1 de janeiro de 2026

Parte 7 — Revolução, socialismo e desglobalização relativa

7. Revolução, socialismo e desglobalização relativa

(1949 – 1978)

Introdução

Entre 1949 e 1978, a China viveu uma transformação histórica marcada pela ruptura com a ordem imperialista, pela construção de um Estado socialista soberano e por uma estratégia deliberada de desglobalização relativa. A fundação da República Popular representou não apenas a vitória de uma revolução nacional, mas também a tentativa de reorganizar profundamente a sociedade, a economia e o lugar do país no sistema mundial. Em um contexto de Guerra Fria, bipolaridade geopolítica e herança de subordinação colonial e semicolonial, a liderança chinesa buscou afirmar a autonomia política e econômica como condição indispensável para o desenvolvimento.

Esse período foi caracterizado por uma inserção internacional seletiva e fortemente politizada. A integração subordinada ao capitalismo global, imposta no século XIX, foi substituída por um projeto de industrialização planificada, controle estatal dos fluxos externos e alinhamento inicial ao bloco socialista. A desglobalização relativa não significou isolamento absoluto, mas a redefinição consciente das formas de conexão com o mundo, subordinando-as às prioridades da construção socialista e da soberania nacional.

Internamente, a revolução abriu caminho para profundas transformações sociais, como a reforma agrária, a expansão dos serviços básicos e a reorganização das relações de classe. Ao mesmo tempo, a experiência socialista chinesa foi marcada por intensos debates e conflitos sobre os caminhos do desenvolvimento, expressos em ciclos de centralização, radicalização e pragmatismo. A tensão entre mobilização política e racionalidade econômica atravessou todo o período, moldando tanto as políticas internas quanto a projeção internacional do país.

Assim, a Parte 7 analisa a trajetória da China desde a consolidação do Estado revolucionário até o fim da era maoísta, destacando como socialismo, soberania e desglobalização relativa constituíram respostas históricas a um sistema mundial desigual e em transformação.

7.1. Fundação da República Popular e reconstrução soberana do Estado

(1949–1953)

A proclamação da República Popular da China, em outubro de 1949, representou uma ruptura histórica profunda tanto no plano interno quanto na ordem global. Pela primeira vez desde o início do século XIX, um governo estabelecido em Pequim reivindicava controle efetivo sobre o território, a população e os recursos do país, rompendo com décadas de fragmentação política, ocupação estrangeira e dependência econômica. A fundação do novo Estado não foi apenas a vitória de um partido em uma guerra civil, mas a culminação de um longo processo de reconstrução da soberania chinesa em um mundo marcado pelo imperialismo e pela Guerra Fria emergente.

Nos primeiros anos do regime, a prioridade central foi consolidar o poder estatal e eliminar os vestígios da ordem semicolonial. A unificação territorial envolveu tanto a derrota das forças nacionalistas remanescentes quanto a incorporação de regiões periféricas ao novo arranjo político. Paralelamente, tratados desiguais foram formalmente denunciados, concessões estrangeiras abolidas e a autoridade jurídica do Estado reafirmada. Essas medidas tinham um forte significado simbólico e material: reconstruir a soberania era condição indispensável para qualquer projeto de desenvolvimento e para a redefinição da posição da China no sistema internacional.

A reforma agrária foi um dos pilares desse processo. Ao redistribuir a terra e destruir o poder econômico e político dos grandes proprietários rurais, o novo Estado transformou radicalmente as relações sociais no campo, onde vivia a maioria da população. Essa medida não apenas garantiu amplo apoio popular ao regime, mas também lançou as bases para a mobilização de recursos e de trabalho necessários à reconstrução econômica. Diferentemente das reformas limitadas do período republicano, a reforma agrária comunista foi concebida como um instrumento de justiça social e de consolidação estatal, inseparável da ruptura com o passado imperial e semicolonial.

No plano econômico, os primeiros anos da República Popular foram marcados por uma estratégia pragmática de transição. Embora setores estratégicos — como bancos, grandes indústrias e transportes — tenham sido rapidamente nacionalizados, o governo tolerou, de forma temporária, a existência de pequenas e médias empresas privadas, sobretudo nas cidades. Esse arranjo visava estabilizar a produção, conter a inflação e reconstruir uma economia devastada por décadas de guerra. A intervenção estatal crescente, contudo, deixava claro que o objetivo final era a construção de uma economia planificada sob controle público.

A reconstrução soberana do Estado também envolveu a criação de novas instituições políticas e administrativas. O Partido Comunista consolidou sua posição como força dirigente, integrando-se ao aparelho estatal e reorganizando a burocracia em bases ideológicas e funcionais distintas do passado. Campanhas políticas e mobilizações de massa desempenharam um papel central nesse processo, ao mesmo tempo em que redefiniam a relação entre Estado e sociedade. A participação política, embora rigidamente controlada, foi ampliada para setores antes excluídos, reforçando a legitimidade do novo regime.

