1 de janeiro de 2002

Não é uma relíquia marxista mas um guia para a ação

Por ocasião do centenário da publicação do livro de V.I. Lénine Que Fazer? Problemas Candentes do Nosso Movimento.

Irina A. Murátova

Markcism e Sovremennost

Nos nossos dias ouvimos não raras vezes que os comunistas devem responder aos desafios que são colocados pelo nosso século. Por tais desafios subentende-se habitualmente a alteração das condições históricas e as complexas questões relacionadas com os acontecimentos que conduziram à liquidação do socialismo na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e as suas consequências para o mundo no seu conjunto. Pensamos, no entanto, que o principal desafio dos comunistas, hoje, está no legado revolucionário teórico e prático de Vladimir Ilitch Lênin, em exclusiva conformidade e concordância com o qual, e aferindo por ele a nossa estratégia e tática, podermos dar verdadeiramente uma resposta prática comunista às exigências da atualidade.

De fato, os pungentes trabalhos de polêmica e crítica de Lênin dirigem-se aos comunistas de hoje, não em menor, mas até em maior medida do que aos seus contemporâneos, companheiros e adversários. Isto é uma evidência para quem consulta sistematicamente os escritos de Lênin em geral e, em particular, a obra Que Fazer? Problemas Candentes do Nosso Movimento.

A brochura de Lênin foi escrita em 1902, num período de divergências, quando a principal atenção da social-democracia russa se concentrava no esclarecimento e resolução de questões partidárias internas. Havia pouco, no período entre 1894 e 1898, a social-democracia alcançara unidade ideológica e foram empreendidas tentativas para alcançar também a unidade na atividade prática, organizativa (fundar o Partido Operário Social-Democrata da Rússia). Nessa altura, a atenção dirigia-se para luta ideológica contra os adversários da social-democracia, por um lado, e para o desenvolvimento do trabalho partidário prático, por outro. Como tarefas via-se o aprofundamento e alargamento do trabalho prático, uma vez que não se levantavam quaisquer obstáculos ao nível dos pontos de vista gerais, princípios e da teoria, dado que na altura ainda não tinham surgido dificuldades na combinação da luta política com a luta econômica. Entre a teoria e a prática dos sociais-democratas ainda não havia o antagonismo que surgiu na época do "economicismo" (entre os anos de 1897-1898 e 1902), quando se agudizou bruscamente a contradição entre a teoria, programa, objetivos táticos e a prática da social-democracia. Foi nesta sequência que se tornou necessário realizar uma "clarificação dos pressupostos teóricos do trabalho prático", antes de se encarar novamente o seu aprofundamento e alargamento. A necessidade de uma "'explicação' sistemática (…) com todos os 'economistas' sobre todos os pontos capitais" das divergências exigia começar ab ovo (desde o princípio) e analisar as dificuldades do ponto de vista da única teoria do socialismo revolucionário, só conhecida da humanidade contemporânea, isto é, o marxismo, o qual uma parte dos sociais-democratas pretendia meter na gaveta com base numa crítica oportunista e burguesa. A falta de princípios e de ideologia acabaria por levar estes últimos a colaborarem com os liberais. A exigência de "'uma atenção vigilante para o aspecto teórico do movimento revolucionário do proletariado'" e o apelo a criticar implacavelmente as tendências anti-revolucionárias haviam sido feitos em 1899, quando a "crise do marxismo estava, desde há muito, na ordem do dia".

O desenlace desta luta teórica, e a saída desta crise, consistia na ruptura definitiva da tendência revolucionária com a tendência oportunista. O descuido em relação à teoria dá frutos amargos na prática. Lénine sublinha que «precisamente durante a revolução nos farão falta os resultados da luta teórica contra os críticos para lutar resolutamente contra as suas posições práticas!» Tal é a importância histórica da orientação iskrista-leninista.

Mas também hoje a crítica leninista aos «críticos» não só não perdeu a sua importância, como se tornou ainda mais actual. Com efeito, partido e organização combativa de revolucionários não são para cada comunista uma e a mesma coisa, com todas as consequências teóricas, políticas e organizativas que daí decorrem. Com frequência ouvem-se vozes entre os membros do partido de que, alegadamente, a revolução não é um assunto actual, de que o carácter revolucionário e de classe na teoria e na prática é hoje descabido. Sobre a ditadura do proletariado, caso não se tenha já renunciado ao princípio, o melhor é omiti-la, não é popular Socialização da propriedade? Também é melhor não a realçarmos, para não assustar, disfarcemos. Não será a nós que Lénine dirigiu a seguinte exigência: «Histórica e logicamente (…) toda a tendência revolucionária, se pensa realmente numa luta séria, não pode prescindir de [uma] organização revolucionária [de combate].» E tal organização só é possível se assentar numa base teórica firme e se se guiar por teoria revolucionária.

Sem teoria revolucionária não é possível um movimento revolucionário. Por exemplo, Lénine considerou que o grande mérito histórico dos [Lénine refere-se aqui à organização de combate dos partidários de «A Vontade do Povo» foi o facto de terem procurado «integrar todos os descontentes na sua organização e orientá-la para a luta decidida contra a autocracia». «O seu erro», segundo Lénine, «consistiu em se terem baseado numa teoria que, na realidade, não era de modo algum uma teoria revolucionária, e não terem sabido, ou não terem podido, estabelecer um ligação firme entre o seu movimento e a luta de classes no seio da sociedade capitalista em desenvolvimento.»

Não será a nós que é dirigido o reparo de Lénine de que «só a mais grosseira incompreensão do marxismo (ou a sua «compreensão» no sentido do “struvismo”) pode levar à opinião de que o aparecimento de um movimento operário espontâneo de massas nos exime da obrigação de criar uma organização de revolucionários tão boa como a dos partidários da “Terra e Liberdade”, ou até incomparavelmente melhor». O movimento operário, pelo contrário, «impõe-nos precisamente esta obrigação, porque a luta espontânea do proletariado não se transformará na sua verdadeira “luta de classe” enquanto não for dirigida por uma forte organização de revolucionários». «Se começarmos por estabelecer de uma maneira sólida uma forte organização de revolucionários, podemos assegurar a estabilidade do movimento no seu conjunto».

Não assistimos hoje também a essa fuga às responsabilidades que Lénine desmascarou, e que agora ressurge sob o pretexto de que os operários são indiferentes, não lutam, de que não existe um movimento operário minimamente importante (quanto mais revolucionário!), de que o papel histórico da classe operária está a tornar-se duvidoso, e que, portanto, não é tempo para organizações revolucionárias? Não serão os comunistas que pensam deste modo, consciente ou inconscientemente, porta-vozes das ideias que Lénine classificou sem rodeios de pequeno-burguesas, insistindo incessantemente na necessidade de romper com elas? Poder-se-á apresentar tais ideias a coberto do estandarte da militância comunista? Lénine, ao exigir a ruptura definitiva com as ideias pequeno-burguesas sobre o socialismo, sublinhou o seu carácter «INCONTESTAVELMENTE reaccionário, por quanto se apresentam na qualidade de teorias socialistas".

