8 de junho de 2023

Anseio por cruzadas

A ideologização da guerra.

Marco D'Eramo



Tradução / Se alguém, em um futuro distante, decidir "procurar a causa imediata que levou a uma guerra tão extensa”, descobrirá que "o motivo real, verdadeiro, mas não reconhecido... foi o crescimento do poder de um lado e o medo do outro". As partes em conflito aqui não são os norte-americanos e os russos, e o autor não é um analista da geopolítica contemporânea. Trata-se de Tucídides, discutindo a Guerra do Peloponeso de 431-404 a.C. Ao explicar a eclosão das hostilidades entre Atenas e Esparta, ele não menciona nenhum motivo moral, nem qualquer noção de defesa de valores ou princípios. O conflito é descrito como não ideológico, nascido de um simples desequilíbrio de poder.

Tucídides ofereceu essa lúcida análise apesar da prevalência do "excepcionalismo ateniense" na Grécia continental. Após o primeiro ano da guerra, Péricles proferiu seu famoso discurso em homenagem aos atenienses caídos, que serviu também como um elogio à cidade e à sua democracia. As invocações de Kennedy e Obama de uma "cidade em uma colina" (para não mencionar a "cidade brilhante em uma colina" de Reagan e Trump) são pálidas em comparação com a retórica de Péricles:

"Temos uma forma de governo que não imita a prática de nossos vizinhos: somos mais um exemplo para os outros do que uma imitação deles. Nossa constituição é chamada de democracia porque governamos de acordo com os interesses da maioria, não apenas de alguns... Em resumo, declaro que nossa cidade como um todo é uma instrução para a Grécia."

Escrevendo em 1792, Thomas Paine observaria, não por acaso, que "o que Atenas foi em miniatura, a América será em magnitude".

Talvez seja apropriado nos perguntarmos por que ninguém fez a mesma advertência a Washington em 2021 que os corcírios fizeram a Atenas no século V a.C.: "Se alguém entre vocês não acha que a guerra está chegando, está enganando a si mesmo. Não veem que o medo do seu poder está alimentando o desejo de guerra espartano" - ou russo. De fato, a relutância em assumir uma perspectiva tucidideana sobre o atual conflito sinaliza uma perspectiva política profundamente enraizada: uma convicção de que os conflitos atuais são movidos por imperativos morais e que as guerras não podem ser declaradas a menos que sejam consideradas "justas".

Essa parece uma ideia um tanto caprichosa à luz dos 4.000 anos anteriores da história humana. Não foi pelo triunfo dos direitos humanos que os exércitos egípcio e hitita se enfrentaram na batalha de Kadesh (1274 a.C.), nem os princípios de humanidade foram citados por Cipião Emiliano quando ele arrasou Cartago (146 a.C.) e espalhou sal no chão para evitar que ela se erguesse novamente. Guilherme, o Conquistador, não precisou de nenhuma legitimação ética quando invadiu a Inglaterra e não sentiu a necessidade de acusar Haroldo de crimes de guerra e atrocidades (1066).

A persistência desse discurso moralizador no século XXI deve-se, em parte, ao fato de nossas categorias mentais ainda não terem se recuperado da queda do Muro de Berlim. Enquanto a União Soviética esteve intacta, a luta pelo domínio global se apresentou como uma disputa ideológica. Em vez de dois impérios, tínhamos duas concepções irreconciliáveis de sociedade: comunismo e capitalismo. Como era gratificante defender as forças do bem contra o Império do Mal! Parecia uma continuação natural da luta filosófica anterior entre o liberalismo e o fascismo.

Essa forma de ver as coisas tem muito a ver com o curso específico da história dos EUA. Não vamos nos esquecer de que, por mais de sessenta anos, a conquista do Oeste americano foi vendida ao mundo como a defesa de colonos pobres e vulneráveis e de seus filhos desarmados contra índios selvagens e uivantes sedentos por escalpos loiros. (Uma narrativa alternativa pode ser encontrada no livro de Malcom Harris, Palo Alto: A History of California, Capitalism and the World, cujos capítulos iniciais descrevem, entre outras coisas, como os californianos nativos eram comprados por colonos "pacíficos" por menos de 100 dólares por cabeça, enquanto um escravo negro no Atlântico podia ser vendido por até mil dólares). Na Weltanschauung (Cosmovisão) americana, toda a história da humanidade é um filme de faroeste sem fim: uma teleologia em que sempre há um xerife para punir os bandidos, um anjo da guarda que restaura a lei e a ordem na cidade na colina.

