25 de junho de 2019

A nova economia de esquerda: como uma rede de pensadores está transformando o capitalismo

Após décadas de domínio da direita, um movimento transatlântico de economistas de esquerda está construindo uma alternativa prática ao neoliberalismo.

Andy Beckett


Ilustração: Nathalie Lees/The Guardian

Tradução / Por quase meio século, algo vital tem faltado na política do campo da esquerda em países ocidentais. Desde os anos 1970, a esquerda mudou o modo de pensar de muitas pessoas sobre preconceito, identidade pessoal e liberdade. Ela expôs as crueldades do capitalismo. Algumas vezes ganhou eleições e às vezes governou de forma eficaz. Mas não tem sido capaz de mudar, em essência, as relações de riqueza e o trabalho em nossas sociedades – nem de oferecer uma visão convincente sobre como isso pode ser feito. A esquerda, em resumo, não teve uma política econômica.

A direita tem. Privatização, desregulamentação, impostos menores para as empresas e e os ricos, mais poder para empregadores e acionistas, menos poder aos trabalhadores. Articuladas, estas políticas recrudesceram o capitalismo e o tornaram mais onipresente que nunca. Imensos esforços foram feitos para tornar o capitalismo inevitável e para retratar como impossível qualquer alternativa.

Neste ambiente cada vez mais hostil, a abordagem econômica da esquerda tem sido reativa. Ela resiste a estas enormes mudanças, frequentemente em vão e muitas vezes voltando-se ao passado, nostálgica. Por muitas décadas os mesmos dois analistas críticos do capitalismo, Karl Marx e John Maynard Keynes, continuaram a dominar a imaginação econômica da esquerda. Marx morreu em 1883, Keynes em 1946. A última vez que suas ideias tiveram uma influência significativa em governos ocidentais ou eleitores foi há 40 anos, durante os turbulentos dias finais da social democracia pós-guerra. Desde então, direitistas e centristas rotulam qualquer argumento em favor de superar o capitalismo – ou mesmo de freá-lo, como um desejo de fazer o mundo “retroceder aos anos 70”. Alterar nosso sistema econômico tem sido apresentado como uma fantasia — tão possível quanto viagens no tempo.

No entanto, há anos o sistema começou a falhar. Em vez de uma prosperidade sustentável e compartilhada, produziu estagnação dos salários, cada vez mais trabalhadores na pobreza, desigualdade crescente, crises bancárias, convulsões de ultradireita e iminente catástrofe climática. Até mesmo políticos da direita reconhecem, por vezes, a seriedade da crise. Na conferência do Partido Conservador britânico do ano passado, o chanceler, Philip Hammond, admitiu que “uma lacuna se abriu” no Ocidente “entre o que uma economia de mercado proporciona, em teoria …e a realidade”. Ele continua: “Muitas pessoas sentem isso…o sistema não está funcionando para elas.”

Começa a surgir a noção de que um nova forma de economia é necessária: mais justa, mais inclusiva, menos exploradora, menos destruidora da sociedade e do planeta. “Estamos num momento em que as pessoas estão muito mais abertas à ideias econômicas radicais,” admite Michael Jacobs, um ex assessor do primeiro-ministro inglês Gordon Brown. “Os eleitores revoltaram-se contra o neoliberalismo.” A crise financeira de 2008 e as antes impensáveis intervenções dos governos que a detiveram desacreditaram duas ortodoxias centrais do neoliberalismo: a de que o capitalismo não tem como fracassar e a de que o governo não deve intervir para mudar o funcionamento da economia.

Um gigantesco espaço político se abriu. Uma rede emergente de intelectuais, ativistas e políticos começou a aproveitar a oportunidade. Eles estão tentando construir um novo tipo de economia de esquerda: que se reporte às falhas da economia do século XXI, mas que também explique, de forma prática, como futuros governos de esquerda podem criar um sistema melhor.

Christine Berry, uma jovem acadêmica britânica freelancer, é uma das figuras centrais da rede. “Estamos destrinchando a economia de volta ao básico,” ela diz. “Queremos que a economia pergunte: ‘Quem é dono dos recursos? Quem tem o poder nas empresas?’ O discurso convencional econômico ofusca estas questões, para beneficiar os poderosos.”

A nova economia de esquerda quer ver a redistribuição do poder econômico, para que todos o detenham — assim como o poder político é de todos, em uma democracia saudável. A redistribuição do poder poderia incluir a participação dos trabalhadores no controle das empresas, a reorganização das economias locais para favorecer arranjos éticos (em vez de grandes corporações), ou a cooperativas tornando-se normas.

Essa “economia democrática” não é uma fantasia idealista: partes dela já estão sendo construídas. Sem esta transformação, argumentam os novos economistas, a crescente desigualdade de poder econômico irá em breve tornar a democracia impraticável. “Se queremos viver em sociedades democráticas, então precisamos…permitir que as comunidades modelem suas economias locais,” escrevem Joe Guinan e Martin O’Neill, ambos prolíficos defensores da nova economia, em artigo recente para o Institute for Public Policy Research (IPPR). “Já não é mais o suficiente ver a economia como uma espécie de domínio tecnocrático à parte, no qual os valores centrais de uma sociedade democrática, de alguma forma, não se aplicam.” Além disso, Guinan e O’Neill afirmam, tornar a economia mais democrática ajudará a revitalizar a democracia: as pessoas são menos propensas a sentir raiva ou apatia quando incluídas em decisões econômicas que afetam fundamentalmente suas vidas.

O projeto ambicioso dos novos economistas significa transformar a relação entre capitalismo e o Estado, entre trabalhadores e patrões, entre economia local e global, entre aqueles com ativos econômicos e aqueles sem. “Poder e controle econômico devem ser mais igualitários”, sustenta um relatório do ano passado da New Economics Foundation (NEF) – um thinkthank radical de Londres que age como incubadora para muitas das novas idéias do novo movimento.

No passado, governos britânicos de centro-esquerda tentaram remodelar a economia por meio de impostos — geralmente focados em rendimentos em vez de outras formas de poder econômicos — e por nacionalização, o que significava substituir a elite do setor privado por outra, designada pelo Estado. Em vez de tais intervenções tão limitadas, os novos economistas querem ver mudanças muito mais sistêmicas e permanentes. Eles querem — no mínimo — mudar como o capitalismo funciona. Mas, crucialmente, querem que esta mudança seja apenas parcialmente iniciada e supervisionada pelo Estado, e não controlada por ele. Eles visualizam uma transformação que acontece de forma quase orgânica, dirigida por trabalhadores e consumidores – uma espécie de revolução não-violenta em câmera lenta.

O resultado, alegam os novos economistas, será uma economia adequada à sociedade, em vez de, como atualmente, uma sociedade subordinada à economia. A nova economia, sugere Berry, na verdade não é economia. É “uma nova visão de mundo”.

A chegada de um novo conjunto significativo de ideias tende a gerar certas reações. O tema lota eventos. Jovens pesquisadores gravitam em sua direção. Intelectuais mais velhos, porém inquietos, estão intrigados. Novas instituições são criadas ao seu redor. Jornalistas convencionais inicialmente o descartam.

Como todos novos economistas que conheço, Michael Jacobs fala bem rápido, em frases curtas, como se houvesse muito o que explicar no tempo disponível. Um ambientalista de longa data, ele descreve a rede emergente de novos economistas como “um ecossistema”. Há um contagiante senso de tabus políticos e econômicos sendo quebrados e de um possível novo consenso nascendo.

“Há sites britânicos e norte-americanos que publicam muito de nossas coisas, como o OpenDemocracy, a Jacobin e a Novara. Há pessoas produzindo coisas enquanto trabalham para thinkthanks — ou montando novos thinkthanks. E pelas redes sociais as ideias se espalham, colaborações acontecem, muito mais rápido do que quando a economia de esquerda era sobre reuniões e panfletos,” diz Jacob. “É um pouco incestuoso, mas bastante empolgante.”

Este fermento está começando a se solidificar em um movimento. A New Economy Organizers Network (Neon), uma cisão da NEF, localizada em Londres, oferece oficinas para ativistas de esquerda, para aprender como “construir apoio para uma nova economia” — por exemplo, construir narrativas efetivas a respeito na imprensa tradicional. Stir to Action, uma organização militante localizada em Dorset, publica uma “revista para a nova economia” quadrimestral e organiza sessões de orientação em cidades que tendem à esquerda, como Bristol e Oxford: Cooperativas de trabalhadores: como começar, ou Propriedade Comunitária: e se nós mesmo administrarmos?

“Há um impulso totalmente novo para ativismo relacionado a economia,” diz o editor da revista, Jonny Gordon-Farleigh, que anteriormente esteve envolvido em protestos anticapitalistas e ambientalistas. “O movimento passou do opor-se ao propor”.

O que aparece com essa movimentação é a possibilidade, pela primeira vez em décadas, de um governo do Partido Trabalhista receptivo às novas ideias econômicas de esquerda. "John MaDonnell, ministro do governo paralelo [shadow cabinet] de Jeremy Corbyn parece entender isso,” diz Gordon-Farleigh, cautelosamente. “Ele tem um pouco de história compartilhada com alguns de nossos movimentos. Fez comentários interessantes... sobre introduzir uma cooperativa proprietária das ferrovias, por exemplo.”

Outros no movimento são mais otimistas. No outono [nórdico] passado, um artigo com boa repercussão de Guinan e O’Neil no jornal de esquerda Renewal, alegou que McDonnell poderia estar planejando nada menos que uma “transformação da economia britânica… um programa radical para desmantelar e afastar o poder corporativo e financeiro”, em benefício dos menos privilegiados. Guinan me disse: “John McDonnell é extremamente curioso intelectualmente. Não vi outra figura política nesse nível de senioridade cujas portas estejam tão abertas a novos pensamentos.”

James Meadway, até recentemente um dos conselheiros chave de McDonnell, está agora escrevendo um livro sobre “uma economia para os muitos”. Entre 2010 e 2015, ele trabalhou no NEF, onde seus relatórios e artigos esboçaram muitos dos argumentos dos novos economistas. Diversos integrantes do NEF me disseram que desde que McDonnell tornou-se ministro-sombra, as costumeiras relações entre think-tanks de esquerda e o Partido Trabalhista foram invertidas: em vez de tentar desesperadamente chamar a atenção do partido para suas propostas, eles estavam lutando para acompanhar o apetite do partido por elas. “Estão basicamente perguntando, ‘Vocês tem mais alguma coisa aí atrás do armário?’” diz um satisfeito, mas levemente perplexo, veterano do NEF. “Nós rabiscamos algo e damos a eles qualquer coisa que consigamos inventar, o mais rápido que pudermos.”

Em julho passado, o NEF publicou um relatório em defesa de um aumento significativo do número de cooperativas britânicas. Em uma das páginas finais, quase sem nenhum alarde, o relatório também propôs que empresas convencionais tenham que dar ações a seus funcionários, para criar o que NEF chamou de um “fundo inclusivo de posse”. Em setembro, com algumas modificações, a proposta tornou-se política do Partido Trabalhista. “Eu nunca vi nada assim, de ideia do thinkthank para uma política adotada!” diz Mathew Lawrence, um dos autores do relatório. Este mês, uma versão da política também foi adotada pelo candidato presidencial dos EUA, Bernie Sanders.

