19 de março de 2018

Jordan Peterson e o misticismo fascista

Pankaj Mishra

The New York Review of Books

Tradução / “Os homens tem que endurecer,” escreve Jordan B. Peterson em 12 Regras Para a Vida: Um antídoto para o Caos, “Outros homens exigem-no, e as mulheres o querem.” Assim, a primeira regra é “Ande ereto e com os ombros para trás” e não se esqueça de “limpar seu quarto.” Aliás, “a consciência é simbolicamente masculina e o é desde os primórdios.” Ah, e “a alma do indivíduo anseia eternamente pelo heroísmo do Ser autêntico.” Pronunciamentos desse tipo – ao mesmo tempo didáticos e metafísicos, indo do absurdo do politicamente correto ao “fardo do Ser” – transformaram Peterson, um professor de psicologia da Universidade de Toronto, numa sensação do YouTube e num best-seller em vários países ocidentais.

12 Regras Para a Vida é apenas o segundo livro de Peterson em vinte anos. Escrito especialmente para pessoas que cresceram lendo listas do BuzzFeed, a vertente de populismo intelectual de Peterson tem crescido com velocidade impressionante; e é impulsionada predominantemente, assim como os populismos políticos de nossa era, por seguidores homens exaltados, que parecem sempre dispostos a atacar seus críticos nas mídias sociais. É imperativo questionar porque e como esse obscuro acadêmico canadense, que insiste que as hierarquias de gênero e classe são ordenadas pela natureza e validadas pela ciência, de repente veio a ser aclamado como o intelectual público mais influente do ocidente. Porque sua apoteose é sinal de um crise ao menos tão profunda quanto a que levou Donald Trump à inesperada liderança do mundo livre.

Peterson diagnostica essa crise como uma perda de fé em antigas verdades. “No ocidente,” escreve ele, “temos nos distanciado de nossa tradição, nossa religião, e até mesmo de nossas culturas baseadas na nação.” Para aliviar o consequente “desespero da ausência de sentido,” Peterson oferece um retorno à “sabedoria ancestral.” “É possível evitar o niilismo”, ele afirma, e “encontrar um sentido satisfatório na consciência individual e na experiência,” com o auxílio dos “grandes mitos e histórias religiosas do passado.”

Na trilha de Carl Jung, Peterson identifica arquétipos em mitos, sonhos e religiões, que aparentemente definem verdades sobre a condição humana desde o início dos tempos. “A cultura,” começa um de seus argumentos típicos, “é simbólica e arquetipicamente masculina” – e é por isso que a resistência à dominação masculina seria antinatural. Os homens representam a ordem, e “o Caos – o desconhecido – é simbolicamente associado ao feminino.” Em outras palavras, os homens que resistem aos arquétipos perenemente estabelecidos de homem e mulher e não conseguem endurecer são fracassados patéticos.

Tais verdades evidentemente universais não são mais oferecidas na universidade moderna; as especulações de Jung foram amplamente desacreditadas. Mas Peterson, munido de seus “mapas do sentido” (o título de seu livro anterior), nutre somente desprezo por seus pares acadêmicos que tendem a enfatizar a natureza socialmente construída e provisória de nossas percepções. Como Jung, ele apresenta algumas opiniões idiossincráticas e semi-religiosas como se fossem ciência empírica, constantemente recorrendo à psicologia evolutiva para legitimar sua sabedoria ancestral.

Examinadas de perto, no entanto, as ideias atemporais de Peterson revelam ser um produto típico, senão arquetípico, de nossos próprios tempos: um senso-comum direitista sedutoramente mitologizado para nossas gerações perdidas de hoje em dia.

O próprio Peterson credita seu despertar intelectual à Guerra Fria, quando ele começou a meditar profundamente sobre “os males associados à crença,” tais como Hitler, Stalin e Mao, e tornou-se leitor atento do Arquipélago Gulag, de Solzhenitsyn. Essa é uma trajetória intelectual comum entre direitistas ocidentais que creem piamente em Solzhenitsyn e tendem a sugerir que uma crença na igualdade conduz diretamente à guilhotina ou ao Gulag. Um exemplo recente é o polemista inglês Douglas Murray, que deplora a atração dos jovens por figuras como Bernie Sanders e Elizabeth Warren e expressa o desejo de que a ideia de igualdade fosse “maculada por uma infâmia ideológica equivalente à imposta sobre o conceito de fronteiras.” Peterson confirma seu alinhamento a essa seita de extrema-direita ao jamais identificar os males causados pela crença no lucro ou Mamon: escravidão, genocídio e imperialismo.

