18 de fevereiro de 2018

Bolhas, ações e crashes

Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Traduções / O que está a acontecer na economia dos EUA constitui uma lição objetiva acerca do funcionamento do capitalismo neoliberal. O capitalismo anterior à Primeira Guerra Mundial, o qual assistira ao longo boom vitoriano e eduardiano, havia confiado a dinâmica do sistema à organização colonial. Os bens produzidos pela Grã-Bretanha eram vendidos a economias coloniais e semi-coloniais (provocando ali a "desindustrialização") e bens de valor ainda maior eram extraídos destas economias (constituindo a diferença a "drenagem do excedente") a fim de serem exportados – parcialmente contra importações britânicas e parcialmente a crédito – para o "Novo Mundo", isto é, para as regiões temperadas de povoamento branco, para as quais a Grã-Bretanha e não as colônias eram contadas como credoras.

Quando este esquema subjacente ao Longo Boom do "longo século XIX" esgotou o seu potencial, após a Primeira Guerra Mundial, todo o sistema foi afligido pela Grande Depressão. Um novo esquema era necessário ao sistema. Isto acabou por se verificar e proporcionou a base para outro longo boom, só no período pós Segunda Guerra Mundial quando a despesa do Estado começou a ser utilizada para estimular a economia.

Dar ao Estado este papel, o de gastar diretamente para gerar emprego, minava a legitimidade social do capitalismo e portanto era anátema para o capital financeiro – pois mostrava que com o Estado a mimar capitalistas a fim de manter os seus "espíritos animais" para sustentar o nível de atividade e de emprego estes eram bastante desnecessários. Mas o capitalismo do pós guerra, confrontado com uma ameaça à sua existência devido à difusão do socialismo, era obrigado a aceitá-lo.

Com a nova centralização do capital, que levou ao longo do tempo à globalização da finança, a oposição do capital financeiro à intervenção do Estado nesta forma tornou-se muito mais eficaz. O Estado afinal de contas era um Estado-nação ao passo que o capital agora se tornara internacional, de modo que se qualquer Estado ignorasse as vontades da finança provocaria uma fuga de capitais da sua jurisdição e, portanto, uma crise financeira para si mesmo. Consequentemente, sob o regime neoliberal que acabou por existir na era da globalização, o controle de défices orçamentais e a abstenção da tributação de capitalistas tornou-se a ordem do dia.

Estes regimes neoliberais, destituídos das escoras anteriores que haviam sustentado o capitalismo, dependeram essencialmente de "bolhas" nos preços de ativos para os seus booms e o único meio pelo qual estes podiam ser estimulados era através de baixas taxas de juro. A política monetária tornou-se o único instrumento disponível para o Estado a fim de promover o nível de atividade, uma vez que uma política orçamental intervencionista ficou descartada sob o neoliberalismo. Assim, estimular bolhas, ao invés de quaisquer grandes investimentos diretos, tornou-se o modus operandi da política monetária.

Contudo, este fato óbvio nunca é aceito "oficialmente". Porta-vozes políticos e economistas "mainstream"repetem a torto e a direito a vetusta teoria de que taxas de juro baixas conduzem ao aumento do investimento. Mas na realidade o seu efeito principal é através da formação de bolhas, as quais por sua vez estimulam a despesa, incluindo despesa de investimento, e dessa forma aumentam a atividade e o emprego.

Quando a "bolha dotcom" dos anos noventa (o boom do mercado de ações que disparou nas costas de companhias de TI) entrou em colapso nos EUA, o então presidente do Federal Reserve Board (equivalente ao Banco Central) Alan Greenspan, reduziu a taxa de juro. Ele iniciou dessa forma uma nova bolha, a "bolha habitacional", pela qual foi muito criticado mais tarde, depois de esta ter entrado em colapso no ano de 2008.

Mas esta crítica, ainda que refletida por muitos economistas progressistas, obscurece o ponto central: ela passa por alto o viés do sistema (nomeadamente, a sua confiança em bolhas) considerando-o como mera irresponsabilidade de um indivíduo chamado Greenspan (por ter estimulado uma bolha). E esta crítica, naturalmente, surge só depois de a bolha ter estourado.

Todas as bolhas, pela sua própria natureza, implicam necessariamente a concessão de empréstimos [tipo] "sub-prime", isto é, empréstimos de instituições financeiras a pessoas que em "tempos normais" (ou seja, na ausência da bolha) não seriam consideradas com capacidade creditícia. Isto acontece porque as bolhas incham artificialmente os preços dos ativos contra os quais são feitos os empréstimos, de modo que os possuidores de tais ativos, mesmo que normalmente não fossem considerados como merecedores de crédito, ficam aptos ao crédito por causa da bolha.

