12 de abril de 2017

A França se rebela

Jean-Luc Mélechon não está buscando liderar um esquerda marginalizada. Seu objetivo é transformar toda a política francesa.

Uma entrevista com Raquel Garrido

Jacobin

Uma marcha da França Insoumise pela Sexta República em Paris, França, em 18 de março de 2017. Geoffrey Froment / Flickr

A campanha de Jean-Luc Mélenchon para a presidência francesa explodiu nas últimas semanas - alcançando o terceiro lugar, dentro de uma distância possível do segundo turno em algumas pesquisas. Além de gerar nervosismo nos mercados financeiros, o sucesso transformou as eleições francesas, oferecendo uma alternativa à esquerda para a batalha entre o establishment  e a extrema direita.

Mas quais são as políticas da campanha? E o que está por trás do seu sucesso? O movimento por trás disso, França Insoumise ("Rebellious France"), toma emprestado a experiência populista latino-americana e espanhola, mais proeminentemente exemplificado pelo Podemos.

Raquel Garrido, um dos porta-vozes nacionais, é um longo camarada de Jean-Luc Mélenchon, tendo co-fundado a Frente de Esquerda com ele em 2008. Nesta entrevista, traduzida por David Broder, ela fala com o jornalista Cole Stangler sobre a campanha e suas aspirações para uma Sexta República.

Cole Stangler: Você pode contar um pouco sobre o que distingue esta campanha daquela que Mélenchon fez em 2012?

Raquel Garrido: O tema principal desta campanha é mudar nossa constituição e permitir que o povo francês o faça por meio de um processo chamado assembléia constituinte, que é uma referência direta à Revolução Francesa. A idéia é abolir o atual regime, que chamamos de “monarquia presidencial”. Consideramos que o atual regime é uma oligarquia e queremos ter uma república: para o povo, pelo povo.

É por isso que temos chamado tanta atenção. Uma das razões pelas quais o regime atual está perdendo o consenso na sociedade francesa é porque o processo para eleger representantes permite que eles se comportem de forma inconsistente com suas promessas de campanha. A principal característica cultural da classe política atual é a impunidade. Eles fazem o que eles querem, não respondem a ninguém.

Essa cultura de impunidade começa com o próprio presidente. Nós somos o único país auto-intitulado democrático onde há uma única pessoa que concentra tanto poder – eleições de centenas e centenas de pessoas em diferentes instituições, até a decisão do que o parlamento vai falar, a agenda parlamentar. O presidente age sem prestar contas à cidadania e esse tipo de comportamento se espalha como uma cascata por toda a classe política.

A maioria dos representantes eleitos na França hoje não têm legitimidade, são eleitos com baixo comparecimento. Há uma profunda sensação de repulsa entre os cidadãos com esta classe política. Isso cria caos e instabilidade. Quando a Magna Carta [constituição] – as regras básicas que você não deveria estar discutindo – as regras que supostamente regulam a discussão política e o conflito político na sociedade democrática, quando essas regras básicas perdem a confiança da maioria das pessoas, então a sua sociedade torna-se instável.

Em 2012, porque estávamos falando sobre derrubar o antigo regime e começar um novo, fomos vistos como uma fonte de ansiedade e instabilidade. Hoje, a sociedade francesa mudou. O medo está aí, o caos está aí. Violência entre comunidades, violência entre polícia e juventude, terrorismo, ataques terroristas cometidos por franceses contra outros franceses. Penso que o momento está maduro para o que estamos dizendo – que precisamos de uma solução pacífica para estas tensões.

E é por isso que a mesma pessoa, Mélenchon, que em 2012 as pessoas talvez pensaram, “Uau, isso é muito radical, muito subversivo”, agora parece sábio. Porque já vinha criticando tudo isso, tem experiência e uma metodologia transparente para unir todos nós como um só povo. A idéia da Assembléia Constituinte é refundar a própria nação.

