10 de abril de 2026

As lições do “socialismo de esgoto”

Os "socialistas do esgoto" de Milwaukee constituíram a organização socialista mais bem-sucedida da história dos EUA, comandando a prefeitura e o movimento sindical organizado durante décadas. A experiência deles demonstra a viabilidade de um marxismo não doutrinário que alia a campanha eleitoral por reformas à organização do poder da classe trabalhadora, orientado para a social-democracia e o socialismo.

Eric Blanc

Vol 9 No 4 Winter

A campanha de alarmismo contra o socialista democrático Zohran Mamdani — que agora é prefeito da cidade de Nova York — guarda grande semelhança com as tentativas da elite, há mais de um século, de impedir que socialistas vencessem a eleição para a prefeitura de outra grande cidade. Às vésperas da eleição de abril de 1910 em Milwaukee, um anúncio de jornal do Partido Democrata alertava que, sob uma administração socialista, “o capital ficará ocioso. O trabalhador, sem emprego. Nenhum homem ou partido que tenha defendido o uso de armas e balas deve receber a confiança para governar nossa cidade. Isso arruinará o crédito da cidade”. Outro anúncio de campanha resumia a questão de forma mais direta: “PROMESSAS e DINAMITE ou EXPERIÊNCIA e REALIZAÇÕES!”1

Felizmente, a maioria dos eleitores ignorou esses alertas. O socialista Emil Seidel venceu a eleição para prefeito, e os socialistas de Milwaukee assumiram o poder em massa. Longe de cair em ruína, Milwaukee — e o estado de Wisconsin como um todo — prosperou sob a gestão socialista ao longo dos cinquenta anos seguintes, sendo pioneira em muitas das políticas progressistas e pró-trabalhador que culminaram no New Deal americano. Em 1936, até mesmo a revista Time sentiu-se compelida a publicar uma matéria de capa sobre esse sucesso, intitulada "Prefeito Marxista", observando que, sob a administração socialista, "Milwaukee tornou-se, talvez, a cidade mais bem administrada dos EUA".

Essa história é rica em lições para Mamdani e para os ativistas de esquerda contemporâneos que buscam pressionar a prefeitura para construir uma alternativa da classe trabalhadora ao neoliberalismo democrata e ao autoritarismo de Donald Trump. No entanto, a história dos chamados "socialistas do esgoto" de Milwaukee — um apelido inicialmente pejorativo que fazia referência ao empenho deles em melhorar os serviços públicos — é muito mais do que um relato sobre uma gestão de esquerda bem-sucedida. A ascensão e a eficácia dos governos socialistas da cidade dependeram, em grande medida, da força e da capacidade de persuasão de uma organização política radical enraizada nos sindicatos de Milwaukee.

O "socialismo de esgoto" exercia um poder excepcional, tanto dentro quanto fora do governo. Além de abrigar a única grande cidade americana governada por socialistas ao longo de várias décadas, Wisconsin era o estado com o maior número de autoridades socialistas eleitas e, de longe, o maior contingente de legisladores socialistas (ver figura 1). Wisconsin também era o único estado americano onde os socialistas lideravam todo o movimento sindical; de fato, foram principalmente suas raízes no movimento trabalhista organizado que viabilizaram seu sucesso eleitoral e político, incluindo a aprovação, em nível estadual, de 295 projetos de lei de autoria socialista entre 1919 e 1931.[2]

Por trás dessas vitórias havia uma organização de base poderosa e disciplinada que, como observou um contemporâneo, “seria a inveja de qualquer máquina política de hoje”. Em 1912, cerca de uma em cada cem pessoas em Milwaukee era membro do Partido Social-Democrata (SDP). Em contrapartida, a cidade de Nova York — outro reduto socialista — contava com um membro para cada mil habitantes. Se o Partido Socialista da América (SPA) tivesse a mesma força que o SDP de Milwaukee, teria cerca de um milhão de membros — um contingente praticamente igual ao da Social-Democracia alemã, o maior partido socialista do mundo.

Ao contrário do que grande parte da literatura sobre o "socialismo de esgoto" sugeriu, o crescimento do partido não ocorreu à custa do abandono de políticas radicais ou de objetivos socialistas. Diferentemente dos progressistas, o horizonte do SDP nunca se limitou à expansão dos serviços públicos e do Estado de bem-estar social. Pelo contrário, os líderes e a base do socialismo de Wisconsin mantiveram-se motivados pela análise marxista, por uma estratégia de luta de classes e pelo objetivo de uma revolução de maioria para instaurar o socialismo. O fato de não terem chegado mais perto de alcançar seus objetivos mais ambiciosos deveu-se a circunstâncias fora de seu controle — notadamente uma opinião pública relativamente conservadora e, consequentemente, a incapacidade de conquistar cargos no Executivo além do nível municipal, tanto em Wisconsin quanto em outras regiões. Após a eleição de Daniel Hoan para a prefeitura de Milwaukee em 1916, a imprensa do partido explicou: "O prefeito Hoan e os onze vereadores socialistas não implementarão o socialismo em Milwaukee nos próximos quatro anos. Não será por falta de vontade, mas por impossibilidade". E o fato de terem alcançado tanto deveu-se à maneira flexível como concretizaram o socialismo científico para o contexto singular dos Estados Unidos.

Num momento em que a esquerda em Nova York — e além — se depara com enormes oportunidades de crescimento, bem como com os desafios de governar enquanto socialistas organizados (e não apenas como progressistas que atuam por conta própria), faríamos bem em adotar e adaptar a abordagem dos "socialistas de esgoto" de Milwaukee: um marxismo não doutrinário que combina a disposição para disputar eleições — com o objetivo de vencer e entregar resultados — com o foco em construir o poder organizado da classe trabalhadora, rumo à social-democracia e ao socialismo.

O contexto de Milwaukee

As condições para o crescimento do socialismo eram um pouco mais favoráveis ​​em Milwaukee do que na média das cidades americanas da virada do século. No entanto, não devemos exagerar esse ponto nem — como normalmente se faz na literatura — atribuí-lo exclusivamente à herança alemã da cidade.

Já na década de 1900, a população alemã de Milwaukee estava passando por um processo de assimilação e apresentava declínio numérico, ao passo que a classe trabalhadora não qualificada tornava-se predominantemente polonesa. Em 1910, cerca de metade dos habitantes de Milwaukee eram filhos de imigrantes alemães ou os próprios imigrantes alemães. E, embora seja verdade que a maioria dos primeiros socialistas de Milwaukee fosse alemã, a maioria dos alemães da cidade não era socialista. Um estudo quantitativo sobre o voto de imigrantes nos EUA no período pré-guerra constatou uma correlação negativa entre alemães e votos socialistas em nível nacional: "Não podemos falar em uma afinidade entre alemães e o voto socialista"3. Victor Berger, o fundador do "socialismo de esgoto" (*sewer socialism*), observou em 1910 que, "em regra, os socialistas não conseguem fazer com que nem os alemães nem os poloneses de primeira geração [votem em nós]... Temos de esperar pela segunda geração, a nascida na América".

Ao contrário dos primeiros imigrantes veteranos da fracassada revolução de 1848, as grandes ondas migratórias alemãs das décadas de 1880 e 1890 tendiam a ser compostas por pessoas relativamente conservadoras oriundas de áreas rurais. Berger nasceu em uma família politicamente monarquista e em declínio socioeconômico, proveniente da zona rural do Império Austro-Húngaro. Ao chegar à América em 1878, aos dezoito anos, Berger trabalhou lavando caldeiras e cuidando de gado, vindo a aderir ao socialismo na década de 1880. Essa decisão política escandalizou seus pais que, segundo o biógrafo de Berger, Edward Muzik, ficaram "horrorizados com o radicalismo do filho, que eles achavam que seria enforcado — e talvez merecidamente"4.

Ainda assim, um grande impulso para a ascensão dos socialistas do "socialismo de esgoto" foi a existência de uma comunidade operária grande e relativamente homogênea (os teuto-americanos) onde podiam criar raízes, seguida por outro grupo expressivo (os polaco-americanos). Os trabalhadores de outras cidades americanas — incluindo Chicago e St. Louis, onde o radicalismo germano-americano era tão ou mais forte do que em Milwaukee até a década de 1880 — tendiam a estar fragmentados em meia dúzia ou mais de blocos políticos de base étnica, religiosa e racial, o que facilitava o enraizamento de máquinas políticas de cunho étnico e de um sindicalismo corporativista de ofício, ao mesmo tempo que minava os esforços socialistas para formar uma coalizão majoritária.

Transformar a classe trabalhadora de Milwaukee em um bastião do socialismo, no entanto, não foi algo automático, rápido ou simples. Levou muitos anos até que a corrente liderada por Berger ganhasse força suficiente para lançar seus próprios candidatos. E o primeiro "socialista do esgoto" a concorrer à prefeitura — um operador de máquinas chamado Robert Meister, em 1898 — obteve apenas 5% dos votos. A Figura 2 ilustra a ascensão lenta, porém constante, do partido nos anos seguintes. Eis como Berger descreveu essa dinâmica em um discurso após a grande vitória na eleição para a prefeitura em 1910:

Levou quarenta anos para conquistarmos um prefeito e uma administração socialistas em Milwaukee, desde que um grupo de camaradas se uniu pela primeira vez... Isso não aconteceu de forma rápida ou fácil para nós. Exigiu trabalho. Gota a gota, até que o cálice transbordasse. Voto a voto, rumo à vitória. Trabalho não apenas durante as poucas semanas da campanha, mas todos os meses, todas as semanas, todos os dias. Trabalho nas fábricas e de casa em casa.

Americanizando o marxismo

A história de Milwaukee constitui um experimento natural útil para testar a viabilidade de estratégias socialistas concorrentes nos Estados Unidos. Tanto as vertentes moderadas quanto as intransigentes do marxismo estavam presentes, sendo que estas últimas largaram na frente com quase duas décadas de vantagem. O Socialist Labor Party (SLP) foi a única força em cena de 1875 em diante, até que Berger — um ex-membro do SLP — fundou, em 1893, um jornal socialista rival e mais pragmático: o Vorwärts (Avante).

No início da década de 1890, o SLP, sob a liderança de Daniel De Leon, havia consolidado sua estratégia: propagar os princípios fundamentais do marxismo nas eleições e construir sindicatos industriais revolucionários para substituir a reformista American Federation of Labor (AFL). Se os trabalhadores americanos tivessem uma inclinação mais radical, a estratégia do SLP poderia ter vingado — de fato, algo próximo a essa abordagem orientou tanto a social-democracia alemã em seus primórdios quanto os marxistas revolucionários em toda a Rússia imperial.5 No entanto, o SLP de De Leon nunca conseguiu crescer além de uma pequena seita com alguns milhares de membros em todo o país. Uma matéria de capa da revista Time, de 1936, observou que, sem a incansável iniciativa de organização de Berger, o "socialismo" de Milwaukee "poderia ter permanecido nada mais do que conversas acaloradas em mesas de bar". Por volta de 1900, o SDP — relativamente moderado — havia claramente eclipsado seus rivais radicais.

Qual era a orientação política da nova corrente de Berger? Suas divergências em relação aos socialistas mais à esquerda giravam fundamentalmente em torno de estratégias e táticas, e não de princípios ou objetivos. Infelizmente, a maior parte da literatura retratou erroneamente Berger e seus camaradas como reformistas avessos à revolução, cujos horizontes estratégicos não iam além do Estado de bem-estar social.

Pelo contrário, Berger era — e permaneceu — um marxista convicto que via a luta por reformas como um meio necessário não apenas para melhorar a vida dos trabalhadores, mas, acima de tudo, para fortalecer a consciência, a organização e o poder da classe trabalhadora rumo ao socialismo, nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Foi assim que Berger articulou essa visão na edição de lançamento, em 1911, do Milwaukee Leader, seu novo jornal diário socialista em língua inglesa: "O traço distintivo dos socialistas é que eles compreendem a luta de classes" e que "visam ousadamente à revolução, pois desejam uma mudança radical em relação ao sistema atual". Sua resposta à pergunta “evolução ou revolução?” foi clara: “Optamos por ambas.”

Reagindo ao doutrinarismo e à marginalidade do SLP, Berger buscou conscientemente americanizar o socialismo científico. Escrevendo em 1893, Berger argumentou que os socialistas nos Estados Unidos “devem abandonar para sempre a imitação servil da forma ‘alemã’ de organização e dos métodos ‘alemães’ de campanha eleitoral e agitação”. O primeiro prefeito do SDP, o marceneiro Emil Seidel, recordou mais tarde que “Berger não acreditava que o movimento operário se desenvolveria segundo um padrão fixo e igual em todos os países. Esse movimento deveria, naturalmente, ser diferente nos Estados Unidos em comparação com qualquer outro país, pois todas as condições eram diferentes”. O ponto central, argumentava Berger, não era rejeitar o materialismo histórico, mas sim rejeitar o que ele chamava de “materialismo histérico”, o qual sugeria erroneamente que a intransigência revolucionária, por si só, bastava para promover a transformação socialista.

Como não era óbvio o que exatamente deveria ser feito nos Estados Unidos, esse ponto de partida estratégico favoreceu um grau útil de humildade política e curiosidade empírica. “Temos muito a aprender”, insistia Berger. A evolução do chamado “socialismo de eagoto é, fundamentalmente, a história desse processo de aprendizado, no qual os organizadores ajustavam iterativamente sua agitação e suas táticas à luz da experiência acumulada.

Tendo começado como um editorialista defensor do socialismo, Berger acabou percebendo que a propaganda socialista não encontraria ampla ressonância enquanto a maioria dos trabalhadores americanos permanecesse resignada com seu destino. Essa, explicou ele, era a falha fundamental na premissa do SLP de que a pregação paciente do socialismo acabaria por conquistar a maioria: 

o obstáculo mais formidável ao progresso — e, em particular, à propaganda do socialismo — não é o fato de as pessoas não possuírem conhecimentos suficientes de economia política ou carecerem de inteligência. É que as pessoas não têm esperança... O desespero é o principal adversário do progresso. Nossa maior necessidade é a esperança.

Foi precisamente para superar o sentimento generalizado de resignação popular que os chamados "socialistas do esgoto" passaram a concentrar-se tanto na luta por reivindicações imediatas, tanto nos locais de trabalho quanto na esfera governamental. Visto que "a classe trabalhadora aprende na escola da experiência", lutas bem-sucedidas — mesmo em torno de questões relativamente menores — tendiam a elevar a confiança e as expectativas dos trabalhadores, bem como sua receptividade às ideias socialistas. Por isso, os socialistas precisavam avaliar com rigor o estado da consciência popular para escolher batalhas viáveis, capazes de repercutir amplamente entre as grandes massas de trabalhadores. Como afirmou a primeira edição do Vorwärts:

Ao formularmos nossas reivindicações, somos obrigados a levar muitos fatores em consideração. Àqueles que nos consideram moderados demais, respondemos que, se exigirmos tudo de uma só vez, é provável que não consigamos nada... Um jornal diário não deve perder de vista, nem por um instante, o sentimento real das massas.

Embora fosse importante continuar difundindo as grandes ideias do marxismo, o que os socialistas americanos precisavam, acima de tudo, eram "conquistas políticas concretas, não tratados teóricos... menos discurso e mais trabalho de campo".

Munidos dessa orientação, Berger e seus camaradas empenharam-se em conquistar uma maioria popular — começando pelos ativistas sindicais de Milwaukee.

Enraizando o socialismo nos sindicatos

Em nenhum outro lugar dos Estados Unidos os socialistas alcançaram tamanha hegemonia no movimento trabalhista quanto em Wisconsin. Quando Berger surgiu no cenário, Milwaukee já possuía uma rica tradição de militância no local de trabalho e de sindicalismo, exemplificada pela greve geral de 1886 em toda a cidade pela jornada de oito horas — ocasião em que seis pessoas foram mortas após a milícia estadual abrir fogo contra uma multidão de grevistas. No entanto, foi necessária mais de uma década de trabalho paciente junto às bases e às lideranças sindicais para obter o apoio delas ao SDP. Um aspecto crucial é que a corrente de Berger buscava transformar os sindicatos já estabelecidos, em vez de competir com eles criando novos sindicatos liderados por socialistas — prática adotada pelo SLP e, mais tarde, pelos "Wobblies". O pequeno, porém crescente, grupo de camaradas de Berger — formado praticamente em sua totalidade por trabalhadores braçais qualificados — reunia-se em seu escritório antes das assembleias sindicais para planejar seus argumentos e intervenções.

Esse foco em conquistar os trabalhadores sindicalizados para o socialismo — e o desafio contínuo de fazê-lo — foi um fator significativo que levou Berger e seus camaradas a priorizar reivindicações imediatas. Como observa o perspicaz historiador do SDP, Marvin Wachman: “Sem o apoio dos sindicatos, os socialistas eram líderes sem seguidores. Consequentemente, eles agiam com tato em suas relações com os sindicatos e enfatizavam, em suas plataformas, as questões imediatas que interessavam aos trabalhadores”.6

Anos de trabalho árduo nos sindicatos deram frutos. Em dezembro de 1899, o Federated Trades Council de Milwaukee elegeu um comitê executivo composto inteiramente por socialistas, incluindo Berger. Ao longo do quarto de século seguinte, a liderança do partido e dos sindicatos em nível estadual formou uma "diretoria interligada" de socialistas da classe trabalhadora atuantes em ambas as organizações.

Enquanto, de modo geral, o movimento sindical organizado em todos os Estados Unidos se recusava a construir uma voz política independente, Berger estava certo ao descrever Wisconsin como um estado que agora possuía “um movimento trabalhista de dois braços — um movimento trabalhista com um braço político e um braço econômico”. O SDP e os sindicatos tinham o cuidado de não ditar condutas uns aos outros. No entanto, dali em diante, a maioria dos sindicatos passou a apoiar apenas candidatos socialistas, e o Social Democratic Herald — um semanário editado por Berger a partir de 1901 — era financiado e oficialmente patrocinado pelo Federated Trades Council de Milwaukee e pela Wisconsin State Federation of Labor.

Um historiador dos sindicatos de Milwaukee destaca a “herança que os socialistas deixaram para o movimento trabalhista”: normas democráticas, apoio ao sindicalismo industrial, ausência de corrupção, incentivo à educação dos trabalhadores e uma forte atuação política.7 Por sua vez, o SDP colocava as questões trabalhistas sistematicamente no centro de sua atuação, incentivava todos os seus membros a se sindicalizarem, ajudava a liderar greves e boicotes, apoiava esforços para organizar trabalhadores não sindicalizados e — como veremos adiante — lutou com sucesso por uma legislação que facilitasse a sindicalização da classe trabalhadora. No que dizia respeito ao apoio aos sindicatos, não se deixava passar nenhum detalhe: em 1908, por exemplo, vereadores socialistas recusaram-se a participar de um desfile de inauguração de um novo auditório porque a banda que o liderava não era sindicalizada.

O SDP não teria alcançado grandes feitos sem a sua base sindical. E, justamente por terem conseguido transformar sindicatos estabelecidos da AFL por meio de uma estratégia de atuação interna — a tática de "minar por dentro" —, os líderes sindicais socialistas de Wisconsin travaram uma guerra implacável em duas frentes em nível nacional: de um lado, contra os esforços de sindicalismo revolucionário e de isolamento voluntário de socialistas de esquerda e dos Wobblies; de outro, contra a liderança de visão limitada da AFL, encabeçada por Samuel Gompers. "O momento de combater [Gompers] é sempre", escreveu Berger, "pois o movimento trabalhista americano permanecerá reacionário enquanto ele exercer qualquer influência."

Construindo o partido

Mesmo os inimigos do socialismo em Milwaukee acabaram por ter de tirar o chapéu à sua máquina política excepcional e bem organizada. A Milwaukee Free Press, por exemplo, escreveu em 1910 que “não haveria hoje vitórias social-democratas tão arrebatadoras em Milwaukee se esse partido não possuísse uma solidariedade de organização e propósito que é inigualável pela de qualquer outro partido no condado, ou, nesse caso, no estado”.

A construção dessa máquina exigiu anos de experimentação e aprimoramento sob a orientação de Edmund Melms, um operário afável. Wachman observa que “Melms insistia incansavelmente na organização interna do partido, semana após semana. Ele enfatizava as reuniões das seções locais, o pagamento de contribuições, a obtenção de assinaturas para o Herald, a organização nos distritos eleitorais, a realização de piqueniques, festas, etc.; e seu trabalho deu resultados. Suas tentativas de transformar cada membro do Partido Social-Democrata de Milwaukee em um militante ativo foram, em grande medida, bem-sucedidas”. Esse foco na organização, acompanhado pelo desenvolvimento de novas lideranças da classe trabalhadora, foi fundamental para ajudar os “socialistas do esgoto” a evitar a constante rotatividade e a perda de membros que minaram tantas outras seções do SPA.

Entre as inovações organizacionais de Melms, duas se destacam em particular. A primeira foi a "brigada dos pacotes" da cidade, que logo se tornaria famosa. Durante as campanhas eleitorais, nas manhãs de domingo, entre quinhentos e mil membros do partido retiravam o jornal eleitoral de quatro páginas da legenda às 6 da manhã e o entregavam em todas as casas e apartamentos da cidade até as 9 horas. "A primeira coisa que os habitantes de Milwaukee veem ao abrir a porta para pegar a garrafa de leite ou o jornal, aos domingos, durante as seis semanas que antecedem a eleição, é o Voice of the People", vangloriou-se um membro do SDP em 1911. Nenhum outro partido tentou algo tão ambicioso; faltava-lhes capacidade de voluntariado suficiente, não apenas para a entrega, mas também para identificar o idioma falado em cada residência. Os membros do SDP percorriam seus bairros com antecedência para determinar se a casa deveria receber material impresso em alemão, inglês ou polonês.

