30 de novembro de 2014

Atenas, 1944: um segredo vergonhoso da Inglaterra

Quando 28 civis foram assassinados em Atenas, a responsabilidade não foi dos nazistas, mas dos ingleses. Ed Vulliamy e Helena Smith revelam de que modo a vergonhosa decisão de Churchill de entregar os partisans que haviam lutado pelos Aliados constituiu a semente da ascensão da extrema-direita na Grécia de hoje.

Ed Vulliamy e Helena Smith


Um dia que mudou a história: os corpos de manifestantes desarmados atingidos pela polícia e pelo exército britânico em Atenas em 3 de dezembro de 1944. Fotografia: Dmitri Kessel / Time & Life Pictures / Getty Images

“Ainda consigo ver muito claramente, não me esqueci”, afirma Titos Patríkios. “A Polícia de Atenas a disparar sobre a multidão, do telhado do Parlamento, na Praça Sintagma. Os jovens homens e mulheres jaziam em poças de sangue, toda a gente a correr escada abaixo, tomados de choque, em pânico total.”

E então ocorreu o momento decisivo: a irreverência da juventude, a convicção de acreditar numa causa tão profundamente justa: “Saltei para a fonte no meio da Praça, que ainda lá está, e comecei a gritar: ‘Camaradas, não dispersem! A vitória será nossa! Não se afastem. Chegou o momento, venceremos!’”

“Eu estava”, diz-nos agora, “profundamente convicto de que venceríamos”. Mas a vitória não chegou nesse dia, tal como não se pretendeu que o que acontecera não mudaria a história de um país que, libertado do Reich de Hitler havia umas meras seis semanas, estava agora a caminho de uma sangrenta guerra civil.

Mesmo agora, aos 86 anos, quando Patríkios se ri “de mim para comigo por ter chegado a esta idade”, o poeta recorda, cada cena, cada disparo, o que aconteceu na praça principal da vida política grega, na manhã de 3 de dezembro de 1944.

Foi neste dia, faz agora 70 anos, que o Exército Britânico, ainda em guerra com a Alemanha, abriu fogo (e deu armas aos locais que haviam colaborado com os nazistas para o fazerem) sobre uma multidão de civis que se manifestavam a favor dos partisans, de quem a Inglaterra fora aliada durante três anos.

A multidão levava bandeiras gregas, norte-americanas, inglesas e soviéticas, e gritava “Viva Churchill, Viva Roosevelt, Viva Stalin”, defendendo esta aliança em tempo de guerra.

Vinte e oito civis, na maioria jovens, foram mortos e centenas foram feridos. “Pensáramos todos que esta seria uma manifestação como qualquer outra”, relembra Patríkios. “O nosso trabalho do costume. Ninguém esperava um banho de sangue.”

A lógica dos ingleses era pérfida e brutal: o Primeiro-ministro Winston Churchill considerava que a influência do Partido Comunista entre o movimento de resistência que ele próprio apoiara no decurso da Guerra (a Frente de Libertação Nacional, EAM) se fortalecera mais do que ele havia calculado, o suficiente para prejudicar o seu plano de colocar de novo o rei grego no poder e manter o comunismo à distância. Portanto mudou as alianças para passar a estar do lado dos apoiadores de Hitler, contra aqueles que haviam sido, em primeira instância, os seus aliados.

Havia outros na Praça nesse dia, que, tal como Patríkios, então com 16 anos, se tornariam membros proeminentes da esquerda. Mikis Theodorakis, compositor de renome e figura icônica da moderna história grega, pôs uma bandeira grega sobre o sangue dos que tombaram. Tal como Patríkios, era membro do movimento de resistência da juventude. E, como Patríkios, soube que o seu país tinha mudado. Numa questão de dias, os Spitfires e os Beaufighters da RAF metralhavam bastiões da esquerda. Começava a Batalha de Atenas, conhecida na Grécia como Dekemvriana, que opunha, não os ingleses face aos nazistas, mas os ingleses, ao lado dos apoiadores dos nazistas, contra os partisans. “Ainda consigo sentir o cheiro da destruição”, lamenta-se Patríkios. “Os morteiros choviam e os aviões disparavam sobre tudo. Ainda hoje tenho um sobressalto quando ouço o som de aviões nos filmes de guerra.”

Seguiu-se uma guerra civil catastrófica na Grécia: um episódio cruel e sangrento da história britânica, e também grega, que os gregos conhecem tão bem, embora de modo diferente, consoante o lado em que estavam, mas que curiosamente permanece desconhecida na Inglaterra, talvez por vergonha, talvez por uma arrogante falta de interesse. É uma narrativa desconhecida pelos milhões de ingleses que vão saborear as glórias da Antiguidade grega ou dançar pelas ilhas como num musical.

O legado desta traição tem perseguido a Grécia desde então, a sua sombra paira sobre a turbulência e a violência que despoletou em 2008, que também se chama Dekemvriana, depois do assassinato de um miúdo de escola pela polícia, e que criou um abismo entre a esquerda e a direita desde então.

