Mike Haynes
Jacobin
Resenha de Exit Stalin: The Soviet Union as Civilisation 1953–1991, de Mark B. Smith (Allen Lane, 2026)
Até 1991, era impossível estar à esquerda e não ter uma opinião sobre a União Soviética. Moscou era — observa Mark Smith em sua nova história da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) do período pós-Stalin — o centro de metade do mundo. O destino desse mundo parecia depender da relação em constante mudança entre os Estados Unidos e a URSS.
Hoje, a URSS não existe mais. Seus dois maiores componentes de outrora, Rússia e Ucrânia, estão em guerra um contra o outro. A China e outros países ganham maior destaque nas questões que levantamos sobre o futuro do mundo.
A URSS representa um mundo que a esquerda, para o bem ou para o mal, perdeu. O livro de Smith é uma tentativa de recriar esse mundo soviético com foco no cotidiano. Com esse objetivo, ele o descreve como "uma história em fragmentos".
Futuros possíveis
Para Smith, a Rússia soviética era "uma civilização revolucionária", mas seu interesse não reside nas "grandes teorias". Ele afirma que seu livro apresenta seis teses inter-relacionadas sobre periodização, revolução, descolonização, subjetividade, normalidade e cultura. No entanto, essas questões são abordadas de forma leve na obra. Qualquer leitor que busque uma análise estruturada da natureza social da URSS — seja como modo de produção ou formação social — e de suas dinâmicas mais amplas ficará frustrado.
Até 1991, era impossível estar à esquerda e não ter uma opinião sobre a União Soviética.
Em sua seção final, Smith argumenta que a União Soviética foi “o país que cometeu suicídio por acidente”.
Jacobin
Resenha de Exit Stalin: The Soviet Union as Civilisation 1953–1991, de Mark B. Smith (Allen Lane, 2026)
Até 1991, era impossível estar à esquerda e não ter uma opinião sobre a União Soviética. Moscou era — observa Mark Smith em sua nova história da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) do período pós-Stalin — o centro de metade do mundo. O destino desse mundo parecia depender da relação em constante mudança entre os Estados Unidos e a URSS.
Hoje, a URSS não existe mais. Seus dois maiores componentes de outrora, Rússia e Ucrânia, estão em guerra um contra o outro. A China e outros países ganham maior destaque nas questões que levantamos sobre o futuro do mundo.
A URSS representa um mundo que a esquerda, para o bem ou para o mal, perdeu. O livro de Smith é uma tentativa de recriar esse mundo soviético com foco no cotidiano. Com esse objetivo, ele o descreve como "uma história em fragmentos".
Futuros possíveis
Para Smith, a Rússia soviética era "uma civilização revolucionária", mas seu interesse não reside nas "grandes teorias". Ele afirma que seu livro apresenta seis teses inter-relacionadas sobre periodização, revolução, descolonização, subjetividade, normalidade e cultura. No entanto, essas questões são abordadas de forma leve na obra. Qualquer leitor que busque uma análise estruturada da natureza social da URSS — seja como modo de produção ou formação social — e de suas dinâmicas mais amplas ficará frustrado.
Até 1991, era impossível estar à esquerda e não ter uma opinião sobre a União Soviética.
O mesmo vale para aqueles que desejam entender como os acontecimentos posteriores se conectavam a 1917. É famosa a afirmação de Victor Serge de que não via problema em admitir que o germe do stalinismo já estava presente no bolchevismo desde o início, uma vez que o bolchevismo também abrigava uma infinidade de outros germes ou possibilidades. Embora Smith não cite essa observação, ele parece compreendê-la, ao falar em "múltiplos futuros possíveis" durante o desenvolvimento da URSS.
Ao mesmo tempo, ele também escreve sobre linhas retas que partem do passado. Essa abordagem não parece particularmente útil. Linhas retas podem seguir em qualquer direção a partir de um único ponto de origem.
