19 de agosto de 2026

No Peru, Keiko Fujimori promete ordem, não reconciliação

Keiko Fujimori tornou-se presidente do Peru após mais um segundo turno eleitoral acirrado. Enquanto em disputas anteriores ela evitava abordar diretamente o histórico autoritário de seu pai, desta vez ela capitalizou a imagem dele de líder de mão forte.

Rebecca Jarman

A nova presidente do Peru, Keiko Fujimori, tem sido frequentemente chamada, de forma eufemística, de populista. Na prática, isso significa combinar reformas de livre mercado com a ampliação dos poderes dos militares e ataques a proteções legais. (Connie France / AFP via Getty Images)

As seções eleitorais haviam aberto há pouco tempo quando Keiko Fujimori chegou ao cemitério acompanhada de sua irmã mais nova e de suas filhas adolescentes. Vestidas de forma coordenada — com blusas brancas impecáveis ​​e calças jeans —, elas atravessaram o gramado, cada uma carregando um maço de rosas e cravos. As mulheres mais velhas ajoelharam-se diante do túmulo da mãe e colocaram as flores, de um tom rosa-suave, em um vaso. Com as cabeças baixas, permaneceram ali por alguns instantes. Depois, de mãos dadas, caminharam mais vinte passos por entre as lápides. Para seu pai, Alberto — presidente do Peru entre 1990 e 2000 —, Keiko levara um arranjo nas cores nacionais: vermelho e branco. Ela conduziu a família em oração antes de se voltar para os repórteres e sorrir. Mais tarde naquele dia, ela votou na eleição presidencial em que, na quarta tentativa, conquistou o cargo mais alto do país.

A visita de Keiko aos túmulos de seus pais foi uma espécie de resposta tardia aos críticos de Alberto Fujimori, que zombavam de um presidente sem antepassados ​​enterrados em solo peruano. Fujimori era apenas filho de imigrantes japoneses quando surgiu no cenário político, sendo eleito pela primeira vez em 1990. Seu sobrenome não tinha precedentes nem significado anterior. Pouco depois de chegar ao Peru, na década de 1930, o pai de Alberto adotara um novo nome. Fujimori pode ser traduzido livremente como "bosque de glicínias". Foi uma escolha apropriada. Ele abriria uma floricultura no país que o acolheu — negócio onde Alberto trabalhou na adolescência, entregando esculturas florais espetaculares de bicicleta nas mansões modernistas de Lima. De origens humildes, Fujimori ascendeu longe e rápido. E caiu ainda mais fundo, sendo condenado em 2009 a vinte e cinco anos de prisão por violações dos direitos humanos e corrupção.

Agora, os restos mortais de Fujimori repousam nas profundezas da terra andina. Ainda assim, a linhagem de Keiko certamente permanece controversa. Por duas gerações, os peruanos acompanharam os enredos complexos de dramáticas disputas familiares, começando pelo conflito entre seu pai, Alberto, e sua mãe, Susana Higuchi — que também pertencia à comunidade japonesa. O conflito, amplamente divulgado, surgiu em 1992, quando Higuchi acusou a família do marido de desviar doações de caridade enviadas do Japão. Keiko surgiu na vida pública durante o divórcio conturbado de seus pais: quando ela tinha apenas dezenove anos, seu pai, então presidente, convidou-a para substituir a mãe no papel de primeira-dama. Empresária bem-sucedida e duas vezes deputada, Higuchi chegou a aspirar à presidência, mas suas ambições foram frustradas por uma campanha de vingança orquestrada pelo ex-marido para impedir sua candidatura. Ela reagiu alegando ter sido torturada por ordem de Fujimori. A relação tumultuada entre Susana e Keiko sempre foi alvo de especulações. Essas desavenças não jogaram a seu favor; o Peru é uma nação conservadora que valoriza a integridade e a discrição, especialmente entre a elite e as pessoas influentes.

