4 de janeiro de 2025

Os espectros da escassez de Mark Fisher

O vazio fantasmagórico do realismo capitalista obscurece o potencial para alegria e abundância coletivas. A escrita de Mark Fisher oferece um vislumbre das possibilidades que estão além da aparente inevitabilidade do presente.

Devin Thomas O'Shea

Jacobin

O trabalho de Mark Fisher perdura como um antídoto à desesperança. (Daily Herald Archive / National Science and Media Museum / SSPL via Getty Images)

Tradução / O vazio fantasmagórico do realismo capitalista obscurece o potencial para a alegria e a abundância coletivas. Os textos de Mark Fisher oferecem um vislumbre das possibilidades que estão além da aparente inevitabilidade do presente.

Você vislumbra uma figura no espelho do outro lado do corredor, mas quando se vira para verificar, não há ninguém lá. Espectros permanecem em espaços vazios, criando uma atmosfera sombria — como os corredores de uma velha mansão ou um caminho através de um cemitério desolado. Esses são contextos clássicos para uma assombração, assim como o vazio não natural de uma Vila Potemkin.

É estranho olhar para o horizonte de uma grande cidade dos EUA e saber que alguns desses arranha-céus brilhantes estão completamente vazios; torres fantasmas residenciais servindo como meros ativos financeiros em portfólios imobiliários, assombrados por sua própria vacância. Da mesma forma, fantasmas são conhecidos por duplicações assustadoras, como as gêmeas em O Iluminado, e por excessos enervantes — enxames escuros de moscas, um bando de corvos, vozes do nada. Da mesma forma, é estranho vagar nos fundos de uma grande loja de departamentos, passando pelas docas de carga e encontrar caçambas cheias de alimentos perfeitamente comestíveis, ou produtos de consumo embalados, que, aparentemente, não estavam vendendo, e agora estão indo para aterros sanitários.

Em The Weird and the Eerie [O Estranho e o Misterioso], Mark Fisher escreveu sobre como esses sentimentos estranhos acenam em direção a coisas fora da nossa percepção — algo fantasmagórico, completamente espantoso. Veladas e sobrenaturais, essas assombrações apontam para o que Fisher evocativamente chamou de “o espectro de um mundo que poderia ser livre”.

Fisher, que lutou contra uma depressão clínica ao longo da vida, tirou a própria vida em 2017, mas seu trabalho perdura como um antídoto para a desesperança — especialmente sua última proposta de livro, intitulada, de brincadeira, Comunismo Ácido.

Além do espelho do realismo capitalista

Aobra mais famosa de Fisher continua sendo Realismo Capitalista. É um livro que descreve o sistema monótono e sem futuro em que estamos presos; um período de estagnação cultural e austeridade, juntamente com a suspeita sempre presente de que o mundo logo chegará ao fim.

Fisher descreve o realismo capitalista como uma visão de mundo artificialmente construída que nos aprisiona em um ciclo depressivo. O ciclo se sustenta por meio de um paradoxo: uma sensação generalizada de desgraça e apreensão que, na verdade, reforça o status quo. De acordo com Fisher, essa maneira pessimista de ver o mundo é um desenvolvimento estratégico do capitalismo neoliberal. É um sistema que garante que não podemos pensar fora de seus limites, não importa o quanto tentemos. Mesmo se tirarmos os óculos da ideologia Eles Vivem, há outro par de óculos semelhantes ainda em nosso rosto, que não conseguimos nem detectar. Mesmo quando pensamos que estamos escapando da Matrix com a pílula vermelha, simplesmente fazemos a transição para outra sala da Matrix rotulada como “o mundo real”. Essa duplicação assustadora, semelhante à de Escher, faz parte da assombração e, por necessidade, temos que usar a ficção para falar sobre isso.

Enquanto as gerações anteriores acreditavam em algum tipo de projeto ideológico do presente — visando construir um futuro melhor — o realismo capitalista é totalmente definido pelo capitalismo, que traz o curto prazo à tona, apagando qualquer futuro onde o capitalismo esteja ausente. É mais capitalismo, ou o fim do mundo. Não há alternativa.

Essa condição se desenvolveu gradualmente ao longo de décadas, criando paralisia generalizada por meio da atomização. Mas em Comunismo Ácido, Fisher buscou inverter o poder desse sistema, colocando o Golias de cabeça para baixo: “Em vez de buscar superar o capital, deveríamos nos concentrar no que o capital sempre deve obstruir: a capacidade coletiva de produzir, cuidar e desfrutar… muito longe de defender a ‘criação de riqueza’, o capital, sempre e necessariamente, bloqueia a produção de riqueza comum.”

Tanto para Fisher quanto para seus heróis intelectuais como Fredric Jameson, a distância entre o mundo que poderia ser livre e o que temos agora é um terreno mensurável se usarmos metáforas e linguagem criadas na ficção — especialmente na ficção científica. Em Comunismo Ácido, no entanto, Fisher também apontou para formas concretas e históricas de ver: a proliferação efervescente de experimentos de socialismo democrático e comunismo libertário que floresceram na década de 1960.

A contracultura dos anos 1960 foi criada por condições materiais — Fisher usa um exemplo das memórias de Danny Baker, um DJ de rádio relembrando férias em família em 1966. Os pais de Baker levam a família para a praia em um automóvel popular acessível, usando o tempo livre longe do trabalho graças aos direitos trabalhistas duramente conquistados pela geração anterior. Na areia, com vista para o surfe, a tecnologia de um rádio transistor do tamanho de um eletrodoméstico torna possível ouvir os Kinks e os Beatles, que estão cantando sobre sonhos, percepção e a maneira como as regras do mundo se apresentam como inquebráveis, mas não são. A realidade é psicodélica, maleável, em um estado constante de fluxo, e se todos decidissem que algo deveria parar, ou outra coisa deveria começar, então nosso desejo coletivo — nosso desejo por um futuro — é uma força irrefreável em toda a espécie.

Para Fisher, esse devaneio não é um desperdício; é o reconhecimento lógico de um fato absoluto: essa capacidade coletiva foi fisicamente demonstrada, com efeitos terríveis, nas guerras mundiais.

Assombrado pelo mito da escassez

Fisher aponta a carreira de Baker na radiodifusão pública como parte dessa evolução do pós-guerra na esfera pública. No rádio e na televisão, as perspectivas da classe trabalhadora proliferaram, especialmente quando programas governamentais engajados pagaram pela cultura ocidental que poderia ser carregada e disparada contra inimigos como munição, sacudindo os corpos tanto do fascismo europeu quanto do comunismo soviético.

Programas como o New Deal, o GI Bill ou o vasto programa de habitação social do Reino Unido exibiram os governos ocidentais não apenas como pilares de valores capitalistas, mas também como arquitetos de estruturas quase comunistas. Iniciativas como a Works Progress Administration [Administração do Progresso de Obras] ou os próprios militares demonstraram a capacidade do Estado para organização coletiva em grande escala.

O boom do pós-guerra elevou milhões de pessoas comuns (predominantemente brancas) a novas vidas de classe média, caracterizadas por segurança, dignidade social, consumismo, oportunidade criativa e descanso. Avanços em automação, materiais de construção e agricultura apoiaram essa transformação, o que provou que os governos poderiam criar sistemas poderosos de bem público da noite para o dia. Na década de 1960, os filhos daqueles que demonstraram esse poder coletivo sonhavam em aplicar essa capacidade em escala global, independentemente de raça, gênero e nacionalidade.

Em vez disso, não obtivemos nada além de escassez.

Em Comunismo Ácido — um título que faz alusão à nossa necessidade de reestetizar a vida cotidiana, elevar nossa consciência e enxergar através do tigre de papel do realismo capitalista — Fisher aponta a escassez e a restrição artificial como o principal gerador de riqueza para aqueles no comando da ordem do pós-guerra.

Inflação foi a palavra da moda da eleição de 2024, que se deveu em parte à escassez real — assim como às várias crises na cadeia de suprimentos durante a pandemia, que tornaram os americanos mais ricos 40% mais ricos. Mas as corporações também têm praticado aumentos de preços sem consequências, criando uma forma de escassez artificial que corrói o valor dos aumentos salariais por meio da inflação. Fisher identifica esse padrão como uma característica definidora do capitalismo neoliberal: “Um sistema que gera escassez artificial para produzir escassez real; um sistema que produz escassez real para gerar escassez artificial.”

Considere a degradação da superfície do solo por pesticidas, que beneficia empresas como a Monsanto — elas lucram com a venda de pesticidas e podem então lançar alimentos geneticamente modificados como uma solução para os danos. Essa lógica cíclica perpetua um sistema ostensivamente projetado para a criação de riqueza, mas, na realidade, obstrui a produção de riqueza comum. Recursos são retidos, e o valor do trabalho é desviado. Um sistema capaz de satisfazer as necessidades de todos, abrigo, comida, assistência médica, uma vida livre de trabalho sem sentido — as premissas do Red Plenty — é deliberadamente frustrado.

Para Fisher, esse é o núcleo materialista da contracultura. Os detritos hippies restantes — sinais de paz, coletes de couro, a música da época — são resquícios assombrados de um potencial mais profundo e não realizado. Fisher desprezava os hippies e sua exaltação do uso de drogas, criticando seu “infantilismo hedônico” como um reforço do realismo capitalista, em vez de uma rebelião contra ele. Mas, ainda assim, Fisher se apegou ao sonho “psicodélico” de emancipação, uma visão de capacidade e possibilidade coletivas.

À medida que confrontamos a presença assombrosa do realismo capitalista — chegando ao trabalho com Donald Trump no comando novamente, suportando temperaturas crescentes enquanto o mundo se aproxima da marca de 1,5 grau Celsius, enfrentando um clima cada vez mais catastrófico ou ouvindo a última história de crueldade hesitante cometida pela classe dominante — é importante reconhecer que o fim do mundo é exercido como uma ameaça constante para manter o status quo. A repetição infinita de termos como “temperaturas recordes” e “chuvas sem precedentes” e “Hillary Clinton dá conselhos” inspira pavor, mas claramente não precisa ser assim.

Como soaria a “razão psicodélica”? Como a consciência psicodélica e a consciência de classe poderiam convergir para imaginar um mundo além do realismo capitalista?

Dando socos no deserto do real

Como David Graeber documentou em Bullshit Jobs [Trabalhos de Merda], todos os dias, nosso sistema de trabalho inflige uma “cicatriz” moral e espiritual em “nossa alma coletiva”. Em 1930, escreve Graeber, o economista John Maynard Keynes previu que os Estados Unidos e o Reino Unido teriam uma semana de trabalho de quinze horas até o ano 2000. “Em vez disso, a tecnologia foi mobilizada, se tanto, para descobrir maneiras de fazer todos nós trabalharmos mais. Para conseguir isso, tiveram que ser criados empregos que são, efetivamente, inúteis.”

Graeber aponta para o inchaço do setor administrativo, o crescimento astronômico de serviços financeiros, marketing, direito corporativo, recursos humanos e consultoria de relações públicas como exemplos de profissões cujos praticantes confessam que eles próprios não acreditam que contribuem para a sociedade. Todos nós sabemos que é uma merda. Muitos de nós vamos trabalhar pelo salário, contamos as horas e então usamos nosso tempo livre limitado para o reparo autoconfortante necessário para repetir o ciclo amanhã.