De acordo com essa visão, toda guerra desencadeada por Washington é uma resposta a algum crime maior perpetrado por seu inimigo. A invasão de Cuba foi justificada pelo afundamento da embarcação USS Maine; a entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial pelo ataque ao navio Lusitania; a guerra contra o Japão pelo ataque a Pearl Harbour (raramente é mencionado que, em 1940, os EUA bloquearam a venda de aviões, componentes, máquinas e combustível de aviação para o Japão, antes de embargar a venda de petróleo em 1941). A guerra no Vietnã também foi legitimada pela agressão no Golfo de Tonkin, que se revelou tão fictícia quanto as armas de destruição em massa do Iraque. Em todos os casos, foi um confronto entre o Bem e o Mal, os piedosos e os ímpios.

Antes do advento das duas grandes religiões monoteístas modernas, o cristianismo e o islamismo, o conceito de guerra ideológica era incomum. O único interesse era o poder, ou melhor, o domínio. Não havia causas justas – ou, no mínimo, qualquer causa poderia ser justificada. Expansão religiosa, proselitismo armado, salvação sobrenatural pela ponta de uma espada: essas foram as dádivas concedidas pelas novas fés monoteístas. Cristãos e muçulmanos anexaram novos territórios em nome de Deus, eventualmente colocando um contra o outro nas Cruzadas. Isso inaugurou uma era de Deus lo volt (expressão usada nas Cruzadas, que pode ser traduzida como “É a vontade de Deus”) – uma era da qual ainda estamos lutando para sair.

É claro que até mesmo as Cruzadas degeneraram em guerras comerciais: na Quarta Cruzada, os defensores da fé se propuseram a libertar a Terra Santa e acabaram saqueando a cristã Constantinopla. Os sucessivos e diuturnos conflitos entre a Europa e os otomanos perderam gradualmente seu caráter religioso, de modo que os estados europeus frequentemente se aliavam à Sublime Porta (Império Otomano) para enfraquecer outras potências cristãs. Mas tudo mudou com a Reforma, que criou um fenômeno totalmente novo no Ocidente: a ideologização da guerra dentro da própria Europa.

No final do século XV, Cesare Borgia não estava travando guerras pela predestinação da graça ou para demonstrar a unidade da natureza divina, mas simplesmente para conquistar a fortaleza de Fermo ou o castelo de Rimini. Quarenta anos depois, porém, os senhores alemães estariam pulverizando suas respectivas cidades em nome da teologia: em perseguição ou em defesa dos anabatistas de Thomas Münster. Duas décadas depois, os franceses travaram uma amarga guerra civil que culminou com o massacre dos huguenotes na infame noite de São Bartolomeu, em 1572. A revolução científica moderna – a descoberta de Galileu, o surgimento do capitalismo industrial e a colonização da América do Norte – foi contemporânea à Guerra dos Trinta Anos, o conflito religioso mais mortífero que a Europa já conheceu.

Essa agitação foi tão sanguinária que, depois disso, por um século e meio, a guerra voltou ao paradigma que vigorou durante a Signoria italiana: diplomacia por outros meios. As guerras de sucessão – espanhola, austríaca, a Guerra dos Sete Anos – não eram ideológicas e eram seculares. Quando a guerra ideológica finalmente reapareceu no Ocidente, ela não era mais motivada pela religião tradicional, mas pela religião do nacionalismo: uma idolatria da pátria repleta de seus próprios apóstolos e mártires (mort pour la France – “Morreu pela França”, menção honrosa dada aqueles que morreram a serviço da França). É fácil esquecer que, nos últimos dois séculos, o credo do patriotismo matou mais pessoas do que todas as guerras religiosas anteriores. Ele foi visto pela primeira vez na Guerra da Independência do domínio britânico pelas treze colônias norte-americanas. Desde o início, uma característica essencial foi sua compatibilidade com o republicanismo, demonstrada na França revolucionária, onde o girondino Jacques Brissot conclamou a nação a confrontar o poder monárquico em uma "cruzada da liberdade universal".

