30 de novembro de 2008

Superestimado

Terry Eagleton

Standpoint

Slavoj Žižek é menos um filósofo que um fenômeno. Filho de comunistas eslovacos, é o representante na Terra (por assim dizer) do falecido psicanalista francês Jacques Lacan, nos últimos 20 anos Žižek tem viajado o planeta como um rockstar intelectual, reunindo imensos fãs clubes por onde passa. Ele é provocante, extravagante e divertido. Ele foi tentado, nos disse, a sugerir para a “orelha” de um dos seus livros: “No seu tempo livre, Žižek gosta de navegar na internet buscando pornografia infantil e de ensinar ao seu filho pequeno como arrancar as pernas de uma aranha”. Ele foi o objeto de uma instalação chamada “Slavoj Žižek não existe”, atuou em dois filmes (Žižek! and The Pervert’s Guide to Cinema), e apareceu numa “orelha” deitado no divã de Sigmund Freud embaixo de uma imagem de uma genitália feminina. Seus cerca de quarenta livros, com títulos como O Sublime Objeto da Ideologia, O Assunto delicado, Aproveite o sintoma! e Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Lacan (Mas tinha medo de perguntar a Hitchcock), são colagens dessaranjadas de idéias, que vão de Kant à ciência da computação, de Santo Agostinho à Agatha Christie. Parece não haver nada neste mundo que não seja triturado pelo seu moinho intelectual. Uma digressão gera outra, até que o autor parece tão obscuro quanto o leitor sobre o que ele deveria estar discutindo. Além disso, e para o horror de todo resenhista, os livros de Žižek vêm engordando a cada ano. A Visão em Paralaxe (Boitempo, 2008), com quase 400 páginas densamente impressas, que vão da biopolítica à Robert Schumann, à neurociência e Henry James, surgiu há apenas dois anos, Em Defesa das Causas Perdidas é um livro que traz à tona Lênin e Heidegger, Cristo e Robespierre, Mao e ecologia, e é um calço de porta ainda mais pesado.

Slavoj Žižek é, assim, o grande exemplo europeu de um filósofo pós-moderno. Ele é um cruzamento entre guru e provocador, sábio e showman. Em estilo tipicamente pós-moderno, seus trabalhos saltam, insolentemente, sobre as fronteiras entre a alta cultura e a popular, desviando no meio de um Parágrafo de Kierkgaard para Mel Gibson. Formado filósofo em Liubliana e em Paris, ele é cinéfilo, teórico da psicanálise, teólogo amador e analista político. É membro do Círculo Lacaniano de Liubliana, uma associação tão improvável como uma de Hegelianos de Huddersfield. Quando trata de política, ele revela os meandros de Rousseau ou Carl Schmitt assim como quando fala jornalisticamente dos distúrbios de Paris, da Guerra ao Terror, ou da relação da Turquia com a União Européia. Ele próprio foi um político em sua Eslovênia natal e a sombra do conflito iugoslavo se abateu sobre seus comentários mordazes a respeito da guerra, o racismo, o nacionalismo e os conflitos étnicos.

Mas se seus livros são pós-modernos no método, são, entretanto, lúcidos no estilo. A este respeito, ele é uma espécie de constrangimento àqueles que acreditam que os filósofos continentais sofrem de dislexia [Word-disorder]. A escrita de Žižek é nítida e facilmente consumida. Ludwig Wittgenstein uma vez disse que gostaria de escrever um livro de filosofia só de piadas; e embora haja muito mais em Žižek que histórias engraçadas, a anedota cômica é uma das suas mais finas escritas. Ele vêm de uma boa linhagem de humor cínico do leste europeu, como quando afirmou que a diferença entre a União Soviética e a um-pouco-mais-reformista Iugoslávia é que, enquanto na União Soviética as pessoas caminhavam a pé enquanto seus representantes dirigiam carros, na Iugoslávia as próprias pessoas dirigiam seus carros por meio de seus representantes políticos. Ele nos conta, com um prazer macabro, que muito da legislação que especifica o que é um segredo de estado na China é, ela mesma, classificada como segredo de estado. Para ilustrar a interação entre presença e ausência, ele conta, em outro de seus livros, a história de uma guia que conduzia um grupo de visitantes por uma galeria de arte do leste europeu durante a era soviética e parou diante de um quadro chamado “Lênin em Varsóvia”. Não havia nenhum sinal de Lênin no quadro; ao invés disso ele retrata a esposa de Lênin na cama com um belo e jovem membro do Comitê Central. "Mas onde está Lênin?", perguntou uma perplexa e absorta pessoa, ao que o guia responde grosseiramente: “Lênin está em Varsóvia”.

Há duas piadas em particular, que são, por assim dizer, sobre o leitor Žižekiano. A primeira me referirei brevemente: Žižek parece uma leitura divertida e, em muitos aspectos, é mesmo; mas ele também é um pensador extremamente extenuante criado nas altas tradições da filosofia européia. A segunda é que Zizek não é um pós-modernista em hipótese nenhuma. Na verdade, ele é visceralmente hostil a toda essa corrente de pensamento, como este último livro ilustra. Se ele rouba um pouco da roupagem pós-modernista, ele tem pouco menos que um desprezo pelo multiculturalismo deles, pelo anti-universalismo, pelo dandismo teórico e pela modernosa obsessão com a cultura.Defesa das Causas Perdidas está aí pra desafiar a sabedoria convencional do fim das ideologias; que as grandes narrativas estão se arrastando, quase parando; que a época da grandes explicações acabou, e que a ideia de emancipação global está tão morta na água, como o antigo proprietário do Daily Mirror.

Žižek é extremamente sério com estas questões embora haja um elemento típico de contrariedade sobre isso também. Ele começou sua carreira editorial como uma espécie de pós-marxista, e agora voltou seu caminho para o marxismo. Esta é uma maldição que marca sua sensibilidade como um todo, erigida maliciosamente. Paradoxo para Žižek é o equivalente estilístico do pensamento dialético. E nada pode ser mais paradoxal que subir no navio revolucionário no exato momento em que ele foi furado no casco. Enquanto ele próprio se torna mais e mais em voga, sua política se torna menos. Ele tem apenas que farejar uma ortodoxia que sente um comichão em se me intrometer; então se é o marxismo que agora está fora de moda, há uma lógica perversa no fato de ele ter que voltar a este tão assertivamente. Neste livro, como em muitos anteriores, ele abraça o se pode chamar de técnicas pós-modernas (ironia, paradoxo, pensamento lateral, multiplicidade, e até mesmo, às vezes, uma certa dissimulação descarada) a serviço de posições completamente tradicionais.

