4 de janeiro de 2018

O que não falamos quando falamos sobre o hacking russo

Jackson Lears


Tradução / A política americana raramente apresentou um espetáculo mais desanimador. As repelentes e perigosas excentricidades de Donald Trump são muito preocupantes, mas também o fracasso da liderança do Partido Democrata em compreender o significado da campanha eleitoral de 2016. O desafio de Bernie Sanders para Hillary Clinton, combinado com o triunfo de Trump, revelou a amplitude da raiva popular contra a política de sempre - a combinação de política interna neoliberal e  política externa intervencionista que constitui um consenso em Washington. Neoliberais celebram a utilidade do mercado como o único critério de valor; os intervencionistas exaltam a aventura militar no exterior como meio de combater o mal a fim de garantir o progresso global. Ambas as agendas se mostraram calamitosas para a maioria dos americanos. Muitos registraram sua desanimação em 2016. Sanders é um social-democrata e Trump um charlatão demagógico, mas suas campanhas ressaltaram um repúdio generalizado ao consenso de Washington. Por cerca de uma semana após as eleições, os especialistas discutiram a possibilidade de uma estratégia democrata mais ampla. Parecia que o partido poderia aprender algo com a derrota de Clinton. Então tudo mudou.

Uma história que circulara durante a campanha sem grande alarido voltou a circular: tinha a ver com a acusação de que agentes russos teriam invadido e hackeado os servidores do Comitê Nacional Democrata, revelando e-mails comprometedores que teriam minado as chances da Clinton. Com velocidade espantosa, uma nova ortodoxia centro-liberal brotou do nada e envolveu toda a grande mídia e o establishment dos dois partidos em Washington. Essa religião secular atraiu hordas de neoconvertidos durante o primeiro ano do governo de Trump. Em sua capacidade para excluir o contraditório, é evento de construção de opinião pública como jamais vi em toda a minha vida adulta, embora me faça lembrar algumas memórias infantis desbotadas, do tempo da histeria anticomunista durante o início dos anos 1950.

A pedra de toque da nova fé, baseada nas acusações de hacking, é a crença de que Vladimir Putin teria orquestrado um ataque contra a democracia norte-americana e ordenado que seus asseclas interferissem na eleição a favor de Trump. Essa história logo virou evangelho pregado e acreditado com estonteante rapidez e completamente. Quem não creia e duvide é declarado herege, defendedor(a) de Trump & Putin, os dois males gêmeos, e cúmplices da conspiração que atacou o coração da democracia norte-americana. Responsabilidade pela total ausência de debate cabe em grande parte aos grandes veículos das grandes mídias. O modo acrítico como abraçaram e puseram-se a repetir sem parar o conto dos hackers russos, fez do conto um fato consumado na mente dos cidadãos. Difícil estimar até onde vai a fé popular nessa nova ortodoxia, mas não parece ser credo pelo qual rezem só os insiders de Washington. Se você questiona em conversas casuais a narrativa que todos recebem já pronta e embalada, expõe-se ao risco de provocar olhares da mais viva reprovação e de furiosa hostilidade – até de velhos e queridos amigos. Para mim, é desconcertante e preocupante; em alguns momentos as mais alucinadas fantasias da cultura popular (traficantes de órgãos, Kool-Aid) me vieram à mente.

Como qualquer ortodoxia que valha o que custe, a religião do hacking russo não depende de haver provas, mas só, exclusivamente, de haver ‘sumidades’ que repitam seus sermões ex cathedra – instituições e respectivos sacerdotes senis. As escrituras sobre as quais se assenta a nova religião são uma mistura confusa e absolutamente sem provas chamada ‘avaliação’ produzida em janeiro passado por um grupo de ‘especialistas escolhidos a dedo’ – como os descreveu James Clapper, diretor da Inteligência Nacional – da CIA, do FBI e da Agência de Segurança Nacional dos EUA, ASN-EUA. As acusações dessa última foram feitas com certeza apenas ‘moderada’. O rótulo de Avaliação pela Comunidade de Inteligência gera a enganadora impressão de que haveria unanimidade. Mas fato é que só três, das 16 agências de inteligência dos EUA, contribuíram para o tal relatório da tal ‘avaliação’. E, verdade seja dita, a própria ‘avaliação’ inclui uma admissão crucialmente importante: “Nossas avaliações não visam a significar que temos provas de que alguma coisa seja fato. As avaliações baseiam-se em informações coletadas, as quais muito frequentemente são incompletas ou fragmentadas, assim como a lógica, a argumentação e os precedentes.” Pois apesar de tudo a ‘avaliação’ entrou na imaginação da mídia e de seus jornalistas como se fosse fato sobejamente demonstrado e comprovado, o que permitiu que os jornalistas assumissem imediatamente como fato o que ainda teriam a obrigação de demonstrar. Ao fazê-lo, os próprios jornalistas passam a operar como avalistas do que digam as agências de inteligência ou, no mínimo, como avalistas dos tais ‘especialistas escolhidos a dedo’.

