Evan Osnos
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| Ilustração de Cleon Peterson |
Kai-Fu Lee, CEO da empresa de inteligência artificial 01.AI, mora em um arranha-céu espelhado em Pequim, próximo a uma sequência de marcos históricos que os imperadores consideravam o centro do cosmos. Lee costuma realizar reuniões matinais em um hotel vizinho que poderia estar em qualquer país, exceto pelo fato de que o serviço de quarto é entregue por robôs vestidos com uniformes de mordomos e camareiras. A propaganda estatal exalta esses robôs como símbolos da ascensão da China; no entanto, nos corredores, a maioria das pessoas desvia deles com o tipo de indiferença geralmente reservada a um aspirador robô Roomba.
Certa manhã recente, durante o café da manhã, Lee — vestindo uma camisa polo branca e óculos sem armação — falou sobre o futuro com um ar de curiosidade otimista. Nascido em Taiwan em 1961, ele construiu sua carreira acompanhando as fronteiras de oportunidade em constante mudança. Formou-se em ciência da computação pela Universidade Columbia na década de 1980 e seguiu para a Carnegie Mellon para estudar a então nascente área de IA — que ele descreveu, na época, como uma "ciência extremamente promissora" e o "passo final da humanidade para compreender a si mesma". Ele liderou a área de reconhecimento de fala na Apple e, em 1992, apareceu no programa "Good Morning America" para demonstrar um protótipo de computador que utilizava comandos de voz para gravar noticiários em um videocassete. (A apresentadora, Joan Lunden, maravilhou-se: "Vai ser quase como ter um amigo".) Ele recorda que, durante sua passagem pela Microsoft, incentivou Bill Gates a comprar uma startup ambiciosa chamada Google, mas Gates recusou a oferta. Mais tarde, Lee assumiu o comando do Google na China.
Lee migrou para o setor de investimentos em 2009 e planejava atuar tanto na China quanto nos Estados Unidos, mas acabou fechando seu escritório americano. "São dois universos diferentes agora", disse-me ele. Os países divergiram não apenas em questões de longa data — como comércio, Taiwan, direitos humanos e espionagem —, mas também, cada vez mais, em relação à política tecnológica. Como Lee observou, o governo Obama lançou, em 2016, o primeiro grande plano federal para a era da IA, mas a iniciativa mal repercutiu: foi divulgada poucos dias depois de a gravação do programa "Access Hollywood" causar um escândalo explosivo na campanha presidencial. Quando Donald Trump assumiu o cargo, ele descartou o plano e confiou a estratégia de IA, em grande parte, ao Vale do Silício. Pouco depois, quando o governo da China divulgou seu próprio plano de IA, o documento estava repleto de jargões empolados do Partido Comunista, mas também delineava uma vasta política industrial — abrangendo aplicações que iam da agricultura ao policiamento — que prometia "grandes avanços" até 2025 e a conquista de uma posição de liderança mundial até 2030. Lee descreveu a iniciativa como uma "abordagem de mobilização total para a inovação nacional".
Por muito tempo, a China voltou-se para o Ocidente em busca de visões de futuro. Hoje em dia, privilegia as suas próprias. A fabricante chinesa de automóveis BYD superou recentemente a Tesla como a maior fabricante de veículos elétricos do mundo. Um vídeo popular mostra o CEO da Tesla, Elon Musk, sendo questionado em 2011 sobre a concorrência da BYD — então conhecida principalmente por um sedã de formato quadrado e dimensões reduzidas; Musk riu e disse: "Vocês já viram o carro deles?" Quinze anos depois, a China conta com mais de cem montadoras que disputam clientes com recursos extravagantes, como karaokê a bordo, massageadores mecânicos para os pés e faróis com capacidade de projeção de filmes.
Lee, cujas publicações nas redes sociais atraíram mais de cinquenta milhões de seguidores, faz uma previsão marcante para os dois países onde prosperou. Em seu livro "AI Superpowers" (Superpotências da IA), publicado em 2018, ele prevê uma "nova ordem mundial" com "ondas de tecnologia que em breve inundarão a economia global e inclinarão o cenário geopolítico em direção à China". Esse tipo de profecia harmoniza-se com o clima oficial em Pequim, onde Xi Jinping — presidente e secretário-geral do Partido Comunista — classifica a tecnologia como o "principal campo de batalha da competição internacional" e afirma categoricamente que "o Oriente está em ascensão, enquanto o Ocidente está em declínio".
Em julho, a empresa chinesa Moonshot lançou um modelo de IA com desempenho comparável ao de seus concorrentes americanos, porém a uma fração do custo. As ações de empresas de microchips despencaram devido ao receio de que a China domine a IA, assim como hoje domina o setor de hardware. A China produz pelo menos 70% dos drones, veículos elétricos, baterias de íon-lítio e células solares do mundo. O país utiliza mais robôs industriais do que o restante do mundo somado e, na área da medicina, superou os Estados Unidos em número de ensaios clínicos registrados. Sua capacidade de construção naval é cerca de duzentas vezes maior que a dos EUA, e alguns observadores em Washington temem que os estoques americanos de munição não sejam suficientes para equiparar-se aos da China em um eventual conflito por Taiwan.
Atualmente, ambos os países acompanham suas respectivas trajetórias com uma preocupação inquieta. Enquanto os EUA se preocupam em saber se conseguirão manter um século de hegemonia, a China está empenhada em restaurar sua eminência histórica, após duzentos anos do que o Partido considera uma pobreza anômala. Zhou Bo, coronel sênior reformado do Exército de Libertação Popular e atualmente pesquisador da Universidade Tsinghua, disse-me: "O senso comum dita que as nações passam por ciclos de ascensão e queda". No entanto, em sua visão, os americanos perderam essa consciência histórica. "Eles têm sido tão poderosos por tanto tempo que todo americano acredita: 'Sou membro da nação mais forte da Terra'", afirmou. Os chineses estão igualmente convencidos de sua ascensão. Um diplomata europeu que participou de reuniões com Xi e seus assessores comentou: "Eles se sentem como campeões mundiais. Acreditam que podem enfrentar qualquer um".
Há uma década, poucas pessoas em Pequim teriam previsto que a China desafiaria os EUA tão cedo. O boom econômico chinês, que durava décadas, estava desacelerando, e o controle sufocante do governo sobre o livre pensamento levava pessoas ambiciosas a buscar oportunidades no exterior. Naquela época, um americano na China que comparasse os méritos dos dois países provavelmente teria uma conversa marcada por respostas quase automáticas e previsíveis. Você observava que a China estava se tornando poderosa. Seu interlocutor respondia: "Não tão poderosa quanto a América".
A elite chinesa abandonou essa visão gradualmente. Quando o Brexit foi aprovado, em 2016, o Ocidente parecia estar se voltando para si mesmo. A disputa pelas vacinas contra a COVID-19 sinalizou que os EUA estavam se fragmentando; a invasão do Capitólio ofereceu outro sinal. Após o retorno de Trump à Casa Branca, sua administração declarou: "Acabaram-se os dias em que os Estados Unidos sustentavam toda a ordem mundial como Atlas". Seu assessor Stephen Miller falou, em vez disso, de uma ordem internacional "governada pela força", acrescentando: "Essas são as leis de ferro do mundo que existem desde o início dos tempos".
Em Pequim, um think tank da Universidade Renmin publicou recentemente uma análise intitulada "Obrigado, Trump", que saudava com ironia seus esforços para acelerar o "crepúsculo de um império", ao minar as alianças, o serviço público, as instituições científicas e a credibilidade democrática da América. Nos últimos dois anos, a taxa de aprovação internacional dos EUA caiu quase quarenta pontos, segundo uma pesquisa global da Alliance of Democracies; em várias sondagens, a China agora é mais bem avaliada do que os EUA.
Para a China, o recuo americano ocorre justamente quando décadas de investimento estatal, política industrial e planejamento diplomático começam a dar frutos. Seria imprudente confiar plenamente nas estatísticas oficiais da China; como o economista Gao Shanwen disse certa vez a uma plateia em Washington, a taxa oficial de crescimento "estará sempre em torno de cinco por cento". Mas a mudança é claramente visível. Em duas décadas, a China passou de uma produção de eletricidade equivalente a cerca de metade da dos EUA para uma geração mais de duas vezes maior, a preços muito mais baixos; em 2023, o país instalou mais capacidade de energia solar do que a América instalou em toda a sua história. Enquanto isso, Trump voltou a apostar nos combustíveis fósseis, no que o historiador Timothy Snyder chamou de “suicídio de uma superpotência, talvez em sua forma mais elementar”.