O caso conscientemente ultrajante que este livro tem que discutir é se existe um momento “redentor” a ser arrancado de empreendimentos revolucionários fracassados como o Jacobinismo, Leninismo, Stalinismo e Maoismo. Žižek não é , de maneira nenhuma, um defensor do terror político. O Mao que ele nos apresenta aqui é, por exemplo, o assassino em massa que ponderou que “metade da China deve morrer” no Grande Salto para Frente, e que comentou que, apesar de uma guerra nuclear poder abrir um buraco no planeta, ela deixaria o cosmos praticamente intocado. Seu objetivo não é justificar tais demências, mas tornar as coisas mais difíceis para a recusa delas pelo típico liberal classe-média. Na busca de tais objetivos, o livro no traz uma riqueza em insights filosóficos e políticos; entretanto não fica claro se estes validam a tese central do livro.

Vejamos, por exemplo, sua “defesa” da adesão de Heidegger ao nazismo na década de 1930, e da defesa, cerca de quarenta anos depois, do apoio de Foucault à Revolução Iraniana. Ambas adesões Žižek vê como profundamente condenáveis; mas na sua opinião eram, ao menos, compromissos com a necessidade de mudança revolucionária, mesmo que Heidegger e Foucault tenham apostado nos cavalos errados. Por trás deste caso está a dívida que tem Žižek a Alain Badiou, um dos principais filósofos franceses, a quem o livro presta algumas simpáticas críticas. Para Badiou, a vida boa, ética e politicamente, consiste num apego obstinado a algum “Evento” que explode inesperadamente na cena histórica, transforma as coordenadas da realidade humana remodelando, dos pés à cabeça, os homens e mulheres que se mantêm fiéis a ele. Um dos exemplos deste “evento” do ateu Badiou é a vida e a morte de Cristo.

Há um certo grau de formalismo gaulês nesta noção. Como no existencialismo, o conteúdo exato do evento redentor, ao contrário do fato miraculoso da sua ocorrência,nem sempre é o principal ponto em jogo. Žižek concorda com Badiou que é melhor se apegar desastrosamente a tal revelação da verdade que ficar indiferente a ela, o que certamente não é o caso. Não há nada admirável na fidelidade para o seu próprio bem. A indiferença não é o mais hediondo dos crimes. O pensamento radical francês frequentemente contrasta algum momento privilegiado da verdade e a inautenticidade bovina do cotidiano, e Badiou não é uma exceção. Existe um elitismo espiritual nesta ética que é difícil conciliar com as sugestivas reflexões deste livro sobre a ideia de democracia.

A essência da vida ética para Žižek, Badiou e Lacan é a recusa em recuar, mantendo-se obstinadamente fiel ao seu desejo. Apenas forçando seu desejo até o fim, como nos protagonistas das tragédias, alguém pode florescer. O grande ícone de Lacan é, assim, Antígona, que se recusa a aceitar meios-termo [settle for half]. Há algo de perigoso e de atrativo em tal ética; mas neste livro, é uma visão que permite Žižek defender a idéia de revolução e rejeitar o terror revolucionário. Sobre Robespierre e Stalin, diz Žižek, não é que eles não foram extremados demais, mas que não foram revolucionários o suficiente – se tivessem sido, o terror político não teria sido necessário. O terror jacobino, por exemplo, é visto como um tanto implausível como o testemunho da inabilidade do grupo em realizar uma transformação tanto econômica como também política. Algo similar e dito sobre a Revolução Cultural de Mao.

Não é o núcleo de sua tese central que faz deste livro tão interessante, mas as torres laterais. Slavoj Žižek, como de costume, parece satisfatoriamente incapaz de lembrar o caso que vinha debatendo, e faz umas esplêndidas digressões, incluindo uma narrativa da mudança do papel do scherzo em Shostakovich, discorrer sobre o poema “Ode a Alegria” de Schiller, e reflexões sobre as obras perdidas de Einsenstein. Em Defesa das Causa Perdidas é um livro frenético, uma eclética parodia da erudição intelectual, por alguém tão seguro de sua capacidade em perceber as sutilezas de Kafka ou John Le Carré que pode exagerar um pouco.

6 de novembro de 2008

Por que a hegemonia dos Estados Unidos difere da do Império Britânico

Eric J. Hobsbawm

Le Monde Diplomatique

Tradução / Diz-se que a história são os discursos. Não há como entender essa expressão a menos que entendamos a linguagem em que as pessoas pensam, conversam e tomam decisões. Entre os historiadores, que se sentem tentados pelo que se denomina "a virada lingüística", há mesmo alguns que argumentam que são as idéias e os conceitos expressos nas palavras características do período que explicam o que aconteceu e por que aconteceu. Os tempos em que vivemos e o tema desta minha conferência no ciclo de Massey são o bastante para deixar-nos céticos quanto a essas proposições. Ambas estão saturadas com o que o filósofo Thomas Hobbes chamou de "discurso insignificante", discurso sem sentido, e suas subvariedades, o "eufemismo" e a "novilíngua" de George Orwell, ou seja, o discurso que tem o propósito deliberado de falsear e desorientar. Mas, a menos que os fatos mudem, mudar as palavras tampouco os muda.

Os debates atuais a respeito do tema do "império" são bons exemplos, mesmo que deixemos de lado o elemento da propaganda e a simples hipocrisia literária. Eles se referem às implicações 54 da reivindicação de hegemonia global por parte do atual governo dos Estados Unidos. Os que favorecem essa idéia tendem a argumentar que os impérios são bons e os que se opõem a ela tendem a mobilizar a longa tradição dos argumentos antiimperialistas. Mas esses argumentos e contra-argumentos, na verdade, não se relacionam com a história real dos impérios. Eles tentam adaptar palavras velhas a desenvolvimentos históricos que não necessariamente se ajustam às realidades antigas. Isso faz pouco sentido histórico. Os debates atuais são particularmente nebulosos porque a analogia mais próxima à supremacia mundial pela qual luta o atual governo americano é um conjunto de palavras - "império", "imperialismo", que estão em franca contradição com a autodefinição política tradicional dos Estados Unidos e que adquiriram impopularidade quase universal no século XX. Elas também estão em franco conflito com certos aspectos altamente valorizados e ardentemente defendidos no sistema de valores políticos do país, como "autodeterminação" e "lei", seja a interna, seja a internacional. Não nos esqueçamos de que tanto a Liga das Nações quanto as Nações Unidas foram essencialmente projetos lançados e articulados por presidentes dos Estados Unidos. Também são preocupantes os fatos de que não há precedentes históricos para a supremacia que o governo americano está tratando de estabelecer e de que qualquer bom historiador e todos os observadores racionais do cenário mundial percebem com grande clareza que esse projeto está quase que inevitavelmente destinado ao fracasso. O mais inteligente dos integrantes da escola neo-imperial, o excelente historiador Niall Ferguson, não tem dúvidas a respeito desse provável fracasso, embora o lamente, ao contrário de pessoas como eu

Quatro desenvolvimentos estão por detrás das tentativas atuais de reviver o império mundial como modelo para o século XXI. O primeiro é a extraordinária aceleração da globalização a partir da década de 1960, acompanhada das tensões que surgiram, por conseqüência, entre os aspectos econômicos, tecnológicos, culturais e outros desse processo e o principal campo da atividade humana que até aqui tem se mostrado impermeável a ela - a política. A globalização, na forma atualmente dominante do capitalismo de mercado livre, trouxe também um aumento espetacular e potencialmente explosivo das desigualdades sociais e econômicas, tanto no interior dos países quanto internacionalmente.