Não é a primeira vez que as agências de inteligência desempenharam esse papel. Quando ouço falar de Avaliação pela Comunidade de Inteligência referida como fonte confiável, sempre recordo o papel que teve o New York Times no serviço de legitimar a ameaça que seriam as inexistentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein; para nem falar da longa história do projeto de desinformar a opinião pública (hoje mascarado como crítica às ‘fake-news’), como tática para propagandear a agenda política de um ou outro governo ou grupo que mais interesse às empresas de mídia e seus proprietários e acionistas. Hoje, mais uma vez, a imprensa e a mídia estabelecidas operam para legitimar pronunciamentos e ‘declarações’ que façam os Pais da Igrejinha. Clapper está entre os mais vigorosos desses pronunciadores e declaradores. Em 2013 Clapper cometeu crime de perjúrio, quando negou perante o Congresso que a ASN havia ‘deliberadamente’ espionado cidadãos norte-americanos – mentira e crime de perjúrio pelos quais jamais foi formalmente acusado e devidamente processado. Em maio de 2017, disse a Chuck Todd da rede NBC que os russos muito provavelmente teriam agido em colusão com a equipe de campanha de Trump, “porque são quase geneticamente dados a cooptar, furar, invadir, obter favores, o que for, o que é típica técnica russa”. A atual ortodoxia isenta os Pais da Igreja de responder às leis às quais estão submetidos os cidadãos comuns; e condena os russos – e dentre eles o pior de todos, Putin – como o mal encarnado, como “quase geneticamente” diabólicos.

É difícil para mim compreender como o Partido Democrata, que antes tantas vezes mostrou-se cético e crítico do modo como operam as agências de inteligência, aceita hoje a CIA e o FBI como fontes de verdade indiscutível. Uma explicação possível é que a eleição de Trump tenha gerado uma emergência permanente na imaginação mais progressista, baseada na fé que ensina que a ameaça trumpeana é única, rara, sem precedentes. É verdade que Trump é ameaça visceralmente real. Mas George W. Bush e Dick Cheney foram ameaças tão reais quanto Trump. O dano causado por Bush e Cheney – que destruíram o Oriente Médio, legitimaram a tortura e expandiram o poder executivo inconstitucional – foi, aquele sim, realmente sem precedentes e, provavelmente, permanente. Trump é ameaça sem precedentes aos imigrantes sem documentos e a viajantes muçulmanos – pessoas cuja proteção é dever urgente e necessário para todos os cidadãos de bem. Mas na maioria das questões Trump não passa de mais um problema Republicano padrão. Está perfeitamente à vontade com a agenda de austeridade de Paul Ryan, que envolve gigantescas transferências de riqueza para os norte-americanos já mais privilegiados. Está tão comprometido quanto qualquer outro Republicano com derrubar a [lei] Affordable Care Act, de Obama. Durante a campanha posou como apóstata do livre comércio e opositor das intervenções militares dos EUA em outros países; mas agora, já instalado no poder, sua ‘visão de mundo’ sobre o livre comércio e sua política externa já voltou a ser ditada por uma equipe de generais com imaculadas credenciais pró-intervencionismo.

Trump está comprometido com dar prosseguimento ao financiamento pródigo de um já inchado Departamento da Defesa, e sua Fortaleza América é versão supurada e indisciplinada da ‘nação indispensável’ de Madeleine Albright. Ambos, Trump e Albright assumem que os EUA devem poder fazer o que lhes dê na telha na arena internacional: Trump porque é o maior país do mundo; Albright porque é força excepcional para o bem global. Tampouco há qualquer novidade em Trump desejar uma détente com a Rússia, a qual, até pelo menos 2012 foi posição oficial do Partido Democrata. Sem precedentes, no que tenha a ver com Trump é o estilo ofensivo: desdenhoso, de provocação, inarticulado, perfeito para apelar à ira e à ansiedade de seu público alvo. Seus excessos já permitem racismo escancarado e vaidosa misoginia dentre alguns de seus apoiadores. Isso é causa para denúncia, mas não me parece que justifique a mania anti-Rússia.

