22 de janeiro de 2018

Sob o neoliberalismo, você pode ser seu próprio chefe tirânico

Um novo estudo observou um aumento alarmante de uma nova forma de sofrimento psicológico. Chamam-lhe "perfeccionismo neoliberal".

Meagan Day

Jacobin

Tradução / Um novo estudo de Thomas Curran e Andrew Hill, publicado no Psychological Bulletin, concluiu que o perfeccionismo está em ascensão. Os autores, ambos psicólogos, concluem que “as recentes gerações consideram os outros mais exigentes, são mais exigentes com os outros e são mais exigentes consigo mesmos”.

Ao identificar a origem deste crescente desejo de excelência, Curran e Hill não medem palavras: é o neoliberalismo. A ideologia neoliberal venera a competição, desencoraja a cooperação, promove a ambição e atribui valor pessoal à realização profissional. Não surpreendentemente, as sociedades orientadas por esses valores tornam as pessoas mais críticas e mais ansiosas face à possibilidade de serem julgadas.

Os psicólogos costumam falar sobre o perfecionismo como se este fosse unidimensional – apenas dirigido do eu para si mesmo. Esse é ainda o uso coloquial, o que geralmente queremos dizer quando afirmamos que alguém é perfeccionista. Mas, nas últimas décadas, os investigadores descobriram que é produtivo ampliar o conceito. Curran e Hill partem de uma definição multidimensional, abrangendo três tipos de perfeccionismo: auto orientado, orientado para outros e socialmente prescrito.

O perfeccionismo auto orientado é a tendência para alguém se guiar por padrões não realistas, enquanto o perfeccionismo orientado para outros refere-se a expetativas irrealistas quanto aos outros. Mas “o perfeccionismo socialmente prescrito é o mais debilitante das três dimensões do perfeccionismo”, afirmam Curran e Hill. Este descreve o sentimento de paranoia e ansiedade engendrado pela sensação persistente – e não totalmente infundada – de que todos estão à espera que cometas um erro para que te possam afastar para sempre. Esta hiper percepção das expetativas impossíveis dos outros causa alienação social, auto-avaliação neurótica, sentimentos de vergonha e indignidade, e “uma sensação de preocupação patológica e medo da avaliação social negativa, caracterizada por uma concentração nas falhas, e sensibilidade às críticas e fracasso”.

Na tentativa de avaliar o quão culturalmente contingente é o fenômeno do perfeccionismo, Curran e Hill fizeram uma meta-análise de dados psicológicos disponíveis, procurando observar tendências geracionais. Descobriram que as pessoas nascidas depois de 1989 nos Estados Unidos da América, Reino Unido e Canadá obtiveram resultados muito superiores às gerações anteriores para os três tipos de perfeccionismo, e que essas pontuações aumentaram linearmente ao longo do tempo. A dimensão que observou a mudança mais drástica foi o perfeccionismo socialmente prescrito, que aumentou duas vezes mais que taxa dos outros dois. Por outras palavras, o receio sentido pelos jovens em relação à possibilidade de serem julgados pelos seus pares, e pela cultura de uma forma geral, intensifica-se a cada ano que passa.

Curran e Hill atribuem essa mudança à ascensão do neoliberalismo e da meritocracia. O neoliberalismo favorece métodos de atribuição de valor às mercadorias – e designa tudo o que pode enquanto tal. Desde meados da década de 1970 que os regimes neoliberais político-econômicos substituíram sistematicamente coisas como propriedade pública e a negociação coletiva pela desregulamentação e privatização, promovendo o indivíduo face ao grupo no próprio tecido da sociedade. Enquanto isso, a meritocracia – a ideia de que o estatuto social e profissional são resultado direto da inteligência individual, da virtude e do trabalho árduo – convence as pessoas de que a incapacidade de ascensão é sinal de uma inerente inutilidade.

A meritocracia neoliberal, sugerem os autores, criou um ambiente no qual cada pessoa é embaixadora da sua própria marca, a única porta-voz do seu produto (ela própria) e agente do seu próprio trabalho, num infinito mar de competição. Como Curran e Hill observam, este estado de coisas “coloca a necessidade de esforço e realização no centro da vida moderna”, muito mais do que nas gerações anteriores.

Os investigadores citam dados que demonstram que os jovens estão menos interessados em participar em atividades de grupo por mera diversão, favorecendo, ao invés, empreendimentos individuais que os fazem sentir produtivos ou lhes conferem um sentimento de realização. Quando o mundo exige que se prove o nosso valor a cada momento, e quando não se consegue afastar a suspeita de que o respeito dos nossos pares é altamente condicional, sair com os amigos pode parecer menos interessante do que ficar em casa para cuidar meticulosamente dos seus perfis de redes sociais.

Uma consequência desse aumento do perfeccionismo, argumentam Curran e Hill, tem sido uma série de epidemias de doenças mentais graves. O perfeccionismo está muito relacionado com ansiedade, distúrbios alimentares, depressão e pensamentos suicidas. A compulsão constante para se ser perfeito, e a inevitável impossibilidade dessa tarefa, exacerbam os sintomas da doença mental em pessoas já vulneráveis. Mesmo os jovens sem doenças mentais diagnosticáveis tendem a sentir-se mal com maior frequência, uma vez que o perfeccionismo orientado para outros cria um clima de hostilidade, suspeição e desdém – em que todos são juízes numa constante avaliação em grupo – e o perfeccionismo socialmente prescrito envolve o reconhecimento dessa alienação. Em suma, as repercussões do crescente perfeccionismo variam entre emocionalmente dolorosas a literalmente mortais.

E há uma outra repercussão do aumento do perfeccionismo: torna difícil a construção da solidariedade, que é o que precisamos para resistir à investida do neoliberalismo. Sem uma boa auto percepção não podemos ter relacionamentos fortes, e sem relacionamentos fortes não podemos juntar-nos nos números necessários a uma agitação, muito menos a uma melhoria, de toda a ordem político-econômica.

Não é difícil encontrar paralelos entre as três dimensões do perfeccionismo e a chamada “cultura do call-out”, aquela que tem sido ultimamente a tendência hegemônica à esquerda: um estado em que todos procuram pela derradeira falha dos outros, elevando-se a padrões de virtuosismo impossivelmente elevados, paralisados pelo medo secreto (e não infundado) de serem descartáveis para o grupo e de que o dia do seu julgamento se encontre à porta. O padrão é uma peça de outras manifestações do perfeccionismo meritocrático neoliberal, desde admissões no ensino superior até uma gestão obsessiva do perfil de Instagram. E porque este nos divide em vez de nos unir, não é uma maneira de construir um movimento que procure alcançar o poder.

O perfeccionismo faz-nos sentir desdém uns pelos outros, medo uns dos outros e, na melhor das hipóteses, inseguros. Impede o tipo de vínculos solidários e de ação coletiva necessários para atacar o capitalismo neoliberal. O único antídoto possível para atomizar, alienar o perfeccionismo passa por rejeitar o individualismo absoluto e reintroduzir os valores coletivos na nossa sociedade. É uma tarefa gigantesca – mas com os problemas do neoliberalismo incutidos nas nossas mentes, é o único caminho a seguir.

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