22 de junho de 2020

Por que o Stonewall importa hoje

Stonewall não foi apenas uma revolta pelos direitos LGBT - também fez parte de um movimento mais amplo que lutou contra o racismo, a guerra e a pobreza. Para ir além do morno ativismo gay de hoje, precisamos lembrar de seu anticapitalismo.

Andy Thayer

Jacobin

Uma mulher veste uma camiseta em homenagem ao movimento pelos direitos dos gays do lado de fora do Stonewall Inn em 24 de junho de 2016 na cidade de Nova York. (Drew Angerer / Getty Images)

Tradução / A batida policial no bar Stonewall Inn, que completa 51 anos esse mês, é comumente vista como um dos principais acontecimentos na história LGBT*, eclodindo em um movimento que levou milhões ao redor do mundo a sair do armário e lutar por liberdade. Apesar de todo seu significado, o movimento iniciado pela Rebelião de Stonewall em 1969 continua sendo pobremente compreendido, inclusive por muitas pessoas LGBT radicais que cantam seus louvores.

Os atuais ativistas do Black Live Matters fazem a legítima reclamação de que os “moderados” arrefeceram as ideias radicais de bravos predecessores como Martin Luther King Jr., Ella Baker, Malcolm X e o Partido dos Panteras Negras. De forma parecida, nesse aniversário de meio século de Stonewall, devemos esperar um tratamento similar do “mainstream” LGBT, dos liberais, bem como dos conservadores, para quem Stonewall representa uma ocasião para auto-congratulação vazia, paradas com carros alegóricos e políticos enfeitados com as cores do arco-íris.

Stonewall foi um evento profundamente radical, não apenas por causa de um grupo multirracial de pessoas LGBT que se insurgiram com violência durante algumas noites contra a polícia, revidando na mesma moeda um aspecto rotineiro da opressão anti-gay.

O movimento de Stonewall destemidamente desafiou gerações de estereótipos de gênero, algo que contrastava enormemente com o movimento “homófilo” que o precedeu. Enquanto os ativistas homófilos tinham uma obsessão em provar o quão as pessoas LGBT eram “normais” e “inofensivas” para a sociedade existente, os ativistas do período de Stonewall enxergavam conscientemente a sociedade como doente e que necessitava de uma revisão radical.

Enquanto apenas uma minoria radical de ativistas LGBT denuncia a violência racial por parte da polícia e dos militares norte-americanos ao ponto de propor a abolição de ambas as instituições, durante o período de Stonewall muitos ativistas LGBT apoiaram o assumidamente radical Partido dos Panteras Negras quando ele enfrentava uma campanha de violência policial coordenada nacionalmente.

Se, hoje em dia, a maioria das organizações sem fins lucrativos LGBT não tem nada a dizer sobre as guerras que os EUA se envolvem, ou pior, se cobrem de patriotismo, a maioria das organizações locais na época de Stonewall adotaram o nome de “Frente de Libertação Gay” (FLG) em conscienciosa solidariedade com a “Frente de Libertação Nacional” vietnamita que lutava contra as tropas norte-americanas. Elas rejeitavam o nacionalismo norte-americano e tinham esperança de que os vietnamitas derrotassem os EUA e os expulsassem do país.

Resumidamente, o movimento de Stonewall foi uma antítese de uma política de respeitabilidade, representando, ao invés disso, uma política anti-opressão radical que criticava a totalidade da sociedade norte-americana.

Stonewall não foi um caso único

Apesar de algumas tentativas atrapalhadas de empalidecer o acontecimento, a maior parte dos depoimentos em primeira mão falam do Stonewall INN como um “bar risca faca” com uma clientela racializada, incluindo minoras sexual de todo tipo. Nos anos recentes, debates acalorados sobre a identidade de gênero, raça e orientação sexual da pessoa que atirou a primeira pedra em retaliação à batida policial, numa tentativa sem fim de determinar se foi uma mulher trans não-branca que a jogou, se uma mulher lésbica (de raça não especificada) que lutou ativamente enquanto a polícia tentava colocá-la numa viatura ou se foi alguma outra pessoa.

Contudo, a parte de desconstruir qualquer noção de que foi uma multidão elitista que bebericava em um coquetel da campanha de Direitos Humanos que deu início ao renascimento do nosso movimento, o debate é inútil. Isso porque o levante de Stonewall não foi algo único.