A sublevação de Dezembro de 1944 e a guerra civil de 1946-49 influencia o presente”, afirma André Gerolymatos, o principal historiador destes acontecimentos, “porque nunca houve uma reconciliação. Em França ou na Itália, se tivesses combatido os Nazistas, eras respeitado na sociedade depois da Guerra, independentemente da tua ideologia. Na Grécia, acabavas a lutar contra as pessoas que colaboraram com os Nazistas, ou a ser preso e torturado por elas, às ordens da Inglaterra.” Esse crime nunca foi reconhecido, e muito do que está a acontecer na Grécia agora é o resultado do desconhecimento do passado.”

Antes da Guerra, a Grécia era governada por uma ditadura de caráter monárquico, cujo emblema, com um machado fascista e a coroa, expressam bem a sua dicotomia uma vez começada a guerra: o ditador, General Ioannis Metaxas, fora treinado como oficial do exército na Alemanha Imperial, enquanto o rei grego George II, um tio do Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, estava ligado à Inglaterra. A esquerda grega, entretanto, fora reforçada por um grande fluxo de refugiados politizados e intelectuais liberais da Ásia Menor, que se introduziram nos bairros da lata de Pireu e na Atenas da classe operária.

O ditador e o Rei eram fervorosamente anticomunistas, e Metaxas baniu o Partido Comunista (KKE), prendendo e torturando os seus membros, apoiadores e todos que não aceitassem “a ideologia nacional” em campos e prisões, ou enviando-os para o exílio interno. Assim que começou a Guerra, Metaxas recusou-se a aceitar o ultimatum de Mussolini para se render e prometeu lealdade à aliança anglo-grega. Os gregos lutaram com valentia e derrotaram os italianos, mas não puderam resistir à Vehrmacht. Por volta do final de Abril de 1941, as potências do eixo impuseram uma dura ocupação ao país. Os gregos, primeiro espontaneamente, depois em grupos organizados, resistiram.

Mas, notou o Executivo de Operações Especiais Britânico (SOE): “a direita e os monárquicos foram mais lentos que os seus opositores na decisão de resistir à ocupação e portanto revelaram-se pouco úteis.”

O aliado natural dos ingleses foi portanto a EAM, uma aliança da esquerda com os partidos agrários, de que o KKE era figura dominante, mas de modo nenhum único, e o seu braço militar partisan, o ELAS.

É difícil descrever o horror da ocupação. O livro do Professor Mark Mazower, Inside Hitler’s Greece descreve horrorosos blocos, ou “cercos”, em que multidões eram encurraladas nas ruas, para que informadores disfarçados pudessem apontar os apoiadores do ELAS à Gestapo e aos Batalhões de Segurança (que haviam sido formados pelo governo colaboracionista para ajudar os Nazistas), para que fossem executados. Despir e violar mulheres era um meio comum de assegurar “depoimentos”. Execuções em massa tiveram lugar “segundo o modelo alemão”: em público, para intimidar; os cadáveres eram deixados pendurados nas árvores, guardados por colaboradores do Batalhão de Segurança, para impedir a sua remoção. Em resposta, o ELAS levava a cabo contra-ataques dirigidos aos alemães e seus esbirros. O movimento partisan nasceu em Atenas, mas tinha base nas aldeias, de modo que a Grécia foi progressivamente libertada a partir do interior. O SOE desempenhou o seu papel, famoso nos anais da história militar pelo papel do Brigadeiro Eddie Myers e “Monty” Woodhouse no rebentamento do viaduto Gorgopotomas em 1942, e outras operações com os partisans, ou andartes, em grego.

Pelo Outono de 1944, a Grécia fora devastada pela ocupação e pela fome. Meio milhão de pessoas havia morrido; 7% da população. O ELAS tinha, contudo, libertado dezenas de aldeias e tinha-se tornado um proto-governo, administrando partes do país, enquanto o estado efetivo desaparecia. Mas, depois da retirada alemã, o ELAS manteve os seus 50.000 partisans armados fora da capital e, em Maio de 1944, aceitaram a vinda de tropas britânicas, e a submissão dos seus homens ao comando do General Ronald Scobie.

A 12 de Outubro, os Alemães saíram de Atenas. Alguns dos combatentes do ELAS, contudo, tinham estado todo este tempo na capital, e acolheram a lufada de ar fresco e a liberdade durante o espaço de seis dias, entre a libertação e a chegada dos ingleses. Um partisan em particular ainda é vivo, com 92 anos de idade, e é uma lenda da Grécia contemporânea.

Glezos é um homem de uma grandeza que é uma lição de humildade. A 30 de Maio de 1941, subiu à Acrópole com outro partisan e arrancou a bandeira nazista com a suástica, que lá fora posta há um mês. Foi preso pela Gestapo em 1942, torturado, e, como resultado, sofreu de tuberculose. Escapou e foi novamente preso duas vezes; a segunda vez por colaboradores. Lembra-se de ter sido condenado à morte em Maio de 1944, antes dos Alemães saírem de Atenas. “Disseram-me que a minha sepultura fora já cavada.” Conseguiu de algum modo evitar a execução e foi depois salvo de um pelotão de execução de um tribunal marcial durante o período da guerra civil por protestos internacionais liderados pelo General de Gaulle, Jean-Paul Sartre e o Arcebispo de Cantuária, o Reverendo Geoffrey Fisher.