Durante anos, Trump prometeu impedir que a China “estuprasse o nosso país” por meio de práticas comerciais desleais. No “Dia da Libertação”, em abril de 2025, ele anunciou um programa de tarifas abrangentes. O Secretário do Tesouro, Scott Bessent, previu que Pequim rapidamente cederia, afirmando que seus homólogos estavam “jogando com um par de dois”. Em vez disso, a China retaliou restringindo as exportações de terras raras e ímãs de alta potência. Em poucas semanas, a Ford foi forçada a suspender a produção do modelo Explorer em sua fábrica de Chicago, e as montadoras clamavam por um acordo. Desde então, a China não apenas manteve sua posição como a maior nação comercial do mundo, como também alcançou um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão, ao redirecionar suas exportações para longe dos EUA. Em 2001, quatro em cada cinco países negociavam mais com os Estados Unidos do que com a China. Em 2023, o cenário havia se invertido: sete em cada dez negociam mais com a China.
Por enquanto, os governantes da China têm evitado antagonizar abertamente os Estados Unidos, pois acreditam que, mesmo em declínio, o país continua sendo singularmente perigoso. Após as intervenções de Trump na Venezuela e no Irã, e suas ameaças ao Canadá e à Groenlândia, o Beijing Daily — um veículo oficial do Partido Comunista — escreveu que os EUA estavam "arrastando o mundo de volta a uma era das trevas de pilhagem e divisão por meio de sua superioridade militar". No entanto, essa retórica agressiva mascara um cálculo mais frio: os líderes chineses acreditam que a luta de Trump para dominar o mundo está, na verdade, beneficiando a China.
Rush Doshi, professor da Universidade de Georgetown e especialista em China no Council on Foreign Relations, enxerga na busca de Trump por controle territorial um erro histórico recorrente. No século XVIII, enquanto a Rússia se concentrava em conquistar a Eurásia, a Grã-Bretanha desenvolvia a máquina a vapor; nos séculos XIX e XX, enquanto os europeus disputavam a África, os americanos dominavam a linha de montagem. Hoje, enquanto os EUA tentam controlar a Venezuela e enfraquecer o Irã e Cuba, "a China está focada em conquistar as tecnologias do futuro", disse Doshi. Se os EUA perdessem a disputa pela próxima onda de indústrias — incluindo IA, biotecnologia e robótica —, assim como perderam a corrida pelos painéis solares, baterias e veículos elétricos, "isso alteraria irreversivelmente o equilíbrio de poder".
Que tipo de mundo a China imagina? Uma espécie de prévia é oferecida pela sua Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), que desde 2013 canalizou cerca de um trilhão de dólares para dezenas de países, construindo rodovias, hospitais, minas, portos e "cidades inteligentes" equipadas com tecnologia chinesa. Para a China, disse Doshi, "as autocracias são consideradas perfeitamente legítimas, e a tecnologia é usada para fortalecê-las. A China diz cada vez mais aos autocratas: 'Vocês gostariam de permanecer no poder? Posso ajudá-los com isso'". No Nepal, onde sistemas de reconhecimento facial recém-instalados foram utilizados contra ativistas, uma fotografia de uma central de segurança mostrava uma parede de telas de monitoramento acima de uma placa com os dizeres: "Cortesia do Ministério da Segurança Pública da China".
Mas o indício mais claro da visão global de Pequim talvez seja o estado atual da própria China. “Um país tende a criar uma ordem externa muito semelhante à sua ordem interna”, disse Doshi. “A China não quer que você reflita muito sobre o que a sua ascensão significará para o mundo. Eles querem lhe mostrar a vanguarda do futuro. Há duas mensagens que eles querem transmitir a todos: uma é ‘Somos inevitáveis’; a outra é ‘Não se preocupe’.”
Pequim está mais silenciosa do que na época em que morei lá, entre 2005 e 2013. Os veículos — muitos dos quais agora são elétricos — deslocam-se silenciosamente pelas ruas e, de qualquer forma, os moradores têm menos motivos para sair de casa; a China possui o mercado de comércio eletrônico mais movimentado do mundo, e quase tudo pode ser entregue na garupa de uma scooter. Ao longo do dia, as pessoas escaneiam os códigos QR umas das outras para transferir dinheiro por meio de sistemas de pagamento digital como WeChat e Alipay, alimentando os algoritmos com um retrato cada vez mais detalhado de seus deslocamentos e preferências.
Há uma serenidade estranha na vida na capital de um Estado de partido único e alta tecnologia. "Este é um dos lugares mais seguros do mundo, se você não for um dissidente", disse-me o diplomata europeu. Mais de uma década após o início da campanha de Xi Jinping para remover figuras indesejadas do Partido, das forças armadas e da elite empresarial, os expurgos voltaram a atingir o alto escalão. (Costumava-se dizer que os expurgos remetiam a um antigo ditado chinês: "Matar as galinhas para assustar os macacos". Agora, dizem que Xi está matando os próprios macacos.) A gente acaba se acostumando, de forma estranha, ao desaparecimento de conhecidos. Como as acusações podem permanecer em sigilo por anos, uma pessoa pode simplesmente "desaparecer no ar", disse o diplomata, acrescentando que isso é visto como um subproduto da manutenção da ordem social. "A grande prioridade aqui é a máquina do Partido. As pessoas vêm em segundo lugar."
Os líderes da China acreditam há muito tempo que a tecnologia pode ajudar o Estado a superar a desordem dos assuntos humanos. Xi, que se apropriou da imagem stalinista das ferramentas ideológicas como "engenheiras da alma humana", ampliou o alcance do governo sobre a vida privada em nome da promoção de um comportamento "civilizado". Na cidade de Guangzhou, no sul do país, a inteligência artificial ajuda a disciplinar moradores que não separam restos de comida do lixo comum, exibindo fotos deles em uma "estação de exposição" — uma tela digital próxima às lixeiras. Outras cidades utilizam sistemas semelhantes para expor pessoas que jogam lixo no chão, atravessam a rua fora da faixa de pedestres ou cospem em público.
As empresas também estão aderindo a esse esforço. Em uma feira de produtos com inteligência artificial em Pequim, deparei-me com um totem branco e alto fabricado pela Langxin, uma empresa que aplica IA à psicologia. A máquina trazia a inscrição "Sistema de Aprimoramento de Treinamento em Reconhecimento de Emoções". Posicionei-me diante de uma câmera para uma análise de "microgestos" em meu rosto, e a tela exibiu um gráfico de pizza intitulado "Proporções Positivas e Negativas". O sistema informou que eu apresentava 76,67% de emoções positivas e 23,33% de emoções negativas. Meus sentimentos negativos, descobri, incluíam 13,33% de medo e 6,67% de raiva. A Langxin comercializa produtos semelhantes para professores, incluindo o sistema de Alerta Precoce de Riscos Abrangentes, que monitora os alunos em busca de sinais de comportamento disruptivo; ao combinar dados de aulas, dormitórios, gastos e registros psicológicos, o sistema atribui a cada aluno um nível de "alerta" — vermelho, amarelo ou azul. A polícia dispõe de opções mais potentes. Em uma feira comercial em Pequim, outra empresa divulgou um software que monitora sinais vitais à distância e afirma realizar uma avaliação de personalidade em quinze segundos, abrangendo aspectos como estabilidade emocional e "tendências comportamentais".
A IA integrou-se rapidamente ao trabalho e à vida cotidiana na China. As pessoas na China costumam encarar a tecnologia com menos receio do que os americanos, visto que o padrão de vida melhorou drasticamente na era da computação. Na década de 1970, mais de 70% da população trabalhava na agricultura; hoje, esse número é inferior a 25%. O investidor Kai-Fu Lee sugeriu que os chineses também estavam culturalmente preparados para esse tipo de tecnologia. Para os americanos, "estar sempre sendo ouvido é algo assustador", disse ele. Na China, câmeras já cobrem praticamente cada centímetro quadrado dos espaços ocupados. Lee destacou um novo software de sua empresa que permite gravar todas as reuniões de escritório e analisar o áudio com comandos como: "Dos projetos que considero que estão indo bem, quais na verdade não estão?" O software também registra compromissos verbais em um sistema chamado "Livro de Promessas" (Promise Ledger), para que os funcionários possam ser responsabilizados durante as avaliações de desempenho. Perguntei se suas gravações deixavam alguém menos disposto a assumir compromissos. "Talvez haja algum efeito inibidor", disse ele. "Mas na China não tanto, porque as pessoas sempre presumem que o chefe é poderoso e tem o direito de ouvir." Ele acrescentou: "É um processo de autoseleção. Quem não gosta disso não vai trabalhar na minha empresa."