O segundo é o colapso do equilíbrio internacional de poder existente desde a Segunda Guerra Mundial, que manteve ao largo tanto o perigo de uma guerra global quanto a desintegração de grandes áreas do mundo no rumo da desordem e da anarquia. O fim da União Soviética destruiu esse equilíbrio, mas penso que ele já começava a fraquejar a partir do final da década de 1970. As regras básicas desse sistema, estabelecido no século XVI, foram formalmente condenadas pelo presidente Bush em 2002, em especial o princípio de que os Estados soberanos, agindo oficialmente, respeitavam as respectivas fronteiras e não se envolviam nos respectivos assuntos internos. Com o fim do equilíbrio estável entre as superpotências, como se poderia assegurar a estabilidade política do planeta? Em termos mais gerais, qual seria a estrutura de um sistema internacional destinado a uma pluralidade de poderes, mas no qual, ao final do século, só restava um?

O terceiro desenvolvimento é a crise dos chamados Estados nacionais soberanos, que haviam se tornado, na segunda metade do século XX, uma forma de governo quase universal para a população mundial, e que tiveram reduzida a sua capacidade de desempenhar as funções básicas relativas à manutenção do controle sobre o que acontece nos seus territórios. O mundo entrou na era dos Estados incapazes e, em muitos casos, a era dos Estados falidos ou fracassados. Essa crise também se tornou aguda a partir de 1970, aproximadamente, quando mesmo Estados fortes e estáveis, como o Reino Unido, a Espanha e a França, tiveram de aprender a 56 viver durante décadas, em seus próprios territórios, com grupos armados, como o IRA, o ETA e os separatistas corsos, sem ter o poder de eliminá-los. O banco de dados da Universidade de Uppsala registrou incidentes de guerra civil armada no período de 2001 a 2004 em 31 Estados soberanos.

O quarto desenvolvimento é o regresso das catástrofes humanas maciças, que incluem a expulsão de populações e o genocídio, e, com elas, a volta do medo generalizado. Assistimos também ao reaparecimento de algo como a peste negra da Idade Média, com a pandemia da aids, ao nervosismo global ante a possível extensão de uma "gripe aviaria", que até aqui não matou mais do que algumas dezenas de seres humanos, e uma espécie de histeria escatológica presente no tom de boa parte das discussões públicas sobre os efeitos do aquecimento global. A guerra e a guerra civil voltaram à Europa - houve mais conflitos desde a queda do muro de Berlim do que durante todo o período da Guerra Fria-com um impacto pequeno em termos dos soldados envolvidos e das baixas em combate, em comparação com as guerras de massa do século XX, mas desproporcionalmente vasto sobre a população não-combatente.

No final de 2004, estimava-se que havia quase 40 milhões de refugiados fora dos seus países e muitos outros, cada vez mais, dentro deles,' o que é similar ao número de "pessoas deslocadas" em conseqüência da Segunda Guerra Mundial. Essas imagens desoladoras, concentradas que estão em algumas poucas áreas do globo e visíveis nas telas das nossas casas quase ao mesmo tempo em que ocorrem, exercem sobre o público dos países ricos um impacto imediato e muito maior do que antes. Pense apenas nas guerras dos Bálcãs na década de 1990. É evidente que as pessoas nos países ricos sentiram que algo precisava ser feito a respeito da situação terrível em que muitas das áreas mais pobres aparentavam estar mergulhando.

Em síntese, o mundo parecia clamar, com progressiva intensidade por soluções supranacionais para os problemas supranacionais ou transnacionais, mas não havia nenhuma autoridade global com a capacidade de tomar decisões políticas, para não falar do poder de executá-las. A globalização sai de cena quando se trata de política, seja interna, seja internacional. As Nações Unidas não têm poder ou autoridade próprios, dependem da decisão coletiva dos Estados e podem ser bloqueadas pelo poder absoluto de veto que pode ser exercido por cinco membros. Mesmo as demais organizações internacionais e financeiras do mundo pós-1945, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, só podem desenvolver ações efetivas com o patrocínio das grandes potências (o chamado "Consenso de Washington"). O único órgão que não sofre essa limitação, o GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, desde 1995, Organização Mundial do Comércio - OMC), tem encontrado obstáculos reais na oposição dos países à conclusão de acordos. Os únicos atores efetivos são os Estados. E, em termos de poder militar capaz de executar ações importantes em escala global, só existe hoje um Estado que pode desenvolvê-las, os Estados Unidos.


"A melhor defesa da idéia de império é a defesa da idéia de ordem." Em um mundo crescentemente desordenado e instável, é natural que se sonhe com algum poder capaz de estabelecer a ordem e a estabilidade. Esse sonho se chama império. É um mito histórico. O império americano, com suas esperanças de uma pax americana, tem como imagem a assumida pax britannica, período de globalização e de paz mundial no século XIX associado à assumida hegemonia do Império Britânico, paz que, por sua vez, tinha como imagem e razão do seu próprio nome a pax romana do antigo Império Romano. Mas isso é conversa mole. Se a palavra paxtem algum sentido nesse contexto, é por referir-se ao estabelecimento 58 da paz dentro de um império, e não internacionalmente. E mesmo assim a referência é em grande parte falsa. Os impérios da história raramente deixaram de conduzir operações militares nos seus próprios territórios e com certeza o fizeram nas suas fronteiras em todos os tempos. Simplesmente essas operações não afetavam a vida civil de suas metrópoles. Na era do imperialismo dos séculos XIX e XX, as guerras contra os não-brancos ou outras coletividades inferiores, as "raças inferiores e sem lei" de Rudyard Kipling, normalmente não se contavam entre as guerras propriamente ditas, às quais as regras usuais se aplicavam. Hew Strachan com razão pergunta: "Que acontecia com os prisioneiros tomados nos conflitos coloniais britânicos, fora os da Guerra dos Bôeres [que era vista como uma guerra entre brancos]? Que processos jurídicos foram aplicados com regularidade?". Os "combatentes ilegais" do presidente Bush no Afeganistão e no Iraque, aos quais não se aplicam nem a lei nacional nem a Convenção de Genebra, têm seus precedentes imperialistas.