O que é um povo, o que é a nação, le peuple? É uma comunidade de pessoas que exercem o poder juntas. Se você não está exercendo o poder coletivamente, trata-se apenas de uma multidão de indivíduos que competem por sobras do que o sistema capitalista te deixa, lutando por um emprego, lutando por assistência e ajuda.

Há outros grandes temas da campanha – redistribuição da riqueza e justiça social – que são propostas clássicas em uma situação de grande desigualdade. E há a questão da mudança climática e de como proteger o único ecossistema que permite a vida para seres humanos. Mas para darmos conta dessas questões, precisamos antes ganhar o poder, para realmente ter um impacto. Isso é a assembleia constituinte.

Em 2012, Mélenchon foi candidato da Frente de Esquerda, uma aliança de partidos de esquerda. Desta vez ele se apresenta como o candidato da França Insoumise (França Insubmissa). Você pode explicar do que se trata?

Raquel Garrido: É um movimento cidadão de base, nossa ideologia é o populismo humanista. Em muitos aspectos, adotamos a estratégia populista de Chantal Mouffe e Ernesto Laclau.

Agora a pergunta: o que é populismo? Não é um regime, é um programa. É uma estratégia de demarcação entre um “eles” e um “nós”. Isso pode significar um “nós” etnicamente puro contra os estrangeiros – esse é o populismo de extrema-direita. Mas também pode ser o “nós” do povo contra o “eles” da oligarquia. Essa é a nossa estratégia e o nosso movimento, que procura construir algo para além dos partidos. Essa estratégia foi construída por planejamento – deliberadamente, de fato – como algo diferente do agrupamento de partidos que tivemos em 2012.

Na verdade, a França Insoumise é o instrumento que permite maior agregação e maior eficácia em estabelecer os termos do debate como “o povo contra a oligarquia”, em lugar de “esquerda contra direita”, que não significa muita coisa para a maioria dos cidadãos franceses de hoje.

Qual foi a inspiração para este projeto?

Raquel Garrido: Em primeiro lugar, a América Latina a partir do final da década de 1990, o retorno da figura constituinte como abordagem para alcançar a soberania. Isso teve um grande impacto sobre nós no final dos anos 90 e no início dos anos 2000. Nós conhecíamos a assembléia constituinte como uma invenção francesa. No entanto, durante anos, ninguém na França falava em uma assembléia assim. Nossa compreensão é de que o processo constituinte aboliu um ancien régime (antigo regime), tanto em termos de economia como de organizações políticas.

Com o desaparecimento do ancien régime [“antigo regime”] – que, por exemplo, no Equador chamaram de partidocracia – há novamente esta mesma divisão: uma oligarquia contra o povo. O objetivo é fazer com que os instrumentos políticos do ancien régime desapareçam com esse sistema. Através do processo constituinte, novos instrumentos políticos tomam forma.

Nós acompanhamos tudo muito de perto, e na França levou um tempo para aprendermos. Nós ainda estávamos hesitantes, criamos a Frente de Esquerda. . . Mas agora penso que essas [experiências latino-americanas] são nossos pontos de referência mais imediatos, porque os instrumentos políticos para chegar ao poder – seja na Venezuela, no Equador ou na Bolívia, por exemplo – são novos. Não os velhos partidos comunistas ou os velhos partidos social-democratas ou os movimentos sindicais. Não se trata de recompor ou reorganizar partidos em crise.

Assistimos quando a assembléia constituinte cruzou o Atlântico e veio para a Islândia com a crise financeira. Depois, houve a Primavera Árabe e a Assembléia Constituinte na Tunísia. E a do Egito, que foi tragicamente massacrada. E, finalmente, ficamos felizes de ver o processo constitutivo do Podemos, porque temos as mesmas raízes históricas que o Podemos. Isto é, um ponto de referência no populismo, um populismo humanista. Esse é o caso mesmo se agora sua situação é mais complicada, uma vez que o Podemos finalmente retornou às discussões com a Esquerda Unida.