Houve no mínimo três outros levantes LGBT em relação às batidas policiais em estabelecimentos LGBT entre 1966 e 1969. Além disso, visto que Stonewall foi pobremente documentado na época – apenas um sarcástico artigo no Village Voice e algumas fotografias – é provável que tenham havido outras insurreições LGBT no período e que se perderam na história.

O que fez Stonewall especial não foram os protestos em si, mas o contexto histórico específico no qual se desenrolou e como aquele aquele contexto, por sua vez, levou pessoas LGBT a se organizarem em um movimento radical nas semanas e meses seguintes. Foi a organização pós-levante, não a insurreição em si, que fez com que o acontecimento ganhasse um status icônico em nossa história.

O poder dos movimentos de 1968-1973

O período entre 1968 e 1973 é um dos poucos momentos na história moderna dos EUA no qual não apenas pessoas LGBT, mas ativistas anti-guerra, pessoas não brancas, as mulheres, o movimento ambiental e o movimento trabalhista concretizaram, com rapidez, avanços profundamente amplos.

Embora os ganhos legislativos do movimento gay fossem escassos durante esse período, a construção do movimento que elas iniciaram foi crucial para todos os ganhos subsequentes. Pela primeira vez na história norte-americana, eles estabeleceram o movimento gay como uma entidade pública amplamente reconhecida a qual pessoas recém assumidas pudessem facilmente se juntar e começar a se organizar, um passo decisivo que ajudou milhões de outras pessoas a se assumir e, portanto, expandir a auto-identidade da comunidade gay para milhões de pessoas.

As pessoas LGBT eram parte de uma grande efervescência ativista. Ativistas Black Powers, através do exemplo dos “programas de sobrevivência” do Partidos dos Pantera Negras, forçou que o programa com vale refeição para alimentar pessoas pobres fosse quadruplicado. O governo profundamente racista de Nixon foi forçada a introduzir ações afirmativas em escala nacional, de tal amplitude nunca vista antes ou depois. O revitalizado movimento de mulheres se organizou nas ruas e violou a lei para realizar ações diretas sobre a provisão de serviços de aborto, levando uma Suprema Corte anti-abortista e repleta de apoiadores de Nixon a resignadamente reconhecer o direito à interrupção da gravidez n] o Caso Roe contra Wade, em 1973.

Membros comuns de organizações de trabalhadores das minas, do setor automobilístico, caminhoneiros e do serviço postal impuseram uma reestruturação drástica de lideranças sindicais esclerosadas, corruptas e anticomunistas, levando a greves espontâneas contra patrões racistas, vitimização de ativistas sindicais e aceleração da produção, fazendo com que o ano 1973 testemunhasse um pico no salário real dos trabalhadores nortes-americanos que não encontrou paralelo desde então.

Um massivo movimento ambiental que pareceu ter nascido da noite para o dia estava forçando o governo pró-empresas de Nixon a assinar legislações ambientais abrangentes, implementando a Agência de Proteção Ambiental e expandindo rapidamente o poder de leis até então débeis como a de Proteção de Espécies Ameaçadas, a de Ar Puro e a de Água Pura.

Por fim, em aliança com a luta vietnamita pela autodeterminação de seu país e com ativistas por todo o mundo, um movimento anti-guerra penetrou em praticamente todo aspecto da vida norte-americana – sobretudo a militar. Isso forçou a derrota do poder imperial mais poderoso que se tem notícia na história. Por quase duas décadas depois do conflito, a “Síndrome Vietnamita” conteve subsequentes presidentes de realizar invasões contra outra nação por um tempo – com exceção das menores. Assim, tal arranjo de coisas sem dúvidas salvou milhões de vidas negras durante aquele período.

Nenhum desses movimentos poderia declarar vitória definitiva. Muitos estão esvaziados e mal organizados hoje em dia. Porém, em seus auges eles exerceram um poder que forçou o outro lado a fazer concessões dramáticas – ganhos que Trump e todos os seus predecessores tem se esforçado para reverter.