Essa foi minha experiência com a maioria dos empregos, e isso cria um ciclo diário de “chicote e bálsamo”, difundindo uma epidemia de depressão, abuso de substâncias e um sentimento central de falta de sentido individual, apesar da compensação financeira adequada ou boa. É um resultado da visão de abundância adiada — somos assombrados por sonhos de Red Plenty; de possibilidades coletivas que estão aparentemente fora de alcance. Mas dicas sobre como superar isso surgem em pensadores como Fisher. Em Comunismo Ácido, ele captura esse mal-estar em uma perspectiva que sai da rotina da vida moderna:

O fardo onírico da vida cotidiana de uma perspectiva que flutuava ao lado, acima ou além dela: fosse a rua movimentada vislumbrada da janela alta de um dorminhoco, cuja cama se torna um barco a remo suavemente ocioso; a neblina e a geada de uma manhã de segunda-feira abjuradas de uma tarde ensolarada de domingo que não precisa acabar; ou as urgências dos negócios desdenhadas levianamente do ninho de uma mansão aristocrática labiríntica, agora ocupada por sonhadores da classe trabalhadora que nunca mais voltarão a bater o ponto.

O trabalho de Fisher, incluindo seu blog de k-punk, era um marco da blogosfera do início dos anos 2000, antes que esse espaço fosse subsumido pelos cercamentos corporativos da mídia online. A internet, que poderia ter permanecido um vasto e poderoso espaço público de informação, foi sequestrada pelas pessoas mais estúpidas e tristes que veem seu potencial apenas como uma ferramenta para obterem lucro infinito. A inteligência artificial está deixando uma merda nossa linguagem, arte e compreensão geral do mundo, enquanto o avanço tecnológico é cada vez mais sinônimo de desemprego em massa, vigilância e colheita de mão de obra sem fim por meio de postagens, de rolagem e curtidas. Nos bastidores, a Flórida afunda e novas epidemias e contaminações proliferam.

Em um mundo pós-1,5 grau Celsius, as ruínas de indústrias abandonadas não deveriam abrigar algo melhor? Uma esfera midiática pública? Galerias de arte, locais de concertos, teatros, estádios e campos esportivos? E se mais pessoas passassem o dia aprendendo falas de uma peça, desenhando roupas ou assistindo à peça em si. E se as pessoas pudessem não fazer nada por tempo suficiente para redescobrir que tipo de trabalho realmente acharíamos satisfatório se estivéssemos completamente, 100%, entediados?

O pensamento utópico frequentemente sinaliza falta de seriedade, especialmente na esquerda, onde os medos da ingenuidade abundam. Mas o Comunismo Ácido de Fisher nos lembra que imaginar “a maneira como as coisas poderiam ser” é um tônico vital contra o desespero: “Imagens de satisfação… destruiriam a sociedade que as suprime.”

Fisher se baseia nas ideias de Herbert Marcuse sobre por que a arte não tem o poder de retratar a utopia ou a “verdadeira satisfação”. Fisher diz que a arte só pode “medir nossa distância” entre hoje e a possibilidade de Red Plenty — no deserto do realismo capitalista, retratar o utópico inundaria a paisagem árida na qual a imagem foi suprimida. Esse processo não seria resultado de violência, mas de satisfação: segurança, prosperidade, fartura, crescimento real; uma torrente de bens públicos.

Em Realismo Capitalista, Fisher analisou o famoso filme Filhos da Esperança, de 2006 — uma história de ficção científica sobre o mundo enfrentando uma epidemia de esterilidade. A incapacidade de conceber filhos quase destrói a humanidade, as escolas primárias estão assustadoramente vazias e sem vozes infantis. O filme acompanha a mãe e guardiã da primeira criança nascida em décadas — é uma narrativa poderosa sobre um messias, oferecendo uma visão de renovação espiritual em uma distopia que se parece cada vez mais com o nosso mundo.

Fisher estava à frente de seu tempo e sentiu mais do que sua cota justa da dor do mundo. Ele buscou renovação em Comunismo Ácido, e há dicas em suas palestras finais reunidas em Desejo Pós-Capitalista, editado por Matt Colquhoun. Muitos de nós desejamos que o projeto não tivesse ficado inacabado. Mas, esse é o nosso trabalho — o pensamento de Fisher influenciou muitos, e a tocha foi carregada em livros como Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work [Inventando o Futuro: Pós-Capitalismo e um Mundo Sem Trabalho] e After Work: A History of the Home and the Fight for Free Time [Depois do Trabalho: Uma História do Lar e a Luta por Tempo Livre].

Um dos temas principais em Comunismo Ácido diz respeito à “estetização da vida cotidiana” — uma maneira de olhar o cotidiano de modo distinto, tentando vê-lo radicalmente de outra forma. Isso não é pensamento mágico, como O Segredo, mas uma ferramenta para combater o derrotismo. Ao reencantar o cotidiano, podemos detectar vislumbres de utopia — de Red Plenty — e resistir à inevitabilidade sufocante do presente. Fisher nos desafiou a ver a dignidade humana global como uma força que deve ser contida, amarrada e sedada para manter o sistema atual intacto. Como avançamos mais para o reino da razão psicodélica? Fisher nos iniciou perguntando: “E se o sucesso do neoliberalismo não fosse uma indicação da inevitabilidade do capitalismo, mas a evidência do tamanho da ameaça representada pelo espectro de uma sociedade que poderia ser livre?”

Colaborador

Os escritos de Devin Thomas O'Shea foram publicados na Nation, Protean, Current Affairs, Boulevard e em outros lugares.

3 de janeiro de 2025

O Oriente Médio após a queda de Assad

Em uma entrevista abrangente, a economista política Helen Thompson discute como a queda de Bashar al-Assad na Síria transformou a região. Com a chegada do governo Trump, o cenário agora está pronto para os falcões confrontarem um Irã isolado.

Uma entrevista com
Helen Thompson


Um pôster desfigurado de Bashar al-Assad é visto do lado de fora de um centro de recrutamento do Exército Sírio em 26 de dezembro de 2024, em Damasco, Síria. (Chris McGrath / Getty Images)

Entrevista por
Samuel McIlhagga

Desde o início da guerra civil síria em 2011, a nação se tornou um campo de batalha para hegemonias concorrentes. Os Estados Unidos, a Turquia, a Rússia e o Irã tentaram exercer influência sobre uma Síria fragmentada. Isso levou a alianças improváveis, como a campanha conjunta EUA-Rússia contra o ISIS na Síria ou o apoio americano às forças curdas anti-imperialistas no Norte, que foi parcialmente retirado sob o governo Donald Trump.

Em uma conversa abrangente, Helen Thompson, uma estudiosa de política global, energia e história na Universidade de Cambridge falou com a Jacobin sobre a política de grandes potências no Oriente Médio após a queda do regime de Bashar al-Assad. Visto da longue durée, fica claro que o poder americano na região está diminuindo. Mas o colapso do Hezbollah, a disposição da Turquia de projetar poder na região e a percepção de Israel sobre a fraqueza do Irã provavelmente aumentarão, em vez de reduzir, as tensões na região em 2025.

Samuel McIlhagga

Ampliando, como você acha que a política material impactou a queda de Assad na Síria? O colapso traz à mente a citação de [Vladimir] Lenin, não é? “Há décadas em que nada acontece, e há semanas em que décadas acontecem.”

Há uma aceleração repentina de forças históricas em um curto espaço de tempo. Há tendências de longa duração, políticas, econômicas e energéticas subjacentes à rápida queda de Assad que vêm acontecendo há muito mais tempo?

Helen Thompson

Ainda estamos tentando entender o que aconteceu, sentados aqui no Reino Unido, de fora: é bem difícil. Não acho que haja algo na frente energética que seja decisivo para explicar o que aconteceu. Em vez disso, precisamos pensar sobre o impacto de um regime iraniano economicamente enfraquecido ao longo do tempo: em sua capacidade de apoiar um regime cliente na Síria. Não acho que, no período da administração de [Joe] Biden, o declínio iraniano tenha sido decisivo, porque as sanções dos EUA não foram aplicadas com tanta firmeza.

No entanto, não acho que haja dúvidas de que, se você olhar para o Irã ao longo do tempo, voltando a 2018, quando as sanções foram repostas depois que Trump encerrou o acordo nuclear, o Irã não estava em uma boa posição economicamente. Tem sido muito difícil para a Rússia ou a China atuarem como suporte econômico externo para o Irã. As sanções à Síria desde 2020 [o Caesar Act foi aprovado em 2019] prejudicaram o regime de Assad, dificultando o pagamento de salários no exército. Isso também teve algum efeito.

A Síria não é um exportador significativo de petróleo. Na medida em que o país importa em termos de energia: está na área curda, no pequeno estado curdo, em vez de em qualquer parte da Síria que Assad controlava até recentemente. Acho que há uma história de longa duração, se você preferir, sobre o excesso do regime iraniano e o efeito do enfraquecimento da capacidade do Irã de obter receita com as exportações de petróleo. Mas não é o ponto crucial do que aconteceu. Temos que pensar no enfraquecimento do Irã por Israel, particularmente desde abril passado, acelerado desde o ataque do dispositivo [visando agentes do Hezbollah] e também o retorno iminente de Donald Trump à Casa Branca. Isso incentivou [o presidente Recep Tayyip] Erdoğan a aumentar a influência turca na Síria.

Samuel McIlhagga

Qual é sua opinião sobre o envolvimento turco na atual situação da Síria? Obviamente, há rebeldes diretamente apoiados pela Turquia no norte da Síria, usados ​​como cabeça de ponte — especialmente para combater o que eles veem como atividade do PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistão] em Rojava. Mas a ligação entre a Turquia e o que costumava ser chamado de Frente Al-Nusra, e agora HTS [Hayat Tahrir al-Sham] na área ao redor de Idlib, sempre foi menos direta.

A Turquia é esse tipo de jogador estranho na região, no sentido de que é formalmente parte da OTAN, mas tem uma agenda islâmica moderada e uma espécie de agenda expansionista neo-otomana. Também colabora, de tempos em tempos, com a Rússia e o Irã, não ideologicamente, mas de forma pragmática. Alguns consideram a Turquia um fazedor de reis na região. Que papel ela desempenhará na nova Síria?

Helen Thompson
I don’t think you can understand what has happened over the last two weeks without making Turkey pivotal. I think it’s true that Israel’s actions against Iran, and Hezbollah in particular, created a strategic opportunity for Turkey. Turkey is the external state that was the decisive player in encouraging Abu Mohammad al-Julani to act. Not necessarily, I think, to bring down the Assad regime: I’m not sure that on November 27 when things began Erdoğan was thinking in those terms. But what increased pressure on the Assad regime?