A paz mundial e mesmo a paz regional têm ficado fora do alcance do poder de todos os impérios até aqui conhecidos pela história e certamente estão fora do alcance de todas as grandes potências dos tempos modernos. Se a América Latina é a única parte do mundo que tem estado basicamente imune às guerras internacionais significativas por quase duzentos anos, isso não se deve à Doutrina Monroe, que foi "por décadas [...] pouco mais do que um blefe ianque", nem ao poder militar dos Estados Unidos, que nunca esteve em condições de coagir diretamente nenhum país da América do Sul. Até o momento em que este texto está sendo escrito, esse poder foi empregado habitualmente apenas contra os países anões da América Central e das ilhas do Caribe, e mesmo aí nem sempre de maneira direta. A intervenção militar, incluindo as tentativas de impor "mudanças de regime", foi praticada no México (ou no que restou dele depois da guerra de 1848), 59 entre 1913 e 1915, ao tempo do presidente Wilson. O que foi definido como seu "programa de imperialismo moral", que "colocou o poder dos Estados Unidos para apoiar um esforço contínuo e por vezes errático de forçar a nação mexicana a atender às suas próprias e mal concebidas especificações",* resultou em desastre. Contudo, depois de Wilson, Washington decidiu, sabiamente, não fazer jogos de guerra com o único país grande do seu quintal caribenho. Não foi o poder militar que propiciou a dominação dos Estados Unidos sobre o continente americano.

A Grã-Bretanha, é claro, como sugere a expressão "esplêndido isolamento", sempre teve consciência de que não podia controlar o sistema de poder internacional do qual fazia parte e não manteve presença militar significativa no continente europeu. O Império Britânico beneficiou-se enormemente do século de paz entre as potências, mas não o criou. Eu resumiria as relações entre os impérios, as guerras e a paz do seguinte modo: os impérios, como o Império Britânico, por exemplo, formaram-se principalmente pelas agressões e pelas guerras. E foram também as guerras-normalmente, como bem observa Niall Ferguson, as guerras entre impérios rivais - que os desfizeram. Ganhar grandes guerras mostrou ser tão fatal para os impérios quanto perdê-las: essa é uma lição da história do Império Britânico que Washington deveria aprender. A paz internacional não é criação dos impérios, e sim o que lhes dá a chance de sobreviver. O excelente livro Forgotten armies [Exércitos esquecidos] nos dá um quadro vivido de como o poder e a hegemonia européia no Sudeste Asiático, que pareciam tão esplêndidos e seguros, entraram "em colapso em questão de semanas, em 1941-42. 


Deixando de lado a Espanha do século XVI e talvez a Holanda do século XVI, a Grã-Bretanha, de meados do século XVIII a meados do século XX, e os Estados Unidos, a partir de então, são os únicos exemplos de impérios genuinamente globais com horizontes políticos globais, e não meramente regionais, o mesmo valendo para seus recursos de poder - a supremacia naval para a Grã-Bretanha do século XIX e a supremacia aérea para os Estados Unidos do século XXI, ambos apoiados por uma forte rede mundial de bases operacionais. Isso não era e não é suficiente, uma vez que os impérios dependem não apenas de vitórias militares e de segurança, mas também de um controle duradouro. Por outro lado, a Grã-Bretanha do século XIX e os Estados Unidos do século XX também usufruíram de um recurso que nenhum império anterior tivera ao seu alcance, nem poderia ter tido, na ausência da globalização moderna: o domínio da economia industrial do mundo.

Assim o fizeram não só pelo tamanho dos seus aparatos produtivos, como verdadeiras "usinas do mundo" - os Estados Unidos, no seu auge da década de 1920 e novamente depois da Segunda Guerra Mundial, representavam cerca de 40% da produção industrial (manufatureira) do mundo[10] e em 2005 ainda eram o maior produtor, embora apenas com 22,4% do "valor industrial agregado"." Também ambos dominaram como modelos econômicos, como pioneiros técnicos e organizacionais, como indicadores de tendências e ainda como os centros do sistema mundial de fluxos financeiros e de produtos comerciais e como os países cujas políticas financeiras e comerciais determinavam em grande medida as características desses fluxos.

Ambos, é evidente, exerceram também uma influência cultural desproporcional, que se deve, principalmente, à globalização da língua inglesa. Mas a hegemonia cultural não é um indicador de poder imperial nem depende muito dele. Se assim fosse, a Itália, desunida, pobre e sem poderes, nunca teria dominado a vida internacional artística e musical do século XV ao XVI. Além disso, quando o poder cultural sobrevive ao declínio do poder material e do prestígio dos países que antes o propagavam, como o Império Romano ou a monarquia absoluta francesa, torna-se mera relíquia do passado, a exemplo da nomenclatura militar derivada da França ou o sistema métrico decimal.

É lógico que devemos distinguir entre os efeitos culturais diretos da dominação imperial direta e os efeitos da hegemonia econômica, assim como entre ambos e os desenvolvimentos pós imperiais independentes. A disseminação do beisebol e do críquete foi realmente um fenômeno imperial, pois esses jogos só se implantaram nos lugares onde estiveram baseados soldados britânicos ou americanos. Mas isso não explica o triunfo dos esportes verdadeiramente globais, como o futebol, o tênis ou, para os executivos, o golfe. Todos eles foram inovações britânicas do século XIX, como quase todos os esportes praticados internacionalmente, inclusive o montanhismo e o esqui. Alguns, como as corridas de cavalos, provavelmente devem sua organização ao prestígio internacional da classe dominante inglesa do século XIX, que também impôs ao mundo o estilo de vestir dos homens das classes altas, assim como o prestígio de Paris impôs a moda às mulheres das classes altas. Outros, sobretudo o futebol, tiveram suas raízes na diáspora mundial dos britânicos contratados no século XIX pelas suas firmas no exterior e outros mais (golfe) talvez se devam à participação mais do que proporcional dos escoceses no desenvolvimento do império e da economia. O certo é que eles superaram em muito suas origens históricas. Seria absurdo ver a Copa do Mundo de futebol como um exemplo do "poder de persuasão" da Grã-Bretanha.

Volto-me agora para as diferenças cruciais que existem entre os dois países. A primeira grande diferença é o tamanho potencial da metrópole. As ilhas têm fronteiras fixas e a Grã-Bretanha, portanto, não tem fronteiras terrestres e vivas como os Estados Unidos. Em ocasiões pretéritas, ela fez parte de impérios continentais europeus - nos tempos romanos, depois da conquista normanda e, por um momento, quando Maria Tudor se casou com Filipe da Espanha -, mas nunca foi a base de tais impérios. Quando os países que integram a Grã-Bretanha geraram excessos populacionais, esses excedentes migraram para formar colônias no ultramar e as ilhas britânicas tornaram-se uma grande fonte de emigrantes. Já os Estados Unidos foram e continuam a ser essencialmente receptores, e não emissores de populações. Seus espaços vazios foram preenchidos com o crescimento da sua própria população e com imigrantes, que até a década de 1880 vinham principalmente das regiões setentrionais e centrais da Europa ocidental. Juntamente com a Rússia (sem contar o êxodo dos judeus russos para Israel), os Estados Unidos são o único grande império que nunca desenvolveu uma diáspora significativa de emigrantes. Ao contrário da Rússia desde sua fragmentação, em 1991, os Estados Unidos ainda não a tiveram. Os americanos expatriados constituem uma porcentagem menor da população de qualquer país da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) do que os expatriados de qualquer outro país da mesma OCDE, com exceção do Japão.[13]

