John Quiggin
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| Aleksandr Kerensky inspecionando as tropas em 1917. Keystone/Gamma, via Getty Images |
Brisbane, Australia — A Revolução de Fevereiro é um dos grandes momentos da história do tipo "e se...". Se essa revolução — que na verdade ocorreu no início de março de 1917, segundo o calendário gregoriano do Ocidente (a Rússia só adotou esse calendário mais tarde) — tivesse conseguido estabelecer uma democracia constitucional em substituição ao império czarista, como seus líderes esperavam, o mundo seria um lugar muito diferente.
Se a principal figura do governo provisório, Aleksandr Kerensky, tivesse aproveitado uma oportunidade surgida de uma votação hoje esquecida no Reichstag alemão, a Primeira Guerra Mundial poderia ter terminado antes mesmo de as tropas americanas chegarem à Europa. Nessa história alternativa, Lenin e Stalin seriam figuras obscuras de rodapé, e Hitler nunca teria passado de um pintor fracassado.
Em fevereiro de 1917, após mais de dois anos de uma guerra sangrenta e inútil, seis milhões de soldados russos estavam mortos, feridos ou desaparecidos. A escassez na frente interna aumentava. Quando o governo do czar Nicolau II anunciou o racionamento de pão, dezenas de milhares de manifestantes — muitos deles mulheres — tomaram as ruas de São Petersburgo. Greves eclodiram por todo o país. O czar tentou reprimir os protestos pela força, mas suas ordens ao exército resultaram em motins ou foram simplesmente ignoradas.
No início de março, a situação tornou-se insustentável: Nicolau abdicou, pondo fim à dinastia Romanov.
O vácuo criado pelo colapso da autocracia foi preenchido, em parte, por um governo provisório — formado por grupos de oposição da Duma (ou Parlamento), que antes não detinha poder real — e, em parte, por conselhos de trabalhadores, conhecidos como sovietes. Inicialmente, a iniciativa coube ao governo provisório, que parecia personificar as esperanças da maioria do povo russo.
A mais imediata dessas esperanças — a substituição da autocracia por uma democracia constitucional — estava inscrita no próprio nome do partido que assumiu o poder após a Revolução de Fevereiro. Os Democratas Constitucionais, ou "Cadetes" — surgidos de uma revolução fracassada em 1905 —, eram liberais moderados que contavam com apoio significativo de intelectuais e da classe média urbana. O príncipe Georgi Lvov, um aristocrata de meia-idade, tornou-se primeiro-ministro, mas era visto, em geral, apenas como uma figura decorativa. O líder dos Cadetes e ministro das Relações Exteriores, Pavel Milyukov, foi a figura dominante nos primeiros dias da revolução.
Os Cadetes eram o mais moderado dos partidos que disputavam o poder na esteira da Revolução de Fevereiro. À esquerda deles estavam os Social-Revolucionários que, apesar do nome de sonoridade radical, constituíam um grupo relativamente moderado e democrático, concentrado principalmente no desmembramento das grandes propriedades feudais e na redistribuição de terras aos camponeses. De forma ainda mais confusa para uma perspectiva moderna, os verdadeiros revolucionários eram conhecidos como Social-Democratas — termo hoje utilizado por partidos europeus de centro-esquerda moderada.
Os Social-Democratas dividiam-se, por sua vez, em duas facções cujos nomes também eram enganosos. A menor, liderada por Vladimir Lenin, atendia pelo nome de Bolcheviques (ou socialistas da maioria), enquanto o grupo maior — que incluía a maioria dos líderes de destaque, à exceção de Lenin — era o dos Mencheviques (socialistas da minoria). Ao reivindicar para seu grupo o título de "maioria" após vencer uma votação processual de menor importância, Lenin antecipou a determinação e a implacabilidade que o conduziriam ao poder supremo.
Esses eram apenas os maiores grupos. Anarquistas, sindicalistas e um grupo de esquerda especificamente judaico — os Bundistas — competiam entre si, combatiam-se mutuamente e, por vezes, formavam alianças uns com os outros.
Quando a guerra eclodiu na Europa, no verão de 1914, a maioria desses grupos — apesar de sua oposição ao regime czarista — apoiou o que considerava uma guerra defensiva, provocada pela agressão das Potências Centrais: Alemanha e Áustria-Hungria. Nesse aspecto, eles se assemelhavam à maioria dos partidos socialistas e social-democratas europeus, que abandonaram seu internacionalismo declarado e se uniram em torno das bandeiras de seus respectivos governos nacionais.
Entre a minoria de líderes políticos que se opunham à guerra, o mais importante era Lenin, juntamente com os líderes da ala de esquerda dos mencheviques, Yuli Martov e Leon Trotsky — todos eles no exílio. De Zurique, onde estava exilado, Lenin pouco podia fazer além de escrever denúncias contra os "social-chauvinistas" que apoiavam a guerra.
À medida que a guerra se prolongava, no entanto, o apoio diminuía tanto na classe política quanto entre o povo russo. A Ofensiva Brusilov de 1916, aclamada na época como uma grande vitória, terminou com cerca de um milhão de russos mortos ou feridos, sem alterar substancialmente o curso da guerra. A decisão do Czar Nicolau de assumir o comando pessoal das forças armadas russas resultou em desastres ainda maiores, desacreditando tanto Nicolau quanto a monarquia como um todo.
O rápido colapso do regime não foi, portanto, surpreendente. Mas, ao chegar ao poder de forma tão repentina, o governo provisório deparou-se com o problema habitual dos regimes revolucionários: como satisfazer as expectativas, muitas vezes contraditórias, das pessoas que o haviam conduzido ao poder.