Homens brancos reacionários certamente ficarão excitados com o desprezo de Peterson pelos “justiceiros sociais” e sua afirmação de que as leis de divórcio não deveriam ter sido flexibilizadas nos anos 1960. Os que lutam contra o politicamente correto nos campi universitários endossarão entusiasticamente a afirmação de Peterson de que “há disciplinas inteiras nas universidades patentemente hostis aos homens.” Islamofóbicos se sentirão encorajados por sua especulação de que “as feministas evitam criticar o islã porque, inconscientemente, desejam a dominação masculina.” Os libertários aplaudirão a glorificação de Peterson do batalhador individual e sua mensagem dura aos que ficaram para trás. (“Talvez a culpa não seja do mundo. Talvez o culpado seja você. Você falhou.”). Os demagogos de nossa era não leem muito; mas, enquanto restringem impiedosamente a entrada de refugiados e imigrantes, podem extrair suporte filosófico dos títulos dos sub-capítulos de Peterson: “A compaixão é uma fraqueza” e “Vire homem, seu rato!”

Em todos os sentidos, a sabedoria ancestral de Peterson é indubitavelmente moderna. A “tradição” que ele promove não vai além do final do século XIX, quando surgiu pela primeira vez uma sinistra correlação entre exortações intelectuais para “endurecer” e uma política de “líderes fortes.” Esse foi um período em que charlatões intelectuais prosperaram vendendo credos de redenção e purificação enquanto crises políticas e econômicas se acentuavam e a fé no capitalismo e na democracia fraquejava. Muitos artistas e pensadores – do filósofo alemão Ludwig Klages, membro do enormemente influente Círculo Cósmico de Munique, do pintor russo Nicholas Roerich ao ativista indiano Aurobindo Gosh – montaram colagens à la Peterson de noções em parte ocultistas, em parte psicológicas e em parte biológicas. Esses neo-românticos estavam respondendo, da mesma forma que o faz Peterson em nossos dias, a uma necessidade urgente, nascida de uma experiência traumática de modernidade social e econômica, de acreditar em qualquer coisa que traga segurança e conforto.

Essa nova crença tendia a ser exótica e esotericamente pré-moderna. O Oriente, e a Índia em particular, tornou-se uma tela em que ocidentais carentes projetavam suas fantasias; Jung, entre muitos outros, discorreu tediosamente sobre o atemporal – e feminino – “ego” indiano. Em 1910, Romain Rolland resumiu o sentimento generalizado em que o progresso sob os auspícios do liberalismo aparecia como uma farsa e muitas pessoas estavam ávidas por substituir o ideal iluminista da razão individual por coordenadas transcendentais, como os “arquétipos”. “O portal dos sonhos havia se aberto,” escreveu Rolland, e “com a religião vieram pequenos sopros de teosofia, misticismo, fé esotérica e ocultismo visitar as câmaras da mente ocidental.”

Uma série de empreendedores intelectuais, dos Teosofistas e vendedores de espiritualidade asiática como Vivekananda e D. T. Suzuki a estudiosos da Ásia, como Arthur Waley e ideólogos fascistas como Julius Evola (o guru de Steve Bannon) montaram suas tendas no novo mercado de ideias. W. B. Yeats, adaptando a filosofia indiana às necessidades da Renascença céltica, pontificou sobre o “Ego Ancestral”; Jung teceu suas próprias variações sobre esse inconsciente evidentemente primevo. Categorias conceitualmente nebulosas como “espírito” e “intuição” passaram a ser moeda corrente; as palavras favoritas de Peterson, “ser” e “caos,” começaram a aparecer em letras maiúsculas. A própria linhagem de Peterson entre esses curandeiros da alma do homem moderno pode ser traçada por meio de suas influências constantemente invocadas: não somente Carl Jung, mas também Mircea Eliade, o estudioso romeno das religiões, e Joseph Campbell, professor na Universidade Sarah Lawrence, que, assim como Peterson, combinou uma carreira acadêmica convencional com reflexões sobre indivíduos heróicos voltadas ao mercado de massas.

O “desespero da ausência de sentido” que grassou amplamente no final do século XIX, parecia especialmente desesperador nos anos que se seguiram a duas guerras mundiais e ao Holocausto. Jung, Eliade e Campbell, todos credenciados pela universidade, depararam-se com um espanto generalizado ao sugerirem a existência de um conhecimento secreto, quase gnóstico, do mundo. Alegando jogar luz sobre os recessos do inconsciente humano, eles conquistaram fã clubes imensos e fanaticamente fiéis. As entrevistas de Campbell com Bill Moyers em 1988 causaram uma resposta particularmente extraordinária. Assim como Peterson, esse popularizador de mitos arcaicos, que acreditava que “a filosofia marxista havia tomado de assalto a universidade americana,” estava notavelmente à par dos preconceitos contemporâneos. “Siga sua própria felicidade,” incitava ele a um público que, durante uma era de ascenso neoconservador, estava pronto a crer que havia uma espécie de profunda sabedoria ancestral por trás dos panegíricos de Ayn Rand do individualismo desenfreado.

Peterson, no entanto, parece ter modelado sua persona pública à imagem de Jung ao invés de Campbell. O sábio suíço usava um anel ornamentado com a efígie de uma cobra – o símbolo da luz num culto gnóstico pré-cristão. Peterson afirma ter sido iniciado na “tribo Kwakwaka’ wakw, do Pacífico costeiro”; ele também é visivelmente orgulhoso da casa comunal indígena que construiu em sua residência em Toronto.