Além da suposta singularidade de Trump, há duas outras premissas por trás do furor em Washington: a primeira é que o hack russo ocorreu inquestionavelmente, e o segundo é que os russos são nossos implacáveis ​​inimigos. O segundo fornece a carga emocional para o primeiro. Ambos me parecem problemáticos. Com relação ao primeiro, não há qualquer prova para as acusações de hacking e é bem provável que tudo continue como está. Edward Snowden e outros que conhecem a Agência de Segurança Nacional dizem que, se tivesse havido hacking de longa distância, a agência teria monitorado e conheceria todos os detalhes e poderia divulgar a operação sem comprometer as próprias fontes e métodos secretos. Em setembro, ele disse à revista Der Spiegel que a ASN-EUA “provavelmente sabe muito bem quem foram os invasores”. Mesmo assim “não apresentou qualquer prova, embora eu suspeite que existam. A pergunta é: por que não? Suspeito que descobriram outros invasores nos sistemas, talvez houvesse seis ou sete grupos em ação.” A capacidade da ASN-EUA para rastrear a ação de hacking até as fontes é questão de registro público. Quando a agência investigou o bem-sucedido hacking chinês em instalações militares dos EUA e em pontos da indústria da defesa, ela foi perfeitamente capaz de rastrear os hackers até o local de onde partira a ação – um prédio do Exército Popular de Libertação em Xangai. A informação foi publicada no New York Times, mas dessa vez o fato de a ASN-EUA não ter oferecido qualquer prova passou estranhamente sem comentários. Quando The Intercept publicou uma matéria sobre a suposta descoberta, pela ASN, de que a inteligência militar russa tentara invadir os sistemas eleitorais dos EUA e locais, as falas sem qualquer prova documental da Agência sobre as origens russas do hacking apareceram e lá ficaram, sem que ninguém questionasse coisa alguma; e rapidamente passaram a ser tratadas como se a simples notícia fosse alguma espécie de autoconfirmação por poder midiático divino.

Entrementes, formou-se uma bruma espessa de acusações complementares, que incluíam acusações muito mais amplas e vagas de colusão da equipe de campanha de Trump e o Kremlin. Permanece possível que Robert Mueller, ex-diretor do FBI agora nomeado para investigar as acusações, apareça com alguma prova aproveitável de qualquer contato entre o pessoal de Trump e vários russos. Surpreendente seria se um procurador experiente, dotado de poderes que lhe permitem levar a cabo investigação séria, acabe o trabalho sem ter o que mostrar. Pelo sim, pelo não, já começaram as prisões. Mas o que mais chama a atenção nessas prisões é que as acusações nada têm a ver com interferência de russos em alguma eleição. Houve muita conversa sobre a possibilidade de os acusados fornecerem provas contra Trump em troca de sentenças mais leves, mas não passa de especulação. Paul Manafort, que foi diretor de campanha de Trump no início do período pré-eleitoral, declarou-se inocente nas acusações de que não teria registrado sua empresa de Relações Públicas como agente estrangeiro, nos órgãos do governo da Ucrânia; e de que teria ocultado os milhões de dólares que recebeu por serviços. Mas tudo isso aconteceu antes da campanha de 2016. George Papadopolous, ex-conselheiro de política exterior, declarou-se culpado na acusação de ter mentido ao FBI sobre esforços que empreendeu para conseguir um encontro entre o pessoal de Trump e o governo russo – oportunidade que a campanha de Trump dispensou. O preso mais recente de Mueller, Michael Flynn, islamófobo obcecado que serviu por pouco tempo como Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, declarou-se culpado nas acusações de ter mentido ao FBI sobre reunião com o embaixador russo em dezembro – semanas depois da eleição. Trata-se aí do tipo de diplomacia de bastidores que acontece rotineiramente no período entre um governo que sai e o que o substituirá. Absolutamente não se pode cogitar de crime de colusão com autoridade estrangeira.

Até aqui, depois de meses de ‘petardos’ que acabaram por se revelar traques de salão, ainda não há sequer uma prova prestável de que o Kremlin tenha ordenado alguma interferência nas eleições nos EUA. Ao mesmo tempo, surgiram graves suspeitas quanto aos fundamentos jurídicos das acusações de promotores e seus investigadores. Observadores independentes já disseram que o mais provável é que os emails tenham sido vazados [de dentro para fora], não hackeados [de fora para dentro]. Nesse front, o caso mais persuasivo foi construído por um grupo chamado “Profissionais Veteranos da Inteligência, pela Sanidade” [Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIP)], todos ex-funcionários de agências da inteligência dos EUA que ganharam fama e respeito quando, em 2003, desmascararam as mentiras de Colin Powell sobre as tais ‘armas de destruição em massa’ que Saddam Hussein teria no Iraque, apenas horas depois de Powell ter exibido sua falsa ‘prova’ na ONU. (Há membros dos VIPS que discordam das conclusões do relatório da organização; mas os argumentos deles são rebatidos pelos autores do relatório.) As descobertas dos VIPS não mereceram qualquer atenção dos grandes veículos, exceto de Fox News – o que, do ponto de vista do centro-esquerda é ainda pior do que ser ignorado por Fox News. A mídia dominante descartou o relatório dos VIPS como ‘teoria da conspiração’ (aparentemente, não se aplicaria à fábula dos hackers russos). A questão crucial aqui e em todos os demais locais é que já foram completamente excluídas da discussão pública todas e quaisquer perspectivas de crítica à narrativa ortodoxa, mesmo quando a crítica vem de gente com credenciais profissionais e respeitável currículo.