A segunda inovação de Melms foi a realização de um carnaval socialista todo inverno. Eram eventos grandiosos, com mais de dez mil participantes, que atraíam — e angariavam fundos de — membros da comunidade muito além das fileiras do SDP. Além desses carnavais anuais, o partido promovia todo tipo de evento social que ajudava a expandir e a fortalecer a coesão do movimento. Entre eles, havia piqueniques, desfiles, torneios de cartas, bailes de gala, festas, concertos, jogos de beisebol e basquete, peças de teatro e espetáculos de variedades. O prefeito Seidel recordava com carinho que, nos desfiles socialistas, "todos os que tinham um instrumento de sopro tocavam". Como disse um observador:

Nesses eventos sociais, os membros do partido podiam proporcionar às suas famílias — fossem elas favoráveis ​​ou contrárias ao movimento — as amenidades de uma vida social normal, talvez como compensação pela negligência imposta pela dedicação a atividades partidárias mais sérias. Simpatizantes e amigos podiam ser convidados para tais ocasiões, sendo assim expostos aos prazeres e ao espírito de camaradagem, bem como à propaganda impressa no programa e incorporada às apresentações de líderes e candidatos do partido.

Embora a imprensa burguesa denunciasse constantemente o “Chefe Berger”, o partido de Milwaukee combinava a disciplina hierárquica de uma máquina política com práticas profundamente democráticas. Um comitê central, composto por membros eleitos pelas seções locais, deliberava e decidia sobre todas as questões importantes; suas decisões eram vinculantes para todos os membros e organizações partidárias, embora pudessem ser revertidas por meio de referendos entre os filiados. Os candidatos do SDP a cargos públicos também eram sempre escolhidos mediante referendos dos filiados, prática que também vigorou no SPA a partir de 1916.

Embora a construção de uma máquina política socialista tenha sido um processo relativamente autônomo e iterativo, a capacidade organizacional do partido não pode ser dissociada de sua ideologia política. Por exemplo, uma das diferenças mais significativas entre o SDP e a maioria das outras seções do SPA em âmbito nacional foi a ausência de grandes disputas entre facções em Wisconsin. Enquanto o faccionalismo frequentemente dificultava o recrutamento ou a retenção de trabalhadores em outras partes dos Estados Unidos, a coesão do SDP de Wisconsin refletia o forte foco dos membros em atividades voltadas para o exterior, bem como a confiança (e as responsabilidades) decorrentes das sucessivas vitórias eleitorais e da liderança sindical do partido. Como observou Berger: "O doutrinarismo e o dogmatismo levam a rupturas e à formação de seitas políticas. Mas, quando as pessoas estão constantemente absorvidas pela ação e pela preparação para empreendimentos ainda maiores, as mesquinhas invejas e os pequenos motivos de conflito e dissensão desaparecem". Berger também acreditava que uma das razões pelas quais o movimento de Wisconsin mantinha um grau tão elevado de unidade e propósito era o fato de contar com poucos membros oriundos da classe média, com sua propensão a debates excessivamente teóricos.

Enquanto o clientelismo e a corrupção lubrificavam as engrenagens de outras máquinas partidárias, os socialistas precisavam contar com o altruísmo nascido do compromisso político. Embora a maioria dos eleitores do SDP estivesse interessada principalmente em conquistar mudanças imediatas, outras motivações sustentavam a decisão de tantos homens, mulheres e crianças da classe trabalhadora de realizar tarefas ingratas, como levantar-se às 5h30 da manhã em domingos frios para distribuir literatura socialista. Sentimentos de camaradagem e solidariedade, reforçados pelos apelos dos líderes locais, eram um grande fator de atração. Mas também o era o objetivo inspirador do partido de construir um futuro socialista livre das inúmeras indignidades do capitalismo. Assim como tantos de seus camaradas, Berger acreditava nisso quando escreveu que "lutar pelo novo mundo" é a "missão sublime desta geração e, possivelmente, também da próxima".

O que manteve tantos membros motivados a dedicar seu tempo como voluntários foi a sensação de que mesmo tarefas e campanhas aparentemente modestas faziam parte de algo muito maior. As representações dos "socialistas do esgoto" como reformadores puramente pragmáticos deixam escapar essa essência fundamental do movimento.

Assim como as igrejas em seu melhor momento, o SDP proporcionou aos trabalhadores uma comunidade envolvente e um poderoso senso de propósito e significado. Nesse sentido, o historiador e participante Elmer Beck tem razão ao afirmar que “os sonhos, as visões e as profecias dos socialistas [de Milwaukee]... foram um fator extremamente vital na ascensão da onda socialista”.[8]

Mensagem e reivindicações

Com o objetivo de conquistar a maioria dos habitantes de Milwaukee e de Wisconsin para o socialismo, o SDP estava obcecado em difundir sua mensagem. Entre 1893 e 1939, o partido publicou doze jornais semanais, dois diários e uma revista mensal, além de inúmeros panfletos e folhetos — só a sua campanha eleitoral de 1912 produziu mais de seiscentas mil peças de material impresso. E, quando surgiam novas oportunidades de mídia, eles as aproveitavam. No início da década de 1930, os moradores de Milwaukee podiam ouvir o programa Socialist Quarter Hour todos os domingos ao meio-dia, apresentado por um encanador socialista e orador eloquente, Anthony King.

A consciência de classe era o ponto político central enfatizado em todas as atividades de agitação e publicações do partido. Isso levou David Rose — o prefeito democrata corrupto de Milwaukee, que governou de 1898 a 1906 e novamente de 1908 a 1910 — a reclamar que o SDP estava sempre "tagarelando sobre os direitos dos trabalhadores, sempre apelando em defesa do trabalhador oprimido".9 Rose não estava errado: praticamente tudo era apresentado como uma luta dos trabalhadores contra os capitalistas.

Associado a essa análise de classe, havia um foco incessante nas necessidades materiais dos trabalhadores. Por exemplo, um dos panfletos mais impactantes do SDP em 1910 era dirigido às mulheres da classe trabalhadora: "Senhora — como a senhora pagará suas contas?". O programa do partido de 1898 incluía reivindicações relacionadas à redução das tarifas de água para os consumidores, à oferta de trabalho para os desempregados, à ampliação da assistência médica gratuita e à tributação de grandes empresas para custear esses serviços. Quando Oscar Ameringer — o dinâmico líder socialista teuto-americano de Oklahoma — escreveu sobre as lições que seu estado poderia aprender com Milwaukee, um dos pontos-chave que ele destacou foi que o SDP sempre "colocava as questões básicas de subsistência em primeiro plano".

Uma das limitações inevitáveis ​​de qualquer reivindicação modesta era que políticos oportunistas de outros partidos podiam — e periodicamente o faziam — tentar roubar o protagonismo dos socialistas ao incorporar pautas semelhantes às suas campanhas. Um socialista brincou dizendo que os republicanos do estado "tinham roubado toda a madeira e as áreas florestais do estado e agora haviam descido ao nível do furto de pequena monta, roubando tábuas do programa social-democrata". Embora essa absorção oportunista de políticas por vezes dificultasse para o SDP diferenciar-se de seus rivais, ela acabou sendo um mecanismo de avanço programático — e os socialistas não deixavam de lembrar ao público quem havia concebido essas ideias originalmente.

O SDP também se diferenciava ao defender métodos baseados na luta de classes para conquistar suas reivindicações e ao pregar abertamente o fim do capitalismo. Em 1902, Berger criticou o novo governador republicano progressista, Robert M. La Follette, classificando-o simplesmente como um "reformador superficial". Além disso, o SDP propôs uma série de reformas radicais mais amplas que outros partidos evitavam abordar, como a democratização do sistema político dos EUA em âmbito nacional. Visto que a estrutura política americana apresentava inúmeros pontos de veto que favoreciam minorias, Berger defendia a abolição do Senado, o fim dos poderes da Suprema Corte sobre a legislação, a concessão ao Congresso da prerrogativa de convocar uma convenção constitucional e a extinção do exército permanente em favor do armamento da população. E, enquanto Democratas e Republicanos tendiam, no máximo, a prometer a regulamentação de setores industriais, os "socialistas do esgoto" de Wisconsin lutavam pela propriedade pública de recursos, indústrias e serviços.

A corrupção era outro importante fator de diferenciação. Milwaukee, assim como outras cidades americanas da virada do século, estava profundamente mergulhada em esquemas de corrupção. Escândalo após escândalo minava a confiança da população nos políticos locais, tanto republicanos quanto democratas. Os socialistas não estavam manchados por essa corrupção e articulavam uma visão clara de como acabar com ela. Como o partido declarou em 1902: 

a raiz da corrupção nos assuntos municipais reside, geralmente, no fato de que alguns vereadores ou autoridades têm o poder de conceder ou vender concessões de serviços públicos a capitalistas, que, com isso, lucram milhões. A tentação a que nossos funcionários públicos são assim expostos — a de tentar garantir uma fatia desses milhões distribuídos — é grande demais para que o cidadão comum a resista. Se a cidade administrasse seus próprios serviços públicos, o motivo e a oportunidade para o suborno deixariam de existir.

Evolução eleitoral

Embora o SDP sempre tenha dado mais ênfase a demandas imediatas do que seus rivais de extrema-esquerda, o partido também passou por uma mudança de foco entre sua primeira disputa eleitoral, em 1898, e seu grande avanço, em 1910. No início, quando o partido ainda obtinha parcelas muito pequenas dos votos, não priorizava vencer as eleições; considerava-se vitorioso desde que conseguisse atrair mais trabalhadores para o socialismo e obter mais votos do que na disputa anterior.

Essa abordagem mudou parcialmente depois que o SDP constatou, na prática, que conquistar cargos públicos poderia impulsionar significativamente sua mensagem, seu quadro de filiados e sua legitimidade. Suas primeiras vitórias eleitorais ocorreram em 1904, quando elegeu nove vereadores para a Câmara Municipal de Milwaukee e seis membros para a legislatura estadual. Embora os eleitos pelo SDP constituíssem uma minoria reduzida, eles aproveitaram ao máximo a visibilidade e a tribuna que o cargo lhes proporcionava — por exemplo, ao apresentar a primeira lei estadual de indenização trabalhista por acidentes. Essa luta facilitou demonstrar aos trabalhadores quem estava realmente ao lado deles, mesmo que o projeto de lei dos socialistas tenha sido derrotado todos os anos até ser finalmente aprovado em 1911, tornando-se a primeira lei do gênero nos Estados Unidos.

O SDP passou gradualmente a enfatizar a disputa eleitoral com o objetivo de vencer. Berger explicava que as convicções socialistas do partido permaneceriam inalteradas, "independentemente de vencermos ou perdermos as eleições. No entanto... prefiro lutar e vencer". As demandas imediatas também se tornaram cada vez mais concretas; por exemplo, a plataforma de 1910 incluía exigências para que a prefeitura realizasse, a preço de custo, a instalação de encanamento e rede de esgoto em todas as residências, e para que a cidade parasse de despejar esgoto no Lago Michigan. Como a legislação estadual de Wisconsin impedia as cidades de municipalizar suas linhas de bonde e outros serviços públicos, o SDP decidiu ajustar sua oposição anterior — que era irrestrita — à concessão de direitos de exploração (franquias) a empresas privadas de serviços públicos. Em vez disso, passou a exigir que tais concessões só fossem aceitas se as empresas concordassem com uma série de cláusulas favoráveis ​​aos trabalhadores e aos consumidores. Paralelamente, os "socialistas do esgoto" intensificaram a luta pela concessão de autonomia administrativa ("home rule") às cidades, permitindo assim que Milwaukee municipalizasse seus serviços públicos. Embora o SDP continuasse a fazer propaganda do socialismo e a propor reformas ambiciosas — ainda inviáveis ​​de serem conquistadas no curto prazo —, as reivindicações imediatas passaram a ocupar um lugar cada vez mais central nas campanhas eleitorais. Na esperança de alcançar um público mais amplo, o partido começou a apresentar seus objetivos de curto e longo prazo de maneira mais consistente, buscando torná-los o mais acessíveis e menos ameaçadores possível.

Pela primeira vez, a campanha de 1910 do SDP para a prefeitura concentrou-se não apenas nos princípios e reivindicações do partido, mas também no argumento de que Seidel — que havia demonstrado seu valor para a cidade como vereador desde 1904 — era "o homem mais capaz para o cargo e que republicanos e democratas deveriam votar nele com base nisso". Da mesma forma, foi em parte graças às suas realizações práticas no combate a empresas privadas de serviços públicos, enquanto atuava como promotor distrital, que Daniel Hoan — ex-lavador de pratos e açougueiro — foi eleito prefeito em 1916. A partir de 1910, as campanhas eleitorais do SDP enfatizaram consistentemente as conquistas concretas que haviam proporcionado à cidade.

Visando vencer eleições estaduais e para o Congresso em Wisconsin, Berger também lutou para que o SPA incorporasse uma plataforma voltada aos agricultores. Sua tentativa, em 1899, de convencer o SPA a adotar tal proposta foi amplamente derrotada, uma vez que outras correntes — especialmente a ala esquerda do partido — defendiam a posição ortodoxa de que tal medida obscureceria as divisões de classe.

Em 1908, Berger retomou sua iniciativa pouco ortodoxa. Finalmente, em 1912, o partido adotou uma plataforma voltada aos agricultores. Em Wisconsin, o partido empreendeu esforços significativos para expandir sua atuação para as áreas rurais — inclusive contratando Ameringer, um organizador excepcional, para liderar essa iniciativa de aproximação. Apesar disso, o SDP permaneceu, em grande medida, um partido essencialmente urbano.

Bem mais bem-sucedidos, com o tempo, foram os esforços do SDP para conquistar os trabalhadores poloneses, o único segmento da classe trabalhadora de Milwaukee que ainda resistia à adesão ao partido. Influenciados por seus padres e vistos com desdém por alguns sindicalistas alemães — devido ao fato de serem frequentemente utilizados como fura-greves —, os trabalhadores poloneses pareciam, durante anos, destinados a permanecer à margem do movimento. No entanto, a partir de 1905, os sindicatos e o partido começaram a organizar os trabalhadores poloneses não qualificados. Além disso, socialistas que integravam o conselho escolar travaram uma batalha pública para permitir o ensino da língua polonesa nas escolas. Em 1909, o SDP começou a publicar um jornal em língua polonesa, e uma nova geração de jovens socialistas poloneses tomou a iniciativa de convencer os mais velhos a votar nos socialistas.

No final das contas, foram os enormes ganhos do partido entre os trabalhadores poloneses — e não os seus apelos a setores da classe média — que lhe permitiram obter uma vitória avassaladora nas eleições municipais de Milwaukee em 1910 e eleger Berger para o Congresso no mesmo ano. Como aponta um estudo: “Os socialistas dependiam quase totalmente da classe trabalhadora, tanto qualificada quanto não qualificada, para o seu sucesso eleitoral”.10 Os únicos distritos eleitorais que não lhes deram vitória foram os mais ricos e os mais pobres. O secretário do prefeito Seidel observou: “Nunca vencemos em um distrito rico, nem elegemos ninguém na zona de cortiços da cidade”.

A “onda social-democrata” de 1910 em Milwaukee — como a descreveu o New York Times — entusiasmou trabalhadores e socialistas em todo o país, inspirou inúmeras iniciativas eleitorais socialistas que buscavam replicar esse modelo e contribuiu para o grande aumento no número de filiados do SPA, passando de cerca de 58.000 em 1910 para aproximadamente 113.000 em 1912.

Oportunismo?

Nem todos os socialistas viam com bons olhos a ascensão do "socialismo de esgoto". Pregando a "sentença de morte do trabalhismo de fachada", o jornal dos Wobblies sugeriu, em 1911, que Berger e seus camaradas eram "pseudossocialistas" interessados ​​apenas em "consolidar seu prestígio político". E, no órgão oficial do SLP, o antigo adversário de Berger, De Leon, insistia que o chamado socialismo de Milwaukee era, na verdade, "a mesma velha conversa fiada reformista burguesa, apenas vestida com a roupagem do socialismo".

Vale a pena levar essas críticas a sério, especialmente porque tantos socialistas ao redor do mundo acabaram abandonando o compromisso com a luta de classes e a revolução socialista em nome da viabilidade eleitoral. Teriam os socialistas de Milwaukee sido absorvidos pelo sistema? Ou teria Berger razão ao argumentar que as divergências com seus críticos radicais giravam em torno de táticas, e não de princípios?

De modo geral, as evidências corroboram a posição de Berger. Visto que todos compreendiam ser impossível estabelecer uma ilha municipal de socialismo em meio a um oceano de capitalismo, os debates sobre reforma versus revolução careciam de significado prático imediato. Em âmbito local e num período não revolucionário, qual teria sido o benefício político de priorizar apelos à revolução em detrimento de demandas imediatas durante a campanha eleitoral do SDP? Os críticos de esquerda consideravam tal postura essencial para orientar os trabalhadores rumo à sua missão histórica de eliminar o capitalismo. Contudo, mesmo sob esse critério unilateral de avaliação das táticas socialistas, não há muitas provas de que uma abordagem supostamente mais revolucionária fosse mais eficaz em conquistar trabalhadores para o objetivo final do socialismo.

Embora as plataformas eleitorais do SDP se concentrassem em demandas imediatas, o partido mantinha-se consistentemente empenhado em ampliar os limites das reformas transformadoras e em atrair indivíduos para as ideias marxistas. Os socialistas de Milwaukee acreditavam que concorrer para vencer — e lutar seriamente pela aprovação de mudanças políticas uma vez no poder — permitia recrutar um número maior, e não menor, de trabalhadores para o socialismo científico. E os dados comparativos sobre a filiação partidária confirmam essa hipótese.

Não apenas o SLP de De Leon permaneceu marginal em Milwaukee e além, como também a ala esquerda do SPA recrutou menos trabalhadores para o socialismo do que seus rivais relativamente moderados. Nenhuma cidade de grande porte no país apresentava algo próximo à proporção de cerca de um socialista para cada cem habitantes que Milwaukee já havia alcançado em 1912. A seção local de Cleveland — um reduto da ala de extrema-esquerda do SPA a partir de 1912 — contava com apenas um socialista para cada quinhentos habitantes em meados de 1917. Comparações internas às cidades confirmam o mesmo padrão: em Nova York, apenas a ala direita do SPA conseguiu construir uma base sólida junto à classe trabalhadora. De fato, o marxismo pragmático e a base sindical de massa do socialismo dos imigrantes judeus assemelhavam-se muito ao modelo de Milwaukee.11

O fato de a corrente de Berger situar-se na ala direita do socialismo americano diz mais a respeito do SPA do que de sua seção em Wisconsin. O historiador britânico Henry Pelling observa que o traço distintivo do SPA, em comparação com os partidos socialistas de outros países, era o fato de ser, "em grande medida, mais dogmaticamente marxista e, ao mesmo tempo, menos vinculado a um apoio generalizado da classe trabalhadora".12

A dificuldade do socialismo em criar raízes na América não foi nem efêmera nem acidental. Pelo contrário, foi produto de fatores estruturais profundos, como a ausência de uma herança feudal, a concessão precoce de sufrágio universal masculino para brancos, o legado da escravidão e da supremacia branca, as divisões étnico-religiosas generalizadas, a oposição patronal excepcionalmente intensa ao sindicalismo e um sistema partidário particularmente desafiador. Essa herança não apenas dificultou a expansão de terceiros partidos para além do âmbito local, mas também tornou a opinião pública relativamente moderada e pragmática, em comparação com países como a Alemanha imperial ou a Rússia czarista. E, como os socialistas americanos tiveram poucas oportunidades de vivenciar a influência moderadora de uma liderança sindical contínua ou do exercício de cargos eletivos — situações que exigem avaliações realistas da consciência popular —, o socialismo americano tornou-se excepcionalmente propenso a um sectarismo político que o marginalizava ainda mais.13

O SDP de Milwaukee percebeu, mais cedo e com mais firmeza do que a maioria de seus camaradas nos Estados Unidos, que o crescimento do socialismo no país dependia, em grande medida, de proporcionar melhorias concretas por meio da liderança de sindicatos de massa e da condução de campanhas eleitorais viáveis. Isso exigia que os radicais lutassem por demandas imediatas e realizassem campanhas que ressoassem com a maioria dos trabalhadores tal como eles eram, e não como os socialistas gostariam que fossem num futuro distante.

Em suma, as táticas cada vez mais moderadas dos socialistas de Milwaukee foram impostas mais pelas circunstâncias do que pela ideologia. Um estudo perspicaz de 1911 sobre o socialismo americano, realizado pela Universidade de Chicago, observou que "parece haver uma lei definida de desenvolvimento do Socialismo que se aplica tanto ao indivíduo quanto ao grupo. A lei é esta: o caráter doutrinário e a falta de moderação do Socialismo, mantidas as demais condições, variam na razão inversa de sua idade e responsabilidade".[14]

Era uma tarefa desafiadora — que exigia constantes apostas e ajustes — atrair a massa de trabalhadores para o socialismo sem comprometer esse processo ao avançar precipitadamente. "Nunca oscile para a direita nem longe demais para a esquerda", aconselhava Hoan, prefeito pelo partido entre 1916 e 1940. No entanto, transformar esse axioma em prática política era mais fácil falar do que fazer. Visto que a base do partido nutria visões políticas e motivações distintas das do público em geral, era frequentemente necessário adotar abordagens diferentes para públicos diferentes. E esse dilema tornou-se ainda mais acentuado quando o partido assumiu o governo.

