Em uma análise lúcida e histórica, Adam Przeworski examina as raízes econômicas, sociais e morais das crises democráticas contemporâneas, afastando-se do alarmismo e revelando os dilemas internos que desafiam as democracias liberais do século XXI.
Editorial
Choldraboldra
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| Cambridge University Press |
Adam Przeworski
Crises of Democracy
Cambridge: Cambridge University Press, 2019. 239 p.
Adam Przeworski, um dos mais influentes cientistas políticos contemporâneos, volta a interrogar as bases da democracia representativa em Crises of Democracy. Longe de adotar o tom alarmista comum em diagnósticos recentes sobre o “declínio democrático”, o autor propõe uma análise sóbria e historicamente informada sobre as tensões internas e estruturais que corroem as democracias liberais de hoje.
O ponto de partida de Przeworski é uma pergunta aparentemente simples, mas de implicações vastas: a democracia está realmente em crise? Para respondê-la, ele recusa explicações simplistas que apontam apenas o populismo, o autoritarismo ou as fake news como causas isoladas do problema. Em vez disso, argumenta que as atuais ameaças são intrínsecas às condições econômicas, sociais e culturais das próprias democracias contemporâneas — e não meramente produtos de forças externas.
Przeworski retoma um de seus temas centrais: a tensão permanente entre igualdade política e desigualdade econômica. Ele mostra que a promessa democrática — a de que todos os cidadãos têm igual voz nas decisões coletivas — tornou-se crescentemente incompatível com as estruturas de poder e riqueza do capitalismo globalizado. À medida que o crescimento econômico estagna, os partidos tradicionais se deslegitimam e o Estado perde capacidade de promover bem-estar, cresce o desencanto com a política representativa.
O livro se estrutura como um amplo panorama histórico-comparativo. Przeworski revisita colapsos democráticos anteriores (como os dos anos 1930 e 1970) para mostrar que, embora as causas variem, há padrões recorrentes: polarização social, desigualdade crescente, desconfiança nas instituições e percepção de que os governos já não respondem às necessidades da maioria. No entanto, ele adverte que a história não se repete mecanicamente — as crises atuais têm origens mais difusas, ligadas à globalização, à transformação do trabalho e à erosão dos laços sociais.
Ao longo da obra, o autor mantém um equilíbrio entre realismo e ceticismo esperançoso. Ele rejeita tanto o pessimismo fatalista quanto o otimismo ingênuo: “devemos desconfiar do dilúvio de textos que afirmam ter todas as respostas”, escreve. Sua proposta é intelectual e política: compreender as contradições da democracia sem transformá-las em profecia de ruína.
O estilo do livro é caracteristicamente claro e argumentativo. Przeworski evita jargões técnicos, buscando dialogar não só com cientistas sociais, mas também com um público amplo preocupado com o futuro das instituições democráticas. Sua escrita combina rigor analítico e prudência intelectual — virtudes raras em tempos de interpretações apressadas e polarizadas.
Em síntese, Crises of Democracy é uma obra fundamental para pensar a democracia como experiência histórica e processo inacabado. Ao situar as atuais turbulências dentro de um quadro de longa duração, Przeworski convida o leitor a olhar além do imediatismo da política cotidiana e a reconhecer que a crise da democracia talvez seja menos um colapso do regime do que um espelho de nossas próprias contradições sociais e morais.

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