"As teorias destes ideólogos da pequena burguesia, que se apresentam na qualidade de representantes dos interesses dos trabalhadores, são abertamente reaccionárias», neste ponto Lénine é categórico. «Dissimulam o antagonismo das actuais relações socioeconómicas (…), raciocinando como se a situação pudesse ser remediada com medidas de ordem geral, destinadas a satisfazer todos e a assegurar o “crescimento”, a “melhoria”, etc., como se fosse possível conciliar e unir. São reaccionários porque apresentam o nosso Estado como algo que está acima das classes e seria por isso apropriado e capaz de prestar uma ajuda minimamente séria e honesta à população explorada. «São reaccionários, por fim, porque não compreendem em absoluto a necessidade da luta, de uma luta encarniçada dos próprios trabalhadores para a sua emancipação. (…) Ao ouvi-los parece que seriam capazes de arranjar tudo por si próprios. Os operários podem ficar tranquilos." "Romper RESOLUTAMENTE e DEFINITIVAMENTE com todas as ideias e teorias pequeno-burguesas – eis a principal lição preciosa», que Lénine exige que seja retirada da sua campanha contra os representantes de uma das tendências deste tipo de ideias socialistas pequeno-burguesas.

O marxismo «legal», oficial, burguês não é um fenómeno exclusivo do nosso tempo. Se confrontarmos as ideias expostas de forma tão completa e definida por Lénine com as ideias actuais de socialismo, não só entre socialistas como também entre comunistas, convencemo-nos do seu carácter pequeno-burguês (de pequenos proprietários), de que pertencem ao mesmo tipo de ideias com as quais Lénine insiste na necessidade de romper. E devemos insistir nisto tanto quanto já naquele tempo estas ideias e correspondente táctica demonstraram que «na falta de uma crítica materialista das instituições políticas, e sem uma compreensão do carácter de classe do Estado contemporâneo, do radicalismo político ao oportunismo político não é mais que um passo».

Porém, não podemos dizer que a maioria dos comunistas actuais debate os problemas candentes do seu movimento com a mesma paixão e frontalidade com que Lénine o faz neste notável livro que, no seu tempo, levou para o debate aberto entre correligionários as questões mais candentes do movimento operário. Lénine qualificou de surpreendente miopia a atitude daqueles que encaravam a polémica e o debate como algo «inconveniente». Para informação de todos os adversários da clareza, da intransigência, do ardor da polémica, etc., refira-se que Lénine colocou como epígrafe na capa do seu livro um extracto de uma carta de Lassalle a Marx, de 24 de Junho de 1852, onde se sublinha algo que a lógica burocrática não será sequer capaz de suspeitar, nomeadamente: «A luta de partido dá ao Partido força e vitalidade; a maior prova da fraqueza de um partido é o seu amorfismo e o esbatimento de fronteiras nitidamente delimitadas; o Partido reforça-se depurando-se».

A análise de Lénine das principais divergências do movimento serviu precisamente para delimitar fronteiras entre os partidos da revolução social e os partidos democráticos das reformas sociais, bem como contribuiu para intensificar a luta da social-democracia revolucionária contra a burguesia social-reformadora. O trabalho Que Fazer? revelou a profunda diferença qualitativa entre as ideias dos democratas e dos socialistas, ajudou a tomar consciência do abismo que as separa, permitiu compreender a inevitabilidade e a necessidade imperiosa da ruptura total e definitiva com as ideias dos democratas. Permitiu compreender, com a mesma clareza, que «socialismo é o protesto e a luta contra a exploração dos trabalhadores, luta orientada para a supressão completa desta exploração», e que remediar e remendar a sociedade burguesa actual, em vez de a combater, é a principal concepção teórica dos democratas que permanecem no campo das relações sociais vigentes, que vêem no órgão do Estado, que se desenvolveu no quadro desta sociedade burguesa e que protege os interesses das classes nela dominantes, o instrumento para as reformas. Por fim, o livro contribuiu para o rompimento definitivo da corrente revolucionária com a corrente oportunista, de que atrás se falou. «Infinita humilhação e auto-aviltamento do socialismo perante o mundo inteiro, corrupção da consciência socialista das massas operárias – a única base que nos pode assegurar a vitória», foi assim que Lénine qualificou as acções dos partidários europeus dos «partidos das reformas», que concebem a democracia como a eliminação da dominação de classe e a colaboração de classes, e introduzem no socialismo elementos e ideias burguesas.

Fechando os olhos ao antagonismo entre os interesses da classe operária e os interesses da burguesia, a corrente oportunista no socialismo e no proletariado corrompeu a consciência socialista, banalizando o marxismo, propagando a teoria da amenização das contradições sociais, declarando absurda a ideia da revolução social e da ditadura do proletariado, reduzindo o movimento operário e a luta de classes ao trade-unionismo estreito e à luta «realista» por pequenas reformas graduais. Isto «era exactamente o mesmo que se a democracia burguesa negasse o direito do socialismo à independência e, por consequência, o seu direito à existência; na prática isto significava tender a converter o nascente movimento operário em apêndice dos liberais».19 A ruptura era necessária e inevitável, de outro modo o socialismo revolucionário teria desaparecido.

No movimento comunista actual está de novo colocada na ordem do dia a necessidade de uma delimitação nítida das fronteiras da corrente marxista revolucionária. O conteúdo da actividade de muitos partidos que se chamam comunistas não corresponde a este nome. Isto é particularmente alarmante numa situação em que os trabalhadores manifestam uma importante confiança nos comunistas, apesar de tudo: apesar das dúvidas que suscitam alguns líderes partidários, apesar da inconsequência de muitas decisões e acções desses partidos. Justificar esta confiança, conferir à actividade destes partidos um carácter e conteúdo realmente comunistas, ser comunista na prática e não só no nome – construir de facto uma organização revolucionária – eis a tarefa que se vai divisando ante os comunistas no decurso dos acontecimentos.

Hoje estão de novo em marcha as ideias e teorias que «dissimulam o antagonismo das actuais relações socioeconómicas», apresentando-as «como se a situação pudesse ser remediada com medidas de ordem geral, destinadas a satisfazer todos e a assegurar o “crescimento”, a “melhoria”, etc.», como se fosse possível conciliar e unir todos e chegar a acordo sobre tudo. Neste sentido ganha importância a principal «lição útil» que Lenine exige que se retire da crítica destas concepções, nomeadamente: os comunistas devem «Romper RESOLUTAMENTE e DEFINITIVAMENTE com todas as ideias e teorias pequeno-burguesas», não admitindo que renasçam sob a bandeira do partido comunista; devem contraporlhes uma visão directa sobre a realidade e sobre as relações socioeconómicas e reconhecer abertamente que não há outro caminho para o socialismo senão através do movimento operário.

Numa situação em que as questões controversas do movimento comunista não só não são levantadas, mas com frequência silenciadas, em que se procura abafar, dissimular, aplanar ou mesmo ocultar as divergências sobre questões de princípio, conservando-se uma unanimidade amorfa e indiferente, o livro de Lénine actua como um crítico intransigente, que exige uma «explicação sistemática (…) sobre todos os pontos capitais (…) das divergências» entre comunistas, coloca questões incómodas e dá respostas objectivas. Mostra a necessidade de «um trabalho mais corajoso, mais amplo, mais unificado, mais centralizado»,20 na altura feito em torno do jornal Iskra, que agora urge fazer no movimento comunista atual. Também hoje este livro – um combatente provado, um polemista experiente, um organizador colectivo, um propagandista e um agitador – presta um serviço à causa da formação de uma organização revolucionária. É apenas preciso estudá-lo e armarmo-nos com as suas teses de princípio.