Governar Milwaukee com sucesso

Qualquer avaliação equilibrada das administrações socialistas de Milwaukee precisa situar seus sucessos e limitações no contexto das circunstâncias políticas relativamente adversas em que foram obrigadas a atuar. O SDP não dispunha de maioria na Câmara Municipal na quase totalidade dos anos, o que impediu a aprovação de muitas de suas propostas políticas. Além disso, Milwaukee não contava com autonomia administrativa — o direito de uma cidade de implementar uma ampla gama de políticas sem a aprovação do estado — até 1924, o que tornava ilegal, inicialmente, a execução de grande parte da agenda proposta pelo partido. E, já em meados da década de 1920, o entusiasmo da opinião pública por reformas ambiciosas havia diminuído consideravelmente.

Como era de se esperar, o establishment político e os jornais burgueses recorreram a todo tipo de manobra para minar e restringir as administrações socialistas. Parte disso manifestou-se por meio de uma intensa campanha de alarmismo. Além da ladainha constante de que as políticas socialistas arruinariam a cidade ao forçar a fuga das empresas, o principal adversário do SDP na disputa pela prefeitura durante a eleição de 1918 — realizada em meio à guerra — sugeriu que, caso os socialistas vencessem, o governo federal reagiria impondo a lei marcial na cidade.

A obstrução também se manifestou na esfera jurídica. Parte da dificuldade em formar uma maioria na câmara municipal deveu-se ao fato de que, diante da crescente ameaça socialista, o estado de Wisconsin impôs, em 1908, uma nova lei exigindo que as eleições para as câmaras municipais fossem apartidárias — o que minava o voto partidário em bloco para o SDP — e realizadas em âmbito municipal (com voto em toda a cidade), em vez de por distritos. Para evitar a fragmentação do voto antissocialista em disputas a três pela prefeitura, o legislativo de Wisconsin decretou, em 1914, que todas as eleições para prefeito passariam a exigir uma eleição primária aberta e apartidária, seguida de um segundo turno entre os dois candidatos mais votados. Minando ainda mais a ameaça socialista, o legislativo estadual reduziu, em 1911, o controle do prefeito sobre vários departamentos municipais — incluindo a polícia, cujo chefe hostilizou abertamente as administrações socialistas durante muitos anos. Da mesma forma, o comissário de impostos da cidade, que não era socialista, sabotou a administração Seidel às vésperas da eleição de 1912 ao promover uma reavaliação impopular de imóveis residenciais, fazendo com que os trabalhadores pagassem mais impostos e os ricos, menos. Eleitores pouco informados culparam a própria administração, abrindo caminho para a derrota do prefeito Seidel naquele ano.

Diante de todos os obstáculos enfrentados pela administração do "socialismo de esgoto", é notável o quanto eles ainda conseguiram realizar. Aqui estão alguns dos destaques.

Sob a gestão do SDP, Milwaukee melhorou drasticamente as condições de saúde e segurança de seus cidadãos, tanto no ambiente de trabalho quanto na vida cotidiana. Por meio de novas regulamentações e inspeções, as taxas de doenças contagiosas, como varíola e escarlatina, foram reduzidas drasticamente. A mortalidade infantil despencou à medida que a cidade passou a oferecer assistência pré-natal e materna, visitas de enfermeiros, vacinação e serviços médicos básicos. E, pela primeira vez, inspetores de saúde passaram a atuar dentro das fábricas para avaliar as condições e exigir reformas.

Milwaukee criou a primeira cooperativa habitacional pública para população de baixa renda do país e foi pioneira no planejamento urbano por meio de códigos de zoneamento abrangentes. Os prefeitos socialistas ampliaram a infraestrutura urbana, especialmente com a modernização do porto. E, embora o SDP não tenha avançado tanto quanto desejava no sentido de acabar com contratos privados para todos os serviços públicos, conseguiu construir uma usina de energia municipal e estatizar a pedreira, a iluminação pública, o sistema de esgoto e o tratamento de água. Outro grande destaque do "socialismo do saneamento" foi a expansão significativa de parques e áreas de lazer, bem como a criação de mais de quarenta centros sociais pela cidade. A cidade utilizou a infraestrutura escolar para instalar esses centros, que ofereciam bilhar para adolescentes, aulas educativas e eventos públicos para adultos, além de esportes, jogos e entretenimento
para todos.

Os prefeitos socialistas de Milwaukee cumpriram rigorosamente suas promessas de acabar com a corrupção na prefeitura. Uma gestão íntegra era uma das marcas registradas das novas administrações, razão pela qual amplas camadas do eleitorado votavam com tanta frequência nos prefeitos do SDP. Não se contentando apenas em eliminar a corrupção, as administrações socialistas também fizeram todo o possível para garantir que a cidade fosse melhor gerida e mais eficiente. Hoan explicou a lógica ideológica e anticapitalista por trás
da rejeição ao clientelismo na contratação e da adesão estrita a um sistema de mérito: Ao fazer nossas escolhas, vasculhamos toda a cidade — e o país, se necessário — para encontrar o profissional mais experiente para a função, independentemente de ser socialista ou não, desde que fosse honesto e não tivesse atuado politicamente contra os socialistas. Essa política é absolutamente necessária para se obter êxito. É preciso demonstrar aos trabalhadores e aos cidadãos que a administração municipal é um empregador tão bom quanto — ou até melhor do que — a iniciativa privada, caso se queira avançar na tarefa de convencê-los de que o município é um gestor de serviços públicos e indústrias superior às empresas privadas.

Com o objetivo de aumentar a eficiência da cidade, a administração Seidel criou imediatamente um Departamento de Economia e Eficiência — o primeiro do país. O órgão recorreu aos maiores especialistas do estado, liderados por John Commons — pesquisador da área trabalhista da Universidade de Wisconsin-Madison —, e implementou rapidamente suas propostas, destacando-se a implantação de um sistema abrangente de contabilidade de custos em todos os departamentos municipais.

Esses esforços trouxeram resultados positivos, tanto no âmbito fiscal quanto no político. O aumento da confiança da população nas iniciativas governamentais acabou permitindo que Hoan ampliasse os limites do que era considerado aceitável em termos de intervenção municipal no livre mercado. Tanto antes quanto depois da Primeira Guerra Mundial, Hoan — sem a aprovação da Câmara Municipal — comprou do Exército dos EUA grandes quantidades (transportadas em vagões ferroviários) de alimentos e roupas excedentes e os vendeu ao público, em repartições municipais, a preços muito abaixo dos praticados no mercado. O projeto tinha um escopo ambicioso: somente em janeiro de 1920, Hoan adquiriu 72.000 latas de ervilhas, 33.600 latas de feijão cozido, 100.000 libras de sal e 20.000 pares de luvas de tricô e meias de lã, entre outros itens.

Essa iniciativa foi tão eficaz quanto controversa. Hoan celebrou o sucesso do projeto: “A venda de alimentos realizada por mim ofereceu uma oportunidade de demonstrar a teoria socialista de gestão de negócios. Ela deveria demonstrar, de uma vez por todas, que a teoria socialista de conduzir muitos de nossos empreendimentos sem fins lucrativos pode ser posta em prática de maneira grandiosa e benéfica se for gerida por aqueles que acreditam no seu sucesso.”15 Motivada por essa experiência, a prefeitura criou uma ambiciosa cozinha comunitária e refeitório públicos durante a Grande Depressão. No auge do programa, em 1934, a cidade fornecia alimentos a uma em cada cinco pessoas em Milwaukee.

A oferta excepcional de lazer, serviços e assistência material pela cidade foi, segundo Hoan, o motivo de ela apresentar uma das taxas de criminalidade mais baixas entre as grandes cidades do país. Em seu fascinante livro de 1936, City Government: The Record of the Milwaukee Experiment, Hoan escreve que, em “Milwaukee, sustentamos que a prevenção do crime [ao atacar suas raízes sociais] é tão importante quanto — se não mais, caso uma comparação seja possível — a detecção e a punição do crime”.

Isso não significava que a cidade cogitasse cortar verbas da polícia. Na verdade, Hoan defendia melhores salários e condições de trabalho para os policiais, numa tentativa relativamente bem-sucedida de afastar a base da corporação de seu chefe reacionário, John Janssen. Ao mesmo tempo, porém, prefeitos socialistas vetavam, ano após ano, tentativas de criar uma unidade de polícia montada, temendo que ela fosse utilizada
para reprimir trabalhadores em greve. Tanto Seidel quanto Hoan estavam profundamente empenhados em impedir que a polícia interviesse em greves trabalhistas. 

Como procurador municipal durante a gestão de Seidel, Hoan recusou-se, em 1911, a processar grevistas detidos durante uma greve combativa no setor de vestuário. Por sua vez, o prefeito Seidel ameaçou nomear os grevistas como policiais auxiliares caso o chefe de polícia tentasse intimidá-los.

Essa postura em relação à polícia era apenas uma faceta do apoio da prefeitura ao movimento trabalhista. Mão de obra sindicalizada era utilizada em todos os projetos municipais de construção e impressão. Com o apoio da prefeitura, uma onda de sindicalização varreu as categorias de bombeiros, garis, carregadores de carvão e operadores de elevador da cidade, entre outras. A administração municipal chegou a utilizar seu contrato com uma empresa privada de pavimentação de ruas para forçá-la a aceitar a sindicalização de seus trabalhadores tanto em Milwaukee quanto em Chicago, a cidade-sede da empresa. Paralelamente, o SDP aprovou uma série de leis favoráveis ​​aos sindicatos e à organização trabalhista na legislatura estadual, e Berger usou sua tribuna no Congresso para apoiar greves de grande repercussão — destacando-se, sobretudo, a projeção nacional que deu à greve dos trabalhadores têxteis de 1912, conhecida como "Pão e Rosas" (Bread and Roses), liderada pelos "Wobblies" em Lawrence, Massachusetts.

Antes da Primeira Guerra Mundial, o SDP era composto quase exclusivamente por trabalhadores brancos, e Berger defendia, de forma notória, a supremacia branca. No entanto, como já escrevi detalhadamente em outra ocasião, após 1917 ele e seus camaradas tornaram-se combatentes excepcionalmente dedicados contra a injustiça racial e o nativismo. Por sua vez, os eleitores negros votaram majoritariamente nos socialistas, e militantes negros radicais — incluindo membros da seção local do movimento de Garvey — filiaram-se ao partido.16

Nessa e em muitas outras questões, os trabalhadores de Milwaukee demonstravam — para os padrões americanos — uma consciência, uma solidariedade e um orgulho de classe excepcionalmente difundidos. Visto que a ampla gama de melhorias progressistas na cidade era encarada como conquistas vindas da base, e não como concessões vindas do alto, um membro do partido observou em 1911 que muitos trabalhadores sentiam orgulho, tanto pessoal quanto coletivo, dessas realizações: "Essa é, de fato, a grande contribuição que a eleição dos socialistas para o governo da cidade e do condado trouxe aos trabalhadores — ou melhor, que os trabalhadores conquistaram para si mesmos."

Compromissos e alianças

Os avanços socialistas em Wisconsin não ocorreram facilmente. Foram conquistados por meio de lutas sucessivas, nas quais membros e líderes do SDP precisaram avaliar quais alianças e compromissos eram necessários ou evitáveis. Visto que a correlação de forças de classe, expressa nos blocos legislativos, normalmente impedia os socialistas de obter tudo o que desejavam, tratava-se sempre de um terreno pantanoso e frustrante de concessões mútuas. Com essa experiência, aprenderam que não existem fórmulas atemporais para partidos políticos da classe trabalhadora. Uma política de massas eficaz depende sempre do contexto específico.

Um dilema recorrente dizia respeito a compromissos envolvendo propostas legislativas. Se os socialistas de Wisconsin se recusassem, por princípio, a apoiar versões atenuadas de seus projetos de lei, os eleitores poderiam tirá-los do cargo por não entregarem resultados. Por outro lado, se os eleitos pelo SDP cedessem sempre que as forças do establishment pressionassem por um acordo, corriam o risco de desmoralizar a base do partido e, ao mesmo tempo, minar sua capacidade de negociação em batalhas futuras.

Obrigado a avaliar possíveis compromissos caso a caso, o partido frequentemente mantinha sua posição firme. Por exemplo, quando a empresa privada de iluminação pública — então sob forte pressão — propôs, em 1916, reduzir em 1,4 milhão de dólares os custos para a cidade ao longo dos vinte anos seguintes, os "socialistas do esgoto" de Milwaukee mantiveram sua defesa da municipalização do serviço.

No entanto, os legisladores do SDP também aceitavam compromissos de forma pragmática quando não dispunham de votos ou poder para algo melhor. Ao colaborar com os republicanos progressistas liderados pelo governador Philip La Follette, conseguiram, em 1932, ajudar a aprovar o primeiro projeto de lei de seguro-desemprego do país. Embora a medida ficasse aquém da versão mais ambiciosa pela qual os socialistas lutavam desde 1921, declararam que o compromisso "pode, apesar de suas fragilidades, ser apontado como um marco inovador no campo legislativo e como mais uma conquista pioneira dos trabalhadores em Wisconsin... [Ele] constitui a base para uma futura legislação abrangente".

Um dilema correlato era como se diferenciar dos partidos tradicionais — e combatê-los — ao mesmo tempo em que era necessário trabalhar com eles para aprovar políticas progressistas. Hoan, por exemplo, não podia se dar ao luxo de antagonizar todos os outros políticos da Câmara Municipal, uma vez que precisava de alguns de seus votos para realizar qualquer coisa. Essa dinâmica era ainda mais acentuada em nível estadual, visto que os socialistas sempre constituíam uma pequena minoria na legislatura do estado. E, ao contrário do que ocorria no Congresso — onde Berger concentrava esforços em promover o socialismo e apresentar propostas ambiciosas sem chance de sucesso imediato —, o SDP precisava de aliados em nível estadual para aprovar a legislação pró-sindicatos exigida por sua base sindical. Além disso, precisavam que a legislatura aprovasse a autonomia municipal para que pudessem implementar com êxito sua agenda em Milwaukee.

Até a década de 1920, o equilíbrio do partido entre independência política e alianças pendia quase inteiramente para o primeiro aspecto. Embora houvesse certa divisão de tarefas — já que Hoan era obrigado a colaborar com políticos e administradores de diferentes espectros partidários —, a recusa do SDP em apoiar candidatos de outros partidos — ou em deixar de lançar candidaturas contra aliados progressistas — ajudou a consolidar sua estrutura partidária independente e sua identidade política.

Essa rigidez, no entanto, acabou se mostrando um ponto fraco quando Berger e seus camaradas reagiram com frieza à iniciativa, em 1919–20, da radical e rural Nonpartisan League (NPL) de construir uma aliança eleitoral entre trabalhadores e agricultores em Wisconsin. Esse fracasso político decorreu principalmente da expectativa do SDP de se tornar diretamente o partido majoritário em todo o estado ao conquistar os agricultores. Além disso, o SDP desconfiava da disposição da NPL em lançar campanhas insurgentes nas primárias utilizando as legendas dos partidos tradicionais. A NPL, na Dakota do Norte, havia empregado essa tática para assumir o controle do Partido Republicano em nível estadual e vencer as eleições para governador em 1916, 1918 e 1920. Em Minnesota, a NPL e sindicatos aliados utilizaram a mesma estratégia por alguns anos para preparar o terreno para um novo e independente Farmer-Labor Party, que viria a governar o estado na década de 1930. O desfecho foi diferente em Wisconsin, onde, rejeitado pelos socialistas de Milwaukee, o movimento militante de agricultores do estado acabou se abrigando, após 1921, na ala progressista do Partido Republicano.17

Em nível nacional, Berger e seus aliados no SPA também desperdiçaram uma oportunidade propícia para apoiar os movimentos incipientes de criação de partidos trabalhistas que surgiram por todos os Estados Unidos após 1918. Nos primeiros anos dessa insurgência eleitoral, lideranças nacionais importantes do SPA, como Berger, mantiveram uma postura de distanciamento em relação ao movimento trabalhista partidário, pois há muito previam que a radicalização eleitoral dos trabalhadores seria canalizada diretamente para o seu próprio partido. Seções do Partido Socialista em Chicago, Ohio e outras regiões foram ainda mais longe em 1919–20, opondo-se ativamente às iniciativas locais de criação de partidos trabalhistas — assim como fez o movimento comunista nascente. Forçados a escolher entre o SPA e os esforços sindicais para construir um novo partido de massas, muitos dos camaradas de longa data de Berger, fora de Wisconsin, optaram pela segunda alternativa.

Berger acabou percebendo que a estratégia do SDP para conquistar os agricultores de Wisconsin não daria certo. Tampouco o SPA, fora de Wisconsin, tinha dimensão suficiente para absorver tamanha energia voltada para uma terceira via partidária. Com certo atraso, ele pressionou por um ajuste nas táticas do partido, orientando-as para uma postura mais favorável a alianças. A partir de 1922, Berger convenceu o partido em nível nacional a finalmente apoiar de forma ativa os esforços para criar um partido de base ampla para os trabalhadores em todo o país. Em Wisconsin, ele surpreendeu alguns quadros do SDP em 1922 ao defender que o partido não lançasse candidato ao Senado dos EUA, uma vez que isso poderia comprometer as chances eleitorais de Robert La Follette. Em resposta a intensas divergências internas no SDP, Berger argumentou que "não se trata de uma questão de princípios, mas de tática. Até pouco tempo atrás, o Partido Socialista da América era o único que proibia a medida que estamos considerando".

A nova abordagem do SDP mostrou-se bem-sucedida em Wisconsin durante a década de 1920. Conforme demonstrado no excelente trabalho do historiador Joshua Kluever sobre a legislatura estadual, a maior flexibilidade do SDP permitiu que o partido fosse consideravelmente mais eficaz na aprovação de leis estaduais ao longo da década, apesar da redução de sua própria bancada legislativa.

Com os socialistas atuando, na prática, como parceiros minoritários dos Progressistas de La Follette na legislatura, o SDP conseguiu — em um período que, de outra forma, teria sido desafiador — continuar proporcionando melhorias concretas à sua base, transformando Wisconsin em um bastião de políticas progressistas que apontava o caminho a seguir para o país como um todo. Além disso, o SDP continuou tentando elevar as expectativas dos trabalhadores ao defender reformas transformadoras que dificilmente seriam aprovadas em curto prazo. Kluever observa que a bancada legislativa do SDP acabou aprovando 525 de seus 1.904 projetos de lei propostos, uma taxa de sucesso de aproximadamente 28%.[18]

Dentro e fora do Estado

Outro dilema central enfrentado pelos "socialistas do esgoto" era como combinar a governança de esquerda com a pressão de movimentos externos. Uma das principais diferenças entre os socialistas e até mesmo os melhores progressistas era que estes últimos não deviam satisfações a organizações políticas baseadas na filiação de membros, como o SDP e os sindicatos.

A máquina política de base do SDP, combinada com sua influência sobre o movimento sindical organizado, conferia ao partido grande parte de sua força para aprovar legislação e moldar a opinião pública. De fato, em City Government, Hoan ressaltou que, se outras cidades quisessem emular o sucesso de Milwaukee, eleger "homens honestos e competentes" não bastava: "É preciso formar um partido político permanente para oferecer incentivo e assistência ativa ao chefe do Executivo e à sua administração, bem como para garantir que os sucessores deem continuidade às políticas desejadas."

Uma das principais razões pelas quais alguns democratas e republicanos de Wisconsin ocasionalmente chegavam a acordos com os socialistas no Legislativo e na Câmara Municipal era o receio de que, caso não o fizessem, o SDP e os sindicatos convencessem seus eleitores a tirá-los do cargo na eleição seguinte. Essa abordagem tornou-se cada vez mais urgente depois que o partido perdeu seu controle — de curta duração — sobre a Câmara Municipal. Diante da falta de maioria de Hoan, o historiador Todd Fulda observa que o prefeito adotou "uma abordagem populista de governo, apelando diretamente aos cidadãos de Milwaukee para que apoiassem suas reformas e pressionassem os vereadores apartidários a apoiá-las também"19. A mesma lógica orientou a atuação do partido em nível estadual, levando o SDP a mapear as relações de poder no Legislativo para identificar pontos de pressão capazes de conquistar o voto de parlamentares indecisos.

Essa estratégia de atuação interna e externa foi um pré-requisito para o sucesso do socialismo do esgoto. No entanto, ela também trouxe consigo todo tipo de transtorno tático, uma vez que as bases do partido nem sempre concordavam com seus líderes eleitos ou acatavam suas decisões. Por exemplo, muitos membros exigiam que Hoan nomeasse apenas socialistas para cargos na administração. Na visão deles, era injusto e desnecessário conceder cargos desejáveis ​​a pessoas de fora, enquanto tantos militantes socialistas — que labutavam em empregos extenuantes nas fábricas — haviam demonstrado suas capacidades de liderança por meio do trabalho partidário e sindical.

De modo geral, o partido mantinha um controle rigoroso sobre seus representantes eleitos. Para desencorajar oportunistas em busca de cargos, o SDP exigia que todos os seus candidatos fossem filiados ao partido há pelo menos três anos e assinassem cartas de renúncia sem data; o partido poderia acionar essas cartas caso o eleito descumprisse promessas de campanha ou rompesse com as decisões da bancada eleitoral socialista. Tal ameaça tinha peso real, visto que esses homens dependiam inteiramente do partido e dos sindicatos liderados por socialistas para serem reeleitos. Nesse sentido, Berger utilizava frequentemente a imprensa partidária para criticar hesitações significativas entre os eleitos e lembrá-los de que conquistar um cargo não era um fim em si mesmo, mas apenas um meio de lutar de forma mais eficaz pelo socialismo. Berger praticava o que pregava: devido à sua postura antiguerra, o Congresso dos EUA negou-lhe, em 1918 e novamente em 1919, a cadeira para a qual havia sido legitimamente eleito. Além disso, sua oposição à guerra em 1919 resultou em uma sentença de 20 anos de prisão. (Essa sentença de tribunal federal foi anulada pela Suprema Corte em 1921.)

