1 de maio de 2003

O totalitarismo invertido

Como o regime Bush está efetuando a transformação para um estado de tipo fascista.

Sheldon Wolin


Tradução / A guerra no Iraque de tal modo monopolizou a atenção pública que obscureceu a mudança de regime que está acontecendo na Pátria. Talvez tenhamos invadido o Iraque para levar para lá a democracia e tirar de lá um regime totalitário, mas, no processo, tudo faz crer que nosso próprio sistema esteja andando rapidamente em direção a se tornar sistema totalitário, cada vez menos democrático. A mudança doméstica, cá nos EUA, se vê claramente na repentina popularidade que ganharam dois termos, que raramente se ouviam antes no sistema político norte-americano: “império” e “superpotência”. Esses dois termos sugerem, ambos, que um novo sistema de poder, concentrado e expansionista, já existe entre nós e suplantou o anterior. “Império” e “superpotência” simbolizam acuradamente a projeção do poder dos EUA para além fronteiras, mas, por isso mesmo, obscurecem as consequências do processo para os norte-americanos. O absurdo se torna mais visível quando se ouve falar da “Constituição do império dos EUA” ou dos EUA como “superpotência democrática”. Nos dois casos as expressões soam falsas, porque “Constituição” significa limitação de poderes; e impérios não são regidos por Constituições; e “democracia” significa para a maioria da humanidade o ativo envolvimento dos cidadãos nas ações do governo e a exigência de que o governo preste contas aos cidadãos; portanto, não pode haver superpotência democrática e, além do mais, imperial. “Império” e “superpotência” são palavras que falam de não respeitar limites e de fazer encolher a cidadania.

O crescente poder do estado e o poder decrescente das instituições que existem para controlar o poder do estado é processo em andamento já há algum tempo. O sistema partidário é um exemplo notório. Os Republicanos surgiram como fenômeno único na história dos EUA, de partido furiosamente doutrinário, fundamentalista, antidemocrático, que fala como se fosse maioria. Na medida em que os Republicanos se foram tornando cada vez mais ideologicamente intolerantes, os Democratas encolheram-se até o centrismo, pregando o fim das ideologias. Ao deixar de ser genuíno partido de oposição, os Democratas seguiram a rota fácil de partido interessado, sobretudo, em promover o império americano além fronteiras e o poder das grandes empresas, em casa. Não se deve esquecer que partido fortemente ideológico, intolerante e fundamentalista, com base de massas, sempre foi elemento crucialmente importante em todos os regimes que, no século 20, aspiraram ao poder autoritário absoluto.

As instituições representativas já não representam os eleitores. Em vez disso, entraram em curto-circuito, profundamente corrompidas por um sistema institucionalizado de propinas que as tornaram sensíveis só aos interesses dos grupos de poder, das grandes empresas, da faixa mais rica dos cidadãos. E as cortes de justiça, por sua vez, quando não são pau para toda obra a serviço do poder das corporações, são consistentemente solidárias, só, às chamadas “exigências da segurança nacional”. Eleições tornaram-se não-eventos altamente subsidiados que normalmente atraem na melhor das hipóteses apenas metade de um eleitorado cujo informação sobre política externa e interna é filtrada através de mídia corporativa dominada. Os cidadãos são manipulados e mantidos sob eterna tensão pela divulgação diária, pela mídia, de ondas de crimes e de atentados, apresentadas como trabalho de terroristas; por ameaças mais ou menos veladas de juízes e procuradores; e pelo medo eterno, sem alívio, do desemprego. Ainda mais crucialmente importante aqui não é o aumento do poder do governo, mas o inevitável descrédito das limitações constitucionais e dos processos institucionais, o que leva os cidadãos a descrer do poder que, em tese, seria seu; desestimula as práticas da cidadania militante; e torna os cidadãos politicamente apáticos.

Essa avaliação, não tenho dúvidas, será desacreditada também, por alguns, como alarmista. Mas insisto. Para mim, o sistema político emergente hoje nos EUA é, de fato, um “totalitarismo invertido”. Com “invertido”, quero dizer que, embora o sistema político hoje emergente nos EUA e seus operadores partilhem com o nazismo a aspiração por poder ilimitado e o expansionismo mais agressivo, métodos e ações aparecem invertidos, de cabeça para baixo e pés para cima. Por exemplo, na Alemanha de Weimar, antes de os nazistas tomarem o poder, as “ruas” eram dominadas por gangues orientadas por pensamento totalitário, e o pouco de democracia que havia estava concentrada no governo. Nos Estados Unidos, no entanto, é nas ruas onde a democracia é mais viva - enquanto o verdadeiro perigo reside com um governo cada vez mais desenfreado.