E ainda assim, fora do círculo de McDonnell e da esquerda radical, a nova economia tem passado largamente despercebida – ou tem sido casualmente ridicularizada. Os buracos negros do Brexit e a disputa de liderança do Partido Conservador são parcialmente responsáveis, sugando a atenção de tudo o mais. Mas é também a natureza radical da própria nova economia. Transformar ou acabar com o capitalismo tal como o conhecemos — os novos economistas diferem sobre qual é o objetivo — é uma idéia difícil para a maioria dos políticos e jornalistas britânicos. Depois de meio século aceitando o status quo econômico, eles associaram qualquer alternativa de esquerda ou com a desatualizada social democracia do pós-guerra ou com autoritarismo de esquerda, com a atual Venezuela ou a União Soviética.

Não importa o quão frequentemente McDonnell diga em entrevistas que ele quer ver uma economia democrática, o adjetivo que mais lhe é aplicado ainda é “Marxista”. “O novo pensamento econômico é quase como uma frequência que não pode ser ouvida,” diz Guinan.

Mas com o neoliberalismo fraquejando, e a direita desprovida de outras ideias econômicas, a nova economia da esquerda pode ter um longo futuro – ainda que o Partido Trabalhista não volte ao governo. Parodiando uma fala de Thatcher, agora há uma alternativa.

O sonho de uma economia democrática oscilou nas margens da política de esquerda por pelo menos um século. Durante os anos 1920, os teóricos socialistas britânicos GDH Cole e RH Tawney escreveram livros frescos e provocativos, argumentando que trabalhadores deveriam administrar as empresas eles próprios, em vez de se submeterem a patrões e acionistas – ou ao Estado, como teóricos mais ortodoxos do Partido Trabalhista previam. Na vida econômica, como na política, argumentou Tawney em 1921, “os homens não devem ser governados por uma autoridade que não podem controlar”.

Este empoderamento de trabalhadores foi concebido para ser o primeiro passo de uma transformação mais ampla. “O real objetivo,” escreveu Cole em 1920, deve ser “arrancar o poder econômico das classes proprietárias, pedaço por pedaço”, para finalmente “tornar possível uma distribuição equitativa da renda nacional e uma reorganização razoável da sociedade como um todo”.

No entanto, Cole era vago sobre como aconteceria a inversão desta ordem tradicional. Ele descartava uma revolução, e uma greve geral, baseando-se no fato de que trabalhadores não tinham o acesso necessário a armamentos ou recursos econômicos para derrotar seus patrões em uma luta industrial prolongada. Um governo trabalhista ousado poderia, teoricamente, aprovar a legislação necessária; mas os governos trabalhistas dos anos 1920 e 1930 eram tímidos e não duraram muito.

Quando o Partido Trabalhista adquiriu a confiança e o tempo para reconfigurar a economia, durante os governos dos primeiros-ministros Clemente Attlee, na década de 1940 e de Harold Wilson, na década de 60, o partido escolheu fazê-lo por meio dos planos e burocracias de Whitehall [N.T.: centro administrativo do Reino Unido], tais como o Departamento de Assuntos Econômicos (DEA, na sigla em inglês) de Wilson, em vez de por meio da democratização da economia. Os resultados foram mistos: o DEA durou apenas cinco anos.

Somente nos anos 1970 um poderoso político trabalhista interessou-se em democratizar a economia. Tony Benn foi bastante atento ao aumento do individualismo durante a década. “Mais pessoas querem fazer mais para elas mesmas,” escreveu em 1970. “A tecnologia libera forças que permitem e encorajam descentralização... Deve ser um objetivo prioritário dos socialistas trabalhar pela redistribuição de poder.”


Em 1974, Wilson tornou Benn ministro da Indústria. A economia estava em dificuldades. Benn supervisionava e subsidiava cooperativas administradas por trabalhadores em três grandes negócios que estavam padecendo: o Scottish Daily News, um jornal de Glasgow, a Kirkby Manufacturing and Engineering, um produtor de radiadores em Liverpool e a Meriden, produtora de motocicletas em West Midlands. Os desafios que estas cooperativas encaravam — falta de investimento prévio e fortes rivais domésticos e estrangeiros — eram agravados por antipáticos funcionários, economicamente conservadores, no departamento de Benn. Um relatório imparcial de 1981 sobre as cooperativas, feito pela revista de esquerda New Internationalist, descreveu-as como condenadas desde o início – elas eram “gigantes incapazes”.

A cooperativa Scottish Daily News durou cinco meses. A cooperativa Kirby foi melhor. Eric Heffer, um ministro que trabalhou para Benn, encontrou lá administradores de centrais sindicais “transformados por suas experiências” de ajudar a administrar os negócios. Eles se tornaram “administradores-trabalhadores reais”. A cooperativa resistiu à recessão dos anos 70. Mas logo após a eleição de 1979, o governo de Margaret Thatcher terminou o experimento ao cancelar os subsídios da Kirby. A Meriden sobreviveu à mudança de governo e mais outra recessão no início dos anos 1980. Mas declarou falência em 1983.

O próprio Benn durou apenas um ano no ministério da Indústria, antes de ser removido por Wilson, que nunca aceitou completamente seu radicalismo. Benn nunca mais esteve à frente de algum posto econômico central. A saga “solapou a opção por cooperativas nos círculos de formulação de políticas do Partido Trabalhista nas décadas seguintes”, diz Gordon-Farleigh.

Da demissão de Benn em 1975 à eleição de Jeremy Corbyn como líder trabalhista, 40 anos depois, a hierarquia do partido aceitou amplamente que a economia deveria ser baseada em lucro, competição, e administração de cima para-baixo. As tentativas de Benn e outros na esquerda britânica, durante os anos 70, de estabelecer o que eles por vezes chamavam, provocativamente, de “controle dos trabalhadores” foram largamente esquecidas, ou lembradas como apenas mais uma das utopias fracassadas de uma década ridicularizada. A chance de uma economia democrática parecia ter passado.

Ainda assim, durante os anos magros que se seguiram para a esquerda britânica, outro experimento em democratização da economia começou – do outro lado do Atlântico, em um país menos associado com revoltas contra o capitalismo. Foi mais local, mas também mais profundo do que o apoio de Benn a cooperativas vulneráveis, e buscava mobilizar o poder dos consumidores, em vez dos produtores.

Gar Alperovitz é um economista e ativista norte-americano de 83 anos. Desde os anos 1960, tem persistentemente promovido inovações econômicas que colocam objetivos sociais antes de comerciais. Frequentemente, tem sido uma figura periférica, mas atraiu bastante atenção intermitentemente. Em 1983, apareceu com destaque em uma matéria de capa da Time sobre o futuro da economia. Em 2000, na Universidade de Maryland, co-fundou o Democracy Collaborative, um centro para pesquisa sobre como recuperar a vida política e econômica de regiões em declínio nos EUA – que por sua vez também se expandiu gradualmente em um corpo ativista.

“Cidades norte-americanas com problemas estão em um estágio mais avançado de declínio de que suas equivalentes britânicas,” diz Guinan, que trabalhou no Democracy Collaborative por uma década. “Mas o governo norte-americano local também tem maiores poderes. Por isso, é possível criar novos modelos radicais da base para cima.”

Em 2008, o Democracy Collaborative começou a trabalhar em Cleveland, uma das grandes cidades mais pobres dos EUA, que tem perdido empregos e moradores há décadas. Os ativistas seguiram uma estratégia de Alperovitz chamada “construção de riqueza comunitária”. Ela busca acabar com a dependência destas economias locais em dificuldade, de relações com corporações distantes, extratoras de riqueza – como as redes de varejistas. Em vez disso, tenta articular estas economias ao redor de negócios locais, mais socialmente conscientes.

Em Cleveland, o Democracy Collaborative ajudou a montar uma companhia de energia solar, uma lavanderia industrial, uma horta hidropônica no centro da cidade. Os três empreendimentos eram de propriedade de seus funcionários, e uma parte de seus lucros ia para uma espécie de companhia central, encarregada de estabelecer mais cooperativas na cidade. Os três empreendimentos tiveram sucesso, por enquanto. O objetivo do projeto foi resumido em termos francos, quase populistas, por um dos co-fundadores do Democracy Collaborative, Ted Howard, em 2017: “Parem com o vazamento de dinheiro para fora de nossa comunidade.” Mas a “construção de riqueza comunitária” também tem um propósito mais sutil: é uma demonstração concreta de que decisões econômicas podem ser baseadas em mais do que os limitados critérios do neoliberalismo.

Howard estava falando em uma conferência de nova economia na Inglaterra, que foi organizada por McDonnell. Os dois têm uma relação próxima. Ano passado, McDonnell introduziu Howard em outro evento do Partido Trabalhista, em Preston: “Nós o trazemos com alguma regularidade agora, para explicar o trabalho que fez.”

McDonnell interessa-se há muito tempo em descentralizar e democratizar a economia. Ele frequentemente cita Tawney, Cole e Benn em palestras. Durante os anos 80, era o representante líder e efetivamente o chanceler do Conselho da Grande Londres [GLC, na sigla em inglês], que buscava experimentos ao estilo de Benn, de cooperativas com apoio estatal, com resultados similarmente mistos, até que foi abolido por Thatcher em 1986.

Contrária à imagem que o retratam, como um monstro estatista, McDonnell acredita que há limites em até que ponto a esquerda consegue aumentar impostos e gastos públicos. Em sua perspectiva, muitos eleitores não estão dispostos, ou estão incapazes, de pagar mais impostos – especialmente quando os padrões de vida estão apertados. Ele também acredita que governos centrais perderam sua autoridade. São vistos simultaneamente como muito fracos, com pouco dinheiro devido à austeridade; e também como muito fortes, muito intrusivos e impositivos em relação à seus cidadãos. Em vez de depender do Estado para criar uma sociedade melhor, um dos aliados próximos de McDonnell, argumenta que governos de esquerda, em nível nacional ou municipal “têm de ousar mudar o funcionamento da economia”.

Nos anos recentes, com o estímulo de McDonnell e Jeremy Corbyn, e a orientação do Democracy Collaborative, muitos dos princípios do “modelo de Cleveland” foram adotados pelo Conselho administrado pelo Partido Trabalhista na pequena (e anteriormente industrial) cidade de Preston, em Lancashire. A regeneração tem sido promovida como o prenúncio da Grã-Bretanha sob um governo Corbyn.

A cidade de Preston, um centro urbano que declinou por décadas, agora tem um mercado renovado e movimentado, novos estúdios artísticos em antigos escritórios do Conselho, e café e cerveja artesanal sendo vendidas em containers marítimos modificados. Todos estes empreendimentos tem sido facilitados pelo Conselho. De forma menos visível, mas provavelmente mais importante, outras instituições públicas – um hospital, uma universidade, uma delegacia policial – foram persuadidas pelo Conselho a buscar bens e serviços locais sempre que possível, tornando-se o que o Democracy Collaborative chama de “instituições âncora”. Elas agora gastam quase quatro vezes mais de seus orçamentos em Preston do que faziam em 2013.