De qualquer forma, estamos confiantes de que o que estamos fazendo na França é realmente uma nova experiência. O que quer dizer que no momento estamos em uma fase de criação. Temos pontos comuns de referência, mas não há nenhum lugar para onde possamos apontar e dizer “estamos fazendo exatamente o que eles estão fazendo”. Assumimos essa responsabilidade de ser pioneiros, de construir o novo.

Como o França Insubmissa se relaciona com a esquerda?

Raquel Garrido: O France Insoumise é um instrumento político projetado para construir a Sexta República. A razão pela qual queremos a Sexta República é que a sua construção é um projeto social e econômico. No antigo regime, as pessoas erradas estão tomando as decisões erradas, destruindo o planeta e empobrecendo milhões. Assim, a [Sexta República] não é neutra, no sentido político do termo. Não é uma página em branco. E estamos dizendo o que queremos.

Por exemplo, quando uma empresa for abandonar o país, queremos que os trabalhadores tenham o direito sobre seus recursos de trabalho, na forma de uma cooperativa. Esse é um exemplo de uma medida anticapitalista. Ou, mais uma vez, quando queremos priorizar a proteção do ecossistema, inclusive restringindo a onipotência dos direitos de propriedade, por exemplo. No nosso programa existem referências marcadamente de esquerda, mas a palavra “esquerda” não aparece.

Não apelamos ao patriotismo identitário daqueles que pensam que temos de “salvar a esquerda” ou “ser de esquerda”. Essa é uma posição minoritária demais, e nós queremos ganhar. Eu acho que somos semelhantes a Bernie Sanders nesse ponto, que raramente falava sobre “a esquerda” [3], mas sim sobre as pessoas comuns contra a classe de 1% , a classe dos bilionários. Todos sabem quem Jean-Luc Mélenchon é, de onde ele vem, de que posição fala. Mas não exigimos das pessoas que elas se proclamem de esquerda para que só então possam se preocupar com a democracia.

Isso também tem impactos em nossas políticas. Uma medida no programa de 2017 que não estava no programa de 2012 é o direito de fazer recall dos representantes entre eleições. Esta é a nossa maneira de colocar a ética na política, de levar responsabilidade ao comportamento político. Essa medida não existia em 2012 porque os partidos que compunham a Frente de Esquerda não concordariam com isso. Eles disseram: “Bem, as autoridades eleitas em geral não concordam com essa medida”. Os partidos têm a tendência de se tornarem sindicatos de políticos profissionais, em vez de estruturas pelas quais os cidadãos possam se organizar com base na afinidade política.

Haverá, então, partidos na Sexta República? Sim, haverá formas de organização baseadas na afinidade política, uma vez que é preciso que haja o confronto de idéias. Se não há conflito, não há democracia. Mas não serão os partidos da Quinta República, que já estão em declínio. Eles morrerão junto com a Quinta República. Nenhum partido hoje tem um programa constitucional, não foram feitos para isso, estão organizados para manter o poder no interior da Quinta República. Haverá, portanto, um novo terreno político. A ideia não é recompor ou reparar os partidos danificados da Quinta República, mas permitir que novos instrumentos se organizem.

Como você vê o futuro da França Insubmissa, como um movimento?

Raquel Garrido:  O movimento tem uma vocação histórica: realizar a Sexta Republica. Assim, quando temos 130.000 pessoas marchando da Praça da Bastilha para a Praça da República com bandeiras francesas, com gorras da liberdade [um símbolo da revolução francesa], com todas as demandas que estão ligadas aos direitos fundamentais, do aborto ao suicídio assistido, incluindo a internet e a neutralidade da rede, coisas que correspondem ao nosso tempo, sinto que as pessoas estão lutando por uma refundação. Elas não retornarão a uma forma tradicional de fazer política. Então, esta é uma luta até a vitória. A parte mais difícil do nosso trabalho, que seria desacreditar a Quinta República, já está feita.