A partir de então, as guerras de independência nacional – da guerrilha espanhola contra Napoleão às campanhas de Bolívar na América do Sul, do Risorgimento italiano aos movimentos anticoloniais irlandeses e argelinos – foram nitidamente ideológicas. É notável, entretanto, que todos eles envolviam uma grande potência (ou uma potência em declínio) enfrentando uma população emergente. Essas lutas compartilham características com as guerras assimétricas mais recentes. Por um lado, a distribuição desigual do poder moldou as táticas empregadas no campo de batalha: os competidores mais fracos – a OAS na Argélia, o IRA na Irlanda, o Irgun israelense – muitas vezes tiveram que recorrer a métodos de guerrilha. A religião do nacionalismo também tinha sua própria legião estrangeira: Santorre di Santarosa e Lord Byron, um italiano e um inglês, respectivamente, deram suas vidas pela libertação nacional da Grécia; Garibaldi viajou para a América do Sul para lutar pela independência nacional – assim como, em nosso século, um número significativo de europeus viajou para a Síria para lutar pelo Estado Islâmico.

Nesse meio tempo, até a Primeira Guerra Mundial, inclusive, as guerras simétricas entre grandes potências foram travadas, em grande parte, com base na ambição colonial, pelo controle do comércio e do território. Isso continuou acontecendo mesmo quando os Estados rivais compartilhavam uma ideologia e uma cultura (na Primeira Guerra Mundial, os monarcas de três impérios em conflito – Grã-Bretanha, Rússia e Alemanha – eram primos). Durante grande parte desse período, não havia a noção de "opinião pública", nem havia recrutamento em massa. Podia-se simplesmente declarar guerra sem ter que convencer o povo de que valia a pena lutar e morrer pela causa. No final do século XIX, entretanto, o surgimento da opinião pública inaugurou uma "política de atrocidades". Tornou-se, então, necessário convencer a população de que o inimigo havia cometido atrocidades tão intoleráveis que era necessária uma resposta militar (tratei da política de atrocidades de forma mais extensa em um artigo para a Sidecar no ano passado).

Com a URSS, foi ainda mais fácil encontrar um pretexto para a beligerância. Tratava-se de um império de um mal evidente, e ainda por cima ateu. Seu colapso criou um vazio enorme para os grandes estrategistas dos EUA, que não podiam deixar de demonstrar uma certa nostalgia blasfema pelo adversário comunista. Basta olhar para os nomes dados às operações militares norte-americanas no exterior. Durante a Guerra Fria, esses nomes eram banais e arbitrários: a campanha terrorista contra a Cuba de Castro era chamada de Operação Mangusto; a missão para torturar e assassinar membros do Vietcongue era conhecida como Programa Phoenix; o bombardeio do Camboja, Operação Menu; Grama de Níquel designava a entrega aérea de armas a Israel durante a Guerra do Yom Kippur; Louva-a-Deus, o ataque ao Irã em 1988. No entanto, o perfil mudou após a queda do Muro. A invasão do Panamá em 1989, a Operação Causa Justa, marcou uma nova grandiloquência discursiva. Em 1991, com o desmoronamento da URSS, os EUA embarcaram na missão Restaurar a Esperança na Somália, enquanto o Haiti viu o ápice desse discurso orwelliano com a operação Defender a Democracia em 1994. Seguiram-se a Compromisso Conjunto na Bósnia (1995), a Liberdade Duradoura no Afeganistão (2001), a Liberdade Iraquiana (2003) e a clássica Odisseia do Amanhecer na Líbia (2011).