As raízes profundas do "socialismo do esgoto" de Wisconsin na classe trabalhadora permitiram-lhe resistir tanto à repressão governamental quanto às turbulências políticas do pós-guerra. No entanto, poucas outras seções do SPA sobreviveram. Após 1918, muitos dos líderes sindicais e políticos relativamente moderados do partido aderiram a movimentos mais amplos, como o Farmer-Labor Party (Partido dos Agricultores e Trabalhadores). Paralelamente, a ala esquerda do SPA — impulsionada pela chegada de socialistas do Leste Europeu — radicalizou-se ainda mais com a Revolução Russa, a repressão em tempos de guerra e o Primeiro Red Scare (o primeiro grande pânico anticomunista nos EUA). Resgatando alguns dos métodos doutrinários do antigo SLP, esses esquerdistas fundaram um novo Partido Comunista que buscava importar as táticas intransigentes e a estratégia insurrecional desenvolvidas pelos bolcheviques no contexto de uma Rússia autocrática e devastada pela guerra. Inspirados pelo exemplo da Rússia e fascinados por crenças infundadas de que um levante armado de trabalhadores era iminente nos Estados Unidos, setores significativos de ativistas afastaram-se do marxismo pragmático. Foi somente quando a Grande Depressão já estava bem avançada, no entanto, que os comunistas começaram a ganhar terreno de forma significativa em Wisconsin.

Não foi pouca coisa o fato de o SDP ter sobrevivido à desmoralizante década de 1920. No entanto, no final de 1928, Hoan queixava-se em particular a Norman Thomas, presidente nacional do SPA, de que alguns socialistas eleitos em Wisconsin estavam se acomodando demais em seus cargos: "Velhos camaradas que conquistaram cargos no serviço público e algumas posições eletivas foram 'anestesiados' — no que diz respeito às atividades socialistas — pelo fato de suas condições econômicas terem melhorado. [...] Temos tentado manter a posição aqui [em Wisconsin] há anos, devido à sua influência positiva sobre o restante do movimento nacional, mas isso está corroendo lentamente as nossas forças vitais." Da mesma forma, alguns líderes sindicais socialistas mais antigos começaram, lenta mas firmemente, a se afastar do partido, assim como o movimento sindical organizado como um todo. Embora a tradição de não interferência mútua entre sindicatos e partido tenha protegido o SDP de ser arrastado para a extrema-direita pelo movimento sindical, ela também tornou mais difícil para o partido conter o afastamento dos trabalhadores em relação ao socialismo naquele período.

A depressão e o declínio

A Depressão injetou uma dose repentina de energia e novos membros — incluindo muitos jovens trabalhadores radicalizados — nos "socialistas do esgoto" e nos sindicatos de Wisconsin. Impulsionado por esse ressurgimento, Hoan foi reeleito com uma vitória esmagadora em 1932, e o partido ficou a apenas dois votos de conquistar a maioria na Câmara Municipal. Em seu discurso de posse como prefeito, Hoan declarou que viviam "em meio a uma revolução econômica e social mundial... [vivendo] a agonia de um sistema moribundo e as dores do parto da construção de um mundo novo e melhor". O capitalismo, anunciou ele, precisava dar lugar ao "próximo estágio do desenvolvimento humano, que é o socialismo".

Apesar da tendência à moderação observada em alguns líderes sindicais e socialistas eleitos nas décadas anteriores, o partido, de modo geral, manteve seu espírito radical e, em certos aspectos, até o aprofundou durante a década de 1930. Os "socialistas do esgoto" empenharam-se ao máximo e com rapidez para liderar greves, organizar os trabalhadores não sindicalizados e conquistar reformas transformadoras na cidade e no estado. Superando a intensa oposição dos empregadores, Wisconsin aprovou, em 1931, o primeiro código trabalhista unificado do país, fortalecendo os direitos dos trabalhadores à greve, ao boicote e à sindicalização.

Hoan utilizou consistentemente todos os poderes à sua disposição para apoiar paralisações locais — inclusive durante uma greve explosiva, em 1934, dos funcionários da empresa privada Milwaukee Electric Railway and Light Company, que paralisou o transporte da cidade, fechou temporariamente a usina elétrica e custou a vida de um apoiador da greve. Responsabilizada pelo prefeito e pelo público por esse derramamento de sangue, a direção da empresa cedeu logo depois. Com o objetivo de evitar mais violência, o SDP conseguiu, no final de 1935, aprovar a legislação trabalhista mais forte dos EUA: a Portaria Boncel, que autorizava a administração municipal a fechar as instalações de qualquer empresa que se recusasse a negociar coletivamente, gerando aglomerações de mais de duzentas pessoas por dois dias consecutivos. Empregadores que se recusassem a cumprir a norma estariam sujeitos a multas ou prisão.

Com impulsos vindos de cima e de baixo — incluindo a ascensão do Comitê de Organização Industrial (CIO), com considerável liderança comunista —, a taxa de sindicalização no Condado de Milwaukee multiplicou-se por dez entre 1929 e 1939. No final da década de 1930, cerca de 60 por cento dos trabalhadores eram sindicalizados. Em contrapartida, a cidade de Nova York atingiu, em seu auge, uma taxa de sindicalização de, no máximo, 33 por cento.

Apesar do fortalecimento do movimento trabalhista e dos esforços contínuos do SDP para educar o público sobre o socialismo, o avanço do movimento foi contido e, por fim, revertido pela oposição dos empregadores; pelo apelo do New Deal de Franklin D. Roosevelt junto aos eleitores e líderes sindicais; por uma "guerra civil" entre a AFL e o CIO; pelo crescimento do Partido Comunista de Wisconsin em meados da década de 1930; pelo entusiasmo, atrativo e faccionalismo em torno da criação de uma Farmer-Labor Progressive Federation mais ampla, em parceria com os progressistas; e, talvez o fator mais decisivo, pela opinião pública, que, mesmo durante a Depressão, mantinha-se muito aquém das expectativas socialistas. Mesmo após décadas de propaganda socialista e vitórias políticas, a maioria dos habitantes de Milwaukee — e a maioria dos trabalhadores da cidade — não havia se tornado socialista.

Os socialistas de Milwaukee e de outras regiões queriam ir muito além de uma governança local aprimorada e do New Deal em nível nacional. No entanto, eles não dispunham de força organizacional ou apoio popular suficientes para isso. Sem maioria na câmara municipal, o SDP fracassou em sua tentativa de combater o desemprego em massa instituindo uma jornada de seis horas e uma semana de trabalho de cinco dias. Da mesma forma, os socialistas e os sindicatos aliados não conseguiram concretizar seu objetivo de criar um sistema hospitalar cooperativo robusto para oferecer à população de Milwaukee assistência médica e tratamento de qualidade a baixo custo. 

Irritados com a recusa de Hoan em impor um orçamento de austeridade, os empregadores travaram uma batalha para revogar seu mandato em 1933. Embora tenham perdido essa disputa, a elite empresarial de Milwaukee conseguiu convencer a maioria dos eleitores a rejeitar o referendo do SDP, em 1936, que propunha a municipalização do serviço de energia elétrica. Naquele mesmo ano, o SDP sofreu uma derrota avassaladora nas eleições para a câmara municipal, à medida que os eleitores puniam os socialistas pelo radicalismo percebido em relação à propriedade pública e à "Lei Boncel". Em 1940, Hoan perdeu a disputa pela prefeitura para um centrista de boa aparência, porém politicamente vazio, chamado Carl Zeidler. O reinado do "socialismo do esgoto" chegava ao fim. (O irmão mais novo de Zeidler, Frank — também socialista —, viria a ser prefeito de Milwaukee entre 1948 e 1960, mas, nessa altura, o partido e o movimento de massa já haviam praticamente desaparecido.)

Infelizmente, a reação negativa contra as greves de ocupação militantes e o radicalismo político tornou-se a tendência dominante no final da década de 1930, não apenas em Milwaukee, mas em todos os cantos dos Estados Unidos.20 Embora a historiografia radical tenda a explicar o final da década de 1930 principalmente sob a ótica da cooptação pelo Partido Democrata, os socialistas foram afastados de cargos públicos até mesmo em locais como Wisconsin e Minnesota, onde haviam construído partidos e perfis políticos distintos, situados à esquerda dos Democratas. Em 1938 — uma eleição de meio de mandato marcada pela reação negativa à militância grevista e às ambições do New Deal — o Partido Farmer-Labor de Minnesota perdeu o controle do governo estadual para um republicano, à medida que os eleitores rejeitavam as iniciativas ambiciosas do socialista Elmer Benson, a autoridade eleita mais radical a governar um estado dos EUA. Naquele ano, Wisconsin também tirou do poder o governador progressista (de um terceiro partido) Philip La Follette e elegeu um republicano.

Progressistas e esquerdistas dentro do Partido Democrata não tiveram desempenho muito melhor em 1938. Em Washington, onde a Commonwealth Federation — ligada à esquerda — havia conseguido se tornar uma voz dominante no Partido Democrata, seu candidato à prefeitura de Seattle sofreu uma derrota acachapante. Governadores democratas favoráveis ​​aos trabalhadores e ao New Deal em Michigan, Colorado, Connecticut, Rhode Island e Kansas, além de oitenta congressistas democratas, foram igualmente derrotados por republicanos naquele ano. Percebendo a mudança nos ventos políticos, o presidente Roosevelt começou a recuar da visão de cunho social-democrata que havia articulado em aliança com um movimento trabalhista industrial em ascensão. O fato de Norman Thomas, candidato socialista à presidência por seis vezes, ter recebido apenas 0,4% dos votos em 1936 e 0,2% em 1940 sugere ainda que não havia uma grande reserva de radicalismo político de massa inexplorada por líderes sindicais vendidos e reformistas.

Embora o New Deal não tenha chegado a estabelecer a social-democracia nos Estados Unidos — muito menos o socialismo —, ele proporcionou um nível sem precedentes de segurança econômica e liberdade no ambiente de trabalho a dezenas de milhões de trabalhadores. Esse não foi um feito pequeno em um cenário excepcionalmente desafiador. Se não fosse pelos radicais pragmáticos, os Estados Unidos não teriam avançado tanto na transferência de poder e recursos para a classe trabalhadora. E em nenhum lugar os trabalhadores foram tão longe quanto em Milwaukee.

Conclusão

A experiência de Milwaukee demonstra não apenas que a esquerda pode governar, mas que pode fazê-lo de maneira consideravelmente mais eficaz do que os políticos do establishment. Essa é a verdadeira razão pela qual os defensores do status quo estão tão preocupados com o prefeito socialista democrático Zohran Mamdani.

Embora a história do "socialismo de esgoto" ofereça um roteiro para os radicais de hoje que buscam construir um movimento socialista de maioria, seria contrário ao espírito não dogmático de Berger e seus companheiros tentar simplesmente copiar e colar suas táticas no contexto distinto da atualidade. O espaço para terceiros partidos nos Estados Unidos, por exemplo, encolheu devido à polarização partidária sem precedentes e à ascensão do autoritarismo de extrema-direita (aumentando o risco de dispersão de votos), à nacionalização da política (reduzindo o espaço para terceiros partidos locais) e à consolidação, ao longo de um século, das eleições primárias (aumentando a capacidade de candidatos insurgentes agirem de forma autônoma dentro dos partidos existentes).

No entanto, como Mamdani sofrerá enorme pressão para governar — na melhor das hipóteses — como um progressista que atua isoladamente, é importante ressaltar que o sucesso contínuo do "socialismo de esgoto" dependeu da construção e do apoio em uma organização radical independente, enraizada em um movimento operário de massa; uma organização poderosa e autônoma o suficiente para ameaçar de forma crível os políticos tradicionais com a derrota eleitoral, caso não aderissem às demandas políticas socialistas. Depender principalmente de acordos de bastidores e de uma comunicação estratégica não bastará hoje em Nova York — ou em qualquer outro lugar — para manter o entusiasmo popular, construir poder suficiente para forçar políticos de centro a aprovar demandas transformadoras ou alterar fundamentalmente a correlação de forças de classe.

É por isso que os prefeitos de esquerda de hoje precisarão utilizar sua plataforma e legitimidade para incentivar ativamente a organização da classe trabalhadora e construir organizações políticas independentes, como os Democratic Socialists of America. Enquanto os prefeitos socialistas de Milwaukee — adeptos do chamado "socialismo de esgoto" — foram eleitos por um partido socialista de massa ancorado no movimento sindical e nos bairros da classe trabalhadora, as insurgências eleitorais de hoje foram muito além do poder organizado de trabalhadores e radicais na base. Tudo depende de o nosso campo conseguir aproveitar as grandes vitórias eleitorais recentes e os cargos públicos para superar essa lacuna, reconstruindo o poder organizado da classe trabalhadora a partir da base.

Toda essa discussão sobre o "socialismo de esgoto" certamente parecerá insuficientemente revolucionária para alguns críticos radicais. Mas, como sugere a experiência de Milwaukee, a melhor aposta da esquerda para conquistar mais trabalhadores para o socialismo é proporcionar melhorias reais na vida das pessoas no aqui e agora, ao mesmo tempo em que defende e se organiza em torno de ideias anticapitalistas. Mesmo pequenas vitórias conquistadas por meio da luta organizada elevam as expectativas, geram esperança e ajudam a construir o partido. Precisamos que os trabalhadores vejam e sintam que o socialismo atende aos seus interesses. Argumentos ideológicos, por si sós, têm alcance limitado.

Disputar eleições para vencer e entregar resultados por meio do Estado capitalista traz o risco de cooptação? Sem dúvida. Mas não há como expandir seriamente a esquerda nos Estados Unidos sem tentar equilibrar essa equação. Análises históricas comparativas da esquerda americana mostram, de fato, que todos os exemplos mais bem-sucedidos de política de massa da classe trabalhadora nos EUA adotaram alguma versão desse radicalismo pragmático — desde o Partido Farmer-Labor de Minnesota e o socialismo dos imigrantes judeus de Nova York até os comunistas da Frente Popular no final da década de 1930.

Uma orientação radical e pragmática não significa abandonar os objetivos de um futuro socialista nem se dissolver nas águas turvas do progressismo. Mas exige disputar eleições para vencer e entregar resultados, adotando simultaneamente o foco de Berger no fortalecimento da organização dos trabalhadores: "Devemos promover o fortalecimento moral, físico e intelectual do proletariado, acima de tudo". Compromissos que nos movem nessa direção são úteis; aqueles que nos afastam dela, não.

Para derrotar a extrema-direita, conquistar a social-democracia e, eventualmente, superar o capitalismo, o que os trabalhadores precisam, acima de tudo, é de mais poder organizado. A construção desse poder de base só ocorrerá se os socialistas, dentro e fora do Estado, começarem a entregar resultados concretos para milhões de pessoas.

1 Salvo indicação em contrário, as principais fontes deste artigo são os dois jornais editados por Victor Berger — The Social Democratic Herald e The Milwaukee Leader — bem como as seguintes obras: Marvin Wachman, History of the Social-Democratic Party of Milwaukee, 1897–1910 (Urbana: University of Illinois Press, 1945); Arnold Kaltinick, “Socialist Municipal Administration in Four American Cities: Milwaukee, Schenectady, New Castle, Pennsylvania, and Conneaut, Ohio, 1910–1916” (tese de doutorado, New York University, 1982); Edward John Muzik, “Victor L. Berger: A Biography” (tese de doutorado, Northwestern University, 1960); Floyd J. Stachowski, “The Political Career of Daniel Webster Hoan” (tese de doutorado, Northwestern University, 1966); e Elmer A. Beck, The Sewer Socialists: A History of the Socialist Party of Wisconsin, 1897–1940, 2 vols. (Fennimore, WI: Westburg Associates, 1982). As referências bibliográficas completas estão disponíveis mediante solicitação ao autor.

2 Joshua Kluever, “The Golden Age of Pragmatic Socialism: Wisconsin Social- ists at the State Level, 1919–37,” Journal of the Gilded Age and Progressive Era 22, no. 2 (2023).

3 Gary Marks and Matthew Burbank, “Immigrant Support for the American Socialist Party, 1912 and 1920,” Social Science History 14, no. 2 (1990): 191.

4 Muzik, “Victor L. Berger,” 21.

5 Eric Blanc, Revolutionary Social Democracy: Working-Class Politics Across the Russian Empire (1882–1917) (Leiden: Brill, 2021).

6 Wachman, History of the Social-Democratic Party of Milwaukee, 35. O partido de Wisconsin mudou seu nome de SDP para Partido Socialista em 1916, mas, para minimizar a confusão do leitor, utilizo aqui a sigla SDP para o período posterior a 1916.

7 Thomas W. Gavett, Development of the Labor Movement in Milwaukee (Madison: University of Wisconsin Press, 1965), 206.

8 Beck, The Sewer Socialists, 26.

9 Quoted in William J. Reese, “‘Partisans of the Proletariat’: The Socialist Working Class and the Milwaukee Schools, 1890–1920,” History of Education Quarterly 21, no. 1 (1981): 9.

10 Quoted in Kaltinick, “Socialist Municipal Administration,” 37.

11 Melvyn Dubofsky, “Success and Failure of Socialism in New York City, 1900–1918: A Case Study,” Labor History 9, no. 3 (1968).

12 Henry Pelling, “The Rise and Decline of Socialism in Milwaukee,” Bulletin of the International Institute of Social History 10, no. 2 (1955): 91.

13 Seymour Martin Lipset and Gary Marks, It Didn’t Happen Here: Why Socialism Failed in the United States (New York: W. W. Norton, 2000).

14 Robert F. Hoxie, “‘The Rising Tide of Socialism’: A Study,” Journal of Political Economy 19, no. 8 (1911): 631.

15 Quoted in Michael E. Stevens, “‘Give’em Hell, Dan!’: How Daniel Webster Hoan Changed Wisconsin Politics,” Wisconsin Magazine of History 98, no. 1 (2014): 25.

16 Eric Blanc, “Don’t Cancel Sewer Socialism,” Labor Politics, December 22, 2025, laborpolitics.com/p/from-white-supremacy-to-anti-racism.

17 James J. Lorence, “‘Dynamite for the Brain’: The Growth and Decline of Socialism in Central and Lakeshore Wisconsin, 1910–1920,” Wisconsin Magazine of History 66, no. 4 (1983).

18 Kluever, “Golden Age of Pragmatic Socialism,” 218.

19 Todd J. Fulda, “Daniel Hoan and the Golden Age of Socialist Government in Milwaukee,” American Journal of Economics and Sociology 75, no. 1 (2016): 254.

20 Eric Schickler and Devin Caughey, “Public Opinion, Organized Labor, and the Limits of New Deal Liberalism, 1936–1945,” Studies in American Political Development 25, no. 2 (2011); Anthony Michael Daniel, “From Wagner to Taft-Hartley, Revisited,” PhD Dissertation (Columbia University, 2017).

21 Lipset and Marks, It Didn’t Happen Here.

Impasse à esquerda

O panorama político da França.

Serge Halimi


Após as eleições municipais francesas do mês passado, apenas um partido de esquerda manifestou preocupação com o fraco resultado: o fragilizado Écologistes, que perdeu seis das oito grandes cidades que havia conquistado na "onda verde" de 2020, incluindo Bordeaux. Não foi a primeira vez que o La France insoumise (LFI) apresentou uma leitura triunfalista – "notável", "um movimento crescente" – de um desempenho que ficou aquém da maioria das expectativas. O Partido Socialista (PS), após salientar que, juntamente com seus aliados, ainda mantinha sete das dez maiores cidades da França – entre elas Paris, Lyon e Marselha –, retomou suas perenes disputas internas sobre a responsabilidade pelas cidades que havia perdido (Brest, Clermont-Ferrand, Avignon). Já o Partido Comunista Francês (PCF) conquistou Nîmes, mas viu seu apoio diminuir em redutos operários como Vénissieux. A eleição de seu secretário nacional, Fabien Roussel, como prefeito de Saint-Amand-les-Eaux (16.000 habitantes) serviu principalmente para consolidar sua candidatura na corrida presidencial do próximo ano.

As eleições locais, diga-se de passagem, são um indicador pouco confiável dos resultados nacionais. Três anos após sua vitória no Palácio do Eliseu, em 2017, Emmanuel Macron não conseguiu consolidar sua presença em municípios, grandes ou pequenos; mesmo assim, foi reeleito dois anos depois. O fundador do LFI, Jean-Luc Mélenchon, obteve 22% dos votos na eleição presidencial de 2022, numa época em que seu partido controlava apenas dois pequenos municípios. Por outro lado, a força municipal dos socialistas não contribuiu para impulsionar sua candidata à presidência naquele ano, Anne Hidalgo, que conquistou apenas 1,75%. A participação tende a ser baixa nas eleições municipais (57% este ano, em comparação com 72% na eleição presidencial de 2022); em mais de dois terços dos municípios franceses, que geralmente são muito pequenos, as eleições não têm oposição; e muitos candidatos não concorrem por um partido. Entretanto, a atenção da mídia se concentra nos principais centros metropolitanos, superestimando a força da esquerda, incluindo o partido La France Insoumise, e minimizando a do partido de extrema-direita Rassemblement National (RN), que permanece muito mais enraizado na França rural. Apesar dessas ressalvas, as eleições trouxeram alguns indícios, e eles não são animadores.

