1 de outubro de 2015

O espectro de Trump

Donald Trump speaks to an aggrieved and radicalized middle class with seemingly nowhere else to turn.

Charlie Post

Jacobin

Tradução / Um espectro ronda o Partido Republicano. Ao contrário dos anos 1980, não é o “comunismo” ou a “ameaça soviética”. Não é o “radicalismo islâmico” ou o “terrorismo”. É Donald Trump, o autodenominado “self-made” bilionário – na verdade um dos mais malsucedidos homens de negócios dos últimos tempos – que emergiu como líder na abarrotada corrida pela candidatura presidencial dos republicanos.

A aberta xenofobia de Trump conta muito para sua popularidade na base dos republicanos – predominantemente profissionais brancos de classe média suburbanos (e interioranos), administradores, pequenos empresários e uma minoria de trabalhadores brancos. Evitando o que chama por politicamente correto, ele condena os “estupradores e criminosos”, supostamente provenientes do México e pede a deportação em massa de imigrantes indocumentados.

O enfoque repercute uma ampla seção das classes médias brancas. Em Trump elas veem o antipolítico consumado – um “homem do povo” de discurso contundente, que fala sobre seus medos e ansiedades e irá restaurar a grandeza da América.

O crescimento de Trump tem alimentado pânico no establishment republicano, que agora tenta mobilizar seus recursos para bloquear sua candidatura. Esse establishment está, por exemplo, financiando anúncios que acusam Trump de ser inelegível por causa de suas “visões extremistas” e de ser um “liberal no armário” que já apoiou o direito ao aborto e um programa público nacional de seguro de saúde.

A grande mídia também acolheu os argumentos do “extremismo” de Trump e de sua “inelegibilidade”, alegações que a esquerda deve saudar com algum ceticismo. Afinal de contas, Ronald Reagan parecia estar bem à direita da corrente principal da política dos Estados Unidos, em 1980, e ainda provou ser eminentemente elegível.

À esquerda, dois escritores – Harrison Fluss e Stanley Aronowitz – ofereceram recentemente reflexões diferentes sobre Trump. Para Aronowitz, Trump expõe o papel do dinheiro na política burguesa. Ele “põe o bode no meio da sala, mostrando algo que o sistema político passou mais de um século disfarçando”, pondo assim em causa a legitimidade da democracia representativa na América. Fluss, entretanto, vê Trump como a “fruta podre da classe dominante norte-americana”, cujas ideias não são “uma aberração para o mainstream” da política convencional.

Existem elementos de verdade em ambas as interpretações. Por um lado, a capacidade de Trump e vários super-PACs de gastar quantias ilimitadas de dinheiro permite que pequenos grupos politicamente marginais de contribuintes, o suficientemente ricos para tal, distorçam a arena eleitoral de tal maneira que comprometem a fé na democracia capitalista.

Por outro, a acumulação capitalista e a concorrência desenfreada acarretaram o declínio dos padrões de vida e uma maior insegurança não só para a maioria das pessoas que trabalham, mas também para segmentos das classes médias. Na ausência de um movimento de esquerda ou trabalhista viável, a precariedade que estes grupos enfrentam os torna abertos aos apelos de demagogos de direita como Trump.

No entanto, nenhuma dessas análises lida com o que faz a candidatura de Trump tão atraente para camadas das classes média branca e dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, tão assustadora para o establishment republicano. Simplificando, as candidaturas de Trump e aquelas alinhadas com o Tea Party, como Ben Carson e Ted Cruz, não representam nenhum segmento da classe capitalista nos Estados Unidos.

Enquanto sua hostilidade aos sindicatos e o apoio a uma brutal austeridade e à redução dos impostos às corporações coincidem com a opinião capitalista preponderante nos Estados Unidos, os republicanos do Tea Party no Congresso contrariaram o capital a respeito do shutdown do governo federal – colocando em risco o crédito do Estado e do capital – e da imigração.

Em 2014, a Chamber of Commerce gastou dezenas de milhões para derrotar os candidatos do Tea Party nas primárias republicanas no Congresso em todo o país. No entanto, embora muitos candidatos fossem derrotados em 2014, isso não impediu que os reeleitos empurrassem John Boehner (R-OH) para fora da presidência da Câmara, irritados com sua oposição ao uso do teto da dívida federal como moeda de troca para diminuir o financiamento do programa de planejamento familiar, das pensões do Medicare e dos veteranos.

