6 de abril de 2014

O homem capital

Thomas Piketty é a maior sensação da economia. Ele também é o mais feroz crítico do campo.

Emily Eakin


O economista francês Thomas Piketty chegou a Washington no domingo 13 de abril para uma semana de palestras em alguns dos mais importantes centros de pesquisa sobre políticas públicas dos Estados Unidos. Sua visita também poderia ter sido anunciada como uma volta olímpica pela Costa Leste. Lançada havia menos de cinco semanas, a tradução inglesa de seu novo livro, O Capital no Século XXI – 700 páginas de um rigor formidável sobre a história da riqueza –, tinha acabado de entrar para a lista dos mais vendidos do New York Times. Antes mesmo da publicação, um punhado de resenhas do livro e um grande burburinho na internet produziram uma transformação na imagem de Piketty: de pesquisador respeitado na área da distribuição de renda, ele virou um pensador de alto calibre que, armado de enorme quantidade de dados e gráficos – e de uma habilidade com as palavras incomum entre economistas –, se propunha a pôr abaixo décadas de sabedoria convencional sobre a desigualdade, por meio de uma análise inédita do passado.

A revista The Economist declarou que o livro de Piketty poderia “revolucionar o modo como as pessoas enxergam a história econômica dos últimos dois séculos”, e deu início a um grupo de leitura online, a fim de discuti-lo capítulo por capítulo. A também britânica Prospect acrescentou Piketty a sua lista anual de pensadores mais influentes do mundo ocidental, e comentou-se que seu livro circulava pelo gabinete de Ed Miliband, o líder do Partido Trabalhista inglês. Documentaristas começaram a competir pela oportunidade de transformar o livro em filme, e um compositor pediu a bênção do autor para transformá-lo numa ópera.

Agora, à maneira de um herdeiro de Tocqueville hábil no manejo de gráficos e fórmulas matemáticas, o francês de 43 anos tinha ido dizer aos americanos como salvar o que ele chamou de “ideal igualitário dos pioneiros” de uma “tendência à oligarquia” potencialmente devastadora. Sua unção foi tanto mais notável na medida em que, com seu livro, ele não pretendeu apenas apresentar um novo ponto de vista sobre a desigualdade, mas também repreender duramente a economia como disciplina, em particular em sua vertente norte-americana.

Na segunda-feira, dia 14, a agenda de Piketty incluía o Conselho Econômico da Casa Branca, o Government Accountability Office, órgão do Congresso americano que audita gastos do governo, e o gabinete do secretário do Tesouro, Jacob Lew, que o convocou para uma reunião particular com o intuito de discutir a proposta do francês de um imposto progressivo sobre a riqueza. Na terça, Piketty apareceu em companhia de dois prêmios Nobel de Economia: George Akerlof, que ao apresentá-lo a um grupo no Fundo Monetário Internacional declarou que ele era “o mais próximo que um economista pode chegar de uma estrela do rock”; e Robert Solow, que, no Instituto de Política Econômica – onde uma multidão de centenas de pessoas enfrentou um aguaceiro gelado para ouvi-lo falar –, louvou a originalidade da argumentação de Piketty e “a própria coleta, apresentação e análise” dos dados, prevendo que “vamos passar um bom tempo digerindo tudo isso”.

Piketty encarou o estardalhaço com um sorriso modesto. Vestia um paletó cinza, sem gravata, e, com seu cabelo escuro aparado, o rosto redondo e limpo e uma postura despretensiosa, sugeria menos um astro de rock que um estudante muito empenhado de pós-graduação. Falando por 45 minutos sem parar e sem a ajuda de notas, num inglês ágil, Piketty expôs com zelo suas descobertas. “Os mais ricos ficam de 6 a 7% mais ricos a cada ano, uma velocidade que é três vezes maior que a da economia mundial”, disse ele no Instituto de Política Econômica. “Ninguém sabe onde isso vai parar.”