Quando você é jovem, dizem: você pode ser de direita, esquerda, centrista, o que quiser, mas não toque na Constituição, porque essa é a base. Forme opiniões políticas, mas não questione a legitimidade das regras constitucionais. Mas uma vez que os principais setores da sociedade começam a falar sobre a legitimidade de tal ou qual artigo da Constituição, isso significa que a própria constituição cai ao nível da deliberação conflituosa. Por isso, perde a sua força constitucional. A definição de uma constituição no sentido sociológico é a de uma norma superior que goza de um consentimento que vai além da maioria. Não é apenas majoritária. É extra-majoritária. É um consenso. Mas na França temos o inverso.

Há um consenso de que nosso sistema é uma monarquia presidencial. Ninguém contesta isso. Por exemplo, quando temos os debates ninguém questiona a ideia de que estamos em uma monarquia presidencial. Hoje, o debate é se podemos rever e mudar esta Constituição um pouco por dentro, usando os deputados atuais, ou se temos que começar de novo. O que resta para ser construído é o desejo pela assembléia constituinte.

Esse é um desejo patriótico, o de reunir um povo, e isso é muito mais difícil em uma sociedade como a nossa, ferida pela pobreza, pela violência, pelo ódio e pelo racismo. É difícil, mas vamos chegar lá. Ou então os fascistas irão. Basicamente, o futuro é entre nós e eles, ou somos nós ou são os fascistas.

Como podemos explicar a ascensão da Frente Nacional (FN) e Marine Le Pen?

Raquel Garrido: Hoje há uma base de eleitores na França, uma votação muito coerente, que explica os problemas da sociedade dizendo que há muitos imigrantes. A sua análise é bastante simples: se os imigrantes não estivessem aqui, haveria mais trabalho para mim, meus filhos, etc.

Há outros temas apresentados por Marine Le Pen como a crítica da União Europeia, a concorrência dos países orientais, a questão do euro. Mas a crítica da União Europeia existe também entre outros candidatos, incluindo nós mesmos. Em última análise, o que compõe o voto de Le Pen é a questão da xenofobia, uma certa concepção da nação como uma questão étnica e não cívica. Esta idéia de que não podemos compor um povo junto com muçulmanos, ou qualquer pessoa não descendente do que um francês foi “através dos tempos.” Estes são conceitos mitificados – afinal, não há etnicidade francesa.

Eles são realmente populistas a esse respeito, no sentido de que Laclau e Mouffe dão a essa palavra. Eles constroem um “eles” e um “nós”, e é muito claro o que é isso. Os “eles” são os refugiados que chegam fugindo da guerra, os imigrantes econômicos, os muçulmanos com suas demandas para poderem exercer sua adoração, etc.

Há pessoas na França que concordam com isso. Eu não diria que é 20 por cento dos eleitores. Quando obtêm altas pontuações percentuais, por exemplo nas eleições europeias, isso corresponde a níveis desastrosos de abstenção. Nas eleições europeias, conseguiram 25 por cento. Essa é uma pontuação muito forte. Mas havia quatro milhões de eleitores da FN de dezesseis milhões. Eu realmente acho que o desafio é a participação. Eles prosperam na apatia cívica.

Portanto, é do seu interesse que não haja campanha. Que aqueles que estão indignados com a política permaneçam descontentes. O contexto parecia bom para eles: havia uma situação na direita onde o candidato estava atolado em escândalos; e o Partido Socialista (PS) foi um espetáculo totalmente desgastante, com suas traições e suas promessas não cumpridas. Então eles pensaram que eleitores de ambos, também, se absteriam. As pessoas estavam observando tudo isso à distância e pensando, “que espetáculo horrível, vou ficar em casa”. Essa foi a campanha da FN. Não vai ao povo para fazer campanha, não estimula o debate, não tem nenhum evento para reunir as pessoas. Tem uma estratégia para fazer sentir o seu significado, para dar à sua própria base sólida mais importância relativa. E essa base é ideologicamente sólida.

Sempre houve uma extrema-direita na França. E sim, ela é forte agora. Mas nossa tarefa é abafar essas pessoas com os votos não-fascistas. E é isso que estamos procurando fazer. Como não falamos à esquerda, mas a todos aqueles que estão descontentes, quando abrimos a campanha, construímos uma estratégia antifascista eficaz.