Setenta anos mais tarde, ele é um ícone da esquerda grega que é também saudado como a maior autoridade viva sobre a resistência. “Os ingleses, até hoje, dizem que libertaram a Grécia e a salvaram do comunismo”, diz. “Mas o problema é precisamente esse. Eles nunca libertaram a Grécia. A Grécia foi libertada pela resistência, um conjunto de grupos, não apenas a EAM, a 12 de Outubro. Eu estava lá, nas ruas. Havia pessoas por toda a parte, a gritar ‘Liberdade!’, gritávamos ‘Laokratia!; ‘O poder às massas!’”

Os ingleses chegaram devidamente a 18 de Outubro, instalaram um governo provisório sob Georges Papandreou e prepararam-se para restaurar a monarquia. “Desde que chegaram”, relembra Glezos, “o povo e a resistência saudaram-nos como aliados. Não havia senão respeito e amizade para com os ingleses. Não fazíamos ideia de que já estávamos a ceder o nosso país e os nossos direitos”. Foi só uma questão de tempo até a EAM sair do governo provisório frustrada pelas exigências de desmobilização dos partisans. As negociações quebraram a 2 de Dezembro.

O pensamento oficial dos ingleses está refletido nos documentos do Gabinete de Guerra e noutros documentos no Public Record Office, em Kew. Já em 17 de Agosto de 1944, Churchill escrevera um memorando “Pessoal e Top Secret” ao Presidente Norte-americano Franklin Roosevelt, para lhe dizer que “O Gabinete de Guerra e o Secretário do Exterior estão muito preocupados sobre o que acontecerá em Atenas, e de fato na Grécia, quando os Alemães capitularem, ou quando as suas divisões tentarem abandonar o país. Se houver um longo hiato depois das autoridades alemãs saírem da cidade antes de poder estabelecer-se um governo organizado, parece muito provável que a EAM e os extremistas comunistas tentarão cercar a cidade.”

Mas o que os combatentes pela liberdade pretendiam, insiste Glezos, “era o que tínhamos conseguido durante a guerra: um estado governado pelo povo para o povo. Não havia nenhum plano para tomar Atenas, como Churchill mantinha. Se tivéssemos pretendido fazer isso, poderíamos tê-lo feito antes da chegada dos ingleses.” Durante o mês de Novembro, os ingleses trataram de estabelecer a nova Guarda Nacional, tarefa que pertencia à polícia grega, e desarmar as milícias de guerra. Na verdade, o desarmamento aplicou-se apenas ao ELAS, explica Gerolymatos, não àqueles que haviam colaborado com os Nazistas. Gerolymatos escreve, no livro prestes a ser publicado, A Guerra Civil Internacional, sobre o modo como, “em meados de Novembro, os ingleses começaram a libertar oficiais do Batalhão de Segurança... E logo alguns deles caminharam livremente nas ruas de Atenas, envergando novos uniformes... O Exército Britânico continuou a oferecer proteção para ajudar à gradual reabilitação das antigas unidades de colaboradores no exército grego e forças policiais.” Um memorando da SOE instava a que o “HMG não parecesse relacionado com este esquema.”

Em conversa, Gerolymatos afirma: “Tanto quanto o ELAS podia perceber, os ingleses tinham chegado, e agora alguns oficiais superiores dos Batalhões de Segurança e do Departamento Especial de Segurança [unidades colaboracionistas que haviam sido integradas nas SS], eram vistos andando livremente nas ruas. Atenas era, em 1944, uma cidade pequena, e estas pessoas não passavam despercebidas. Os oficiais superiores britânicos sabiam exatamente o que estavam a fazer, apesar de que os soldados vulgares dos antigos Batalhões de Segurança eram a escória da Grécia”. Gerolymatos estima que 12.000 unidades dos Batalhões de Segurança foram libertadas das prisão de Goudi durante a sublevação para se juntarem à Guarda Nacional, e 228 foram reintegrados no exército.

Qualquer ideia, por parte dos ingleses, de que os comunistas estavam predispostos para a revolução perdeu-se no contexto do chamado Acordo de Percentagens, forjado entre Churchill e o Comissário Soviético Josef Stalin na “Conferência de Tolstoy” (nome de código) em Moscou a 9 de Outubro de 1944. Nos termos daquilo a que Churchill chamou “um documento perverso”, a Europa do Sudeste foi repartida em “esferas de influência”, em que, em termos gerais, Stalin escolheu a Romênia e a Bulgária, enquanto a Inglaterra, para manter a Rússia fora do Mediterrâneo, escolheu a Grécia. O que teria sido óbvio fazer, argumenta Gerolymatos, “teria sido incorporar o ELAS no Exército Grego. Os oficiais no ELAS, muitos com comissões no Exército Grego antes da Guerra, presumiram que isto iria acontecer – tal como De Gaulle fez com os comunistas franceses que lutavam na Resistência: “A França está libertada, agora vamos combater a Alemanha.”

“Mas os ingleses e o governo grego no exílio decidiram desde o início que os oficiais e os homens do ELAS não seriam admitidos no novo exército. Churchill queria um confronto com o KKE para conseguir repor o Rei. Churchill acreditava que uma restauração resultaria no restabelecimento da legitimidade e que traria de regresso a velha ordem. A união EAM-ELAS, independentemente da sua relação com o KKE, representaram uma força revolucionária, e uma mudança.”