A aparente simplicidade da tese de Piketty dissimula sua ousadia: a desigualdade é intrínseca ao capitalismo e, se não for combatida com vigor, é provável que ela cresça – e cresça a níveis que ameaçam nossa democracia e bloqueiam o crescimento econômico. Karl Marx fez previsões bem mais sombrias – a desigualdade largada à própria sorte conduziria, em última instância, ao colapso social –, e Piketty toma o cuidado de distanciar seu ponto de vista daquele do apocalipse previsto por Marx. Ainda assim, sua tese caminha na contramão da teoria econômica estabelecida, que postula que a desigualdade tende a diminuir, de acordo com um processo conhecido como “convergência”.

Segundo Piketty, que recolheu dados relativos a renda e riqueza que se estendem por três séculos e vinte países, as forças que propiciam a convergência (a disseminação do conhecimento e da qualificação, por exemplo) são consideráveis, mas, de modo geral, as que provocam divergência levaram a melhor. O cerne de seu argumento resume-se a uma fórmula de simplicidade enganosa: r > g – onde “r” representa a taxa média anual do retorno obtido pelo capital (ou seja, lucros, dividendos, juros e renda de imóveis) e “g”, a taxa de crescimento econômico. Ao longo de grande parte da história moderna, sustenta Piketty, a taxa de retorno obtida pelo capital ficou entre 4 e 5%, ao passo que a taxa de crescimento tem sido bem mais baixa, entre 1 e 2%. (Piketty é convincente ao argumentar ser improvável que o crescimento econômico, que depende em boa parte do crescimento populacional, venha a se acelerar radicalmente em qualquer outra parte do mundo que não seja a África, considerando-se as tendências demográficas atuais.) É daí que ele aduz “a principal força desestabilizadora do capitalismo”: sempre que r > g, “o capitalismo automaticamente gera desigualdades arbitrárias e insustentáveis, que minam de forma radical os valores meritocráticos nos quais se assentam as sociedades democráticas”.

Em outras palavras: numa economia de crescimento lento, a riqueza acumulada cresce mais depressa que a renda proveniente do trabalho. Assim, os ricos, já detentores da maior parte da riqueza, se tornarão mais ricos, enquanto o resto, que depende sobretudo da renda obtida com seus empregos, terá sorte se conseguir acompanhar a inflação. Hoje, r > g na maioria dos países do mundo desenvolvido, incluindo os Estados Unidos, onde os 10% mais ricos detêm mais de 50% da renda nacional. Se Piketty estiver certo, os Estados Unidos podem estar se tornando rapidamente o pior caso em escala mundial. Por todo o Ocidente, escreve ele, “os níveis de desigualdade crescem a uma taxa insustentável em longo prazo, o que deveria preocupar até os mais ardorosos defensores do mercado autorregulável”. (No quadro traçado por Piketty, o mercado autorregulável é, por definição, um regime do r > g: “Quanto mais perfeito o mercado de capitais” – como o entendem os economistas –, “maior é a probabilidade de r ser maior que g.”) Impressionado com essa justaposição de r e g, Solow comentou: “Que eu saiba, ninguém atentou para isso antes.”

A exceção digna de nota ao reinado do r > g é o período que se estende de 1945 a 1970, a chamada “época de ouro” do capitalismo, também conhecida como “a grande compressão”, em que as economias da Europa Ocidental e dos Estados Unidos se expandiram e a desigualdade diminuiu. Não é por acaso, Piketty sugere, que esse período deu origem ao credo otimista da disciplina econômica moderna: o livre mercado gera dividendos para todos. Esse mantra, ele insiste, baseia-se numa ilusão. Vista em seu contexto histórico, a “era de ouro” revela-se uma aberração – uma exceção passageira ao sombrio domínio do r > g. Duas guerras mundiais e a Grande Depressão, acompanhadas por uma tributação “confiscatória” imposta aos ricos para pagar pelo esforço da guerra, reduziram bastante muitas fortunas familiares, diminuindo, assim, temporariamente a diferença entre as classes alta e baixa. Enquanto a teoria da convergência afirmou que a desigualdade descreve uma curva em forma de sino, declinando à medida que a economia amadurece, Piketty descobriu que acontece o contrário: a desigualdade no século XX descreve uma curva de sino invertida – isto é, em forma de U –, cuja escalada íngreme não mostra agora nenhum sinal de arrefecimento.