Como uma campanha, nos orientamos para os independentes, os “enojados”, temos de falar com eles. Por exemplo, Jean-Luc Mélenchon é o único candidato que fala tanto sobre o trabalho. Realmente, sobre o fato tão simples de que, enquanto vivemos nossas vidas, há coisas que são feitas por seres humanos – trabalhadores. Isso é trabalho. Deste ponto de vista, Jean-Luc Mélenchon tem um discurso muito ligado à classe trabalhadora. Mas não lhes falamos como a Esquerda, lhes falamos como a classe operária. Falar sobre a esquerda não é o mesmo que falar sobre o trabalho. A palavra “esquerda” não está presente no discurso de Jean-Luc Mélenchon. Mas ele fala muito sobre a condição da classe trabalhadora.

Isso influenciou o seu pensamento sobre uma candidatura conjunta com Benoît Hamon?

Raquel Garrido: Sim, porque penso que a nossa estratégia de falar aos descontentes, que pode levar-nos à vitória, seria comprometida se levássemos à bordo parte das pessoas que os estão repugnando. E o Partido Socialista [PS] está morrendo junto com a Quinta República. Isso não é culpa de Benoît Hamon, que é uma boa pessoa. Não é culpa dele, é o fim de um ciclo. Por isso temos de escolher entre a Quinta e a Sexta República. Estaríamos comprometendo nossas chances de vitória se nos dirigíssemos para salvar o soldado do PS.

Então, talvez nós ganharíamos um ou dois pontos entre a centro-esquerda, mas perderíamos qualquer chance de falar com aqueles que não estão associados com os partidos. E é entre eles que estão nossas chances de vitória. E nosso objetivo é ganhar, não recompor a esquerda ou assumir a liderança da esquerda. Se nosso objetivo fosse assumir a liderança da esquerda, poderíamos fazer isso. Mas não é. Nosso objetivo é vencer a eleição presidencial. Portanto, precisamos falar com os descontentes. E se nós vamos conversar com eles dizendo: Olha, agora eu sou amigo de Valls, de Hamon, de todos os outros, então estará consumado, eles não estarão mais conosco.

Na verdade, a questão nem sequer está sendo colocada. O PS nunca, nunca pensou em desistir em nosso favor. Se o fizessem, então a questão seria colocada de uma maneira diferente, naturalmente. Mas nunca o fizeram assim: sempre pensaram que teríamos que desistir para apoiá-los. Mesmo hoje – e eles acreditam nas pesquisas, e que estão em 8% e estamos em 19% – eles continuam acreditando que precisamos de unidade por trás deles.

Nas eleições parlamentares é ainda pior. Todos esses deputados socialistas que apoiaram as políticas do governo [neoliberal, apesar de liderado pelo “socialista” Hollande] perderam hoje toda a legitimidade aos olhos do povo. Assim, nossos candidatos são candidatos que apoiarão a Sexta República. Esta não é uma luta “fratricida” entre a esquerda verdadeira e a esquerda falsa, ou entre traidores e puristas. Isso seria gauchiste [“esquerdista”]; essa seria uma campanha de esquerda radical. E nós somos qualquer coisa menos isso. O núcleo duro do pessoal com Mélenchon veio do Partido Socialista, e nosso objetivo sempre foi governar. E estamos preparando esta campanha presidencial desde 2004.

Na campanha vocês propuseram uma estratégia crítica para a União Européia – um Plano A para reformá-lo de dentro, mas um Plano B para sair se isso não funcionar.

Jean-Luc Mélenchon foi o primeiro a trazer uma resposta real sobre o que aconteceu com Tsipras na Grécia. Ninguém havia realmente formalizado a idéia de que, para que haja negociação, você tem que estar psicologicamente preparado para quebrá-la. Caso contrário, você não está realmente negociando. Esta é a origem do Plano B.