O líder do Conselho é Matthew Brown, um homem intenso, angular, de 46 anos, que foi parcialmente estimulado a entrar na política ao ver Benn na televisão quando era adolescente. “O que estamos fazendo em Preston é bom senso, mas é também ideológico,” me disse Brown, quando nos conhecemos em seu diminuto escritório. “Nós estamos vivendo uma crise sistêmica do capitalismo e temos que criar alternativas.” Ao fazê-lo – especialmente num momento em que Conselhos locais estão sendo altamente enfraquecidos pelos cortes governamentais – Preston está, de forma pequena mas visível, minando a autoridade do neoliberalismo, que depende do dogma segundo o qual outras opções econômicas não são possíveis.

O Conselho, continuou Brown orgulhosamente, estava “apoiando pequenos negócios locais em vez de grandes capitalistas”. Ele estava usando isso como alavanca para fazer as empresas se comportarem de forma mais ética: pagamento de salário mínimo, recrutamento de equipes mais diversas. E estava buscando tornar a cidade um lugar onde cooperativas são o mainstream e não nichos: “Minha intenção é levá-las a dirigir 30% ou 40% de nossa economia.

Perguntei se ele tinha dúvidas sobre a possibilidade de uma cidade com menos de 150 mil habitantes servir de modelo para reformular a toda a economia britânica – e por consequência, outras economias. “Não,” ele disse. “Eu sou bem determinado.”

Sente-se uma confiança nos novos economistas, o que surpreende depois de todas as derrotas da esquerda durante os anos 80 e 90. Mas com o capitalismo menos potente e popular do que antes, os novos economistas acreditam que agora estão engajados no que o teórico político Antonio Gramsci — uma grande referência para eles e McDonnell — chamou de “guerra de posição”. Trata-se da acumulação estável de alianças, ideias e credibilidade pública. Berry descreveu este processo como uma “transição” que pode levar a uma economia diferente. McDonnell me disse em 2017 que ele queria “uma transformação progressiva de nosso sistema econômico”.

Algumas horas depois de encontrar Brown em Preston, falei com McDonnell novamente sobre a nova vitalidade intelectual da esquerda. “Nós estamos começando a reconstruir o que tínhamos com Tony Benn nos anos 70,” ele disse. “Um conjunto de grupos de pesquisa — NEF e Class [outro thinkthank de esquerda em economia] – tem sido revitalizados. Michael Jacobs está cheio de idéias. Nós estamos argumentando efetivamente por uma economia mais democrática. Dobrar o número de cooperativas no Reino Unido” – algo que a NEF defendeu ano passado – “é relativamente tímido. Nós queremos ir além.”

Ele não deu mais detalhes. Mas a política do “fundo inclusivo de posse” adotada pelo Partido Trabalhista mostra o potencial das idéias da nova economia. A intenção dos fundos é que sejam cavalos de Tróia. Ou seja, inserirna estrutura de propriedade de uma companhia um grupo de acionistas – seus funcionários – que tendem a favorecer maiores salários e investimentos de longo-prazo. “Os fundos são para fazer pender a balança rumo a um tipo diferente de cultura corporativa, diz Lawrence.” Ou, como afirma a escritora e ativista Hilary Wainwright, uma das intelectuais mais perspicazes da esquerda do Partido Trabalhista desde os anos 70: “Transformações radicais, quando desestabilizam o status quo do jeito certo, cria outras oportunidades para mudança.”

Mas tornar a nova economia em política nacional será difícil, mesmo que o Partido Trabalhista conquiste poder. Último verão, a diretora do NEF, Miatta Fahnbulleh, foi convidada para uma conversa com servidores do Tesouro Civil, sobre a nova economia. “Quando cheguei lá,” ela me contou, “eu rapidamente me dei conta que, para o Tesouro, a nova economia significa apenas tecnologia. Quando eu comecei a falar, em vez disso, sobre como a economia poderia operar diferente, eles compraram minha premissa de que o status quo tem problemas. Eles são o Tesouro, têm os dados. Acharam que a nova economia era interessante, mas somente como uma espécie de plataforma de debate.”

Antes da NEF, Fahnbulleh trabalhou para o gabinete do governo e para a estratégia institucional do governo. Ela prevê que haverá resistência em à nova economia: “Whitehall odeia grandes mudanças — todas as vezes.” Jacobs, que tem uma experiência mais longa de governo, é levemente mais otimista. “Alguns jovens do Tesouro provavelmente irão ficar bem empolgados com uma nova abordagem econômica. Alguns dos mais velhos vão achar que está tudo errado. E outros irão apenas implementar qualquer coisa que o governo pedir.”

E há o establishment corporativo. Desde Margareth Thatcher, ele se habituou com governos dóceis, com ser capaz de se sobrepor a outros grupos de interesse e com os lucro e preços das ações superando outras medidas de valor econômico ou social de uma empresa. A intenção dos novos economistas em encerrar este desequilíbrio não foi bem aceita. “A Confederação da Indústria Britânica (CBI, na sigla em inglês) realmente odeia propriedade inclusiva,” diz um aliado de McDonnell. “Você consegue sentir os arrepios sempre que suscitamos o assunto.”

Quando indaquei à CBI suas perspectivas sobre a nova economia, houve um silêncio por uma semana. Então, depois que os persegui, uma sucinta declaração: “O Partido Trabalhista parece estar determinado em impor regras que demonstram uma deliberada falta de entendimento de negócios.”

Os novos economistas dizem não estar intimidados. “Nós precisamos ser absolutamente francos sobre isso,” diz Guinan. “Uma economia democrática e outra exploradora são fundamentalmente incompatíveis. Devemos montar um ataque direto, de esquerda populista, a estes interesses corporativos. Devemos dizer a eles: ‘Que vão para Singapura!’ A esquerda não deve temer um pouco de destruição criadora”, ele diz tomando emprestada, de modo atrevido, uma frase geralmente usada pelos defensores do “livre” mercado. Jacob concorda: “Que as corporações exploradoras vão à falência.”

Isso pode parecer uma imprudente fantasia de esquerda. Mas os novos economistas argumentam de forma convincente que transformações altamente disruptivas ocorrerão na economia britânica, de qualquer forma – devido ao Brexit, à automação e à crise climática. “O Brexit por si só irá requerer um Estado bem intervencionista” para ajudar a economia a se adaptar, diz Lawrence. “Ele irá tornar muito mais difícil para um servidor público dizer, ‘Você simplesmente não pode fazer isso.’”

Mas o que os novos economistas querem que venha depois do capitalismo neoliberal? Em Preston, depois que Brown me falou missionariamente acerca das virtudes de “negócios locais” e “empregos locais”, perguntei se seu conselho não estava, na verdade, salvando o capitalismo na cidade – ao torná-lo mais socialmente sensível – em vez de suplantá-lo. Pela primeira vez, ele pausou. “Nós temos que ser pragmáticos,” ele disse. “Ainda estamos em um ambiente de “livre” mercado. E de qualquer forma eu não vejo negócios locais como grandes capitalistas. A vasta maioria possui apenas um ou dois empregados. Quase não há ninguém para explorar. Não há acionistas estão envolvidos.” Nem todo mundo na esquerda veria pequenos empreendimentos — frequentemente grandes apoiadores de partidos de direita e de políticas de “austeridade” sociais e econômicas — em termos tão benévolos.

Posteriormente, perguntei também a McDonnell se sua abordagem não corria o risco de salvar – em vez de substituir – o capitalismo. Ele sorriu e acionou seu modo proverbial, que adota quando fala de questões complexas. “Quem incorpora quem…” ele disse. “Esse é o debate!” Então, seu sorriso ficou mais malicioso. Um governo Corbyn, ele disse, iria “receber” os negócios “em nosso terno abraço”.

O aliado de McDonnell com quem falei disse: sempre que a questão da trajetória de longo prazo da economia surgia, nas discussões do Partido Trabalhista, “nós evitamos esta conversa. Não há consenso no partido.” E adicionou: “Pessoalmente, eu ficaria bem feliz se a Grã-Bretanha terminasse como a Dinamarca.”

McDonnell frequentemente cita a Alemanha como outro país onde o capitalismo é mais benigno. Wainwright, que conhece McDonnell há décadas, tem uma previsão útil e flexível sobre o que deve acontecer com a cultura econômica britânica, se ele se tornar ministro. “Em rota rumo a uma sociedade socialista,” ela diz, “pode haver momentos em que um capitalismo diferente emerge”. Em outras palavras, um sistema menos selvagem.

Ainda assim, o problema da esquerda em se contentar com “um capitalismo diferente” (não importa se temporário) é que isso pode possibilitar que o capitalismo se reagrupe e então retome seu progresso darwiniano. Indiscutivelmente, isso é exatamente o que aconteceu na Grã-Bretanha durante o último século. Depois da recessão econômica politicamente explosiva nos anos 1930 – a precursora da crise atual do capitalismo – durante os anos pós-guerra muitas lideranças corporativas pareceram aceitar a necessidade de uma economia mais igualitária, e desenvolveram relações próximas com políticos trabalhistas. Mas assim que a economia e a sociedade se estabilizaram, e direitistas como Thatcher começaram a advogar sedutoramente por um retorno ao capitalismo tradicional, os empresários mudaram de lado.

Outra dificuldade dos novos economistas e de seus aliados políticos é persuadir eleitores – criados sob a ideia de que lucro e crescimento são os únicos critérios econômicos que importam – de que outros valores devem importar mais, daqui pra frente. Mesmo salvar o meio ambiente é difícil de vender. “O efeito do crescimento econômico no planeta não é uma questão discutida suficientemente pela esquerda,” admite Berry. “Sobre decrescimento” – o atual termo ecológico para abandonar o crescimento como um objetivo econômico – “o Partido Trabalhista não quer chegar perto.” concorda o aliado de McDonnell. “Decrescimento,” ele disse, “é uma terrível rotulação.” Guinan diz que o problema não é apenas de apresentação: “ainda não foi inventada uma política de decrescimento que convença o público.”

Em vez disso, o Partido Trabalhista recentemente começou a construir uma versão do Green New Deal: um sedutor esquema, mas ainda muito teórico, defendido mais constantemente por esquerdistas e ambientalistas na Grã-Bretanha e nos EUA na última década. Ele tem o objetivo de abordar a emergência climática e alguns dos problemas da economia de forma simultânea, por meio de um grande apoio governamental ao uso de tecnologias verdes e aos trabalhos qualificados e bem remunerados necessários.

Em uma palestra esta semana, McDonnell disse que este precisaria ser o maior projeto em tempos de paz em muitas décadas. Em abril, a ministra paralela de Negócios, Rebecca Long-Bailey, uma parceira de McDonnell, escreveu um artigo no The Guardian, defendendo uma “revolução ecológica industrial”, incluindo “turbinas em águas profundas no Mar do Norte”, que “poderiam fornecer quatro vezes a demanda de energia de toda a Europa. Era uma visão bem empolgante, mas as turbinas eram a única nova tecnologia potencial que o artigo mencionava.