Deslumbradas, ao que parece, com os argumentos apresentados no livro, poucas resenhas mencionaram o ataque que ele contém à economia como disciplina. O desdém de Piketty, no entanto, é inequívoco; ele se revela no lamento de um estudioso há muito afastado do núcleo central e estabelecido de sua profissão. “Há tempo demais”, escreve ele, “os economistas têm buscado se definir com base em seus métodos supostamente científicos. Na verdade, esses métodos se apoiam no emprego desmesurado de modelos matemáticos que, com frequência, nada mais são que uma desculpa para marcar terreno e mascarar o vazio do conteúdo. Um excesso de energia foi e continua sendo gasto em especulações puramente teóricas, sem uma demarcação clara dos fatos econômicos que se tenta explicar e dos problemas sociais e políticos que se tenta resolver.”


O primeiro artigo publicado por Piketty apareceu no Journal of Economic Theory em 1993, quando ele tinha 22 anos. O artigo consistia em um modelo matemático para a definição da melhor tabela possível de imposto de renda. Continha abundantes referências à teoria dos jogos, ao ótimo de Pareto e aos equilíbrios bayesianos. Estudante precoce de matemática, Piketty entrara para uma escola de elite, a École Normale Supérieure de Paris, aos 18 anos; ao fazer 22, tinha um PhD em economia e ofertas de emprego do MIT, de Harvard e da Universidade de Chicago. “Estavam muito entusiasmados porque eu era uma máquina de provar teoremas, e eles gostavam disso”, me disse. Escolheu o MIT e se mudou para Cambridge, no estado de Massachusetts, onde permaneceu apenas dois anos.

Piketty gostava de morar nos Estados Unidos e dos colegas do MIT, e achava estimulante dar aulas para estudantes de pós-graduação, a maioria mais velha que ele. “Eu estava muito feliz, mas, ao mesmo tempo, achava que tinha alguma coisa estranha acontecendo”, ele contou. O problema, Piketty logo concluiu, era que ele “não sabia coisa nenhuma de economia”.

Thomas Piketty continuou publicando fórmulas sobre distribuição de renda, mas se perguntava cada vez mais como era a desigualdade no mundo real. Como ela se desenvolvera ao longo do tempo? “Percebi que havia muitos dados à disposição que nunca tinham sido usados de forma sistemática”, conta. Como estudante, ele interessara-se tanto por história e sociologia como por economia, e admirava a obra de Pierre Bourdieu, Fernand Braudel e Claude Lévi-Strauss. Seus pais, que nunca terminaram o colégio, tinham participado dos protestos estudantis de 1968 e, ainda adolescente, Piketty passara um verão trabalhando para o avô, “um empresário com uma ética capitalista muito forte” que tinha uma pedreira nas proximidades de Paris. Mas influência ainda maior em seu desenvolvimento, ele acredita, veio dos acontecimentos dramáticos no Leste Europeu. No ano em que entrou na École Normale, caiu o Muro de Berlim, e, ao se formar, também a União Soviética já havia desmoronado. “Para mim, a pergunta natural e importante era: o que podemos dizer sobre desigualdade e justiça social e sobre a dinâmica da distribuição no regime capitalista? Por que é que em determinado momento as pessoas acharam que o comunismo era necessário?”

Os colegas de Piketty demonstravam pouco interesse pela pesquisa histórica. “O que achei bastante surpreendente no MIT foi que, às vezes, havia um nível de arrogância inacreditável em relação a outras disciplinas das ciências humanas”, afirma. “No caso da distribuição de renda, que era o que me interessava, quase não dispúnhamos de fatos históricos que conhecêssemos bem. Achava muito espantoso o abismo entre a autoconfiança dos economistas e os feitos reais de seu ofício.”

Ou, nas palavras de Branko Milanovic, entusiasta de primeira hora do livro de Piketty e especialista do Centro de Estudos de Renda da City University de Nova York (CUNY): “Os modelos matemáticos têm essa coisa estéril; não se baseiam na realidade, e sim naquilo que alguém imagina ser o comportamento das pessoas. A economia perdeu o gosto pelas grandes questões. Mergulhamos em questões minúsculas, e o exemplo extremo disso é o livro Freakonomics, que trata do comportamento de lutadores de sumô e da razão pela qual traficantes de drogas moram com a mãe. Temos 25% de desemprego na Espanha, e vamos discutir lutadores de sumô?”



