armadas do partido e na resposta implacável do estado. Mas ele também descreve — e se identifica com — os objetivos socialistas do partido:

Huey acredita, e eu também, na necessidade de estabelecer uma forma de socialismo neste país — o que Bobby Seale provavelmente chamaria de "socialismo à moda Ianque Doodle". Isso significa um socialismo nativo, moldado e voltado para as necessidades reais do povo americano. Essa não é uma posição doutrinária, apesar de os Panteras parecerem glorificar Mao, Che ou Fanon. A necessidade de uma forma de socialismo baseia-se na observação de que os arranjos econômicos atuais do mundo condenam a maior parte do mundo à miséria; que o modo de vida ditado por esses arranjos é estéril e imoral; e, finalmente, que não há esperança de paz no mundo enquanto esses arranjos prevalecerem.

Em 1970, Baldwin já havia se estabelecido no sul da França, onde sucumbiria ao câncer de estômago em 1987, deixando-o a meio mundo de distância e com relativamente pouco tempo para fazer o que podia com esse socialismo recém-descoberto. Ele já havia passado pelo Movimento dos Direitos Civis, conhecendo, apoiando e elogiando Martin Luther King Jr, Malcolm X e Medgar Evers.

Baldwin agora adotou uma postura semelhante, defendendo os Panteras Negras, pois eles foram sistematicamente presos (Newton em 1967, Seale em 68, Eldridge Cleaver em 68, Angela Davis em 70) ou mortos (Bobby Hutton em 68, Fred Hampton em 69) pelo Estado. Em 1968, ele organizou uma festa de aniversário organizada pelos Panteras Negras para o então encarcerado Newton, que atraiu milhares de apoiadores. Em 1970, ele também escreveu uma carta aberta, publicada na New York Review of Books, para a então presa Davis, escrevendo: “Devemos lutar por sua vida como se fosse nossa”. Seu apoio aos Panthers, após seu envolvimento mais direto no Movimento dos Direitos Civis, rendeu a Baldwin impressionantes 1.884 páginas em seu arquivo do FBI.

Em 1972, Baldwin foi questionado se os Estados Unidos algum dia se tornariam socialistas. Sua resposta deixou claro o profundo impacto que os Panteras tiveram sobre ele, bem como a marca particular da política socialista que ele agora defendia:

Você precisa ter muito cuidado com o que quer dizer quando se refere ao socialismo. Ao usar essa palavra, não estou pensando em Lênin, por exemplo, e não tenho nenhum modelo europeu em mente. Bobby Seale fala de um socialismo do tipo "Ianque Doodle", e eu entendo o que ele quer dizer com isso. Trata-se de um socialismo criado a partir das necessidades genuínas do povo local, um socialismo autêntico para a América. Portanto, se e quando alcançarmos o socialismo neste país — e acredito que é mais apropriado dizer "quando" em vez de "se" — será um socialismo muito diferente do socialismo chinês ou cubano... O preço de qualquer socialismo verdadeiro aqui é a erradicação do que chamamos de problema racial.

Colaborador

Arvind Dilawar é um escritor e editor cujo trabalho apareceu em Newsweek, The Guardian, Al Jazeera, e em outros lugares.

1 de janeiro de 2021

A resistência boliviana mostra o caminho para a esquerda em 2021

Em 2020, os movimentos sociais da Bolívia confrontaram um brutal regime golpista de direita. Em vez de recuar, eles reconstruíram suas alianças e reorganizar suas bases – e venceram a luta pela democracia contra todas as probabilidades.

Olivia Arigho-Stiles

Tribune

Apoiadores do ex-presidente boliviano Evo Morales participam de uma passeata em frente ao Congresso em La Paz. Aizar Raldes / Getty Images

Tradução / A pandemia garantiu que 2020 fosse uma espécie de annus horribilis para o mundo todo. No entanto, embora este ano também tenha trazido enormes pressões para a Bolívia, por ser o país mais pobre da América Latina, também foi o prenúncio da heróica reconquista do poder por movimentos populares após uma ditadura de curta duração. No momento em que 2021 acena no horizonte, os movimentos sociais da Bolívia se destacam mais uma vez como uma inspiração para a esquerda internacional.