Na zona sul de Pequim, visitei a fábrica de automóveis mais famosa da China — a Hyperfactory, um complexo do tamanho de cem campos de futebol construído em quatorze meses. Ela pertence à Xiaomi, empresa que ganhou fama vendendo smartphones e artigos domésticos, como escovas de dentes elétricas e frigideiras, antes de entrar no setor automotivo.
No saguão, encontrei uma delegação de visitantes chineses desenrolando uma bandeira com a foice e o martelo para uma foto em grupo. Logo adiante, havia um balcão movimentado da Starbucks. Suspenso por cabos no alto, um carro esportivo estava posicionado como se estivesse correndo em uma fita de Möbius, numa alusão à busca incessante pelo aperfeiçoamento.
Um guia nos acomodou em carrinhos de golfe e nos conduziu para dentro de um espaço vasto e cavernoso, onde havia tão poucos trabalhadores visíveis que alguém poderia facilmente pensar que era feriado nacional. Os carros são montados por cerca de setecentos robôs, agrupados em formações complexas e coreografadas, controlados por densos feixes de cabos. Peças novas chegam a bordo de cento e vinte e sete carrinhos autônomos, que emitem sinais sonoros de alerta para abrir caminho entre as pessoas que cruzam seu trajeto. Segundo a empresa, um carro pronto sai da linha de montagem a cada setenta e seis segundos.
Ao final da visita, fui encaminhado a uma pista, onde um piloto aguardava em um Xiaomi SU7 Ultra amarelo-vivo. Entrei no carro e sentei-me no banco do passageiro. Ele sorriu, disse "três, dois, um" e pisou fundo no acelerador. Eu não havia prestado muita atenção aos detalhes do que faríamos — o que provavelmente foi um erro. O carro disparou para a frente com um tipo de aceleração raramente vivenciado sem propulsão a jato. Como descobri mais tarde, o SU7 Ultra tem 1.548 cavalos de potência e vai de zero a cem quilômetros por hora em menos de dois segundos — mais rápido que uma Ferrari. Fui pressionado contra o banco e uma onda de enjoo surgiu em meu peito. Enquanto fazíamos uma curva e acelerávamos em uma reta, mantive os olhos no horizonte e me perguntei se minha apólice de seguro de vida estava em dia. O piloto, entusiasmado, ofereceu mais uma volta, mas recusei com um gesto.
Não é por acaso que a fábrica foi construída nas proximidades da região de hotéis de luxo de Pequim, em vez de em áreas remotas do interior. Ela serve como atração para estrangeiros e para moradores locais sortudos que ganham o direito de visitá-la em um sorteio. Agências de viagem vêm organizando "passeios tecnológicos" pelas instalações industriais mais impressionantes da China, oferecendo viagens no que anunciam como "o trem mais rápido do mundo", acesso a "óculos com IA" e pausas para café nas quais é possível assistir a "um drone descendo com seu latte". Uma sucessão de influenciadores, investidores e comentaristas ocidentais tem publicado imagens impressionantes de pontes e estações de trem, alimentando gêneros como a "pornografia de infraestrutura" e o "Chinamaxxing". Suas percepções são moldadas por um marketing e uma propaganda implacáveis. Na tarde em que visitei a "Hyperfactory", os robôs estavam parados para "ajustes", mas o guia raramente fazia pausas de mais de alguns segundos antes de apontar a máquina de fundição sob pressão de setecentas toneladas ou o sistema de raio-X de alta velocidade que verifica se uma peça fundida apresenta qualquer desvio mínimo em relação às especificações. No entanto, além do exagero midiático, existem pontos fortes reais. Jim Farley, CEO da Ford, visitou recentemente fábricas de automóveis na China e descreveu o progresso automotivo do país como "a experiência mais humilhante que já vivenciei".
Os líderes chineses parecem apostar que, ao avançar rapidamente em direção ao futuro, conseguirão deixar para trás os erros do passado recente. Por todo o país, as cidades são pontilhadas por lanweilou — ou edifícios de "cauda podre" —, estruturas de concreto de torres e casas inacabadas cujos incorporadores ficaram sem recursos. Durante anos, autoridades locais incentivaram o excesso de construções, pois isso financiava a infraestrutura, impulsionava o crescimento e lhes garantia promoções. As incorporadoras vendiam imóveis ao público antes mesmo de serem construídos. Contudo, o mercado imobiliário começou a entrar em colapso em 2021 — reduzindo as vendas de novas moradias pela metade — e a China ficou com cerca de noventa milhões de imóveis vazios, o suficiente para abrigar toda a população da Rússia. Depois que incorporadoras falidas abandonaram essas obras inacabadas, alguns dos compradores mais resilientes deram um jeito de viver nelas: mudaram-se para as estruturas inacabadas, passando a cozinhar em fogões a carvão e a carregar água escada acima.
A China abriga hoje uma série de economias paralelas: ao lado dos escombros da crise imobiliária e do fervilhante ecossistema de novas tecnologias, existem legiões de recém-formados que se prepararam para empregos tradicionais de escritório, mas ingressaram em um mercado de trabalho cada vez mais voltado para a manufatura de alta tecnologia. (A taxa oficial de desemprego entre os jovens ultrapassou 21% antes de o governo alterar a metodologia de divulgação do dado.) Um estudo sobre a opinião pública chinesa, publicado no ano passado por pesquisadores de Stanford e Harvard, ofereceu um raro panorama detalhado das atitudes locais e revelou uma mudança acentuada "do otimismo para o pessimismo". A parcela de cidadãos que espera uma melhora em seu padrão de vida caiu para cerca de 28% — aproximadamente metade do índice registrado no início deste século. Xu Zhiyuan, um escritor influente, descreveu este momento como "uma era de profunda confusão", marcada simultaneamente por "uma desaceleração econômica, incertezas na geopolítica internacional e o enorme impacto da IA". No outono passado, censores do governo lançaram uma campanha contra o "sentimento excessivamente pessimista" na internet, visando inclusive comentários como "Trabalhar duro não adianta nada".
Certa manhã, fui até a casa onde morava em Pequim e me surpreendi ao encontrar a porta da frente escancarada. O imóvel estava vazio, mas havia gente entrando e saindo. Por acaso, cheguei no momento em que corretores de imóveis tiravam fotos, na esperança de encontrar um inquilino e garantir a comissão. Impressionou-me a quantidade de corretores disputando a locação de um apartamento de dois quartos — um reflexo da hipercompetitividade que impera nos setores econômicos da China.
Um corretor de imóveis vestindo um corta-vento cinza aproximou-se de mim, carregando um capacete de scooter. Ele lamentou saber que eu não era um cliente em potencial, mas mostrou-se ansioso para conversar. Falava inglês com a formalidade sincera de quem se esforçou muito para aprender um idioma que raramente tem a chance de usar. Adotara o nome John e pontuava suas falas com aforismos em inglês. Quando perguntei como iam os negócios, ele respondeu: "Difícil, mas toda moeda tem dois lados".
Ele falou abertamente sobre as pressões de sua profissão. A verdade é que não recebia uma comissão havia quatro meses. Muitos corretores de imóveis estavam falidos. “Menos de vinte por cento estão ganhando dinheiro”, disse ele. John tinha quarenta e sete anos, era divorciado e tinha uma filha na faculdade. O pai e a irmã mais velha o ajudavam a pagar pela alimentação. “É uma situação péssima para alguém da minha idade”, disse ele. “Ainda quero encontrar um amor, mas é muito difícil.” Ele havia saído com algumas mulheres, mas nada dera certo. “Acho que um dos motivos é que não tenho dinheiro suficiente”, disse ele. “Se eu fosse um magnata, elas gostariam de se relacionar comigo.” Na tentativa de tranquilizá-lo, disse que ele parecia ter um bom coração. John sorriu e endireitou a postura. Tinha outra máxima na ponta da língua: “A vida não é fácil, mas não sabemos o que vai acontecer amanhã”.
O desejo da China de arquitetar o futuro está, há muito tempo, intrinsecamente ligado à sua ansiedade em relação ao Ocidente. Em 1872, durante a dinastia Qing, o governador-geral Li Hongzhang escreveu com amargura sobre uma mudança “não vista em três mil anos”: os ocidentais, valendo-se de suas “armas de fogo, canhões e navios a vapor avançados, conseguiram agir livremente e com violência em solo chinês”. A China havia começado a fundir ferro cerca de um milênio antes da Europa, mas acomodara-se. Agora, declarou ele, era hora de “aprender as habilidades superiores dos bárbaros para controlar os bárbaros”.