Em certo sentido, críticas à disciplina não são nenhuma novidade. Economistas, uma gente muito falante, parecem ocupar espaço desproporcional na blogosfera e gastam um bocado de tempo em acalorados debates metodológicos. Em uma briga muito comentada ocorrida no mês de março, Paul Krugman e Lars P. Syll, economista da Universidade de Malmö, na Suécia, postaram visões divergentes sobre o modelo IS-LM, que há décadas tem sido o esteio da teoria macroeconômica. Syll descartou o modelo como um “dispositivo de uma tolice brilhante”. Krugman o defendeu como “uma simplificação da realidade, projetada para facilitar a compreensão de certas questões específicas, um modelo que, desde 2008, tem, sim, cumprido seu papel com brilhantismo”. (Numa postagem posterior a respeito do assunto, Krugman foi mais circunspecto: “A gente deve usar modelos, mas também deve se lembrar de que são modelos e sempre tomar cuidado com conclusões que dependam demais das premissas simplificadas.”)

Ainda assim, trocar farpas online é uma coisa; outra, bem diferente, é alguém apresentar suamagnum opus como ato de sublevação metodológica. Piketty deixa claro:O Capital no Século XXI é sua ideia de como um estudo de economia deveria ser, ou seja, é preciso combinar análises de questões macro (crescimento) e micro (distribuição de renda); o trabalho deve estar fundado em abundantes dados empíricos e entremeado de referências sociológicas, históricas e literárias; e deve, ainda, economizar na matemática. Em sua escala e em seu alcance, o livro lembra as obras fundadoras da economia clássica: Ricardo, Malthus e Marx, a cujo tratado sobre o capitalismo o título de Piketty alude. A extensa literatura recente sobre vários aspectos da desigualdade mal é mencionada. “Tem uma boa quantidade de trabalhos empíricos por aí”, diz James K. Galbraith, da Universidade do Texas, que estuda desigualdade salarial e publicou na revista Dissent uma das poucas resenhas céticas a respeito do livro de Piketty até o momento. “Ele tende a citar com deferência pensadores do mainstream e ignora as críticas já feitas a esses economistas.”

Romances de Jane Austen, Balzac e Henry James, por outro lado, têm um segmento só para si no livro. Piketty chega ao ponto de extrapolar de uma leitura atenta de um romance de Balzac, O Pai Goriot, um fenômeno que chama de “dilema de Rastignac”, referindo-se ao fato de que, ao longo de todo o século XIX, unir-se pela via do matrimônio a uma família detentora de riqueza herdada constituía rota muito mais segura para uma vida confortável que tentar subir na vida por meio do talento próprio, da educação e do trabalho duro. Hoje, escreve Piketty, séries de tevê em horário nobre, como House, Bones e The West Wing, “são estreladas por heróis e heroínas carregados de diplomas e altas qualificações” e parecem celebrar “uma desigualdade justa, baseada no mérito, na educação e na utilidade social das elites”. Mas isso, afirma ele, não passa da expressão fantasiosa de um desejo: o número das heranças gigantescas caiu desde a Belle Époque e, no entanto, na Europa – assim como, em menor grau, nos Estados Unidos – o montante da riqueza herdada retornou ao nível daquela época. Na visão de Piketty, isso tem o efeito de distorcer nossa democracia.

Não há dúvida de que a eloquência acessível do livro tem beneficiado sua recepção. Ao destacar-lhe a veia irônica, um crítico já comparou as notas de Piketty às do historiador inglês Edward Gibbon. (Um típico comentário: “Entre os membros desses grupos de maior renda estão acadêmicos e economistas norte-americanos, muitos dos quais acreditam que a economia dos Estados Unidos está funcionando razoavelmente bem e, em particular, que ela recompensa o talento e o mérito de maneira correta e precisa.”) Mas Piketty foi favorecido também por um timing excelente.