Alberto Fujimori faleceu em 2024, aos 86 anos, pouco depois de ser libertado da prisão por razões humanitárias. Sua morte proporcionou a Keiko novas possibilidades em sua mais recente campanha presidencial, incluindo a chance de reescrever a história da família destacando uma reconciliação entre seus pais no leito de morte de Higuchi. Gestos de conciliação semelhantes foram, segundo a narrativa construída por Keiko, estendidos a outros membros da família. No funeral de Fujimori, Keiko abraçou seu irmão Kenji, visivelmente abalado, a quem ela havia expulsado de seu partido, o Fuerza Popular, em 2018, após ele se recusar a apoiar a tentativa dela de promover o impeachment do então presidente Pedro Pablo Kuczynski. Em contrapartida, Kenji havia conseguido o perdão presidencial de Kuczynski para o pai (embora a medida tenha sido prontamente anulada pela Suprema Corte, adiando a libertação em mais seis anos). Keiko justificou sua oposição a Kenji afirmando que Fujimori deveria ser plenamente absolvido pelo Judiciário, e não simplesmente anistiado pelo Executivo. Críticos apontaram que ela priorizava interesses políticos em vez de realmente tentar libertar o pai, que estava com a saúde debilitada. Em 2022, Keiko anunciou o fim de seu casamento de dezoito anos, ressaltando, porém, que a separação foi amigável. Em fevereiro deste ano, a própria filha de Keiko criticou suas posições contrárias ao aborto para mais de quatrocentos mil seguidores no Instagram. Keiko atribuiu a publicação a um debate político saudável, e não a tensões familiares.

A mensagem de unidade de Keiko não é apenas uma questão de âmbito privado. A primeira mulher eleita presidente do Peru também prometeu unir uma nação polarizada. As quatro eleições anteriores dividiram os votos quase exatamente ao meio: em todas as vezes que Keiko perdeu, foi por uma margem mínima. Por fim, ela também venceu a disputa por pouco, depois que os votos de emigrantes peruanos penderam a balança a seu favor. Internamente, sua base concentra-se ao longo da costa urbana do Pacífico, vinda de cidades industriais como Chimbote, Chiclayo e Trujillo. No segundo turno, ela conquistou votos conservadores na região metropolitana de Lima que haviam ido para o extravagante ex-prefeito Rafael López Aliaga, um magnata dos negócios e membro do Opus Dei. Já os distritos rurais dos Andes e da Amazônia apoiaram o esquerdista Roberto Sánchez. Candidatando-se pelo partido Juntos por el Perú, Sánchez fez campanha pela reformulação da Constituição, promoveu o desenvolvimento liderado pelo Estado e a reforma policial, além de prometer justiça para as vítimas da repressão estatal durante a luta armada das décadas de 1980 e 1990. Em um nível mais simbólico, a candidatura de Sánchez representou uma reivindicação em favor de seu aliado, Pedro Castillo — presidente por dezesseis meses antes de seu impeachment em 2022 e que atualmente cumpre pena de onze anos de prisão por tentar fechar o Congresso. No final, o programa de esquerda de Sánchez foi superado pela agenda de Keiko — favorável ao mercado e a um Estado forte —, que defendia uma linha dura na segurança pública e a expansão do Exército, ao mesmo tempo em que minimizava os legados sociais do conflito civil.

Peru com ordem?