O império americano, ao que me parece, é a conseqüência lógica dessa forma de expansão através do continente. Na sua juventude, os Estados Unidos viam sua república como aberta a toda a América do Norte. Aos colonos que trouxeram consigo para a América formas de convivência de populações densas, a nova terra parecia não ter nem dono nem fim. Com efeito, dado o rápido e não-deliberado quase genocídio da população indígena, devido ao impacto das doenças européias, isso lhes pareceu ainda mais verdadeiro. Mesmo assim, hoje ficamos surpresos com o fato de que a famosa"tese da fronteira" de Frederick Jackson Turner, sobre 63 o desenvolvimento da história americana, não encontrou nenhum lugar para os nativos americanos, que, afinal, tinham estado obviamente presentes na América de Fenimore Cooper. A América do Norte não era, de modo algum, uma"terra virgem", mas a implan-tação de formas européias de economia e o uso extensivo do território implicavam o afastamento dos nativos, mesmo que não levemos em conta a convicção dos colonos de que Deus lhes dera a exclusividade do uso daquelas terras. Afinal de contas, a Constituição americana excluía especificamente os nativos da comunidade política das "pessoas que usufruíam do direito natural" às "benesses da liberdade". Evidentemente, a eliminação completa só era possível nos lugares em que a população original era relativamente pequena, como na América do Norte e na Austrália. Onde isso não ocorria, como na Argélia, na África do Sul, no México e, como se viu depois, na Palestina, mesmo as grandes populações colonizadoras tiveram de viver junto com as grandes populações nativas, ou melhor, em cima delas.

Frisemos novamente que, ao contrário da Grã-Bretanha e de todos os demais países da Europa, os Estados Unidos nunca se viram como parte integrante de um sistema internacional de potências políticas que rivalizam entre si. Esse era, precisamente, o sistema que a Doutrina Monroe buscava excluir do continente americano. Nesse hemisfério de dependências descolonizadas, os Estados Unidos não tinham rival. Tampouco tinham o conceito de dependência colonial, uma vez que todas as áreas da América do Norte deviam ser integradas, mais cedo ou mais tarde, como parte dos Estados Unidos, inclusive o Canadá, que eles tentaram sem êxito separar do Império Britânico. Ao país parecia, portanto, problemático tomar territórios adjacentes que não se enquadrassem nesse modelo, principalmente por não terem sido colonizados, nem serem colonizáveis, por brancos ingleses - por exemplo, Porto Rico, Cuba e as dependências do Pacífico. Entre esses territórios, 64 somente o Havaí chegou à condição de estado. O Sul dos Estados Unidos, caso se tornasse uma nação escravocrata independente, por estar acostumado às diferenças entre uma população livre e uma massa populacional não-livre e à integração com o sistema global britânico de comércio, bem poderia ter se transformado em algo mais similar a um império europeu, mas foi o Norte que prevaleceu: livre, protecionista e tendo por base do seu desenvolvimento um mercado interno ilimitado.

O resultado foi que a forma característica do império americano fora da sua base continental não se assemelharia nem à Comunidade Britânica nem ao Império Britânico. Não podia conceber "domínios", isto é, a separação gradual de áreas de colonização branca, com ou sem nativos circundantes (Canadá, Austrália, Nova Zelândia e mesmo África do Sul), uma vez que não mandava colonos ao exterior. Em todo caso, como o Norte ganhou a guerra civil, a secessão de qualquer parte da União já não era possível nem do ponto de vista legal nem do político e não constava mais da agenda ideológica. A forma característica de poder dos Estados Unidos fora do seu próprio territórionão correspondia nem à colonial nem à de um governo indireto dentro de um esquema colonial de controle direto, mas sim a um sistema de Estados satélites e solícitos. Isso era essencial, sobretudo porque o poder imperial dos Estados Unidos até a Segunda Guerra Mundial não era global, e sim regional - confinado efetivamente ao Caribe e ao Pacífico. Assim, ele nunca logrou ter uma rede de bases militares próprias e exclusivas que fosse comparável à do Império Britânico, que ainda conserva muitas dessas bases, embora elas tenham perdido todo o seu antigo significado. Nos nossos dias, diversas bases cruciais para o poder dos Estados Unidos no exterior estão tecnicamente no território de algum outro Estado, que, como o Uzbequistão, pode lhe retirar a autorização de uso.

Segundo, os Estados Unidos são filhos de uma revolução - 65 talvez, como argumentou Hannah Arendt, a mais duradoura das revoluções da história das revoluções modernas, as que tiveram impulso nas esperanças seculares do Iluminismo do século XVIn. Se os Estados Unidos desenvolvessem uma missão imperial, ela teria por base a implicação messiânica da convicção fundamental de que sua sociedade livre é superior a todas as demais e está destinada a tornar-se o modelo global. Como observou Tocqueville, sua política seria inevitavelmente populista e antielitista. Na Grã-Bretanha, tanto a Inglaterra quanto a Escócia fizeram suas revoluções nos séculos XVI e XVII, mas elas não perduraram, e seus efeitos foram reabsorvidos em um regime capitalista modernizador, porém socialmente hierarquizado, governado até boa parte do século XX pelas redes de parentesco de uma classe dominante baseada na propriedade rural. Um império colonial pode facilmente inserir-se nesse esquema, como ocorreu com a Irlanda. A Grã-Bretanha com certeza tinha plena convicção da sua superioridade com relação a outras sociedades, mas absolutamente nenhuma crença messiânica na conversão de outros povos à maneira britânica de governar, nem nenhum desejo de operá-la, nem sequer no campo mais próximo da sua tradição ideológica nacional, ou seja, o protestantismo anticatólico. O Império Britânico não foi construído por missionários nem foi feito para eles. Com efeito, o império desencorajou fortemente a atividade missionária em sua principal possessão, a índia.

Terceiro, desde o Domesday book* o reino da Inglaterra, e depois de 1707 a Grã- Bretanha, construiu-se em torno de um centro seguro de estabilidade jurídica e governamental na condução do Estado nacional mais antigo da Europa. A liberdade, a lei e a hierarquia social se harmonizavam com uma autoridade estatal soberana * Domesday book levantamento das terras inglesas, executado por ordem de Gui lherme, o Conquistador, em 1086. (N. E.) 66 singular, "o rei no Parlamento". Note que em 1707 a Inglaterra estabeleceu uma união com a Escócia, sob um governo central único, e não em um pacto federativo, embora a Escócia permanecesse separada da Inglaterra em todos os demais aspectos - lei, religião, estrutura administrativa, educação e até o som da sua língua. Nos Estados Unidos, a liberdade é a adversária do governo central, ou mesmo de qualquer autoridade estatal, que, além disso, já é deliberadamente limitada pela separação dos poderes. Compare a história da fronteira dos Estados Unidos com a própria história britânica, ou com a canadense. Os heróis do velho Oeste americano são pistoleiros que fazem a própria lei ao estilo de John Wayne em um território sem lei. Os heróis do Oeste canadense são os Mounties, a polícia montada federal, fundada em 1873, que mantinha a lei e a ordem no país. Afinal, a lei de 1867 (o British North America Act), que criou o Domínio do Canadá, declara como seus objetivos "a paz, a ordem e o bom governo", e não "a vida, a liberdade e a busca da felicidade".