Depois de deixar o MIT, em 1995, ele voltou a Paris e passou os três anos seguintes nos arquivos que ficam no porão do Ministério das Finanças francês, coletando e selecionando dados relativos a renda, herança e legislação tributária em pastas caindo aos pedaços. O resultado dessa pesquisa foi o livro Les Hauts Revenus en France au XXe Siècle: Inégalités et Redistributions,1901–1998 [As rendas altas na França do século XX: desigualdades e redistribuição, 1901–1998]. Foi nele que, pela primeira vez, Piketty identificou a curva em forma de U que descreve a desigualdade na França do século passado. Ele diz que não teria escrito o livro se tivesse ficado no MIT, ou pelo menos não antes de obter uma cátedra vitalícia. “Eu quis voltar à França porque queria ficar mais perto de historiadores e sociólogos”, conta. “Meu sentimento era o de que, se ficasse no MIT, teria incentivos muito fortes para continuar fazendo aquilo em que eu era bom, ou seja, teoremas matemáticos.”

Piketty enviou esse primeiro livro a Anthony Atkinson, eminente estudioso da desigualdade de renda que trabalhava na Universidade de Oxford e é, desde então, seu colaborador. Atkinson propôs que ele estendesse seus estudos a outros países. Piketty retornou ao MIT por um semestre em 2000 e, enquanto estava lá, recrutou um então estudante de pós-graduação em economia, Emmanuel Saez, para colaborar com ele num estudo de dados de renda dos Estados Unidos. Outros estudiosos da distribuição de renda tendiam a se basear sobretudo em pesquisas domiciliares, em que o próprio pesquisado fornecia a informação. Piketty se valeu das declarações de imposto de renda, que, introduzidas em 1913, oferecem um quadro bem mais exato da renda no topo da pirâmide.

Ele não foi o primeiro a usar esses dados. Simon Kuznets, autor na década de 50 da influente teoria de que a desigualdade tendia a declinar, também se baseou em declarações de imposto de renda. Seus dados, porém, cobriam apenas o período de 1913 a 1948 – quando a desigualdade caiu. O próprio Kuznets foi mais cuidadoso quanto ao valor de sua “curva de Kuznets” – em forma de U invertido – do que muitos de seus seguidores, segundo Piketty influenciados pela geopolítica da Guerra Fria.

“Quando a competição entre os modelos soviético e capitalista era muito forte, as pessoas no Ocidente queriam muito acreditar que economias de mercado eram capazes de reduzir a desigualdade e equilibrar a distribuição de renda e da riqueza”, Piketty me disse.

Com modéstia característica, ele sugeriu que sua principal vantagem como economista foi ter pertencido a uma geração para a qual “o conflito entre comunismo e capitalismo na verdade não existe mais”. Contudo, para muitos dos discípulos de Kuznets o fim da União Soviética parece ter reforçado sua crença. Em 2011, um comitê de economistas de ponta elegeu o artigo de 1955, em que Kuznets apresentou sua famosa curva, um dos vinte textos mais influentes já publicados naAmerican Economic Review.

A inovação de Piketty foi expandir o trabalho de Kuznets para outras décadas e outros países, numa época em que a maioria dos economistas, quando se baseava em dados empíricos, concentrava-se em algumas poucas décadas e, de modo geral, em salários, e não em riqueza. Ou então obtinha seus dados por intermédio de amostras controladas, e não pela via da pesquisa histórica. “O que é de fato bastante estranho é que ninguém tenha feito isso antes”, diz Piketty sobre a abrangência de sua análise. “É história demais para os economistas, e economia demais para os historiadores. Uma espécie de terra de ninguém em termos acadêmicos.”

Em 2003, Piketty, então catedrático da École des Hautes Études en Sciences Sociales, e Emmanuel Saez publicaram suas descobertas sobre a desigualdade de renda nos Estados Unidos. Mais uma vez, os dados indicavam uma curva em U ao longo do século XX. (Se a análise de ambos subestimou alguma coisa, diz Piketty, foi a taxa de desigualdade atual, dado que muitos dos principais detentores de capital levam sua riqueza para paraísos fiscais, onde ela não é declarada).