Uma palavra sobre a revolução

Se hoje muitos nem sequer querem ouvir falar de revolução, isso deve-se com frequência ao facto de os partidos, durante muito tempo, apenas em palavras se declararem revolucionários, sem qualquer correspondência com a prática. Isto levou a que os actuais comunistas, desejando colocar em conformidade o discurso com os actos, considerem que não se pode falar de revolução neste momento. No entanto, há outro modo de alcançar a unidade do discurso com a prática.

Na época em que Lénine escreve havia duas tendências, a oportunista a anarquista, que não compreendiam «a nossa primeira e mais urgente tarefa prática: criar uma organização de revolucionários capaz de dar à luta política energia, firmeza e continuidade». Interroguemo-nos: por que razão é tão raro hoje um comunista afirmar que a construção de um partido revolucionário é a questão mais candente e a tarefa mais urgente? Conclui-se que também hoje há muitos membros de partidos comunistas que, intitulando-se comunistas, não partilham a ideia de que um comunista «deve, acima de tudo, pensar numa organização de revolucionários capazes de dirigir toda a luta emancipadora do proletariado».

Para aqueles que, acima de tudo, pensam e agem neste sentido, o livro Que Fazer? traça um amplo plano de trabalho revolucionário, um plano para a construção de uma organização de partido de combate para realizar esse trabalho.

Admito que este plano foi elaborado numa época histórica totalmente diferente. Sim, é verdade. Mas este plano contém a lógica interna da criação de um partido revolucionário sem a qual é impossível formar um tal partido em qualquer época.

Vejamos em que consiste esta lógica.

Uma tal organização deve, acima de tudo, assentar numa firme base teórica:«Sem teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário». Por isso, hoje, é particularmente oportuno colocar e resolver de modo leninista a questão do trabalho teórico do partido, porquanto sem tal trabalho o movimento arrisca-se a ser comunista apenas em palavras, o que significa que não pode ter êxito. Assim, Lénine insiste em primeiro lugar na exigência firme de «”uma atenção vigilante ao aspecto teórico do movimento revolucionário do proletariado”».

Citando Engels, Lénine insiste em três formas de luta de classe: a par da luta política e económica, sublinha a importância da luta teórica da qual depende o êxito das duas primeiras. De acordo com a recomendação de Engels, o movimento operário deve travar a luta de forma harmoniosa nas suas três direcções concatenadas e ligadas entre si: teórica, política e económico-prática (resistência aos capitalistas). Neste assalto, digamos, concêntrico reside a força e a invencibilidade da classe operária.

Todavia, não é na sua continuidade, no seu encadeamento ou sequência: uma antes da outra ou uma depois da outra, que consiste esta concentricidade e concatenação das três formas da luta de classe. Na realidade é sua efectiva ligação interna que constitui a lógica da construção da organização revolucionária, tanto no plano programático como táctico, e garante a unidade da teoria revolucionária coma prática.

Note-se que ao acentuarmos a necessidade e importância do trabalho teórico isso não significa que este trabalho deva ser colocado em primeiro lugar face ao trabalho prático, não significa também que o trabalho prático deva ser adiado até que o trabalho teórico esteja terminado. Uma tal divisão – primeiro um, depois o outro –é um traço característico do socialismo utópico ou daqueles socialistas que não têm uma noção clara do método na ciência social, não dominam o materialismo, «o único método científico que exige que todo o programa seja a formulação exacta do processo real». Tais socialistas consideram que a sua tarefa é criar «modelos» de sociedade (diferente da existente) e procurar vias para a sua introdução. Para eles, naturalmente, «o trabalho prático apenas se torna possível depois de os filósofos geniais terem descoberto e indicado essas “outras vias”; e, inversamente,quando essas vias forem descobertas e indicadas, o trabalho teórico termina e começa o trabalho dos “patriotas” – aqueles que devem orientar a “pátria” pelo novo caminho descoberto.

A questão coloca-se de uma maneira completamente diferente quando a tarefa dos socialistas consiste em serem os dirigentes ideológicos do proletariado na sua luta real contra inimigos reais, autênticos, que se encontram na via real de um determinado desenvolvimento socioeconómico.

Neste caso, o trabalho teórico e prático fundem-se num único trabalho, que foi tão justamente caracterizado por Liebknecht, veterano da social-democracia alemã, com as palavras: Studieren, Propagandieren, Organisieren ( Estudar, Propagandear, Organizar)

Não se pode ser um dirigente ideológico sem se fazer o atrás referido trabalho teórico, tal como não se o pode ser sem orientar este trabalho segundo as necessidades da causa, sem propagandear os resultados desta teoria entre os operários e sem os ajudar à sua organização."

Com esta concepção da tarefa, considera Lénine, os ideólogos do proletariado evitam cair no dogmatismo e no sectarismo. «Não pode haver dogmatismo lá onde o critério supremo e único da doutrina é definido como a sua correspondência com o processo real de desenvolvimento socioeconómico; não pode haver sectarismo quando a tarefa consiste em auxiliar a organização do proletariado e, consequentemente, o papel da “intelligentsia” consiste em tornar inútil a presença de dirigentes intelectuais especiais."

Hoje é frequente intitularem-se de comunistas aqueles que reconhecem a teoria marxista, com excepção do seu carácter revolucionário e da teoria da luta de classes. Lénine salienta ninguém pode negar que «a teoria da luta de classes é o centro de gravidade de todo o sistema de concepções de Marx», e que «perder de vista a luta de classes é revelador de uma grosseira incompreensão do marxismo». Não se pode reconhecer a teoria de Marx excluindo este ponto, uma vez que isso implicaria «refazer a teoria e elaborar a concepção de um outro capitalismo, no qual não houvesse relações antagónicas e luta de classes». Por isso, os comunistas partem da seguinte conclusão desta teoria: «Só há uma saída [da sociedade burguesa] que decorre necessariamente da própria essência do regime burguês, a saber: a luta de classe do proletariado contra a burguesia», travada à escala nacional até à tomada do poder e à instauração da ditadura do proletariado. Assim, a acção política dos comunistas consiste em contribuir para o desenvolvimento e organização do movimento operário, para a transformação das guerras económicas isoladas em luta de classe consciente, dirigida contra o regime burguês com o objectivo de expropriar os expropriadores e suprimir as normas sociais que assentam na opressão dos trabalhadores. Não se trata de agir no lugar dos operários, em prol deles ou em seu nome mas, sublinhamos mais uma vez, de contribuir para o desenvolvimento e organização da luta consciente dos próprios operários.

Quem não compreende e não reconhece estas teses leninistas ou não é comunista ou terá que elaborar uma nova teoria que substitua o marxismo e demonstre as suas infundadas conclusões.

Sobre a consciência do movimento revolucionário do proletariado

Atrás referimos que a consciência socialista é para Lénine a única base que pode garantir a vitória do comunismo. Foi em torno desta questão (a relação entre a consciência e a espontaneidade) que Lénine identificou a essência das divergências entre os ideólogos da época da «crise do marxismo», reflectida no livro Que Fazer?. No entendimento de Lénine, a social democracia [assim se chamava na altura o socialismo revolucionário (N. Ed.)] é a junção do movimento operário com o socialismo. Aos ideólogos da classe operária cumpre contribuir para o desenvolvimento da consciência de classe do proleta riado, da sua organização e coesão para a luta política contra o regime capitalista. Mas Lénine exige que a questão da consciência esteja presente tanto no trabalho teórico como no político e organizativo, considerando que a fraqueza do movimento operário reside precisamente na insuficiente consciência e iniciativa dos dirigentes revolucionários. Por isso, na sua opinião, a análise destas divergências é de um enorme interesse geral e merecedora de atenção, uma vez que a tarefa dos comunistas não é sobreporem se mas sim elevar o movimento operário a o nível do seu programa.