Permita-me fazer uma breve menção a uma outra diferença entre os dois países considerados como nações: a idade. Assim como precisam de uma bandeira e de um hino, os Estados nacionais também precisam, para estabelecer-se como nações modernas, de um mito fundador, que é geralmente proporcionado pela história dos ancestrais. Mas os Estados Unidos não podiam usar a história ancestral como mito fundador, ao contrário da Inglaterra, ou mesmo da França e da Rússia revolucionárias, veja que o próprio Stálin pôde usar Alexandre Nevski para mobilizar o patriotismo russo contra os alemães. Os Estados Unidos não dispunham de ancestrais anteriores à chegada dos primeiros ingleses no seu território que pudessem ser utilizados para esse fim, uma vez que os puritanos definiam-se precisamente como não sendo índios, e estes, como os escravos, estavam, por definição, fora do conceito de "povo" utilizado pelos pioneiros da nova nação. Ao contrário dos 67 criollos da América espanhola, eles não podiam mobilizar memórias de impérios indígenas-astecas ou incas-em suas lutas pela independência. Não puderam, tampouco, integrar as tradições heróicas dos povos guerreiros nativos, embora seus intelectuais os admirassem, quando mais não seja porque a política seguida pelos colonos levou os que seriam os candidatos mais óbvios à cooptação com base em uma ideologia americana, a Confederação Iroquesa, a uma aliança com os britânicos. O único povo que vinculou sua identidade nacional aos índios norte-americanos era europeu-os galeses, escassos e isolados, cujos românticos exploradores acreditavam que os índios eram descendentes do príncipe Madoc, que, segundo sua crença profunda, havia descoberto a América antes de Colombo, e formaram a comunidade de fala galesa dos mandans, no rio Missouri. E, como os Estados Unidos foram fundados por uma revolução contra a Grã-Bretanha, a única continuidade com o velho país que não foi interrompida foi a cultural, ou, mais precisamente, a lingüística. Observe, contudo, que mesmo nesse campo Noah Webster tentou quebrar a continuidade ao insistir em uma ortografia separada.

Assim, a identidade nacional dos Estados Unidos não pôde ser construída a partir de um passado comum com os colonizadores, mesmo antes da imigração maciça dos não anglo-saxões. Ela teve de ser construída principalmente com base na sua ideologia revolucionária e nas novas instituições republicanas. A maior parte das nações européias tem o que se denomina "estrangeiros hereditários", vizinhos permanentes, por vezes com memórias de séculos de conflitos, em contraste com os quais elas se definem. Os Estados Unidos, cuja existência nunca foi ameaçada por nenhuma guerra além da civil, só têm inimigos que se definem ideologicamente: os que rejeitam o estilo de vida americano, quem quer que sejam eles. [68]

O que vale para os países vale para os impérios. Também sob esse ângulo, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos são bem diferentes. O império-formal ou informal-foi um elemento essencial tanto para o desenvolvimento econômico quanto para o poderio internacional da Grã-Bretanha. Mas isso não ocorreu com os Estados Unidos. Crucial para o país foi sua decisão inicial de não ser um Estado entre Estados, e sim um gigante continental, a caminho de ter uma população continental. A terra, e não o mar, foi decisiva para seu desenvolvimento. Ele foi expansionista desde o começo, mas não no mesmo sentido dos impérios ultramarinos, como o castelhano e o português do século XVI, ou o holandês do século XV, ou mesmo o britânico, que podiam ter por base, e normalmente era assim, países de dimensões e populações modestas. Parecia-se mais com a Rússia, expandindo-se pelas planícies a partir do núcleo central de Moscou, até se estender "do brilho de um mar ao de outro", ou seja, do Báltico ao mar Negro e ao Pacífico. Os Estados Unidos sem um império continuariam a ser o país com a maior população do hemisfério ocidental e a terceira maior do mundo. Mesmo a Rússia, hoje reduzida ao que era antes de Pedro, o Grande, continua a ser um gigante em termos relativos, sobretudo pelos recursos naturais que seu vasto território abriga. A Grã-Bretanha sem seu império foi e é apenas uma economia de porte médio entre muitas e sabia que assim era, mesmo quando governava a quarta parte da terra e da população do planeta.

Mais relevante ainda é o fato de que, como a economia britânica tinha uma ligação essencial com as transações econômicas globais, o Império Britânico foi, sob diversos pontos de vista, um elemento central no desenvolvimento da economia mundial no século XIX. Isso não se deve ao fato de que ele era um império formal. Não há territórios coloniais britânicos significativos na América Latina fora da área do Caribe, e a Grã-Bretanha nunca se dispôs a empregar força militar ou naval, embora pudesse tê-lo feito 69 com facilidade. E, no entanto, até a Primeira Guerra a América Latina era muito mais ligada à economia mundial coordenada pelos britânicos do que à dos americanos: os investimentos britâ-nicos eram mais de duas vezes maiores do que os dos Estados Unidos em 1914,'9e eram fortes mesmo no México e em Cuba, onde se concentravam os capitais americanos. Com efeito, a Grã-Breta-nha do século XIX era uma economia complementar à do mundo em desenvolvimento. Até a década de 1950, pelo menos três quartos dos enormes investimentos britânicos estavam nos países em desenvolvimento. Mesmo no entreguerras, bem mais do que a metade das exportações britânicas dirigia-se a regiões formal ou informalmente britânicas. Por isso, a ligação do Cone Sul da América Latina com a Grã-Bretanha o fez prosperar enquanto ela durou e, em comparação, a ligação dos Estados Unidos com o México produziu basicamente uma fonte de mão-de-obra barata para o vizinho do Norte. Com a industrialização da Europa continental e dos Estados Unidos, a Grã-Bretanha logo deixou de ser a fábrica do mundo, salvo no que toca à construção da estrutura dos transportes internacionais, mas continuou a exercer os papéis de comerciante, banqueiro e exportador de capital em nível mundial. Tampouco devemos nos esquecer de que no auge da sua supremacia econômica a Grã-Bretanha constituía de fato o mercado munqdial de produtos primários , alimentos e matérias-primas. Apesar da modéstia do seu território e da sua população, até a década de 1880 ela comprava a maior parte do algodão cru e 35% da lã nas transações internacionais e consumia algo como a metade de todo o trigo e de toda a carne e a maior parte do chá vendidos no comércio internacional.