A não ser quando destroem revolucionariamente a antiga ordem, todos os movimentos na história eventualmente declinam. Porém, o curso que seguem nunca é linear: às vezes eles são pontuados por choques profundos, tais como a Rebelião de Stonewall em um sentido positivo e, às vezes, no sentido negativo, por eventos como a Grande Depressão e a vitória do Nazismo que assassinou o maior movimento gay centrado na Alemanha, em 1930. Atualmente, a maioria dos indícios aponta que o movimento LGBT nos EUA atingiu o pico há vários anos, antes da posse de Trump.

Em franco contraste com as organizações totalmente voluntárias e dirigidas pelos membros da época de Stonewall, as organizações LGBT contemporâneas são dirigidas por grupos de funcionários dependentes de financiamento institucional e de doadores ricos que direta ou implicitamente controlam suas políticas, sempre garantindo que os poderosos patrocinadores não sejam contrariados. Os “líderes” passam por uma porta giratória infinita de ONGs, fundações, consultorias e postos do Partido Democrata e de suas campanhas.

Ao invés de corajosas organizações da época de Stonewall, hoje em dia nosso movimento é dominado por organizações “sem fins lucrativos” engessadas e dirigidas por diretores executivos com salários de seis dígitos que se empavonam em festas finas. O radicalismo dos nossos dias tem sido substituído por discursos radicais sobre “teoria queer” academicista, astroturfing “virtual” e redes sociais são um substituto para organização de base.

Deveríamos nos surpreender que toda semana venha a tona algum ataque aos direitos LGBT, especialmente os direitos de pessoas trans?

Se nós realmente queremos mudanças rápidas e abrangentes tais como as que o movimento da época de Stonewall foi capaz de fazer, temos de nos perguntar: o que fez com que aqueles ativistas se organizassem de forma tão efetiva?

Engajamento massivo e descontentamento com grandes partidos

Diversos relatos do movimento que precedeu Stonewall indicam que uma seção do antigo movimento homófilo, que surgiu em 1950, estava cada vez mais fortemente influenciada pelo radicalismo dos ascendentes movimentos negro, de mulheres e anti-guerra. Entretanto, apontar essas influências genéricas ainda não esclarece porque os ativistas mudaram tão radicalmente o curso após os atos em Stonewall, em contraste com a ausência desse tipo de mudança de conduta após algumas outras insurreições LGBT que aconteceram antes, como o levante de 1966 na Cafeteria Compton, em São Francisco.

Historiadores da causa LGBT indicaram que muitos dos líderes da época do ativismo de Stonewall eram pessoas que já haviam se engajado ativamente em outros movimentos, especialmente no movimento contra a guerra no Vietnam. Porém, nenhum deles observou os debates entre 1968 e 1969 no interior dos movimentos antiguerra, e menos ainda o rápido desenvolvimento do movimento Black Power nesse mesmo período, ambos que exerceram profunda influência naqueles ativistas.

Dessa forma, eles falham em explicar a política na qual estavam imersos os jovens ativistas das Frentes de Libertação Gay. Foi, de fato, essa política – uma política de ação direta e de auto-emancipação – que permitiu um movimento LGBT de massa nascer após Stonewall e que transformou profundamente a percepção de si mesmas de muitas pessoas LGBT.

Conforme escrevi em outra ocasião, os anos entre 1968 e 1973 foram um desses breves momentos na história dos EUA no qual dois fatores essenciais e igualmente necessários convergiram para produzir as mudanças mais abrangentes e progressivas na história LGBT: 1) engajamento social em massa; e, muito menos comentado pelos historiadores, 2) a alienação em massa dos partidos políticos hegemônicos. Ambos os fatores produziram a “tempestade perfeita” que deu origem aos movimentos radicais de 1968-1973 e, por sua vez, forçaram o rápido progresso que fez daquele período um farol para todos aqueles que desejam avanços rápidos hoje em dia.

Para entender o porquê disso ter ocorrido, primeiro devemos retroceder os ponteiros do relógio para algumas décadas anteriores. O engajamento em massa na política associado com os anos 1960 remonta ao período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial. Logo após a guerra, veteranos negros que arriscaram suas vidas lutando pela “democracia” retornaram para a segregação do país de Jim Crow e à violência racista que o sustentava. Em 1954, a decisão no caso Brown contra o Conselho de Educação de Topeka, na Suprema Corte, revogou formalmente a lei de segregação, mas não fez qualquer coisa para instalar mudanças; na verdade, espalhava a mentira de que a democracia norte-americana era para todos.