Hoje, como há 100 anos, nem todos os comunistas compreendem a afirmação de Lénine de que os operários não tinham nem podiam ter consciência socialista. Vemos de novo comunistas, de que Marx falou, que apenas vêem miséria na miséria, não descortinando o seu aspecto destruidor, revolucionário, que derrubará a velha sociedade. Afirmam que não existem «manifestações» do movimento operário. Esta expressão corrente, assinala Lénine, decorre antes de mais de uma compreensão imprópria e indecorosamente estreita da teoria de Marx. Em resposta a tais conjecturas, salienta que só um conhecimento superficial pode levar a pensar que Marx agiu perante um proletariado preparado. "O programa comunista de Marx foi por ele elaborado antes de 1848 (…) O movimento operário social-democrata, que mostrou a todos de forma evidente o papel revolucionário e unificador do capitalismo, começou duas décadas mais tarde, quando a doutrina científica do socialismo tomou a sua forma definitiva, quando a grande indústria se difundiu mais amplamente e surgiram numerosos divulgadores, enérgicos e talentosos, desta doutrina nos meios operários. Fazendo uma interpretação falsa dos factos históricos e esquecendo o enorme trabalho investido pelos socialistas para infundir consciência e organização ao movimento operário, os nossos filósofos, além disso, atribuem a Marx as concepções fatalistas mais absurdas. Como se, na sua opinião, a organização e a socialização dos operários ocorressem por si próprias e, consequentemente, alegam, se ao vermos o capitalismo não vemos o movimento operário então isso é porque o capitalismo não cumpre a sua missão e não porque nós trabalhamos ainda de forma insuficiente na organização e propaganda entre os operários". Pior ainda é quando, a partir desta objecção sobre a falta de movimento operário, começam a sonhar com a «pacificação da luta económica secular das classes antagónicas».33

Em vez de cairmos no «manilovismo»,34 escreve Lénine, é preciso compreender que se deve procurar dar à luta organização e consciência e que para isso é preciso empenharmo-nos na militância comunista. Para que «a acção progressiva do capitalismo»35 se revele, é preciso que os comunistas se lancem energicamente ao trabalho pela sua causa: elaborar uma interpretação detalhada da nossa história e da realidade actual, identificando no concreto todas as formas de luta de classe e exploração; divulgar esta teoria junto dos operários, ajudá-los a assimilá-la, e conceber as formas de organização mais apropriadas às condições actuais para difundir o comunismo e unir os operários numa força política. Como Lénine sublinha, a consciência da oposição irreconciliável entre os interesses dos operários e todo o actual regime político e social, ou seja, a consciência socialista, não surge do antagonismo espontâneo entre operários e patrões, esta só pode ser introduzida de fora. «A classe operária, exclusivamente com as suas próprias forças, só é capaz de desenvolver uma consciência tradeunionista, quer dizer, a convicção de que é necessário agrupar-se em sindicatos, lutar contra os patrões, exigir do governo estas ou aquelas leis necessárias aos operários, etc.* Por seu lado, a doutrina do socialismo nasceu de teorias filosóficas, históricas elaboradas por representantes instruídos das classes possidentes, por intelectuais.»36 Deste modo, a doutrina teórica do socialismo científico contemporâneo surge de modo completamente independente do crescimento espontâneo do movimento operário, surge como resultado do desenvolvimento do pensamento da intelligentsia socialista revolucionária. Concordando com K. Kautski, Lénine demonstra que se trata de um profundo erro imaginar que o movimento operário, por si próprio, é capaz de elaborar uma ideologia independente. É completamente erróneo imaginar que a consciência socialista constitui um resultado directo da luta de classes do proletariado. Como doutrina é evidente que o socialismo tem as suas raízes nas relações económicas actuais tal como a luta de classe do proletariado. «Mas o socialismo e a luta de classes surgem um ao lado do outro e não derivam um do outro; surgem de premissas diferentes. A consciência socialista moderna não pode surgir senão na base de profundos conhecimentos científicos».37

A presença de revolucionários, ideólogos e dirigentes suficientemente preparados e armados com a teoria socialista é uma condição necessária para assegurar o carácter socialista do movimento operário, uma vez que é necessário desenvolver a consciência política da classe operária até ao nível da consciência política socialista. A tese de que «a consciência socialista é algo introduzido de fora na luta de classe do proletariado e não algo que surgiu espontaneamente no seu seio»38 comporta um série de importantes conclusões:

1. Aos ideólogos do movimento operário exige-se consciência. A insuficiente consciência e iniciativa dos dirigentes revolucionários, a sua impreparação para levarem a cabo as tarefas gigantescas de direcção ideológica e de concentração dos operários numa força política são vistas como uma manifestação de fraqueza do movimento operário. A este propósito sublinha a recomendação de Engels: «Em particular, os dirigentes deverão instruir-se cada vez mais em todas as questões teóricas, libertar-se cada vez mais da influência da fraseologia tradicional, própria da antiga concepção do mundo, e ter sempre presente que o socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige ser tratado como uma ciência, isto é, ser estudado. A consciência assim alcançada e cada vez mais lúcida deve ser difundida entre as massas operárias com grande zelo e deve consolidar-se cada vez mais fortemente a organização do partido e a dos sindicatos».39

2. É a unidade ideológica que determina a unidade organizativa e prática do partido, o que transmite consciência e unidade à luta revolucionária do proletariado. Está relacionada com isto a tese da necessidade de junção da teoria marxista com o movimento operário, sem a qual o movimento não se torna independente e revolucionário, mas permanece subordinado à burguesia quer em termos ideológicos quer em termos práticos. Ao mesmo tempo, também a teoria, mesmo a mais revolucionária, corre o risco de não passar de boas intenções se não se efetuar a sua junção com as forças revolucionárias reais. No entanto, em certas circunstâncias, a junção do movimento operário com o socialismo não ocorre, permanecendo como objectivo. Foi o caso do grupo «Emancipação do Trabalho», [40] que, como assinalou Lénine, apenas no plano teórico fundou a social-democracia e deu o primeiro passo ao encontro do movimento operário. A fundação no plano teórico significa que alcançou a unidade ideológica marxista, o que preparou as bases para a unidade prática e organizativa do movimento do proletariado na Rússia.

