26 de outubro de 2021

Retrato de uma extrema direita vernácula

A exemplo de Jair Bolsonaro em 2018, a candidatura do direitista chileno José Antonio Kast se alimenta da frustração das classes médias e faz uma defesa aberta da ditadura militar.

Fernando de la Cuadra




Tradução / A comparação entre Jair Bolsonaro e José Antonio Kast como dois fiéis representantes da extrema direita na América Latina é bastante recorrente, equiparando-se tanto a uma espécie de atualização da matriz ideológica e sociopolítica fascista quanto a uma derivação contemporânea do que o escritor e o semiólogo italiano Umberto Eco teria denominado de “fascismo eterno” ou “ur-fascismo”.

A rigor, o fascismo de Bolsonaro é um tanto sui generis e, em uma parte importante, inclui os aspectos apontados por Eco e não os traços do fascismo tradicional instalado na Itália a partir dos anos 1920 (especificamente em 1922, após a Marcha sobre Roma). O fascismo de Mussolini e seus seguidores teve forte cunho nacionalista, alimentado pela narrativa de reconstruir o “Império” e retomar o poder das colônias ultramarinas, como era o projeto expansionista da invasão da Etiópia em 1935.

Pelo contrário, o programa bolsonarista é caracterizado por um nacionalismo orgulhoso e por sua submissão quase absoluta aos interesses de grandes corporações multinacionais – especificamente, aos desmandos dos Estados Unidos, que foi ainda mais acentuado durante o governo de Donald Trump, o verdadeiro herói para o ex-capitão.

Ainda hoje, com Trump já fora da Casa Branca, continuam a ser observadas manifestações de evidente submissão aos desígnios do norte, facilitando a penetração do capital empresarial no espaço brasileiro, principalmente na exploração de recursos naturais em vastos territórios da nação.

O nacionalismo do Bolsonaro é apenas uma fachada: foi criado intencionalmente para vender a imagem de fiador dos interesses nacionais, quando na realidade promove a mais abjeta rendição da soberania nacional aos interesses dos conglomerados estrangeiros. Parte de seu projeto, rejeitado pelas próprias Forças Armadas, consistia em instalar uma série de bases militares dos Estados Unidos em território brasileiro, tornando-se mais uma barreira para conter os possíveis inimigos do “Império Americano” no estilo da Colômbia.

Quanto ao vínculo entre o Estado, a classe trabalhadora e os sindicatos, sabe-se que o regime de Mussolini suprimiu a capacidade de mobilização dos trabalhadores por meio da cooptação dos sindicatos, onde as direções sindicais eram submetidas aos desígnios de uma autoridade central, promovendo a verticalização, o controle e a disciplina dos operários. Havia, portanto, uma ligação orgânica e estreita entre o Estado fascista e o proletariado.

Nada disso ocorreu – ou mesmo foi tentado – durante o governo Bolsonaro. Apesar de sua intenção de restringir os direitos sindicais, o bolsonarismo se relaciona de forma desarticulada com os trabalhadores, seduzindo um pequeno número de lideranças sem nenhum impacto para a classe como um todo. A destruição das bases sindicalizadas tem ocorrido pelos processos de flexibilização, precarização e pelo chamado “empreendedorismo” de agentes individuais que buscam – fragmentados e por conta própria – sua inserção em uma estrutura de trabalho que poderia ser definida, segundo Zygmunt Bauman, quanto mais gelatinoso, mais líquido.

Este fenômeno foi estudado em profundidade por Ricardo Antunes, María Moraes Silva, Rui Braga, Giovanni Alves e outros autores, como já destacamos em outro artigo. No cenário atual, o que existe é um trabalhador “independente”, individualizado, precário e autônomo que não mantém vínculo contratual com nenhuma indústria, que atua principalmente na informalidade e que, portanto, não configura nenhuma associação ou entidade que represente os seus interesses. Esta situação não é nova, mas reflete uma tendência que marca uma clara diferença entre a condição da classe trabalhadora em tempos de fascismo italiano e a situação atual, que pode ser resumida em seu caráter frágil, disperso e atomizado.