Essa contradição entre promessa e realidade foi a principal força motriz por trás do épico boicote ao transporte coletivo em Montgomery, Alabama, entre 1955 e 1956, que incendiou um relutante Martin Luther King Jr em sua jornada para se tornar um herói dos direitos civis. O movimento adquiria poder não apenas do engajamento social em massa da comunidade negra daquela cidade, mas também, de forma igualmente importante, do novo movimento de aguda desconfiança dos dois principais partidos políticos. Enquanto o pai de King e sua geração de ativistas negros abraçaram abertamente o Partido Republicano como o partido da liberdade desde a Guerra Civil, os ativistas da geração King Junior questionavam o que o partido havia feito pelas pessoas negras desde a abolição da escravidão.

Sendo os democratas o partido da Klan e de Jim Crow, ambos os partidos representavam uma barreira para os negros do sul que desejavam mudanças. Eles não conseguiam tirar outra conclusão a não ser que a liberdade deveria ser resultado de seus próprios esforços.

Foi nesse espírito de independência e auto-emancipação que eles levaram adiante o movimento que desembocou na grande Marcha de Washington, em 1963, na qual ambos os partidos foram mantidos à distância e os organizadores recusaram recuar e cancelar a marcha, enfrentando a demanda do Procurador Geral General Robert Kennedy. Foi dessa maneira que eles forçaram a ilustre legislação de direitos civis na metade dos anos 1960 e colocaram oficialmente um fim ao apartheid nos EUA.

Um espírito de independência e autodeterminação semelhante projetou-se sobre as pessoas LGBT a partir de eventos anteriores a Stonewall, o que explica porque a reação aquele ataque policial específico foi muito diferente das reações a investidas policiais violentas similares antes dele.

Em 4 abril de 1967, Martin Luther King Jr. se tornou um heroi do movimento antiguerra, incluindo seus jovens ativistas que iriam mais tarde povoar o movimento LGBT, quando ele proferiu seu discurso histórico contra a Guerra do Vietnam, na Igreja de Riverside. Por causa disso, ele foi severamente denunciado em centenas de editoriais jornalísticos. Tanto os principais comentadores liberais quanto conservadores, quanto líderes populares dos direitos civis, o atacaram. Apenas militantes pelos direitos civis e o incipiente movimento antiguerra ficaram ao seu lado.

Um ano depois, em Memphis, Martin Luther King foi assassinado durante uma manifestação de apoio à greve dos trabalhadores do saneamento. Protestos explodiram em praticamente toda cidade dos EUA, uma expressão de quão profundamente alienados a maioria dos negros estava da “democracia” norte-americana. Justamente a pessoa que se empenhou obstinadamente para reformá-la se tornou uma vítima fatal da violência racista, sugerindo para muitos que o sistema político estava irrevogavelmente falido.

Apesar disso, muitos jovens ativistas brancos ainda depositavam alguma fé no sistema. Nas eleições de 1964, a entidade majoritariamente branca Estudantes pela Sociedade Democrática apoiou Lyndon Johnson, que em sua campanha se colocava como um candidato da “paz” contra Barry Goldwater, abertamente pró-guerra e ideologicamente de direita. “Com LBJ é meio caminho andado” era o slogan da juventude ativista anti-guerra – eles gostavam de seus programas domésticos, mas desaprovavam a guerra e acreditavam na promessa que ele acabaria com ela. Ao vencer as eleições, LBJ intensificou dramaticamente a Guerra do Vietnam.

Quadro dias depois, Martin Luther King foi assassinado, assim como Robert Kennedy dois meses antes. Kennedy reformulou a si mesmo como um candidato “anti-guerra”, energizando muitos jovens ativistas; agora ele estava morto.