Back in 2018, Iran was exporting oil to many different countries, including European nations. Now 90-plus percent of Iranian oil exports are going to China.
You can’t separate Julani’s actions, or indeed, the subsequent actions of the Syrian National Army against the Kurdish statelet without bringing Turkey into it. After all, the actions against the Kurdish statelet were backed by Turkish air forces from December 6 to December 11 until, effectively, the Americans imposed a cease-fire. And in that sense, you might say that the longue durée competition around Syria for the last decade was between Turkey and Iran. Now Turkey is in the ascendant.

Samuel McIlhagga
Do you buy the 2010s line that the Syrian civil war is not just a proxy conflict between Turkey and Iran, but also a religious, or semireligious, war between Sunni and Shia (and Alwalite)? I’ve always thought it seemed more complex than that.

Helen Thompson
I think it is more complicated than that. And I don’t think that you can think of Turkish-Iranian rivalry and reduce it simply to Sunni versus Shiite. I think that that is too simple. It is an element of Turkish-Iranian rivalry. If you think about it, historically, in terms of the continuities of territorial power in the region (over very long periods) — it’s Egypt, Turkey, and Iran.

Samuel McIlhagga
You have similar delineated “spheres of influence” going back to the Ottoman Empire, the Safawids and Sassanians, that have shifted a bit over time but also have a level of continuity, right?

Helen Thompson
You might say that the interesting thing, in a way, if we start from that premise, is that there was a period after the Cold War ended when Assad had quite good relations with both Iran and Turkey. Relations significantly improved between Assad and Turkey in the years leading up to the Syrian civil war. Then they crashed very quickly. The Assad regime was in a great deal of trouble by, I’d say, 2012. Iran comes in and moves from being a state that effectively provides an external support structure for Syria to one where, you might say, Syria is a client state — underwritten by the Iranian Revolutionary Guard and Hezbollah.

Samuel McIlhagga
There’s that third organization that was like a front for Iran in Iraq and Syria [the Popular Mobilization Forces]. It crossing the border during the prime ISIS conflict years was also really major.

Helen Thompson
There’s Iraqi militias coming in to do fighting as well as the Iranian Revolutionary Guard and Hezbollah on Assad’s behalf.

Samuel McIlhagga
I find it interesting that you go to Iran first as the prime, not great power, but large power, underwriting Assad. Obviously, in the mainstream liberal Anglo-American press, the New York Times, etc., the line was very much that Assad was a force of [Vladimir] Putin. I take it your interpretation is that Iran is the pivotal powerbroker.

Helen Thompson
What’s true is that Iran was absolutely pivotal in 2012. The Assad regime might have collapsed in 2012 without the Iranian intervention. Obviously, the Assad regime had lost control of a not insignificant part of territory in northeast Syria. It’s not like the Iranians could guarantee the territorial integrity of Syria for Assad in that period in the 2010s. Things were looking quite difficult for Assad again, even with Iranian help, in 2014 — because of the rise of ISIS and the caliphate. ISIS changed the context in which the external sponsors of Assad were picked. At that point, Iranian and Hezbollah troops on the ground were not going to be sufficient: air power was going to be necessary against ISIS.

Hence, you get the Russian intervention from September 2015. What’s interesting at that point in the decade is that you have a period of time, in the first nine months of 2016, where one is moving toward, effectively, American-Russian cooperation against ISIS. Between the period of the attempted Turkish coup through to late September 2016, the Russians and the Americans are actually planning to coordinate joint military action against ISIS. Then a plane gets shot down, and it’s all off the table. Even from a liberal perspective, if you like, before Trump took office in 2016, Russians weren’t even straightforwardly the “bad guys.”

Samuel McIlhagga
In foreign policy circles, on Syria, there’s a much more pragmatic view of the alliances that can be forged. Even the US sponsorship of Rojava is a case in point of a “realist,” or at least pragmatic, alliance. Rojava is openly anti-imperialist and anti-capitalist — a very odd alliance to have with CIA funders. In the crucible of those middle years of the 2010s, especially with the threat of ISIS, there seems to be a willingness to forge unusual alliances, no?

Helen Thompson
In the second half of the Trump presidency, the contradictions in American policy come to the fore — because, on the one hand, you’ve got the Americans using air power against ISIS, needing the Turkish air bases to do that. But when it comes to fighting on the ground in northeast Syria, they want the Kurdish YPG [Peoples’ Protection Units] to do that. That’s a big problem for the Turks. Once you get to late 2019, when it seems in Syria that ISIS is being defeated, and Trump wants to pull back from any American engagement — the corollary is that he gives a free hand to Erdoğan to move against the Kurds.

At the same time, that horrifies other people in Washington, because they think that Rojava is the one bulwark against the resurgence of ISIS. There is some parallel here between the Russian and Iranian situation. The Russians provided the air power, and the Iranians and Hezbollah provided the soldiers on the ground. The US provided the air power, and the Kurds provided the soldiers on the ground. When it comes to the crisis in 2024, for the Assad regime, it doesn’t look like the Russians were willing to do much beyond a demonstration of air power in the first few days — trying to defend Aleppo. Nothing came after that [from the Russians for Assad].

Samuel McIlhagga
In terms of an analysis of causation. You have a protest movement that erupts out of the Arab Spring in the early 2010s that then finds its way into the Syrian National Army, which then splits off, you get this military-led, elite-led rebellion. Syria ends up in a war of attrition: combining five or six different sides. This has lasted since I was a teenager: a long time as twenty-first-century conflicts go. Suddenly the stasis dissolves and HTS manages to capture most of the main cities in Syria. I’m just wondering what you think the largest point of causation is. In your analysis, what’s the primary factor?

Helen Thompson
It does have to be the weakening of Iran’s position by Israel — in particular, the decapitation of Hezbollah. The reason there’s a caveat, or paradox, in Syria — when HTS was controlling Idlib, there were Hezbollah fighters up there that were affected by the cease-fire between Hezbollah and the Israeli government. Somehow, we need a causal explanation that sees the defeat, or the relative defeat, of Hezbollah as a massive change in the politics of the wider region. Not least because Hezbollah’s decline unconstrained Israel from some things that have generally constrained it since its withdrawal from Lebanon in 2000.

Yet, the immediate trigger of events is going on in the northwest of the country and has got, at the very least, a Turkish green light to move. Then you need an explanation of how Erdoğan, at this moment in time, wanted to take advantage of the strategic change in Syria. You could explain Syria just in terms of Turkish-Iranian rivalry. But one probably needs something that takes account of the way Erdoğan is thinking about Trump’s imminent return to the White House. That brings back to the table, so to speak, the crisis that played out in the autumn of 2019 [between the US, Turkey, and the Kurds]. Erdoğan was able to do what he wanted to a considerable extent after Trump’s withdrawal from the region, but he did get hit by quite hard sanctions when he went further than Trump wanted.

Samuel McIlhagga
What’s going through Erdoğan’s mind? Trump ran on a semi-isolationist policy slate. And yet, in terms of his probable appointees to prime foreign and defence policy positions, he seems to be going for old-fashioned neoconservatives, people who are fairly hawkish across the board. If I were Erdoğan, I’d be struggling to figure out what the foreign policy context in his patch of the world, especially northern Syria, is going to look like under a Trump administration.

Helen Thompson
I think Trump has been pretty hawkish on Iran. That was true in terms of ending [Barack Obama’s] Iran nuclear deal, putting sanctions back on Iran, and the criticisms he made about the Biden administration’s foreign policy toward the Middle East and North African nations, both while Biden was still a candidate and then when [Kamala] Harris became the candidate. The period when the Biden administration was trying quite hard to restrain Israel’s second big attack on Iran: trying to get them not to attack either oil facilities or nuclear facilities. Trump was very critical of that move by the Democrats.

I think the sanctions against Iran will be toughened, or enforced more tightly, by the Trump administration. I don’t think that will have the same economic effect on Iran as it did back in 2018. Back in 2018, Iran was exporting oil to many different countries, including European nations. Now 90-plus percent of Iranian oil exports are going to China. It’s going to be a lot more difficult to enforce sanctions that hurt China than it was to enforce sanctions that hurt European countries.

Samuel McIlhagga
What do you think the fall of Assad says about the recent developmentalist and institution-building models in the Middle East? Parts of the Middle East and Central Asia were seen as a tabula rasa by certain segments of the Western foreign policy elite.

If one looks comparatively at recent US-led Western state-building experiments in Afghanistan and Iraq, and then the earlier Ba’athist-, Arab nationalist–style institution-building experiment from the 1950s and 1960s, what emerges? The Afghanistan Islamic Republic [2004–2021] was very fragile and didn’t work as an institution-building practice. In the Iraqi case, the jury’s out. There was a period in the 2010s when it felt like the US-constructed Iraqi state was going to collapse, but it’s maintained itself, from the Sunni uprising in the early 2000s, up until now, which is quite surprising in retrospect. Then you have these longer-lived states, like Ba’athist Syria, which, a year or two ago, you’d have had some people saying: “These are the institution-building projects that have a long-term ability to last.” They’ve been around, in some shape, since the 1950s.

Yet, we’ve seen the final collapse of institutions built by Ba’athism in the space of a couple of weeks. I wonder what that says about how institutions are built, be that from the top down, by sort of hegemonic powers like the US, or, organically and in situ?

Helen Thompson
Several things are interesting about this. On the one hand, you can tell the story, in the way that you just suggested, about the continuity of the Ba’athist state in Syria from 1970 all the way through to 2024.

Samuel McIlhagga
Didn’t Ba’athist Syria go slightly further back into the 1960s?

Helen Thompson
Let’s say 1963. I was thinking about Syria, for that moment, in terms of Assadist Syria. You could argue that the basis of Ba’athism originates from when there’s a coup that takes Syria out of the Egypt-Syria union, which isn’t a union in any kind of equal terms. The union effectively subsumed Syria into Egypt. That ended in 1961. You could argue that there’s a state structure that’s continuous from that point. If you think in those terms, then the astonishing thing is that beyond all the geopolitical junctures in the Middle East from that period on, the Ba’athist regime in Syria survives them all.

I think it was clear that [Russian] air power alone was not going to save Assad. Someone was going to have to do the fighting: that wasn’t going to be Assad’s Syrian army, demoralized, scarcely paid, or Hezbollah, which was significantly weakened.
Perhaps most striking, in a way, is that Ba’athist Syria survives the end of the Cold War: given the fact that it had a Soviet security guarantee since the 1980s. It also survived the fall of Saddam Hussein’s Iraq in 2003 as the other existing Ba’athist state. In this context, it looks odd that Assad and Ba’athism can fall in a fortnight unless one applies a Lenin principle to Syria. Syria fell apart in a quite significant way; in retrospect, it ceased to exist, in some sense, from 2012 — from then there has been no territorial integrity. It’s being carved up in the northeast, it’s then going to get carved up in the northwest. Through that period, from 2013 through to 2019, ISIS effectively tried to establish a caliphate running through part of Syria and joining Iraq.

Samuel McIlhagga
I mean the whole Sykes-Picot settlement [which was established in secrecy by the United Kingdom and France to divide up the remanent of the Ottoman Empire in 1916] almost breaks. I remember ISIS soldiers crossing the Syria-Iraq line in the desert and declaring Sykes-Picot over.

Helen Thompson
Absolutely. In a sense, it’s not that this regime fell apart in two weeks.