De início, o trabalho ensejou poucos comentários. Naquele mesmo ano, Robert E. Lucas Jr., economista da Universidade de Chicago agraciado com o prêmio Nobel, declarava que “entre as tendências prejudiciais a uma ciência econômica sólida, a mais sedutora, e na minha opinião a mais insidiosa, é concentrar-se em questões de distribuição”. Lucas, um entusiasta da chamada economia de oferta – segundo a qual quanto menos impostos e regulação, maior o estímulo ao investimento e à produção –, pregava a fé nos benefícios de longo prazo do crescimento econômico. “O potencial de melhoria da vida dos pobres que deriva da busca de meios diferentes de distribuir a produção atual não é nada, se comparado ao potencial aparentemente ilimitado de aumentar a produção.”

Cinco anos depois, com o colapso do mercado imobiliário e as revelações das práticas de empréstimos predatórios e das recompensas estratosféricas pagas aos executivos dos bancos de investimentos, a desigualdade virou notícia. No início de 2009, num resumo do Orçamento que seria proposto ao Congresso, o governo Obama apresentou um gráfico extraído da pesquisa de Piketty e Saez, mostrando a íngreme escalada da renda nacional nas mãos do 1% mais rico. O Wall Street Journal batizou o gráfico de “a pedra de Roseta da mente do presidente Barack Obama”, ajudando, assim, a disseminar a ideia (sem dúvida exagerada) da influência de Piketty e Saez na Casa Branca.

Em maio de 2011, o economista da Universidade Columbia Joseph E. Stiglitz relatou à revistaVanity Fair que, nos Estados Unidos, o 1% mais rico controlava 40% da riqueza do país, tornando esse “1%” expressão corrente e um sonoro epíteto do movimento Occupy, que tomou impulso naquele outono. Dois anos depois, Robert Reich, ex-secretário do Trabalho e hoje catedrático em Berkeley, citou o trabalho de Piketty e Saez em seu famoso documentário Desigualdade para Todos (no qual Saez faz uma breve aparição).

Por volta de dezembro do ano passado, quando se começou a falar no livro de Piketty, então já publicado na França, a desigualdade como tópico político havia passado por sua própria transformação: de obsessão predileta da esquerda liberal americana tornou-se prioridade tanto para democratas como para republicanos. Naquele mês, Barack Obama dedicou um discurso importante ao tema, caracterizando a desigualdade como “o desafio decisivo de nossa época”. Republicanos proeminentes – incluindo-se aí o líder da maioria na Câmara, Eric Cantor, e o senador Marco Rubio – logo seguiram o exemplo e fizeram discursos que mencionavam, ainda que com cautela, a desigualdade de renda. A Comissão de Finanças do Senado promoveu uma audiência sobre o sofrimento da classe média.

Se O Capital no Século XXI vai sobreviver a seu lançamento espetacular e se tornar inspiração para futuros estudos – para não falar em futuras políticas públicas –, isso dependerá em parte de como os dados de Piketty e sua interpretação resistirão ao tempo. Os resmungos contra o livro que se ouvem aqui e ali ainda não se reuniram numa refutação de peso. (Kevin Hassett, economista do American Enterprise Institute, um centro de estudos conservador, participou de um painel com Piketty em Washington e argumentou que, quando se levam em conta as transferências governamentais feitas a grupos de menor renda nos últimos trinta anos – em comida e subsídios diversos –, essas transferências virtualmente compensariam o aumento de renda dos 20% mais ricos. Piketty respondeu: “É verdade que houve um grande aumento nas transferências. Mas me surpreende que alguém como o senhor, no AEI, fique feliz com a ideia de que transferências estejam diminuindo a desigualdade.”) Mesmo detratores concordam a respeito do valor inestimável da World Top Incomes Database, a base de dados sobre a concentração de renda no topo da pirâmide social que Piketty e seus colaboradores reuniram na Escola de Economia de Paris, onde ele agora leciona. No momento, ela cobre trinta países e é, de longe, a maior base de dados internacional sobre desigualdade.

Menor chance de sobrevivência tem o remédio proposto por Piketty para a desigualdade: um imposto progressivo global sobre a riqueza para fortunas acima de 1 milhão de euros, ou cerca de
3 milhões de reais.