A unidade, nesse sentido, não significa uma verdadeira reconciliação nacional, mas sim a consolidação de uma coalizão populista de direita em torno do sobrenome Fujimori. De fato, é a postura firme de Keiko em relação ao crime que mobiliza seus apoiadores; alguns deles aplaudem a cruzada violenta de seu pai contra o grupo armado maoista Sendero Luminoso, que resultou na quase total aniquilação do grupo e pôs fim ao conflito interno. Enquanto em suas campanhas presidenciais anteriores Keiko havia evitado associar-se ao legado do pai, nesta tentativa ela capitalizou a reputação dele como um líder de mão forte. Essa estratégia ressoou especialmente entre os moradores de comunidades urbanas informais. As taxas de criminalidade no Peru dispararam nos últimos meses, tornando-se uma grande fonte de medo. A violência de gangues atingiu níveis sem precedentes em todo o país. Bairros de baixa renda são assolados por roubos de rua e extorsões. Desde 2019, a taxa de homicídios subiu de 7,4 para 10,7 por 100 mil habitantes. Concorrendo sob o slogan "Perú con orden" (Peru com Ordem), Keiko priorizou a segurança pública e comprometeu-se a desmantelar as redes criminosas transnacionais que operam em território peruano. Suas políticas de segurança preveem o envio de militares para áreas com altos índices de criminalidade, a ampliação da capacidade prisional, a reforma do sistema penitenciário e o reforço do policiamento nas fronteiras internacionais. Defensora das forças de defesa nacional, ela também busca fortalecer as agências de inteligência do país, aumentar a autonomia dos militares em relação ao Judiciário e retirar o Peru da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Tais tendências autoritárias sugerem que, ao menos no que diz respeito ao combate ao crime, um eventual governo de Keiko daria continuidade à política interna de Fujimori.

Ainda assim, Keiko assume um governo de natureza muito diferente. Em 1990, seu pai obteve uma vitória esmagadora. Dois anos depois, ele fechou o Congresso e suspendeu a Constituição antes de instituir uma assembleia constituinte unicameral, projetada para concentrar poder no Executivo. Keiko não conta com tal mandato. Este ano marca o retorno de um Legislativo bicameral, após sua dissolução pelo pai dela. O Fuerza Popular não detém maioria absoluta nem na Câmara dos Deputados nem no recém-criado Senado. Para governar de forma eficaz, Keiko será obrigada a formar coalizões multipartidárias. Suas propostas legislativas passarão por um escrutínio redobrado. Ela será pressionada a dialogar por um eleitorado exausto e desesperado para superar uma década de governos paralisados. O Peru teve dez presidentes em igual número de anos. A maioria deles renunciou, foi destituída ou acabou presa. Alguns, como Pedro Pablo Kuczynski (presidente no final da década de 2010) e, posteriormente, Castillo, caíram em decorrência de manobras de Keiko para utilizar os poderes do Congresso em prol de sua própria agenda. Esse uso do Congresso como arma é um reflexo de um sistema político que permite que as ambições de líderes individualistas se consolidem em organizações partidárias. Contudo, Keiko também não está imune a essas maquinações. Ela já foi vítima do sistema anteriormente, tendo passado dezesseis meses na prisão durante uma investigação por corrupção que acabou arquivada, mas que ainda pode ser retomada. Assim, ela terá incentivos para negociar.

Resta saber qual será a interpretação de Keiko sobre a liberdade democrática em um sentido mais amplo. Em 28 de julho, centenas de homens e mulheres viajaram de todo o país até o centro de Lima para protestar contra a sua posse. Entre eles estavam familiares de pessoas mortas durante as amplas manifestações contra Dina Boluarte — vice-presidente de Castillo, que assumiu o poder com o apoio do Fuerza Popular após a destituição dele. Nos meses turbulentos que se seguiram à sua ascensão, Boluarte mobilizou as forças armadas para dispersar protestos em cidades do sul, resultando na morte de pelo menos quarenta e nove civis. Os manifestantes acusam Keiko de ser conivente com a violência estatal ao proteger os responsáveis ​​pelas mortes, encarando sua eleição como um sinal de que o Peru endossa uma cultura de impunidade. Este grupo pró-Castillo une forças com as famílias de pessoas assassinadas ou desaparecidas pelos esquadrões da morte militares supervisionados por Alberto Fujimori na década de 1990. Marchando ao lado de estudantes, socialistas e sindicatos, eles resgataram um ritual icônico de lavagem de bandeiras, utilizado para denunciar a corrupção durante o último ano de mandato do presidente. No passado, Keiko ignorou em grande parte essa articulação popular do movimento antifujimorista. Isso pode mudar, à medida que ela também se propõe a "limpar" o Peru.

Colaborador

Rebecca Jarman é professora de humanidades na Universidade de Leeds e autora de Representing the Barrios: Culture, Politics, and Urban Poverty in Twentieth-Century Caracas.

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