Importa que outras obras tratem dessas questões de maneira mais sistemática? Creio que não. O foco de Smith é a recriação do mundo em que viveram várias gerações de russos soviéticos. Ele faz eco à historiadora Svetlana Alexievich — ela própria outrora soviética e hoje bielorrussa —, cuja ambição tem sido nos falar sobre "amor, ciúme, infância, velhice, música, dança, penteados. A infinidade de detalhes variados de um modo de vida desaparecido". Smith segue esses caminhos e nos convida a formar nossos próprios juízos sobre a vida cotidiana, o trabalho e as mentalidades que esse contexto gerou.
O livro é permeado por um sentimento de perda — inclusive, como descobrimos ao final, uma perda pessoal. Ainda assim, Smith mantém um olhar atento aos muitos aspectos negativos e ambíguos da sociedade soviética. Ele se baseia em algumas das melhores pesquisas históricas, incluindo as suas próprias. Detalhes fascinantes emergem à medida que cada fragmento segue direções distintas.
Os herdeiros de Stalin
Smith interessa-se pelas diferentes noções de tempo. A URSS parecia tão perene e, no entanto, mal conseguiu perdurar por setenta e cinco anos após 1917. A era pós-Stalin durou pouco menos de trinta e nove anos.
O censo soviético de 1989 registrou uma população de 287 milhões de pessoas. Apenas doze milhões tinham mais de setenta anos e, possivelmente, guardavam lembranças dos primeiros anos do pós-revolução, enquanto 3,5 milhões tinham mais de oitenta anos e podiam ter alguma memória da Rússia czarista. Bem mais de 70 por cento desses sobreviventes de longa data eram mulheres.
A URSS parecia tão permanente; no entanto, mal conseguiu durar setenta e cinco anos após 1917. A era pós-Stalin não chegou a completar trinta e nove anos.
A história soviética havia dizimado desproporcionalmente a população masculina. No entanto, houve alguns sobreviventes do sexo masculino de destaque que haviam vivenciado a revolução já na idade adulta, como Vyacheslav Molotov, que morreu em 1986 aos noventa e seis anos, e Lazar Kaganovich, que faleceu em 1991, prestes a completar noventa e oito anos. Por outro lado, em 1989, 68% da população tinha menos de quarenta e cinco anos e, portanto, não poderia ter qualquer memória significativa de Stalin.
O problema era que o legado do regime de Stalin e o papel da repressão — ainda que atenuada — persistiam. Se considerarmos o início do regime stalinista em 1929, ele durou vinte e quatro anos — o dobro do tempo de duração do governo nazista. Nesse período, cerca de doze milhões de pessoas foram enviadas para o Gulag.
Contudo, o regime soviético, em todas as suas formas, reivindicava ser o sucessor natural de 1917. Ele abraçava a aspiração de alcançar e superar o Ocidente. Orgulhava-se de sua contribuição para a vitória na Segunda Guerra Mundial — um orgulho que se tornou central para a "civilização" soviética do pós-guerra.
Com a morte de Stalin, tornou-se evidente que o sistema precisava mudar. No entanto, o que o poeta Yevgeny Yevtushenko chamou de "arrancar Stalin de dentro dos herdeiros de Stalin" provou ser uma tarefa difícil, e as reformas foram irregulares.
A zona de lama e neve derretida
Em grande parte da antiga URSS, a transição entre a neve e o gelo do inverno e a primavera é marcada por um período de lama e neve derretida (slush). Smith vê o "degelo" dos anos de Nikita Khrushchev como uma "zona de lama e neve derretida" na sociedade soviética. A URSS caminhava para uma ditadura mais estável.
O número de "crimes contrarrevolucionários" caiu de quarenta mil por ano, pouco antes da morte de Stalin, para 623 em 1956.
Os campos de prisioneiros foram sendo esvaziados aos poucos. O número de "crimes contrarrevolucionários" caiu de quarenta mil por ano, pouco antes da morte de Stalin, para 623 em 1956. A desestalinização criou o que Smith chama de "um ambiente moralmente habitável", no qual as pessoas se viam divididas entre olhar para trás, receosas, e vislumbrar horizontes futuros.
A sociedade começou a avançar. A ampla reconstrução das grandes cidades — especialmente Moscou, que os planejadores esperavam transformar em uma "metrópole resplandecente" — oferecia sinais de esperança, e o programa habitacional soviético revelou-se "uma das grandes reformas sociais da história europeia".