A crise política começou em novembro de 2019, quando o ex-presidente Evo Morales foi deposto em um golpe de Estado promovido por manifestantes urbanos de direita auxiliados pela polícia e militares. Um governo “transitório” foi instalado e chefiado pela evangélica direitista Jeanine Áñez. Imediatamente infligiu dois massacres de 21 manifestantes anti-golpe em Senkata e Sacaba e foi envolvida em escândalos de corrupção, incluindo a alegada compra fraudulenta de milhões de dólares de ventiladores inadequados no auge da pandemia da Covid-19. Naquela época, a Bolívia tinha um dos maiores índices de mortalidade por coronavírus do mundo.

No novo cenário fascista, mandados de prisão foram emitidos contra jornalistas críticos e membros do Movimento ao Socialismo (MAS) que apoiavam sindicalistas e políticos. Os adeptos do MAS foram tachados de “selvagens”, invocando na mídia velhos medos racializados de turbas indígenas insurrecionais. O escrutínio da imprensa desapareceu quando jornalistas anti-golpe se viram perseguidos impiedosamente. Notavelmente, o famoso cartunista do jornal La Razon, Alejandro Salazar, mais conhecido como Al-Azar, foi forçado a renunciar em dezembro de 2019 após uma enxurrada de ameaças de milicianos pró-golpe.

Derrubando o golpe

Como as eleições foram repetidamente adiadas de forma ostensiva devido à pandemia, os movimentos sociais bolivianos se reagruparam em condições altamente desafiadoras para desafiar o regime. Em agosto de 2020, a principal federação sindical, o Centro dos Trabalhadores Bolivianos (COB) e sindicatos filiados convocaram uma greve geral, com protestos, marchas e bloqueios de estradas que paralisaram o país para exigir novas eleições e a renúncia de Áñez.

À COB juntou-se ao proeminente sindicato dos trabalhadores rurais, a Confederação Sindical Unificada dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) e a sua ala feminista, a Bartolina Sisas, que iniciou uma “mobilização permanente” em protesto contra o repetido adiamento das eleições e contra um governo que continuou a infligir o caos econômico e a repressão política impunimente.

Em outubro de 2020, as eleições presidenciais finalmente ocorreram, um ano após as disputadas eleições do ano anterior. Eles viram uma vitória inesperada do candidato do MAS, Luis Arce, sobre o direitista Carlos Mesa, e uma participação eleitoral recorde de 88,4% da população. As eleições representaram uma retumbante reivindicação do projeto político progressista do MAS (o “processo de cambio”) e encerraram um ano de governo oligarca marcado por uma ganância voraz na economia e uma gestão pública caótica.

De volta às bases

Oteórico gramsciano boliviano René Zavaleta Mercado descreveu, em 1977, as elites da Bolívia como “rançosas”, existindo em um mundo social distante das massas indígenas e populares. Eles não podiam se identificar com um projeto político nacional porque estavam inseridos em redes privadas de enriquecimento. As palavras de Zavaleta continuam pungentes e reais ainda hoje.

Acusações anteriores de corrupção de masistas empalideceram rapidamente em comparação com a pilhagem de recursos estatais iniciada pelo regime em 2020. De acordo com a ONG Fundación Tierra, mais de 2.000 títulos de terra foram misteriosamente entregues pela Anez a particulares não identificados. O simpatizante fascista Branko Marinkovic serviu como ministro de Anez e recebeu 33.000 hectares de terras destinadas à reforma agrária para si mesmo e membros de sua família.

Em dezembro, a Fundación Tierra apresentou uma petição ao Senado e aos tribunais bolivianos para contestar a venda ilegal. Marinkovic, o filho milionário de migrantes croatas, esteve envolvido em uma tentativa de assassinar Morales em 2009, mas foi para o exílio nos Estados Unidos antes de enfrentar as acusações.

No entanto, o ressurgimento dos movimentos sociais neste ano revela muito sobre o que deu errado para o MAS em 2019, quando os protestos reacionários nos centros urbanos encontraram insuficiente resistência das bases do partido. Nos anos anteriores ao golpe, muito poucos rostos novos foram capazes de subir na hierarquia do MAS. À medida que o partido se desligou de sua base, suas relações com grupos sociais aliados derivaram para o clientelismo e a burocratização sufocante.