Outra grande questão que os novos economistas frequentemente contornam é se muitos dos trabalhadores atuais de fato querem ter mais voz em seus espaços de trabalho. Quando a “democracia industrial” foi a última ideia popular à esquerda, nos anos 70, o trabalho era indiscutivelmente mais satisfatório e central na vida das pessoas. Empregos em escritórios estavam substituindo os empregos nas fábricas, o trabalho era um forte motor de mobilidade social, e a associação a sindicatos poderosos acostumara a maioria dos trabalhadores a ser consultados, a ter alguma agência em suas vidas profissionais. Mas em 2019, experiências de empoderamento no trabalho são menos comuns. Para cada vez mais pessoas, não importa quão qualificadas, emprego é de curto-prazo, de baixo status, ingrato – algo que mal faz parte de sua identidade.

Gordon-Farleigh passou anos tentando estimular as pessoas a formar cooperativas – e nem sempre teve sucesso. “O capitalismo contemporâneo produziu uma força de trabalho passiva,” ele diz. “Muitas pessoas até gostam de se sentir um pouco alienadas pelo capitalismo – e não realmente entender como ele funciona. Eles precisam ser requalificados, politicamente. Temos que olhar quais poderes econômicos eles de fato querem.”

Em abril, depois de esperar uma pausa no aparentemente infinito inverno de polêmicas sobre o Brexit, Mathew Lawrence lançou um think-thank da nova economia, Common Wealth, que busca delinear os eixos do movimento, em conjunto com um evento vespertino em Londres. Após um filme animador, mas levemente escorregadio sobre a missão do Common Wealth, ser exibido em uma grande tela – similar em tom e conteúdo a um recente canal político do Partido Trabalhista chamado Our Town – Lawrence foi introduzido para a audiência por Guinan. Na palestra que se seguiu, Lawrence avançou tanto que sua voz tornou-se um resmungo, rápido demais para qualquer um que não esteja familiarizado com a nova economia acompanhar. Durante este momento formal da tarde, o Common Wealth correu o risco de parecer um projeto para quem já é de dentro — apenas mais um think-tank londrino, com o ex líder do Trabalhista, Ed Miliband, na diretoria.

Mas o restante do lançamento pareceu diferente. O local alugado era em East End, longe do usual cinturão de think-tanks em Manchester. Estava lotado, o sotaque da região se ouvia alto. Quase todo mundo tinha entre 20 e 30 anos, muitos com sapatos desgastados e cortes de cabelos austeros e modernos – a agora familiar visão de millennials britânicos reunindo-se para discutir mudar o mundo. Duas horas depois do início do evento, as pessoas ainda chegavam e quase ninguém havia ido embora. Quando eu fui, pouco antes das 23h, as luzes nos prédios corporativos de Londres ainda estavam acesas. Mas ao me afastar da sala barulhenta, especialmente depois de uma garrafa de cerveja artesanal da Common Wealth, feita para a ocasião, foi possível acreditar que os grandes dias dos banqueiros podem estar contados, e que a nova economia irá nos dizer como.

23 de junho de 2019

"A última batalha de Hong Kong"

Manifestantes de Hong Kong continuam enchendo as ruas. Sua tarefa: encarar não só o autoritarismo do governo, mas também o oportunismo dos capitalistas.

J.S. Chen e Sherry Yuen-Yung Chan

Jacobin

Manifestantes protestam do lado de fora da sede da polícia de Hong Kong em 21 de junho de 2019 em Hong Kong, China. (Anthony Kwan / Getty Images)

Tradução / Menos de cinco anos após a “Revolução dos Guarda-chuvas”, Hong Kong está de volta às manchetes internacionais. No dia 9 de junho, mais de um milhão de manifestantes vestidos de branco foram às ruas para se opor a um projeto de lei que autorizaria extradições à China. No domingo seguinte, estima-se que dois milhões de pessoas — quase 30% da população — foi às ruas novamente, dessa vez vestidos de preto.

A Chefe do Executivo de Hong Kong e apoiadora de Pequim, Carrie Lam, afirma que a medida de extradição seria necessária para fazer justiça no caso do homem de Hong Kong procurado pelo assassinato de sua namorada em Taiwan. Porém, o projeto tem despertado uma oposição imensa, com críticos insistindo que o Partido Comunista da China (PCC) o usaria para extraditar ativistas ou jornalistas dissidentes para a China continental. Em outras palavras, decorreria a abertura das comportas entre o sistema legal da China continental e de Hong Kong, possibilitando o sequestro de cidadãos de Hong Kong, com apoio do PCC.

A polícia respondeu aos protestos com força. Quando os manifestantes desencadearam um protesto sentado no dia 12 de junho, a data original para a segunda votação do PL, a polícia usou balas de borracha, cacetetes, spray de pimenta e gás lacrimogêneo para dispersá-los. Filmagens de manifestantes atingidos na cabeça por balas de borracha e jornalistas agredidos pela polícia vazaram para a internet. Para justificar a repressão, o governo de Hong Kong afirmou que as vítimas formavam um motim ilegal.

Ainda assim, apesar da brutalidade, os manifestantes permaneceram nas ruas, bloqueando o edifício do governo forçando Lam a ceder e suspender temporariamente o projeto de lei.

Depois disso, os manifestantes passaram a exigir que o governo de Hong Kong retrate sua caracterização dos protestos como motins e investigue o uso de força excessiva pela polícia.

Todo mundo sabe que há muito em jogo: um portal apelidou o movimento de “a última batalha de Hong Kong.”

A história da mobilização de massa em Hong Kong

A população de Hong Kong nem sempre foi conhecida pela mobilização em massa. Por muita de sua história moderna, a ex-colônia britânica foi vista como politicamente apática e um ambiente “estritamente de negócios” – um refúgio para a economia de livre-mercado e uma cidadania desmobilizada.

Na década de 1980, dois eventos marcantes mudaram isso. O primeiro ocorreu em 1984, quando a Declaração Conjunta Sino-Britânica selou o destino da colônia de retornar ao domínio chinês. O segundo veio em 1989, quando o PCC massacrou estudantes e trabalhadores na Praça da Paz Celestial.

A política de “um país, dois sistemas” tinha sido introduzida no início dos anos 80, dando ao povo de Hong Kong um alto grau de autonomia em relação a Pequim. Parte do objetivo era garantir a proteção de suas liberdades civis. No entanto, após o massacre de 1989, a população de HK deixou de confiar na promessa de Deng Xiaoping de que teriam mais “cinquenta anos do antigo modo de vida.”

Certamente, Pequim começou a aumentar seu controle sobre Hong Kong depois da transferência administrativa, e a população começou a se mobilizar.

Em 2003, o governo pró-Pequim de Hong Kong tentou decretar o “Artigo 23”, um PL infame que proibia “traição, secessão, sedição, [e] subversão” contra o governo chinês. Meio milhão de pessoas protestaram e suas reivindicações foram atendidas. O projeto de lei foi retirado, e o líder do executivo, Tung Chee-Hua, se demitiu. Foi a primeira vez que o povo de Hong Kong sentiu o gosto de seu poder coletivo.

A manifestação também marcou o fim da lua de mel de Hong Kong com Pequim. Depois disso, os ataques à autonomia de Hong Kong se tornaram mais frequentes e intensos.

Em 2012, o governo introduziu um projeto de lei que inseriria “educação moral e nacional” no cerne curricular das escolas primárias e secundárias. Estudantes criticaram o material como rigidamente pró-Pequim, e uma coalizão estudantil, a “Escolarismo” iniciou ondas de protestos sentados, manifestações e campanhas de boicote.

Em 2014, a Revolução dos Guarda-chuvas explodiu em seguida a uma proposta que permitiria ao PCC pré-selecionar candidatos para o principal posto em Hong Kong — um ataque direto à sua autonomia e à sua democracia, já bastante limitada. Pessoas se espalharam pelas ruas e ocuparam estradas próximas à sede do governo e ao distrito comercial central. Os manifestantes permaneceram por setenta e nove dias, exigindo sufrágio universal em eleições para a chefia do Executivo. Dessa vez tiveram menos sucesso — Pequim se recusou a permitir que Hong Kong se tornasse uma democracia liberal plena. O chefe do Executivo permanece uma posição inelegível, e somente parte da legislatura responde à vontade dos eleitores.

As manifestações recentes são um reflexo do desejo da população de Hong Kong de manter os direitos democráticos que ainda possui. Porém, ao contrário de movimentos anteriores, os protestos contra a lei de extradição se destaca pela sua relativa espontaneidade e falta de liderança. Embora a veterana coalizão dissidente Frente Civil pelos Direitos Humanos tenha convocado manifestações em domingos, muitos dos protestos sentados e ocupações mais militantes foram organizados por trabalhadores e estudantes de pouca ou nenhuma experiência de organização política. De fato, mesmo a recente ocupação da delegacia de polícia foi convocada por internautas sem nenhuma afiliação política clara.

É exatamente esse clima de relativa liberdade política que o PL de extradição ameaça. Sob a proteção de seu atual sistema legal, os estudantes podem criticar um currículo hiper-nacionalista, os jornalistas podem proferir visões dissidentes e os ativistas podem se organizar sem medo de “abdução”. O PL de extradição mudaria tudo isso – se aprovado, já não seria seguro para a população de Hong Kong ir às ruas e expressar seu descontentamento.

A relação de Hong Kong com a China

Para se compreender o atual movimento anti-extradição, é importante dissecar a relação de Hong Kong com a China — algo muito mais complexo do que “liberdade versus autoritarismo.”

Hong Kong, ao contrário da maioria das ex-colônias do Ocidente, se saiu muito bem depois do período de domínio colonial – mas a transição foi planejada para que o resultado fosse esse.

Nas duas décadas que antecederam à entrega em 1997, o governo de Hong Kong sob domínio britânico instituiu uma série de reformas, do sistema de saúde à habitação, que melhoraram a vida do povo. Foi implementada uma legislação trabalhista para criar estabilidade para os trabalhadores; a produção recebeu incentivos para impulsionar a cadeia de valor; o inglês passou a ser ensinado nas escolas para dar à futura força de trabalho acesso ao mundo ocidental. O objetivo era melhorar drasticamente a qualidade de vida da população e ampliar a distância econômica do território em relação ao resto da China para dificultar o governo para o PCC.

O resultado foi a alienação econômica e cultural em relação à China. Em 1997, Hong Kong se destacava do resto do país como uma cidade internacional e uma potência financeira, representando o capitalismo ocidental contra o pano de fundo da China Comunista.

Dada essa História, é fácil enxergar os protestos anti-extradição como uma luta entre uma Hong Kong capitalista, ocidentalizada e uma China socialista, acometida pela pobreza e tentando se libertar de grilhões imperiais.

No entanto, desde a política de portas abertas de Deng no início dos anos 90, a China se transformou de um país em desenvolvimento para uma superpotência global.