Instead, what we’ve been witnessing, for more than a decade, is the territorial disintegration of the Syrian state, along some familiar fault lines. If you look at the collapse from a very long historical perspective, if you look at the map where the French carved up the Syrian mandate after they got it in 1920 — they did not rule Syria as any kind of unified state — including carving out Lebanon. That territory never went back to Syria.

You might say that it was only in a relatively short period, if you look over a long historical period, that there is something that could be called a unified Syrian state. I think you could still argue that the unified Ba’athist state was always dependent upon an external guarantor — the Soviet Union in the Cold War period and then Iran in the period thereafter. Because Syria still had some use for the Russians — Russia was there, until a few weeks ago, to act as a backup for the Iranian support.

Samuel McIlhagga
There’s an explanation a lot of people have reached for immediately: “Oh, Russia is overstretched. It piled its resources into the Ukrainian conflict, it’s in a phase of imperial overreach and therefore its ability to underwrite Syria has been affected — that’s why Syria under Assad has fallen so suddenly.” I assume you think that’s overdetermined?

Helen Thompson
It’s not that it’s insignificant in a sense. If you’re Putin looking at the prospect of the Assad regime falling, it occurs to you that you might think about sending some Russian troops there. But, in reality, you’re not going to do that when you’re fighting a war in Ukraine.

Nonetheless, I think that it is reasonable to say that the principal means of Russian military intervention in Syria since 2015 was air power. And in this situation that developed pretty quickly after November 27, 2024, I think it was clear that [Russian] air power alone was not going to save Assad. Someone was going to have to do the fighting: that wasn’t going to be Assad’s Syrian army, demoralized, scarcely paid, or Hezbollah, which was significantly weakened.

Was Iran in a position to say, at that moment in time, that it wanted to double down on the Iranian Revolutionary Guard’s presence in Syria? I don’t think so. Without anything like an effective Syrian government army, or the ability of the Iranians to do that much in the circumstances, it’s very difficult to see how Putin was going to say: “Right, what I’m going to do is send troops in.” Regardless of what was going on in Ukraine, Putin wanted to use air power in Syria from the beginning, and not ground troops.

Samuel McIlhagga
There’s a theory that people overlay on top of these political phenomena and have been for a while now. The idea was found in [the fourteenth-century Arab philosopher] Ibn Khaldun and his Muqaddimah of peripheral nomads or warlords taking advantage of a reverse pendulum of historical forces, where the central state becomes “decadent and weak,” whether that be through capitalism or older ideas of corruption.

People got keen on this theory with the fall of the Afghanistan Republic, looking at the Taliban. No matter what you think about their politics, or how reactionary they are, they were these competent state-builders, in microcosm, through militias between the early 2000s and the 2020s. In addition, the state-building that was pursued by the US was achieved, partly, through proxies: NGOs, think tanks, BlackRock, and private mercenaries like Blackwater.

In Afghanistan, under US hegemony, there was no centralized vision of what the state should be, only competing outsourced forces. In contrast, the Taliban were consummate at the basics of state-building: learning on the sidelines.

I wonder if that will apply to HTS. We’ve had all this rhetoric about Julani reading Why Nations Fail. Is that just a meme? How much does it feed into reality? This is a long way of asking: Do you see HTS as an organization restricted to warlord and/or microstate status as they were around Idlib? Are they going to be able to successfully manage the diversity of Syria in terms of ethnicity, religion, political, and economic interests? Are they going to be able to build on momentum successfully?

Helen Thompson
I think it’s going to be very hard. Particularly, if you look at the fact that even leaving the Kurdish area aside, there are significant chunks of Syria they’re not in control of at the moment. You can see why Julani wants to present himself and these rebels as almost semi-technocratic: I think that’s nonsensical. But there’s a certain presentation of that going on — stressing detachment from ISIS, stressing no threat to Israel, no interest in the Israel-Syria border, or even particularly, supporting the Palestinians. There is no way that Julani can present HTS in any other way. If there’s the slightest whiff of ISIS about HTS, it’s going to be hard to get external recognition for them as a government in Damascus.

Erdoğan won’t want things presented as too radical either. The last thing that Erdoğan wants is a strong perception of a threat around the return of ISIS. Because that means he’s going to have difficulty in trying to claw back territory from the Kurdish statelet. The justification for the Kurdish microstate, in the US’s eyes, is to fight ISIS. An ISIS threat makes it harder for Turkey to deal with their “Kurdish problem.”

Samuel McIlhagga
Do you think it’s worth drawing a parallel between HTS and the Azov battalion in Ukraine? Azov goes from being very explicitly neo-Nazi and far-right and openly described as that in the Western press during Euromaidan. Then you get to 2022 and the Ukraine war. Suddenly, Azov has this rebrand. Some pundits are very keen to describe it as a much friendlier, nationalist, semi-technocratic elite military unit.

I wonder if a sort of similar process of forgetting is going to be undertaken concerning HTS and its links and growth out of Al-Nusra and then beyond that Al-Qaeda. If we know anything about US foreign policy it’s that, actually, it can be incredibly pragmatic and also have a short memory. See, for instance, the transformation of American support for the mujahideen in Afghanistan. Ten to twenty years later, the US is fighting the Taliban, an outgrowth of that earlier movement, in a vastly different geopolitical dynamic. Is the goodwill toward HTS contextual?

Helen Thompson
I think that’s true. I think you can see some people who, in the past, have been pragmatic about these questions in the Republican congressional leadership, such as Lindsey Graham, who doesn’t sound quite so pragmatic this time round. This is where it is different from the situation at the beginning of the Syrian civil war, where, perhaps, there wasn’t intense discrimination in Washington about the rebels that they ended up de facto backing. Though, as we know, there was one point where you got CIA-backed rebels and Pentagon-backed rebels in actual conflict. I think that everything that’s happened since will make the US foreign policy establishment a bit more wary about which rebels they decide can be transformed into “our kind of rebels.”

Samuel McIlhagga
The US has had a history of backing the Kurds and bits of the Syrian Sunni opposition — but they don’t feel like the kingmakers in this situation. Compared to Iran, Turkey, or Israel even, America feels peripheral to the emerging situation. Would that be right? Or would you say that they are still playing an important role in Syria?

Helen Thompson
No, I think that that’s true. I think that this goes back to the difficulty that successive American administrations have had in finding any coherent policy toward Syria. That was true under the Obama administration, it was true under Trump. It was only perhaps not true under Biden, to some extent, because, from about 2020, from the fall of ISIS, there was a territorial stalemate. That froze things for four years, which largely coincides with the Biden presidency. He was spared the dilemmas on which both Obama and Trump strung themselves out. Trump now absolutely has Syria as a major headache. Particularly when you consider that he was saying in his initial reaction, that the Americans should have nothing to do with what comes next in Syria.

Contributors
Helen Thompson is a professor of political economy at the University of Cambridge and the author of Disorder: Hard Times in the 21st Century.

O caso da esperança para os palestinos

A responsabilização israelense, um poderoso movimento de protesto e uma geração emergente de líderes podem trazer um futuro melhor para os palestinos.

Khaled Elgindy

O Sr. Elgindy é um membro sênior e diretor do Programa sobre Palestina e Assuntos Palestino-Israelenses no Instituto do Oriente Médio.

Moayed Abu Ammouna

A realidade atual para os palestinos é nada menos que cataclísmica.

Mais de 45.000 palestinos foram mortos em Gaza, de acordo com autoridades de saúde locais. Noventa por cento de seus 2,3 milhões de pessoas foram desalojadas e a maior parte da infraestrutura civil foi reduzida a escombros. O ataque contínuo de Israel ao enclave já é o episódio mais mortal e o maior deslocamento forçado na história palestina.

Embora menos apocalíptica, a situação também é desastrosa na Cisjordânia, onde pelo menos 800 palestinos foram mortos em ataques frequentes do Exército israelense e do terror desenfreado dos colonos israelenses desde o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. É a violência mais mortal no território em mais de duas décadas, e a liderança irresponsável, ossificada e sem visão dos palestinos falhou com eles o tempo todo.

Todas essas são realidades sombrias, cujas consequências de longo prazo permanecem desconhecidas. Mas também há forças poderosas trabalhando a favor dos palestinos que não podem ser ignoradas. O movimento de solidariedade internacional em rápido crescimento, a perspectiva histórica da comunidade internacional responsabilizar Israel e o extenso reservatório de talento e resiliência dos palestinos mantêm a promessa de que há, apesar da profundidade da crise atual, um futuro melhor pela frente.

Como outros momentos cataclísmicos na história palestina, a contínua catástrofe de Gaza deixará uma marca indelével na consciência nacional dos palestinos. Uma guerra que matou mais de 17.000 crianças e desencadeou fome e doenças generalizadas não poderia fazer menos. Deixados para apodrecer, o sofrimento humano e o trauma coletivo, combinados com um colapso na ordem social em Gaza e um crescente sentimento de desespero, são precisamente as condições que podem levar a gerações de instabilidade e violência.

No curto prazo, os palestinos também enfrentarão um novo desafio: o novo governo Trump. O histórico de Donald Trump durante seu primeiro mandato como presidente e desde sua reeleição deixa pouco para a imaginação. Apesar de se posicionar como "antiguerra", o Sr. Trump teria prometido colocar ainda menos restrições às armas para Israel do que o governo Biden. As recentes nomeações propostas pelo Sr. Trump, incluindo o ex-governador Mike Huckabee como embaixador em Israel e a ex-personalidade da Fox News Pete Hegseth como secretário de defesa, não apenas parecem acreditar em um "Grande Israel" e se opor à autodeterminação palestina, mas também parecem compartilhar o zelo messiânico dos elementos mais extremos da política israelense, incorporando uma visão de mundo que ativamente apaga os palestinos. Enquanto isso, muitos no círculo do Sr. Trump estão prometendo reprimir o ativismo pró-palestino nos Estados Unidos.

Mas há uma oportunidade para um futuro diferente. Essas tentativas de silenciar as vozes palestinas são, elas próprias, uma resposta a uma das ferramentas mais poderosas dos palestinos: o reconhecimento global da justiça de sua causa. Ao contrário de 1948, quando o estado de Israel foi fundado e centenas de milhares de palestinos foram expulsos ou fugiram, ou em 1967, quando Israel ocupou terras palestinas após a Guerra Árabe-Israelense, hoje há um movimento de solidariedade internacional comprometido com a libertação palestina. Ele está mobilizado como nunca antes.

A persistência de protestos em campi universitários na América do Norte e na Europa em particular, apesar da repressão e difamações frequentemente exercidas contra eles, destaca a profunda mudança geracional em como muitos no Ocidente veem a questão, de uma narrativa predominantemente pró-Israel para uma mais focada nos direitos e na humanidade palestinos. Embora os protestos no campus possam ser descartados como politicamente insignificantes, eles apontam para uma mudança mais profunda na opinião pública que pode eventualmente produzir uma mudança na política.

E há outras maneiras importantes pelas quais a mudança pode ocorrer. Decisões recentes do Tribunal Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional mantêm pelo menos a possibilidade de responsabilização pela morte e destruição generalizadas em Gaza.