Avançando para a Convenção democrata de 26-29 de agosto de 1968, muitos jovens ativistas antiguerra ainda tinham esperanças que o sistema se auto-corrigisse. Muitos estavam alinhados com o candidato “antiguerra” remanescente, Eugene McCarthy. O candidato pró-guerra, o vice presidente Humbert Humphrey, não havia ganho nenhuma primária nos Estados. Entre eles, Kennedy e McCarthy acumulavam 68,7% dos votos democratas das primárias. Seria impossível um candidato pró-guerra ganhar, certo? Fora dos auditórios da convenção, a força policial do prefeito Richard J. Daley expulsou aos pontapés qualquer esperança na democracia norte-americana que restava na cabeça dos ativistas anti-guerra.

A fé na democracia norte-americana e em seus dois partidos políticos foi despedaçada entre grande parcela dos jovens ativistas negros e brancos – muitas das mesmas pessoas que, meses depois, começaria a ampliar as fileiras dos grupos recém formados da Frente de Libertação Gay que se espalharam por todo o país. Com a falência dos políticos e de seus partidos, a mudança teria de ser feita pelas próprias pessoas.

Ao invés de tentar persuadir experts e políticos a “tolerar” e “aceitar” pessoas LGBT, como o antigo movimento homófilo tentou fazer, a missão agora era rejeitá-los e começar a construir uma nova sociedade para elas próprias. Denunciando o auto-ódio, a antiga abordagem conivente de seus antepassados homófilos, os novos ativistas proclamavam com orgulho “Gay is Good!” assim como os primeiros ativistas Black Power celebravam “Black is Beautiful!” e as mulheres exaltavam o “Woman Power!”. Por conta de toda sua experiência prévia em termos de organização, muitos poucos ativistas do antigo movimento homófilo dos anos 1950 e 1960 fizeram a transição para o novo movimento radical.

Um racha no movimento

A conquista formal de igualdade para pessoas negras na metade do ano de 1960 desencadeou uma ruptura nos movimentos pelos Direitos Civis. Sob o apartheid norte-americano, pessoas negras de todas as classes foram severamente reprimidas e exiladas dos corredores do poder econômico e político. Com exceção de uma minúscula minoria, isso continua vigorando. A despeito disso, uma minoria relativamente privilegiada da comunidade negra aproveitou a oportunidade apresentada pela igualdade formal para engendrar para si mesma carreiras como porta-vozes de todas as pessoas negras, às vezes às custas da própria comunidade.

Tendo conquistado a igualdade formal, a única “igualdade” que eles buscavam era com outros da mesma classe socioeconômica. Toda a conversa sobre “diversidade” parece nunca incluir classe.

Um processo similar já está bem avançado entre as pessoas LGBT que se seguiu à conquista de igualdade formal em várias localidades norte-americanas ao longo da última década. Uma minoria alcançou posições de poder no interior do Partido Democrata, mas o poder que detém raramente beneficiou a maioria das pessoas LGBT. Às vezes é justamente o oposto.

O congressista Barney Frank, um dos primeiros parlamentares LGBT, perdoou o presidente Clinton por retroceder na promessa de direitos empregatícios igualitários nas forças armadas, ao ponto de apresentar ao Congresso a infame lei “Don’t Ask, Don’t Tell”, em 1993, responsável pela expulsão de um número maior de pessoas LGBT do exército do que qualquer outra política anterior. Frank também apunhalou pelas costas os direitos de pessoas transgênero quando ele e Nancy Pelosi as eliminou da lei de Livre Escolha dos Empregado, no governo Obama.

Ao invés de apoiar direitos maritais igualitários, sob o qual milhões de pessoas LGBT podem hoje ter seguro de saúde para seus companheiros e companheiras e conquistar a guarda legal de seus filhos e filhas, Frank foi complacente com a administração de Clinton quando esta promoveu a sórdida “Lei de Defesa do Casamento” que retrocedeu nosso movimento em vários anos e foi usada como um cacetete para atacar uma ampla variedade de direitos LGBT. Pior ainda, mesmo quando alguém de seu próprio partido, o então prefeito de São Francisco Gavin Newson, começou a reconhecer casamentos homoafetivos em 2004, Frank e todos os outros líderes do partido Democrata o denunciaram.

Hoje em dia não é difícil encontrar políticos LGBT que buscam efetivar políticas que estão em desacordo frontal com os interesses da maioria das pessoas LGBT, tais como oporem-se ao aumento de salários mínimos, apoiar gentrificação, atacar pessoas desabrigadas ou apenas operando máquinas políticas – tudo camuflado com as matizes do arco-íris.