Entretanto, continua Gerolymatos, “os comunistas gregos tinham decidido não tentar tomar conta do país, pelo menos não até ao fim de Novembro, princípios de Dezembro de 1944. O KKE fez esforços para que se chegasse a um governo à esquerda do centro, e para ser parte dele, é tudo.” A fazer eco de Glezos, diz: “Se tivessem pretendido uma Revolução, não teriam deixado 50.000 homens armados fora da capital depois da libertação; tê-los-iam trazido.”

“Recrutando os colaboradores, os ingleses mudaram o paradigma, assinalando que a velha ordem havia regressado. Churchill queria o conflito”, diz Gerolymatos. “Devemos lembrar-nos: não houve batalha pela Grécia. Um grande número de tropas inglesas que haviam chegado eram administrativos, não unidades de linha. Quando os combates rebentaram em Dezembro, os ingleses e o governo provisório deixaram os Batalhões de Segurança sair de Goudi; eles sabiam como lutar rua a rua porque o tinham feito com os Nazistas. Já tinham lutado contra o ELAS durante a ocupação e recomeçaram a batalha com entusiasmo”.

A manhã de Domingo, 3 de Dezembro, foi solarenga, várias procissões de republicanos gregos, antimonárquicos, socialistas e comunistas puseram-se a caminho da Praça Sintagma. Os cordões policiais bloquearam-lhes o caminho, mas muitos milhares conseguiram romper; quando se aproximavam da Praça, um homem em uniforme militar gritou: “Matem estes desgraçados!” A salva fatal – das posições da polícia grega no cimo do Parlamento e do quartel-general inglês no Hotel Grande Bretagne – durou meia hora. À tarde, uma segunda multidão de manifestantes entrou na Praça, até que esta se encheu com 60 000 pessoas. Depois de várias horas, uma coluna de paraquedistas ingleses limpou a Praça; mas a Batalha de Atenas começara, e Churchill conseguira a sua guerra.

Manolis Glezos estava doente nessa manhã, sofrendo de tuberculose. “Mas quando soube o que estava a acontecer, levantei-me da cama onde estava, doente”, recorda. No dia seguinte, Glezos andava pelas ruas, zangado e determinado, a desarmar as estações da polícia. Na altura em que os ingleses enviaram uma divisão armada, ele e os seus camaradas estavam à espera.

“Destaco o facto”, afirma, “de que eles preferiam usar tropas para combater a nossa população em vez dos Nazis!” Na altura em que os tanques ingleses entraram vindos do porto de Pireaus, ele estava à espera: “Lembro-me de virem pela Via Sacra. Estávamos numa trincheira. Eliminei três tanques”, afirma. “Houve grande banho de sangue, muita luta, perdi muitos amigos. Era difícil atacar um inglês, era difícil matar um soldado inglês – tinham sido nossos aliados. Mas agora iam contra a vontade popular, e haviam declarado guerra ao nosso povo.

No pico da batalha, afirma Glezos, os ingleses até estabeleceram pontos com snipers na Acrópole. “Nem os alemães o fizeram. Disparavam a alvos da EAM, mas não respondíamos, para não atingir o monumento.”

A 5 de Dezembro, o General Scobie impôs a lei marcial e no dia seguinte ordenou o bombardeamento do bairro Metz, da classe operária. “Forças britânicas e governamentais”, escreve a antropóloga Neni Panourgia no seu estudo sobre famílias nessa altura, “tendo à sua disposição armamento pesado, tanques, aviação e um exército disciplinado, podiam fazer incursões na cidade, queimando e bombardeando as casas e ruas e apagando partes da cidade… Os tanques alemães haviam sido substituídos pelos ingleses, os SS e os oficiais da Gestapo por soldados britânicos.” A casa que pertencia ao actor Mimis Fotopoulos, escreve, foi queimada, com um retrato de Churchill sobre a lareira.

“Lembro-me de gritar slogans em inglês, durante uma batalha na Praça Koumoundrou, porque tinha uma voz forte e sentimos que poderia ser ouvido”, afirma o poeta Titos Patríkios, enquanto falamos no seu apartamento. “‘Somos irmãos, nada temos que nos divida, venham connosco!’ Era isso que eu gritava, que eles [as tropas inglesas] retirassem. E nesse preciso momento, com a minha cabeça a espreitar sobre o muro, uma bala assobiou por cima do meu capacete. Se o Evangelos Goufas [também poeta], que estava lá comigo, não me tivesse puxado, teria morrido.”

Hoje pode sorrir da ideia de que, passados apenas meses depois dos assassinatos na praça, estava de regresso à escola, a estudar inglês num curso de Verão do British Council. “Éramos inimigos, mas ao mesmo tempo amigos. Numa batalha encontrei um soldado inglês ferido e levei-o a um hospital de campo. Dei-lhe o meu exemplar de Kidnapped, de Robert Louis Stevenson, e lembro-me de que ele o guardou”.

É esclarecedor ler os despachos dos soldados ingleses, tais como extraídos pelo censor mor, o Capitão J.B. Gibson, agora guardados no Public Record Office. Não dão indicação de que o inimigo que combatiam fora antes um partisan aliado, de facto muitas tropas pensavam que estavam a combater uma força apoiada pelos alemães. Um subtenente escreve: “O Sr. Churchill e o seu discurso não nos deixaram dúvidas, agora sabemos quem combatemos e por quem, os alemães estão obviamente por trás de tudo isto”. De “um oficial”: “Poderão perguntar: porque deveriam os nossos soldados dar a sua vida para resolver os problemas políticos dos gregos? Mas serão apenas problemas políticos dos gregos? Eu digo que não, faz tudo parte da guerra contra os alemães, e temos de exterminar este elemento rebelde.”