Mas o império resistiu aos esforços de modernização e os reformadores da China fugiram para o exílio. Em 1902, um dos líderes do esforço de reforma, Liang Qichao, publicou “O Futuro da Nova China”, um romance que imaginava o país décadas mais tarde, com uma constituição, um parlamento e um tal prestígio tecnológico que os estudantes vindos do estrangeiro afluíam para lá. Quando Mao Zedong chegou ao poder em 1949, ele tinha outras ideias. “Política e tecnologia devem ser unificadas”, declarou ele. Foi uma união desastrosa: o Grande Salto em Frente de Mao, uma tentativa delirante de fazer a China ultrapassar a Grã-Bretanha em apenas quinze anos, produziu a pior fome da história, matando cerca de 45 milhões de pessoas.
A partir do final dos anos setenta, a ilusão da engenharia social criou outro desastre. O Partido adotou a meta de atingir rendimentos anuais de oitocentos a mil dólares per capita. Para chegar lá, raciocinou, teria de gerir o crescimento da população. Um cientista de foguetes chinês chamado Song Jian ajudou a liderar uma missão para traçar o caminho certo usando os computadores mais avançados do país. Ele e a sua equipa concluíram que a “chave para todo o problema” era limitar cada família a um filho. Foi uma ideia radical, mas Song e o grupo foram persuasivos; eles apresentaram suas descobertas em gráficos e figuras impressas, quando muitos especialistas ainda trabalhavam com ábacos e calculadoras de bolso.
Susan Greenhalgh, antropóloga e autora de “Just One Child”, escreve que os engenheiros estavam “colocando tudo numa caixa preta que foi rotulada como ‘ciência’”, embora a política se baseasse em julgamentos políticos não examinados sobre o papel do governo, a santidade do corpo humano e os limites da vida privada. Também estava errado. Como escreveu Greenhalgh, os engenheiros juntaram dados irregulares e extrapolaram-nos para duas casas decimais com falsa precisão. Acima de tudo, estavam habituados a lidar com objectos inanimados, em vez da confusão da sociedade humana, e rejeitaram os avisos dos cientistas sociais sobre as consequências: o rápido envelhecimento da população, a escassez de mão-de-obra e militar, e as necessidades brutais de fazer cumprir a lei.
Nos trinta e cinco anos seguintes, a política do filho único levou à esterilização de quase duzentos milhões de cidadãos e a mais de trezentos milhões de abortos. Quando a China abandonou a política, em 2015, também tinha produzido um fiasco económico, diminuindo o número de trabalhadores disponíveis e aculturando o país a famílias com filhos únicos. O número de crianças nascidas na China caiu quase dois terços desde 1987. No ano passado, registaram-se menos de oito milhões de nascimentos – resultando na taxa mais baixa desde que os registos começaram, em 1949. Embora a taxa de natalidade na América também tenha caído, para 1,6 nascimentos por mulher em 2024, o problema da China é muito mais grave. Sua taxa de fertilidade é agora de um nascimento por mulher.
Para inverter o declínio, a China ofereceu cobertura para cuidados infantis, incentivos fiscais, incentivos à habitação e subsídios para tratamentos de fertilidade. Nada disso funcionou. As maternidades e os jardins de infância estão fechando. Emma Zang, socióloga de Yale que estuda padrões de fertilidade, visitou a China no ano passado e ficou surpreendida com o facto de os jovens perguntarem frequentemente porque é que ela decidiu ter filhos. Ela concluiu que "a verdadeira barreira não é o custo de criar os filhos. Pelo contrário, é a convicção de que a paternidade já não faz sentido num futuro que parece incerto e indigno de investimento".
Nenhuma dessas repercussões abalou a crença do Partido no poder transformador da engenharia. Na última década, Xi passou a descrever o momento histórico com uma frase incisiva: “grandes mudanças não vistas em um século”. Ele faz eco a 1872, mas com uma diferença. Naquela época, as mudanças “inéditas” eram as novas forças do Ocidente; hoje, Xi propõe explorar as fraquezas do Ocidente.
Em 1978, justamente quando Deng Xiaoping colocava a China na rota das reformas, um aspirante a cientista chamado Yi Rao ingressava na universidade. A ciência chinesa sofria com a escassez de recursos naquela época; até mesmo as ponteiras plásticas descartáveis das pipetas eram quase impossíveis de obter para os profissionais de laboratório. Mas Rao conhecia cientistas chineses nos EUA que concordaram em recolhê-las do lixo e enviá-las para ele. “Podíamos usá-las muitas outras vezes”, disse Rao.
Os líderes chineses estavam determinados a "alcançar e superar" os países desenvolvidos na área científica, e três fatores eram fundamentais: talentos, recursos financeiros e infraestrutura. Para formar talentos, enviaram estudantes ao exterior; em uma década, o número de estudantes chineses nos EUA multiplicou-se por dez. Em 1985, Rao mudou-se para São Francisco para estudar neurociência e observou que uma simples bancada de cozinha era feita de um material melhor "do que qualquer bancada de laboratório na China", disse ele. "Como eu poderia imaginar que um dia voltaria?"
No entanto, em meados dos anos 2000, quando era professor na Northwestern, recebeu uma proposta para assumir a direção da Faculdade de Ciências da Vida da Universidade de Pequim. A China estava atraindo cientistas de volta ao país com apelos patrióticos e a promessa de transformar as perspectivas científicas da nação. Rao aceitou, mas suas expectativas eram limitadas. Ele recorda que ninguém na universidade havia sequer publicado um artigo em uma revista científica internacional de prestígio. Professores empregavam amigos e protegidos pouco qualificados, e a fraude acadêmica era comum. A indústria de biotecnologia chinesa produzia pouco mais do que medicamentos genéricos baratos.
Rao assumiu o cargo e substituiu as disciplinas obrigatórias de botânica e zoologia por genética e biologia molecular. Um ponto de virada ocorreu em 2015, quando a China começou a reformular suas leis de segurança de medicamentos para atender aos padrões internacionais, permitindo que empresas locais de biotecnologia obtivessem contratos estrangeiros lucrativos. Talentos científicos começaram a retornar, atraídos por financiamento generoso para laboratórios e bônus de contratação que podiam ultrapassar 150 mil dólares.
Então, as tensões com os EUA explodiram. Em 2018, Trump iniciou uma guerra comercial, e o Departamento de Justiça criou a "China Initiative" (Iniciativa China) para combater a espionagem e o roubo de segredos comerciais, visando mais de cem cientistas e outras pessoas de origem chinesa. De maneiras que observadores externos não compreendiam totalmente, Trump desequilibrou um debate político interno na China. O setor privado estava em ascensão, e o influente bilionário Jack Ma argumentava que o ensino universitário era superestimado. "Basicamente, ele dizia que intelectuais não produzem nada", contou-me Rao. "A economia chinesa prosperou copiando o Ocidente, então por que investiríamos mais recursos em pesquisa original? Mas, com a chegada de Trump, essa corrente de pensamento desmoronou completamente." Em 2020, o Comitê Central do Partido estabeleceu a "autossuficiência científica e tecnológica" como uma meta primordial e, no ano passado, o financiamento para pesquisas básicas exploratórias atingiu o patamar recorde de 7% do orçamento nacional de P&D.
Os efeitos foram surpreendentes. Em 2024, a China já havia ultrapassado os EUA em número de ensaios clínicos. (O recrutamento de participantes para testes lá pode levar menos da metade do tempo, e os ensaios custam, estima-se, 40% menos.) Naquele outono, um medicamento experimental contra o câncer da empresa chinesa Akeso superou o Keytruda, uma terapia de referência produzida pela gigante farmacêutica americana Merck.
No início deste ano, depois que a administração Trump cortou drasticamente o financiamento de estudos científicos federais e acadêmicos nos EUA, o governo chinês anunciou um novo aumento de 10% nos recursos para ciência e tecnologia. A China ultrapassou tanto os EUA quanto a União Europeia na publicação de artigos de pesquisa influentes, medidos pela frequência com que são citados por outros. Empresas chinesas de biotecnologia geram agora quase um terço dos novos candidatos a medicamentos no mundo, equiparando-se praticamente aos EUA. "Em Washington, há uma preocupação de que a biotecnologia seja a 'bola da vez', assim como aconteceu com os veículos elétricos", disse-me um executivo americano. "Nós expulsamos todo esse talento da porra de volta para a China. Se você observar quem está liderando esse movimento, verá que são pessoas que trabalhavam para gigantes farmacêuticas do Ocidente ou chefiavam departamentos de ponta em universidades."