O clima na esquerda já era tóxico antes da votação. Os socialistas saíram bastante enfraquecidos da eleição presidencial de 2022; seus deputados deviam seus assentos a um acordo firmado no primeiro turno com o partido de Mélenchon. Esse acordo foi renovado nas eleições legislativas de junho de 2024. Mas, desde então, o PS rompeu decisivamente com a coalizão Frente Nova Popular. Ao contrário de seus parceiros, durante o último ano, serviu como apoio parlamentar para os governos de direita nomeados por Macron. O LFI, por sua vez, reivindica o monopólio dos termos "ruptura", "radicalismo" e antifascismo, tratando seus antigos aliados com uma mistura de desprezo e injúrias ("estupidez", "imposturas nocivas", "traição"). As coalizões improvisadas, formadas entre os dois turnos, em 15 e 22 de março, só pioraram a situação. Elas variavam muito de cidade para cidade, já que o PS se recusava a impor qualquer linha aos seus candidatos. Onde acreditavam poder vencer sozinhos – Paris, Marselha, Montpellier – os socialistas rejeitaram as propostas da LFI, na esperança de atrair eleitores de centro. Já aqueles enfraquecidos no primeiro turno aceitaram alianças com os Insoumis para salvar seus municípios no segundo turno, pois, caso contrário, a derrota seria certa (Brest, Nantes, Clermont-Ferrand, Avignon).

Como se isso não bastasse para gerar confusão, a direita socialista, juntamente com o queridinho da mídia Raphaël Glucksmann – figura central de um pequeno partido centrista aliado ao PS, Place Publique – denunciou qualquer colaboração com a LFI sob a alegação de que Mélenchon representava uma ameaça antissemita à república. O próprio Mélenchon minou seus camaradas nas listas conjuntas quando, em um comício poucos dias antes da votação, declarou: “Os socialistas são manipuladores inveterados. Não nos custará muito comprá-los para o segundo turno”. Essa piada foi previsivelmente repetida inúmeras vezes na mídia durante a semana decisiva. Os anátemas trocados pelos líderes socialistas e da Insoumis tornaram praticamente impossível para a esquerda unir forças e conquistar cidades da direita. Em Toulouse, agora a terceira maior cidade da França depois de Marselha, a chapa de esquerda combinada não só ficou aquém da soma de suas partes, como também mobilizou os eleitores que se abstiveram contra ela.

Os socialistas atribuíram naturalmente suas derrotas municipais às alianças com a LFI, que, segundo eles, alienaram os eleitores. Para o líder do PS, Olivier Faure, o partido de Mélenchon provou ser um "peso morto". A LFI respondeu que, sem essas alianças – que preservaram alguns redutos socialistas, como Nantes – a derrota do PS teria sido ainda mais severa; e que o principal fator foi o desgaste dos políticos socialistas no poder (a LFI não controlava nenhum município importante antes da votação). Enquanto isso, os comunistas procuraram se manter à margem da disputa, e os Verdes pedem um cessar-fogo.

Os partidos de esquerda – especialmente o PS e a LFI – agora se preparam para concorrer entre si nas eleições presidenciais de 2027. Os socialistas, ainda sem um programa próprio, apostam em uma coisa: demonizar a LFI. Eles têm feito muito para promover essa agenda até agora, juntando-se às campanhas contra os Insoumis lançadas pela mídia, pela centro-direita e pela RN. Esses ataques conseguiram explorar os deslizes de Mélenchon, de quem nenhum erro, nenhum deslize verbal, jamais é perdoado – embora a hostilidade que seu partido desperta entre os editorialistas tenha atingido um nível tal que quase nenhum pretexto é necessário para sustentá-la. Capas de revistas retratando um Mélenchon desgrenhado e ameaçador se sucedem rapidamente. Em um único dia, o site do Le Figaro – o principal jornal da burguesia conservadora, em teoria distinto da panfletagem da extrema-direita – dedicou este par de manchetes a municípios conquistados por seu partido: “Mulheres de véu discursam para um cliente cristão: em Creil, a deriva comunitária que levou a LFI ao poder”; “'Ele se apoiou tanto nas redes da LFI quanto na Irmandade Muçulmana': em Sarcelles, o novo prefeito alarma a comunidade judaica”.

Agora que a LFI tomou posse de várias cidades, incluindo duas com mais de 100 mil habitantes – Saint-Denis e Roubaix – com grandes populações imigrantes, muitas vezes muçulmanas, podemos ter certeza de que qualquer incidente menor nesses locais será tratado como um desastre nuclear pela mídia e por uma extrema-direita radicalizada. Essa histeria racista já começou em Saint-Denis, em resposta ao anúncio do recém-eleito prefeito Bally Bagayoko, de origem maliana, de que cumpriria a promessa de campanha de retirar parte do armamento da polícia municipal.

Desde o início da guerra em Gaza, a acusação de antissemitismo é a mais frequente contra a LFI. Praticamente toda a mídia – incluindo veículos supostamente de esquerda ou centro-esquerda, como Le Monde, Libération e Mediapart – tem participado ativamente, quase obsessivamente, da promoção dessa campanha difamatória. Em 26 de fevereiro, um breve aparte de Mélenchon, em tom de brincadeira sobre a pronúncia russa do nome de Epstein na França – com a intenção, segundo ele, de insinuar que Epstein era um contato de Moscou e não do Mossad – foi aproveitado como prova de intolerância ou algo pior, ecoando acusações semelhantes feitas anteriormente contra Jeremy Corbyn. Não importava que, no mesmo discurso de uma hora e quarenta minutos, Mélenchon também tivesse protestado contra a presença contínua no Senado de uma estátua de Luís IX ("São Luís"), promulgador de decretos antissemitas.

Essa suposta infração foi suficiente para o PS, que, tendo inicialmente abordado as acusações com parcimônia, cruzou o Rubicão alguns dias depois, pressionado por sua ala direita e por Glucksmann. Em 3 de março, em um comunicado de sua direção nacional, os socialistas condenaram “sem reservas” as “caricaturas conspiratórias e os comentários antissemitas intoleráveis” de Mélenchon e reafirmaram sua recusa a qualquer acordo nacional com a LFI, “dada a preocupante direção de sua liderança”.

Na situação atual, uma esquerda dividida tem poucas perspectivas de vitória, e não muito menos mesmo se estivesse unida. Eleição após eleição – presidencial, legislativa, europeia – ela estagnou entre 30 e 35% dos votos. Isso coloca seu desempenho coletivo praticamente no mesmo nível do Rassemblement National (RN) sozinho, sem levar em conta formações auxiliares da extrema direita, como Reconquête e Debout la France. O que, então, a esquerda coletiva propõe fazer no próximo ano para impedir que a extrema direita – Jordan Bardella ou Marine Le Pen – chegue ao poder? A resposta é: muito pouco. Outras prioridades parecem prevalecer.

Na França, apenas os dois candidatos mais votados passam para o segundo turno; atualmente, isso significa o RN e um rival. Se um partido de esquerda conseguir chegar ao segundo turno – o que não é impossível, caso o bloco centrista se fragmente – quais são suas chances? Mélenchon aposta no que ele mesmo chama de “mágica”: “Somos a principal força da esquerda, ponto final. Portanto, a candidatura presidencial será do Insoumise.” […] Diante, no segundo turno, da escolha entre o Rassemblement National e um candidato do Insoumis, acreditamos que este país se mostrará suficientemente antirracista e suficientemente republicano para não votar no RN. Essa é a nossa aposta. E achamos que vamos ganhar.’ A estratégia da LFI para a ‘Nova França’ baseia-se na premissa de que uma minoria de esquerda comprometida pode prevalecer ao mobilizar um contingente de não votantes – o ‘quarto bloco’ – descontentes com a política eleitoral, desproporcionalmente jovens e de origem imigrante. Em uma conjuntura marcada por crises internacionais, previsões são arriscadas, mas, dado que essa aposta não se concretizou nas eleições locais, a fé da esquerda em tal ‘mágica’ em abril próximo é menos difundida do que o medo de uma derrota esmagadora.

Os socialistas têm grande parcela de responsabilidade pela desordem. Uma década após o desastre da presidência de Hollande, eles parecem ter esquecido o dano causado à esquerda e o papel que o Insoumis desempenhou na sua reparação. O risco de uma repetição é evidente. Sem um programa, sem ideias claras, o PS vagueia de uma eleição para a outra, com a intenção primordial de preservar seu aparato político e seus redutos locais. Marcar seu distanciamento do LFI por meio de acusações de antissemitismo, comunitarismo e extremismo pode ser o prelúdio para uma estratégia de retaguarda de aliança com o centro e setores da direita "respeitável". Thierry Pech, diretor do think tank social-liberal Terra Nova, endossou recentemente essa opção: "Muitos eleitores que haviam abandonado a esquerda pelo macronismo estão agora retornando à medida que o bloco central se desintegra. Eles o fazem com ainda mais facilidade quando têm a garantia de que nenhum acordo com Jean-Luc Mélenchon é concebível. Em outras palavras, a tendência atual implica uma ruptura clara com o LFI."

Essa "tendência" seria conveniente para as elites econômicas e a mídia. A coligação reuniria partidos unidos pelo apoio ao rearme, alinhamento com o bloco ocidental, federalismo europeu, apoio à Ucrânia, hostilidade ao "populismo" e rejeição dos "extremos". Isso não é desprezível. Tampouco tal formação careceria de coerência sociológica. Contudo, num contexto europeu em que os programas do SPD e do Partido Trabalhista estão sendo rejeitados na Alemanha e na Grã-Bretanha, e num contexto francês que não lamenta o liberalismo social à la Hollande nem espera uma continuação do Macronismo sem o imensamente impopular Macron, a "tendência" idealizada por Pech tem apelo limitado. É duvidoso que uma coligação burguesa desse tipo – que evoca a "Terceira Força" do início da Guerra Fria (1947-58), quando o establishment político se uniu para impedir que comunistas e gaullistas chegassem ao poder – pudesse conter a demanda por mudança, agora canalizada com mais eficácia pela extrema-direita do que pela esquerda.

Que alternativa resta, por ora, permanece incerta. Mesmo levando em conta a longa prática da esquerda francesa de se contradizer conforme as circunstâncias, é difícil prever uma reaproximação tática entre o PS e o LFI a tempo das eleições da próxima primavera. O resultado mais provável é que ambos sejam eliminados no primeiro turno ou que um deles avance para o segundo turno em uma posição tão enfraquecida que torne a vitória inatingível. A exclusão do segundo turno não seria inédita – a esquerda esteve ausente em 2017 e 2022 –, mas desta vez ocorreria em um contexto no qual a extrema-direita, fortalecida progressivamente ao longo dos dois mandatos de Macron, tem uma chance real de chegar ao poder.

8 de abril de 2026

John Maynard Keynes salvou o capitalismo de si mesmo

Mas o sucesso econômico passado dos Estados Unidos não garante seu futuro, escreve Joseph Stiglitz.

Joseph Stiglitz

The Economist


Ilustração: Dan Williams

Duzentos e cinquenta anos atrás, os Estados Unidos eram em grande parte uma economia agrária — afetada, é claro, pelo clima, mas sem ciclos econômicos reais. Estes surgiram com o desenvolvimento do capitalismo no século XIX. E assim começaram as profundas flutuações da era moderna, sendo as duas piores a Grande Depressão da década de 1930 e a Grande Recessão que começou em 2008. Felizmente, John Maynard Keynes, o grande economista do século XX, mostrou-nos que não precisávamos sofrer com essas disfunções do capitalismo. O governo poderia fazer algo a respeito.

Como diz o ditado, a necessidade é a mãe da invenção. Quando Franklin Roosevelt assumiu o cargo em 1933, os Estados Unidos já haviam perdido quatro anos preciosos afundando cada vez mais na depressão. Roosevelt não podia esperar que Keynes explicasse o que fazer. Ele interveio de forma decisiva — poderíamos dizer intuitivamente. Alguns elementos de sua agenda ainda são controversos; apesar da taxa de desemprego ter atingido um pico próximo a 25% durante a Grande Depressão, a maioria dos economistas e empresários dizia: “Deixe com o mercado. Ele se corrigirá eventualmente”. Mas, como Keynes observou, no fim das contas, estaremos todos mortos.

O livro de Keynes de 1936, "A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda", constituiu uma revolução intelectual. Contrariando as doutrinas predominantes da época, ele argumentou que os mercados, deixados à própria sorte, poderiam permanecer atolados em longos períodos de profundo desemprego. Mesmo que existissem "forças" de autocorreção que trouxessem a economia de volta ao pleno emprego, elas atuariam muito lentamente por si só para evitar dificuldades econômicas significativas. Ele explicou por que a política monetária — defendida por muitos economistas conservadores quando a intervenção era considerada necessária — seria ineficaz em uma recessão profunda. Mais importante ainda, ele apresentou uma solução: os gastos do governo poderiam estimular a demanda e tirar a economia do atoleiro.

A boa notícia era que a constituição tinha flexibilidade suficiente para permitir que essas novas ideias fossem testadas e demonstrassem seu valor, embora os Pais Fundadores não pudessem ter previsto esse papel vital para o governo. Naquela época, o governo era muito menor. Durante a primeira metade do século XIX, o governo federal arrecadava apenas 2% do PIB e não havia banco central até a criação do Federal Reserve em 1913. O governo central não tinha os recursos nem as ferramentas para estabilizar um sistema capitalista inerentemente instável.

Keynes não era um radical de esquerda; ele não estava excessivamente preocupado com a desigualdade, acreditava na economia de mercado e acreditava que sua intervenção proposta — não uma revolução, mas um pequeno "ajuste" — salvaria a situação.

No entanto, muitas pessoas desconfiavam de Keynes porque ele fornecia uma justificativa para um governo maior. Alguns ideólogos da direita preferiam que o país permanecesse em depressão a que o governo viesse em seu socorro. Como eles viam, se o governo podia fazer isso, quem sabe o que mais ele poderia fazer? Poderia garantir a todos uma pensão mínima, assistência médica e educação. E essas coisas poderiam exigir impostos além dos valores irrisórios que os americanos pagavam. Isso era especialmente perigoso — para os antepassados ​​dos atuais oligarcas bilionários — porque cerca de 20 anos antes, os Estados Unidos haviam adotado a 16ª Emenda à Constituição, permitindo a cobrança de um imposto de renda (progressivo).

Em retrospectiva, o pragmatismo de Roosevelt e as ideias de Keynes salvaram o capitalismo dos capitalistas. Se estes tivessem conseguido o que queriam, os fracassos do capitalismo desenfreado, uma economia sufocada por uma depressão aparentemente interminável, provavelmente teriam significado que ele não teria sobrevivido às pressões democráticas. Em vez disso, o presidente John F. Kennedy, sob a influência de fortes economistas keynesianos (incluindo John Kenneth Galbraith, Robert Solow e Paul Samuelson), adotou as políticas keynesianas como a pedra angular de sua estrutura econômica.

Ao longo da década de 1970, com o país enfrentando a inflação (então, como hoje, em grande parte causada por aumentos sem precedentes nos preços do petróleo), a direita alegava que Keynes estava ultrapassado. Enquanto Keynes enfatizava o papel do governo em sustentar a demanda total (ou agregada) para que a economia permanecesse em pleno emprego, Ronald Reagan inverteu a linguagem para enfatizar a oferta. Os conservadores argumentavam que, se os impostos fossem baixos e a regulamentação branda, a dinâmica do mercado garantiria o crescimento com pleno emprego. Tão otimistas estavam que chegaram a afirmar que cortes nas taxas de impostos estimulariam tanto o crescimento que a arrecadação tributária aumentaria. É claro que isso não aconteceu.

Nas décadas subsequentes, os Estados Unidos entraram repetidamente em recessões, algumas bastante profundas, demonstrando com veemência que mercados desregulamentados não eram bons em se autorregularem. Durante a Grande Recessão e, especialmente, na pandemia de covid-19, as intervenções keynesianas — gastos governamentais — provaram ser extremamente eficazes.

E, no entanto, apesar de todas as evidências, a batalha política continua. No início da década de 1990, houve uma tentativa de aprovar uma emenda para o orçamento equilibrado, uma disposição que praticamente teria impedido políticas keynesianas eficazes. Felizmente, ela foi derrotada por uma pequena margem. Durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, houve um ressurgimento das "políticas de oferta", com um grande corte de impostos para empresas e super-ricos. As políticas fracassaram, assim como as políticas anteriores de Reagan: os déficits aumentaram e o impulso ao crescimento foi mínimo, quando houve algum.

Se a Constituição tivesse sido criada no século XXI, sabendo que o governo tem a capacidade de garantir que a economia opere em pleno emprego, provavelmente teria determinado que isso acontecesse. O mais próximo que chegamos disso foi a Lei do Emprego de 1946, que criou o Conselho de Assessores Econômicos na Casa Branca, que presidi durante a presidência de Bill Clinton. Ela comprometeu os Estados Unidos a “promover... condições sob as quais sejam oferecidos empregos úteis àqueles capazes, dispostos e que buscam trabalho”. Apesar de termos as ferramentas para cumprir essa missão, muitas vezes, para muitos, falhamos. ■

Joseph Stiglitz é um economista laureado com o Prêmio Nobel e professor da Universidade de Columbia.

3 de abril de 2026

Desgoverno búlgaro

Sobre as próximas eleições.

Madlen Nikolova



Os búlgaros irão às urnas pela oitava vez em cinco anos ainda este mês, após uma onda massiva de protestos ter derrubado a coligação de direita do primeiro-ministro Rosen Zhelyazkov no final do ano passado. As manifestações eclodiram em novembro em resposta à proposta de orçamento para 2026, que previa o aumento das contribuições para a segurança social e dos impostos, bem como dos salários da polícia, das forças de defesa e do judiciário, enquanto os funcionários administrativos, professores e pessoal hospitalar recebiam aumentos salariais que mal acompanhavam a inflação. O orçamento foi também o primeiro a ser denominado em euros, uma vez que a Bulgária tinha sido aprovada para aderir à zona euro no ano anterior, o que inflamou a ansiedade popular em relação à inflação. Os protestos atingiram o seu auge a 10 de dezembro, quando mais de 50.000 pessoas saíram às ruas de Sófia, com dezenas de milhares a participar em quase todas as cidades regionais. No dia seguinte, Zhelyazkov – que estava no poder há menos de um ano – anunciou a sua demissão em direto na televisão, minutos antes de uma votação parlamentar de confiança.

Os protestos foram preguiçosamente descritos como mais uma “revolta da Geração Z” pela mídia liberal, enquanto alguns na esquerda os descartaram como orquestrados pela coalizão de oposição, o centrista PP-DB. No entanto, eles desencadearam energias políticas que transcendiam em muito os organizadores nominais: os índices de aprovação do PP-DB giram em torno de 15%; estima-se que 71% apoiaram os protestos. Pesquisas revelaram, além disso, que eles não se limitavam a jovens revoltados. Muitos participantes eram de meia-idade, motivados por preocupações com uma velhice digna para seus pais, assistência médica acessível, educação para seus filhos e profundamente desconfiados sobre como os impostos mais altos – arrecadados sobre salários já pressionados pela inflação – seriam gastos, dada a corrupção generalizada.

Na verdade, o orçamento foi o catalisador para uma erupção de descontentamento muito mais profundo e duradouro – um clamor popular contra a captura oligárquica, a erosão do bem-estar social e a estagnação, até mesmo a paralisia, do sistema político como um todo. Ao longo dos últimos 15 anos, sucessivos governos de coligação, predominantemente liderados pelo notoriamente corrupto partido de centro-direita Cidadãos para o Desenvolvimento Europeu da Bulgária (GERB), não apresentaram uma visão coerente, seja para a economia, os serviços essenciais ou questões mais amplas como o ambiente, a justiça e a política externa. A taxa de pobreza na Bulgária é de 37%, uma das mais altas da UE. Setenta e quatro por cento dos jovens entre os 14 e os 29 anos consideram a emigração em busca de um padrão de vida mais elevado. O sociólogo búlgaro Jivko Georgiev diagnosticou com precisão o impasse: "Vivemos num presente tão impotente que não tem forças para se tornar passado".

Para compreender o que levou tantas pessoas às ruas em todo o país, é preciso entender a extensão do descrédito da elite governante da Bulgária – incluindo a oposição que, teoricamente, lidera os protestos. O Partido Popular (PP) foi fundado em 2021 com uma plataforma anticorrupção, na sequência de uma onda anterior de manifestações contra o que consideravam abusos de poder por parte do procurador-geral. Seus líderes, formados em Harvard e firmemente pró-UE, inicialmente despertaram entusiasmo, conquistando 25% dos votos nas eleições parlamentares de 2021 e integrando um governo de coalizão. No entanto, a coalizão foi sabotada pelo partido de centro-direita Existe Tal Povo (ITN), desencadeando mais duas rodadas de eleições. Em junho de 2023, o PP-DB anunciou um acordo de coalizão com seu antigo antagonista, o GERB.