Em contraste, 2020 trouxe novos números à tona; o carismático cocaleiro dirigente sindical Andrónico Rodríguez, agora chefe do Senado; Eva Copa, que assumiu a liderança do Senado durante a ditadura pós-golpe (embora atualmente esteja envolvida em um conflito com o partido por causa das eleições locais); e o novo vice-ministro do Esporte, com 19 anos, Cielo Veizaga Arteaga. Assim, a crise política abriu espaço onde as forças populares indígenas de esquerda foram capazes de recriar alianças para desafiar um novo conjunto de autoridades, incluindo dentro do MAS como seu instrumento político.

História radical

Há uma longa história de resistência às políticas neoliberais por parte de camponeses, mineiros e trabalhadores na Bolívia, mas nem todos bem-sucedidos. Em 1974, exacerbando as adversidades causadas pela desvalorização da moeda boliviana em 1972 e o congelamento de seus salários, o ditador de direita Hugo Banzer Suárez introduziu um decreto que levou a uma alta paralisante nos preços dos alimentos. Milhares de camponeses indígenas de língua aimará e quíchua surgiram nos vales e nas montanhas e bloquearam estradas em protesto. Seus esforços para derrubar o regime foram brutalmente esmagados quando as forças policiais do Estado massacraram pelo menos 100 camponeses de língua quíchua em Cochabamba, no que ficou conhecido como o Massacre do Vale.

Mais recentemente, um ciclo de mobilizações que começou com a “Guerra da Água” em Cochabamba em 2000 e culminou na “Guerra do Gás” de 2003 levou à queda do neoliberal Gonzalo “Goni” Sánchez de Lozada. Sánchez de Lozada está atualmente envolvido em um processo movido por advogados de direitos humanos por seu papel na morte de pelo menos 50 indígenas desarmados em um massacre conhecido como “Outubro Negro” em 2003. Esta série de conflitos foi ferozmente contestada por movimentos sociais que lutam contra políticas de privatização neoliberais e exigem maior controle público sobre os recursos naturais do país.

Por trás dessa agitação social, EvoMorales foi eleito em 2005 como o primeiro presidente indígena da Bolívia, um país historicamente estruturado e organizado em torno da raça. Seu governo socialista foi elogiado internacionalmente por implementar programas de bem-estar social, redistribuição de riqueza e nacionalização parcial do lucrativo setor de gás, uma justificativa dos anos mais intensos de protesto.

Depois da vitória de outubro, o MAS e sua base de apoio agora miram para as eleições locais e regionais que se aproximam em março de 2021. Elas podem apresentar um quadro diferente do nacional, é claro, já que historicamente o eleitorado tende a votar em candidatos individualmente ao invés de seguirem linhas partidárias. Em 2015, o MAS saiu vitorioso, mas sofreu um revés em relação aos anos anteriores, pois os partidos de oposição garantiram vários cargos importantes de prefeito e governador.

O coronavírus continua a ceifar vidas, embora os números sejam muito menores do que durante o pico de julho. Em dezembro, Arce anunciou que o governo irá adquirir 5,2 milhões de doses da vacina russa. Arce, cuja reputação de tecnocrata prudente foi importante para torná-lo querido entre os eleitores, também anunciou um novo imposto sobre os super-ricos.

Mas, embora o futuro seja incerto, está claro que a Bolívia em 2020 forneceu um horizonte para inspirar a esquerda internacional. Para o povo da Bolívia, a memória da luta passada, sem dúvida, serve como uma poderosa força mobilizadora no presente. A reeleição do MAS destaca como a resistência efetiva em uma crise vem através da organização permanente dos setores sociais progressistas e um compromisso com a democracia interna dentro das estruturas partidárias. Acima de tudo, a Bolívia mostra que a democracia é feita – e refeita – através da luta de baixo para cima.

Sobre o autor

Olivia Arigho-Stiles é doutoranda que pesquisa movimentos indígenas do século XX na Bolívia. Ela é editora colaboradora da Alborada.

Mank: um grande roteirista em busca de um grande filme biográfico

A ode de David Fincher ao roteirista de Citizen Kane, Herman J. Mankiewicz, revive um debate de oitenta anos sobre se Orson Welles merece ou não um crédito de co-autoria - e é exatamente tão divertido quanto parece.

Eileen Jones

Jacobin

Still de Mank (2020), Netflix.