Apesar de sua história bem documentada de abusos contra palestinos, Israel nunca foi formalmente responsabilizado, seja no contexto do processo de paz liderado pelos EUA ou qualquer outro processo internacional. Agora, dadas as evidências de violações generalizadas e flagrantes do direito internacional na guerra atual, a responsabilização se tornou primordial. Em janeiro passado, depois que a África do Sul entrou com um caso no Tribunal Internacional de Justiça acusando Israel de genocídio em Gaza, o tribunal concluiu que pelo menos algumas das preocupações da África do Sul eram "plausíveis" e ordenou que Israel impedisse suas forças de cometer atos genocidas. Embora Israel e os EUA tenham rejeitado as acusações de genocídio, a ordem, no entanto, representou um grande divisor de águas no conflito centenário entre Israel e Palestina.

Além disso, a decisão do Tribunal Penal Internacional de novembro de emitir mandados de prisão para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da defesa Yoav Gallant por crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Gaza marca a primeira vez que o tribunal agiu contra um grande aliado dos Estados Unidos. Embora o caso do Tribunal Penal Internacional leve anos para ser julgado e os líderes israelenses provavelmente não serão julgados em Haia tão cedo, os processos judiciais desferiram um golpe irreversível contra a impunidade de longa data de Israel e sua reputação no mundo. Independentemente de esses casos irem a julgamento, será impossível para a história ignorar os eventos que os levaram.

O vácuo de liderança contínuo entre os palestinos sem dúvida exacerbou seu sofrimento. Nem a Autoridade Palestina de Mahmoud Abbas na Cisjordânia nem a liderança imprudente e degradada do Hamas foram capazes de oferecer soluções para os vários desafios existenciais que seu povo agora enfrenta. Ainda assim, a maior esperança dos palestinos vem de dentro: com uma das maiores taxas de alfabetização do mundo (98%) e uma cultura conhecida por sua ênfase na educação e inovação, o povo palestino é seu próprio melhor ativo. Não é surpresa que uma nova geração de líderes palestinos tenha surgido em Gaza, na Cisjordânia e na diáspora que estão desafiando as falhas de seus antecessores, tanto internamente quanto na arena internacional.

Eles incluem pessoas como Bisan Owda, o jornalista, ativista e cineasta cujas histórias viscerais de sobrevivência, tristeza e esperança em Gaza inspiraram milhões ao redor do mundo. Seu vídeo curto viral “It’s Bisan From Gaza and I’m Still Alive” ganhou um Emmy e outros prêmios, apesar de uma campanha que a acusou de laços com terrorismo, uma alegação comum feita contra muitos palestinos de destaque, que ela negou. Outro exemplo é Issa Amro, o intrépido defensor dos direitos humanos e ativista não violento baseado em Hebron, na Cisjordânia, que sofreu espancamentos, prisão e assédio nas mãos de soldados israelenses, forças de segurança palestinas e colonos judeus extremistas. Com pouco mais do que uma câmera e sua voz, o Sr. Amro trabalhou incansavelmente para proteger casas e propriedades palestinas de apreensão por colonos e soldados israelenses violentos e para lançar luz sobre a realidade do apartheid em Hebron.

Ahmed Abu Artema é um jornalista independente, um ativista e um organizador da Great Return March, um movimento de protesto não violento cujas manifestações semanais chamaram a atenção para a situação dos refugiados palestinos e o bloqueio paralisante de Gaza. Nada Tarbush, uma diplomata formada em Oxford e radicada em Genebra, emitiu apelos apaixonados nos corredores das Nações Unidas pelos direitos, liberdade e dignidade de seu povo. Todos eles representam um contraste esperançoso com as platitudes vazias geralmente ouvidas nos corredores do poder em Ramallah, onde a Autoridade Palestina está sediada.

Esses são, é claro, apenas alguns dos líderes palestinos emergentes. Se o futuro que surgirá das cinzas de Gaza será definido por eles e seus pares ou pelo caos e violência contínuos dependerá, em grande medida, também de como o resto do mundo responderá — e se os Estados Unidos e outros governos ocidentais poderão finalmente ouvir e abraçar as vozes palestinas autênticas e a agência palestina.

Khaled Elgindy é um membro sênior e diretor do Programa sobre Palestina e Assuntos Palestino-Israelenses no Middle East Institute e autor de “Blind Spot: America and the Palestinians, From Balfour to Trump”.

Enriquecer era glorioso

Como a China adotou a economia de mercado mantendo o governo do Partido

Kate Merkel-Hess

Retratos de Mao Zedong, Deng Xiaoping, Jiang Zemin, Hu Jintao e Xi Jinping (da esquerda para a direita) em uma exposição em comemoração ao septuagésimo aniversário da República Popular da China, Pequim, 2019
© WANG ZHAO/AFP via Getty Images

China's road from revolution to reform 
424pp. Yale University Press. £30 (US $38). 
Odd Arne Westad and Chen Jian

Mao Zedong ainda ocupa um lugar de destaque na história da República Popular da China. No entanto, as notáveis transformações ocorridas nos quarenta e oito anos desde sua morte, em 1976, não apenas alteraram a política e a economia da China e do mundo, como também repudiaram os esforços de Mao para socializar o país durante os vinte e sete anos em que esteve no comando. Essas reviravoltas — especialmente a adoção das reformas de mercado no final da década de 1970 — são frequentemente apresentadas como decisões que faziam simplesmente todo o sentido. De fato, a descentralização das decisões agrícolas para o nível das famílias, o retorno dos mercados e o surgimento de empreendimentos individuais e comunitários nos anos pós-Mao alteraram imediatamente a situação financeira do povo chinês comum. Contudo, essas reviravoltas representaram uma mudança de rumo impressionante para a economia e a burocracia chinesas. Para adotá-las, os formuladores de políticas da elite tiveram que realizar mudanças dramáticas e, dentro do Partido Comunista Chinês, às vezes foi necessário um jogo político violento para derrubar quase três décadas de investimento em uma economia centralmente planejada.

Em The Great Transformation: China's road from revolution to reform, Odd Arne Westad, Odd Arne Westad, historiador da Universidade de Yale, e Chen Jian, historiador da Universidade de Nova York em Xangai, questionam como os líderes chineses, no final da década de 1970, reorientaram a economia do país e criaram espaço para a experimentação econômica de base em um país que, apenas alguns anos antes, havia se comprometido novamente com uma economia estatal baseada em comunas massivas. O livro se baseia em uma riqueza de materiais de arquivo, documentos governamentais publicados, mídia e memórias para contar uma história propulsora das disputas pelo poder e mudanças políticas durante a "longa década de 1970". Os autores mostram como Deng Xiaoping, com sua mentalidade reformista, emergiu como o líder orientador do país, enquanto o Partido Comunista Chinês mantinha seu domínio sobre o país ao adotar reformas de mercado – uma transição que a maioria dos outros governos comunistas não conseguiu navegar.

Uma economia capitalista em um contexto político socialista não teria parecido um futuro plausível para a China em 1966, onde o livro começa. Naquele ano, Mao convocou os jovens chineses a realizarem uma nova campanha para livrar o partido de imaginários inimigos internos que supostamente buscavam minar a transição do país para o comunismo. A Grande Revolução Cultural Proletária, que durou uma década e se seguiu, foi um período de violência, destruição e caos. O turbilhão diminuiu em grande parte após 1968, quando Mao ordenou que o Exército de Libertação Popular reprimisse as facções concorrentes da Guarda Vermelha em cidades por todo o país (como observam os autores, "Mao gostava da revolução em princípio, mas não quando ela interferia em seus próprios planos"). Ainda assim, a economia do país estagnou, escolas e universidades permaneceram fechadas e muitos continuaram a perder tempo em reuniões políticas sem propósito.

A liderança – na verdade, toda a nação – viu a morte de Mao como uma oportunidade de recomeço.

O cerne de The Great Transformation é um exame da disputa pelo poder que se seguiu entre os esquerdistas que apoiaram a Revolução Cultural (mais notoriamente a chamada Gangue dos Quatro, que incluía a viúva de Mao, Jiang Qing) e pragmáticos como Deng, que foram expurgados durante a Revolução Cultural. Como Westad e Chen demonstram, muitos na liderança do partido e militar sobreviveram à Revolução Cultural e simpatizavam com a visão dos pragmáticos; esses anciões estavam comprometidos com o comunismo e o partido, mas fartos da revolução performática e de ver o povo sofrer. Uma aliança temporária entre o sucessor escolhido a dedo por Mao, o infeliz, mas sincero Hua Guofeng, e o astuto Deng, apoiado pelos militares, rapidamente derrotou os esquerdistas, muitos dos quais foram presos. A subsequente disputa política entre Hua e Deng é recontada em detalhes tensos e teatrais, com este último acabando por assumir o poder.

Os autores enfatizam que, apesar de todo o crédito atribuído a Deng por colocar a China firmemente no caminho da liberalização econômica (um legado que Deng, que viveu até 1997, garantiu que fosse gravado na narrativa nacional), ele fez pouco mais do que recuar e abrir espaço para a experimentação popular. No entanto, poucas histórias sobre as inovações econômicas de pessoas comuns e autoridades locais aparecem em The Great Transformation. Há maior ênfase nos outros dois fatores que os autores identificam como cruciais na criação da China moderna: a "falência política" da esquerda chinesa e a coordenação entre a burocracia militar e civil. Essa não foi a escolha de Westad e Chen; o acesso limitado (agora uma barreira comum para estudiosos da China) os forçou a mudar o foco do livro, enfatizando a política da elite em detrimento das inovações econômicas das pessoas comuns.

O livro termina em 1984, que os autores chamam de "o ano da nova empresa", quando as pessoas abriram negócios em todo o país e olharam com otimismo para o futuro. Na China e no Ocidente, observadores acreditavam que a China se integraria à comunidade internacional. Mesmo os dias sombrios dos protestos estudantis e da repressão de 1989 – tanto uma manifestação desse otimismo quanto uma exceção dolorosa à sua concretização – prejudicaram, mas não acabaram com a crença de que a China se liberalizaria.

Desde então, o compromisso de Deng pós-1989 – de que o povo chinês poderia enriquecer, mas o Partido permaneceria no controle total – tornou-se uma realidade sufocante. Mesmo assim, o otimismo de 1984, quando os tons orwellianos daquela data pareciam o desfecho de um caos liderado pelo partido, em vez de um prenúncio do futuro, está entrelaçado na história de Odd Arne Westad e Chen Jian. Como tantos outros, eles nutrem a esperança de seu retorno.

Kate Merkel-Hess é professora associada de história na Universidade Estadual da Pensilvânia. Seu livro mais recente é Women and their Warlords: Domesticating militarism in modern China, 2024.

1 de janeiro de 2025

Teses preliminares sobre o conceito de ecocivilização

Nesta palestra dada na Universidade de Pequim em outubro de 2024, John Bellamy Foster compartilha dez teses descrevendo tanto as raízes quanto as manifestações contemporâneas da ideia de civilização ecológica. Relacionando as origens do conceito nos escritos de Marx e Engels à sua expressão hoje na sociedade chinesa, Foster revela a natureza inerentemente socialista da ecocivilização e a necessidade de uma revolução ecológica mundial para mudar em direção ao desenvolvimento humano sustentável.