A economia americana não teve e não tem essa vinculação orgânica com a economia mundial. Ela é, de longe, a maior econo-mia industrial do planeta, e o impacto que causou e causa no mundo deve-se às dimensões continentais e à originalidade ianque 70 em termos de tecnologia e organização empresarial, que a transformou em modelo para o resto do mundo desde a década de 1870 e especialmente no século XX, quando o país despontou como a primeira sociedade de consumo de massas. Até o período de entreguerras, sob forte protecionismo, ela dependia quase que totalmente dos recursos e dos mercados internos. Ao contrário da Grã-Bretanha, o país foi, até o último período do século XX, um importador relativamente modesto de produtos de base e um exportador desproporcionalmente pequeno de bens e de capitais. No auge do seu poder industrial, em 1929, a economia americana exportava cerca de 5% do seu produto interno bruto (a preços de 1990), contra 12,8% da Alemanha, 13,3% do Reino Unido, 17,2% da Holanda e 15,8% do Canadá." Com efeito, apesar de ter a prima-zia industrial global desde a década de 1870, com 29% da produção industrial mundial, a fatia americana das exportações globais manteve-se menor do que a da Grã-Bretanha até as vésperas da crise de 1929. Ela continua a ser uma das economias menos dependentes do comércio internacional em todo o mundo - muito menos do que a própria área do euro. Embora a partir da Primeira Guerra Mundial o governo dos Estados Unidos tenha incentivado os exportadores americanos com isenções fiscais e facilidades na lei antimonopólio, as empresas do país não contemplaram seriamente penetrar nas economias européias até meados da década de 1920, e também esse avanço foi afetado pela Grande Depressão. Em termos gerais, a conquista econômica do Velho Mundo pelo Novo Mundo é algo que ocorreu durante a Guerra Fria. Não há garantia de que dure muito.

Diferentemente dos avanços globais da Grã-Bretanha no século XIX, essa conquista resultou apenas parcialmente do que se poderia denominar a divisão global do trabalho entre os países industrializados e os países em desenvolvimento (produtores primários). O grande salto dado a partir da Segunda Guerra Mundial 71 baseou-se nas trocas cada vez mais globalizadas entre as economias, complementares e rivais, dos países desenvolvidos industrializados, o que constitui a razão por que o hiato entre o mundo pobre e o mundo desenvolvido ampliou-se notavelmente. Mas é também a razão por que o mergulho na globalização à base de mercados livres torna até a mais forte das economias nacionais dependente de forças que ela não pode controlar.

Este não é o lugar para analisarmos as mudanças recentes na distribuição geográfica do poder econômico dos antigos centros localizados em ambos os lados do Atlântico para as regiões dos oceanos Índico e Pacífico, nem a conseqüente vulnerabilidade daqueles. Os dois aspectos são evidentes. As vantagens históricas que permitiram à maior parte dos habitantes da América do Norte, das partes favorecidas da Europa, do Japão e da Oceania desfrutar, no início deste novo século, de um produto interno bruto per capita pelo menos cinco vezes maior do que a média mundial 7 e de um nível de vida principesco em comparação com o de 1900, em condições inigualadas de seguridade social, estão erodindo. Os que no passado beneficiaram-se desproporcionalmente de uma economia de mercado globalizada podem deixar de fazê-lo, e os pioneiros da globalização podem tornar-se suas vítimas. Amaior das agências de publicidade americanas, que no século XX abriu o mundo para a nova maneira de vender, a J. Walter Thompson, foi comprada em 1987 por um serviço de propaganda britânico que agora opera quarenta companhias em 83 países.

Diante da industrialização da Europa e dos Estados Unidos, a Grã-Bretanha vitoriana, ainda maciçamente industrial, ainda o maior comerciante e o maior investidor do mundo, transferiu seus mercados e investimentos de capital para seu império formal e informal. Os Estados Unidos do começo do século XXI não têm essa opção. E, além do mais, nem poderiam tê-la, porque já não são um grande exportador de bens e capitais e pagam pela alta 72 demanda de bens que já não podem produzir, contraindo dívidas com os novos centros da indústria mundial. É o único caso de um grande império que também é um grande devedor. Com efeito, com a exceção dos setenta anos transcorridos entre a Primeira Guerra Mundial e 1988, o fenômeno global é que sua economia sempre esteve em débito. 28 O acervo de capitais, visíveis e invisíveis, acumulado pela economia americana desde 1945 é vultoso e não está sujeito a uma erosão rápida. Contudo, a supremacia dos Estados Unidos não pode deixar de ser agudamente vulnerável ao seu declínio relativo e à transferência do poderio industrial, do capital e da alta tecnologia para a Ásia. Em um mundo globalizado, o "poder de persuasão" do mercado e da americanização da cultura já não adicionam vigor à superioridade econômica americana. Os Estados Unidos foram os pioneiros dos supermercados, mas na América Latina e na China quem está na vanguarda é a cadeia francesa Carrefour.

O império americano, ao contrário do britânico, é constantemente forçado a apelar para sua própria força política. A empresa global americana esteve mesclada com a política desde o início, ou pelo menos desde o momento em que o presidente Wilson se dirigiu a uma convenção de vendedores em Detroit, em 1916, e disse que a filosofia americana da "democracia dos negócios" devia tomar a liderança na "luta pela conquista pacífica do mundo". Sem dúvida, sua influência sobre o mundo dependia tanto de ser um modelo para as empresas quanto do seu próprio tamanho, mas ela também se deveu à sorte de ter ficado imune às catástrofes de duas guerras mundiais que exauriram as economias da Europa e do Extremo Oriente, enquanto a sua própria economia prosperava. Os governos americanos tampouco ignoravam o enorme poder que essas circunstâncias davam à diplomacia do dólar. "Temos de financiar o mundo em uma escala importante", pensava Woodrow Wilson, "e os que financiam o mundo têm de 73 compreendê-lo e governá-lo com o espírito e com a mente."30 Durante a Segunda Guerra Mundial e após seu desfecho, da Lei de Empréstimo e Arrendamento de 1940 ao empréstimo à Grã-Bretanha de 1946, a política de Washington não escondia que o seu objetivo era tanto o de derrotar o Eixo quanto o de enfraquecer o Império Britânico.