Outro exemplo da inversão: sob governo nazista, não havia nenhuma dúvida de que os “grandes negócios” eram subordinados ao regime político. Nos EUA, ao contrário, é absolutamente visível, há décadas, que o poder das grandes corporações tornou-se tão dominante, no establishment político, sobretudo no Partido Republicano, e é tão dominante sobre o poder político, que se pode pensar, sim, em perfeita inversão formal em relação aos nazistas. Ao mesmo tempo, é poder corporativo, representante da dinâmica do capitalismo e do poder sempre em expansão tornado possível pela integração da ciência e da tecnologia com a estrutura do capitalismo, que produz o ímpeto totalitário que, sob os nazistas, apareceu em noções ideológicas como o Lebensraum.

Contra minha posição, não faltará quem diga que não há equivalente nos EUA do regime nazista de tortura, campos de concentração ou outros instrumentos de terror. Mas é preciso lembrar que, na maior parte, o regime de terror nazista não se aplicava de modo geral a toda a população; que visava, isso sim, a promover certo tipo de medo difuso – o medo da tortura – que servia bem para manipular a população. Dito de forma positiva, os nazistas queriam sociedade mobilizada, pronta a apoiar o estado de guerra permanente, o expansionismo e o sacrifício da nação.

Enquanto o totalitarismo nazista se esforçou para dar às massas uma sensação de poder coletivo e força, Kraft durch Freude ( "Força através da alegria"), o totalitarismo invertido promove uma sensação de fraqueza, de futilidade coletiva. Se os nazistas queriam sociedade continuamente mobilizada que não apenas apoiaria o regime sem protestar e entusiasticamente votaria “sim” em plebiscitos periódicos, o totalitarismo invertido quer sociedade politicamente desmobilizada que nem se interessa por votar. Basta lembrar o que disse o presidente Bush imediatamente depois dos eventos horríveis do 11/9: “Vamos nos unir, consumir e viajar”, disse ele, aos cidadãos ansiosos. Apesar de já ter incorporado o terrorismo a uma “guerra”, o presidente não fez o que fazem líderes democráticos em tempos de guerra: mobilizar os cidadãos, alertar para os sacrifícios à frente e exortá-los a unir-se em algum “esforço de guerra”. Em vez disso, o totalitarismo invertido passou a usar os meios que tem para promover o medo generalizado, não só mediante “alertas” repentinos, mas também mediante anúncios periódicos de células terroristas recentemente descobertas, de prisões de figuras sinistras, do tratamento violento infligido aos inimigos na Ilha do Diabo da baía de Guantánamo, ou de métodos de interrogatório perversos, divulgação que, na atmosfera de medo generalizado, gera ainda mais medo, porque os cidadãos já convivem com o desemprego, os cortes, as demissões sempre iminentes, ou a redução das aposentadorias e serviços públicos de saúde. O sistema político dominado pelas corporações não faz outra coisa além de ameaçar com a privatização: da Seguridade Social, dos serviços de saúde, de tudo que, por pouco que seja, ainda são os recursos com que os pobres contam para sobreviver. Com tantos instrumentos para promover a insegurança e a dependência, o totalitarismo invertido ainda usa sistema de justiça criminal extremamente punitivo, serve-se da pena de morte e é elitista, marcadamente discriminatório contra os sem poder.

Todo esse sistema é propagandeado por mídia servil e cada vez mais concentrada; por universidades integradas às empresas e aos interesses de seus mecenas corporativos; por máquina de propaganda institucionalizada em think-tanks milionários e fundações conservadoras; pela cooperação cada vez mais estreita entre a polícia local e as agências nacionais responsáveis pela aplicação da lei que visam identificar terroristas, estrangeiros suspeitos e dissidentes internos.

O que está em jogo, portanto, é nada menos do que a tentativa de transformação de uma sociedade razoavelmente livre em uma variante dos regimes extremos do século passado. Nesse contexto, as eleições nacionais de 2004 representam uma crise no seu sentido original, um ponto de viragem. A questão para os cidadãos é: Qual o caminho?