Documentos de gabinete em Kew dão conta das reacções em Londres: uma minuta de 12 de Dezembro regista o regresso de Atenas de Harold Macmillan, conselheiro político do Marechal de Campo Alexandre, para recomendar “uma proclamação de todos os civis contra nós, os rebeldes, e uma declaração segundo a qual os civis que se nos opusessem com armas poderiam ser mortos, e que um aviso de 24 horas deveria ser dado de que certas áreas iriam ser totalmente evacuadas pela população civil”. Daí o Exército Britânico deveria esvaziar a cidade de Atenas e ocupá-la. Rapidamente, tropas britânicas reforçadas estavam no controlo da situação e, na véspera de Natal, Churchill chegou à capital grega numa tentativa falhada de estabelecer a paz no dia de Natal.

“Vou agora dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém”, refere Manolis Glezos maliciosamente. Na noite de 25 de Dezembro, Glezos tomaria parte na sua mais arrojada fuga, depositando mais de uma tonelada de dinamite sob o Hotel Grande Bretagne, onde o General Scobie se tinha estabelecido. “Havia cerca de 30 de nós envolvidos. Trabalhámos nos tuneis do sistema de esgotos; tínhamos pessoas a cobrir as saídas nas ruas, receávamos bastante que nos pudessem ouvir. Rastejámos através da porcaria e da água e pusemos a dinamite por debaixo do Hotel, o suficiente para o mandar pelos ares.”

“Eu próprio transportava o fio do fusível, havia fio a toda a volta, e tinha que o ir desenrolando. Estávamos absolutamente imundos, cobertos de excrementos, e quando saímos dos esgotos, lembro-me dos rapazes a lavarem-nos. Fui ter com o rapaz que tinha o detonador; e esperámos, esperámos pelo sinal, mas nunca chegou. Nada. Não houve explosão. Depois percebi: à última da hora, a EAM descobriu que Churchill estava no edifício, e deu ordens para cancelar o ataque. Eles queriam explodir o comando inglês, mas não queriam ser responsáveis pelo assassinato de um dos três grandes.”

No fim da Dekemvriana, milhares haviam sido mortos; 12 000 pessoas de esquerda haviam sido enviadas para campos no Médio Oriente. Uma trégua foi assinada a 12 de Fevereiro, cuja única causa cumprida, ainda assim apenas parcialmente, foi a desmobilização do ELAS. E assim começou um capítulo da história grega conhecido como o “Terror Branco”, em que qualquer pessoa suspeita de ajudar o ELAS durante a Dekemvriana, ou mesmo durante a ocupação Nazi, era apanhada e enviada para um gulag estabelecido para prender, torturar e, muitas vezes, assassinar – ou, em alternativa, o arrependimento, como com a ditadura de Metaxas.

Titos Patríkios não é o género de homem para deixar o passado interferir no presente. Mas não nega que esta história tenha feito exactamente isso; afectando a sua poesia, as suas acções, a sua procura da “palavra justa”. Este homem tão comedido e educado iria passar anos em campos de concentração, estabelecidos com a ajuda dos ingleses quando a guerra civil começou. Com a prisão, veio o trabalho forçado, e com o trabalho forçado veio a tortura, e com o exílio veio a censura. “Na primeira noite em Makronissos [o pior de todos os campos], fomos todos severamente espancados.”

“Passei lá seis meses, a maior parte desse tempo a partir pedra, a apanhar silvas e a transportar areia. Uma vez, fizeram-me estar de pé durante 24 horas, depois de se descobrir que um jornal tinha publicado uma carta a descrever as condições horríveis do campo. Mas apesar de ter sido eu a escrevê-la, e de a ter feito chegar à minha mãe, nunca confessei tê-lo feito e durante o tempo que aqui passei, nunca assinei uma declaração de arrependimento.”

Patríkios esteve entre os que tiveram alguma sorte; milhares de outros foram executados, normalmente em público, as suas cabeças cortadas ou cadáveres pendurados habitualmente expostos em público na praça pública. A embaixada de Sua Majestade em Atenas comentou dizendo que a exibição de cabeças cortadas “é um costume habitual neste país, que não pode ser julgado de acordo com os padrões europeus ocidentais.”

O nome do homem no comando da “Missão da Polícia Britânica” na Grécia é pouco conhecido. A Sir Charles Wickham fora atribuída por Churchill a missão de supervisionar as novas forças de segurança gregas; de facto, recrutar os colaboradores. A antropóloga Neni Panourgia descreve Wickham “uma das pessoas que travestiu o Império, estabelecendo a infraestrutura necessária para a sua sobrevivência”, e atribui-lhe o estabelecimento de um dos mais terríveis campos nos quais os prisioneiros eram torturados e assassinados, em Giaros.

De Yorkshire, Wickham era um militar que serviu na Guerra Boer, durante a qual os campos de concentração, no sentido moderno, foram inventados pelos ingleses. Depois combateu na Rússia, como parte da Força Expedicionária aliada enviada em 1918 para ajudar as forças brancas russas czaristas que se opunham à Revolução Bolshevique. Depois da Grécia, continuou, em 1948, na Palestina. Mas as suas qualificações para a Grécia eram estas: Sir Charles foi o primeiro inspector-geral do Royal Ulster Constabulary (RUC), de 1922 a 1945.