O PP-DB justificou essa reviravolta extraordinária invocando a invasão da Ucrânia pela Rússia e a necessidade de uma forte frente euro-atlântica. O líder do GERB argumentou que a principal linha divisória na política búlgara era "quem está do lado da Ucrânia e quem não está". A pressão da esfera pública foi intensa: em abril de 2023, uma petição assinada por intelectuais búlgaros proeminentes instou os partidos pró-europeus a se unirem em torno da rápida modernização militar e do apoio à Ucrânia, evocando a memória da ocupação soviética da Bulgária entre 1944 e 1947. Uma vez no poder, a principal conquista da coligação foi uma controversa reforma judicial e constitucional destinada a facilitar a entrada da Bulgária no Espaço Schengen e na Zona Euro. A tentativa de impressionar Bruxelas para concluir a "transição europeia" da Bulgária parece ter apenas minado ainda mais a autoridade das elites pós-socialistas do país, especialmente à medida que as fragilidades e contradições internas da Europa se tornam cada vez mais evidentes, e à medida que os cidadãos de todo o bloco sentem o custo do confronto geopolítico prolongado sob a forma de austeridade. Com o colapso da coligação PP-DB-GERB em 2024, após apenas dez meses, todas as principais facções políticas pareciam estar enfraquecidas. Com a exceção parcial de uma figura: o Presidente Rumen Radev, que, eleito em 2017 e reeleito em 2021, tem sido uma das poucas figuras estáveis ​​na política búlgara na última década. Radev distanciou-se retoricamente tanto da adoção do euro como da postura de confronto do governo em relação à Rússia. A coligação pró-UE o descartou como a "quinta coluna" de Putin – apesar de seu mestrado em uma academia da Força Aérea dos EUA e de ter servido no exército de um país membro da OTAN por 12 anos. Mas seu isolamento pode apenas ter reforçado a imagem que ele cultivava de um dissidente – fora (ou talvez acima) da corrupção e das pequenas disputas da classe dominante.

Assim, não foi difícil prever que Radev, de longe o político mais popular do país, mais cedo ou mais tarde deixaria o cargo, em grande parte cerimonial, de presidente e buscaria consolidar seu próprio projeto político. Em janeiro, ele renunciou à presidência; um mês depois, após anos de especulação, anunciou sua intenção de concorrer à liderança de um novo partido de centro-esquerda, a Bulgária Progressista. Visando preencher o vácuo deixado pelo colapso do bloco euro-atlântico, a aliança de Radev está atualmente com 31% das intenções de voto, 10 pontos percentuais à frente de seu concorrente mais próximo, a coalizão liderada pelo GERB. Apresentando seu novo veículo eleitoral como "a resposta às expectativas dos búlgaros de desmantelar o modelo oligárquico de corrupção", Radev está claramente apelando para aqueles que participaram dos protestos no ano passado. Caso as pesquisas se confirmem, seu partido provavelmente formará uma coalizão com o PP-DB, que atualmente tem previsão de 12% das intenções de voto, unidos em torno de uma oposição comum à corrupção.

O apelo popular de Radev não é difícil de explicar. Embora seja uma figura discreta, o ex-presidente é o único político, fora dos nacionalistas de extrema-direita, a articular críticas, ainda que moderadas, à trajetória social e política da Bulgária. Mesmo dentro desses horizontes ideológicos limitados, tal dissidência se destaca em um campo político dominado pela subserviência a Bruxelas e ao consenso neoliberal. Na coletiva de imprensa de apresentação de seu novo projeto político, embora Radev tenha reafirmado o lugar da Bulgária na UE e na OTAN, enfatizou a importância de defender os interesses nacionais búlgaros, apelando para o “pensamento crítico e avaliações ponderadas” na definição da política externa do país.

Contudo, para além dessa guinada retórica em direção ao soberanismo, permanece incerto o que a Bulgária Progressista de Radev oferecerá em termos de progresso significativo. O programa eleitoral do partido inclui grande parte do discurso neoliberal genérico que os eleitores conhecem muito bem: “estabilidade fiscal” (ou seja, a manutenção do sistema tributário regressivo do país), a redução da interferência estatal na economia, a “desburocratização e a redução dos encargos administrativos” e a introdução da inteligência artificial em todas as áreas da administração pública, dos tribunais aos serviços sociais. A justiça social é apresentada como um efeito colateral do combate à corrupção e do aumento da confiança dos investidores, ambos supostamente alcançados por meio de uma ampla digitalização. E, contrariando sua imagem pública de dissidente em política externa, a plataforma de Radev defende o aumento dos gastos militares e a integração com as forças da OTAN em termos que poderiam ter sido extraídos de um documento político de Bruxelas.

No entanto, o combate à corrupção seria um progresso real, especialmente se Radev conseguir reverter a ampla captura das instituições públicas búlgaras por redes clientelistas ligadas ao GERB e seu parceiro minoritário, o Movimento pelos Direitos e Liberdades (DPS), atualmente liderado pelo magnata da mídia e oligarca Delyan Peevski, universalmente desprezado. Ao formar uma coligação governamental estável e cortar o fluxo de fundos estatais para esses atores, Radev e o PP-DB poderiam, talvez, ao menos nesse sentido limitado, transformar a Bulgária no “país europeu normal” que os liberais búlgaros almejam há décadas. Controlar a corrupção é, obviamente, o mínimo necessário. A contínua relevância do tema é sintomática do deserto ideológico da política búlgara. Os eleitores, diante da falta estrutural de perspectivas, não veem nenhuma via viável de ascensão fora das redes clientelistas que distribuem contratos e empregos públicos nas regiões mais pobres. A tarefa fundamental continua sendo a tradução da raiva e da aspiração popular em um projeto político coerente, fundamentado em preocupações materiais, em vez de “restaurar os mercados livres” – ou seja, libertá-los dos monopólios corruptos –, o que parece ser o horizonte do projeto de Radev. Contudo, a perspectiva de marginalizar o desacreditado GERB por um futuro previsível pode, ao menos, trazer algum alívio ao ciclo interminável de escândalos de corrupção e, talvez, abrir espaço para uma discussão substancial sobre os desafios políticos mais profundos da Bulgária.

1 de abril de 2026

A base material de um espectro: Por que a juventude chinesa está redescobrindo Mao

Este artigo examina o ressurgimento do interesse por Mao Tsé-Tung entre os jovens chineses, particularmente nas universidades de elite. Essa "febre de Mao" reflete uma mentalidade complexa: indignação com a desigualdade social, incerteza em um mercado de trabalho brutal e uma firme postura anti-imperialista e patriótica em meio à "Nova Guerra Fria". No legado de Mao, uma nova geração encontra orientação para navegar pelas crescentes contradições da atualidade.

Yinhao Zhang

Monthly Review

Vol. 77, No. 11 (April 2026)

Pôster de Mao Tsé-Tung e Lin Biao (cerca de 1967). Crédito: 人民画报 - 《人民畫報》1967年, Domínio Público, Link. Yinhao Zhang é doutor pelo Departamento de Estudos Asiáticos da Universidade de Adelaide e administra uma popular conta de mídia social sobre teoria marxista e história revolucionária chinesa.

O retorno de um espectro

Um espectro assombra a China: Mao Tsé-Tung. Não se trata da imagem fossilizada do fundador da nação encontrada nas histórias oficiais do partido, mas de uma ideia viva e pulsante redescoberta pela juventude do país. As evidências desse ressurgimento são inesperadas e inegáveis, e seu palco mais dramático são as universidades de elite da China, onde se cultivam as lideranças políticas, acadêmicas e empresariais do país.

Para compreender a importância dessa mudança, é preciso primeiro entender o clima intelectual que ela substituiu. Durante décadas após o início das reformas de mercado em 1978, e apesar de uma visão positiva persistente de Mao e da Revolução Cultural entre muitos trabalhadores e camponeses, a atitude predominante em relação a Mao entre a classe instruída era de profundo ceticismo.<sup>1</sup> Uma pesquisa oficial de 1993, conduzida em conjunto por diversos órgãos de pesquisa do Partido e do Estado, fornece uma medida clara desse sentimento. Quando os entrevistados foram solicitados a avaliar Mao, apenas 8% dos intelectuais seniores acreditavam que seus méritos superavam seus defeitos, enquanto impressionantes 67% tinham a opinião oposta. Entre funcionários e estudantes universitários, 40% acreditavam que seus defeitos eram maiores, mais do que os 34% que concordavam com o veredicto oficial de “70% bom, 30% ruim”. Além disso, quando essas mesmas elites foram questionadas sobre a “febre de Mao” que já surgia entre as massas na época, uma esmagadora maioria — entre 63% e 72% dos entrevistados — a descartou como um fenômeno “anormal”, considerando-a produto da ignorância popular.² Essa visão prevaleceu entre a elite intelectual após 1978: Mao era uma figura do passado cujo legado era visto como um obstáculo à modernização.

Em 2006, a maré começou a mudar. Uma pesquisa na Universidade Sun Yat-sen, uma instituição de prestígio, revelou uma mudança geracional. Entre os estudantes nascidos durante o boom econômico, o consenso de 1993 havia enfraquecido significativamente. Agora, 47% acreditavam que os méritos de Mao superavam seus defeitos, enquanto apenas 6% tinham a opinião contrária. Essa foi, contudo, uma reavaliação discreta, não um endosso irrestrito de todo o seu projeto político. Os mesmos estudantes permaneceram extremamente críticos da Revolução Cultural, com quase 90% considerando-a negativa.3 Eles estavam começando a separar Mao, o construtor da nação, de Mao, o radical.

O que antes era uma mudança gradual acelerou drasticamente desde 2016. Os dados de empréstimo de livros da biblioteca fornecem um indicador claro e intuitivo. Na Universidade Tsinghua, a instituição mais prestigiosa da China, as Obras Selecionadas de Mao Tsé-Tung passaram de não figurar nem entre os cinquenta livros mais emprestados em 2016 para alcançar o primeiro lugar em 2019 — posição que mantiveram todos os anos até 2024.4 Este não é um caso isolado. Uma pesquisa de 2020 realizada pela MyCOS constatou a mesma tendência nas listas dos dez livros mais emprestados de treze das oitenta universidades pesquisadas, a maioria delas instituições de ponta.5 Segundo minha própria verificação dos dados mais recentes disponíveis, em 2024, as Obras Selecionadas lideraram a lista anual de empréstimos de livros da biblioteca em todas as quatro principais universidades da China: Tsinghua, Pequim, Fudan e Shanghai Jiao Tong.

Um caso que merece destaque é o da Universidade Beihang, uma das principais instituições de ciência e engenharia da China. Em 2020, a conta oficial da universidade no Douyin (a versão chinesa do TikTok) publicou sua lista anual de empréstimos da biblioteca, o que gerou centenas de comentários e compartilhamentos. A lista revelou que o livro mais emprestado foi a edição padrão das Obras Selecionadas de Mao Tsé-Tung, e o segundo mais emprestado foi o Volume V.6. Este detalhe é crucial. A versão oficial, posterior a 1978, das Obras Selecionadas inclui apenas os volumes um a quatro, que consistem nos escritos de Mao anteriores a 1949. Um quinto volume, compilado durante a Revolução Cultural e publicado em 1977, abrange o período de 1949 a 1957. No entanto, ele foi efetivamente suprimido após 1978 devido ao seu conteúdo radical e à crítica direta a Deng Xiaoping, tornando-se um livro proibido de fato. O texto é uma raridade e a maioria das bibliotecas universitárias sequer o possui. O interesse ativo dos alunos por este volume sugere, portanto, que eles estão buscando deliberadamente o período mais radical do pensamento de Mao.

Reportagens sobre essa tendência começaram a aparecer na mídia ocidental, embora suas análises frequentemente diagnostiquem erroneamente suas raízes. A explicação predominante tende a atribuí-la a uma campanha ideológica de cima para baixo promovida pelo Estado. Um artigo mais aprofundado no New York Times conecta a tendência ao aumento da desigualdade de riqueza, mas enquadra a adesão a Mao principalmente em termos negativos. O artigo apresenta as palavras de Mao como uma justificativa para o aumento do ressentimento irracional contra os ricos em tempos de recessão econômica.7 O que essas explicações ignoram é o elemento mais crucial: a vanguarda dessa “febre de Mao” é composta por estudantes e recém-formados das principais universidades da China.

Esses estudantes geralmente são céticos em relação à propaganda oficial. Eles têm acesso a uma ampla gama de informações, tanto internas quanto externas à China, e muitos são treinados para pensar criticamente. Sua adesão a Mao não é resultado de doutrinação ou ressentimento irracional; é uma escolha intelectual e política consciente. O caráter espontâneo dessa tendência, emergindo de dentro desse grupo bem-educado, é melhor ilustrado por seu choque com as plataformas digitais chinesas de viés liberal. No Zhihu, um fórum popular entre esse mesmo grupo demográfico, uma pergunta de 2017, intitulada “Quem é a maior personalidade chinesa da história?”, foi rapidamente inundada por respostas que exaltavam Mao. Essa erupção popular, contudo, colidiu diretamente com os proprietários da plataforma. Seus fundadores eram figuras dos círculos da mídia liberal chinesa, um establishment cujas convicções pró-mercado, pró-Ocidente e firmemente anti-Mao dominam o cenário intelectual do país desde a década de 1980. Eles não promoveram essa tendência. Pelo contrário, reprimiram-na ativamente, apagando inúmeras respostas com muitos votos e, por fim, encerrando toda a discussão. Esse padrão de erupção popular seguida de repressão pela plataforma demonstra que a “febre de Mao” não é produto de controle de cima para baixo, mas um movimento que surgiu e perdurou independentemente da direção do Estado.

A trajetória que vai das críticas generalizadas da década de 1990 à discreta reavaliação dos anos 2000 e, agora, ao fervoroso estudo da década de 2020, marca uma profunda mudança ideológica.

A pegada digital do espectro: Como "O Professor" emergiu online

A “febre de Mao” não se restringiu aos campi universitários; sua frente mais vibrante e contestada encontra-se no espaço público digital da China. As métricas das plataformas online mostram essa mudança ideológica se desenrolando em tempo real, revelando não apenas sua escala, mas também as formas criativas e, muitas vezes, confrontadoras com que se dissemina.

Os dados dos mecanismos de busca contam uma história clara. No Baidu, o principal mecanismo de busca da China, termos como “Mao Zedong” ou “Presidente Mao” são considerados politicamente sensíveis demais para que os dados de tendência de busca sejam exibidos publicamente. No entanto, o termo “Mao Xuan” (Obras Selecionadas de Mao) está disponível, e sua trajetória mostra uma mudança marcante no interesse. Antes de 2016, seu índice de buscas se mantinha em um nível baixo e estável. Após 2016, iniciou uma ascensão constante e, desde 2019, explodiu, estabilizando-se em um nível aproximadamente quatro vezes maior que sua linha de base pré-2016.

Um dos resultados mais marcantes dessa efervescência é uma inovação linguística. Embora muitos ainda usem convencionalmente o título "Presidente", uma nova geração na internet agora usa amplamente Jiaoyuan (教员), ou "Professor", como um substituto afetuoso e reverenciado para Mao. O termo tornou-se tão sinônimo dele que, se você mencionar "o Professor" para um estudante universitário hoje, muitos saberão instintivamente que você está se referindo a Mao. Esse termo tem uma história enraizada tanto no respeito quanto na resistência. O próprio Mao, ao desencorajar os títulos dos "quatro grandes" que lhe foram atribuídos durante a Revolução Cultural, disse que preferia apenas um: "professor". Para a juventude de hoje, o termo é perfeito, colocando Mao no papel de guia em suas lutas.

Como administrador de uma conta pública popular no WeChat, talvez eu tenha sido um dos primeiros a usar esse termo com frequência online. Por volta de 2017, enquanto escrevia uma série de artigos sobre Mao, enfrentei dificuldades com os algoritmos de censura da plataforma. No ecossistema digital da China, termos como "Mao Tsé-Tung" são politicamente sensíveis; seu uso excessivo em um artigo pode acionar uma revisão automática, bloqueando sua publicação. Depois de tentar vários nomes alternativos que não agradaram a todos os leitores, "Professor" surgiu como a solução ideal. Era um título endossado pelo próprio Mao e neutralizava possíveis críticas, ao mesmo tempo que contornava a censura. O termo ressoou profundamente e logo vi outras contas, muito maiores, adotá-lo. Ele refletia a forma como esta geração se relaciona com Mao: não como um ícone distante, mas como um professor que fornece as ferramentas para compreender o mundo. A ascensão astronômica de “Jiaoyuan” no índice de buscas do WeChat — atingindo um pico de 35 milhões em seu aniversário em 2021 e depois disparando para um recorde histórico de 139 milhões em 8 de abril de 2024 — mostra o quão amplamente o termo foi adotado pela população.

Essa onda digital a colocou em conflito com as autoridades da plataforma, como discutido em 2017 na plataforma Zhihu. Lá, um usuário perguntou: “Quem é a maior personalidade da história chinesa?”. Inicialmente, as respostas mais comuns incluíam figuras como Confúcio, Qin Shi Huang (o primeiro imperador da China), Yuan Longping (o “pai do arroz híbrido”) e Mao, cada uma acompanhada de uma justificativa detalhada. Mas logo, as respostas pró-Mao começaram a dominar: as postagens mais votadas, assim como a maioria das novas submissões, mencionavam Mao. Estatísticas mostraram que mais da metade dos usuários o apoiavam.8 Isso desagradou os administradores da plataforma, que rapidamente encerraram a discussão sob o frágil pretexto de que se tratava de uma “pergunta de votação superficial”. Em 2020, com a intensificação da “febre de Mao”, uma pergunta semelhante atraiu mais de cinco mil respostas, com quase todas as respostas mais votadas — aquelas com milhares ou dezenas de milhares de votos positivos — mencionando Mao.9 Em muitas dessas respostas, os usuários detalharam suas imensas contribuições: o estabelecimento de uma nação soberana, o impulso à industrialização, o combate ao imperialismo e ao colonialismo, o avanço da libertação feminina e da alfabetização em massa, o combate à burocracia e a busca por justiça social. Em resposta, os administradores da plataforma, alinhados com as tendências pró-ocidentais e anti-Mao da elite midiática chinesa, deletaram muitas dessas respostas populares. Hoje, embora fortemente censurada, a discussão permanece, e sua resposta mais votada simplesmente diz: “O povo diz que é ele; ele diz que é o povo”. Todo usuário sabe quem “ele” é.

Essa sequência de eventos deixa claro que a “febre de Mao” não é um fenômeno controlado pelo Estado. Na verdade, o movimento sofre pressão de duas frentes. O Estado permanece cauteloso com qualquer discussão descontrolada sobre Mao, especialmente no que diz respeito às suas ideias mais radicais do pós-1949 e à Revolução Cultural. Simultaneamente, as elites da mídia liberal pró-Ocidente, proprietárias e operadoras dessas plataformas privadas, opõem-se ideologicamente a Mao e usam a “sensibilidade política” como um pretexto conveniente para silenciar o sentimento pró-Mao. Isso demonstra que a situação é mais complexa: uma corrente ideológica espontânea e poderosa vinda de baixo está em conflito ativo com o consenso liberal pós-reformas — uma visão de mundo que rejeitou a política revolucionária e abraçou as reformas e os valores de mercado ao estilo ocidental. Os jovens bem-educados estão se voltando para Mao não porque são instruídos a fazê-lo, mas porque suas ideias oferecem uma linguagem para articular seu descontentamento com o próprio sistema que essa elite representa.

O Retorno do Material: Por que Mao, por que agora?

Por que Mao, e por que agora? A resposta não reside em uma mudança repentina no gosto cultural, mas em uma transformação fundamental na realidade material da China. Por mais de três décadas, o país foi impulsionado por um contrato social baseado em uma promessa simples: o rápido crescimento econômico beneficiaria a todos. Enquanto a riqueza continuasse a crescer, problemas profundos como a desigualdade e a exploração poderiam ser ignorados. Mas essa era acabou. A “febre de Mao” é uma consequência direta do desmoronamento dessa promessa.

O ano de 2015 marcou um ponto de virada crucial. Pela primeira vez desde 1990, a taxa de crescimento anual do PIB da China caiu abaixo do limite crítico de 7%, marcando o fim da era de crescimento acelerado.10 Essa desaceleração econômica não foi apenas uma estatística; foi o momento em que a música parou. Tensões sociais que haviam sido mascaradas pelo crescimento implacável começaram a emergir com uma clareza surpreendente.

Para os jovens na China hoje, essa desaceleração econômica abstrata se traduz em uma crise pessoal concreta. A promessa de mobilidade social por meio da educação e do trabalho árduo — a pedra angular do sonho da era das reformas — agora parece uma piada cruel. Eles são a geração mais instruída da história da China, mas enfrentam um mercado de trabalho brutal. O termo “involução” (neijuan) tornou-se comum para descrever a sensação de estar preso em um jogo de soma zero, com uma competição cada vez mais acirrada por recompensas estagnadas. O movimento “deitar-se” (tangping), um protesto passivo que busca sair da corrida desenfreada, revelou um sentimento generalizado de desilusão.11

Esse sentimento vai além de relatos isolados, encontrando respaldo em estatísticas alarmantes. Em junho de 2023, a taxa oficial de desemprego urbano para jovens de 16 a 24 anos atingiu o recorde de 21,3%.12 Mesmo esse número alarmante é amplamente considerado uma subestimação, artificialmente reduzido por meio de diversos métodos estatísticos. Notícias sobre graduados de universidades de elite desempregados ou forçados a aceitar empregos de baixa remuneração no setor de serviços tornaram-se comuns. A situação tornou-se tão grave que o governo suspendeu temporariamente a divulgação desses dados.13 Uma geração que deveria ser a principal beneficiária da economia de mercado chinesa tornou-se, em vez disso, sua primeira grande vítima. Eles se encontram como um vasto exército de reserva de mão de obra, enfrentando imensa pressão, empregos precários e um sentimento generalizado de alienação.