Um relatório de pesquisadores de Princeton, Harvard e MIT identificou quase vinte mil cientistas de origem chinesa que deixaram os Estados Unidos entre 2010 e 2021. O acadêmico canadense David Zweig, que estudou esse êxodo, disse-me que, na Universidade Westlake — um novo instituto de pesquisa chinês —, “há cerca de cem novos laboratórios montados por pesquisadores que retornaram ao país, e provavelmente 80% deles vêm dos Estados Unidos”. Ele afirmou: “Primeiro, foi porque eles se sentiam marginalizados. Depois, o financiamento escasseou”.
Visitei Yi Rao recentemente e o encontrei no último andar de um complexo acadêmico, em uma sala de canto com vista para um lago. Ele me mostrou um laboratório equipado com tecnologia de ponta, à disposição dos estudantes pesquisadores. “Tenho de lembrá-los constantemente do nível de luxo em que vivem”, disse ele.
Perguntei a Rao sobre os efeitos dos cortes de Trump na ciência. “É uma grande estupidez”, disse ele. “A inovação não surge do nada.” Ele deu um exemplo: se os EUA reduzirem o financiamento para pesquisas sobre o câncer, “seria natural que a China inventasse uma vacina contra o câncer antes dos EUA”.
Rao fala abertamente sobre os problemas persistentes que a ciência e a tecnologia chinesas enfrentam. Por exemplo, a China nunca dominou a manufatura de ultraprecisão necessária para motores de jatos comerciais ou para os microchips de maior desempenho. Ele classifica 30% dos artigos científicos do país na área de biologia como "lixo" e afirma que outros 50% apresentam apenas descobertas incrementais, em vez de avanços do tipo "do zero ao um". Por enquanto, segundo ele, a China se destaca principalmente na evolução "do dois ao cem", mas ele acredita que o padrão irá melhorar. Se a China ficar conhecida como o lugar que desenvolve curas para o câncer, a situação mudará de forma fundamental. "A atual ordem mundial foi construída por um grupo de gênios — principalmente nos EUA — vindos da Europa", disse Rao. "Se Trump tivesse mantido essa ordem de forma eficaz, a China teria muita dificuldade para avançar. Trump realmente nos ajudou."
Muitas das empresas de tecnologia de Pequim estão situadas no distrito de Zhongguancun, um polo de complexos de escritórios instalado em uma área que, na era imperial, servia como cemitério para eunucos do palácio. Ao longo de uma geração, Zhongguancun evoluiu acompanhando as sucessivas tendências do setor tecnológico. Atualmente, anúncios de produtos de IA estão substituindo rapidamente as propagandas já desgastadas do metaverso.
Pessoas que trabalharam tanto na China quanto no Vale do Silício costumam comentar sobre as semelhanças: a crença em mudanças rápidas, o poder dos engenheiros e as exaltações à humanidade que mascaram a impaciência com seres humanos reais. Em uma cafeteria Peet’s Coffee em Zhongguancun, repleta de jovens na casa dos vinte anos usando AirPods, seria fácil para um visitante de Palo Alto sentir-se em casa. A grande diferença entre os polos de IA dos dois países reside na forma como as pessoas falam sobre suas intenções. Engenheiros americanos tendem a focar no potencial transformador de alcançar a inteligência artificial geral e na cascata de consequências utópicas (ou distópicas) que isso poderia desencadear. As empresas de tecnologia chinesas têm objetivos mais imediatos; elas dispõem de menos capital e menos poder computacional — em parte devido aos controles de exportação americanos sobre os chips mais avançados —, por isso concentram-se principalmente em levar produtos para o comércio cotidiano. No ano passado, a startup chinesa DeepSeek lançou um modelo de IA que surpreendeu o Vale do Silício. Críticos atribuíram seu sucesso ao uso de chips contrabandeados e a financiamentos opacos, e a OpenAI acusou a empresa de copiar modelos superiores. Observadores chineses ressaltaram que a DeepSeek funcionava bem e custava muito menos.
Na AInnovation, uma empresa que integra IA a fábricas tradicionais, conheci o diretor de tecnologia, Fan Li, que foi recrutado de uma cidade mineradora de carvão por um programa governamental para prodígios. Ele trabalhou na Microsoft e na Amazon antes de retornar à China, em 2021, para participar do *boom* da IA no país. Li me levou até uma máquina identificada como "Equipamento de Inspeção de Parafusos por IA". Em seu interior, parafusos minúsculos passavam rapidamente por uma linha de produção enquanto câmeras de alta resolução os examinavam em busca de defeitos microscópicos. Os que passavam no teste deslizavam por uma calha marcada como "Produto Aprovado". (Isso remetia a um slogan da Revolução Cultural que incentivava cada camarada a ser um "parafuso que não enferruja na máquina revolucionária".) Antes da IA, a fábrica precisava de humanos para verificar os parafusos, o que, segundo Li, "não era eficiente". Agora, esses humanos podiam ser substituídos.
As fábricas chinesas ainda produzem muitos brinquedos e calçados baratos, mas o país também deu um salto tecnológico. Investimentos em automação fabril e robótica permitiram produzir mercadorias a custos tão baixos que as tarifas dos EUA acabam sendo irrelevantes; mesmo com as taxas adicionadas, os preços continuam baixos. Na tela, Li exibiu um diagrama detalhado de uma fábrica da Tsingtao Brewery, uma de suas clientes. Ele digitou uma pergunta: “Eles atingiram a meta de economia de energia no ano passado? Se não, por quê?” É uma pergunta aparentemente simples. Não basta conhecer o desempenho passado e as metas futuras — “é preciso investigar a fundo cada linha de produção, cada máquina”, disse ele. Após um momento, o sistema exibiu uma mensagem: “Recuperamos com sucesso dados de consumo de energia, causas de anomalias e ações recomendadas para quatro equipamentos”. O sistema apontou a presença de “anomalias” em um pasteurizador e em um moinho de malte, e indicou o que fazer: verificar se havia malte úmido ou obstruções no moinho; investigar o comportamento do vapor e das bombas no pasteurizador. Li comentou: “Um ser humano poderia levar três horas para realizar todo esse processo. Agora, é possível concluí-lo em minutos”.
A China não está imune aos receios de que a IA provoque perdas generalizadas de empregos e agitação social. Em seu livro, Kai-Fu Lee alertou que “a IA corre o risco de criar um sistema de castas do século XXI”. No entanto, ele previu que a perda de empregos causaria mais turbulência nos EUA do que na China, visto que uma parcela maior de trabalhadores americanos ocupa cargos administrativos ou de escritório (*white-collar jobs*). Perguntei o que ele achava da notícia de que recém-formados nos EUA estavam vaiando oradores de cerimônias de graduação que exaltavam a IA. Lee respondeu: “A postura americana é muito compreensível. Mas o caminho chinês levará a uma proliferação de talentos, usos e dados — até que algo terrível aconteça. Aí, talvez as coisas mudem. Mas as pessoas esquecem as coisas na era das redes sociais”.
Li, da AInnovation, ouve pessoas que estão mais preocupadas com os riscos. Enquanto comia sanduíches em uma sala de reuniões, ele me contou que tem um filho de quinze anos e que outros pais frequentemente perguntam: "O que nossos filhos devem estudar?" "Eu mesmo me faço a mesma pergunta", disse ele. Nos últimos anos, a China reduziu drasticamente a oferta de cursos de graduação considerados obsoletos — incluindo muitos na área de humanas — e introduziu programas em campos como o da inteligência incorporada (*embodied intelligence*). Muitas universidades criaram programas voltados para a IA. Mas, segundo Li, "daqui a três anos, quando meu filho entrar na faculdade, a inteligência artificial talvez nem seja mais um curso específico". Nem mesmo os profissionais que trabalham com IA conseguem acompanhar o ritmo de uma tecnologia que muda "provavelmente dez vezes mais rápido do que há dez anos", afirmou Li. "Quanto mais próximo você está desse ecossistema, mais conhece os detalhes e o que está por vir, e acaba ficando um pouco preocupado."