Apesar de se intitular comunista, o PCC aplica o que seria descrito mais precisamente como “capitalismo com características chinesas” — um tipo de capitalismo de Estado onde o poder político é convertido em ganhos capitalistas. E como qualquer Estado capitalista, o PCC faz o que for preciso para manter o status quo. Com Xi Jinping no poder, o Estado chinês tem aumentado seu controle tanto sobre a China continental quanto Hong Kong.

Na corrida pelo domínio econômico global, Xi tem impulsionado o projeto multi-bilionário de infraestrutura conhecido como Iniciativa do Cinturão e Rota — plantando as sementes para o controle econômico de toda a África e América do Sul e sinalizando o desejo da China de disputar diretamente com os EUA. Contudo, apesar das ambições imperiais do PCC, eles vestem suas ações com a linguagem do anti-imperialismo. Apoiadores elogiam o país como um contrapeso ao império estadunidense. Da mesma forma, para enfraquecer as manifestações anti-extradição, o PCC tem se retratado como vítimas do imperialismo ocidental, sugerindo que os protestos de Hong Kong são fruto do trabalho de governos ocidentais.

Entretanto, não devemos cair em uma preguiçosa (e perniciosa) postura anti-chinesa. Se o PL de extradição for aprovado, os nacionalistas ocidentais se sentirão incentivados a aplicar mais pressão sobre a China. Os EUA já ameaçaram cancelar o status especial de comércio econômico de Hong Kong, que hoje lhe dá acesso preferencial aos mercados estadunidenses. Isso provocaria Pequim e prejudicaria os residentes de Hong Kong no processo.

Em meio à guerra econômica em andamento e à caracterização da china como bode expiatório pelos problemas da ordem econômica global, os manifestantes devem rejeitar não só o autoritarismo chinês e sua vazia narrativa anti-imperial, como também as agressões nacionalistas ocidentais.

A política do movimento

Não é por acaso que a expansão de Pequim em Hong Kong tem tomado a forma de uma invasão econômica.

Ano passado, o governo pró-Pequim em Hong Kong levou em frente a “Visão de Lantau do Amanhã,” um projeto de infraestrutura em larga escala e imobiliário e que está deve custar $63.8 bilhões (cerca de metade das reservas finais de HK). O governo afirma que o plano vai resolver a crise de habitação da cidade, mas o dinheiro provavelmente será canalizado diretamente para as empresas de construção chinesas que devem desenvolver o projeto.

A Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, uma campanha econômica organizada por Pequim, é outro exemplo disso. O governo construiu uma mega-ponte que conecta Hong Kong à China continental e a Macau, ao custo de $20 bilhões de dólares. Para executar o projeto, o governo de Hong Kong foi forçado a cavar fundo em suas reservas financeiras para tornar a cidade um veículo ainda mais atraente para o dinheiro chinês.

Esses projetos beneficiam o capital chinês à custa do povo de Hong Kong — drenando dezenas de bilhões de dólares que poderiam ser gastos em iniciativas que de fato tornassem a cidade mais habitável para a população.

Geralmente, o governo autoritário da China está alinhado com os interesses da elite financeira de Hong Kong. No entanto, o PL de extradição expôs uma fissura surpreendente. Quando ela foi proposta em fevereiro deste ano, muitos membros das elites expressaram séria preocupação – mas sua oposição vem de um desejo de proteger sua própria riqueza — como deixado claro por sua apressada transferência de posses para outros países. Joseph Lau, um bilionário local, chegou ao ponto de pedir uma revisão judicial para desafiar o PL em março.

A rara oposição dos ultra-ricos de Hong Kong ao PL apoiado por Pequim pode sugerir que o movimento anti-extradição seja pró-capital por natureza — uma guerra por procuração entre a elite financeira de Hong Kong e o capital chinês —, mas esse não é o caso. No máximo, essas elites empresariais estão se surfando no suor e labuta dos manifestantes, compostos por estudantes, trabalhadores e cidadãos(as) comuns de Hong Kong.

Ainda assim, a visão política do movimento anti-extradição não é em hipótese alguma homogênea. Os dois protestos de domingo que quebraram recordes de comparecimento foram dominados por liberais. Os socialistas também ocuparam as ruas, embora em menor número. Muitos e muitos outros também compareceram, representando uma ampla extensão do espectro político. Porém, os mais notórios — e maiores em tamanho do que a esquerda em Hong Kong — têm sido os localistas de direita, conhecidos por menosprezarem a população da China continental e apoiarem políticas intolerantes em Hong Kong (exclusão de serviços públicos, leis de linguagem xenofóbica, etc.). O objetivo primário dos localistas é assegurar a independência de Hong Kong ou devolvê-la ao domínio britânico.

Os socialistas em Hong Kong se opõem às políticas xenofóbicas dos localistas. Em vez de virar as costas para os chineses, os socialistas exercem um papel ativo no apoio ao movimento trabalhista na China continental.

Devido ao controle estreito que o PCC exerce sobre o resto da China, membros de organizações chinesas dependem da esquerda de Hong Kong para reforçar seu movimento trabalhista. A autonomia e a proximidade do território com a China continental a tornam um espaço vital para conectar a força de trabalho censurada e hiper-oprimida na China ao resto da classe trabalhadora regional e global. Se o PL de extradição for aprovado, essa ligação crucial seria rompida. O esforço para construir uma classe trabalhadora progressista e transnacional seria severamente enfraquecido.

Embora os socialistas não tendo sido a maioria durante as manifestações deste mês, eles têm desempenhado um papel crucial em dar forma ao movimento e oferecer uma alternativa à narrativa hegemônica. Ao contrário dos liberais, os grupos socialistas têm apoiado táticas mais militantes, incluindo protestos sentados, bloqueios de estradas e a ocupação do gabinete central do governo.

Os grupos socialistas também têm construído alianças com os trabalhadores durante o movimento. Nos dias 12 e 17 de junho, eles apoiaram trabalhadores que urgiam os seus sindicatos pela organização de uma greve geral — a primeira vez que a ideia de uma greve generalizada por toda a cidade entrou nas discussões populares em Hong Kong.

As manifestações anti-extradição têm ressoado com muita gente em Hong Kong. Embora os manifestantes ainda estejam nas ruas, o projeto de lei foi suspendido temporariamente, e muitos cidadãos sentiram que sua voz foi ouvida. No entanto, conforme a China segue avançando sobre as liberdades civis e a autonomia legal do território, os grupos socialistas em Hong Kong precisam assumir a liderança no contra-ataque — e na construção de um movimento anticapitalista, anti-xenofobia que possa enfrentar não apenas o governo autoritário chinês, mas também as elites empresariais de Hong Kong.

Sobre os autores

J.S. Chen é membro da Coalizão de Trabalhadores de Tecnologia no Nordeste dos EUA.

Sherry Yuen-Yung Chan é uma escritora de Hong Kong e doutoranda em Sociologia na Universidade de Wisconsin-Madison.

21 de junho de 2019

Lava Jato, democracia e reformas

Em qualquer democracia consolidada Lula já estaria solto, e Moro, afastado

Nelson Barbosa


"O que posso assegurar é que, na condução dos trabalhos de juiz no âmbito da Operação Lava Jato, sempre agi conforme a lei", disse Sergio Moro, ministro da Justiça, em sessão na CCJ do Senado para explicar conversas vazadas. Adriano Machado/Reuters

As revelações do The Intercept Brasil sobre conversas entre o então juiz Sergio Moro e procuradores do Ministério Público comprometeram a credibilidade da Operação Lava Jato.

Não é a primeira vez que isso acontece. Os vazamentos seletivos da Lava Jato, sobretudo perto de eleições ou decisões importantes no STF ou Congresso, já criaram suspeitas de que a investigação não se pautava somente por critérios jurídicos.

Posteriormente, a indicação de Sergio Moro para o Ministério da Justiça desmoralizou ainda mais o mecanismo da Lava Jato, pois, como foi noticiado pela imprensa internacional na época, Bolsonaro nomeou o juiz que tirou seu principal rival das eleições de 2018.

Ainda que a nomeação de Moro possa ser justificada, ficou feio para o Brasil.

Voltando ao Intercept Brasil , devo destacar, como fez Celso Rocha de Barros, que as revelações recentes não invalidam o combate à corrupção feito pela Lava Jato, que pode e deve continuar, dentro da lei.

O que as conversas divulgadas fazem é reforçar a suspeita de que, em paralelo ao aumento do combate à corrupção, também houve uma operação política ilegal contra o PT e Lula nos últimos anos.

É difícil prever as consequências do desmoronamento de Moro, mas neste momento é crucial garantir a liberdade de imprensa e o respeito às leis. Digo isso com conhecimento daqueles que até hoje enfrentam a guerra jurídica e midiática contra o PT e (quase) todos que trabalharam para Lula e Dilma.

Como já disse em 2016, por ocasião da defesa da presidente Dilma no Senado, tenho muito orgulho de ter servido nos governos do PT. Houve erros? Óbvio que sim, como sabem os leitores que acompanham esta coluna. Mas houve mais acertos do que erros e, principalmente, houve compromisso com o desenvolvimento para todos e respeito à democracia. Hoje esses dois legados estão em risco.

Foi com tristeza que li alguns colegas defenderem que a as revelações do Intercept Brasil seriam ruins por ameaçar a aprovação das reformas econômicas de Paulo Guedes. Esse tipo de argumento economicista já foi utilizado, em 2017, para minimizar o Joesley Day, que revelou a essência do governo Temer.

Sim, é óbvio que o Joesley Day e a nova desmoralização de Moro comprometeram a sustentabilidade política de quem só se sustenta na paranoia “anti-petê”. Porém, achar que essas revelações têm por objetivo barrar reformas A ou B no Congresso é diversionismo de quem não quer reconhecer o erro de ter apoiado dois golpes contra a democracia, um em 2016, outro em 2018.

Na verdade, a reforma da Previdência não saiu sob Temer porque não foi prioridade do governo Temer. O projeto demorou a ser enviado, ficou meses sem pai nem mãe no Congresso, antes de ser definitivamente descartado.

Agora a reforma da Previdência tem chance de sair apesar da usina de crises de Guedes e Bolsonaro, como observou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

E a necessidade de reformas econômicas não é justificativa para defender a censura e enfraquecer a democracia. Por isso lamento que alguns colegas tenham novamente aberto a porta do inferno para dançar com o diabo golpista. Sugiro ficar do lado do papa Francisco, que recentemente alertou ao mundo sobre o perigo da perseguição política e judiciária baseada em acusações falsas.

Por fim, em qualquer democracia consolidada Lula já estaria solto, e Moro, afastado, diante das mais recentes revelações. Mas infelizmente voltamos a viver em uma sociedade censurada, com dois pesos e duas medidas na justiça e, por isso, nossa democracia continua em risco.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

20 de junho de 2019

Caixa-preta

Enquanto procuramos a caixa-preta no BNDES, destruímos a capacidade do Estado de investir

Laura Carvalho


A taxa de desemprego no Brasil fechou em 12,4% nos três meses até fevereiro, segundo dados do IBGE. Danilo Verpa/Danilo Verpa.

Seja pela sua profundidade, seja por sua longa duração, a crise econômica brasileira atual é bastante atípica. Tal como na queda de um avião, é preciso uma confluência de fatores para explicá-la.