Agora, se tal concessão de empréstimos é restringida porque a falta de credibilidade do tomador em "tempos normais" passa subitamente a ser tomada em consideração durante uma bolha, então a própria bolha entra em colapso, o que provoca um crash nos preços dos ativos. Isto não só trunca o boom da economia real como realmente gera uma recessão. Portanto, sob o regime neoliberal, para manter o boom em andamento a bolha tem de ser mantida, razão pela qual crédito barato tem de ser injetado no sistema – apesar do fato de ele assumir a forma de concessão de empréstimos [tipo] sub-prime.

Seja como for, todas as bolhas acabam por entrar em colapso, não importa quanto e por quanto tempo o crédito barato seja disponibilizado. E quando o fazem, o crash que se segue reflete a força da bolha: quanto mais forte a bolha maior o crash. A culpa pelo crash é então atribuída à política monetária que estimulara a bolha, sem qualquer reconhecimento de que esta mesma política monetária havia em primeiro lugar causado um boom da economia real, através da bolha.

O que aconteceu após o estouro da bolha habitacional e da recessão que provocou é uma repetição do mesmo cenário. O Federal Reserve Board mais uma vez fez cair a taxa de juro quase a zero numa tentativa de ressuscitar a economia. O argumento era de que geraria despesa, especialmente despesa de investimento; mas o investimento foi muito pouco afetado por isso. De fato ele ainda continua lerdo nos EUA.

O que uma baixa da taxa de juro fez foi começar uma nova bolha do mercado de ações, não tão pronunciada como as bolhas "dotcom" ou a habitacional, mas uma espécie de bolha no entanto. E isto por sua vez começou alguma recuperação na economia real dos EUA através do estímulo à despesa de consumo e, com isso, da economia mundial.

Esta recuperação, que foi celebrada pelo FMI e recentemente também no encontro de Davos, tem sido realmente extremamente anêmica. Em grande parte isto decorre do fato de a taxa de desemprego nos EUA ter descido para 4,1 por cento e ter assim permanecido durante quatro meses consecutivos (incluindo janeiro de 2018), o que está abaixo do nível de janeiro de 2008 (5 por cento). O que está a falhar nisto é a queda verificada no rácio emprego-população e também na taxa de participação da força de trabalho, a qual mede a proporção da população em idade de trabalhar que está ou realmente empregada ou à procura de trabalho. Em suma, mesmo no presente momento um número significativo de pessoas em idade de trabalhar não estão à procura de trabalho nos EUA, porque, na maior parte, não têm esperança de encontrá-lo. Na verdade, se assumirmos a taxa de participação da força de trabalho de janeiro de 2008 realmente obtida em janeiro de 2018, então a taxa de desemprego neste último mês seria de 6,1 por cento, a qual é ainda mais elevada do que a de janeiro de 2008.

Significativamente, mesmo esta recuperação parcial, a qual não trouxe a economia estadunidense para a posição em que estava em janeiro de 2008, ou seja, quando começou a crise, está agora a ser truncada através de um colapso do boom do mercado de ações. Este colapso começou nos EUA no princípio de fevereiro e propagou-se imediatamente por todo o mundo, incluindo a Índia. Ainda que possa parecer que o colapso foi travado posteriormente, como os fatores que o dispararam não deixaram de existir pode-se esperar na melhor das hipóteses um deslizamento tipo para-arranca (stop-go) com tendência baixista no mercado de ações nestes próximos dias.

O fator primário mencionado como explicação para o colapso do boom do mercado de ações é a expectativa generalizada de uma ascensão das taxas de juro nos EUA. Esta expectativa por sua vez é atribuída não apenas à exigência dos republicanos de taxas de juro mais altas como também ao receio de um ressuscitar da inflação no rastro desta mesma anêmica recuperação. (Quando ocorre inflação, os bancos centrais tipicamente elevam as taxas de juro a fim de controlá-la). Uma ascensão nas taxas de juros é provável que fure a bolha do mercado de ações e é o temor de que isto aconteça que está a deixar os especuladores nervosos e a provocar um colapso bolsista, mesmo antes de alguma coisa ter realmente acontecido.

A razão porque os especuladores dos EUA estão nervosos não é assunto em que precisemos deter-nos. O que é importante para nós é a fragilidade total de qualquer recuperação baseada na bolha. Na verdade, a crise estrutural do capitalismo neoliberal consiste no fato de que nele os booms não têm a espécie de fundamento "real" que costumavam ter nas fases anteriores do capitalismo.

Previsivelmente, o período de baixas taxas de juro começou agora a ser criticado por ter provocado a bolha do mercado de ações cujo colapso está a começar. Mas nunca é mencionado, mesmo depois, que foi precisamente esta bolha que causou a recuperação, ainda que anêmica, realmente verificada.

O que a atual experiência dos EUA mostra não é só o papel das bolhas na sustentação do nível de atividade sob um regime neoliberal e, portanto, o fato de as vidas de milhões de pessoas estar dependente dos caprichos de um grupo de especuladores, mas também o caráter completamente evanescente e de curta duração dos booms neste período.

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