As duas histórias, a dos hackers que teriam invadido o Comitê Nacional Democrata, e a dos e-mails que envolveram os emails de John Podesta, agente da equipe de campanha de Clinton, têm, ambas, a colaboração de uma gangue de supostos hackers russos chamados Fancy Bear – também conhecidos entre o pessoal técnico como APT28. O nome Fancy Bear foi introduzido por Dimitri Alperovitch, chefe de tecnologias da empresa Crowdstrike, firma de segurança cibernética contratada pelo Comitê Nacional Democrata para investigar o roubo de seus emails. Alperovitch é também membro do Conselho Atlântico [Atlantic Council], think-tank anti-Rússia que opera em Washington. No relatório que apresentou, a empresa Crowdstrike não apresentou sequer uma prova, que fosse, que desse algum fundamento à ‘conclusão’ de que os russos seriam responsáveis pelo ataque, e, isso, para não mencionar a ideia, que o relatório promove ativamente, de que os ‘hackers russos’ seriam ligados à inteligência militar russa. E, no entanto, a partir deste momento, a suposição de que se tratava de uma operação cibernética russa tornou-se inquestionável.. Quando o FBI chegou à cena, os seus agentes nem pediram acesso nem algum acesso lhes foi negado, aos servidores do Comitê Nacional Democrata; em vez disso, o FBI confiou integralmente na análise da empresa Crowdstrike. E a empresa Crowdstrike, naquele momento, estava também dedicada a rastrear outra acusação: de que os russos teriam hackeado com sucesso o sistema de orientação da artilharia ucraniana. Os militares ucranianos e o Instituto Internacional Britânico para Estudos Estratégicos desmentiram essa ‘conclusão’; Crowdstrike recuou. Mas a análise que Crowdstrike entregou, do caso do Comitê Nacional Democrata continuou valendo e chegou, até, a ser tomada por base para a Avaliação que a Comunidade de Inteligência distribuiu em janeiro.

A boataria em torno da ação de hackers jamais teria chegado a ter o caráter de urgente gravidade que adquiriu, não fosse por um segundo pressuposto que vinha com ela: o de que a Rússia seria inimiga excepcionalmente perigosa, com a qual se deve evitar qualquer contato. Sem essa fé auxiliar, os encontros entre o advogado-geral Jeff Sessions e autoridades russas em setembro de 2016 teriam sido vistos como reuniões de rotina entre um senador e autoridades de outro país. As conversas pós-eleições entre Flynn e o embaixador russo tampouco pareceria suspeita e não passaria também de rotina. Os esforços de asseclas de Trump para conseguir negócios na Rússia seriam só imorais. O encontro entre Donald Trump Jr. na Trump Tower com a advogada russa Natalia Veselnitskaya seria transformado, de um melodrama de roteiro ruim, numa comédia de erros – com o filho do candidato esperando obter informação a ser usada contra Clinton, até se dar conta de que Veselnitskaya só queria falar contra as sanções e da retomada do fluxo de órfãos russos para os EUA. E o próprio Putin seria convertido em mais um autocrata daqueles com os quais as democracias podem ter negócios, sem ter de endossá-los.

Vozes céticas, como as dos especialistas VIPS, foram afogadas num tsunami de desinformação. Matérias claramente mentirosas, como a que o Washington Post publicou, segundo a qual os russos teriam hackeado a rede elétrica de Vermont, são publicadas, e 24 horas depois, desmentidas. Às vezes – como as matérias sobre interferência dos russos nas eleições francesas e alemãs – nunca são desmentidas, nem depois de já estarem completamente desmascaradas e desacreditadas. Essas matérias vêm sendo desmontadas completamente pelos serviços de inteligência de França e Alemanha, mas nem por isso param de circular, envenenando a atmosfera e desnorteando a discussão social. A ideia de que os russos teriam hackeado os sistemas de votação nos EUA já foi refutada por autoridades eleitorais dos estados da Califórnia e de Wisconsin, mas as considerações dessas autoridades só geraram sussurros, se comparados à gritaria e ao alarido gerados pela mentira inicial. A pressa para publicar sem suficiente atenção à correção da informação já está convertida em nova normalidade no jornalismo comercial. Retratação ou correção praticamente nada valem, porque a mentira publicada já fez o que foi concebida para fazer.