Reduzir a necessidade de mão de obra humana é uma das formas de o governo chinês compensar a diminuição de sua força de trabalho. Outra solução são os robôs. Em 2024, a China colocou em operação nove robôs industriais para cada um instalado nos Estados Unidos. A competição entre homem e máquina chegou até mesmo à cultura pop. No início de 2025, Pequim inaugurou uma meia-maratona que colocou robôs para competir contra humanos; os humanos venceram com facilidade, já que muitos robôs superaqueceram. No entanto, um ano depois, um robô humanoide vermelho-vivo — que balançava braços finos para manter o equilíbrio — superou todos os doze mil competidores humanos e quebrou o recorde mundial. Houve outra demonstração grandiosa de competência em robótica durante a Gala do Festival da Primavera, o programa de televisão mais assistido do ano. Humanoides marcharam, deram mortais para trás e giraram nunchakus, enquanto pandas robóticos brincavam alegremente. Alguns espectadores chineses sentiram uma sensação de perda. Como alguém escreveu na internet: "Estamos procurando por humanos em meio a tantos robôs". Mas o objetivo do governo era gerar confiança diante do avanço acelerado do futuro. O chefe de uma das empresas de robótica disse a um repórter que sentiu uma pressão intensa para "apresentar um desempenho significativamente melhor do que o do ano anterior".
Espetáculos coreografados são mais fáceis, em certo sentido, do que lidar com a desordem do mundo cotidiano. Os humanoides na televisão chinesa estavam perfeitamente sincronizados, mas, se algo tivesse saído do roteiro — um passo em falso, um humano que perdesse o momento certo da ação —, as máquinas poderiam ter se transformado em um amontoado de membros entrelaçados e agitados. No escritório de Li, observei dois funcionários demonstrarem um trabalho preliminar que, esperam eles, capacitará robôs a pegar objetos em armários de suprimentos de fábricas. Um deles manipulava uma seleção de garrafas, latas e lanches, enquanto o outro — usando um headset de realidade virtual e segurando um dispositivo de rastreamento em cada mão — guiava um pequeno humanoide amarelo que, de forma hesitante, pegava objetos do dia a dia. O exercício parecia incrivelmente difícil.
Os robôs evoluíram mais lentamente do que o esperado, disse Li. "O ChatGPT fez sucesso porque consumiu quase todas as palavras já escritas no mundo", afirmou ele. "Há muitas tarefas que as pessoas querem que os robôs realizem, mas não temos dados suficientes." Em uma mesa próxima, um par de braços metálicos esguios dobrava e desdobrava uma camiseta azul. Nos círculos de tecnologia, dobrar roupas é às vezes chamado de "Santo Graal da robótica", tanto pela complexidade do desafio quanto pelo entusiasmo do público caso a tarefa funcione. Li comentou: "Estamos analisando duas métricas: a rapidez com que o robô consegue terminar o trabalho — trinta segundos, um minuto — e a taxa de falhas." As falhas decorriam da aleatoriedade. "Você pode colocar as roupas na mesa de várias maneiras", disse Li. "O formato é diferente a cada vez."
Ao sair, visitei uma loja de conveniência ao lado do saguão. O balcão era atendido por um robô humanoide de rosto prateado brilhante e braços robustos. À esquerda dele, salsichas giravam sobre rolos cromados; à direita, um atendente humano de uniforme colorido parecia paciente e intrigado. A fabricante do robô, a Galbot, tinha um escritório no prédio e, como grande parte do que eu via ali, a máquina parecia ter sido instalada tanto pela funcionalidade quanto pelo valor de relações públicas. Ela me cumprimentou alegremente em mandarim: "Posso ajudar você a encontrar produtos, pegar salsichas ou bebidas, ou contar uma piada boba para descontrair o ambiente."
Enquanto eu parava um instante para contemplar a cena, o robô me instigou a prosseguir: “De quais itens você precisa?” Outros clientes formavam fila atrás de mim e, antes que eu pudesse responder, o robô acrescentou: “Você parece um pouco cansado.” Eu estava cansado, de fato; vinha de uma maratona de reuniões. Antes que eu pudesse perguntar como o robô havia adquirido tamanha sensibilidade, ele fez outra pergunta: “Gostaria que eu pegasse uma garrafa de Vitality Water Balance ou um chá aromático de pomelo com jasmim para ajudar na sua recuperação?”
Em vez disso, escolhi uma salsicha. “Vou pegar para você agora mesmo!”, disse o robô, manobrando o braço esquerdo para dentro da vitrine. Mas a salsicha escapou de sua garra e caiu de volta na fileira, junto às outras que giravam preguiçosamente entre os roletes. O robô não percebeu o incidente; recolheu o braço, depositou a carga inexistente diante de mim e anunciou: “Lembre-se de passar no caixa à esquerda!” O atendente riu nervosamente e dispensou o pagamento com um gesto.
Passei um tempo caminhando por Zhongguancun. Era uma tarde quente, e um grupo de entregadores havia se reunido para fumar à sombra de um viaduto. Com a desaceleração da economia, mais de duzentos milhões de chineses ingressaram na gig economy — a economia de bicos e trabalhos sob demanda. Entre eles estão cerca de vinte milhões de entregadores, que se tornaram os símbolos mais visíveis da nova era.
Em 2018, um jovem chamado Hu Anyan conseguiu emprego em Pequim como entregador, após passagens por funções como balconista de loja de conveniência, vendedor de bicicletas e segurança. Um dia típico envolvia onze horas de entregas, mas os turnos se prolongavam quando sites de comércio eletrônico faziam promoções e o volume de pedidos disparava. "Ainda tínhamos de entregar todos os pacotes do dia antes de bater o ponto, o que muitas vezes significava jornadas de quinze ou dezesseis horas", contou-me ele. Hu vivia atento a obstáculos que não podia controlar — prédios com elevadores lentos, portões trancados onde precisava esperar que um morador o deixasse entrar. Para atingir sua meta de cerca de quarenta dólares por dia, ele precisava fazer uma entrega a cada quatro minutos. Parar para fazer xixi lhe custava cerca de dois minutos; por isso, bebia o mínimo possível de água.
Alguns empregadores eram melhores que outros, mas todos compartilhavam a cultura da era dos algoritmos. Como um chefe severo disse a Hu: a "plataforma diz quais entregas você deve fazer!" e "não há nada de especial em você". Isso incomodava Hu, mas ele percebia que o chefe também era, "na verdade, apenas mais uma engrenagem na máquina". Com o tempo, a vida a serviço do algoritmo alterou sua percepção das relações humanas. Ele começou a nutrir ressentimento pelos colegas e a encarar as dificuldades deles sob a ótica de um jogo de soma zero. "Alguns funcionários veteranos seguravam as rotas mais fáceis por muito tempo, enquanto os novatos, que ficavam com as mais difíceis, muitas vezes simplesmente pediam demissão e eram substituídos", disse-me ele. Ele se tornou "mais impaciente e ansioso", mas o que mais o perturbava era um entorpecimento crescente. Ao saber, certo dia, que um cliente idoso o esperara por quase três horas em um mercado, Hu não sentiu nenhuma compaixão. "Em circunstâncias normais, eu me sentiria culpado", disse ele. "Mas, naquele momento, eu ainda tinha uma carga enorme de pacotes para entregar e não podia parar por ele, nem mesmo por cinco minutos."
Hu trabalhou como entregador por vinte meses. Depois, pediu demissão e descreveu suas experiências em um livro de memórias de linguagem direta, "Eu Entrego Pacotes em Pequim". A obra tornou-se um best-seller inesperado e inspirou outros livros de memórias chineses recentes sobre a precariedade do trabalho, incluindo "Eu Dirijo Táxi em Xangai" e "Minha Mãe Trabalha como Faxineira". No entanto, na China, a precariedade nunca se restringe àqueles que estão na base da pirâmide. Em março, as autoridades impediram abruptamente que os dois fundadores de uma startup de IA chamada Manus deixassem o país. Eles haviam fechado um acordo para vender sua empresa à Meta — a gigante americana das redes sociais — por dois bilhões de dólares, e o governo chinês não gostou nada disso. Foi uma mensagem intimidadora para outras empresas de IA: alguns indivíduos eram valiosos demais para a nação para que pudessem ir embora.
Durante anos, a crescente potência da China baseou-se em um equilíbrio frágil entre liberdade econômica e controle político, naquilo que os primeiros reformadores do Partido chamavam de "economia de gaiola": suficientemente arejada para permitir que as empresas prosperassem, mas não espaçosa a ponto de comprometer o poder. Esse arranjo raramente pareceu tão precário. Gary Rieschel, um investidor americano com vasta experiência na China, disse a uma plateia, no ano passado, que Xi estava tentando "amarrar" a "gansa que botava os ovos de ouro da ascensão extraordinária da China". Rieschel acrescentou: "Caso não saibam, gansos não gostam de ficar amarrados". Ele afirmou: "A questão crucial passa a ser: será que a liderança de Pequim consegue equilibrar efetivamente a relação delicada entre controle e dinamismo?"