Peterson pode parecer o último numa longa linhagem de sabichões que romantizaram, pretensiosa mas inofensivamente, o bom selvagem. Mas é bom lembrar que Jung fazia generalizações grosseiras sobre a “alma ariana” superior e a “psiquê judia” inferior e foi inicialmente simpático aos nazistas. Mircea Eliade era devoto da Guarda de Ferro, partido da extrema-direita romena. A aversão de Campbell a acadêmicos “marxistas” em sua universidade escondia um ódio virulento de judeus e negros. Solzhenitsyn, o reverenciado mentor de Peterson, era um zeloso expansionista russo, que denunciou a independência da Ucrânia e celebrou Vladimir Putin como o homem certo para conduzir a retardada regeneração russa.

Em nenhum momento, em seus escritos publicados, Peterson enfrenta a questão dos fiascos morais de seus gurus e suas ramificações políticas; ele não parece preocupado com o fato de que pensar nas relações humanas em termos de dominação e hierarquia vincula-se facilmente a idéias terríveis e (re) emergentes de misoginia, anti-semitismo e islamofobia. Ele pode defender-se dizendo que seus mapas de sentido foram pensados para ajudar pessoas perdidas ao invés de racistas, ultra-nacionalistas ou imperialistas. Mas ele não pode alegar, dada sua frequente hostilidade à “doutrina assassina da igualdade” do feminismo e outras ideias progressistas, que está acima de nossas guerras ideológicas e culturais.

De fato, a fascinação moderna com o mito jamais esteve livre de uma agenda anti-liberal e anti-democrática. Richard Wagner, juntamente a muitos outros nacionalistas germânicos, tornou-se notório por usar mitos com o intuito de regenerar o volk e alimentar o ódio a estrangeiros – em grande parte judeus – que, segundo ele, poluíam a comunidade pura baseada no sangue e no solo. No início do século XX, chauvinistas étnico-raciais de toda parte – supremacistas hindus na índia bem como ultra-nacionalistas católicas na França – ofereciam a povos desterrados visões de uma sociedade orgânica e enraizada, em que hierarquias e valores haviam sido estáveis. Como observa Karla Poewe em Novas Religiões e os Nazistas (2005), cultistas políticos faziam tipicamente uma mistura de “tradições iogues e abraâmicas” com “noções populares de ciência – na verdade, pseudo-ciência – como os conceitos de ‘raça,’ ‘eugenia,’ ou ‘evolução.’” Foi esse amálgama oportunista de ideias que ajudou a alimentar “novas mitologias de regimes com pretensões totalitárias.”

Peterson tem vociferado também contra a “frouxidão,” argumentando que os homens têm sofrido “grande pressão para se efeminar.” Em seu best-seller Degeneração (1892), o crítico zionista Max Nordau já descrevia, mais de um século antes de Peterson, seu medo de que os impérios e nações do Ocidente estivessem povoados pelos fracos, os efeminados e os degenerados. O filósofo francês George Sorel identificou o mito como o antídoto necessário à decadência e o estímulo necessário ao rejuvenescimento. Uma inspiração intelectual para os fascistas de toda a Europa, Sorel era particularmente nostálgico em relação aos sistemas patriarcais da Grécia e Israel antigos.

Assim como Peterson, muitos desses pensadores hiper-masculinistas viam a compaixão como uma fraqueza e incitavam os homens inseguros e endurecer seus corações contra os fracos (mulheres e minorias), na medida em que os últimos seriam biológica e culturalmente inferiores. Celebrando o mito e os sonhos como repositórios de verdades humanas fundamentais, eles tornaram-se populares porque saciaram uma fome espiritual amplamente sentida: a de homens que procuravam desesperadamente mapas de sentido num mundo que eles viam como opaco e incontrolável.

Foi contra esse pano de fundo estranhamente familiar – uma “revolta contra o mundo moderno,” como dizia o título do livro de Evola de 1934 – que demagogos emergiram tão rapidamente na Europa do século XX e foram tão bem-sucedidos em exaltar mitos nacionais e raciais como a verdadeira fonte da saúde individual e coletiva. A drástica transformação individual exigida por esses visionários acabou por demandar um retiro concertado e massivo da fracassada modernidade liberal para um domínio tradicional idealizado de mitos e rituais.

Ao fim e ao cabo, intelectuais de gabinete pedantes e fantasistas ajudaram a implantar, nas palavras de Thomas Mann, um extensa “devastação moral” com sua “idolatria do inconsciente” – que “não conhece valores, nem bem nem mal, nenhuma moralidade.” Nada menos que as fundações do conhecimento e da ética, da política e da ciência entraram em colapso, em última instância disparando os cataclismos do século XX: duas guerras mundiais, regimes totalitários e o Holocausto. Não é exagero dizer que estamos em meio a um colapso moral e intelectual comparável, que parece pressagiar uma grande calamidade. Peterson chama-o, corretamente, de “dissolução psicológica e social.” Mas ele é um sintoma perturbador da doença para a qual promete a cura.

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