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Consequência disso é uma confusão sempre crescente que tudo envolve. O niilismo epistemológico prospera, mas algumas pessoas e instituições têm mais poder que outras para definir o que constituirá uma realidade ‘combinada’ para satisfazer essas pessoas e instituições, mais que outras. E quem diga o que aqui digo, arrisca-se a ser descartado e expulso da ordem humana como o mais desprezível dos desprezíveis no léxico da Washington contemporânea: o divulgador de teorias da conspiração. Seja como for, fato é fato e permanece: às vezes, gente muito poderosa dá jeito de ‘noticiar’ e repetir, repetir, repetir ideias que só beneficiam interesses comuns daqueles poderosos. Não faz qualquer diferença se se chama a isso hegemonia, conspiração ou simples e puramente privilégio. O que importa é o poder para criar o que Gramsci chamou de “senso comum” de toda uma sociedade. Ainda que grande parte dessa sociedade seja indiferente ou desconfie do senso comum oficial, mesmo assim ele é incorporado entre os pressupostos tácitos que fixam os limites da “opinião responsável”. O establishment Democrata (e uns poucos Republicanos) e os grandes veículos da mídia converteram em senso comum do atual momento uma dita ‘interferência dos russos’. Que tipo de serviço cultural presta esse senso comum? Quais as consequências do espetáculo que a mídia batizou e chama (com a originalidade que lhe é característica) de ‘Russia-gate’?

A consequência mais imediata é que, ao encontrar demônios estrangeiros que podem carregar toda a culpa pela ascensão de Trump, a liderança dos Democratas encontrou local para onde transferir a culpa pela derrota, depositando-a bem longe das próprias políticas democratas, sem ter de questionar nenhum dos pressupostos básicos daquelas políticas. Em pleno afastamento geral para cada vez mais longe de Trump, os Democratas deram jeito, até, de se apresentar como dissidentes – ‘#a resistência’, como os clintonistas logo se autodenominaram, apropriando-se da expressão logo nos dias que se seguiram à eleição. Os Democratas vedetes começaram a servir-se da palavra ‘progressista’ para designar uma plataforma que se reduz a pouco mais que a preservação do Obamacare, com muita gesticulação na direção de maior igualdade de renda e de proteção às minorias. É agenda tímida demais. Nada diz sobre enfrentar a influência da concentração de capitais no campo político, sobre reduzir o super inchado orçamento da Defesa nem sobre retirar militares dos EUA superdistendidos, de já quase incontáveis compromissos em terras estrangeiras; contudo, sem iniciativas nessas direções decisivamente importantes, até a mais tímida das políticas igualitaristas enfrenta obstáculos insuperáveis. Estão em gestação insurgências mais genuínas, que confrontam o poder das grandes empresas e conectam as políticas internas à política externa, mas terão de enfrentar duros combates morro acima contra o dinheiro e o poder que já se entrincheirou na liderança Democrata – gente feito Chuck Schumer, Nancy Pelosi, os Clintons e o Comitê Nacional Democrata. Russia-gate oferece às elites Democratas um modo para promover a unidade partidária contra Trump-Putin, enquanto o Comitê Nacional Democrata expurga os apoiadores de Sanders.

Para o Comitê Nacional Democrata, a grande valia da fábula dos hackers russos é que ela foca a atenção bem longe da questão de o quê, afinal de contas, estava realmente escrito nos tais emails. Os documentos revelaram organização profundamente corrupta, cuja fachada de imparcialidade nunca passou de puro engodo. Até o sempre pro-Clintons Washington Post já admitiu que ‘muitos dos emails mais comprometedores sugerem que o Comitê tentava ativamente minar a campanha presidencial de Bernie Sanders.’ Mais provas de que a máquina Clinton cometeu crime de colusão com o Comitê Nacional Democrata apareceram recentemente num memorial redigido por Donna Brazile, que se tornou presidente interina do Comitê Nacional Democrata depois que Debbie Wasserman Schultz renunciou nos primeiros dias das revelações dos emails. Brazile relata ter descoberto um acordo, datado de 26 de agosto de 2015, que especificava (ela escreve):

“que em troca de levantar dinheiro e investir no Comitê Nacional Democrata, Hillary controlaria as finanças e a estratégia do Partido, além de todo o dinheiro levantado. A campanha dela tinha o direito de vetar nomes para o cargo de diretor de comunicações do Partido e tomaria decisões finais sobre todos os nomes para todos os cargos da equipe. O Comitê Nacional Democrata também teria de consultar a campanha da candidata sobre todos os indicados para todos os cargos, sobre decisões de orçamento, de dados, analíticos e distribuição de material por correio (mailings).”

Antes mesmo de as primárias começarem, o supostamente neutro Comitê Nacional Democrata – que estivera à beira de falir – já fora arrendado pela campanha de Clinton.

