27 de outubro de 2019

Depoimento: O intelectual irrequieto

Wanderley Guilherme dos Santos morreu na madrugada deste sábado (26), aos 84 anos

Maria Hermínia Tavares de Almeida


Wanderley Guilherme dos Santos em seu apartamento no Rio, em 2015. Ricardo Borges/Folhapress

Na terça-feira passada (22), como acontecia a cada quinze dias, Wanderley Guilherme dos Santos foi à Rua da Matriz 82, no Botafogo, sede do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para mais uma aula do curso de extensão “Introdução ao século 21”.

Nele o professor propunha-se a explorar “a revolução digital, seus antecedentes e suas consequências sociais e políticas, abrindo espaço ainda para a reflexão sobre o que estará por vir”, segundo o texto que o anunciava.

Naquele dia, ele expôs aos alunos sua insatisfação com o que vinha entregando e propôs encerrar por ali a ambiciosa empreitada intelectual. Os participantes rejeitaram a ideia e pediram a continuidade das aulas, agora definitivamente interrompidas pela mão pesada do destino.

O cientista político morreu na madrugada deste sábado (26), aos 84 anos, vítima de uma pneumonia.

O episódio, entretanto, revela por inteiro o intelectual que os cientistas sociais sempre chamaram apenas pelo prenome, indicando assim a posição única que ocupava como líder de nossa tribo.

Wanderley foi um intelectual apaixonado pelas grandes questões do nosso tempo, que tratava de abordar com método e rigor. Sabia que o estudo da política, embora necessariamente voltado à análise das disputas pelo poder, enquadradas por instituições que definiam regimes, estruturas estatais, formas de organização partidária ou regras eleitorais, não podia prescindir do entendimento dos processos econômicos e sociais. Sabia também que são frágeis as teorias e toscos os instrumentos de análise de que dispomos e que, portanto, o rigor com que utilizamos as primeiras para construir nossos argumentos e a busca permanente pelo dado mais preciso era condição da boa ciência social.

A democracia contemporânea e suas vicissitudes no Brasil foi o grande tema de uma obra extensa. Ressaltar algumas delas é sempre uma escolha pessoal discutível: são 32 livros e dezenas de artigos publicados em revistas acadêmicas ou coletâneas. Correndo risco, destaco “Cidadania e Justiça” (1979) que aponta os limites do processo de extensão da cidadania quando regulada por instituições corporativas; “Sessenta e Quatro: anatomia da crise” (1986), estudo precioso da polarização que conduziu os militares ao poder no Brasil em 1964; “Crise e Castigo: partidos e generais na política brasileira” (1987), no qual analisa a crise do autoritarismo sob o prisma do surgimento de uma sociedade mais plural e organizada.

Seu primeiro livro “Quem dará o golpe no Brasil?”, publicado na coleção Cadernos do Povo Brasileiro, do ISEB, é de 1962 e anunciava o que aconteceria dois anos depois. Seu último livro “A democracia impedida: o Brasil do século 21”, de 2017, trata do golpe acontecido, o impeachment de Dilma Rousseff, que caracteriza como expropriação constitucional do voto, buscando entendê-la à luz da tensão mais universal entre democracia de massas e capitalismo concentrador de riqueza e poder.

Enganam-se, porém, aqueles que saudaram o livro —ou o criticaram— como um libelo político de simpatizante petista. Em um de seus últimos artigos, “O PT e nós”, publicado no site Segunda Opinião, Wanderley afirmava referindo-se à campanha eleitoral : “De concessão em concessão, o PT transmitiu a seu eleitorado o dogma de que não se anda ao lado do povo sem a companhia de ladrões”.

Intelectual irrequieto, seu compromisso de vida sempre foi com a busca do que a cada momento lhe pareceram as ideias mais próximas da interpretação rigorosa dos fatos.

Sobre a autora

Professora titular aposentada de ciência política na USP e pesquisadora do Cebrap

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Guia essencial para a Jacobin

A Jacobin tem divulgado conteúdo socialista em ritmo acelerado desde 2010. Eis aqui um guia prático para algumas das obras mais importantes ...