Se a guerra na era comunista tinha um valor religioso, no mundo pós-comunista ela se tornou uma questão de moralidade – de humanidade. Não falamos mais de um Império do Mal, mas de "Estados perversos". O inimigo é para nós o que o criminoso e o pistoleiro são para o xerife. Quando falamos de nações "fora da lei", embarcamos, à la Carl Schmitt, em uma "construção conceitual de natureza penal-criminalística própria do direito internacional": "o conceito discriminatório do inimigo como criminoso e a implicação da justa causa correm paralelamente à intensificação dos meios de destruição e à desorientação dos teatros de guerra".

Em outra ocasião, Schmitt observa que "confiscar a palavra humanidade, invocar e monopolizar tal termo provavelmente tem certos efeitos incalculáveis, como negar ao inimigo a qualidade de ser humano e declará-lo um fora da lei da humanidade; e uma guerra pode, assim, ser levada à mais extrema desumanidade". À medida que nos aproximamos, como sonâmbulos, do abismo da guerra nuclear, não podemos deixar de lembrar as palavras do jurista nazista (que parecia não perceber que também estava falando sobre seu próprio regime): "As armas de aniquilação absoluta [...] exigem um inimigo absoluto, para que não sejam absolutamente desumanas".

O período contemporâneo, portanto, é marcado por uma nostalgia pelas Cruzadas. Mas, na opinião pública europeia, é possível perceber uma certa apatia, uma resignação morna, se não um ceticismo mal disfarçado: o tipo que se sente quando se assiste a um filme que já foi visto muitas vezes. A mídia ainda denuncia as atrocidades de Putin e faz comparações obrigatórias com os Hitlers e Stalins do passado, mas o faz com o entusiasmo de uma criança entediada, quase como se le coeur n'y était pas (o coração não estivesse nisso; não houvesse motivação para isso). Quantas vezes já acordamos com a notícia de que nossos antigos aliados se tornaram repentinamente réprobos e criminosos? Como podemos esquecer que Saddam Hussein recebeu armas químicas para usar contra o Irã antes de ele próprio ser considerado um criminoso de guerra? Ou que Bashar al-Assad foi considerado confiável o suficiente para torturar prisioneiros a mando da CIA antes de se tornar um suposto pária internacional?

Também é difícil acreditar que os EUA queiram ver supostos criminosos de guerra julgados em um tribunal internacional que nem sequer reconhecem; que apoiem a ocupação ilegal e o regime de apartheid de Israel, mas se recusem a tolerar a presença da Rússia na Crimeia e no Donbass; que reconheçam as queixas etno-territoriais das minorias kosovares na Sérvia, mas não as da minoria russófona na Ucrânia, e assim por diante. Como podemos levar a sério as invectivas do Ocidente contra regimes autoritários e os apelos para defender a democracia, quando nossos líderes democráticos estendem o tapete vermelho para um príncipe saudita que massacra jornalistas críticos e um general egípcio que executa presos políticos às dezenas de milhares?

Talvez seja hora de nossas elites deixarem de lado sua hipocrisia e falarem tão francamente quanto os atenienses quando impuseram sua vontade aos habitantes da ilha de Melos:

"Não vamos encher nosso argumento com uma linguagem elevada, afirmando que quando derrotamos os persas ganhamos o direito de governar ou que agora estamos buscando retribuição por algum mal que nos foi feito. Isso não o convenceria. Da mesma forma, não esperamos que você pense que há algum poder de persuasão nos protestos de que [...] você não nos fez nenhum mal. Portanto, mantenhamos essa discussão prática, dentro dos limites do que nós dois realmente pensamos. Você sabe tão bem quanto nós que, quando estamos falando no plano humano, as questões de justiça só surgem quando há igualdade de poder para forçar: em termos de praticidade, o dominante exige o que pode e o fraco concede o que deve".

Por um lado, Tucídides parece se dirigir aos russos de hoje, dizendo-lhes que parem de justificar cada ato de agressão invocando a "Grande Guerra" de setenta anos atrás e a necessidade de salvar a Europa de uma ameaça nazista (assim como os atenienses protegeram a liberdade grega do domínio persa). Por outro lado, ele parece estar se referindo aos norte-americanos, que impõem penalidades e sanções simplesmente porque têm o poder de fazê-lo, a Estados cuja fraqueza muitas vezes os obriga a obedecer.

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