No livro The World America Made, Robert Kagan enumera uma sucessão de potências globais, todas convencidas de sua própria perenidade: "Houve uma ordem egípcia, uma ordem romana, uma ordem grega, uma ordem islâmica, uma ordem mogol, uma ordem otomana e muitas outras". Cada uma delas nasceu de circunstâncias específicas e, muitas vezes, frágeis. A ordem americana, escreveu Kagan em 2012, perduraria "até um momento ainda não determinado".
Esse momento parece ter chegado. Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, disse-me que o sistema internacional que os EUA construíram após a Segunda Guerra Mundial — e que lideraram, muitas vezes em benefício próprio — está "definitivamente morto e sem possibilidade de recuperação". Ele afirmou que o desmantelamento das alianças do país promovido por Trump sinalizou o fim da "disposição do público americano em desempenhar o papel que a América exerceu durante a maior parte das últimas oito décadas".
No entanto, a perda de prestígio da América não abre necessariamente caminho para a China. Poucas pessoas hoje em dia veem com entusiasmo a perspectiva de um mundo dominado por qualquer uma das superpotências. Na Europa, a percepção sobre Pequim endureceu desde o final da década de 2010, quando seus representantes adotaram um estilo combativo conhecido como diplomacia do "lobo guerreiro". Após um prêmio sueco destinado a escritores perseguidos ter sido concedido a um dissidente de Hong Kong, um embaixador chinês declarou: "Tratamos nossos amigos com vinho fino, mas para nossos inimigos temos espingardas".
Mais recentemente, a preocupação europeia tem se concentrado nos aspectos econômicos do comércio. À medida que a China se empenha em dominar a manufatura global de tecnologia, passou a produzir muito além da demanda de sua economia interna — veículos elétricos, energia solar, baterias, turbinas eólicas e produtos químicos básicos. Em teoria, esse tipo de excesso de capacidade deveria levar ao fechamento de fábricas e à redução dessa onda de produção. Contudo, o governo chinês continua pressionando as empresas a produzir, em parte por receio de que o aumento do desemprego possa alimentar agitações sociais. O excedente é exportado, muitas vezes a preços baixos o suficiente para minar a indústria de outros países. "É algo sistêmico, não acidental", disse-me Joerg Wuttke, ex-presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China.
O receio na Europa é cada vez mais urgente. A Volkswagen estuda eliminar até cem mil empregos e fechar quatro fábricas, o maior corte na história da indústria automobilística global. Leonard me disse que o ressentimento em relação à política industrial da China atingiu "um nível crítico, especialmente na Alemanha, onde existe a sensação de que a China está intensificando políticas que levam à desindustrialização da Europa". Ele acrescentou: "O grande medo é que Baden-Württemberg" — sede da Mercedes-Benz — "se transforme em Detroit". Segundo ele, políticos europeus descrevem, em conversas reservadas, a sensação de estarem sendo atacados simultaneamente por Washington, Pequim e Moscou, e estão “despertando para um mundo em que precisam se proteger de todas as grandes potências”.
As medidas em discussão têm um caráter de improviso emergencial: impedir empresas chinesas de construir fábricas ou participar de licitações para contratos lucrativos, impor tarifas pesadas sobre aço e produtos químicos e até suspender patentes de tecnologia — uma abordagem conhecida coletivamente como a “bazuca comercial”. Alguns economistas argumentam que a Europa poderia competir de forma mais eficaz se promovesse a modernização. No entanto, essa postura de endurecimento vai além do comércio. A Alemanha comprometeu-se a investir até um trilhão de dólares em novos gastos com armamentos e infraestrutura. Wuttke afirmou: “Trump está rompendo laços e impondo tarifas a torto e a direito. Os chineses não estão cedendo. Portanto, a decisão não é escolher entre Pequim e Washington. Trata-se de estreitar laços com Jacarta e Délhi, bem como com outros países”.
As autoridades chinesas alertam frequentemente contra um mundo sem lei em que “os fracos são carne para os fortes”. Mas as próprias tácticas do Partido são intransigentes, tanto a nível interno como no estrangeiro. Nicholas Burns, antigo embaixador dos EUA na China, disse-me: "A China diz sempre: 'O governo dos EUA é demasiado pugilista'. Esse é o seu verniz retórico. A realidade é que estão a competir com unhas e dentes nos bastidores". No ano passado, Trump pressionou o Panamá para retirar o controlo de dois portos importantes a uma empresa sediada em Hong Kong e entregá-lo a um consórcio liderado pelos EUA. Na disputa, a China teria alertado os executivos estrangeiros contra “atividades ilegais que prejudicam os interesses das empresas chinesas”. É perigoso ignorar tais avisos. Os empresários internacionais envolvidos em disputas geopolíticas foram impedidos de deixar a China. A mensagem, disse-me o diplomata europeu, é “‘Somos uma grande potência e retaliaremos contra qualquer pessoa que fira os nossos direitos ou interesses.’ Por trás disto está o governo indiscutível do Partido Comunista Chinês”.
No entanto, a China não tem pressa em recriar a ordem internacional que recentemente se desgastou. Desde 1949, Pequim assinou apenas duas alianças formais – com a Coreia do Norte e a União Soviética – e ambas se revelaram dispendiosas. Patricia Kim, especialista da Brookings Institution, chama a postura de Pequim de uma estratégia “China primeiro”. “A China tem prazer em fazer declarações, mas não tem interesse em intervir como gestora de crises”, disse-me ela. “Quer maior influência, mas também quer evitar responsabilidades.” Os líderes chineses veem “os encargos da liderança global dos EUA como uma fonte de expansão excessiva e declínio americano”, disse ela, “e não têm interesse em imitar este modelo”.
Zhou Bo, oficial reformado do Exército de Libertação Popular, fez uma afirmação semelhante a partir de uma perspectiva diferente. “A administração Trump afastou-se de sessenta e seis organizações internacionais”, disse-me ele. “Esta é uma grande lacuna que a China simplesmente não consegue colmatar.”
O provável sucessor da ordem americana, então, não é tanto uma ordem chinesa, mas sim o que Leonard chama de um período de "desordem": uma selva na qual cada país se cerca de precauções, arma-se, concede subsídios, acumula recursos e busca pontos estratégicos de estrangulamento para explorar. Nas palavras de Suisheng Zhao, especialista em China da Universidade de Denver, trata-se da configuração de uma "luta hobbesiana de todos contra todos no século XXI".
Durante a Guerra Fria, enquanto futuristas de ambos os lados da Cortina de Ferro traçavam planos para controlar o rumo da história, outro grupo se uniu em torno de uma ideia mais modesta. O *Mankind 2000* — como o grupo se autodenominava — era composto por sobreviventes europeus do fascismo que viam com desconfiança tanto o determinismo comunista quanto a soberba americana. Eles alertavam que o homem poderia ser "absorvido por sua máquina" e declaravam: "O futuro pertence a todos nós, não apenas a pequenos grupos oligárquicos".
Passe tempo suficiente em Pequim e Washington hoje em dia e a rivalidade parecerá menos um choque entre sistemas concorrentes do que uma corrida entre pequenos grupos oligárquicos — círculos restritos de homens com imenso poder sobre o futuro de todos os outros. Na China, Xi tenta moldar a tecnologia para promover a obediência e o crescimento. Nos Estados Unidos, Trump e seus aliados do Vale do Silício priorizaram o desenvolvimento da IA em detrimento das preocupações com seus riscos. "Temos de fazer essa criança crescer e prosperar", disse Trump ao apresentar uma estratégia de IA em 2025. "Não podemos detê-la com regras tolas."
Sob essa ótica, a regulamentação, os testes de segurança, a responsabilidade jurídica e as proteções trabalhistas são luxos que uma superpotência não pode mais se permitir. David Sacks, investidor e ex-responsável pela política de IA da Casa A branca, alertou recentemente que criar uma "FDA para a IA" poderia significar perder a disputa para a China. Trata-se de uma velha manobra política. Em 1988, quando as montadoras japonesas estavam em ascensão, o Secretário de Transportes de Ronald Reagan ridicularizou padrões mais rigorosos de eficiência de combustível, classificando-os como uma "desvantagem competitiva" frente aos "asiáticos". Uma década depois, sob pressão de Wall Street, Bill Clinton revogou a separação entre bancos comerciais e de investimento, alegando que isso ajudaria os EUA a "competir nos mercados financeiros globais". Essa decisão foi posteriormente apontada como uma das causas da Grande Recessão.