O RUC foi fundado em 1922, no que ficou conhecido como os pogroms de Belfast de 1920-22, quando ruas católicas foram atacadas e queimadas. Foi, escreveu o historiador Tim Pat Coogan, “concebido não como um corpo policial normal, mas como um de contrainsurgência… A nova força continha muitos recrutas que se juntaram com a intuição de serem polícias normais, mas também continha gangues assassinos chefiados por homens como um chefe de polícia que usava baionetas com as suas vítimas porque desse modo prolongava a sua agonia.”

Como descobriu o escritor Michael Farell, quando pesquisou para o seu livro Arming the Protestants, muito do material pertencente à incorporação de Sir Charles destes UFV e milícias da Special Constabulary no RUC foi destruída, mas subsiste o suficiente para dar uma indicação clara do que estava a acontecer. Num memorando escrito por Wickham em Novembro de 1921, antes da formação da RUC, e enquanto o tratado de partição de Dezembro desse ano estava a ser negociado, ele dirigira-se a “Todos os comandantes de município” deste modo: “Devido ao número de relatórios que foi recebido relativo ao crescimento de forças de defesa lealistas não autorizadas, o governo tem em consideração o desejo de obter os serviços dos melhores elementos destas organizações.

Coogan, o maior historiador irlandês, veterano, não reclama neutralidade sobre matérias relativas à República e à União, mas os factos históricos são objectivos e ele tem um conhecimento destes que ninguém mais tem. Conversamos na sua casa, fora de Dublin e bebemos um whisky apropriadamente chamado “Writer’s Tears”, as lágrimas do escritor.

“É uma história de imperialismo”, afirma Coogan, “e claro, aplicaram-no à Grécia.” Essa mesma combinação de campos de concentração, pôr os gangues de assassinos de uniforme, e chamar-lhes polícias. Isso é colonialismo, é assim que as coisas funcionam. Usam quaisquer meios necessários, um dos quais o terror e o conluio com terroristas. Funciona.

“Wickham organizou o RUC com braço armado do Unionismo, que é como permaneceu depois disso.”, refere. “Quanto tempo, na história deste país, antes do relatório de Chris Patten de 1999, e de Wickham ter sido finalmente desacreditado pela polícia? Isso é um período bem extenso, caramba – e, entretanto, quanto sofrimento?”

O chefe do MI5 relatou, em 1940, que “na personalidade e experiência de Sir Charles Wickham, os serviços de combate têm ao dispor um amigo e conselheiro muito valioso”. Quando os serviços de informação precisaram de integrar os Batalhões de Segurança gregos – o “Constabulário Especial” do III Reich – numa nova força policial, tinham encontrado o seu homem.

Os académicos gregos variam nas suas interpretações sobre quão directamente responsável foi Wickham no estabelecimento dos campos com os seus torturadores. Panourgia considera que o campo em Giaros – uma ilha que até mesmo o Imperador Romano Tibério considerou imprópria para os prisioneiros – foi uma iniciativa directa de Wickham. Gerolymatos, entretanto, diz: “Os gregos não precisavam dos ingleses para os ajudar a estabelecer campos. Isso já fora feito antes, por Metaxas.” Documentos em Kew mostram que a polícia britânica ao serviço de Wickham esteve regularmente presente nos campos.

Gerolymatos acrescenta: “Os ingleses (ou seja, Wickham) sabiam quem eram estas pessoas. E isso é o que o torna tão assustador. Estas eram as pessoas que haviam estado nas câmaras de tortura durante a ocupação, a arrancar unhas e a aplicar outras formas de tortura.” Em Setembro de 1947, o ano em que o Partido Comunista foi ilegalizado, 19 620 pessoas de esquerda foram detidas em campos e prisões gregos, 12 000 dos quais em Makronissos, com mais 39 948 exilados internamente ou em campos ingleses pelo Médio Oriente. Existem muitos relatos terríveis de tortura, assassinato e sadismo nos campos de concentração gregos; uma das grandes atrocidades na Europa do pós-guerra. Polymeris Volgis, da New York University, descreve de que modo um sistema de arrependimento foi introduzido como se fosse uma “inquisição secular dos tempos modernos”, com confissões extraídas através de uma “degradação permanente e violenta”.

Às mulheres detidas ser-lhes-iam retirados os filhos até que confessassem ser “búlgaras” e “prostitutas”. O sistema de arrependimento levou Makronissos a ser vista como uma “escola” e “Universidade Nacional” por aqueles que agora estavam convencidos de que “a nossa vida pertence à Grécia Mãe”, em que os convertidos eram visitados pelo rei e pela rainha, ministros e oficiais estrangeiros. “A ideia”, diz Patríkios, que nunca se arrependeu, “era reformar e criar patriotas que serviriam a pátria”.

Os menores na prisão de Kifissa eram espancados com arames e meias cheias de cimento. “Aos rapazes, coziam-lhes etiquetas com nomes no peito”, escreve Voglis, “com terminações eslavas acrescentadas aos nomes; muitos foram violados.” Uma prisioneira foi forçada, depois de severamente espancada, a segurar as cabeças decepadas do tio e do cunhado. Um recluso na prisão de Patras, em Maio de 1945, escreve simplesmente isto: “bateram-me furiosamente na base dos pés até perder a visão. Perdi o mundo.”