A caixa-preta, que nos desastres ajudam a revelar alguns deles, pode ser encontrada, no caso de nossa recessão, em um setor-chave da economia: a construção civil.

Se considerarmos que a recessão começou no segundo trimestre de 2014, tal qual identificado pelo Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos), o PIB brasileiro ainda está 5,3% abaixo de seu valor pré-crise, tornando esta a mais lenta recuperação da história.

Ainda assim, nada comparado ao que se passa no setor de construção, que ainda sofre com um produto 31,8% menor do que no pico.

Mas não é apenas pela forte queda no produto e pela lentidão na recuperação que o setor de construção civil é tão crucial para explicar nossa crise. Por ser muito intensivo em mão de obra, a perda de empregos no setor é, sozinha, responsável por mais de 20% do aumento no número de desempregados no país.

Além disso, por empregar majoritariamente trabalhadores menos escolarizados, de salários mais baixos, o momento vivido pela construção civil também explica boa parte do aumento nas desigualdades de renda desde o início da crise. O rendimento médio recebido em todos os trabalhos já era, no primeiro trimestre de 2014, 17% maior do que os rendimentos na construção.

Mas essa disparidade subiu para 33%, de acordo com os dados da Pnad Contínua do primeiro trimestre deste ano.

Ou seja, ao contribuir fortemente para o aumento do desemprego e da desigualdade, a crise na construção tem impacto nos outros setores da economia, na medida em que prejudica a recuperação do consumo das famílias. Mas ainda resta a pergunta: por que o setor de construção tem sido o mais afetado desde 2014?

É aí que entra em cena a confluência de fatores. Primeiro, na semana em que foi protocolado o maior pedido de recuperação judicial da história brasileira, pela Odebrecht S.A., não é possível ignorar os impactos econômicos de curto prazo da Operação Lava Jato.

Como apontou o economista Bráulio Borges, da LCA Consultoria e do Ibre/FGV, a lentidão e a incerteza envolvendo a aprovação dos acordos de leniência com as grandes empreiteiras envolvidas têm também efeitos sistêmicos, na medida em que seus credores respondem aos riscos de inadimplência dessas empresas, contraindo o crédito.

A segunda explicação não é menos importante: o setor é o mais punido pela queda brutal nos investimentos públicos em obras de infraestrutura e construção de escolas, hospitais e moradia desde o início do ajuste fiscal, em 2015.

Segundo dados da IFI (Instituição Fiscal Independente), os investimentos do governo central caíram pela metade, em termos reais, entre 2014 e 2017. Nas empresas públicas federais e nos governos estaduais e municipais, a queda foi ainda maior: de 58%, 58% e 56%, respectivamente.

“O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que descontruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer”, declarou o presidente Jair Bolsonaro em um evento em março nos Estados Unidos.

Acho que agora eu entendi: a ideia é continuar procurando a tal caixa-preta no BNDES enquanto destruímos completamente a capacidade de investimento e de financiamento do Estado brasileiro —nossos possíveis motores de retomada.

Sobre a autora

Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".

18 de junho de 2019

Solidariedade a Glenn Greenwald

Na semana passada, o The Intercept expôs a perseguição de Lula pela farsa que era. Agora o jornalista Glenn Greenwald, sua família e o The Intercept estão sob ataque de Bolsonaro e seus seguidores. Eles merecem nossa solidariedade

Todd Chretien 


Glenn Greenwald aceita o Prêmio George Polk de Relatórios de Segurança Nacional em 11 de abril de 2014 na cidade de Nova York (Andrew Burton/Getty Images)

Tradução / O jornalista Glenn Greenwald está mais uma vez arrasando a política internacional, expondo as violações do Estado às liberdades civis. Desta vez, sua reportagem tem como alvo os mais altos níveis do gabinete do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Nos Estados Unidos, Greenwald é mais conhecido pela publicação da denúncia de programas ilegais de vigilância da Administração Nacional de Segurança, por Edward Snowden, no The Guadian, em 2013. Naquela época , vários congressistas republicanos exigiram a acusação judicial de Greenwald, incluindo Mike Rogers, então presidente do Comitê de Inteligência da Câmara. Desta vez, extremistas políticos no Brasil, onde Greenwald vive há anos, estão pedindo por sua cabeça. Isso resultou em ameaças grotescas contra não apenas a vida de Greenwald, mas também as de seu marido, o deputado esquerdista David Miranda, e seus filhos adotivos.

Por quê? Em 9 de junho, Greenwald e uma equipe de repórteres - Andrew Fishman, Rafael Moro Martins, Leandro Demori e Alexandre de Santi - publicaram no The Intercept dois artigos de grande sucesso baseados em comunicações vazadas entre o promotor Deltan Dallagnol e o então juiz responsável Sergio Moro em uma campanha abrangente anticorrupção chamada Operação Lava Jato.

Enquanto a Lava Jato gerou acusações contra políticos poderosos em todo o espectro político, a condenação e a sentença de dez anos concedida ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram a jóia da coroa de Moro. Lula é de longe o líder mais popular do Partido dos Trabalhadores (PT), que se levantou das fileiras do sindicato dos metalúrgicos para reunir milhões no final dos anos 70 e início dos 80 contra os generais que governavam o Brasil. Ele foi eleito para dois mandatos como presidente entre 2003 e 2010, durante os quais promoveu programas que reduziram a extrema pobreza e expandiram as oportunidades de educação para os estudantes da classe trabalhadora.

Quando seus mandatos terminaram, sua sucessora do PT, Dilma Rousseff (ex-combatente clandestina que foi torturada pela ditadura militar brasileira) ganhou mais dois mandatos. Uma forte recessão em 2014-2015 esgotou a disposição da classe dominante de se comprometer com uma agenda social-democrata moderada. Assim, a direita capitalizou a Lava Jato para estimular o sentimento popular de anticorrupção e o usar como arma contra a esquerda. Isso terminou com um golpe parlamentar contra Rousseff em agosto de 2016, forçando-a a sair do cargo por acusações de corrupção ridiculamente frágeis.

Depois que um governo de direita fraco liderado por Michel Temer completou o mandato de Dilma, uma batalha real foi marcada para a eleição presidencial de 2018 entre vários candidatos conservadores tradicionais e o popular Lula.

Graças à natureza abertamente política do impeachment de Dilma, quando Moro voltou sua atenção para Lula, milhões acharam suspeito. Moro acusou Lula de aceitar a escritura de um apartamento como recompensa pela concessão de contratos com o governo, mas nunca foi provado que Lula sequer era o proprietário do apartamento. No entanto, no verão de 2018, Lula foi condenado, impedido de concorrer ao cargo e a Suprema Corte negou todos os recursos.

Embora muitos suspeitassem que a investigação sobre Lula fosse politizada, não havia como provar isso - até que Greenwald e sua equipe receberam uma série de comunicações privadas entre Moro e seu principal promotor, Dallagnol. Com uma bomba na mão, o relatório do The Intercept conclui que "Moro ultrapassou grosseiramente as linhas éticas que definem o papel de um juiz".

As mensagens de texto vazadas provam que, mesmo depois de Dallognol ter colocado Lula atrás das grades, ele e outros promotores supostamente apartidários continuaram a planejar contra Lula e o PT:

Fonte: The Intercept

Com o espetacularmente popular Lula fora do caminho, a marca de extrema direita e antiestablishment de Bolsonaro o impeliu ao cargo, onde rapidamente recompensou Moro com o controle do Ministério da Justiça. As revelações de Greenwald ameaçam não apenas Moro e Dallagnol, mas questionam a independência do judiciário brasileiro e a legitimidade do governo de Bolsonaro.

Naturalmente, a campanha contra Greenwald se assemelha muito a política de Bolsonaro: xenofóbica, homofóbica e violenta. Nas horas após o lançamento do relatório, a #DeportaGreenwald começou a ser a mais usada no Twitter. David Miranda foi direto ao assunto, tuitando :

“A homofobia infantojuvenil não fará desaparecer as evidências maciças de delitos cometidos por Moro, Deltan e LJ. Eles estão buscando qualquer coisa porque não têm meios de abordar o conteúdo da reportagem. Oq falar ?! Cortina de fumaça. #VazaJato”

Miranda sabe do que ele está falando. É deputado federal no congresso nacional do Rio de Janeiro pelo Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL). Miranda substituiu Jean Wyllys do PSOL , o primeiro congressista abertamente homossexual do Brasil, depois que ameaças de morte forçaram Wyllys a renunciar e deixar o país. E pouco mais de um ano atrás, a vereadora do PSOL Marielle Franco e seu motorista foram assassinados no meio da rua. A ascensão de Bolsonaro ao poder deixou uma onda de assassinatos políticos em seu rastro, incluindo dois líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MTST).

O maior apoio de Bolsonaro está concentrado entre os elementos de extrema direita que estão armados até os dentes, tanto oficialmente nas forças policiais e militares, quanto extraoficialmente em gangues paramilitares nas cidades e grandes milícias do agronegócio no interior. No mês passado, Bolsonaro recompensou esses grupos com a flexibilização de leis de porte de armas em uma nação que sofre mais de 68.000 assassinatos por ano. Ameaças contra Greenwald, sua família e a equipe do The Intercept e os meios para realizá-las são reais demais.

O PSOL e a esquerda mais ampla apelam para a solidariedade com Miranda e sua família, dezenas de meios de comunicação estão se unindo ao The Intercpt pela Liberdade de Imprensa e a uma Comissão Parlamentar Conjunta de Inquérito(CPI) ,foi formada pelo PT, PSOL e outros partidos de esquerda para investigar a alegação contra Moro e outros.

Enquanto isso, Bernie Sanders tuitou seu apoio a Lula: 

“Durante sua presidência, Lula lidou com enormes reduções na pobreza e continua sendo o político mais popular do Brasil. Eu estou junto a líderes políticos e sociais de todo o mundo que estão pedindo ao judiciário brasileiro para libertar Lula e anular sua condenação”

Apenas alguns meses atrás, parecia que a extrema direita estava à beira de derrotar decisivamente a classe operária brasileira e as feministas insurgentes, LGBT e movimentos afro-brasileiros. Na semana passada, uma combinação poderosa da The Intercept reportagem bombástica e uma greve geral massiva em 14 de junho desequilibraram o jogo. Se Lula for libertado, os dias de Bolsonaro podem estar contados, pois não haveria dúvida de quem venceria em uma eleição justa entre os dois. A direita do Brasil fará tudo o que puder para silenciar Greenwald e o The Intercept e eles terão amigos na Washington de Trump, enquanto planejam seu próximo passo. Devemos ter certeza de que a solidariedade com Greenwald e o respeito à liberdade de imprensa, às liberdades civis básicas e ao fim da perseguição politizada da esquerda sejam ouvidos em alto e bom som em Brasília.

Sobre o autor

Todd Chretien é um organizador, autor, tradutor e professor de espanhol do ensino médio. Ele contribuiu para vários livros, incluindo Estratégia Socialista e Política Eleitoral, e é editor de Testemunhas da Revolução Russa.