Nem o bolsonarismo representa um projeto político consistente, ao contrário, parece um amontoado amorfo de preconceito, fundamentalismo pentecostal e fúria irracional contra sistemas de representação política. Expressa-se através de formas autoritárias e usa a ameaça para instilar medo na população, embora não tenha a contundência nem a dimensão totalizante do fascismo clássico ou outras expressões mais contemporâneas dele, como as ditaduras latino-americanas do século passado.

Se, como nos adverte Umberto Eco, o totalitarismo é “um regime que subordina todo ato do indivíduo ao Estado e sua ideologia”, certamente nem Bolsonaro nem o candidato da extrema direita chilena, José Antonio Kast, podem representar um modelo de sociedade totalitária, em parte porque o primeiro é demasiadamente tosco para conceber uma ideologia com pretensões de realizar a noção hegeliana de Estado absoluto e o segundo porque, reconhecendo os constrangimentos, quase sempre pretende se passar por expoente de valores pluralistas e democráticos.

O ultradireitismo de Kast não se assemelha à forma clássica de fascismo quando se trata de nacionalismo exacerbado ou de um Estado corporativo e intervencionista. Pelo contrário: Kast segue estritamente os preceitos do neoliberalismo e da defesa do Estado mínimo, como afirma um de seus principais assessores em matéria econômica, José Piñera, tristemente reconhecido como o mentor e promotor de sistemas de aposentadorias baseadas na capitalização individual. Coerente com isso, não concebe a formação de corpos sociais intermediários que funcionem como o eixo articulador entre o Estado autoritário e uma sociedade civil subordinada.

Em vez disso, o projeto de Kast consiste em construir um governo forte, impondo a ordem de cima, usando as prerrogativas que o mandato constitucional pode lhe conferir para reivindicar o monopólio do uso da força para combater as expressões de “caos” e “anarquia” da sociedade chilena. Ele também deve incluir, no mesmo pacote, as mobilizações populares, lutas dos povos indígenas, crime urbano, imigração ilegal, subversão, libertinagem, vandalismo e etc..

Defensor da ditadura militar por suas conquistas na esfera econômica, ele se opõe verbalmente às violações dos direitos humanos, embora existam evidências confiáveis ​​- e não apenas indícios – de que seu pai (ex-soldado nazista) participou do assassinato de camponeses em Paine, uma cidade cerca de cinquenta quilômetros ao sul de Santiago.

Em termos de discurso, Kast é um defensor da democracia. Mas seu desprezo pela diversidade e sua incapacidade de compreender, por exemplo, o conflito entre o Estado chileno e o povo mapuche, impede qualquer possibilidade de que um eventual mandato seu seja regido por procedimentos democráticos, enquanto ele não dá nenhuma garantia – pelo contrário – de ter a capacidade de negociar com quem se opõe à sua visão vertical, hierárquica e elitista da política e da ação do Estado.

Kast sendo uma figura quase imperturbável, comedida e fria, muito menos rude e desenfreada que o presidente brasileiro, não foge dos preceitos morais do ex-capitão: com seu catolicismo cínico, sua fobia de estrangeiros, homossexuais, povos indígenas e o mundo popular em geral. Sob um manto de cordialidade civilizada, Kast é um ultradireitista que não se intimidaria em emitir uma ordem para reprimir violentamente manifestantes ou dissidentes de seu governo, incluindo trabalhadores que fazem uso da greve legal estabelecida pela Justiça do Trabalho.