Outra recente revelação de táticas do Comitê Nacional Democrata diz respeito à investigação de supostos laços entre Trump e Putin. A história começou em abril de 2016, quando o Comitê Nacional Democrata contratou uma empresa de pesquisa com sede em Washington, de nome Fusion GPS, para descobrir quaisquer conexões entre Trump e a Rússia. O negócio envolveu o pagamento de ‘dinheiro em troca de lixo’ [‘cash for trash’], como a campanha de Clinton gostava de dizer. A empresa Fusion GPS conseguiu produzir o lixo que se esperava dela, um relato redigido em tom sinistro pelo ex-agente da inteligência britânica, Christopher Steele, baseado em boatos e comprado de fontes russas anônimas. Entre prostitutas e chuveiros de ouro, afinal havia uma história: o governo russo há anos estaria chantageando e subornando Donald Trump, a partir do pressuposto de que seria presidente e poderia servir aos interesses do Kremlin. Nesse conto de realismo fantástico, Putin é pintado como vidente com dotes sobrenaturais, capaz de adivinhar o futuro. Como outras acusações de colusão, essa também foi-se tornando mais e mais vaga à medida que o tempo passava, tornando cada dia mais obscura a atmosfera e sem oferecer nem fiapo de prova de coisa alguma. A campanha de Clinton tentou persuadir os veículos da mídia do establishment a dar publicidade ao dossiê Steele. Mas com surpreendente compostura, todos se negaram a promover aquele repugnante lixo político. No entanto, o FBI aparentemente levou o processo Steele a serio o suficiente para incluir um resumo dele em um apêndice secreto para a Avaliação da Comunidade de Inteligência.

Duas semanas antes da posse, James Comey, diretor do FBI, descreveu o dossiê para Trump. Depois que o comunicado de Comey vazou para a mídia, o website Buzzfeed publicou a íntegra do dossiê – que gerou histeria e gargalhadas no establishment em Washington. O dossiê Steele habita um reino penumbroso onde ideologia e inteligência, desinformação e revelação sobrepõem-se. É a antecâmara do sistema mais amplo de niilismo epistemológico criado por várias facções rivais na comunidade de inteligência: a ‘árvore de fumaça’ que, para o romancista Denis Johnson, simbolizava as operações da CIA no Vietnã. Inalei, eu, pessoalmente, aqueles fumos em 1969-70, quando trabalhava como criptógrafo com acesso aos mais altos escalões Top Secret num navio da Marinha dos EUA que transportava mísseis armados com ogivas nucleares – cuja existência era absolutamente negada. Perdi minha autorização Top Secret e adiante fui demitido com desonra, quando me recusei a ser integrado ao Sistema do Autenticador Selado, que autorizaria o lançamento das tais armas nucleares supostas inexistentes. Desde então a árvore de fumaça só fez crescer e tornar-se mais impalpável e mais complexa. Mesmo assim, agora, o Partido Democrata embarcou num processo de reabilitação em escala total da comunidade de inteligência – ou, pelo menos, da parte dela que apoia a ‘hipótese’ do hacking russo. (Pode-se ter absoluta certeza de que há desacordo por trás do palco.) E não é só que o establishment Democrata esteja abraçando o estado profundo. Parte da base do Partido, convencida de que Trump e Putin são irmãos siameses unidos pelo osso pélvico, dedica-se a vociferar sobre ‘traição’, como uma neo-Sociedade John Birch.

Pensei em todas essas ironias quando visitei em Londres a exposição na Tate Modern intitulada Soul of a Nation: Art in the Age of Black Power [Alma de uma nação: arte na era do Black Power], que reúne trabalhos de artistas norte-americanos negros dos anos 1960s e 1970s, quando agências de inteligência (e agentes provocadores) comandavam um ataque das autoridades contra militantes negros, contra os que se opunham ao recrutamento militar obrigatório, aos desertores e a ativistas pacifistas. Entre as pinturas, colagens e assemblages havia uma bandeira dos Confederados cercada de sombrias reminiscências do passado de Jim Crow – um membro da KKK em traje completo, um cadáver negro pendurado numa árvore. Também lá estavam pelo menos meia dúzia de bandeiras dos EUA, justapostas ou em pedaços a imagens da opressão racista contemporânea que poderia ter acontecido em qualquer ponto dos EUA: cadáveres de homens negros presos em máquinas de tortura por esqueletos em uniformes de policiais; um prisioneiro negro amarrado a uma cadeira, à espera da tortura. A ideia era mostrar contraste bem visível entre as pretensões da “terra dos livres” e as práticas das forças do estado de segurança nacional e polícias locais. Os artistas negros daquela era conheciam bem o inimigo: os negros não estavam sendo mortos e encarcerados por algum nebuloso inimigo estrangeiro, mas pelo FBI, a CIA e a polícia.

O Partido Democrata desenvolveu hoje uma nova visão de mundo, uma parceria mais ambiciosa entre os intervencionistas humanitários liberais e os militares neoconservadores, do que a que existiu sob Obama, o cauteloso. A consequência mais desastrosa para o Partido Democrata, da nova ortodoxia anti-russos, pode ser a seguinte: perderam a oportunidade para formular uma política externa mais humana e mais coerente. A obsessão com Putin apagou qualquer chance de complexidade, do quadro que os Democratas se fazem do mundo, e criou um vácuo que foi rapidamente preenchido pelas fantasias monocromáticas de Hillary Clinton e de seus aliados excepcionalistas. Para gente como Max Boot e Robert Kagan, a guerra é um estado de coisas desejável, especialmente quando vista do camarote confortável de seus teclados, e o resto do mundo – exceto uns poucos maus rapazes – está cheio de populações que só fazem ansiar por construir sociedades exatamente como as nossas: pluralistas, democráticas e abertas aos negócios. É difícil pôr abaixo essa fantasia, quando se adere a algum sentimento humanitário. No mundo há sofrimento horrendo; os EUA têm recursos abundantes para ajudar a aliviá-lo; o imperativo moral é claro. Há incontáveis formas de engajamento internacional que não envolvem intervenção militar. Mas a trilha pela qual opta a política dos EUA, muito mais frequentemente do que suporia a retórica humanitarista não passa de tênue cortina para cobrir as vergonhas de uma geopolítica muito mais mundana – que define o interesse nacional dos EUA como se fosse global e virtualmente sem limites.