16 de junho de 2019

A obra-prima de Ralph Miliband aos 50 anos

Cinquenta anos após sua publicação, O Estado na Sociedade Capitalista, de Ralph Miliband, continua indispensável para qualquer movimento socialista com ambições de poder.

Leo Panitch

Jacobin

Um prisioneiro segura "O Estado na Sociedade Capitalista", de Miliband, em protesto contra as condições em uma prisão estadual de Michigan.

As ilusões da era neoliberal — de que o mercado deveria ou mesmo poderia ser libertado do Estado, ou de que um processo imparável de globalização capitalista estava contornando até mesmo os Estados mais poderosos — dissiparam-se repentinamente. Um dos maiores equívocos dos neoliberais era a noção de que Estados e mercados estavam em oposição um ao outro. Desde então, foi apenas no nível mais superficial que se poderia pensar que os Estados estavam em recuo.

Pelo contrário, eles têm se empenhado ativamente na disseminação das relações de mercado capitalistas para todos os cantos do globo e em todas as facetas da vida, enquanto intervinham repetidamente para tentar conter as crises que isso desencadeou. É uma medida de quão hegemônica a dicotomia "mercados versus Estados" se tornou, que mesmo a maioria daqueles que reconheciam o elo crucial entre a disseminação dos mercados e a ação estatal simplesmente clamavam por um retorno aos dias em que os Estados supostamente exerciam controle sobre os mercados.

Ler "O Estado na Sociedade Capitalista", de Ralph Miliband, é tão instrutivo hoje, cinquenta anos após sua publicação, não apenas porque nos fornece ferramentas indispensáveis ​​para compreender o "retorno do Estado", mas também porque dissipa tais ilusões sobre o mundo antes do neoliberalismo. "O Futuro do Socialismo", de Anthony Crosland, publicado em 1956, resumiu o pensamento de toda uma geração de políticos e intelectuais do New Deal, trabalhistas e social-democratas nos países capitalistas ocidentais com seu argumento de que a "transformação do capitalismo" do pós-guerra implicou "a perda de poder da classe empresarial para o Estado", "a transferência de poder da gestão para o trabalho" na indústria e até mesmo uma mudança histórica na própria natureza da classe empresarial, pela qual o "poder econômico dos mercados de capitais e das instituições financeiras... ficou muito mais fraco".

Depois da experiência das décadas neoliberais iniciadas na década de 1980, é óbvio o quão equivocado isso era. Mas quando Miliband concebeu "O Estado na Sociedade Capitalista", em 1962, para mostrar o poder contínuo das grandes empresas, tanto dentro quanto fora do Estado, ele estava desafiando a hegemonia tanto da teoria pluralista da política (de que o poder nas sociedades ocidentais era competitivo, fragmentado e difuso) quanto da teoria econômica keynesiana do pós-guerra (de que a política pública era autônoma em relação aos interesses capitalistas). Ao contrário daqueles que alimentavam ilusões sobre a harmonia social e a estabilidade econômica sob um capitalismo administrado, Miliband ainda reconhecia nele "um sistema atomizado que continua a ser marcado, que na verdade está mais marcado do que nunca, por aquela suprema contradição de que Marx falou há cem anos, a saber, a contradição entre seu caráter cada vez mais social e seu propósito privado duradouro".

A afirmação feita na frase de abertura do capítulo final de Miliband — de que "o fato político mais importante sobre as sociedades capitalistas avançadas... é a existência contínua nelas de poder econômico privado e cada vez mais concentrado" — tornou-se tão óbvia hoje que precisamos nos lembrar de que foi escrita uma década antes de Thatcher e Reagan assumirem o poder. Quaisquer que fossem os temores que as classes capitalistas pudessem ter tido em relação a Roosevelt na década de 1930, da perspectiva da década de 1960, Miliband pôde demonstrar claramente que o efeito do New Deal havia sido "restaurar e fortalecer o sistema capitalista, a um custo muito baixo para as classes dominantes". As classes dominantes na Europa e no Japão tornaram-se mais coesas socialmente do que nunca no período pós-guerra, principalmente em virtude de as antigas aristocracias terem passado por um processo de "aburguesamento", à medida que eram "assimiladas ao mundo da indústria, das finanças e das empresas comerciais".

Quanto ao "avanço dramático em direção à igualdade" que supostamente ocorreu no período pós-guerra, com a eleição de partidos social-democratas para o governo e a adoção de muitas de suas reformas pelos partidos conservadores, ele se mostrou menos dramático e mais limitado do que se alegava. Tais tendências equalizadoras que estavam em ação não deveriam ter sido “promovidas ao status de uma ‘lei natural’ e projetadas para o futuro”, Miliband cita o eminente estudioso de política social Richard Titmuss dizendo em 1965: “há outras forças, profundamente enraizadas na estrutura social e alimentadas por muitos fatores institucionais inerentes às economias de larga escala, operando em direções inversas”. A promessa de uma reforma muito mais radical foi decepcionada, mostrando o quão “formidáveis” eram as “forças de contenção em ação nas sociedades capitalistas avançadas” — fosse isso o “resultado de um esforço deliberado” das classes capitalistas ou “o peso do próprio sistema”.

Mas o que era tão importante na conclusão de Miliband era que ele insistia que essa "não era, de forma alguma, toda a história"; não confirmava o que Herbert Marcuse, em outro grande livro da época, havia chamado de "homem unidimensional". Pelo contrário, Miliband já discernia a importância do que mais tarde analisaria mais detalhadamente como um "estado de dessubordinação" generalizado que se espalhava pelas sociedades capitalistas avançadas no final da década de 1960.

Um profundo mal-estar, uma sensação generalizada de possibilidades individuais e coletivas não realizadas, penetra e corrói o clima de toda sociedade capitalista avançada. Apesar de toda a conversa sobre integração, aburguesamento e coisas do gênero, nunca essa sensação foi tão intensa quanto agora; e nunca na história do capitalismo avançado houve um momento em que mais pessoas estivessem mais conscientes da necessidade de mudança e reforma. Tampouco houve um momento em que mais homens e mulheres, embora de forma alguma movidos por intenções revolucionárias, estivessem mais determinados a agir na defesa e na valorização de seus interesses e expectativas. O alvo imediato de suas reivindicações pode ser empregadores, autoridades universitárias ou partidos políticos. Mas... é para o Estado que eles são cada vez mais impelidos a direcionar sua pressão; e é do Estado que esperam a realização de suas expectativas.

Foi em reação a essa pressão que o neoliberalismo lançou suas raízes entre as classes capitalistas; em grande parte porque os capitalistas se fortaleceram durante o pós-guerra, eles se recusaram a tolerar tal insubordinação. O ataque ideológico que lançaram ao "Estado" visava reduzir as expectativas das classes que não estavam mais totalmente subordinadas. Mas o fato de os capitalistas terem tais preocupações não evidencia que, afinal, lhes faltava um "grau decisivo de poder político", minando assim a teoria do Estado de Miliband?

As notas preparatórias de Miliband para o livro revelam sua preocupação em explicar esse aparente paradoxo: ele sabia que "precisava explicar de forma convincente" por que as próprias classes capitalistas que o Estado protegia, no entanto, "nem sempre conseguem o que querem e certamente não sentem que estão sendo protegidas da forma mais eficaz". A atenção que ele dedicou a isso no livro foi explicitamente concebida para "servir como um corretivo necessário à noção de que interesses como esses são, em virtude de seus recursos, todo-poderosos. Como já foi enfatizado, eles não são, e podem ser derrotados. Isso, no entanto, dificilmente nega o fato de que são poderosos, de que exercem vasta influência política e de que são capazes de se engajar em um esforço de doutrinação ideológica que está completamente além do escopo de qualquer outro interesse na sociedade".

A documentação de Miliband sobre os esforços e gastos de grupos empresariais nas décadas de 1950 e 1960 para promover "a economia da livre iniciativa" e explicar os perigos da "intervenção política imprudente", da "tributação excessiva" e da "dívida nacional" mostra que o que veio a ser chamado de neoliberalismo já existia avant la lettre. Era inteiramente previsível para qualquer um que prestasse atenção ao livro de Miliband que os capitalistas aumentariam o volume diante da interferência na transmissão dessa mensagem empresarial por parte da insubordinação em massa da classe trabalhadora.

Apesar das acusações grosseiras de instrumentalismo, o livro de Miliband, de fato, articulou com muita clareza sua consciência de que as classes dominantes “não são blocos econômicos e sociais sólidos e cristalizados”, e ele argumentou explicitamente que era precisamente por essa razão que elas “exigem formações políticas que reconciliem, coordenem e fundam seus interesses”. Foi aí que “as funções especiais dos partidos políticos conservadores” entraram em cena, acima e além daquelas dos think tanks e grupos de lobby corporativos, e isso se deu não apenas em termos de seu papel indispensável na formulação de “uma ofensiva política unificada e com consciência de classe”, mas também em termos de criar a “roupagem ideológica adequada para a competição política na era da política de massas”.

As conquistas dos grandes partidos conservadores, insistia Miliband, estavam ligadas ao fato de que eles "não foram apenas os partidos das classes dominantes, dos negócios e da propriedade, seja em termos de seus membros ou de suas políticas. De fato, uma das coisas mais notáveis ​​sobre eles é o sucesso com que se adaptaram às exigências da 'política popular'". Mas, como sempre na obra de Miliband, isso só poderia, em última análise, ser compreendido em termos da interação entre esses partidos e "os partidos políticos de esquerda", que eram:

liderados por homens que, na oposição, mas particularmente no poder, sempre foram muito mais ambíguos quanto aos seus propósitos, para dizer o mínimo, do que seus rivais conservadores... Isso, nem é preciso dizer, não tem nada a ver com os atributos pessoais dos líderes social-democratas em comparação com os dos conservadores. A questão não pode ser abordada nesses termos. Precisa, antes, ser vista em termos do tremendo peso da pressão conservadora... [e] o fato de que as defesas ideológicas desses líderes geralmente não têm sido suficientemente fortes para permitir que resistam com grande sucesso à pressão, intimidação e sedução conservadoras.

Quando questionada sobre qual foi sua maior conquista, Margaret Thatcher respondeu com a famosa frase: "Tony Blair e o Novo Trabalhismo. Forçamos nossos oponentes a mudar de ideia". Isso teve muito menos a ver com uma conversão ideológica ao neoliberalismo do que com uma série de decisões pragmáticas, geralmente motivadas pelas exigências do momento, para prometer facilitar a acumulação de capital, o que frequentemente envolvia mais, e não menos, intervenção estatal para ser alcançado. "A intervenção estatal na vida econômica, na verdade, significa, em grande parte, intervenção com o propósito de ajudar a iniciativa capitalista", explicou Miliband em 1969, observando, além disso, que "frequentemente são os políticos mais voltados para o capitalismo que veem com mais clareza o quão essencial a estrutura de intervenção se tornou para a manutenção do capitalismo".

Ralph Miliband via o debate político "sobre a extensão desejável, o caráter e a incidência da intervenção... [como] sério e significativo". Mas, ao mesmo tempo, argumentou, ambos os lados do debate “sempre conceberam suas propostas e políticas como um meio, não de erodir — e muito menos de suplantar — o sistema capitalista, mas de garantir sua maior força e estabilidade”.