No eterno caminho fascista

Tanto o ultradireitismo de Bolsonaro quanto o de Kast estão mais próximos do que Umberto Eco definiu como “fascismo eterno” ou “ur-fascismo”. Ou seja, são expressões fascistas de caráter mais ideológico, cultural do que político e econômico. Ambos são “ur-fascistas” no sentido de Eco, uma vez que neles não há nenhum tipo de empatia pelos mais fracos e desamparados; para eles, o mundo pertence aos fortes, aos vencedores, aos dominadores – independentemente dos meios para alcançar o sucesso. Neste tipo de fascismo converge também com o gosto pela tradição, pelos valores nacionais e pela identidade nacional. Kast responde a qualquer pessoa que questione sua origem e estilo alemão dizendo que ele é “um chileno nato”.

Bolsonaro é um tradicionalista que detesta os valores da modernidade e seus processos de individualização. Suas tendências irracional e o desprezo pela ciência se destacam. Sua postura negacionista contra a COVID-19 o afasta de todos os padrões conhecidos até agora: ele não acredita na periculosidade do vírus, é irônico sobre a vacina, não usa máscara e boicota o distanciamento social e recomenda o uso de medicamentos sem comprovação científica para combater o vírus.

O ex-militar faz o oposto das recomendações de especialistas, epidemiologistas, infectologistas e cientistas em geral, inclusive as sugestões da Organização Mundial de Saúde (OMS). Embora Kast aceite alguns parâmetros científicos, sua estrutura mental descarta pensamentos discordantes e diferentes, defendendo uma moralidade retrógrada que se expressa como antimoderna e irracional.

Em certo sentido, as diferenças que existem entre Bolsonaro e Kast são mais na forma do que no conteúdo, já que este tenta convencer os seus seguidores mantendo um perfil mais moderado e limpo, refletindo cuidadosamente sobre o que vai dizer. Já Bolsonaro parece desequilibrado e um cafetão, com suas freqüentes alusões à escatologia e à excrescência humana. Mas, no fundo, ambos desprezam todas as formas de organização cívica e os ganhos obtidos pelos trabalhadores ao longo de décadas de lutas e reivindicações pelo cumprimento de seus direitos trabalhistas. Com maior ou menor efusividade, Bolsonaro e Kast sentem saudades das ditaduras cívico-militares que foram impostas em seus respectivos países, embora o presidente brasileiro o reivindique mais descaradamente o regime ditatorial instaurado após o golpe de 1964.

Ambos se apóiam no fenômeno de fascismo cultural que despreza as expressões da diversidade, a consolidação dos direitos e a emergência da cultura popular de seus países. No caso do fascismo cultural dos brasileiros, percebe-se como para esse segmento que se atribui uma perspectiva elitista da política e da vida: é insuportável para eles que o voto de um operário ou de um camponês valha o mesmo que o voto de um cidadão “esclarecido e informado”.

Com todas as suas peculiaridades e diferenças de estilo, tanto Kast quanto Bolsonaro se alimentam da frustração das classes médias que vêm experimentando uma queda no padrão de vida, visto que, comparativamente, houve uma melhora nas condições das classes subalternas, notando como uma empregada doméstica poderia pagar um voo para o exterior ou como o filho de um trabalhador pode obter um diploma universitário para uma carreira tradicional.

De mãos dadas com uma visão elitista da sociedade, esse fascismo conta com o militarismo e a ameaça permanente às instituições democráticas como forma de chantagem política para impor suas idéias. Apesar da sua perseguição permanente, cabe às maiorias democráticas estarem atentas para se empenharem constantemente no resgate da memória histórica das lutas para bloquear as explosões e perversidades deste paradigma que só traz miséria, destruição e morte para toda a humanidade.

Sobre o autor

Fernando de la Cuadra é sociólogo pela Universidade do Chile, magistrado e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Autor de Intelectuais e pensamento social e ambiental na América Latina (RIL, 2020) e De Dilma a Bolsonaro. Itinerário da tragédia sociopolítica brasileira (RIL, 2021). Editor do blog Socialismo y Democracia (http://fmdelacuadra.blogspot.com/).

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