A principal tarefa teórica do marxismo é destruir a mentira dos ideólogos burgueses sobre a realidade, independentemente das suas boas intenções ou boa consciência. "O primeiro dever daqueles que querem procurar “os caminhos para a felicidade da humanidade” é não se enganarem a eles próprios, é terem a coragem de reconhecer abertamente aquilo que existe. E quando os ideólogos dos trabalhadores compreenderem isto e o sentirem, então reconhecerão que os ideais” devem consistir em (...) formular as tarefas e objetivos desta “dura luta das classes sociais”, que é travada ante os nossos olhos na nossa sociedade capitalista; que o êxito se mede (...) não pela elaboração de conselhos à “sociedade” e ao “Estado”, mas pelo grau de difusão destes ideais numa determinada classe da sociedade; que o ideal mais elevado não vale um tostão furado enquanto não souberdes fundi-lo solidamente com os interesses daqueles que tomam parte na luta econômica". [41] Conferir um carácter ideológico à luta em curso – eis a base sob a qual Lenin considera necessário construir o programa. "O marxismo encontra os seus critérios de avaliação na formulação e na explicação teórica da luta que se trava ante os nossos olhos das classes sociais e dos interesses econômicos". [42]

Deste modo, as questões da teoria não são de modo nenhum bagatelas, nem são inócuos os erros teóricos. Por trás dos raciocínios teóricos estão interesses, e a teoria é a representação dos diferentes interesses das diferentes forças sociais. A diferença de concepções sobre uma mesma realidade conduz na prática, como resultado, a diferentes sistemas de ação. A diferença num aspecto teórico, por exemplo, uma concepção diferente sobre o domínio do capital, arrasta consigo uma diferença prática. É precisamente da concepção da realidade que decorre diretamente o programa de ação, e do grau de objectividade desta concepção depende o programa em concreto que dela decorre, depende no fim de contas o êxito do seu cumprimento.

Se o ideólogo está em condições de compreender que o capitalismo não é uma casualidade, mas um produto directo do actual sistema económico (social, político e jurídico), que se formou na luta entre forças sociais opostas, então encontrará a saída no desenvolvimento das contradições de classe desse regime económico; verá que não há saída da sociedade burguesa fora da luta de classe do proletariado
contra a burguesia. A luta contra uma classe só pode ser travada por outra classe – eis a saída. Neste caso, a tarefa do ideólogo será servir única e exclusivamente essa classe, o seu desenvolvimento autónomo e pensamento independente, o que não só diminuirá o tempo de existência da sociedade burguesa, acelerando o seu declínio, como lhe porá fim, dando mais força e capacidade combativa à classe operária. Lá onde o capital domina tudo, lá onde é travada uma luta surda de interesses é preciso «não encobri-la, mas expô-la; não sonhar: “melhor seria que fosse sem luta”, mas desenvolvê-la para a tornar mais vigorosa, contínua, consequente e, sobretudo, mais ideológica».43

Assim, Lénine insiste na unidade dos aspectos teóricos e práticos do socialismo revolucionário. A desconformidade e descoordenação entre estes dois aspectos levam a dissensões e vacilações, ao divórcio entre as palavras e os actos. Em particular, o fenómeno do culto da espontaneidade, da diminuição do papel dos socialistas conscientes no movimento revolucionário do proletariado, bem como a consolidação teórica deste servilismo, foi considerado por Lénine como reaccionário, exigindo por isso uma luta implacável contra a espontaneidade na luta de classe do proletariado.

Quando as concepções teóricas estão suficientemente esclarecidas nos seus principais traços essenciais, torna-se possível eliminar mal-entendidos e incompreensões no aspecto prático do socialismo, colocá-lo no terreno da luta de classes, ajustar o programa político, os modos de actuação, a táctica. Na acção prática, a corrente socialista revolucionária «como é sabido, assume a tarefa de dirigir a luta de classe do proletariado e de organizar esta luta».44 Tudo o que seja diminuir o papel dos socialistas conscientes, dirigentes e ideólogos, e qualquer impreparação e inépcia da sua parte constituem concessões à espontaneidade e significam «– independentemente da vontade de quem o faz – o reforço da influência da ideologia burguesa sobre os operários.»45 Com efeito, se está excluída qualquer possibilidade de uma ideologia autónoma elaborada pelas próprias massas operárias no decurso da própria luta, nesse caso a questão só pode colocar-se do seguinte modo: ou ideologia burguesa ou ideologia socialista. Como sublinha Lénine: «Não há meio-termo (porque a humanidade não elaborou nenhuma outra “terceira” ideologia; além disso, em geral, na sociedade dilacerada por contradições de classe, não pode nunca existir uma ideologia à margem das classes ou acima das classes). Por isso, tudo o que seja rebaixar a ideologia socialista, tudo o que seja afastar-se dela significa fortalecer a ideologia burguesa».46

O desenvolvimento espontâneo do movimento operário marcha precisamente para a sua subordinação à ideologia burguesa, porque o movimento operário espontâneo é o trade-unionismo, é uma luta «exclusivamente profissional», uma luta estritamente económica, e isto significa precisamente «a escravização ideológica dos operários pela burguesia». Por isso, explica Lénine, os admiradores da espontaneidade insinuam-se junto dos operários menos desenvolvidos. Dizem que os operários apenas estão interessados em lutar por reivindicações que proporcionem resultados palpáveis. A tarefa dos ideólogos socialistas, dos revolucionários comunistas, «consiste em combater a espontaneidade, em fazer com que o movimento operário se desvie desta tendência espontânea do tradeunionismo de se acolher debaixo da asa da burguesia e em atraí-lo para debaixo da asa do movimento revolucionário.» Não atrair os operários para o socialismo equivale «a ceder o campo de actividade» aos ideólogos que «arrastam o movimento operário “pela linha da menor resistência”, isto é, pela linha do tradeunionismo burguês ou (…) que o arrastam pela linha da “ideologia” cleropolicial ».47 Reduzir a luta económica ao trade-unionismo, à política tradeunionista, é amarrar os operários à ideologia burguesa através da luta espontânea, desprovida de consciência e de ideologia de classe.

3. É preciso uma luta árdua contra a espontaneidade – insiste Lénine. A escravização ideológica dos operários pela burguesia realiza-se através da fragmentação da classe operária por várias ideologias: uma parte concentra-se nos sindicatos, outra nos partidos sociais-democratas, uma terceira sente-se protegida por polícias de sotaina, uma quarta está fascinada com as sociedades por acções, etc., etc. Conseguir a supremacia dos operários e a sua solidariedade em torno da bandeira da ideologia socialista só é possível por via de uma luta incessante contra todas as outras ideologias. E este trabalho revolucionário exige uma intervenção de grande amplitude na propaganda e agitação política e na organização. A tarefa dos socialistas conscientes consiste em transformar a política trade-unionista na luta política socialista, elevar os operários até ao grau de consciência política socialista.

Mais uma vez sobre a relação da política com a economia

Do que atrás foi dito, resulta claro que «a consciência de classe não pode ser
levada ao operário senão do exterior, isto é, de fora da luta económica, de fora da
esfera das relações entre operários e patrões. A única esfera em que se pode obter
estes conhecimentos é na esfera das relações de todas as classes e camadas com o
Estado e o governo, na esfera das relações de todas as classes entre si».48 É
pertinente lembrar aqui a tese marxista de que «todas as lutas políticas são lutas
de classes e que todas as lutas de emancipação das classes, apesar da sua forma
necessariamente política – pois, toda a luta de classe é uma luta política –, giram
finalmente em torno da emancipação económica».49
Uma das circunstâncias que leva ao culto da espontaneidade no movimento
revolucionário é o desdém pela teoria em geral, o rebaixamento do nível teórico,
uma assimilação superficial, por vezes caricatural, do marxismo no seu conjunto.
Em particular, isto refere-se à questão da relação da política com a economia na
teoria marxista e à ideia de que «os operários antes de pensar numa revolução
política, deviam adquirir uma “força económica”».50 Ainda hoje é frequente ouvirmos variações sobre este tema entre comunistas: «temos ainda poucas forças, os operários são ainda fracos», e por isso as revoluções sociais são adiadas para «depois», apesar de, por princípio, parecer que não se renuncia a elas. Por vezes também nos confrontamos com comunistas e mesmo teóricos que têm a ideia de que «a política segue sempre docilmente a economia» ou que «a luta económica está inseparavelmente ligada à luta política»,51 que «a política é uma superstrutura (…) da luta económica, deve surgir na base dessa luta e seguir atrás dela», etc. E tudo isto é dito sob a capa do materialismo.