Em Washington, cidade em que se definem políticas, os comentadores da obra de Piketty queriam discutir soluções, embora muitos tenham descartado a proposta dele e aproveitado a oportunidade para promover suas próprias ideias. Até mesmo Piketty reconhece que aplicar um imposto global sobre a riqueza exigiria níveis inéditos de cooperação internacional e, pelo menos nos Estados Unidos – onde muitos acreditam que impostos mais altos levam a um crescimento menor –, a superação de uma ferrenha oposição política. Ainda assim, em seu livro ele faz uma defesa apaixonada dessa proposta, assinalando que os Estados Unidos, afinal, inventaram a tributação confiscatória – em 1919, quando o Congresso aprovou uma alíquota máxima de 77% no imposto de renda, sob o argumento de que rendas e patrimônios gigantescos eram “inaceitáveis, do ponto de vista social, e economicamente improdutivos”. (Hoje, a alíquota máxima é de cerca de 40%.)

Recentemente, a ideia de Piketty ganhou o impulso indireto de um estudo publicado em fevereiro pelo Fundo Monetário Internacional, que está longe de ser uma instituição radical. Esse estudo, uma análise da desigualdade de renda que abrange diversos países, descobriu não apenas que há “pouca evidência de que medidas redistributivas típicas” – impostos e crédito – “tenham, em média, efeito adverso sobre o crescimento”, mas também que baixa desigualdade em geral se associa a crescimento mais rápido. Como me disse em um e-mail Jonathan D. Ostry, o principal autor desse estudo, “essa lógica de fato contribuiu para abrir nossos olhos”.


Na quarta-feira, dia 16, Piketty estava à noite em Nova York, onde participou de um painel na CUNY com mais ganhadores do Nobel: Joseph Stiglitz (que ganhou o prêmio duas vezes) e Paul Krugman, além de Steven Durlauf, economista da Universidade de Wisconsin-Madison. Duas dúzias de jornalistas estavam no auditório. O interesse da mídia por Piketty era tanto que uma parte dos assentos foi reservada a ela, e uma sala de imprensa foi preparada para que o entrevistassem ao final do evento.

Mais cedo, Piketty estivera no Conselho de Relações Exteriores e na ONU. Na CUNY, porém, estava entre seus pares: os acadêmicos. Parecia muito contente. “Os Estados Unidos inventaram a tributação progressiva em grande parte porque não queriam se parecer com a Europa, dominada por classes”, disse ele, enquanto, ainda sem gravata, mas com um sorriso largo, projetava para a plateia um gráfico feito em PowerPoint que mostrava as flutuações da alíquota máxima do imposto de renda.

Os demais membros do painel fizeram efusivos elogios. “É um livro fantástico!”, exultou Krugman. “Ele resolve problemas que vêm preocupando as pessoas há décadas.” Stiglitz, em tom de lamento, declarou: “Alguns de nós nos especializamos num momento particular da curva que ele apresenta, quando as coisas pareciam ir muito bem. Isso nos deu uma imagem distorcida do mundo.”

Eufóricos com as ideias de Piketty sobre desigualdade, os participantes chapinharam aqui e ali por terreno mais técnico – modelos estocásticos e a teoria da produtividade marginal foram invocados mais de uma vez. Mas estavam igualmente ansiosos para discutir o remédio proposto, o imposto global sobre a riqueza. “Nós tivemos aqui decisões da Suprema Corte que afirmam que as grandes empresas têm o mesmo direito que as pessoas quando se trata de financiar a política, mas não têm deveres equivalentes quando se trata de responderem pelo que fazem. Não vai ser uma batalha fácil”, observou Stiglitz. Krugman citou o discurso de Theodore Roosevelt “O novo nacionalismo”, de 1910, que clama por impostos progressivos sobre “grandes fortunas”. Esse discurso, sugeriu Krugman, é um motivo para se ter esperança de que os americanos venham, um dia, a retomar o combate à desigualdade. “A visão pessimista é a de que a diminuição da desigualdade no século XX foi, em sua totalidade, o resultado de guerras”, disse Krugman. “Mas, na verdade, Roosevelt fez esse discurso antes da guerra, o que significa que um sistema político democrático, que acredita em ideais, é capaz de se reformar também na ausência de catástrofes.”

Piketty ainda estava sorrindo quando deixou o palco. Uma sala cheia de jornalistas esperava por ele e, depois, um jantar chique. Em seguida, ele estaria na estrada - próxima parada, Boston.

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