John Bellamy Foster


Volume 76, Issue 08 (January 2025)

No século XIX, durante a Revolução Industrial na Inglaterra, a cidade de Newcastle era o centro da indústria carvoeira. A expressão “levar carvão para Newcastle” surgiu, então, para indicar a inutilidade de se levar alguma coisa para um lugar onde essa coisa já existe em abundância. Para um pensador ocidental, falar sobre civilização ecológica (ou ecocivilização) a uma audiência na China é como levar carvão para Newcastle, uma vez que é precisamente na China que esse conceito está mais altamente desenvolvido.

Ainda assim, defenderei que a noção de “ecocivilização” está intrinsecamente relacionada ao marxismo. Portanto, essa apresentação estará direcionada ao exame do conceito de ecocivilização a partir de uma perspectiva marxista ecológica mais abrangente. A este respeito, tenho dez teses preliminares sobre a ecocivilização.

(1) O conceito de civilização ecológica tem origens marxistas e é inerentemente socialista. A primeira vez que este conceito apareceu como uma visão sistemática foi no final da década de 1970 e nos anos 1980, na União Soviética, inspirado pelas considerações do pensamento ecológico de Karl Marx e imediatamente adotado pelos pensadores chineses. Até hoje o conceito não tem praticamente qualquer presença no Ocidente, uma vez que está radicalmente separado da noção de civilização capitalista, assim como das visões eurocêntricas da modernidade.[1]

(2) A perspectiva filosófica fundamental da ecocivilização tem raízes profundas nas primeiras noções civilizacionais da modernidade, ou da relação ativa do ser humano com o mundo orgânico-material, como descrito pelos pensadores marxistas Joseph Needham e Samir Amin em suas críticas ao eurocentrismo. Esta perspectiva filosófica orgânico-materialista emergiu no período conhecido como Era Axial, particularmente na civilização helênica e no período dos Estados Combatentes na China, entre os séculos V e III a.C. O próprio Karl Marx abraçou uma visão orgânico-materialista desde cedo, desenvolvendo uma noção de seres humanos como seres automediadores da natureza — uma noção que rompia com o mecanicismo ocidental e com as concepções eurocêntricas da modernidade, influenciada por seu encontro com a filosofia materialista epicurista.[2] No entanto, grande parte desta visão ficou submersa no marxismo posterior, e foi completamente extinta na tradição filosófica marxista ocidental. Na China, a continuidade da civilização a partir do taoísmo (que tem paralelos com o epicurismo), do confucionismo e do neoconfucionismo, significou a perpetuação dessas visões orgânico-materialistas iniciais, tornando a China mais receptiva à ecologia e às perspectivas ecológicas de Marx em particular.

(3) Embora tenha raízes filosóficas antigas, a civilização ecológica, enquanto perspectiva histórica transformadora, é um produto da sociedade pós-revolucionária e do desenvolvimento do socialismo. Ela reflete a noção de seres humanos como seres automediadores da natureza, que é parte integrante da visão completa de Karl Marx sobre o desenvolvimento humano sustentável, incorporada em sua teoria da ruptura metabólica. Esta abordagem rejeita qualquer noção de que a ecocivilização seja um produto direto do pré-modernismo ou do pós-modernismo, ou que possa ser explicada, como alguns teóricos da ecologia chineses propuseram, pelo encadeamento das civilizações tradicional, agrícola, industrial e ecológica.[4]

(4) O conceito de civilização ecológica socialista na China foi o que mais completamente incorporou essas ideias. A civilização ecológica socialista deve ser considerada um desenvolvimento dentro do socialismo. É importante enfatizar que não pode existir qualquer conceito de “civilização ecológica capitalista”, uma vez que o capitalismo é inerentemente alheio e destrutivo em relação à natureza/ecologia. Assim, falar de civilização ecológica socialista é simplesmente falar de socialismo completo, como realização plena do desenvolvimento humano sustentável, que incorpora tanto a igualdade substantiva quanto a sustentabilidade ecológica; significa a reconciliação da humanidade com a natureza.

(5) A civilização ecológica aponta para aquilo que os marxistas chineses apresentaram como a necessidade de “modernização da existência harmoniosa entre a humanidade e a natureza”. Essa ideia é sustentada pelos princípios básicos do socialismo. Portanto, é antitética à chamada modernização ecológica, entendida como uma filosofia mecanicista e como um projeto puramente tecnocrático no Ocidente.[5] Ao mesmo tempo, ela adota algumas das mesmas tecnologias necessárias à transformação ecológica, porém utilizadas em conformidade com os princípios socialistas, exigindo relações sociais diferentes. O que é crucial aqui é a concepção fundamentalmente diferente de modernização no marxismo chinês e no pensamento ecológico.[6]

(6) O conceito de “comunidade de vida”, desenvolvido pela teoria ecológica socialista na China, é essencial para definir a civilização ecológica. Ele possui três dimensões: (a) uma comunidade de vida com os ecossistemas; (b) “a comunidade de vida da humanidade e da natureza”; e (c) uma síntese dialética, constituindo a “comunidade de toda a vida na terra” e um “futuro compartilhado”.[7] Como escreveu o grande conservacionista estadunidense do início do século XX, Aldo Leopold, “Abusamos da terra porque a consideramos uma mercadoria que nos pertence. Quando vemos a terra como uma comunidade à qual pertencemos, podemos usá-la com amor e respeito”. Aldo Leopold propôs uma ética da terra que ampliava “os limites da comunidade (...) a fim de incluir solos, águas, plantas, animais ou, coletivamente, a terra”.[8] Karl Marx argumentou que ninguém é dono da terra; nem mesmo todos os países e todas as pessoas do planeta podem sê-lo. São apenas “seus possuidores, seus beneficiários, e têm de legá-la em melhor estado às gerações seguintes, como boni patres familias [bons chefes de família]”.[9]

(7) A noção de sustentabilidade ecológica inserida no conceito de comunidade da vida é exemplificada no “Pensamento de Xi Jinping sobre a Civilização Ecológica”. Xi Jinping declarou que, se tivermos de escolher entre “montanhas de ouro” e “montanhas de verde”, é preciso escolher as montanhas de verde, reconhecendo que “as águas límpidas e as montanhas verdejantes são ativos inestimáveis”. Adotando uma abordagem materialista marxista da ecologia, Xi Jinping argumentou que a ecologia é “a forma mais inclusiva de bem-estar público”. Fazendo eco a Friedrich Engels sobre a “vingança” da natureza, Xi Jinping afirmou que “qualquer dano infligido por nós à natureza acabará voltando para nos assombrar”. Além disso, ele insiste que a questão da natureza vai além da mera sustentabilidade material, abrangendo mesmo a estética, como em seu conceito de “Bela China”.[10] Dessa forma, a noção de civilização ecológica como comunidade de vida é expandida, adquirindo um significado social mais amplo para o trabalhador coletivo por meio da renovação da linha de massa.

(8) Marx argumentou que o roubo da natureza pelo capitalismo, resultando na ruptura metabólica, implica o enfraquecimento da eterna base natural ou ecológica da civilização. Isso significa que a relação metabólica precisa ser restaurada, o que só é possível sob o socialismo.[11] Com o mundo sendo engolido por uma crise ecológica planetária, tal restauração é a primeira das prioridades (desconsiderando a ameaça nuclear) a determinar o futuro da humanidade. Nos países ricos, caracterizados pela sobrecarga ambiental,[ii] isso levanta a questão do decrescimento. No entanto, para a humanidade como um todo, levanta-se a questão do desenvolvimento humano sustentável e, em última análise, da civilização ecológica sob o socialismo completo.

(9) O conceito de decrescimento estava ausente no socialismo do século XIX, muito embora Marx já tivesse uma visão de desenvolvimento humano sustentável. O decrescimento, enquanto processo de desacumulação, adquire todo o seu significado a partir de uma perspectiva marxista do sistema irracional do capitalismo monopolista/imperialista e de suas crises de superacumulação. Dessa forma, qualquer movimento decisivo em direção à ecologia nos países capitalistas centrais do sistema mundial exige um afastamento das estruturas do capitalismo monopolista/imperialista.[12] Os países capitalistas dominantes, que também são os países monopolistas-capitalistas e imperialistas centrais, caracterizam-se ecologicamente pela sobrecarga ambiental, com pegadas ecológicas que ultrapassam – em alguns casos, três ou quatro vezes mais – aquilo que a Terra poderia suportar, caso fossem generalizadas para a humanidade como um todo. Essas enormes pegadas ecológicas são um reflexo do imperialismo econômico e ecológico. Portanto, do ponto de vista da humanidade global, estas nações devem reduzir, drástica e desproporcionalmente, o seu consumo de energia per capita, assim como a utilização de recursos e as emissões de carbono, juntamente com a sua expropriação líquida de riquezas do restante do mundo. Uma vez que o capitalismo monopolista promove um imenso desperdício econômico como meio de acumulação/financeirização, gerando pobreza artificial, e exibe níveis astronômicos de desigualdade, em que um punhado de indivíduos possuem mais riqueza do que metade da população, uma estratégia planejada de decrescimento é consistente com uma drástica melhoria das condições econômicas e sociais para a maioria da classe trabalhadora.[13]

(10) Em todos os países do mundo, a crise ecológica planetária demanda uma revolução ecológica envolvendo tanto as forças produtivas quanto as relações sociais. Para todos os casos, isto implica o desenvolvimento do proletariado ambiental em confronto com o capitalismo monopolista generalizado e o imperialismo. Na China, e em alguns outros países pós-revolucionários, isto pode ser alcançado através de uma linha de massas ecorrevolucionária e da construção de uma sociedade sustentável, enraizada nas estruturas comunitárias e coletivas já existentes. Para a maior parte dos países do Sul Global, o desenvolvimento humano sustentável exige uma desvinculação do sistema imperial de valores e a ação revolucionária de um proletariado ambiental orientada à sobrevivência humana e à criação planejada de uma sociedade de desenvolvimento humano sustentável. No próprio Norte Global, a revolução ecológica exige a destruição do imperialismo e a reintegração de toda a humanidade sobre uma base igualitária, em um processo de solidariedade mundial. As pegadas ecológicas precisam ser niveladas globalmente. Não há como o trabalho ser ecológico nos países ricos quando as bases da existência ecológica nos países pobres (e no planeta como um todo) são arruinadas.

Notas

[1] Veja esse debate em John Bellamy Foster, The Dialectics of Ecology (New York: Monthly Review Press, 2023), p. 161–66.

[2] Karl Marx, Early Writings (London: Penguin, 1974), p. 356; István Mészáros, Marx’s Theory of Alienation (London: Merlin Press, 1975), p. 162–65; John Bellamy Foster, Breaking the Bonds of Fate: Epicurus and Marx (New York: Monthly Review Press, forthcoming, 2025).