Manolis Glezos tem uma história sua. Traz um livro sobre a ocupação e mostra uma reprodução da última mensagem deixada pelo seu irmão Nikos, colocada dentro de uma boina. Nikos fora executado pelos colaboradores apenas um mês antes dos alemães evacuarem a Grécia. À medida que era levado para o pelotão de fuzilamento, o jovem de 19 anos conseguiu atirar a boina que usava pela janela do carro, a qual foi encontrada por um amigo e devolvida à família; é dos objectos mais prezados que Glezos possui.

Por dentro, Nikos escrevera: “Querida mãe. Beijo-te. Abraços. Hoje serei executado, caindo pelo Povo Grego. 10-5-44”

Em mais nenhum sítio da Europa libertada foram os simpatizantes nazis autorizados a penetrar na estrutura do estado - o exército, as forças de segurança, o poder judicial – com tanta eficácia. O ressurgimento do fascismo na forma actual do partido de extrema-direita Aurora Dourada tem ligações directas ao facto de se ter falhado em expurgar o estado de extremistas de direita; muitos dos apoiantes do Aurora Dourada são descendentes de membros do Batalhão, como eram “Os Coronéis” que tomaram o poder em 1967.

Afirma Glezos: “Sei exactamente quem matou o meu irmão e garanto que todos eles saíram impunes. Sei que as pessoas que o fizeram estão no governo, e ninguém foi até agora punido.” Glezos dedicou anos à criação de uma biblioteca em honra do seu irmão. Em Bruxelas, não se coíbe de pedir aos seus interlocutores para contribuírem para o fundo pondo um “frango” (um Euro) numa bolsa de seda. Esta é, conjuntamente com a questão das reparações de guerra, a sua grande campanha, o seu último desejo: erguer um edifício que seja digno da biblioteca que irá honrar Nikos. “A história do meu irmão é a história da Grécia”, diz ele.

Não se afirma que o ELAS, ou o Exército Democrata da Grécia, que o substituiu, sejam vítimas infelizes. Houve de facto um “terror vermelho”, em resposta ao massacre, e na retirada de Atenas, o ELAS levou uns 15 000 prisioneiros consigo. “Matámos alguns”, concede Glezos, “e algumas pessoas agiram por vingança. Mas o limite era não matar civis.”

Em Dezembro de 1946, o Primeiro-ministro grego, Konstantinos Tsaldaris, encarando a probabilidade da retirada britânica, visitou Washington para procurar ajuda norte-americana. Em resposta, o Departamento de Estado dos EUA formulou um plano para intervenção militar que, em Março de 1947, formou a base para um anúncio do Presidente Truman do que ficou conhecido como a Doutrina Truman, para intervir usando a força, onde quer que o comunismo fosse considerado uma ameaça. Tudo o que aconteceu na Grécia sob a iniciativa dos ingleses foi o começo da Guerra-fria.

Glezos ainda se diz comunista. Mas, como Patríkios, que rejeitou o estalinismo, acredita que o comunismo, tal como aplicado aos vizinhos gregos do Norte, teria sido uma catástrofe. Recorda-se agora de que ainda “deu ouvidos” a Nikita Khruschev, o líder soviético que iria “desestalinizar” a União Soviética. A ocasião surgiu quando Khruschev convidou Glezos, que, no auge da Guerra-fria era um herói na União Soviética, honrado com um postal com a sua efígie, para ir ao Kremlin. Foi em 1963 e Khruschev mostrou-se conversador. Glezos quis saber por que razão o Exército Vermelho, tendo marchado pela Bulgária e Roménia, parou na fronteira grega. Talvez o líder russo pudesse explicar.

“Olhou-me e perguntou: ‘porquê?’”

“Eu disse: ‘Porque Estaline não se portou como um comunista. Dividiu o mundo com outros e deu a Grécia aos Ingleses.’ Então eu disse-lhe o que realmente pensava, que Estaline fora a causa da nossa queda, a raiz de todo o mal. Tudo o que quiséramos era um estado onde as pessoas governassem como o nosso [então] governo nas montanhas, onde ainda se podem ler as palavras ‘todos os poderes advêm das pessoas e são executados pelas pessoas’, inscrito nas colinas. O que eles queriam, e conquistaram, foi o poder exercido pelo partido.”

Khruschev, refere Glezos, não concordou abertamente. “Sentou-se e ouviu. Mas depois da nossa reunião convidou-me para um jantar, a que também compareceu Leonid Brezhnev [que sucedeu a Khruschev em 1964] e ouviu por mais quatro horas e meia. Sempre tomei isso como se concordasse tacitamente.”

Para Patríkios, não foi senão na invasão soviética da Hungria em 1956 que caiu a ficha: fora traçada uma linha no mapa, acordada entre Churchill e Estaline. “Quando vi que o Ocidente não interviria [durante a sublevação de Budapeste] percebi o que tinha acontecido, as ‘esferas de influência’ acordadas. Mais tarde, compreendi que a Dekemvriana não fora um conflito local, mas o princípio da Guerra-fria que começara como uma guerra quente aqui na Grécia.”