É nesse contexto de promessas quebradas e crise sistêmica que eles se voltaram para Mao. Não estão simplesmente em busca de um herói; estão em busca de uma explicação. A análise de Mao sobre classe, exploração e contradição social lhes fornece uma estrutura poderosa para dar sentido à sua própria realidade vivida, uma realidade que a narrativa oficial de desenvolvimento harmonioso já não consegue explicar.

A crise econômica foi amplificada por uma crise social. À medida que as perspectivas para os jovens comuns se tornaram mais sombrias, as demonstrações descaradas de privilégio pela nova elite chinesa tornaram-se impossíveis de ignorar. Uma série de escândalos de grande repercussão, espalhados como fogo em palha nas redes sociais, expôs a dura realidade da estratificação de classes. Em vez de vê-los como incidentes isolados, o público os enxerga como prova de uma nova classe dominante agindo com impunidade.

Em 2020, uma mulher provocou indignação nacional ao dirigir seu luxuoso Mercedes-Benz até a Cidade Proibida, um símbolo nacional protegido, e publicar fotos online. Mais tarde, foi revelado que ela era nora de uma família da “aristocrata vermelha”. Em 2023, uma usuária apelidada de “Beiji Nianyu” (“Bagre do Ártico”), neta de um funcionário aposentado do setor de transportes, exibiu descaradamente nas redes sociais o depósito bancário de “nove dígitos” de sua família, alegando ter emigrado para a Austrália e que o dinheiro era fruto da corrupção de seu avô, obtido por meio de “aproveitamento de recursos” no país. Ela agravou a situação ao insultar aqueles que ainda estavam na China com o infame termo pejorativo “zhina”, usado por fascistas japoneses. Um escândalo ocorrido em 2024 em um dos principais hospitais de Pequim, desencadeado por um erro cirúrgico, expôs uma corrupção ainda maior nos privilégios da elite. O caso girava em torno de uma jovem médica, nascida em 1997, que ingressou no principal programa de doutorado em medicina da China diretamente após concluir sua graduação em economia nos Estados Unidos. Sua admissão se deu por meio de um programa especial “4+4” — na prática, um canal exclusivo para pessoas com boas conexões — e sua subsequente nomeação no hospital sequer correspondia à sua área de estudo do doutorado. Cada novo escândalo, desde o casamento extravagante da neta de um marechal revolucionário no Templo Ancestral Imperial até as intermináveis ​​histórias de nepotismo, pinta um retrato de uma sociedade onde as regras são para os menos favorecidos.

Para quem lê Mao hoje, a arrogância descarada dos privilegiados parece dar vida às suas teorias. Para uma geração que luta contra o desemprego e a involução, essas histórias soam menos como fofoca e mais como ilustrações do mundo real daquilo que Mao chamava de “capitalistas burocráticos” e “revisionistas”. A linguagem que ele usou décadas atrás para alertar sobre o surgimento de uma nova classe exploradora dentro do partido e do Estado ressoa agora com uma estranha relevância contemporânea. Suas críticas ao privilégio, à corrupção e ao distanciamento das elites em relação às massas parecem, de repente, menos algo de uma era passada e mais uma descrição do que está acontecendo agora.

Isso levou a uma profunda e complexa revisão da história e, principalmente, da Revolução Cultural. Durante décadas, o consenso oficial e intelectual foi condenar a década de 1990 como um período de caos e catástrofe, uma visão amplamente aceita pelos jovens. Mas a realidade atual trouxe à tona uma questão crucial: se as elites de hoje são tão corruptas e distantes da realidade, como é possível que seus antecessores — os altos funcionários e intelectuais expurgados durante a Revolução Cultural e posteriormente reabilitados como vítimas inocentes — fossem todos santos?

Esta questão marca uma ruptura crucial com a narrativa histórica pós-Mao. Os jovens estão começando a desconstruir o veredicto oficial. Embora não necessariamente endossem a violência ou o caos da época, estão redescobrindo seu propósito declarado: desafiar o poder estabelecido, combater a burocracia e impedir o próprio tipo de consolidação de classes que observam ao seu redor. Estão começando a enxergar a Revolução Cultural pela ótica de suas intenções, como uma luta necessária contra a nova classe dominante sobre a qual Mao alertou. Para eles, a Revolução Cultural se torna um episódio passado que ecoa as lutas que testemunham agora.

Aqui reside um paradoxo interessante. A mesma geração de jovens chineses que vivencia com mais intensidade as falhas do sistema de mercado, que é a mais crítica da nova elite doméstica, também é amplamente considerada a geração mais patriótica e pró-Partido desde o início da era das reformas. Frequentemente, são rotulados de forma depreciativa como “Pequenos Rosas” (xiao fenhong) pelas elites liberais pró-ocidentais da China, devido ao que consideram seu nacionalismo irracional.14 Mas esse rótulo ignora a complexidade da questão. Eles têm plena consciência das falhas internas do país, mas, em uma era de instabilidade global e declínio ocidental, também enxergam o sistema chinês como resiliente e, em muitos aspectos, superior. Testemunharam em primeira mão a capacidade do Estado de tirar centenas de milhões da pobreza, empreender projetos massivos de recuperação ambiental e alcançar avanços tecnológicos impressionantes. Isso nos leva ao segundo motor, igualmente poderoso, que impulsiona a “febre de Mao”: uma potente mistura de nacionalismo e anti-imperialismo.

Para a juventude atual, não há contradição em culpar a elite da era do mercado por suas dificuldades pessoais e, ao mesmo tempo, atribuir a força da nação ao legado socialista. Eles veem uma conexão direta. Atribuem os recentes triunfos tecnológicos da China nos setores aeroespacial, ferroviário de alta velocidade e de telecomunicações aos princípios fundamentais estabelecidos por Mao: autossuficiência e inovação independente. Eles traçam um forte contraste com as décadas de 1980 e 1990, quando a estratégia dominante era resumida pela frase “zao buru mai, mai buru zu” (significando que, quando se trata de tecnologias de ponta e produtos sofisticados, o desenvolvimento nacional é frequentemente menos eficaz do que a importação, e a importação é menos vantajosa do que o leasing), o que levou a um enfraquecimento da pesquisa e desenvolvimento nacionais e a uma perigosa dependência do Ocidente. As dificuldades de setores como o de semicondutores e o de aeronaves comerciais, que sofreram com essa dependência e foram posteriormente alvo de sanções dos EUA, são vistas como exemplos de advertência. Na narrativa popular que se consolidou entre os jovens, cada sucesso recente é uma justificativa para a insistência de Mao na autonomia, e cada revés é uma consequência do desvio desse caminho.

Essa crença transforma Mao de um guerreiro de classe interno em um herói nacional que garantiu a soberania da China contra todas as probabilidades. As histórias da Guerra da Coreia, em que uma nação recém-fundada e empobrecida lutou contra os Estados Unidos até um impasse, ou do desenvolvimento da bomba atômica, apesar da retirada do apoio soviético, não são mais apenas histórias distantes. Elas se tornaram mitos centrais para uma geração que se vê presa em uma nova “guerra prolongada” com os Estados Unidos. Mais do que um sentimento abstrato, trata-se de uma força reativa e em tempo real.

Um exemplo marcante ocorreu em 8 de abril de 2024. O índice do WeChat para “Jiaoyuan” (Professor) disparou para um número sem precedentes de 139 milhões, mesmo sem um aniversário oficial relacionado a Mao. O gatilho foi um confronto público sobre tarifas entre Washington e Pequim. À medida que a notícia de uma tarifa americana de 104% sobre produtos chineses se espalhava, as redes sociais chinesas entraram em erupção. A resposta não foi pânico, mas uma demonstração coletiva de desafio em direção a Mao. Vídeos virais de seu discurso de 1953 sobre a Guerra da Coreia, no qual ele declarou que os Estados Unidos poderiam decidir quanto tempo a guerra duraria — “enquanto eles quiserem lutar, nós lutaremos, até o momento da vitória completa” — foram remixados e compartilhados milhões de vezes. Os usuários invocaram sua famosa descrição do imperialismo americano como um “tigre de papel”. Artigos e vídeos explorando os temas de seu ensaio “Sobre a Guerra Prolongada” inundaram as redes sociais. Por alguns dias, as redes sociais pareceram um curso intensivo de estratégia maoísta, com jovens traçando paralelos diretos entre a guerra comercial e as lutas anti-imperialistas do passado.

Esse fervor patriótico não é chauvinismo. É uma expressão em massa de consciência anti-imperialista, forjada no contexto da Nova Guerra Fria liderada pelos Estados Unidos contra a China.<sup>15</sup> À medida que Washington se viu obrigada a lidar com a realidade de que a China seguiria seu próprio projeto soberano em vez de ser absorvida pela ordem imperialista liderada pelo Ocidente, lançou uma campanha crescente para restringir o desenvolvimento chinês. É nessa luta que Mao se tornou o símbolo máximo de uma nação do Sul Global que resiste com sucesso à pressão imperialista. Seu legado oferece uma poderosa contranarrativa à história da globalização centrada no Ocidente. Ele representa a possibilidade de um caminho alternativo para a modernidade, que não exige submissão aos ditames econômicos e políticos de Washington.

Numa era definida por essa crescente competição estratégica, a postura desafiadora de Mao ressoa com o anseio de uma nova geração por dignidade nacional e justiça global. Os dois motores da “febre de Mao” — a crítica interna à desigualdade de classes e a resistência externa ao imperialismo — não são correntes separadas. São duas faces da mesma moeda. Para muitos jovens chineses, a nova elite doméstica é vista não apenas como uma classe exploradora, mas como uma classe compradora, alinhada ideológica e, por vezes, economicamente aos interesses ocidentais. Portanto, a luta por justiça social em casa e a luta pela soberania nacional no exterior são vistas como uma só. Mao, como líder revolucionário que desafiou a desigualdade interna e como líder nacional que se opôs às potências estrangeiras, oferece o símbolo perfeito e unificado para essa luta dupla.

As Muitas Faces de Mao: Mentor Revolucionário e Guru de Autoajuda

O ressurgimento do maoísmo entre a juventude chinesa está longe de ser uniforme. Enquanto muitos são atraídos por Mao como um mentor revolucionário — usando suas teorias de luta de classes e anti-imperialismo para compreender a injustiça social e o sistema mundial desigual — muitos outros se voltam para ele por razões mais pessoais e, talvez, mais contraditórias. Para este último grupo, Mao não é primordialmente um guia para mudar o mundo, mas um mentor para navegar nele. Isso deu origem a uma tendência peculiar e disseminada: a leitura das Obras Selecionadas de Mao como um manual para o sucesso pessoal e a resiliência psicológica.

Essa abordagem despoja o pensamento de Mao de seu propósito coletivo e revolucionário e o reformula como um conjunto de ferramentas para o avanço individual no mercado hipercompetitivo. Em plataformas de mídia social como Bilibili e Douyin, um gênero popular de conteúdo apresenta influenciadores explicando como aplicar os princípios estratégicos de Mao — de "Sobre a Guerra Prolongada" a "Análise das Classes na Sociedade Chinesa" — à política no escritório, planejamento de carreira, negociações comerciais e até mesmo relacionamentos amorosos. O objetivo não é mais identificar e derrubar a classe exploradora, mas aprender a lidar com um chefe difícil, conquistar um cliente ou garantir uma promoção. É uma expressão de alienação: a teoria revolucionária concebida para desmantelar um sistema de exploração é instrumentalizada para ajudar indivíduos a ascenderem dentro desse mesmo sistema. Essa adesão paradoxal a Mao revela a imensa pressão que os jovens enfrentam; quando mudar a sociedade parece impossível, a única opção restante é otimizar as próprias chances de sobrevivência.

Esse foco na luta individual vai além de conselhos práticos, revelando um profundo fascínio pela história pessoal de Mao. Além das Obras Selecionadas, diversas biografias de Mao figuram constantemente entre as mais requisitadas em bibliotecas universitárias e nas listas de best-sellers de e-commerce. Os jovens são atraídos pela história de Mao como um “herói solitário”, uma figura que enfrentou repetidamente adversidades esmagadoras, mas perseverou graças à pura força de vontade e otimismo. Encontram imensa inspiração em seus primeiros anos, particularmente em seus próprios relatos de luta e pobreza. Uma passagem de Estrela Vermelha Sobre a China, de Edgar Snow, é frequentemente citada e compartilhada entre os jovens urbanos, pois fala diretamente à sua própria experiência de tentar a sorte na cidade grande:

Minhas condições de vida em Pequim eram bastante miseráveis… Eu ficava em um lugar chamado San Yen-ching [“Poço dos Três Olhos”], em um quartinho que abrigava outras sete pessoas. Quando estávamos todos amontoados no k’ang, mal havia espaço para respirarmos… Mas nos parques e nos antigos jardins do palácio, vi o início da primavera no norte, vi as flores brancas das ameixeiras desabrocharem enquanto o gelo ainda se mantinha sólido sobre Pei Hai [“o Mar do Norte”]... As inúmeras árvores de Pequim despertaram em mim admiração e espanto.16

Para um jovem recém-formado, espremido num pequeno apartamento compartilhado em Pequim ou Xangai, essa imagem de um jovem Mao encontrando beleza e determinação em meio às dificuldades é uma forte fonte de consolo pessoal. Ela lhes diz que seu próprio sofrimento não é único, que até mesmo as maiores figuras suportaram provações semelhantes. A jornada de Mao, de um bibliotecário assistente empobrecido ao líder de uma nação, torna-se a história definitiva de superação pessoal. Ela oferece uma poderosa mensagem de esperança, mas é uma esperança voltada para o interior, focada na resistência individual em vez da ação coletiva.

Assim, a “febre de Mao” contém uma tensão central e não resolvida. É simultaneamente um despertar político e uma forma de autoajuda, uma crítica coletiva e um mecanismo de enfrentamento individualista. Essa dualidade é o reflexo mais fiel da condição da juventude chinesa contemporânea. Eles são politicamente conscientes o suficiente para reconhecer que suas lutas pessoais — a competição incessante, os empregos precários, o custo de vida sufocante — não são falhas individuais, mas sintomas de uma estrutura social falha. No entanto, a perspectiva de mudar essa estrutura vasta e rígida parece assustadora, distante e repleta de riscos. Diante da necessidade imediata e urgente de simplesmente sobreviver, muitos recuam do grande projeto de transformação social para a tarefa mais administrável de ascensão pessoal. Eles se voltam para as ferramentas mais poderosas da libertação coletiva e as reaproveitam como instrumentos de resistência individual. O revolucionário foi reformulado como um mentor de vida, não porque sua mensagem política tenha sido esquecida, mas porque, para muitos, a necessidade brutal de simplesmente sobreviver em um sistema implacável muitas vezes se sobrepõe a objetivos políticos maiores.

Conclusão: O Futuro de um Espectro, uma Agenda Inacabada

O espectro de Mao que agora assombra a China não é apenas um fantasma do passado, mas um espelho que reflete o presente do país. O ressurgimento do interesse por sua vida e obra entre os jovens da nação é muito mais do que uma tendência passageira. É um sintoma político profundo, nascido diretamente das profundas e crescentes contradições da ordem social pós-reformas da China. À medida que a era do hipercrescimento se desvanece, a economia de mercado neoliberal expõe seus custos: desigualdade gritante, privilégios de classe arraigados e uma sensação generalizada de precariedade para uma geração à qual foi prometido um futuro de prosperidade. A “febre de Mao” é a resposta ideológica a essa realidade material.

Esse movimento carrega um potencial imenso, ainda que contraditório. Sua maior força reside na recentralização da análise de classe. Representa um desafio direto ao consenso liberal dominante dos últimos quarenta anos, que buscava “dar adeus à revolução” em favor do pragmatismo orientado pelo mercado e da integração à ordem mundial liderada pelos EUA. Uma nova geração está reaprendendo uma linguagem política que lhes permite nomear as fontes de sua alienação e descontentamento. Isso constitui uma força política nascente e potencialmente disruptiva, que já demonstrou sua capacidade de crescer organicamente, mesmo diante da censura e da desaprovação oficial.

No entanto, o movimento também está repleto de limitações que atenuam sua promessa revolucionária. Seus poderosos sentimentos anti-imperialistas e nacionalistas, embora expressões autênticas de um desejo por soberania, podem ser facilmente usados ​​pelo governo para se legitimar, potencialmente atenuando a força de sua crítica de classe interna. Além disso, a tendência de transformar os ensinamentos de Mao em uma espécie de manual de autoajuda para o sucesso individual ameaça neutralizar sua teoria revolucionária, transformando um apelo à ação coletiva em um mero mecanismo de sobrevivência a um sistema opressor. Sem organização formal e confinado principalmente ao ambiente digital, ainda é uma mistura frouxa e, por vezes, confusa de sentimentos, em vez de um movimento organizado.

Qual é, então, o futuro desse espectro? Enquanto persistirem as contradições sociais e econômicas subjacentes que o motivaram — o vasto abismo entre os poucos privilegiados e os muitos que lutam para sobreviver, o conflito entre as aspirações nacionais e a pressão imperialista, e a alienação sentida por uma geração sobrecarregada por ansiedades sistêmicas — Mao não desaparecerá. Seu retorno significa que as questões fundamentais que ele levantou sobre o rumo da China não são relíquias de uma era passada. As questões de classe, de justiça social e de quem realmente detém o poder na sociedade não foram resolvidas por décadas de reformas de mercado. Elas simplesmente ressurgiram de uma nova forma, e uma nova geração, munida de suas palavras, exige uma resposta. A agenda revolucionária, ao que parece, permanece inacabada.

Notas

1 Para um estudo detalhado dessa divergência de atitudes baseada em classes sociais, veja Mobo C. F. Gao, The Battle for China’s Past: Mao and the Cultural Revolution (Londres: Pluto Press, 2008). Essa divisão é claramente ilustrada por uma pesquisa sociológica realizada em 2000 em uma cidade de Henan. A pesquisa constatou que 85% dos entrevistados não acreditavam na principal promessa da reforma de que “deixar alguns enriquecerem primeiro” levaria à prosperidade comum, argumentando, em vez disso, que a política apenas ampliaria a desigualdade entre ricos e pobres. Ao mesmo tempo, um surpreendente zero por cento expressou oposição à Revolução Cultural. Veja Sun Liping, Imbalance: The Logic of a Fractured Society (Pequim: Social Sciences Academic Press, 2004), 66.

2 Wei Bing, “What Do You Think of Mao?”, China Focus 2, nº 1 (2004). 1 (1994): 3, citado em Mobo Gao, “O espectro de Mao ainda assombra a China continental: as reformas econômicas da China e as atitudes dos chineses após a morte de Mao”, Hong Kong Journal of Social Sciences, nº 7 (primavera de 1996): 140–58.

3 Li Yexing, “Uma pesquisa sobre a compreensão e a avaliação da ‘Revolução Cultural’ por estudantes universitários”, China News Digest Supplement, nº 475 (22 de abril de 2008).

4 A Universidade Tsinghua publica sua lista anual de empréstimos da biblioteca em sua conta pública oficial do WeChat. Para os dados de 2019, consulte a Universidade Tsinghua, “Ranking de Empréstimos da Biblioteca da Universidade Tsinghua de 2019!”, WeChat, 10 de janeiro de 2020.

5 Instituto MyCOS, “Analisamos Big Data de 80 Bibliotecas Universitárias e Descobrimos que Este Livro é o Mais Popular”, Sohu, 19 de fevereiro de 2021.

6 O vídeo original da conta oficial da Universidade Beihang permanece acessível: Universidade Beihang, “Ranking Anual de Empréstimos da Biblioteca Beihang de 2020”, Douyin, 15 de maio de 2021. No relatório mais recente de 2024, tanto as Obras Selecionadas quanto o quinto volume permaneceram entre os cinco mais populares. Ver Biblioteca da Universidade Beihang, “Data Talks 2024: Relatório Anual de Leitura da Biblioteca Beihang”, WeChat, 13 de maio de 2024.

7 Li Yuan, “‘Quem são nossos inimigos?’: Jovens ressentidos da China abraçam Mao”, New York Times, 8 de julho de 2021.

8 Veja a resposta de Sanjiu Xiansheng, “Quem é a maior personalidade chinesa da história?”, Zhihu, última modificação em 18 de agosto de 2017.

9 Veja o tópico de discussão da pergunta “Dos tempos antigos aos dias atuais, quem você acha que é a maior personalidade chinesa?”, Zhihu, publicado em 7 de abril de 2020.

10 Mark Magnier, “O crescimento econômico da China em 2015 foi o mais lento em 25 anos”, Wall Street Journal, 19 de janeiro de 2016.

11 Para uma análise da “involução” e do “desleixo” entre os jovens chineses, veja Jinting Wu, “Em direção a um tipo diferente de distinção social? Recusa educacional e a subcultura juvenil de baixo desejo na China contemporânea”, em The Bloomsbury Handbook of Bourdieu and Educational Research, orgs. Garth Stahl, Guanglun Michael Mu, Pere Ayling e Elliot B. Weininger (Londres: Bloomsbury Academic, 2024). 12 Wang Pingping, “A situação do emprego permaneceu geralmente estável no primeiro semestre do ano”, Departamento Nacional de Estatísticas da China, 18 de julho de 2023.

13 Departamento Nacional de Estatísticas da China, “Porta-voz do DNE responde a perguntas sobre o desempenho econômico nacional em julho de 2023”, 15 de agosto de 2023.

14 Para a evolução do fenômeno “Pequena Rosa” e a ascensão do nacionalismo espontâneo entre os jovens, ver Jing Wu, Simin Li e Hongzhe Wang, “De fãs à ‘Pequena Rosa’: o mecanismo de produção e mobilização da identidade nacional sob a cultura comercial das novas mídias”, em Do cibernacionalismo ao nacionalismo de fãs, ed. Hailong Liu (Nova York: Routledge, 2019), 32–52.