O governo provisório introduziu rapidamente reformas que teriam parecido profundamente transformadoras em tempos de paz, instituindo o sufrágio universal e as liberdades de expressão, reunião, imprensa e religião, além de atender às demandas das muitas minorias nacionais que compunham grande parte da população do Império Russo. No entanto, nada disso proporcionou as três coisas que o povo mais desejava: paz, pão e — para os camponeses — terra.
Dentre essas falhas, a mais significativa foi a incapacidade de alcançar a paz. A guerra continuou e, em abril, veio à tona que Milyukov havia enviado um telegrama aos governos britânico e francês prometendo a continuidade do apoio russo. Ele perdeu o cargo pouco depois, e o líder socialista-revolucionário Kerensky surgiu como seu sucessor.
Apesar das lições óbvias extraídas da queda de Milyukov, Kerensky também deu continuidade à guerra. Após visitar o front, ele conseguiu mobilizar as tropas exaustas para mais uma ofensiva. Apesar de alguns sucessos iniciais, a Ofensiva Kerensky estagnou, resultando em pesadas baixas e repetindo o padrão sombrio da Primeira Guerra Mundial.
Tropas convocadas do front por Aleksandr Kerensky para reprimir uma revolta em 1917. Bridgeman Images
O auge da autoridade de Kerensky ocorreu durante as Jornadas de Julho, uma manifestação de massa organizada pelos bolcheviques, mas derrotada por forças leais ao governo. Com o fracasso do protesto das Jornadas de Julho, Kerensky consolidou sua posição ao assumir o cargo de primeiro-ministro, substituindo Lvov.
Quase simultaneamente, em Berlim, os partidos socialistas e social-democratas lamentavam a decisão de apoiar a guerra. Os alemães estavam tão exaustos do conflito quanto os russos, enfrentando baixas terríveis e escassez generalizada provocada pelo bloqueio dos Aliados. Uma resolução aprovada por ampla maioria no Reichstag — o parlamento alemão — clamava por uma paz "sem anexações nem indenizações", ou seja, um retorno à situação vigente antes da eclosão da guerra.
Nesse momento, contudo, a Alemanha era, na prática, uma ditadura militar. O poder estava nas mãos do Alto Comando, liderado pelos generais Ludendorff e Hindenburg — ambos desempenhariam, mais tarde, papéis de destaque na ascensão de Hitler ao poder. Como era de se esperar, Ludendorff e Hindenburg ignoraram a moção do Reichstag.
O que surpreende quem assimilou a visão convencional dos vencedores — segundo a qual os Aliados travavam uma guerra defensiva para libertar pequenos Estados — é que a Grã-Bretanha não foi sincera quanto aos seus objetivos de guerra, enquanto a França sequer os declarou. A razão é que tais objetivos eram inconfessáveis. Em uma série de tratados secretos, as potências concordaram em dividir, em caso de vitória, os impérios de seus inimigos derrotados.
Do ponto de vista russo, o grande prêmio era a capital turca, Constantinopla (atual Istambul); essa cidade havia sido prometida à Rússia em um acordo secreto de 1915. A divulgação posterior desse e de outros tratados secretos pelos bolcheviques contribuiu significativamente para desacreditar a causa dos Aliados.
Kerensky poderia ter repudiado os acordos firmados pelo Império Czarista e anunciado sua disposição de aceitar a fórmula do Reichstag de paz sem anexações nem indenizações. É possível que o Alto Comando alemão tivesse ignorado a oferta e continuado a lutar (como de fato ocorreu quando os bolcheviques propuseram os mesmos termos após a Revolução de Outubro, no final de 1917). No entanto, as circunstâncias em julho eram muito mais favoráveis do que no final de 1917. Como demonstrou a ofensiva de Kerensky, o Exército Russo, embora desmoralizado, ainda era uma força de combate eficaz, e a linha de frente estava muito mais próxima do território das Potências Centrais. Além disso, Kerensky desfrutava de credibilidade junto aos Aliados Ocidentais, algo que ele poderia ter aproveitado com sucesso.
A determinação de Kerensky em continuar a guerra foi um desastre. Em poucos meses, as forças armadas estavam em revolta aberta. Lenin — transportado através da Alemanha em um trem lacrado, com a anuência do Alto Comando e na esperança de que ajudasse a tirar a Rússia da guerra — aproveitou a oportunidade. O governo provisório foi derrubado pelos bolcheviques na Revolução de Outubro. Essa Revolução Bolchevique relegou a Revolução de Fevereiro ao esquecimento histórico.
Após aceitar um tratado humilhante imposto pelos alemães, a Rússia logo se viu envolvida em uma guerra civil ainda mais sangrenta e brutal do que a própria Primeira Guerra Mundial. Ao final do conflito, o governo bolchevique — inicialmente concebido como uma democracia operária — havia se tornado, na prática, uma ditadura, possibilitando a ascensão de um bolchevique até então pouco conhecido, Josef Stalin, que viria a se tornar um dos grandes tiranos da história. Por outro lado, a rejeição da paz pelo Alto Comando alemão levou, da mesma forma, à derrota, à humilhação nacional e à ascensão do outro grande tirano do século XX: Adolf Hitler.
Não é possível afirmar se uma resposta positiva de Kerensky à iniciativa de paz do Reichstag teria surtido algum efeito. Contudo, é difícil imaginar um desfecho pior do que aquele que realmente ocorreu. Os anos de derramamento de sangue inútil, que levaram a Rússia a duas revoluções, revelaram-se apenas uma prévia das décadas de totalitarismo e guerra total que estavam por vir. O fracasso de Kerensky foi uma das grandes oportunidades perdidas da história.
John Quiggin é professor de economia na Universidade de Queensland.
Este artigo faz parte de uma série sobre o legado e a história do comunismo, 100 anos após a Revolução Russa.

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