[3] Joseph Needham, Within the Four Seas: The Dialogue of East and West (Toronto: University of Toronto Press, 1969), p. 27, 66–68, 93–97, 212; Samir Amin, Eurocentrism (New York: Monthly Review Press, 2009), p. 13, 22, 108–11, 212–13; Foster, The Dialectics of Ecology, p. 171–74.

[4] Veja Chen Yiwen, “Marxist Ecology in China: From Marxist Ecology to Socialist Eco-Civilization Theory,” Monthly Review 76, no. 5 (Outubro de 2024): p. 32–46; Zhihe Wang, Huili He, e Meijun Fan, “The Ecological Civilization Debate in China: The Role of Ecological Marxism and Constructive Postmodernism—Beyond the Predicament of Legislation”, Monthly Review 66, no. 6 (Novembro de 2014): p. 37–59.

[5] Chen Yiwen, “Marxist Ecology in China”, p. 41–42; John Bellamy Foster, Brett Clark, e Richard York, The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), p. 41–43, 253–58.

[6] Chen Xueming, The Ecological Crisis and the Logic of Capital (Boston: Brill, 2017), p. 467–72, 566–70.

[7] Chen Yiwen, “Marxist Ecology in China”, p. 41–43; Foster, The Dialectics of Ecology, p. 13.

[8] Aldo Leopold, The Sand County Almanac (New York: Oxford University Press, 1949), viii; John Bellamy Foster, Ecology Against Capitalism (New York: Monthly Review Press, 2002), p. 86–87.

[9] Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), p. 911.

[10] Chen Yiwen, “Marxist Ecology in China” p. 42–43; Xi Jinping, The Governance of China (Beijing: Foreign Languages Press, 2020), p. 3, 6, 20, 25, 54, 417–24.

[11] Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), p. 637–78; John Bellamy Foster e Brett Clark, The Robbery of Nature (New York: Monthly Review Press, 2000), p. 12–13.

[12] Paul Burkett, “Marx’s Vision of Sustainable Human Development”, Monthly Review 57, no. 5 (Outubro de 2005): p. 34–62; Brian M. Napoletano, “Was Karl Marx a Degrowth Communist?”, Monthly Review 76, no. 2 (Junho de 2024): p. 9–36.

[13] John Bellamy Foster, “Planned Degrowth: Ecosocialism and Sustainable Human Development”, Monthly Review 75, no. 3 (Julho–Agosto de 2023): p. 1–29.

Esta é uma palestra proferida (via web) no Simpósio Internacional sobre “Progresso Ecocivilizacional da China em um Mundo em Mudança”, Universidade de Pequim, 20 de outubro de 2024.

Gravuras arriscadas, efêmeras e revolucionárias

Uma pesquisa sobre a gravura mexicana mostra como os ilustradores do país confundiram de forma duradoura a fronteira entre a arte e o mundo dos trabalhadores pobres.

Claudio Lomnitz

The New York Review

José Clemente Orozco: Rear Guard: Women Carrying Rifles and Children, impresso por George C. Miller e publicado pela Weyhe Gallery, 1929
Metropolitan Museum of Art/Artists Rights Society (ARS)/SOMAAP/Fotografia de Erica Allen

O Metropolitan Museum of Art deve sua extraordinária coleção de gravuras mexicanas a um único colecionador: o artista e crítico francês (mas também mexicano, mas também americano) Jean Charlot. Nascido em Paris em 1898, Charlot chegou ao México como um pintor promissor em 1921. Ele rapidamente se juntou ao movimento muralista e foi contratado para pintar nas paredes da instituição educacional de maior prestígio da Cidade do México, a Escuela Nacional Preparatoria, em San Ildefonso, ao lado de Diego Rivera e José Clemente Orozco.

Charlot se interessou profundamente pela arte e cultura popular mexicanas. Um ano após sua chegada ao país, ele escreveu um ensaio em francês chamado "México dos Pobres". Nele, ele descreveu a vida cotidiana e as artes das classes trabalhadoras do México como uma espécie de paralelo ao mundo clássico:

Esta raça tem a sabedoria dos filósofos que andavam descalços em um riacho enquanto abstraíam ideais. Seus brinquedos têm o toque das fábulas de Esopo, seus corpos a pátina daqueles atletas antigos dos quais Luciano afirma que são como tijolos cozidos pelo sol... Vasos gregos desfilam para a vida. Aqui as mulheres trazendo água do poço, ali os lutadores de Eufrônio, e em todas as esquinas ou na sombra de uma estátua, mendigos e carregadores de fardos agacham-se e vadiam à vontade, convidados empanturrados de um banquete invisível.

Esta sensibilidade lacônica, ele escreveu, o forçou a mudar sua paleta. Ele desembarcou em Veracruz "com boas cores químicas compradas na França, prontas para combinar com macacos e palmeiras, como um explorador carrega chitas vistosas para fazer escambo". Mas logo ele os deixou de lado:

Como eles poderiam representar essas, as próprias cores da água, da terra, da madeira e da palha? Até minhas teorias atualizadas sobre arte devem ir longe demais, ao encarar as características desta terra verdadeiramente secreta e clássica, cuja missão perene parece ser a apoteose dos pobres e o escândalo dos impertinentes.

A invocação de Charlot da Grécia antiga — e, em outros momentos, de Roma e do Egito — não deve ser confundida com orientalismo, ou com um impulso de exotização. Era, antes de tudo, uma maneira de apreciar que os pobres criavam seus próprios ritmos e viviam em seus próprios termos. Mas era também, mais ousadamente, uma maneira de reconhecer que a sociedade mexicana, impregnada de excesso e sofrimento, era a fonte de uma arte econômica e descomplicada — uma arte que era "clássica" porque era necessária. “A produção de artistas populares é tão variada que se torna inclassificável, tão barata que se despreza, tão empurrada sob os olhos de todos que se torna invisível”, escreveu Charlot alguns anos depois. “O instinto estético é talvez o principal motivo para o mexicano que tem apenas um fraco instinto econômico, e exclui qualquer pensamento de arte como um luxo porque, para ele, é na verdade uma necessidade. A arte como o mexicano a entende permeia todas as atividades da vida diária.”

Diego Rivera: Emiliano Zapata, impresso por George C. Miller e publicado pela Weyhe Gallery, 1932
Metropolitan Museum of Art/Banco de México Diego Rivera Frida Kahlo Museums Trust/Artists Rights Society (ARS)/Fotografia de Hyla Skopitz 


Esse mesmo espírito, acreditava Charlot, também infundiu o trabalho dos artistas que se tornaram centrais para o “Renascimento Mexicano” da década de 1920 — entre eles Orozco, Rivera e David Alfaro Siqueiros — que “plantaram suas obras indelevelmente nas paredes dos edifícios do México… com a crença positiva de que haviam deixado de ser artísticos e agora eram artesãos, companheiros dos carpinteiros e estucadores que estavam colaborando no trabalho”. O próprio Rivera foi atraído para “México dos Pobres”, traduzindo-o para o espanhol e, em 1925, expressando sua ideia básica talvez mais precisamente em um texto próprio. Se “por um lado, toda a arte clássica é universal, relacional e completa”, ele escreveu, “por outro, é intensamente pessoal e específica em relação às suas condições geográficas, étnicas e físicas”.

Para Rivera, o cubismo foi uma explosão de classicismo que rompeu a decadência ornamental burguesa, e assim também foi o movimento que estava florescendo na Cidade do México, com suas fontes gêmeas na escultura pré-colombiana e na estética popular urbana melhor sintetizada pelo mestre gravador José Guadalupe Posada (1852-1913).

Não foi nenhuma surpresa que tanto Charlot quanto Rivera fossem atraídos pelas artes gráficas, com seu lugar distinto na história da autoexpressão proletária. Na virada do século XX, os leitores da classe trabalhadora ainda estavam surgindo no México, um país com taxas historicamente baixas de alfabetização que também era o lar da primeira prensa tipográfica do hemisfério. A escassez e precariedade de leitores entre os pobres significava que, no reino das ideias, as imagens lideravam e a argumentação seguia. As artes gráficas eram, portanto, baratas, evanescentes e unidas ao gosto popular. Em um ensaio de 1945 sobre Posada, cujo trabalho ele defendeu internacionalmente, Charlot astutamente comentou sobre a centralidade das imagens para a imprensa mexicana: "Com clientes para quem a leitura era um trabalho lento, a imagem tinha que declarar a história em termos intensos o suficiente para soltar a moeda do índio do seu lenço atado."

Os muralistas do México entenderam isso perfeitamente. Assim como os revolucionários triunfantes do país, que convidaram uma geração de jovens artistas vanguardistas para reconfigurar a pedagogia socialmente combativa da imprensa e transpor suas mensagens para os edifícios mais icônicos do estado mexicano: o Ministério da Educação, o Palácio Nacional, a Universidade Nacional. Depois de pintarem essas instalações sagradas, os muralistas foram inevitavelmente sacralizados, para o bem e (talvez principalmente) para o mal. Inevitavelmente, as imagens que eles inscreveram nas posses inalienáveis ​​da nação circularam de volta para a efêmera da página impressa em uma espécie de ciclo de feedback entre a esfera pública e o estado revolucionário. Nesse sentido, a arte gráfica foi tanto a inspiração quanto o destino final do modernismo mexicano: foram os gravadores e ilustradores que, de forma duradoura, confundiram a fronteira entre a arte e o mundo dos trabalhadores pobres.

*
Essa vitalidade — impulsionada pela interação entre a arte e o cotidiano — está em toda parte em exibição em “Mexican Prints at the Vanguard”, a seleção do Met de sua notável coleção. Cada uma das mais de 130 gravuras aqui foi gravada por um artista que estava se arriscando, buril na mão, frequentemente ciente de que ele (ou, apenas raramente, ela) estava criando um objeto efêmero: um pôster para ser colado em muros da cidade, um folheto com as letras de um novo corrido, uma imagem devocional para um altar doméstico ou catecismo, o cabeçalho de uma gazeta comunista ou uma ilustração em um livro infantil.
  
Manuel Murguía: O Charger, em mexicanos pintados por eles próprios. Tipos e costumes nacionais, 1854–1855
Metropolitan Museum of Art

Quando se mudou do México para Nova York, em 1928, Charlot procurou e fez amizade com os curadores do Met William Ivins e Alice Newlin e doou inúmeras gravuras que havia coletado de artistas gráficos do México. Anos mais tarde, quando retornou ao México para uma temporada de dois anos logo após a Segunda Guerra Mundial, ele fez aquisições diretamente para o museu, acumulando uma coleção que abrange quase dois séculos de trabalho de artistas de uma ampla gama de posições sociais. A exposição atual remonta ao final do período colonial, atravessa o apogeu da arte gráfica na imprensa de um centavo entre a década de 1860 e o início de 1900, fornece uma amostra de gravuras do renascimento da década de 1920, tem seu cerne na militância política antifascista da década de 1930 e início de 1940 e fecha com um breve vislumbre do modernismo do pós-guerra.