A China consegue, de fato, construir em um ritmo que desperta nos americanos tanto espanto quanto desespero. No livro *Breakneck*, de 2025, Dan Wang — pesquisador da Hoover Institution, em Stanford — popularizou a ideia de que a rivalidade entre os dois países é uma disputa entre um Estado voltado para a engenharia e uma sociedade dominada por advogados. Na verdade, o livro é mais sutil do que essa formulação sugere. (Wang havia cogitado intitulá-lo *Move Fast and Break People* — "Mova-se Rápido e Quebre Pessoas" —, mas sua editora interveio.) Wang analisou os efeitos macroeconômicos da política do filho único — efeitos que, segundo ele me disse, tornaram-se ainda mais preocupantes desde o lançamento do livro. Embora a China possa gerar "resultados expressivos em ciência e tecnologia", seus problemas internos são profundos, afirmou ele. “Xangai é realmente incrível. Pode até ser uma das três maiores cidades do mundo. Mas como a China pode ser uma grande civilização se quase ninguém quer ter filhos?” Ele acrescentou: “Os jovens chineses, em particular, estão tomados por um descontentamento sereno. As pessoas não nutrem grandes esperanças em relação a um *boom* econômico que, basicamente, passará ao largo de todos, exceto de alguns poucos que trabalham com IA ou no setor financeiro.”
O Estado voltado para a engenharia consegue produzir um carro elétrico a cada setenta e seis segundos, mas isso só vai até certo ponto se as pessoas estiverem tão alienadas a ponto de se recusarem a trazer filhos para o futuro que está sendo construído para elas. O Partido quer empreendedores de IA capazes de impressionar o mundo, mas também quer o poder de decidir para onde eles podem ir e o que podem se tornar.
Os EUA têm uma fraqueza diferente. Até agora, os usos distópicos da tecnologia têm origem menos em sistemas governamentais de reconhecimento facial e mais em um punhado de empresas ultrapoderosas que exploram dados para aumentar seu controle sobre a vida das pessoas: seguradoras que usam IA para decidir quais tratamentos cobrir; varejistas que aplicam “preços baseados em vigilância” para elevar custos de acordo com a localização, os hábitos e a urgência do cliente. No entanto, essa distinção está se dissolvendo, à medida que empresas privadas de defesa ajudam a fundir as forças de segurança pública, o controle de imigração e a segurança nacional em um aparato interconectado. Mesmo em áreas onde as máquinas podem genuinamente melhorar a vida, as decisões são tomadas em sigilo. A Waymo relata índices de segurança melhores do que os de motoristas humanos, mas as empresas de veículos autônomos têm resistido ao escrutínio público. Quando o senador Ed Markey perguntou a sete grandes empresas com que frequência operadores humanos remotos precisavam conduzir os veículos em situações difíceis, elas se recusaram a responder, com várias alegando “informações comerciais confidenciais”.
Quanto mais centralizado o sistema, mais longe um erro pode se propagar. Em março, quando a Baidu — que opera táxis autônomos em mais de uma dúzia de cidades chinesas — sofreu uma falha no sistema, carros pararam em rodovias movimentadas. Quase certamente estaremos em melhor situação sem humanos ao volante de carros e caminhões, mas a história nos alerta para não deixarmos que engenheiros tomem essas decisões sozinhos. O país mais bem preparado para ajudar sua população não será aquele que simplesmente corre para inserir a IA em todos os aspectos da vida cívica; Mais provavelmente, será aquela que protege as decisões sobre a implementação das distorções da ideologia e da corrupção, que encontra formas de distribuir tanto os benefícios quanto as perdas decorrentes da IA e que faz com que as pessoas sintam que têm voz sobre o seu futuro.
A América não anda muito bem ultimamente, mas seu sistema político, por concepção, confere ao público mais poder para resolver problemas — caso as pessoas decidam resolvê-los. Como disse Wuttke: “Os Estados Unidos têm o dom de ir a pique e depois se renovar. A China, não”. A vantagem pode caber ao lado capaz de encarar seus problemas com maior franqueza. “É possível viver em uma realidade paralela na China, na Rússia ou nos Estados Unidos”, afirmou ele. “Essa é sempre uma situação perigosa, pois você pode acabar não percebendo os sinais que a história lhe envia.”
Certa tarde em Pequim, ao me ver com uma hora livre, escaneei o código QR de uma bicicleta de aluguel e atravessei a cidade pedalando, aproveitando o ar fresco. Quase fui atropelado por alguns entregadores, mas foi um prazer estar em um lugar onde eu podia ficar livre de retornos em tempo real sobre meus microgestos.
Apesar de todos os cálculos e previsões categóricas que me apresentaram durante as entrevistas, eu não conseguia me livrar da sensação de que o futuro é opaco demais para ser previsto — muito menos para ser determinado com precisão de várias casas decimais. Os jovens chineses, assim como os americanos, estão aderindo a uma nova moda de adivinhação. As pessoas saem para beber e consultar astrólogos, ou usam aplicativos de astrologia. (Em chinês, o termo para "adivinhação" compartilha um caractere com o termo para "algoritmo".)
Pequim tem adivinhos há séculos, embora o Partido se oponha ao que chama de "atividades supersticiosas feudais" e periodicamente reprima essas práticas. Eles sempre acabam voltando, retomando discretamente o trabalho em bairros próximos a templos budistas e confucionistas. Fui apresentado a um homem na casa dos setenta anos, a quem chamarei de Mestre Sun. Ele não estava sempre por perto — adivinhos trabalham de forma autônoma e esporádica —, mas concordou em se encontrar comigo e chegou vestindo uma jaqueta acolchoada azul de estilo antigo e um colar de jade. Ele caminhava ao lado de sua bicicleta, que tinha uma cesta na frente e plástico protetor ainda cobrindo o quadro, como um sofá protegido contra derramamentos.
O escritório do Mestre Sun ficava a um quarteirão de distância e, enquanto caminhávamos, ele perguntou como eu sabia falar mandarim. Eu morei na China, mas sou americano, respondi. "A América é um país poderoso", disse ele.
"A China também é poderosa", retruquei.
"Não tão boa quanto a América", afirmou ele.
Chegamos ao escritório dele, escondido atrás de uma loja de conveniência. Sobre a mesa, havia um pequeno altar com um Buda de cerâmica, um incensário, três cabaças e uma barra de chocolate. Ele examinou as linhas da minha mão, deu-me algumas moedas de bronze para lançar, pediu minha data de nascimento e começou a fazer cálculos em um bloco de papel. Observá-lo trabalhar parecia algo sutilmente revolucionário; ele havia encontrado uma maneira de sobreviver com dignidade tanto diante do Partido Comunista quanto da era dos algoritmos. Depois de algum tempo, ele olhou por cima dos óculos e me disse: "Seu destino indica que você tem um futuro nobre".
Gostei de ouvir aquilo. Lembrou-me daquela sensação súbita de prazer quando o ChatGPT elogia a sua pergunta. Perguntei: “Quero criar bem meus filhos e proporcionar-lhes um futuro brilhante. O que devo fazer?”
O Mestre Sun refletiu por um momento e disse: “Você deve lhes dar grande sabedoria. Isso é mais importante do que dar-lhes dinheiro. Certifique-se de que estudem bem. Com isso, a riqueza virá.”
Foi uma atitude gentil, embora eu não tivesse certeza se alguém ainda sabia a resposta para aquilo. Por fim, o Mestre Sun tirou um maço de tiras de papel-cartão vermelho dobradas e pediu que eu escolhesse três. Ele as examinou e anunciou: “Você está destinado ao poder político ou a uma grande riqueza!” Decidi encerrar a consulta enquanto ainda me sentia pelo menos 76,67% otimista.
Mas então ele fez uma pausa e ergueu uma das três tiras que eu havia escolhido. Nela estava escrito: “A Alegria Bate à Porta”. Ele disse que aquela era a tira mais sortuda do maço e ofereceu um conselho: “Você deveria gastar um pouco de dinheiro para proteger essa boa sorte.”
Ah, é? — perguntei. — Quanto?
“Seiscentos e sessenta yuans”, disse ele — cerca de noventa e sete dólares.
Evan Osnos é redator da The New Yorker que cobre política e relações exteriores. Seus livros incluem “The Haves and Have-Yachts: Dispatches on the Ultrarich”.

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