Durante a Guerra Fria, o crescimento global das companhias americanas deu-se sob o patrocínio do projeto político dos Estados Unidos, com o qual a maioria dos dirigentes empresariais, assim como a maioria dos americanos, estava identificada. Em troca, dado seu poder mundial, a convicção do governo de que as leis do país deveriam prevalecer nos negócios feitos pelos americanos em qualquer parte do mundo deu às companhias americanas uma considerável força política, o que se vê na frase de 1950 (muitas vezes citada erroneamente): "O que é bom para o país é bom para a General Motors, e vice-versa". Evidentemente, a primeira economia de consumo de massa beneficiou-se muitíssimo da ascensão das afluentes sociedades de consumo de massa da Europa nas décadas douradas de 1950 e 1960. Afinal, ela havia desenvolvido a capacidade produtiva, as grandes corporações, as instituições, as técnicas e até a linguagem desse tipo de sociedade. Como disse um novelista francês, ainda em 1930, a propaganda vendia não apenas os produtos, mas também os adjetivos usados para descrevê-los. Essa é a essência da hegemonia cultural americana, muito mais do que a sorte de que o inglês, graças ao Império Britânico, tenha tomado as feições de uma língua global. Não obstante, além do seu efeito de demonstração, as principais contribuições dos Estados Unidos para o desenvolvimento econômico mundial no século XX tiveram razões políticas: o plano Marshall na Europa, a reforma agrária no Japão ocupado, os gastos militares com as guerras da Coréia e do Vietnã. Sem a supremacia política sobre o "mundo livre" na Guerra Fria, será que o simples tamanho da economia dos Estados Unidos bastaria para impor 74 o estilo americano de fazer negócios, suas agências de avaliação de crédito, suas firmas de auditoria e suas práticas contratuais, para não falar do "Consenso de Washington" para as finanças internacionais, como padrão global de comportamento? Pode-se duvidar.

É por essas razões que o Império Britânico não é e não pode ser o modelo para o projeto americano de supremacia mundial, exceto quanto a um aspecto. Os britânicos conheciam seus limites e especialmente os limites, presentes e futuros, do seu poder militar. Como país de peso médio que sabia ser impossível manter para sempre a coroa dos pesos pesados, a Grã-Bretanha escapou da megalomania provocada pela doença ocupacional dos candidatos a conquistadores do mundo. Ela ocupou e governou mais áreas e mais populações em todo o mundo do que qualquer outro Estado jamais fez ou parece capaz de fazer, mas sabia que não mandava nem podia mandar no mundo inteiro e não tentou fazê-lo. Sua Marinha, que gozou de supremacia efetiva nos oceanos por longo tempo, não era uma força adequada a esse propósito. Uma vez estabelecida sua posição global, por meio de guerras e agressões bem-sucedidas, a Grã-Bretanha manteve-se o mais possível à margem da política dos países do continente europeu e completamente à margem do continente americano. Ela tratou de manter o resto do mundo em bases suficientemente estáveis para continuar fazendo seus negócios, mas não dizia o que cada um tem de fazer. Quando a era dos impérios ultramarinos ocidentais chegou ao fim, em meados do século XX, a Grã-Bretanha reconheceu "os ares de mudança" antes de outros países colonizadores. E, como sua posição econômica não dependia do poder imperial, e sim do comércio, ela se ajustou mais facilmente à perda política, como já o fizera na sua derrota mais dramática-a perda das colônias americanas.

Os Estados Unidos aprenderão essa lição? Ou serão tentados a manter sua posição global, que está em processo de erosão, com 75 base na força político-militar? Se assim procederem, poderão promover não a ordem, mas a desordem global; não a paz, mas o conflito global; não o progresso da civilização, mas o da barbárie? Como dizia Hamlet, eis a questão. Só o futuro dirá. Como os historiadores - ainda bem - não são profetas, não tenho a obrigação profissional de dar-lhes uma resposta.

Notas:

1. Niall Ferguson, Colossus: The rise and fali of the American empire (Londres, 2005).2. Uppsala, Uppsala conflict data project (Armed conflicts 1945-2004), prio.no/cwp/ArmedConflict. Consultado em 17/6/2006.
3. Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, The state ofthe world's refugees: Human displacement in the new millennium (Oxford, 2006), cap. 7,fig.7.1.
4. Ferguson, op. cit., p. XXviii.
5. TLS (Londres), 29/7/2005.
6. Ferguson, op. cit, p. 42.
7. Friedrich Katz, The secret war in México: Europe, the United States and the Mexican Revolution (Chicago e Londres, 1981).
8. Howard F. Cline, México, revolution to evolution (Oxford, Nova York e Toronto, 1962), p. 141.
9. Christopher Bayly e Tim Harper, Forgotten armies: The fali of British Asia 1941-1945 (Londres, 2004).
10. Liga das Nações, Industrialisation and foreign trade (Genebra, 1943), p. 13.
11. UNIDO Research Update Nal (Viena, janeiro de 2006), tabela, p. 5.
l2. Anne Hollander, Sex and Suits: The Evolution of Modern Dress (NovaYork, 1994).
13. Jean-Christophe Dumont e Georges Lemaitre, "Counting immigrants and expatriates in OECD countries: A new perspective", OECD Social Employment and Migration WorkingPapers AP 25 (OCDE, Paris, 2003/2006).
14. F. J. Turner, "Western state-making in the revolutionary era", American Historical ReviewI, 1/10/1895, pp. 70 ss.
15. Henry Nash Smith, Virgin land: The American west as symbol and myth (Nova York, 1957).
16. Eric Foner, The story of American freedom (Londres, Basingstoke e Oxford, 1998), p. 38.
17. Hannah Arendt, On revolution (Nova York e Londres, 1963).
18. Gwyn A. Williams, Madoc: The makingofa myth (Oxford, 1987).
19. Angus Maddison, Véconomie mondiale 1820-1992. Analyse et statistiques (OCDE, Paris, 1995), tabela 3.3.
20. Calculado a partir de Herbert Feis, Europe, theworld's banker 1870-1914 (New Haven e Londres, 1930), p. 23, e Cleona Lewis, America's stake in international investiments (Washington, D. C, 1938), ap. D, p. 606. A taxa de câmbio dólar/libra foi estimada em 4,5:1.
21. Eric J. Hobsbawm, com Christopher Wrigley, Inàustry and empire (Londres, 1999, nova edição), tabela n32a.
22. Dr. F. X. von Neumann-Spallart, Uebersichten der Weltwirthschaft von Dr. F.X. von Neumann-Spallart Jahrgangl883-84 (Stuttgart, 1887),pp. 189,226-7,352-3,364-6.
23. Angus Maddison, The world economy: A millennial perspective (OCDE, Development Centre, Paris, 2001), ap. F 5.
24. W. W. Rostow, The world economy: History and prospect (Londres e Basingstoke, 1978), pp. 72-3,75.
25. The Economist, Pocket World in Figures, edição de 2004 (Londres, 2003), p. 32.
26. Victoria de Grazia, Irresistible empire: America's advance through
twentieth-century Europe (Cambridge, Mass., e Londres, 2005), p. 213.
27. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento-PNUD (United Nations Program for Development - UNDP), World Report on Human Development {Bruxelas, 1999), tabela 11.
28. Jeffry A. Frieden, Global capitalism (Nova York e Londres, 2006), pp. 132-381.
29. De Grazia, op. cit., p. 1.
30. Frieden, op. cit., p. 133.
31. E. D. Hirsch Jr., Joseph F. Kett e James Trefil, The new dictionary of cultural literacy (Boston e Nova York, 2002).