Assim como certas camadas de pessoas negras abandonaram o movimento depois que o Movimento pelos Direitos Civis conquistou a igualdade formal, uma certa camada das pessoas LGBT decidiram, depois que conquistaram muitos dos elementos de igualdade formal em grandes cidades, além dos direitos ao casamento por todo o país, que eles haviam “garantido o seu quinhão” e abandonaram a luta por plena igualdade genuína.

O abandono do nosso movimento por parte de muitos gays da “lista A” fez com que alguns radicais LGBTQ se desanimassem. Mas não precisa ser assim.

Os movimentos pelos Direitos Civis passou por uma transformação similar na segunda metade dos anos 1960 e mesmo assim isso não impediu a explosão do movimento Black Power nos anos 1968-1973. De fato, em muitos aspectos, aquele racha anterior foi um pré-requisito para essa explosão, aprimorando as análises do capitalismo norte-americano pelos Panteras Negras, pelo Movimento do Sindicalismo Revolucionário de Dodge e outros grupos Black Power.

Por mais que nós queiramos concretizar o tipo de dinâmica impactante dos movimentos que vimos no período entre 1968 e 1973, desejo e trabalho duro sozinhos não são suficientes para fazê-lo acontecer. Havia um arranjo particular de circunstâncias históricas que impulsionou os ativistas, geralmente anônimos, do período de Stonewall a lançar mão de um conjunto de políticas que via como única fonte de libertação as ações que partissem deles mesmos, ao invés de políticos, celebridades e os abastados que se beneficiam do status quo.

Essas políticas independentes, por sua vez, encontraram terreno fértil entre um grande número de pessoa “não-políticas” desgostosas tanto com os Democratas quanto com os Republicanos, e ainda assim otimistas o suficiente a respeito da perspectiva de mudança ao ponto de começarem eles mesmos a efetivar.

No início dos anos 1950, quando os radicais do entorno de Harry Hay, a maioria ex-membros do Partido Comunistas como ele mesmo também era, refundaram o movimento gay nos Estados Unidos com a Sociedade Mattachine, eles o fizeram em solo pedregoso. Com o extermínio de suspeitos “vermelhos” e homossexuais na era McCarthy, os tempos eram tão reacionários que nenhuma força de vontade seria suficiente para criar um movimento gay de massa.

É notável que um aspecto central da política de Hay possua semelhanças marcantes com a política de Stonewall, movimentos distantes duas décadas: tendo como base o seu ativismo contra o racismo anti-negro, ele via as pessoas gays como um grupo de pessoas oprimidas pela sociedade heterossexual e que merecia plena igualdade com não-gays. Dando eco ao slogan “Gay is Good!” de uma geração posterior, foi a sua visão de que não havia espaço para auto-depreciação e apelos patéticos por tolerância dos “experts” e políticos que passou a caracterizar o movimento homófilo depois que ele e seus colegas mais próximos foram expulsos do Mattachine.

Classe e movimentos radicais

Felizmente, as atuais circunstâncias são, de diversas formas, muito mais favoráveis para que movimentos de massa emerjam. Uma delas é que, hoje em dia, dezenas de milhões de pessoas LGBT já estão fora do armário e auto-conscientes em vários países.

Assim como o capitalismo pró-negro deixou a maior parte dos negros para trás no fim dos anos 1960, podemos ver o capitalismo pró-rosa fazendo o mesmo com a maioria das pessoas LGBT.

O acesso de pessoas LGBT em posições da alta política não se traduz mais em igualdade para a classe trabalhadora de pessoas LGBT, assim como a presença de negros e negras em altas posições não se traduz em igualdade para toda a classe trabalhadora negra. Um punhado de suítes corporativas e leis formais contra discriminação não muda o fato de que a discriminação nos espaços de trabalho persista, especialmente contra pessoas trans e interssexuais.

Muitos de nós nascemos em famílias que odeiam quem nós somos. Toda a igualdade formal do mundo não moveu uma palha para mitigar problemas como a juventude em situação de rua, as doenças mentais e o abuso de substâncias que frequentemente resulta dessa realidade de ódio. Fora as mudanças que as Alianças Gay-Hétero lideradas pala juventude implementaram, pouco progresso tem sido feito para tornar as escolas públicas de toda a nação em espaços de afirmação e aceitação universal de pessoas LGBT, algo urgente na medida em que pais, guardiões e outros adultos são hostis.