Achei Mank um filme atroz, o que é estranho. Quero dizer, com certeza este projeto Netflix dirigido por David Fincher foi praticamente feito para mim.

Eu sou um daqueles malucos que realmente se preocupa com a carreira do roteirista Herman J. “Mank” Mankiewicz (Gary Oldman) e sua batalha com o prodígio da mídia Orson Welles (Tom Burke) pelo crédito do roteiro de Citizen Kane. Eu posso até mesmo ficar todo animado com a representação do irmão mais novo de Herman e rival profissional Joe Mankiewicz, uma lenda por seu próprio mérito.

E estou fascinado pelo enredo estranho e inventado do filme que deixa Mank furioso e vingativo sobre a forma como os magnatas de Hollywood, financiados pelo magnata do jornal William Randolph Hearst, atiram no joelho do socialista Upton Sinclair em sua candidatura de 1934 para governador da Califórnia. Em Mank, é esse saco de areia de direita que empurra nosso herói roteirista para espetar Hearst com sua caracterização velada dele como Charles Foster Kane.

Louis B. Mayer (Arliss Howard) e Irving Thalberg (Ferdinand Kingsley), da MGM Studios, ambos os quais aparecem com frequência em Mank, foram os verdadeiros magnatas que realmente atacaram em Sinclair. De sua posição na MGM, eles lançaram uma deagradável campanha de difamação na mídia que consistia em entrevistas filmadas com cidadãos supostamente comuns, muitos deles atores contratados para representar os partidários de Sinclair com qualidades "indesejáveis", como a aparência de indigência irregular ou nascimento estrangeiro.

Mas Mankiewicz - que na vida real era anti-sindical e conservador - nada teve a ver com isso. Seu rival Orson Welles era o grande esquerdista entre esse grupo de figuras de Hollywood, aliás, e Hearst fez o possível para destruir Welles também, exilando-o efetivamente para a Europa.

Então, meu fascínio se transformou em irritação enquanto o roteiro do pai de Fincher, Jack, continuava distorcendo a verdade desses eventos para criar um Mank pró-socialista que simplesmente não existia.

É uma pena, porque a história de Herman Mankiewicz é interessante - uma história tanto sobre o homem quanto o antigo sistema de estúdio de Hollywood que o tornou quem ele era. Ele era um ex-repórter e crítico admirado, conhecido por sua sagacidade relâmpago, bem como um dramaturgo fracassado.

Um dos muitos escritores talentosos do final dos anos 1920 e 1930 atraídos da cidade de Nova York para Hollywood por baldes de dinheiro, Mankiewicz começou a escrever roteiros com facilidade e se deleitou com a vida exuberante dos maiores talentos da indústria cinematográfica, enquanto mantinha Hollywood e a si mesmo em desprezo por isso ter estimulado muito de seu humor mordaz.

Tanto Herman quanto Joe Mankiewicz sofreram tormentos porque, apesar de todo o sucesso, eles se sentiram como se tivessem falhado em viver de acordo com os elevados padrões estabelecidos por seu severamente exigente pai Franz Mankiewicz. Um "emigrado judeu-alemão que idolatrava a cultura alemã", bem como "um capataz severo que alternadamente intimidava e ignorava seus filhos", ele encerrou sua carreira de professor como professor de educação no City College de Nova York, cujo círculo intelectual incluía Albert Einstein .

A história de “Mank” dificilmente precisa de enfeites, mas os Finchers, pai e filho, dão-nos muito de assim mesmo. Existem cerca de cinquenta posts publicados que explicam quais partes de Mank são factuais e quais são inventadas. O mais impressionante completo deles, que inclui alguns dos filmes anti-Upton Sinclair, está compilado aqui.

O cerne da verdade é que Mankiewicz foi o bem-sucedido roteirista de Hollywood das décadas de 1930 e 40 que escreveu o telegrama incessantemente citado para Ben Hecht que o trouxe para o oeste: "Milhões estão para ser agarrados aqui e seu único concorrente são os idiotas. Não deixe isso se espalhar. ”

Mas sua bebedeira, jogo e piadinhas implacáveis às custas de figurões de Hollywood minaram sua carreira, e logo seu irmão mais novo, Joe, o eclipsou com uma carreira de produtor impressionante seguida por um sucesso ainda maior como diretor-escritor com sucessos como A Letter to Three Wives e All About Eve.