Na prática, o neoliberalismo nunca se tratou tanto da retirada do Estado da economia quanto da expansão e consolidação pragmáticas das redes de vínculos institucionais entre o Estado e o capital. O que distinguiu os líderes do Novo Trabalhismo da maioria dos líderes anteriores do Partido Trabalhista foi o fato de eles abraçarem tão abertamente esse pragmatismo e consolidação. No entanto, era tão verdadeiro para eles quanto para os líderes trabalhistas anteriores que eles

não viam seu compromisso com a iniciativa capitalista como envolvendo qualquer elemento de parcialidade de classe... Em seus pensamentos e palavras, a visão exaltada de Hegel do Estado como a personificação e o protetor de toda a sociedade... revive — particularmente quando eles, e não seus oponentes, estão no poder... De fato, descartar suas proclamações de liberdade de preconceito de classe como mera hipocrisia leva a uma subestimação perigosa da dedicação e resolução com que tais líderes provavelmente perseguirão uma tarefa de cuja nobreza estão persuadidos... Eles desejam, sem dúvida, perseguir muitos objetivos, tanto pessoais quanto públicos. Mas todos os outros fins são condicionados e passam pelo prisma da aceitação de um compromisso com o sistema econômico existente.

Mas "O Estado na Sociedade Capitalista" também continha muita relevância para aqueles que se entusiasmaram com os sucessores de Clinton e Blair após a crise financeira, que prometeram romper com sua acomodação a um capitalismo predatório, desigual e assolado pela crise. Especialmente relevante foi a observação de Miliband de que os novos governos de esquerda "longe de buscarem se cercar de homens fervorosos por reformas e ávidos por mudanças em direções radicais... têm se contentado, em sua maioria, em ser servidos por homens muito mais propensos a exercer uma influência restritiva sobre suas próprias propensões reformistas". Miliband explicou isso em termos do "importante propósito político" a que servia, a saber, "reassegurar os interesses e forças conservadoras quanto às intenções de seu novo governante".

Uma das razões pelas quais esses novos governos de esquerda buscam dar tais garantias a essas forças é que normalmente assumiram o poder em condições de grande dificuldade e crise econômica, financeira e social, que temiam ver agravadas pela desconfiança e hostilidade da "comunidade empresarial".

E aqui vemos a razão mais importante para a leitura de O Estado na Sociedade Capitalista hoje. Sem jamais minimizar o papel que os políticos progressistas à frente do Estado desempenharam na mitigação da desigualdade de classe — "como já foi enfatizado aqui repetidamente, essa mitigação é uma das atribuições mais importantes do Estado, uma parte intrínseca e dialética de seu papel como guardião da ordem social" — Miliband, ao mesmo tempo, enfatizou como "a reforma sempre e necessariamente fica aquém da promessa que foi proclamada: as cruzadas que alcançariam 'novas fronteiras', criariam 'a grande sociedade', eliminariam a pobreza e assegurariam justiça para todos". O que sempre esteve por trás disso foram os temores de agravar uma crise de acumulação de capital.

É quase como se Miliband estivesse falando diretamente com Obama, ou outros como ele na Grã-Bretanha, quando se lê:

Tais temores são bem justificados. Mas há mais de uma maneira de lidar com as condições adversas que esses novos governos encontram ao assumirem o poder. Uma delas é tratar essas condições como um desafio a uma maior ousadia, como uma oportunidade para um maior radicalismo e como um meio, e não um obstáculo, para medidas rápidas e decisivas de reforma. Afinal, há muito que um governo genuinamente radical, firme em seus propósitos e desfrutando de um apoio popular substancial, pode esperar fazer no dia seguinte à sua legitimação eleitoral, não apesar das condições de crise, mas por causa delas. E, ao fazê-lo, também é provável que receba o apoio de muitas pessoas, até então pouco ou nada comprometidas, mas dispostas a aceitar uma liderança resoluta.

A medida do que seria "uma liderança resoluta", na opinião de Ralph Miliband, só poderia ser tomada em termos de sua inserção em uma estratégia socialista de longo prazo. Miliband se comprometeu com a causa socialista no túmulo de Marx no Cemitério de Highgate, aos dezesseis anos, logo após fugir dos nazistas na Bélgica. Isso o levou a estudar com o ex-presidente do Partido Trabalhista, Harold Laski, na London School of Economics, onde ele próprio foi nomeado professor em 1949, quando tinha apenas 25 anos. Apesar da Guerra Fria e de sua própria perspectiva crítica sobre o stalinismo, Miliband viria a abraçar Marx.

Até mesmo Anthony Crosland, cujo livro "O Futuro do Socialismo" foi um longo argumento de que a "transformação do capitalismo" do pós-guerra havia encerrado a relevância de Marx, recusou-se a adotar o que era então "a moda atual" de zombar de Marx (que era, segundo ele, "um gigante imponente entre os pensadores socialistas", cujo trabalho fazia os economistas clássicos "parecerem insossos, prosaicos e limitados em comparação... apenas anões morais, ou pessoas desprovidas de imaginação, zombam de homens assim"). Mas, se Miliband era marxista, ele também reconhecia que a teoria marxista precisava de mais desenvolvimento — especialmente em sua teoria da política.

Essa abordagem aberta, que poderíamos chamar de desenvolvimentista, do marxismo veio a definir a Nova Esquerda britânica que surgiu no final da década de 1950. No entanto, o que não era menos característico dela do que sua intolerância ao dogmatismo marxista era sua intolerância ao tipo de "radicalismo sem força" tão comumente defendido por intelectuais, por meio do qual "críticas a muitos aspectos dos arranjos econômicos, sociais e políticos existentes [eram] acompanhadas, contudo, da rejeição da alternativa socialista a eles". Como Miliband prosseguiu em O Estado na Sociedade Capitalista:

Desde que a base econômica da ordem social não seja questionada, a crítica a ela, por mais contundente que seja, pode ser muito útil, pois propicia controvérsias e debates vigorosos, porém seguros, e o avanço de "soluções" para "problemas" que obscurecem e desviam a atenção do maior de todos os "problemas", a saber, que se trata de uma ordem social governada pela busca do lucro privado. É na formulação de um radicalismo sem garra e na articulação de uma crítica sem consequências perigosas, bem como em termos de apologética direta, que muitos intelectuais desempenharam um papel extremamente "funcional". E o fato de muitos deles terem desempenhado esse papel com a máxima sinceridade e sem consciência de sua importância apologética não diminuiu de forma alguma sua utilidade.

A liderança de Miliband na fundação do Socialist Register, que desde seu primeiro volume anual em 1964 se tornou um dos principais loci intelectuais para a análise socialista no mundo anglófono, refletiu seu agudo senso de responsabilidade como intelectual socialista. Naquela época, ele já havia publicado sua famosa crítica ao comprometimento do Partido Trabalhista com as práticas parlamentares convencionais como "o fator condicionante" de seu comportamento político em seu livro de 1961, Parliamentary Socialism.

Um ano após sua publicação, Miliband começou a planejar ativamente "a escrita de um grande livro sobre o Estado. Algo que levaria possivelmente cinco anos, que seria teórico, analítico e prescritivo, que lidaria com uma infinidade de questões e problemas políticos de forma disciplinada e rigorosa". Levou seis anos e, ao assinar o prefácio em julho de 1968, ele o fez na esteira da revolta estudantil e operária na França e em meio a uma trégua da famosa revolta estudantil que consumiu a London School of Economics.

A enorme influência do livro deveu-se ao seu estilo de escrita notavelmente acessível, marcado pela clareza da prosa e pela argumentação criteriosa. Mas Miliband viu o livro em grande parte como um exercício de limpeza de terreno necessário antes da tarefa principal de remediar as deficiências da análise política marxista, especialmente em termos do que ele chamou de "explicação excessivamente simplista da inter-relação entre o Estado e a sociedade". No mínimo, a teoria marxista do Estado exigia "uma elaboração muito mais completa do que a que recebeu até então".

Os debates marxistas ao longo da década de 1970 sobre a teoria do Estado foram motivados pela esperança de que uma perspectiva realista ajudasse a esclarecer a estratégia socialista e a explicar por que mesmo reformas socialistas radicalmente pretendidas devem esbarrar em certos limites. Se tivessem parado por aí, a nova teoria do Estado poderia ter tido implicações derrotistas, mas no final da década de 1970, com Marxismo e Política, de Miliband, e Estado, Poder, Socialismo, de Nicos Poulantzas, concentraram sua atenção em abordar mais diretamente as principais questões políticas envolvidas na construção de um Estado socialista democrático.

Na crítica de Miliband ao conceito de ditadura do proletariado e ao centralismo democrático de Lenin, bem como em sua extensão criativa da noção de "reforma estrutural", passos cruciais foram dados. Miliband tentava formular uma visão de que tipo de Estado uma nova política socialista deveria almejar e como isso poderia ser concretizado por meio de uma estratégia de pluralismo administrativo ancorada na sociedade civil. Quando Poulantzas prosseguiu com sua própria crítica incisiva às noções utópicas de democracia direta dentro da tradição marxista e sua insistência em refletir sobre o lugar e o significado das instituições representativas, isso foi muito consistente e complementar à posição defendida por Miliband.

Até sua morte em 1994, Miliband preocupava-se por não ter feito o suficiente, inclusive em seu livro póstumo, Socialismo para uma Era Cética, para "abordar a questão da construção socialista com a preocupação rigorosa e detalhada que ela exige". Pois, sem desenvolver "uma indicação clara do que se lutava", a promessa de construir novos movimentos e partidos socialistas, tão necessária no século XXI, não se concretizaria. Nesse sentido, o esboço básico que ele traçou no final de O Estado na Sociedade Capitalista ressoa na demanda por uma visão socialista renovada e mais elaborada:

Para realizar suas potencialidades humanas, as sociedades industriais avançadas exigem um alto grau de planejamento, coordenação econômica e o uso premeditado e racional dos recursos materiais, não apenas em escala nacional, mas também internacional. Mas as sociedades capitalistas avançadas não conseguem isso dentro dos limites de um sistema econômico que permanece voltado principalmente para os propósitos privados daqueles que possuem e controlam seus recursos materiais... Da mesma forma, e de forma correlata, essas sociedades exigem um espírito de sociabilidade e cooperação de seus membros, um senso de envolvimento e participação genuínos, que são igualmente inatingíveis em um sistema cujo impulso dominante é a apropriação privada... Sem dúvida, a transcendência do capitalismo — em outras palavras, a apropriação para o domínio público da maior parte dos recursos da sociedade — não pode, por si só, resolver todos os problemas associados à sociedade industrial. O que pode fazer, no entanto, é remover a maior de todas as barreiras à sua solução e, pelo menos, criar a base para a criação de uma ordem social racional e humana.

Republicado do Tribune.

Colaborador

Leo Panitch é professor de ciência política na Universidade de York e coeditor do Socialist Register. Seu livro mais recente, com Sam Gindin, é The Making of Global Capitalism.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...