"Estas teses (…) são completamente falsas, se por política se entende a política (…) [socialista]. (…) São justas se por política entendermos a política tradeunionista, isto é, a aspiração comum a todos os trabalhadores a conseguir do Estado estas ou aquelas medidas susceptíveis de remediar ao males inerentes à sua situação, mas que ainda não acabam com essa situação, isto é, não acabam com a submissão do trabalho ao capital". [52]

Há política e política

"Muito frequentemente, a luta econômica dos operários (…) está ligada
(embora não inseparavelmente) à política burguesa»,53 assinala Lénine. Mas o
reconhecimento da «luta política que surge espontaneamente do próprio
movimento operário (ou, com mais exactidão: os anseios e reivindicações políticas
dos operários)»,54 não significa que haja uma elaboração independente de uma
política socialista específica, que «corresponda aos objectivos gerais do socialismo
e às actuais condições».55 Este «instinto», isto é, o inconsciente (o espontâneo),
não leva o proletariado a elaborar tal política mas sim a agarrar-se aos «primeiros
meios que se encontra ao seu alcance»56, os quais na sociedade moderna serão
sempre meios de luta trade-unionistas, e a ideologia «que se encontra ao seu
alcance» é a ideologia burguesa (trade-unionista).

«Do facto de os interesses económicos desempenharem um papel decisivo não
se segue de maneira alguma que a luta económica (= sindical) tenha uma
importância primordial, porque os interesses mais essenciais, “decisivos”, das
classes só podem ser satisfeitos, em geral, por transformações políticas radicais;
em particular, o interesse económico fundamental do proletariado só pode ser
satisfeito por meio de uma revolução política que substitua a ditadura burguesa
pela ditadura do proletariado.»57

A incompreensão disto fez com que «em vez de se exortar a marchar para a
frente, a consolidar a organização revolucionária e a alargar a actividade
política, incitou-se a voltar para trás, para a luta exclusivamente tradeunionista
».58

Para Lénine isto significa «suprimir por completo a consciência pela
espontaneidade»,59 o que reflecte um conhecimento fragmentário do marxismo, a
sua deformação e banalização. A consciência dos revolucionários foi suprimida por
ideólogos que interpretaram o marxismo no espírito da espontaneidade, por
aqueles operários que se deixaram arrastar pelo argumento de que o aumento de
um copeque por rublo está mais próximo e é mais valioso do que todo o socialismo e toda a política; de que apresentando reivindicações podem melhorar a sua
situação, sabendo que o fazem, não para vagas gerações futuras, mas para eles
próprios e para os seus próprios filhos. Lénine assinala a este propósito que «frases
deste género foram sempre a arma preferida dos burgueses da Europa
Ocidental», que dizem aos operários que «a luta exclusivamente sindical é uma
luta para eles próprios e para os seus filhos, e não para vagas gerações futuras
com um vago socialismo futuro».60 A concepção trade-unionista da política
manifesta-se na limitação da luta àquela que pode «prometer certos resultados
tangíveis» e na rejeição da luta que «não promete absolutamente nenhum
resultado tangível».61

Como afirma Lénine, a isto deve-se responder assim: também nós, comunistas,
como todos os burgueses da Europa Ocidental, queremos integrar os operários na
política, só que não apenas na política trade-unionista, mas precisamente na
política socialista. «A política trade-unionista é precisamente a política burguesa
da classe operária».62

A propósito disto é interessante o pensamento de Lénine de que a supressão da
consciência pela espontaneidade pode produzir-se de duas maneiras: ou de modo
espontâneo ou em resultado de uma luta aberta entre duas concepções
diametralmente opostas e da vitória de uma sobre a outra. De tudo isto impõe-se a
conclusão de que no nosso movimento comunista pós-soviético também se assiste à
supressão da consciência pela espontaneidade, e neste caso de modo inconsciente e
espontâneo. Como se a estreiteza das concepções teóricas do antigo PCUS de
Khruchov-Bréjnev, a pequenez das tarefas políticas e organizativas, a
burocratização e a perda do carácter revolucionário do partido tivessem por inércia
transitado para o nosso tempo. Os partidos que tomaram o lugar do PCUS não
conseguiram desenvolver-se e amadurecer. No período pós-soviético assistimos,
não à constituição e desenvolvimento de partidos de novo tipo, mas ao
restabelecimento de organizações segundo o modelo do período soviético, do qual
transitaram estas ou aquelas formas de trabalho. Até o conceito de «consciência»
(leia-se «hábito») lhes chegou já pronto, tal como as normas estatutárias, que não
foram questionadas nem ajustadas. O que quer dizer que, na realidade, estas
organizações surgiram espontaneamente. No entanto, são poucos os que se
apercebem de que está em curso a supressão da consciência pela espontaneidade, e
que a atitude negligente em relação à teoria conduz à inconsciência no nosso
movimento.

Não foi por acaso que Lénine considerou que todas as divergências entre
socialistas conscientes e admiradores da espontaneidade têm um interesse geral. O
ponto central destas divergências é a questão da luta política. A polémica
proporciona-nos exemplos de concepções erróneas sobre esta questão.
Obviamente que os admiradores da espontaneidade não negam em absoluto a
política. Simplesmente desviam-se constantemente da concepção socialista para a
concepção trade-unionista da política, rebaixando a primeira ao nível da segunda. É
também este o sentido das teses de alguns líderes da actualidade, os quais, evidentemente, não negam a política revolucionária, simplesmente consideram que
não é oportuna, elegendo como mais adequada aos tempos que correm a política do
gradualismo e da denúncia do regime antipopular.

A fim de evitar interpretações erradas, Lénine fez questão de notar que os
marxistas entendem por luta económica a «luta económica prática», que Engels
chamou «resistência aos capitalistas» e que, nas condições de legalidade, foi
designada como luta profissional, sindical ou trade-unionista. O despertar da
consciência de classe e o início da luta sindical constituiu o ponto de partida para a
difusão do socialismo. No entanto, estes embriões de organizações revolucionárias
só podem dar origem e fazer parte constituinte da acção revolucionária se forem
correctamente utilizados. Dominados pela espontaneidade apenas conduzem à luta
«exclusivamente sindical» e a um movimento operário não revolucionário.
Cabe assinalar que a crítica de Lénine não significa que se deve ignorar os
objectivos trade-unionistas, pelo contrário, deve-se garantir o seu cumprimento
consequente.
«A luta económica é a luta colectiva dos operários contra os patrões para
conseguirem obter condições vantajosas de venda da força de trabalho, para
melhorarem as suas condições de trabalho e de vida.» Esta luta é,
necessariamente, uma luta profissional, porque as condições de trabalho são
extremamente variadas nas diferentes profissões, e, portanto, a luta pela sua
melhoria deve forçosamente ser travada por sindicatos e associações sindicais. Os
sindicatos operários procuraram sempre concretizar as suas reivindicações salariais
e de melhoria das condições de trabalho por intermédio de «medidas legislativas e
administrativas».63