Tendo chegado à maioridade durante a Guerra do Vietnã, consequência calamitosa dessa visão deformada de interesse nacional, sempre me senti atraído pela crítica realista do globalismo. Realismo é rótulo maculado para sempre pela associação com Henry Kissinger, que usava a expressão como argumento a favor de intervenções clandestinas e não clandestinas nos assuntos de outros países. Mas há outra tradução mais humana de realismo, de George Kennan e William Fulbright, a qual enfatiza os limites da força militar e insiste em que todo grande poder exige grande contenção. Essa tradição desafia a doutrina da mudança de regime escondida sob a máscara da promoção da democracia, a qual, apesar dos fracassos abissais no Iraque e na Líbia – ainda preserva desconcertante legitimidade na Washington oficial. Russia-gate prolongou sua vida útil.

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Para aferir o impacto corrosivo da fixação dos Democratas contra a Rússia, pode-se começar por perguntar por tudo de que os Democratas não falam, quando falam do ‘hacking russo’. Para começar, não falam de outros tipos de interferência na eleição, como os muitos meios do Partido Republicano para expurgar os direitos de eleitores que se incluam em grupos minoritários. Também não falam sobre o orçamento de um trilhão de dólares da Defesa, que já extingue, no berço, a possibilidade de serviço social de atendimento à saúde pago por família [single-payer healthcare] e outros programas sociais urgentemente necessários; nem falam sobre a modernização do arsenal atômico dos EUA, que Obama iniciou e Trump planeja acelerar, e que aumenta o risco de calamidade ambiental irremediável, de guerra nuclear – ameaça hoje mais grave do que jamais foi em décadas de animosidade dos EUA contra a Rússia. A ambição de derrubar Trump por impeachment, condenando-o por crime de colusão com a Rússia, gerou uma atmosfera de ansiedade quase frívola entre os Democratas, o que os fez esquecer que o resto do Partido Republicano é constituído de vários políticos muito mais astutos para operar nos subterrâneos de Washington do que o presidente Trump jamais será.

Não é o Partido Democrata que está liderando a busca de alternativas aos destroços criados pelas políticas republicanas: um plano de imposto que imergirá a classe média e pobre para beneficiar os ricos; uma busca descuidada de combustíveis fósseis que já está resultando na contaminação do abastecimento de água do povo de Dakota; e apoio contínuo às políticas policiais de militarização e encarceramento em massa. As populações locais é que são ameaçadas por vazamentos de petróleo e espancamentos pelas polícias –, e nessas populações sobrevive o popularismo humano. Uma multidão de grupos insurgentes começaram a usar a indignação contra Trump como alavanca para empurrar o Partido na direção de políticas igualitaristas: Justice Democrats, Black Lives Matter, Democratic Socialists of US, além de grande número de organizações locais e regionais. Essas organizações reconhecem que há razões muito mais urgentes – e genuínas – para fazer oposição a Trump, que vagas alegações não provadas e provavelmente falsas do começo ao fim, de colusão com a Rússia. E essas organizações impõe um desafio muito necessário ao longo reinado do neoliberalismo e à arrogância tecnocrática que levou à derrota da Clinton nos estados do "Cinturão da Ferrugem". Convencidos de que a liderança atual jamais conduzirá mudanças significativas, esses grupos buscam fundos e financiamento bem longe do Comitê Nacional Democrata. Essa é a verdadeira resistência, e nada tem a ver com ‘#theresistance’.