No entanto, a desestalinização ainda deixava "resquícios na mentalidade do povo soviético", como observa Smith. Além disso, o progresso social ainda era limitado. Quando Yuri Gagarin se livrou do paraquedas em uma área rural, após orbitar a Terra em 1961, teve de procurar um telefone para informar aos seus superiores onde estava.
Tendo sucedido Khrushchev em 1964, Leonid Brejnev governou até sua morte, em 1982, aos setenta e cinco anos. O livro traz uma foto dele em 1956, com aparência jovem e dinâmica, embora já tivesse sofrido seu primeiro ataque cardíaco. No final da década de 1970, era evidente para todos que sua condição física e mental estava em declínio.
A maioria dos historiadores vê a condição de Brejnev como uma metáfora para o declínio da União Soviética como um todo. Para Smith, contudo, a "longa década de 1970" ainda foi positiva para a maioria das pessoas, mesmo que o ritmo de melhoria tenha desacelerado a partir de meados daquela década.
Centro e periferia
Durante esse período, o padrão de vida geral se elevou e o lazer ganhou importância. A transição para uma sociedade mais voltada ao consumo, iniciada sob Khrushchev, consolidou-se sob Brejnev. Emergia uma esfera privada mais ampla e propensa à sociabilidade. Apesar das pressões dos gastos militares, o vasto programa habitacional prosseguiu, com a redução gradual (embora não a eliminação) das formas de moradia coletiva.
A transição para uma sociedade mais voltada ao consumo, iniciada sob Khrushchev, consolidou-se sob Brejnev.
As lojas continuavam mais rudimentares do que no Ocidente, mas seu número crescia. Os preços da maioria dos itens de necessidade cotidiana eram baixos e relativamente estáveis. Apesar das filas, a quantidade, a variedade e — ainda que em ritmo mais lento — a qualidade dos produtos estavam aumentando. Os cidadãos soviéticos começaram a adquirir de tudo: desde chapéus e casacos de pele até frigideiras, móveis e, em alguns casos, automóveis. Houve até, observa Smith, um aumento significativo na posse de animais de estimação — um reflexo da maior disponibilidade de espaço habitacional, da melhoria das condições de vida e de uma atitude mais positiva em relação aos animais.
Para compreender como as próprias pessoas entendiam aquele mundo, Smith entrelaça dados concretos de história social com relatos extraídos de canções, poemas, romances, programas de televisão e filmes da época. Esses elementos ajudaram a moldar a cultura dos cidadãos soviéticos — ou, pelo menos, a de seus segmentos mais instruídos.
Ele reconhece que tendemos a enxergar o passado soviético sob a ótica dos estratos urbanos e mais instruídos. Em 1989, 66% da população vivia em áreas urbanas, com nove milhões de habitantes em Moscou e cinco milhões em Leningrado. Isso significava que metade da população ainda vivia no campo ou em núcleos urbanos com populações entre três mil e cem mil habitantes. Compreender a "profunda URSS" é um desafio para os pesquisadores.
Há uma questão correlata que Smith também reconhece: nossa tendência de ver a URSS através das lentes de suas regiões russas (e, em menor grau, ucranianas). Em 1989, apenas 51% da população vivia na República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR). A fragmentação da URSS nos tornou mais atentos às histórias dos outros 49%, mas é mais difícil sintetizar as experiências desse grupo em uma narrativa única.
Essas experiências mais amplas afetavam não apenas a "periferia", mas também o centro. A rápida industrialização e a urbanização geraram mobilidade social. Os líderes, como enfatiza Smith, eram geralmente pessoas de fora, que "vinham das margens geográficas e sociais". Levaria tempo até que os filhos herdassem os cargos de seus pais.
A longa década de 1970
Para a maioria das pessoas comuns, a "longa década de 1970" acabou personificando o que Smith chama de "uma eternidade soviética". Havia problemas e contradições, assim como no Ocidente, mas eles não prenunciavam o fim do sistema. Elas também não moldaram a compreensão que a maioria das pessoas tinha de seu mundo. Smith cita um historiador da Grã-Bretanha daquela mesma época, que observa que “a maioria das pessoas vive feliz com contradições”. E assim era na URSS.