Mas isto nada mais contém do que a luta por reformas económicas e sociais. E
aqueles que se intitulam comunistas não podem limitar-se a isto. Aquele que é de
facto comunista «subordina, como parte de um todo, a luta pelas reformas à luta
pela liberdade e o socialismo».64

Os comunistas têm o dever de dirigir a «luta da classe operária não só para
obter condições vantajosas de venda da força de trabalho, mas para que seja
destruído o regime social que obriga os não possuidores a venderem-se aos ricos».
Um comunista concebe «a classe operária não só na sua relação com um dado
grupo de patrões, mas nas suas relação com todas as classes da sociedade
contemporânea, com o Estado como força política organizada.»65 Assim, os
comunistas não podem «circunscrever-se à luta económica», mas devem
«empreender activamente o trabalho de educação política da classe operária, de
desenvolvimento da sua consciência política.»66

Mas a educação política não se pode limitar à propaganda da ideia de que a
classe operária é hostil à sociedade burguesa, não basta explicar a opressão política
de que são objecto os operários, tal como não bastava explicar-lhes o antagonismo
entre os seus interesses e os dos patrões. «É necessário fazer agitação a propósito
de cada manifestação concreta desta opressão» [política], tal como se faz a propósito das manifestações de opressão económica, orientando-a para as
diferentes classes da sociedade que são vítimas dela, uma vez que a opressão se
manifesta nos mais diferentes aspectos da vida e actividade humana.

A educação da atividade revolucionária das massas

«A consciência da classe operária não pode ser uma verdadeira consciência
política se os operários não estão habituados a reagir contra todos os casos de
arbitrariedade e opressão, de violência e abusos, de toda a espécie, quaisquer que
sejam as classes afectadas;» – sendo que devem reagir com uma visão socialista e
não outra qualquer. «A consciência das massas operárias não pode ser uma
verdadeira consciência de classe se os operários não aprenderem, com base em
factos e acontecimentos políticos concretos e, além disso, necessariamente de
actualidade, a observar cada uma das outras classes sociais em todas as
manifestações da sua vida intelectual, moral e política; se não aprenderem a
aplicar na prática a análise materialista e a apreciação materialista de todos os
aspectos da actividade e da vida de todas as classes, camadas e grupos da
população. (…) O conhecimento de si própria [da classe operária] está
inseparavelmente ligado a uma clara compreensão não só dos conceitos teóricos…
ou melhor: não tanto dos conceitos teóricos, como das ideias elaboradas com base
na experiência da vida política sobre as relações entre todas as classes da
sociedade actual».67

Esta recomendação de Lénine, de não confundir a política com a pedagogia, deve
ser lembrada hoje, em particular, àqueles que repetem obstinadamente que os
operários não têm compreensão, não têm consciência nem disposição para a luta,
que são corruptos, devassos, aproveitadores, etc.

As «denúncias políticas que abarcam todos os aspectos da vida são uma
condição indispensável e fundamental para educar a actividade revolucionária
das massas».68
Por isso, a nossa tarefa, a tarefa dos comunistas de hoje, é aprofundar, ampliar e
intensificar as denúncias políticas e a agitação política. A nossa tarefa é dar mais
daquilo que a experiência «económica» e fabril nunca ensinará aos operários,
designadamente, conhecimentos políticos. Estes conhecimentos só os intelectuais
socialistas podem adquirir, e é seu dever, se forem socialistas não só em palavras,
fornecer este conhecimento aos operários, não só sob a forma de raciocínios,
brochuras e artigos (que frequentemente são um pouco maçudos), mas sob a forma
de denúncias vivas sobre o que fazem no presente o governo e as classes
dominantes em todos os aspectos da vida, sob a forma de respostas e reacções a
estes actos.

As acusações de passividade e reaccionarismo dos operários não são mais do que
indicadores da passividade, inacção e inconsistência dos próprios ideólogos e
dirigentes que não cumprem o seu papel e limitam a sua actividade. Conclui-se pois que em vez de se queixarem da pouca actividade das massas e serem tão pouco
exigentes em relação a si próprios, em relação à sua actividade, os comunistas
devem antes elevar o seu papel de organizadores e revolucionários conscientes. Não
é a direcção da luta económica que nos é exigida, mas a direcção da agitação
política em todos os aspectos – eis o que transforma a luta profissional no
movimento revolucionário de classe. É possível fazer muito mais para a luta
económica se não restringirmos os nossos objectivos políticos às necessidades da
luta exclusivamente económica ou exclusivamente parlamentar.

Como vemos a crítica de Lénine no livro Que Fazer? atinge de todas as formas a
fuga aos verdadeiros deveres dos revolucionários: a organização e condução de uma
agitação política diversificada, em que se deve ir a todas as classes da população,
como teóricos, como propagandistas e como organizadores (pois «os comunistas
apoiam todo o movimento revolucionário»).69

E este trabalho teórico «deve orientar-se para o estudo de todas as
particularidades da situação social política das diferentes classes».70 Disto, como
salienta Lénine, ninguém deve duvidar.

Sobre os princípios organizativos

Atrás já referimos que a estreiteza do trabalho de organização está
inquestionável e inseparavelmente ligada (embora com frequência de modo
inconsciente) com a restrição da teoria marxista e dos objectivos políticos dos
comunistas. A inconsciência limita o nosso horizonte, incute-nos medo de nos
afastarmos do carácter e nível do trabalho do partido, semi-de-massas, acessível,
habitual e tradicional.

Lénine exige a máxima consciência no trabalho organizativo, mostrando de que
modo a estreiteza da concepção da luta teórica está ligada não só à estreiteza de
vistas na luta política, mas também à restrição das tarefas revolucionárias. Com tal
estreiteza de concepções e o culto da inconsciência «é absolutamente desnecessária
uma organização centralizada (…) (que, por isso mesmo, não pode formar-se no
decorrer de tal luta), uma organização que reúna num único impulso comum
todas as manifestações de oposição política de protesto e indignação, uma
organização formada por revolucionários profissionais e dirigida por verdadeiros
líderes políticos de todo o povo.»71 Tal organização não pode formar-se porque «o
carácter da estrutura de qualquer instituição é determinado, natural e
inevitavelmente, pelo conteúdo da actividade política dessa instituição.»72
A existência de organizações cuja consciência se inclina perante a
espontaneidade; «o prosternar-se perante formas de organização que surgem
espontaneamente, o não ter consciência de como é estreito e primitivo o nosso
trabalho de organização (…) a falta desta consciência é uma verdadeira doença do nosso movimento. Não é evidentemente uma doença própria da decadência,
mas do crescimento»,73 considera Lénine.

Não terá o actual movimento comunista essa mesma doença? Esta conclusão
impõe-se por si própria. Qual é o grau de consciência do trabalho de organização
dos comunistas hoje? Não defendem por vezes alguns dirigentes partidários e
organizadores atrasados formas estreitas de organização, directamente herdadas
por nós do PCUS e ajustadas e adaptadas à legislação burguesa? Identificando esta
doença no movimento do seu tempo, Lénine exigiu a mais intransigente luta contra
toda a defesa do atraso, contra toda a legitimação da estreiteza de vistas; exigiu de
cada qual que participa no trabalho prático a decisão inquebrantável de se
desembaraçar desta estreiteza e do trabalho à moda antiga.