Em algumas questões importantes, como o apoio que se alastra ao sistema de assistência à saúde por família; aumento no salário mínimo ou garantia de proteção a imigrantes sem documentos, contra as formas mais flagrantes de exploração – esses insurgentes conquistam apoios cada dia mais amplos. Candidatos como Paula Jean Swearengin, filha de mineiro de carvão de West Virginia e candidata às primárias do Partido Democrata, aspirante à indicação para o Senado dos EUA, desfiam hoje o establishment Democrata que insiste no rosto colado com os Republicanos para mais bem servirem ao capital concentrado. Contra Swearengin concorre Joe Manchin, que o Los Angeles Times comparou a Doug Jones, outro Democrata ‘muito conservador’ que venceu recentemente a eleição no Alabama para o Senado dos EUA, derrotando por poucos votos um Republicano acusado repetidas vezes de agressão sexual contra meninas de 14 anos. Esse resultado causa-me algum alívio, mas nem por isso integro-me ao êxtase coletivo dos Democratas, o qual só revela o insuperável comprometimento do Partido com a velha política de sempre. Os líderes Democratas se persuadiram (e persuadiram também grande parte da base) de que a única coisa que falta à república é restaurar o status quo ante Trump. Mantêm-se cegos e surdos ante a impaciência popular ante as velhas fórmulas. Jess King – menonita, graduada pelo Bard College e fundadora de uma ONG local sem finalidades de lucro que concorre ao Congresso pelo grupo Justice Democrat em Lancaster, Pensilvânia – pôs a coisa nos seguintes termos: "Vemos uma paisagem política em transformação nesse momento, que não se pode aferir pelas políticas de esquerda e de direita de antes, mas por políticas de baixo para cima. Na Pensilvânia e em muitos outros lugares nos EUA vê-se crescer um popularismo econômico de base, que se organiza contra o establishment e o status quo que não se ocuparam com ajudar e salvar a vida e o futuro de tantos seres humanos em nosso país."

Democratas insurgentes também estão construindo uma crítica popular contra a húbris imperial que patrocinou incontáveis cruzadas fracassadas, exigiu um enorme sacrifício da classe trabalhadora e mobilizou apoio a Trump – porque se apresentou (embora nunca tenham cumprido a promessa) como opositor do intervencionismo sem fim. Na política exterior, os insurgentes enfrentam oposição ainda mais ferozmente entrincheirada que na política interna: um consenso bipartidário altamente inflamável pelo ultraje ante a ameaça que o ‘hacking russo’ imporia à democracia. Mesmo assim, encontraram uma saída tática à frente, focando-se na carga desigual que pesa muito mais sobre os pobres e a classe trabalhadora, para promover e manter o império norte-americano.

Essa abordagem anima Autopsy: The Democratic Party in Crisis, documento de 33 páginas, de vários autores, entre os quais Norman Solomon, fundador de um lobby insurgente tecido na rede, RootsAction.org. ‘O mote do Partido Democrata, de que lutaria por ‘famílias trabalhadora’, foi gravemente minado pela recusa dos Democratas a se opor em desafio contra o poder dos empresários, o que permitiu que Trump aparecesse travestido em guerreiro pelos direitos do povo’ – lê-se em Autopsy. Mas a especificidade desse documento, que o diferencia da maior parte de outras críticas progressistas, é a conexão necessária, inescapável, que o ensaio aponta entre a política de classes doméstica e a política exterior dos EUA. Para os que mal sobrevivem no Cinturão da Ferrugem, frequentemente o serviço militar surgia como única via de fuga das ruínas que as políticas neoliberais deixaram por ali; mas o preço da fuga já está alto demais. Como Autopsy observa, “a lógica da guerra continuada” – que Clinton chama de “liderança global” –

"era [em 2016] muito mais compreensível para o correligionário médio dos Democratas do que para os norte-americanos das regiões que sentiam diretamente a tragédia dos soldados mortos, dos mutilados, dos traumatizados de guerra. Depois de uma década e meia de guerras ininterruptas, pesquisas de dados extraídos de padrões de voto sugerem que a campanha da Clinton, movida por intransigente propaganda pró-guerras, influenciou contra a candidata Democrata as comunidades de trabalhadores mais duramente feridas pelas baixas de militares no Iraque e no Afeganistão."

Francis Shen da Universidade de Minnesota e Douglas Kriner da Boston University analisaram os resultados das eleições em três estados chaves – Pensilvânia, Wisconsin e Michigan – e descobriram que, “mesmo operando em modelo estatístico que admitia várias outras explicações alternativas, podemos afirmar que há forte relação, muito significativa, entre a proporção de militares sacrificados em cada comunidade, e o apoio a Trump.” O currículo de Clinton, de apoio acrítico a intervenções militares, permitiu que Trump ganhasse eleitores pelos dois lados: tanto ao se beneficiar do ressentimento jingoísta, quanto ao se apresentar como quem defendesse o fim das guerras superprolongadas e sem sentido. Kriner e Shen concluem que os Democratas talvez tenham de “reexaminar a própria postura na política externa, se quiserem superar os ganhos eleitorais que Trump obteve em blocos de eleitores exauridos e alienados da realidade política próxima, por 15 anos de guerra.” Se os movimentos insurgentes dentro do Partido Democrata começarem a formular uma política externa inteligente e crítica, nesse caso é possível que os eleitores reconsiderem. E o mundo poderá ser analisado sob foco mais fino, como lugar onde o poder dos EUA é limitado, assim como também é limitada a virtude dos EUA. Para este democrata, isso é um resultado devidamente desejado. É um tiro longo, mas há algo acontecendo lá fora.

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