Ela abre com algumas amostras de impressão da era colonial antes de passar para a era pós-independência. A prestigiosa Academia de San Carlos da Cidade do México, fundada em 1781 pelo monarca espanhol iluminado Carlos III, continuou sendo um importante campo de treinamento para artistas gráficos durante aqueles anos. Mas o mercado comercial de impressão também estava em ascensão, e a exposição mostra ambos os tipos de ilustração. Uma cópia de um livro de 1854 que apresenta “tipos nacionais” (Los mexicanos pintados por sí mismos) está aberta na representação de Manuel de Murguía de um carregador carregando tudo, de um papagaio e guarda-chuva a um chapéu, um vaso de flores, botas, uma vassoura e um jarro de água. Em 1949, Charlot escreveu que, de toda a coleção de gravuras mexicanas do Met, ele foi mais afetado pela arte religiosa de Murguía (não em exibição na exposição atual) e, em particular, por um “conjunto de santos, ou melhor, de santos, tão estilizados, tão geometrizados, quanto um ABC”. Ele claramente apreciou isso como um exemplo inicial do tipo de classicismo que ele admirava: “Essas imagens, Virgens piramidais ou Crucifixos enfeitados com fitas, são fragmentos anônimos de uma forma de arte verdadeiramente funcional, rica em clareza didática e destinada ao povo em geral.”

Julio Ruelas: The Critic, por volta de 1905-1907
Metropolitan Museum of Art

De minha parte, fiquei impressionado com uma gravura de 1905 de Julio Ruelas chamada The Critic. Ela lembra Goya, mas enquanto The Sleep of Reason Produces Monsters de Goya retrata o pesadelo selvagem da Razão em uma rajada macabra e sombria de corujas, o crítico de Ruela "pegou" a Razão como se fosse uma doença: transmitida pela picada de um mini-monstro burguês, meio mosquito, meio morcego, usando óculos perfeitamente urbanos e uma cartola. Não mais gerando monstros em seu sono, agora a Razão é injetada por um íncubo no cérebro bem acordado do crítico. Gravada durante os últimos anos da ditadura liberal de Porfirio Díaz, a impressão sugere que a Razão pode até ser uma ameaça ao saneamento público, e que a crítica pode equivaler à possessão por um tipo de insanidade.

As obras mais importantes da impressão mexicana no final do século XIX e início do século XX pertencem a Posada. A seleção de seu trabalho em exposição aqui é extraordinária: imagens para corridos; arte de capa para songbooks; gravuras devocionais da virgem; panfletos fornecendo aos amantes modelos de cartas para cortejar; ilustrações de eventos políticos, como a repressão de 1892 de um movimento estudantil contra a terceira reeleição de Díaz ou a entrada do líder revolucionário Francisco I. Madero na Cidade do México em 1911; epitáfios satíricos (calaveras) zombando de figuras públicas nos Dias dos Mortos; e em todos os lugares uma sátira de todo tipo de conceito, usando o reino da Morte para fornecer aos espectadores uma medida de distanciamento irônico.

*

O cerne da seleção — exibido na entrada e no salão central — é a arte gráfica dos anos 1930 e início dos anos 1940, quando o muralismo estava diminuindo e os artistas gráficos estavam assumindo seu papel político. “No México de hoje”, escreveu Charlot em 1949, “pode-se dizer que a função de falar em público, tão habilmente desempenhada pelos murais nos anos 20, foi assumida pelo cartaz impresso”.

Artista mexicano não identificado: Exposição de Obras de José Guadalupe Posada no Palácio de Belas Artes da Cidade do México, impressa pelas Oficinas Gráficas da Nação, 1943
Metropolitan Museum of Art

José Guadalupe Posada: Em Prova de Amor Verdadeiro, circa 1890–1896. Os anjos esqueletos nos cantos superiores são de Manuel Manilla.
Metropolitan Museum of Art

José Guadalupe Posada: O Horrível Esqueleto da Inundação de Guanajuato, 1905
Museu Metropolitano de Arte


José Guadalupe Posada e Manuel Manilla: Broadside: no anverso esqueletos andando de bicicleta; no verso esqueletos comprando e vendendo imagens impressas, etc., por volta de 1895
Metropolitan Museum of Art

José Guadalupe Posada: Uma Balada da Revolução Mexicana, 1913
Metropolitan Museum of Art

Charlot estava registrando que uma ampla gama de artistas experimentou prolificamente com gravuras, xilogravuras e litografias durante esses anos para um conjunto igualmente expansivo e variado de patronos. Mas ele também estava captando um tipo mais específico de revezamento geracional. Novas formas de organização política estavam em andamento, mais famosas em torno do Taller de Gráfica Popular, um coletivo de artistas formado em 1937 pelo expatriado americano Pablo O'Higgins (né Paul Higgins Stevenson), Leopoldo Méndez e Luis Arenal: todos militantes comunistas, todos próximos de Siqueiros (Arenal era seu cunhado) e todos comprometidos com a causa revolucionária.

Este é um período que nos fala alto, com sua iconografia antifascista e suas invocações da revolução mexicana e mundial. A apresentação do Met enfatiza corretamente como os artistas mexicanos estavam determinados a se tornar um com "o povo" e subordinar sua arte a propósitos práticos imediatos, incluindo apoiar greves, lutar contra chefes políticos, erradicar o esteticismo burguês, apoiar o comunismo e criticar Franco. Incluída, por exemplo, está uma litografia de 1938 de um Raúl Anguiano muito jovem convocando membros do Sindicato da Educação do México e sua principal confederação trabalhista a fazer doações para apoiar a República Espanhola. Mas ocasionalmente essas obras também sussurram suavemente, e a exposição não contorna alguns rumores politicamente mais inquietantes.

Angel Bracho: A vitória dos aliados sobre os nazistas no fim da Segunda Guerra Mundial, publicado pelo Taller de Gráfica Popular, 1945
Metropolitan Museum of Art/Artists Rights Society (ARS)/SOMAAP

Atribuído a Alfredo Zalce: The Expropriation of Foreign Oil Interests, impresso pela Cooperativa de Artes Gráficas, 1938
Metropolitan Museum of Art/Artists Rights Society (ARS)/SOMAAP

Os artistas gráficos politizados das décadas de 1920 e 1930, por exemplo, frequentemente usavam gravuras em xilogravura — ou, mais tarde, um substituto de linóleo que dava um efeito semelhante — como um sinal estético que representava uma origem popular. Assim como onde há fumaça há fogo, eles pareciam dizer, também onde há xilogravuras há raízes populares. E ainda assim Posada — que era o santo padroeiro da gravura popular mexicana, e cuja prática diária era o modelo que artistas como Rivera, Orozco e Siqueiros invocavam quando davam as costas à academia — usava com mais frequência placas de metal. Mais tarde, ele até fez a transição de gravuras em buril para gravuras em relevo, procurando competir com as fotogravuras que os jornais mexicanos introduziram na década de 1890. Em suma, ele buscou inovação tecnológica dentro de seus meios, diferentemente dos artistas que trabalharam trinta anos depois no Taller de Gráfica Popular, que se voltaram para a xilogravura como uma forma de produzir um efeito popular — para sinalizar que a arte, porque pode ser facilmente feita de material prático como madeira, tinta, papel e um sulco, está disponível para as classes trabalhadoras — e se colocar em posição de falar pelo povo.

Os artistas gráficos da década de 1930 se apoiavam na noção de que a arte é uma coisa cotidiana e que todos os humanos são, em algum nível, potencialmente artistas. Essa convicção é profundamente inspiradora, mas a identificação insistente entre o artista e os interesses do povo também pode se tornar um chamado à violência em nome deste último. Esse impulso está praticamente ausente em Posada, apesar de suas inclinações antigovernamentais e da profusão de episódios violentos que ele gravou. Em uma xilogravura de 1934, por outro lado, o stalinista Leopoldo Méndez critica Diego Rivera durante seu período trotskista ao colocá-lo no papel do traidor burguês que divide o pódio com o presidente oficial do partido Carlos Riva Palacio, a suástica e a Quarta Internacional trotskista se misturando. (A distância entre tais imagens e os apelos reais à violência poderia, sob certas circunstâncias, se dissolver completamente: seis anos depois, Siqueiros arquitetou um complô com vários colegas do Taller de Gráfica Popular para assassinar Trotsky, que escapou por pouco, embora tenham sequestrado e assassinado um de seus guarda-costas, o comunista americano Sheldon Harte.) Em uma xilogravura relacionada — até certo ponto mais justificada, dadas as reais simpatias fascistas de José Vasconcelos — Everardo Ramírez acusa vários intelectuais não revolucionários proeminentes de "prostituição". Marchando abaixo da galeria esquelética de supostas prostitutas está o proletariado limpo, de macacão e tão viril.
 
Carlos Mérida: Um homem de Saltillo no estado de Coahuila, de Trajes Regionales Mexicanos (“Traje regional mexicano”), publicado pela Editorial Atlante, 1945
Metropolitan Museum of Art/Artists Rights Society (ARS)/SOMAAP/Fotografia de Erica Allen

Muito mais atraente é uma gravura despreocupada de 1928 de Fernández Ledesma mirando na educação acadêmica na Academia de San Carlos, firmemente retrógrada do México. Ledesma apresenta o diretor da instituição, Manuel Toussaint, mamando na teta da academia transformada em vaca, enquanto a inspiração real é tirada de outra mamadeira. Mas mesmo essa imagem bastante exata tem implicações ambivalentes, pois condena a própria profissionalização na qual os artistas mexicanos confiaram. Os modernistas mais notáveis ​​do país rejeitaram a academia, e o vanguardismo que os inspirou não tinha campeões entre o corpo docente da instituição. E, no entanto, a academia foi, à sua maneira, indispensável para a formação do modernismo mexicano: sem ela, Rivera não teria chegado a Paris, e Orozco não teria sido tão imerso nos pintores espanhóis — especialmente El Greco e Goya, mas também Velázquez — que ele tanto admirava.

A exposição finalmente atinge um equilíbrio criterioso. Ele enfatiza que a arte gráfica das décadas de 1930 e 1940 ia muito além das polêmicas do Taller de Gráfica Popular — uma gama representada aqui pela charmosa série de gravuras coloridas de dançarinos regionais do guatemalteco Carlos Mérida, as ilustrações quase etnográficas de Alfredo Zalce sobre sua visita à península de Yucatán e a série de gravuras finamente coloridas de Lola Cueto sobre brinquedos mexicanos — mesmo enfatizando a vocação política e pedagógica da obra. Em 1940, ao analisar “Vinte Séculos de Arte Mexicana” no Museu de Arte Moderna, Charlot criticou a ênfase da exposição no que chamou de “gentileza e amor à diversão”. “Considerando o mundo de hoje”, concluiu ele, “tão cruelmente diferente do mundo otimista de antigamente, a arte do México em seu momento mais severo marca um ponto profético; teria sido uma performance mais responsável se a mostra atual tivesse tido coragem suficiente para sublinhá-la”. A nova exposição do Met não comete esse erro.

"Mexican Prints at the Vanguard" está no Metropolitan Museum of Art até 5 de janeiro.

Claudio Lomnitz
Claudio Lomnitz é o Professor de Antropologia da Família Campbell na Columbia. Seu livro mais recente é Sovereignty and Extortion: A New State Form in Mexico. (Setembro de 2024)

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