Na corrida presidencial, é provável que a Chamber of Commerce – que representa um amplo leque de empresas médias e grandes – e a Business Roundtable – que representa as maiores, as corporações transnacionais – tentem isolar Trump e os candidatos do Tea Party para favorecer Jeb Bush. Se isso falhar, muitos dos capitalistas que apoiam Bush, hoje vão se sentir muito confortáveis com a candidata democrata líder, Hillary Clinton.

Uma das razões é a imigração, uma questão muito complicada para os capitalistas nos Estados Unidos. Evidentemente, eles não querem massas de imigrantes entrando nos Estados Unidos legalmente e ganhando rapidamente direitos de cidadania. No entanto, eles são militantemente contrários a deportações massivas e outras medidas que os privem de uma força de trabalho barata e flexível.

Em 2010, a Câmara de Comércio se juntou à American Civil Liberties Union e à League of United Latin American Citizens para opor-se à lei antiimigrantes do Arizona (SB 1070), que levou milhares de pessoas a fugir desse estado com medo da prisão e da deportação.

Além disso, a Business Roundtable e a Chamber of Commerce têm estado na vanguarda da pressão para a reforma da lei de imigração no Congresso. Ambos querem uma combinação de mais “proteção eficaz das fronteiras”, um (longo e difícil) “caminho para a cidadania” para quase 11 milhões de imigrantes indocumentados nos Estados Unidos e um programa de trabalhadores convidados para futuros imigrantes, que forneceria ao capital norte-americano uma oferta de trabalhadores sem direitos e sem capacidade de se tornarem residentes permanentes ou cidadãos.

O rápido crescimento de Trump é um repúdio a essa agenda. Como o Tea Party, Trump é um exemplo de política radical de classe média. Preso entre uma classe trabalhadora desorganizada e uma classe capitalista cada vez mais voraz, segmentos das classes médias – especialmente brancos suburbanos nos Estados Unidos – se sentem inseguros econômica e socialmente. Eles veem os seus meios de subsistência e sua posição social ameaçada por todos os lados.

Incapazes de desafiar diretamente o capital, setores das classes médias são atraídos para uma política que torna bodes expiatórios os imigrantes, sindicatos, mulheres, pessoas LGBT e de cor. A crescente radicalização de direita das classes médias tem alimentado a expansão das formações de extrema-direita e o surgimento de personagens que são independentes das classes capitalistas em um número de sociedades capitalistas avançadas: o Independence Party, na Grã-Bretanha; o Front National, na França; o Movimento 5 Stelle, na Itália; e o Tea Party e Donald Trump nos Estados Unidos.

Essa radicalização da classe média – o que Trotsky (1969) certa vez chamou de a “poeira humana” – tem algumas semelhanças com os movimentos fascistas clássicos dos anos 1920 e 1930. Genuínos elementos fascistas (grupos de supremacia branca com grupos de luta de rua organizados) têm sido atraídos para o Tea Party e Trump.

No entanto, nem o Tea Party nem Trump podem ser descritos como fascistas. Ambos procuram ganhar poder através de política eleitoral e não querem abolir as eleições e governo representativo. Os capitalistas nos Estados Unidos não optarão, no futuro previsível, por uma opção tão extrema-direita. Se o establishment republicano não conseguir parar Trump, eles provavelmente cruzarão as linhas partidárias e apoiarão uma política neoliberal como Hillary Clinton.

O espectro da Trump não só assusta o establishment republicano, mas a maioria da esquerda nos Estados Unidos. Como acontece de tempos em tempos desde 1930, a ameaça da extrema-direita servirá como uma desculpa para a burocracia sindical e o establishment liberal dos movimentos dos direitos civis, feministas e LGBT mobilizarem suas bases para apoiar os democratas.

Mas esta solução para a ascensão de Trump e da extrema direita não é uma solução para tudo: abraçar o “menor mal” em 2016 significaria mais uma vez renunciar à obra de reconstrução dos movimentos sindicais e sociais e, em vez disso, subordinar nossa política radical ao Partido Democrata. O resultado desastroso seria que a única oposição visível à classe capitalista não viria da esquerda, mas sim de um empresário bilionário.

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