É uma proposta bastante básica. Se você procura um emprego, ou exige um aumento de salário, e diz: “Eu não vou trabalhar a menos que você me pague cinco mil dólares por mês”, mas na verdade está disposto a trabalhar por mil, isto não é uma negociação. Se, inversamente, você disser a si mesmo que realmente não vai aceitar menos de três mil dólares, que você iria procurar outro emprego, então você realmente está negociando, porque o cara que você enfrenta entende que ele vai te perder. Isso é concebível ao nível das relações humanas cotidianas, mas ninguém na esquerda europeia tinha pensado seriamente em como aplicá-lo ao nível das negociações europeias. Todas as grandes forças pensaram, “Vamos negociar mas vamos ficar, não importa o que aconteça”.

Executar uma campanha com base em ter um Plano B é um começo e é importante. O Plano A já fala de harmonização fiscal e social, o que significa ter um quadro que não está colocando os trabalhadores em uma competição generalizada, mas, ao contrário, permite uma melhor qualidade de vida para todos. E se isso não for possível, então faremos o mesmo – um quadro harmonizado – com aqueles que estão dispostos. E isso significa, principalmente, visar os países do sul europeu. Colocar a política monetária, econômica e o investimento público de volta à discussão aberta. Enfrentamos desafios, como a questão ecológica, de importância planetária. Portanto, devemos ter uma ação supranacional.

Mas a experiência recente da União Europeia é a prova de que, antes de tudo, temos de resolver os problemas com a nossa própria oligarquia nacional. Em vez de dividir a vida política entre aqueles que são a favor de deixar a União Europeia e aqueles que são a favor da Europa progressista – e essa é a linha divisória que a extrema-direita tem criado – nós traçamos uma linha divisória entre o povo francês e a oligarquia. A extrema-direita simplesmente quer destruir a União Europeia; nós queremos que as pessoas vejam o que está errado com ela.

Uma crítica feita a esta campanha é que ela é mais nacionalista do que antes. Há algumas semanas, na marcha da França Insubmissa, da Praça da Bastilha à Praça da República, muitos comentaram sobre como havia muitas bandeiras francesas. Você poderia comentar sobre essas mudanças?

Somos patriotas, não nacionalistas. O patriotismo é amor pelo próprio, enquanto o nacionalismo envolve o ódio pelos outros. Na verdade, de acordo com as definições literárias e políticas, essa é a diferença. A extrema-direita é nacionalista. Nós somos patriotas. E o patriotismo é uma empatia, um afeto para os compatriotas. Nós realmente pensamos que, na medida em que nossa nação tem sido uma nação cívica desde a Revolução Francesa, ela não é definida por qualquer religião ou cor de pele ou mesmo linguagem, é universal. Nossa pátria [patrie] é republicana.

Nosso patriotismo é universalista. É um patriotismo do Iluminismo. Pensamos que justamente o que o nosso patriotismo permite é a afirmação do direito dos cidadãos a governarem-se. Isso é o que nossa soberania nacional é, em primeiro lugar, significando uma soberania popular. Antes de mais nada é a questão do poder político do povo. E felizmente para nós, em nossa história nacional, essas duas coisas estão ligadas. É por isso que pensamos que a extrema-direita não é verdadeiramente pela soberania, porque apoia apenas a soberania nacional, e não popular. É para Marine Le Pen ter poder, não o francês.

Cole Stangler: E quanto ao canto apenas da “Marselhesa” no final dos comícios, em vez dela com “A Internacional” como antes?

Raquel Garrido: Na Praça da República Jean-Luc acabou cantando “A Internacional”. Não estava nos alto-falantes. Mas finalmente ele começou a cantar e depois se espalhou e as pessoas cantaram um pouco.

Não estamos tratando de limpar um pedaço da história. Mas é verdade que reconhecemos alguns problemas. Em 2012 a nossa campanha foi vermelho brilhante e “Frente de Esquerda” estava escrito em letras grandes. Agora estamos em tons pastel de cinza e azul, o logotipo é a [letra grega] phi, que representa a filosofia, o amor ao conhecimento. Temos um código diferente, porque achamos que é urgentemente necessário.

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