Apenas um crédito de redação é o foco de Mank, o há muito disputado crédito de Cidadão Kane. Quebrado como de costume, Mankiewicz concordou em escrever o roteiro em troca de dinheiro e simplesmente abrir mão do crédito, preso em uma casa em Victorville com uma governanta (Monika Gossmann) para monitorar sua perna quebrada e sua bebida, e uma secretária (Lily Collins) para manter ele no ritmo.

Então ele mudou de ideia no final do processo, quando soube que seu enorme primeiro rascunho de mais de 300 páginas era a melhor coisa que ele havia escrito e poderia reviver sua carreira, levando a uma luta amarga com Welles, que queria reivindicar a total autoria do filme.

Pauline Kael, uma adversária implacável da "teoria do autor", reacendeu essa guerra quando escreveu um ensaio extenso e influente de 1971 para a New Yorker chamado "Raising Kane", acusando Welles de ter monopolizado o crédito por "autorar" Citizen Kane, que pertencia por direito a Mankiewicz.

O escritor / diretor / amigo profissional da lenda de Hollywood Peter Bogdanovich colaborou com seu amigo Welles em uma longa refutação da Esquire, "The Kane Mutiny". Agora Mank aparece como uma resposta tardia a Bogdanovich, ficando do lado de Mankiewicz e dando-lhe a última palavra no final do filme, outra piada famosa que Mankiewicz fez depois de ganhar o Oscar de co-escritor de Melhor Roteiro em 1942. “Estou muito feliz em aceitar este prêmio na ausência do Sr. Welles, porque o roteiro foi escrito na ausência do Sr. Welles.”

É um debate bobo, realmente. Mankiewicz fez a maior parte da escrita inicial, mas Welles revisou e editou substancialmente seu primeiro rascunho e, é claro, teve total controle criativo do filme final. Quão difícil é apenas dizer isso e ir embora? Extremamente difícil para as pessoas envolvidas, ao que parece, e agora estamos aqui, fartos de todo o debate.

É uma triste ironia que Mank até pareça ruim, se você se preocupa com as glórias do cinema em preto e branco. Inferno, assista Citizen Kane se você quiser ver as glórias, porque Welles estava determinado a demonstrar o estado da arte cinematográfica no ano de 1941, além de adicionar alguns experimentos maravilhosos planejados por ele e o brilhante diretor de fotografia Gregg Toland. Mas Mank em geral é completamente iluminado e desinteressante em suas composições. Gary Oldman se debate no meio dessas composições, fazendo o possível para fazer o filme ficar coerente ao seu redor. Ele é um ótimo ator e, claro, marca alguns momentos iluminadores, mas é em grande parte um esforço perdido.

Como tantos filmes sobre a vida na velha Hollywood, este é elaborado, estufado e morto por dentro. Fincher tenta demonstrar o funcionamento insano do sistema de estúdio naquela época e não consegue chegar a nada melhor do que uma conferência de histórias cheia de homens gritando, cujas observações são anotadas por um datilógrafo vestindo nada da cintura para cima, mas tapa-mamilos cintilantes.

Para uma ideia muito melhor do turbilhão em que roteiristas sob contrato de estúdio foram convidados a atuar, veja o que os irmãos Coen fazem em Barton Fink (1991). Em Fink, o chefe do estúdio chamado Jack Lipnick representa um dos principais motores da loucura de Hollywood. Provavelmente uma composição de Louis B. Mayer da MGM e Jack Warner da Warner Brothers, este personagem induz um caso épico de bloqueio de escritor no roteirista iniciante Fink, um dramaturgo esnobe de Nova York que descobre que seu intelecto supostamente superior não o ajudará neste admirável mundo novo.

O ator Michael Lerner ganhou um Oscar ao interpretar a excitação mercurial de bathos, ego imponente e raiva repentina de Lipnick. A entrega é provavelmente baseada nas lendárias performances de Mayer no escritório, que incluíam rios de lágrimas, desmaios e explosões terríveis de palavrões que perturbaram até mesmo os mais duros. Funcionários intimidados o chamavam de melhor ator de Hollywood.