15 John Bellamy Foster, “A nova Guerra Fria na China”, Monthly Review 73, nº 1, 1995. 3 (julho-agosto de 2021): 1–20.

16 Edgar Snow, Red Star Over China (Nova Iorque: Bantam Books, 1978), 140–41.

Yinhao Zhang é doutor pelo Departamento de Estudos Asiáticos da Universidade de Adelaide e administra uma popular conta nas redes sociais sobre teoria marxista e história revolucionária chinesa.

Palestina 36 resgata uma revolta anticolonial esquecida

O longa-metragem Palestina 36, de Annemarie Jacir, rememora a revolta anticolonial em massa que a Grã-Bretanha destruiu com força esmagadora — e mostra como seu legado ainda molda o presente.

UMA ENTREVISTA COM 
Annemaria Jacir

Jacobin

Still de Palestine 36. (Watermelon Pictures)

UMA ENTREVISTA DE
Ed Rampell

A escritora e diretora Annemarie Jacir, nascida em Belém, está na vanguarda de uma nova geração de cineastas da Palestina que conquistam o público ocidental e além com filmes inegavelmente impactantes. Seu filme de 2008, O sal desse mar, recebeu duas indicações no Festival de Cannes, enquanto seu drama sobre refugiados palestinos de 2012, Quando vi você, co-estrelado por Saleh Bakri, ganhou um prêmio no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Agora, seu mais recente longa-metragem, Palestina 36 — que também conta com Bakri e o vencedor do Oscar Jeremy Irons no elenco — está recebendo o lançamento nacional que a obra-prima de Jacir merece.

Como o título sugere, Palestina 36 — que foi a escolha oficial da Palestina para Melhor Filme Internacional no Oscar e vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Tóquio — ficcionaliza um período crucial na luta pela libertação da Palestina. De acordo com o livro The hundred years’ war on Palestine [A guerra centenária contra a Palestina], de Rashid Khalidi , em 1939, o exército britânico enviou “cem mil soldados para a Palestina, um para cada quatro homens palestinos adultos. [...] Foi preciso toda a força do Império Britânico, que só pôde ser liberada quando mais tropas ficaram disponíveis após o Acordo de Munique em 1938 [...] para extinguir a revolta palestina.”

Em uma franca conversa, Jacir expõe o contexto histórico e a estrutura dentro dos quais dramatiza a revolta popular que começou quando Yasser Arafat tinha apenas sete anos — uma revolta que abalou o exército mais poderoso da Europa. Jacir foi entrevistada para a revista Jacobin pelo historiador e crítico de cinema Ed Rampell.

ED RAMPELL

Conte-nos sobre sua trajetória pessoal e como você entrou para o mundo do cinema?

ANNEMARIE JACIR

Meus pais são palestinos de Belém. Meu pai está completando noventa anos; ele nasceu em 1936, o primeiro ano da revolta. Minha mãe nasceu no último ano da revolta, em 1939.

ED RAMPELL

Sua família é cristã?

ANNEMARIE JACIR

Eu sou atéia.

ED RAMPELL

Mas você nasceu em uma família cristã?

ANNEMARIE JACIR

Sim. Depois da ocupação da Palestina, a Cisjordânia foi ocupada em 1967, ficaram lá por alguns anos, e então decidiram procurar trabalho no exterior, pois não queriam criar uma família sob ocupação. Eu cresci na Arábia Saudita e vivi lá durante os primeiros dezesseis anos da minha vida. Depois disso, vim para os Estados Unidos e fiz minha graduação em Ciências Políticas e Literatura no Claremont Colleges, na Califórnia, em Pitzer.

Me formei em Pitzer com dupla graduação. No último ano, me interessei por cinema e pensei em mudar de curso. Mas meu pai disse: “Você acabou de fazer dupla graduação. Saia da faculdade e pronto.” Então, me mudei para Los Angeles, onde morei por alguns anos tentando aprender a fazer filmes. Eu entrava em contato com todo mundo procurando emprego como assistente de produção, ou qualquer outra coisa. Foram anos muito difíceis e descobri que Los Angeles não era bem a minha cidade. Eu não tinha contatos, não conseguia entrar na indústria cinematográfica, então acabei em trabalhos ruins que não me ensinavam nada sobre cinema.

Acabei numa agência literária que representava roteiristas e comecei a ler muitos roteiros. Mesmo assim, não sentia que toda a máquina de Hollywood fosse o tipo de cinema que eu queria fazer. Então, fui para a pós-graduação em Nova York, na Universidade Columbia, e estudei cinema. Depois disso, fui para a Palestina e moro lá desde então.

ED RAMPELL

O documentário Palestina 36 dramatiza brilhantemente a história, especialmente eventos que poucos ocidentais conhecem. Os estadunidenses tendem a pensar que, entre as duas guerras mundiais, a Grã-Bretanha estava em paz, até entrar em guerra com os nazistas em 1939. Seu filme mostra o contrário. Então, o que aconteceu em 1936 na Palestina?

ANNEMARIE JACIR

Em 1936, os britânicos já estavam na Palestina havia quase vinte anos. Já havia muito descontentamento. Nos primeiros anos do controle britânico [como um Mandato da Liga das Nações], provavelmente havia uma certa expectativa de que as coisas iriam melhorar. Mas não melhoraram. Era um projeto para controlar os recursos e a população.

Além disso, houve, e me surpreende como poucas pessoas sabem disso, a emigração judaica. Mas foi antes do Holocausto. Sim, porque havia antissemitismo, pogroms e fascismo, e os judeus estavam fugindo da Europa muito antes do Holocausto. Todo mundo pensa que isso acontece depois, quando a Palestina é inundada por refugiados. Os judeus estavam emigrando — claro, existe uma população judaica nativa na Palestina, embora muito pequena. A sociedade palestina é judaica, muçulmana, cristã, muito mista.

Então, você observa os números da [emigração judaica] e vê esse fluxo migratório. Todos esses fatores estavam convergindo e criando uma atmosfera tensa. Houve o início da primeira revolta em massa contra o colonialismo britânico em 1936. Ela incluiu uma greve nacional que, até então, foi a greve mais longa da história, com duração de seis meses.

A revolta teve, na verdade, duas fases. Começou em 1936, quando os britânicos perderam o controle, pois era uma revolta liderada por camponeses. Eles não conseguiram conter a situação e começaram a perder o controle. Depois, houve a Comissão Peel, que tentou encontrar uma solução diplomática. E ficou claro que não haveria resolução.

Depois, há a segunda fase da revolta, que começa após a Comissão Peel, em 1937. Foi quando os britânicos trouxeram milhares e milhares de soldados, armas, tanques e aviões — eles estavam bombardeando o interior. O objetivo era esmagar a revolta o mais rápido possível. Muitos historiadores acreditam que isso foi feito apressadamente porque a Segunda Guerra Mundial estava no horizonte, então eles precisavam esmagar essa revolta e sair dali, basicamente.

ED RAMPELL

Esse é o contexto histórico para os eventos reais que você dramatiza em Palestina 36, ​​principalmente focando em pelo menos duas famílias palestinas. Amir e Khuloud são, respectivamente, intelectuais urbanos em Jerusalém e moradores da vila rural de Al Basma. As duas famílias estão ligadas por Yusuf. Conte-nos sobre esses personagens e o quanto eles são baseados em fatos reais.

ANNEMARIE JACIR

O coração do filme são os aldeões palestinos. Yusuf e sua família, Rabab [Yafa Bakri] e sua filha Afra [Wardi Eilabouni, com Hiam Abbass, nascida em Nazaré e indicada ao Emmy pela série Succession da HBO, interpretando a avó Hanan], e o pequeno Kareem [Ward Helou] e seu pai, o padre [Jalal Altawil interpreta o padre Boulos]. Esses são os nossos aldeões.

Na cidade estão Khuloud [Yasmine Al Massri, nascida no Líbano e co-estrela da série Quantico, da ABC-TV, sobre o FBI] e Amir [Dhafer L’Abidine, nascido na Tunísia]. E também Khalid [Saleh Bakri, colaborador frequente de Jacir e estrela de Tudo que resta de você, de Cherien Dabis], um estivador.

Tudo o que os britânicos fizeram na Palestina, os israelenses simplesmente copiaram.

Todos esses personagens estão interligados. Para mim, era importante não ter um herói — um único herói para contar essa história clássica; você acompanha essa pessoa desde o início e só existe um herói. Não há herói, são apenas pessoas comuns que estão vivendo esse momento muito intenso e tomam decisões. Todos eles tomam decisões, seja ela pequenas ou grandes, certas ou erradas. Todos eles se deparam com a história e fazem algo, tomam uma decisão sobre como seguir em frente.

Os personagens palestinos são todos fictícios e vêm de lugares diferentes. Khuloud, por exemplo, a jornalista, é uma mistura de jornalista da alta sociedade com uma socialite que vivia em Jerusalém na época e era muito conhecida por suas festas com os britânicos. A elite palestina se misturava bastante com os britânicos. E as mulheres que eram jornalistas na época e fundavam gráficas — não apenas na Palestina, mas também no Líbano e no Egito — escreviam sob pseudônimos masculinos por dois motivos. Sim, para serem levadas a sério em um mundo patriarcal, mas também porque esses lugares tinham governos coloniais e escrever sob um pseudônimo quando se fazia uma crítica era, na verdade, uma forma de proteção.

ED RAMPELL

E quando vemos Khuloud pela primeira vez, ela está vestida com roupas do sexo oposto. Por quê?

ANNEMARIE JACIR

Sim, exatamente. Por que não? [Risos]

ED RAMPELL

É surpreendente. Minha interpretação é que, como mulher em uma sociedade patriarcal, ela estava assumindo papéis masculinos que eram negados às mulheres.

ANNEMARIE JACIR

Sim. Ela está escrevendo sob um pseudônimo masculino. Ela está se divertindo com isso, pega o terno do Amir. Quem manda aqui? [Risos]

Os quatro personagens britânicos do filme são todos baseados em figuras históricas reais. Wingate [um oficial britânico e sionista cristão interpretado por Robert Aramayo] foi uma pessoa real, um homem realmente violento e desequilibrado. Acabaram de divulgar alguns documentos com novas informações sobre ele; ele era muito mais insano do que o meu filme mostra. Para mim, o cabelo comprido dele foi uma licença poética, mas não é historicamente preciso.

Ele estava sempre sujo, o uniforme dele estava sempre sujo, ele nunca tomava banho. Era conhecido por ser assim. Mais tarde, ele deixou o cabelo crescer, depois de ser dispensado do Exército Britânico, na verdade, ele foi dispensado da Palestina. Para mim, eu queria indicar que ele estava fora do sistema, fazendo as coisas do jeito dele no campo de batalha. O cabelo desgrenhado era uma forma de sinalizar isso — uma vez que não há como sentir o cheiro dele na tela.

Thomas, o secretário [do alto comissário], é baseado em uma pessoa real que realmente se demitiu e se tornou marxista. É uma história incrível. Ele foi para lá pensando que havia boas intenções, que estavam fazendo algo pela população nativa e que seria útil, mas aos poucos, em seus diários, ele percebe que é um projeto fracassado com uma agenda oculta, e que não quer fazer parte disso. Ele acaba se demitindo e se tornando um marxista e ativista anticolonial pelo resto da vida. No meu filme, ele é Hopkins [interpretado por Billy Howle], mas seu nome verdadeiro era Hodgkin.

ED RAMPELL

O vencedor do Oscar Jeremy Irons interpreta Sir Arthur Grenfell Wauchope, o alto comissário britânico para o Mandato Britânico da Palestina. Como vocês conseguiram escalar uma estrela de cinema tão renomada?

ANNEMARIE JACIR

Porque ele tem uma esposa irlandesa, e nós éramos jurados juntos no Festival de Cinema de Berlim. Irons era o presidente do júri. Então, passamos muito tempo juntos e nos tornamos amigos.

Eu estava escrevendo esse projeto na época e contei para ele um dia durante o café da manhã, e [a esposa dele] disse: “Isso é incrível! Jeremy, você precisa estar nesse filme!” Ele perguntou: “Tem algum papel para mim?” Eu respondi: “ Sim, tem um papel para você!” E ele disse: “Deixe-me ler o roteiro. E se for possível, eu gostaria de participar.” Era um papel maravilhoso.

ED RAMPELL

Liam Cunningham, coestrela do drama de Ken Loach de 2007 sobre a Guerra da Independência da Irlanda, Ventos da liberdade, e da série da HBO Game of Thrones, interpreta [Charles] Tegart, o especialista em contrainsurgência da vida real que explica ao alto comissário e a outros oficiais britânicos em seu filme a necessidade de táticas antiterroristas extremamente brutais para suprimir a Revolta Árabe.

Essa cena seria uma referência direta às cenas do especialista em pacificação no filme de Gillo Pontecorvo de 1966, A Batalha de Argel?


ANNEMARIE JACIR

As pessoas têm mencionado muito a Batalha de Argel em relação a este filme. Mas você é a primeira pessoa a fazer essa conexão. Sim, você é a primeira pessoa a apontar isso.

Este filme é um verdadeiro testemunho da criatividade palestina e do que os palestinos são capazes de fazer, mesmo nas piores condições. Quase morremos durante as filmagens. Agora, compartilhamos com o mundo.

Charles Tegart era irlandês. Eles fazem referência à Irlanda no diálogo. É por isso que Liam se divertiu tanto interpretando aquela cena. Esse especialista estava na Índia e depois o levaram para a Palestina. Ele construiu toda a sua carreira em cima disso. Ele foi o primeiro a idealizar o conceito de um muro, não os israelenses — eles fizeram isso depois. Tudo o que os britânicos fizeram, os israelenses simplesmente copiaram o projeto. E existem fortes militares por todo o país, para criar esse sistema de controle, chamados de “fortes de Tegar”. Eles ainda existem.

ED RAMPELL

Isso é semelhante ao Programa de Aldeias Estratégicas do Vietnã do Sul?

ANNEMARIE JACIR

Sim. Com certeza.

ED RAMPELL

Os trechos de época são imagens de arquivo reais?

ANNEMARIE JACIR

Sim. Sempre que você vê a [proporção de tela original], trata-se de imagens de arquivo reais — não foram manipuladas. Nós as restauramos e eu as colorizei; eu não queria em preto e branco.

ED RAMPELL

Seu filme parece sugerir que dois povos foram vitimados pelo Holocausto. Obviamente, o povo judeu; mas também os palestinos foram impactados pela imigração de cada vez mais judeus que fugiam do nazismo. Muitos vieram para a Palestina. Especialmente porque outros países ao redor do mundo, incluindo os EUA, em grande parte...

ANNEMARIE JACIR

Fecharam as portas. Sem dúvida.

ED RAMPELL

Mas, é claro, não foram os palestinos que perpetraram o Holocausto.

ANNEMARIE JACIR

Os arianos europeus fizeram isso. Fizeram a coisa mais vil: o Holocausto. E depois não quiseram assumir a responsabilidade. Em vez de lidarem com o próprio racismo, jogaram a culpa nos palestinos, que não têm histórico de antissemitismo. Nós também somos semitas [risos]. Essa foi a maneira [dos ocidentais] de lidar com a situação: fazer com que nós tivéssemos que com ela. Fecharam as portas, os EUA fecharam as portas e pensaram: “Ok, a maneira de lidarmos com o nosso racismo é mandar essas pessoas para outro lugar”. O que é simplesmente ridículo.

O projeto sionista considerou muitos outros lugares além da Palestina: Argentina, Uganda, Palestina. Havia muitas propostas. Acho que teria sido a mesma coisa em Uganda, se o projeto sionista fosse sobre desapropriar a população nativa. A Palestina acabou sendo a escolhida.

A Palestina nunca esteve fechada aos judeus. Peregrinos judeus vêm à Palestina há séculos — eu disse que existe uma população nativa. Há também judeus que vêm à Palestina há centenas de anos, assim como muçulmanos e cristãos. Bósnios fugiram da perseguição e vieram para a Palestina. Circassianos fugiram da perseguição e vieram para a Palestina — estou falando do século XIX. Armênios fugiram da perseguição, vieram para a Palestina, viveram entre os palestinos e se integraram ao cotidiano da população.

E se os judeus tivessem feito isso — fugido, não tivessem para onde ir, precisassem de proteção e imigrado como tantas outras comunidades — estaríamos em uma situação muito diferente hoje. O projeto sionista não se tratava disso. Tratava-se de controle e desapropriação.

ED RAMPELL

Houve uma facilitação por parte dos britânicos para atender aos seus próprios interesses imperiais?

ANNEMARIE JACIR

Claro. Eles jogavam dos dois lados.

ED RAMPELL

Anteriormente, você mencionou a Comissão Peel. Uma das cenas mais dramáticas e cruciais de todo o seu filme é um jantar em Jerusalém, na casa dos intelectuais Amir e Khuloud, onde os resultados da Comissão Peel são anunciados pelo rádio.

Palestina 36 demonstra claramente que os britânicos, sob o mandato de colonizadores, deram tratamento preferencial aos sionistas para atender aos próprios interesses coloniais de Londres. Em retrospectiva, considerando o enorme sofrimento dos palestinos com os eventos da década de 1930 retratados em seu filme, passando pela Nakba e, mais recentemente, pelo genocídio em Gaza e pela perseguição contínua na Cisjordânia, você acha que, mesmo tendo sido um mau negócio, os palestinos teriam se saído melhor se tivessem aceitado a partilha oferecida? Como diz o locutor de rádio britânico ao transmitir os resultados da Comissão Peel: “Meio pão é melhor do que nada”.


ANNEMARIE JACIR

Acho que teria levado exatamente ao mesmo resultado. Não sei por que alguém concordaria que uma potência colonial ou externa decidisse isso. Os britânicos e franceses dividiram todo o mundo árabe e toda a África. Eles não tinham o direito de fazer isso. Então, por que alguém aceitaria isso? Nunca vai acontecer. Agora, você está perguntando se estaríamos em uma situação melhor hoje se eles tivessem aceitado isso? A Comissão Peel e o anúncio que está sendo transmitido pelo rádio são as conclusões da Comissão Peel, palavra por palavra, não são invenção minha.

Este filme é realmente um testemunho da criatividade palestina e do que os palestinos são capazes de fazer, mesmo nas piores condições.

A Comissão Peel não estava concedendo independência aos palestinos. Não se tratava apenas da partilha, mas também de que os palestinos não seriam governados por palestinos.

ED RAMPELL

E eles seriam removidos à força.

ANNEMARIE JACIR

Sim, mas seriam governados pela Transjordânia. Mesmo que dividissem a parte palestina, ela não seria administrada por palestinos — seria administrada pelo governo transjordaniano, uma criação pró-britânica. Nem seria independência nesse sentido. Isso é muito importante. Os árabes não são um bloco homogêneo, os vinte e dois países não são todos iguais. Não é um grupo monolítico.

ED RAMPELL

Onde você filmou Palestina 36?

ANNEMARIE JACIR

Filmamos na Jordânia, Palestina, Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Jaffa e Belém. O filme foi feito em condições extremamente difíceis. Tivemos que interromper as filmagens quatro vezes. Foi terrível. E continuamos. O que deveria durar três meses acabou se tornando quase dois anos de luta para concluir o filme, pois o fizemos durante o genocídio. Este filme é realmente um testemunho da criatividade palestina e do que os palestinos são capazes de fazer, mesmo nas piores condições.

Quase morremos durante as filmagens. Agora, compartilhamos com o mundo. Esperamos que as pessoas nos conheçam; fazemos filmes para nos conectar. Tudo se resume à conexão. Essa conexão não pode ser rompida. Precisamos lutar por ela.

ED RAMPELL

Mais filmes de cineastas palestinos e árabes, como A voz de Hind Rajab, estão sendo lançados no Ocidente . Por que você acha que isso está acontecendo agora?

ANNEMARIE JACIR

[Risos] Não acho que esteja acontecendo agora. Já vem acontecendo há muito tempo. Há uma nova onda de diretores palestinos, muitos filmes foram feitos ao longo dos anos. Acho que agora há menos. No entanto, isso se deve à Watermelon [Pictures] que distribui os filmes — esse sempre foi o obstáculo nos Estados Unidos, sempre foi difícil para nossos filmes serem vistos, exibidos nos EUA.

Fomos excluídos da distribuição nos EUA. Estamos impedidos de alcançar nosso público e de exibir nossos filmes nos cinemas. Existem os guardiões — agora, graças à Watermelon, há distribuição para aqueles filmes que outros tiveram medo de chegar perto. Se é que pensaram em chegar — eu já tive distribuição com meus outros filmes, mas levá-los aos cinemas é uma batalha. É preciso ter um distribuidor pronto para enfrentar essa batalha. A Watermelon está empenhada em fazer isso.

ED RAMPELL

Na cerimônia do Oscar deste ano, o apresentador Javier Bardem disse: “Não à guerra. Palestina livre!” O que você achou disso?

ANNEMARIE JACIR

Eu adorei e achei que era muito necessário. Fiquei me perguntando por que, no geral, o Oscar foi tão silencioso e ninguém disse nada. E nem foi só sobre a Palestina. A situação do mundo está péssima. São tempos sombrios em todos os lugares. Graças a Deus por Javier, que disse algo. E me pergunto por que mais pessoas não disseram nada.

Colaboradores

Ed Rampell é um historiador / crítico de cinema de Los Angeles e autor de "Progressive Hollywood: A People’s Film History of the United States" e co-autor do The Hawaii Movie and Television Book.

Annemarie Jacir é uma cineasta, escritora e produtora de cinema palestina.

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