– Mas – dirão os que discordam – Lénine falava sobre o trabalho artesanal e a
sua superação, enquanto nós temos um partido amadurecido, com história. – Pois
aí é que está o problema – retorquimos nós. – Caminhamos por um trilho já aberto,
fazemos tudo como de costume, sem pensarmos qual é a organização de que temos
hoje necessidade. Aliás, Lénine entendia por trabalho artesanal uma organização
insuficiente: o reduzido alcance de todo o trabalho revolucionário em geral, a falta
de preparação e a falta de habilidade prática, a falta de continuidade e organização
entre determinadas frentes de trabalho, a falta de sistematização da propaganda e
da agitação e, sobretudo, as tentativas de justificar esta estreiteza e erigi-la em
«teoria» particular, isto é, o culto da espontaneidade. O último está de resto
inseparavelmente ligado a uma concepção estreita da teoria marxista, do papel dos
revolucionários e das tarefas políticas que se colocam ante eles.

Não será isto semelhante ao desejo de uma parte importante do aparelho do
partido e de parte dos militantes de se agarrarem às estruturas partidárias
existentes e habituais e, a partir delas, procurar uma base social e um eleitorado?
Não será isto semelhante à atitude burocrática para com a organização do partido e
o seu trabalho, que continua a grassar na vida interna partidária desde o tempo do
PCUS? O livro de Lénine obriga-nos a pensar nestas questões e induz-nos a reflectir
sobre os resultados: «Arrastar [-se] na cauda do movimento, [é] coisa inútil no
melhor dos casos e, no pior, extremamente nocivo para o movimento»,74 avisa
Lénine.

Ao resolver a primeira e mais urgente tarefa prática – criar uma organização de
revolucionários –, Lénine mostrou a absurdidade e a nocividade de a misturar com
a organização dos operários. Afirma que não pode haver movimento revolucionário
sólido sem uma organização estável de dirigentes, que assegure a continuidade; que
quanto mais extensa for a massa espontaneamente integrada na luta, massa que
constitui a base do movimento e que nela participa, mais premente será a
necessidade de semelhante organização, e mais sólida deverá ser ela (já que será
fácil aos demagogos de toda a espécie arrastar as camadas atrasadas da massa); que
tal organização deve ser formada, fundamentalmente, por pessoas entregues
profissionalmente às actividades revolucionárias; que a centralização das funções
mais clandestinas não debilitará, antes reforçará a amplitude e o conteúdo da actividade de uma grande quantidade de outras organizações destinadas ao grande público e, por consequência, o menos regulamentadas e clandestinas possível.75

Pode parecer que estas teses foram elaboradas para a Rússia autocrática e que o
seu significado se limita a esse contexto. No entanto, Lénine insistiu que elas têm
uma importância geral, como se constata no seu trabalho de 1919, Sobre As Tarefas
da III Internacional.

«Para vencer de facto o oportunismo (…) é preciso:
Primeiro, conduzir toda a propaganda e agitação do ponto de vista da
revolução, em oposição às reformas, explicando sistematicamente às massas essa
oposição, teórica e praticamente, a cada passo do trabalho parlamentar, sindical,
cooperativo, etc. Em caso nenhum recusar (salvo em casos especiais, a título de
excepção) a utilização do parlamentarismo e de todas as “liberdades” da
democracia burguesa, não recusar as reformas, mas encará-las apenas como
resultado acessório da luta de classe revolucionária do proletariado. (…)
Segundo, deve-se combinar o trabalho legal e o ilegal. Os bolcheviques sempre o
ensinaram e com particular insistência (…) Disto troçavam os heróis do
oportunismo infame, exaltando fatuamente a “legalidade”, a “democracia”, a
“liberdade” dos países e repúblicas da Europa Ocidental, etc. (…) Não há um único
país no mundo, a mais avançada e a mais “livre” das repúblicas burguesas, onde
não reine o terror da burguesia, onde não esteja proibida a liberdade de agitação
a favor da revolução socialista, de propaganda e de trabalho organizativo
precisamente nessa direcção. Um partido que até ao presente não reconheceu isto
sob a dominação da burguesia e não realiza um trabalho ilegal sistemático,
global, apesar de todas as leis da burguesia e dos parlamentos burgueses, é um
partido de traidores e de miseráveis, que com o reconhecimento verbal da
revolução enganam o povo.

Terceiro, é necessária uma guerra constante e impiedosa para expulsar
completamente do movimento operário os chefes oportunistas (…) Os partidos que
em palavras são pela revolução mas na prática não realizam um trabalho
constante pela influência precisamente do partido revolucionário, e só do partido
revolucionário, em todas a espécie de organizações operárias de massas, são
partidos de traidores.

Quarto, não se pode admitir que em palavras condenem o imperialismo, mas de facto não travem uma luta revolucionária pela libertação das colónias (e das nações dependentes) da sua própr i a burguesia imperialista. Isto é hipocrisia. É a política dos agentes da burguesia no movimento operário. (…)
Quinto, é uma enorme hipocrisia este fenómeno típico dos partidos (…) [oportunistas]: reconhecer em palavras a revolução e alardear perante os operários frases pomposas acerca do seu reconhecimento da revolução, mas de facto ter uma atitude puramente reformista para com os rudimentos, os germes, as manifestações de crescimento da revolução que constituem todas as acções de massas que quebram as leis burguesas, saem de toda a legalidade, por exemplo, as greves de massas, as manifestações de rua, os protestos dos soldados, os comícios entre as tropas, a difusão de panfletos nos quartéis e acampamentos, etc.

Se perguntarmos a qualquer (...) [oportunista] se o seu partido realiza esse trabalho sistemático, ele responder-vos-á ou com frases evasivas, que dissimulam a ausência desse trabalho – inexistência da organização e do aparelho necessário, incapacidade do seu partido para o realizar –, ou com declamações contra o “putschismo”, o anarquismo, etc. E é nisto que consiste a traição à classe operária (...)

Mas só hipócritas ou idiotas podem não compreender que os êxitos particularmente rápidos da revolução na Rússia estão ligados a um trabalho de muitos anos do partido revolucionário no sentido indicado, em que durante muitos anos se criou sistematicamente uma aparelho ilegal para dirigir as
manifestações e as greves, para trabalhar no seio das tropas, se estudou em pormenor os meios, se redigiu literatura ilegal que fazia o balanço da experiência e educava todo o partido na ideia da necessidade da revolução, se formava os chefes das massas para semelhantes casos, etc., etc.»76

Pensamos que estas teses de Lénine sobre a construção da organização de
revolucionários podem também hoje servir de orientação aos comunistas. Pelo menos deve-se formar uma atitude consciente em relação a elas. Só então se poderá prosseguir na resolução das tarefas que se colocam ante o movimento operário. Lénine, por mais de uma vez, expressou o desejo de que seria preferível ler menos os clássicos do marxismo, mas lê-los de forma mais aplicada, melhor, reflectindo mais seriamente sobre o que se lê. Não declamar simplesmente certas teses marxistas, mas saber resolver primeiro teoricamente os problemas para depois convencer a organização, o partido a as massas da justeza da decisão – eis o que se exige de um revolucionário marxista.

O presente artigo fui publicado na revista Markcism e Sovremennost, nº 1-2 (22-23) de 2002, publicação fundada em 1995 pela União dos Comunistas da Ucrania.

[*] Irina A. Murátova é filósofa marxista, docente no Instituto Politécnico de Kiev.