A URSS permaneceu um Estado de partido único, onde o Estado de direito era limitado e não havia sindicatos livres nem greves legais.
Isso não durou. As melhorias não foram suficientes, e os problemas eram evidentes na estagnação da expectativa de vida e nos recursos limitados destinados à prestação de serviços de saúde. Politicamente, o stalinismo — a "variante de máxima coerção da Revolução Russa" — havia sido substituído pelo que Smith chama de uma "guerra civil de baixa intensidade" contra a dissidência durante a era Brejnev.
A URSS continuava sendo um Estado de partido único, onde o Estado de Direito era limitado e não havia sindicatos livres nem greves legais. As prisões e os campos de detenção persistiam, assim como a experiência do exílio, agora acrescida do uso de hospitais psiquiátricos para alguns dissidentes.
Isso não impediu revoltas ocasionais. Smith inicia seu livro descrevendo o momento em que manifestantes que protestavam contra o aumento dos preços dos alimentos foram baleados em Novocherkassk, em 1962. Em termos absolutos, observa ele, a KGB era "a maior força de polícia secreta do mundo".
Havia pessoas uniformizadas por toda parte. Quando os Jogos Olímpicos foram realizados em Moscou, em 1980, um contingente adicional de quarenta e cinco mil agentes uniformizados foi mobilizado na cidade. As pessoas respiravam com mais liberdade após 1953, mas ainda estavam cientes dos limites impostos.
Entre 1989 e 1991, o colapso da URSS mergulhou a vida de quase trezentos milhões de pessoas em um estado de turbulência. Quando isso aconteceu, parecia que uma mudança de tamanha magnitude histórica só poderia ter nascido de uma crise profunda no sistema — fosse qual fosse a natureza desse sistema.
Suicídio por acidente?
Comentaristas posteriores não têm tanta certeza disso. Em sua seção final, Smith argumenta que a União Soviética foi "o país que cometeu suicídio por acidente". Se alguma reforma era necessária, será que não haveria uma alternativa ao que realmente aconteceu?
Em sua seção final, Smith argumenta que a União Soviética foi “o país que cometeu suicídio por acidente”.
Smith fala, como muitos fazem, de uma possível opção ao estilo chinês. Não se tratava de seguir diretamente a China da era de Deng Xiaoping. Entre 1989 e 1991, aquele modelo ainda não estava consolidado e mal era discutido como tal. A questão, na verdade, é se as consequências políticas da reforma econômica poderiam ter sido controladas de forma muito mais rigorosa.
Smith parece acreditar que sim. Ele concentra sua análise nos processos de alto nível que levaram à perda de controle, incluindo o que ele considera uma visão admirável, porém politicamente ingênua, de Mikhail Gorbachev sobre o poder e o apoio ao regime. Essa parece ser uma perspectiva muito restrita, que deixa de lado grande parte da efervescência gerada pela reforma nas bases da sociedade.
Ele aborda de forma superficial a maneira como partes do sistema e alguns dos grupos mais poderosos conseguiram sobreviver. "As pessoas que administravam o Estado desistiram e foram embora", diz ele. Mas isso é apenas parcialmente verdade. Encerrar a narrativa em 1991, sem uma abordagem mais estruturada do período subsequente, parece limitar excessivamente a análise.
Já se passaram três décadas e meia desde 1991 — um período apenas um pouco mais curto do que o intervalo entre 1953 e 1991. A descrição que Smith faz daquela época é valiosa para quem está fora da Rússia e deseja entender as transformações no cotidiano daquele período. No entanto, se o passado parece distante para nós, ele também se torna cada vez mais remoto para os próprios russos.
Hoje, a Rússia — Estado sucessor da URSS — tem uma população de apenas 147 milhões de habitantes. Apenas as pessoas com mais de quarenta anos podem ter alguma lembrança significativa dos últimos anos da União Soviética. Aqueles que tinham dezoito anos em 1991 estão agora com cinquenta e três anos ou mais, constituindo menos de um terço da população. A "eternidade soviética", como observa Smith, foi passageira.
Colaborador
Mike Haynes é historiador econômico e social; entre suas obras, destacam-se Russia: Class and Power 1917–2000 e Productivity.

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