Patríkios regressou a Atenas enquanto recluso “em dispensa” e foi-lhe finalmente garantido um passaporte em 1959. Quando o obteve, imediatamente se meteu num barco para Paris, onde iria passar os cinco anos seguintes a estudar sociologia e filosofia na Sorbonne. “Na política não há ética”, afirma, “especialmente na política imperial”.

Tarde de 25 de Janeiro de 2009. O gás lacrimogéneo que encheu Atenas, uma nova variedade, importada de Israel, vai-se dissipando. Uma marcha de solidariedade com um funcionário da limpeza búlgaro, cuja cara foi desfigurada num ataque com ácido pelos neonazis, foi dispersada pela polícia antimotim depois de horas de combate nas ruas.

No bairro de Exarqueia, uma jovem mulher chamada Marina retira a sua balaclava e respira fundo. A tomar café, responde à pergunta: porquê a Grécia? Por que razão é tão diferente da Europa neste aspecto, porque é a guerra especialmente violenta entre a esquerda e a direita? “Por causa”, responde, “do que nos fizeram em 1944. A perseguição aos partisans que combateram os nazis, razão por que foram honrados em França, Itália, Bélgica ou a Holanda; mas que aqui os levou a serem torturados e mortos às ordens do vosso governo.”

Ela continua: “Venho duma família que foi detida e torturada durante duas gerações antes de mim; o meu avô depois da Segunda Guerra Mundial, o meu pai pela Junta de coronéis; e agora posso ser eu, num dia qualquer. Nós somos os netos dos andartes e os nossos inimigos são os netos gregos de Churchill.”

“Tudo isto”, atira o Dr. Gerolymatos, “foi em vão. Nada disto tinha de acontecer, e o crime dos ingleses foi legitimar pessoas cujo cadastro aquando da ocupação do III Reich lhes retirou toda a legitimidade. Aconteceu porque Churchill pensou que tinha de trazer de regresso o rei grego. E a última coisa que o povo grego queria ou precisava era do regresso duma monarquia derrubada, apoiada pelos colaboradores nazis. Mas foi isso que os ingleses impuseram, e isso tem marcado a Grécia desde então.”

“Todos esses colaboradores penetraram no sistema”, diz Manilos Glezos. “No mecanismo do governo; durante e depois da guerra civil, e os seus filhos foram parar à junta militar. Os restos permanecem, como células malignas no organismo. Embora tenhamos libertado a Grécia, os colaboradores nazis ganharam a guerra, graças aos ingleses. E os restos permanecem, como bacilos no sistema.”

Mas há uma última coisa que Glezos gostaria de clarificar: “Não perguntaste: Porque é que continuo? Porque faço isto aos 92 anos e dois meses de idade?”, diz, fixando-nos o olhar. “Poderia, afinal, sentar-me no sofá de chinelos de perna cruzada”, brinca. “Portanto, porque faço isto?”

E responde à sua pergunta: “Tu pensas que o homem que está aqui sentado à tua frente é Manolis, mas enganas-te. Eu não sou Manolis, porque não me esqueci que cada vez que alguém estava para ser executado, dizia-me: ‘Não te esqueças de mim. Quando dizes bom dia, pensa em mim. Quando ergues um copo, diz o meu nome’. E é isso que estou a fazer, falando convosco, ou a fazer o que faço. O homem que tens perante ti é todas essas pessoas. E isso é tudo o que importa, não os esquecermos.

Cronologia: a batalha entre a esquerda e a direita


Fim do Verão de 1944 – As forças alemãs retiram-se da maior parte do território grego, que é tomado pelos partisans. Muitos são membros do ELAS, o braço armado da Frente Nacional de Libertação, a EAM, que incluía o Partido Comunista KKE.

Outubro de 1944 – Forças Aliadas, lideradas pelo General Ronald Scobie, entram em Atenas, a última área ocupada pelos Alemães, a 13 de Outubro. Georgios Papendreou regressa do exílio com o governo grego.

2 de Dezembro de 1944 – Em vez de integrar o ELAS no novo exército, Papandreou e Scobie exigem o desarmamento das forças de guerrilha. Seis membros do novo gabinete demitem-se em protesto.

3 de Dezembro de 1944 – Confrontos violentos em Atenas depois de 200 000 marcharem contra estas exigências. Mais de 28 são mortos e centenas são feridos. Começa a Dekemvriana de 37 dias. A Lei Marcial é declarada a 5 de Dezembro.

Janeiro / Fevereiro de 1945 – O General Scobie aceita um cessar-fogo em troca pela retirada do ELAS. Em Fevereiro, o Tratado de Varkiza é assinado por todas as partes. As tropas do ELAS saem de Atenas com 15 000 prisioneiros.

1945-46 – Gangues de direita matam mais de 1 100 civis, despoletando a guerra civil quando forças do governo começam a combater o novo Exército Democrático da Grécia (DSE), maioritariamente antigos soldados da ELAS.

1948-49 – O DSE sofre uma derrota catastrófica no Verão de 1948, com perto de 20 000 baixas. Em Julho de 1949, Tito fecha a fronteira jugoslava, negando protecção ao DSE. Um cessar-fogo é assinado a 16 de Outubro de 1949.

27 de Abril de 1967 – Forças da direita tomam o poder num golpe de estado. A Junta dura até 1974. Só em 1982 é permitido aos comunistas veteranos que haviam partido para outros países regressar à Grécia.

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