Então, como Fincher lida com Mayer? Ele escalou Arliss Howard, que parecia uma funcionária enrugada e ressentida, o Uriah Heep de Hollywood. Sua entrega áspera de uma nota não persuadiria ninguém a fazer nada. No entanto, de alguma forma, ele é ovacionado de pé depois de convencer os atores reunidos na MGM a aceitar um grande corte no pagamento para ajudar o estúdio a sobreviver à Depressão, prometendo restaurar seus antigos níveis de pagamento assim que tempos melhores chegassem. (Isso realmente aconteceu e, claro, Mayer nunca cumpriu sua promessa.)

Para ver o problema de Mank em miniatura, assista à cena climática verdadeiramente terrível perto do final, um fiasco de jantar interminável em San Simeon, a enorme casa de William Randolph Hearst (Charles Dance) e sua atriz e amante Marion Davies (Amanda Seyfried), bem como o modelo para Xanadu, a monstruosa mansão de Citizen Kane. Mais uma vez, Fincher se esforça para transmitir os excessos de Hollywood, enfatizando o esplendor baronial da sala de jantar, o imenso comprimento da mesa e os trajes de circo malucos que os convidados estão vestindo, que supostamente são as principais pessoas de Hollywood, embora na maioria não sejam identificados.

Mank, bêbado, invade a festa e comanda o centro do palco, constrangendo a todos enquanto diz o enredo de seu novo roteiro, que devemos reconhecer como uma versão inicial de Cidadão Kane, argumentando assim a favor da reivindicação de autoria anterior de Mankiewicz sobre Welles. Esta versão de Cidadão Kane, no entanto, está toda misturada com Don Quixote e também supostamente indicia a interdependência tóxica da relação comercial de Hearst e Mayer, trabalhando em conjunto para construir e quebrar carreiras na indústria cinematográfica, bem como decidir quem será o governador da Califórnia.

A cena termina quando Mankiewicz vomita no chão. Isso realmente aconteceu com Mankiewicz em algum encontro de Hollywood, o que levou a um dos famosos improvisos de Mankiewicz quando ele disse ao anfitrião atento à etiqueta a respeito dele com horror: "Não se preocupe, o vinho branco veio com o peixe."

A cena do jantar é uma bagunça confusa, embora Fincher pareça ter esbanjado cuidados elaborados com ela. É difícil saber o que exatamente ele pretendia, quando o resultado é filmado pesadamente e compassado como um funeral. Tive muitas oportunidades de prestar atenção aos figurantes da cena, procurando uma amiga e ex-aluna minha, chamada Scarlet, que por acaso estava interpretando Bette Davis vestida de barbuda. Ela consegue algumas fotos estendidas no fundo. (Oi, Scarlet! Você estava ótima! Filmar aquela cena deve ter sido um inferno para os figurantes!)

Mesmo se o roteiro tivesse sido poderoso - escrito pelo pai de Fincher, Jack, na década de 1990, e cuidadosamente preservado por seu filho - a forma como foi filmado é tão suave e memorável que teria contribuído muito para miná-lo. A estrutura frouxa de flashback do filme do ponto de vista de Mankiewicz parece estar em contraste com a estrutura dinâmica de flashback de Cidadão Kane a partir de pontos de vista múltiplos e contraditórios, assim como a cinematografia blá de Mank poderia ser executada ao lado de Cidadão Kane para demonstrar o que não fazer com filme preto e branco. Esquisitos truques como "queimaduras de cigarro" no canto superior direito do quadro e a trilha sonora que caracterizou o processo de projeção do filme em 1941 estão incluídos em Mank sem nenhum propósito real a não ser fazer você pensar momentaneamente que houve algum engano.

Tanto Mank quanto Citizen Kane apresentam homens lendários, atormentados e contraditórios no centro da narrativa. Mas Mank é tão insistente que seu herói era um total mensch enlouquecido pela política de poder vil de Hollywood que solapa o fascínio de Mankiewicz por beber, jogar e gracejar obsessivamente. Toda essa evocação estilística e narrativa de Citizen Kane sem nenhum propósito claro é talvez a maior irritação em uma massa de irritações relacionadas a Mank.

O melhor conselho é provavelmente pular Mank, assistir Citizen Kane (ou Barton Fink) e ler uma biografia dos irmãos Mankiewicz. Você terá um tempo muito melhor.

Sobre a autora

Eileen Jones é crítica de cinema na Jacobin e autor de Filmsuck, EUA. Ela também hospeda um podcast chamado Filmsuck.

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