Na metade dos anos 1960, com sacrifícios muito maiores, o Movimento Negro pelos Direitos Civis conquistou a igualdade formal, de forma que os ativistas do Black Power e Martin Luther King, em sua maturidade, puderam apontar que muitos outros avanços, inclusive mais onerosos, eram urgentemente necessários para transformar a vida da maior parcela de sua comunidade.

Da mesma forma, gays, lésbicas e bissexuais já alcançaram boa parte das conquistas fáceis e baratas que o neoliberalismo estava disposto a conceder – direitos de casamento igualitário, direitos empregatícios e de igualdade de habitação na maior parte das grandes cidades, direito de ingresso na carreira militar, etc – justamente porque essas concessões custaram pouco ou quase nada aos nossos “aliados” neoliberais. Mudanças realmente monumentais que custam bilhões em capital político e monetário, tais como moradia para todos, incluindo nossa juventude LGBT desproporcionalmente sem lar, educação LGBT-afirmativa em todas as escolas públicas, assistência médica gratuita que atenda às necessidades das pessoas LGBTQI, etc – sequer fazem parte da conversa.

As lições de Stonewall hoje

Os desafios à nossa frente são intimidadores. A extrema direita expande sua marcha por muitos países ao redor do planeta. A mudança climática potencialmente assassina pode em breve se tornar irreversível. Vinte e seis bilionários possuem a riqueza equivalente a da metade da população do planeta e recursos incalculáveis são desperdiçados em guerras e em “segurança”. Políticos neoliberais que se apresentam como alternativa a Trump nos oferecem vernizes de igualdade e nos dizem que não existem recursos suficientes para amplas mudanças. Na verdade, a falha dos democratas liberais em ceder a artificialidades igualitárias – enquanto prestam socorro aos bancos – é o que ajudou a pavimentar o caminho para Trump. Outros políticos prometem que algumas das mudanças mais abrangentes são necessárias, mas o compromisso deles com o controle que os Estados Unidos exerce no mundo e os gastos militares que isso implica transformam essas promessas em deboche.

De forma mais fundamental, suas promeSsas explícitas ou implícitas de que mudanças massivas só virão através de abordagens “do topo para a base” que os eleja (e outros democratas também) para enfim realizar as mudanças para nós é a antítese do que foi o movimento de Stonewall. Na história LGBT, “reformas vindas de cima”, como a promessa de Bill Clinton de acabar com discriminação em posições no corpo militar e a portaria de direitos de Dade County, na Flórida, em 1977, tem frequentemente causado mais desastres do que progresso.

A maior parte dos ganhos fáceis e não onerosos da conquista da igualdade formal ficaram para trás. As conquistas mais onerosas e intimidadoras – moradia para todos, assistência médica gratuita para todos, educação pró-LGBT em todas as escolas públicas – irão requerer um poder no mínimo parecido aquele reunido pelos movimentos de 1968-1973. Aqueles movimentos mostraram que mesmo um racista, homofóbico e intolerante como Richard Nixon podem ser forçados a fazer concessões gigantescas.

A chave para tais movimentos poderosos está não apenas em questões de tamanho, mas também em sua independência dos dois principais partidos. Com o ódio legítimo a Trump em alta e os democratas ansiosos em retomar ao poder, nosso desafio para os próximos dois anos ou mais não é apenas fortalecer numericamente esses movimentos, mas também impedir que sejam cooptados e domesticados pelo Partido Democrata.

As lições que o movimento de Stonewall e os seus movimentos irmãos legam para os dias de hoje são que os únicos mecanismos para grandes mudanças que precisamos está nas lutas de base. O poder para mudanças reais está fora dos partidos – está no poder que as pessoas possuem para libertar a si mesmas através de seus próprios esforços e organizações.

Colaborador

Andy Thayer é cofundador da Rede de Libertação Gay LGBTQ, que parte de uma abordagem interseccional de organização ao apoiar também o direito de aborto, direitos de imigrantes, a causa do anti-racismo e da anti-violência policial, a luta dos palestinos e o ativismo anti-guerra.

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