No contexto global, a fundação da República Popular da China teve impacto imediato. O país passou a ser percebido como um ator central do campo socialista e como um símbolo de que a revolução anticolonial poderia triunfar em sociedades majoritariamente agrárias. Ao mesmo tempo, a exclusão diplomática inicial por parte das potências ocidentais e a continuidade de tensões militares, como a Guerra da Coreia, reforçaram a percepção de cerco externo e a necessidade de fortalecimento interno. A reconstrução soberana do Estado chinês ocorreu, assim, sob intensa pressão internacional, o que contribuiu para a centralidade da segurança e da autonomia nas escolhas políticas do período.

Entre 1949 e 1953, a China lançou as bases de um novo tipo de inserção global. Ao recuperar o controle sobre seu território, reformar profundamente suas estruturas sociais e reconstruir um Estado forte, o país rompeu com mais de um século de integração subordinada ao capitalismo global. Esse período inicial não apenas estabilizou a revolução, mas definiu os parâmetros fundamentais do socialismo chinês e da relação ambígua entre soberania, desenvolvimento e globalização que marcaria as décadas seguintes.

7.2. Inserção no bloco socialista e industrialização planificada

(1953–1957)

A partir de 1953, a China entrou em uma nova fase de sua reconstrução, marcada pela institucionalização do socialismo e pela inserção mais sistemática no bloco socialista liderado pela União Soviética. Esse movimento não representou apenas uma aliança diplomática, mas uma redefinição profunda da estratégia de desenvolvimento e da posição da China na economia mundial. Diante do isolamento imposto pelas potências capitalistas e da necessidade urgente de modernizar um país majoritariamente agrário, a liderança chinesa optou por um modelo de industrialização planificada que privilegiava a cooperação socialista e a centralização estatal.

O Primeiro Plano Quinquenal simbolizou essa escolha. Inspirado nos modelos soviéticos, o plano priorizou a construção de uma base industrial pesada, considerada essencial para garantir autonomia econômica e capacidade de defesa em um mundo polarizado pela Guerra Fria. Siderurgia, mineração, energia e transporte receberam investimentos concentrados, enquanto o Estado assumia o papel de planejador e principal agente econômico. A industrialização não era vista apenas como um objetivo econômico, mas como um imperativo político: sem indústria moderna, a soberania recém-conquistada permaneceria vulnerável.

A cooperação com a União Soviética foi central nesse processo. Técnicos, engenheiros e planejadores soviéticos participaram da elaboração de projetos industriais, da formação de quadros chineses e da transferência de tecnologias. Em troca, a China fornecia matérias-primas e produtos agrícolas, integrando-se a uma divisão de trabalho própria do bloco socialista. Essa circulação de conhecimentos, pessoas e recursos configurou uma forma alternativa de globalização, distinta tanto da economia liberal quanto do isolamento autárquico. Ainda assim, essa integração era assimétrica, refletindo diferenças de poder e de desenvolvimento entre os países socialistas.

No plano interno, a industrialização planificada foi acompanhada pela coletivização progressiva da agricultura. O objetivo era garantir excedentes estáveis para financiar o desenvolvimento industrial e alimentar a crescente população urbana. A reorganização do campo fortaleceu o controle estatal sobre a produção e reduziu a autonomia econômica dos camponeses, ao mesmo tempo em que buscava ampliar serviços sociais e infraestrutura rural. Essa transformação aprofundou a ruptura com a ordem agrária tradicional e vinculou de forma inédita campo e cidade em um projeto nacional de desenvolvimento.

Socialmente, o período foi marcado por um intenso esforço de mobilização e disciplina. O Estado socialista promoveu a expansão da educação técnica, a valorização do trabalho industrial e a construção de uma nova ética do trabalho coletivo. Cidades industriais cresceram rapidamente, e uma nova classe trabalhadora urbana passou a ocupar lugar central no imaginário revolucionário. Ao mesmo tempo, o planejamento rígido e a prioridade dada à indústria pesada limitaram o consumo e mantiveram baixos os padrões de vida, reforçando a ideia de sacrifício em nome do futuro socialista.

No cenário global, a inserção da China no bloco socialista alterou o equilíbrio geopolítico da Guerra Fria. A existência de um grande país socialista fora da Europa reforçou o caráter mundial do conflito ideológico e ampliou o alcance do socialismo como alternativa ao capitalismo. Para muitos movimentos anticoloniais, a experiência chinesa oferecia um modelo de desenvolvimento independente baseado na ruptura com o imperialismo e na mobilização interna, ainda que fortemente apoiado por alianças internacionais.

Entre 1953 e 1957, a China conseguiu avanços significativos na construção de sua infraestrutura industrial e na consolidação de um sistema econômico planificado. No entanto, esse modelo também revelou tensões latentes, como a dependência tecnológica em relação à União Soviética, os desequilíbrios entre campo e cidade e a rigidez administrativa. Essas contradições prepararam o terreno para debates internos sobre autonomia, ritmo de desenvolvimento e caminhos alternativos ao socialismo soviético, que emergiriam com força no final da década de 1950.

7.3. Ruptura sino-soviética e busca de autonomia estratégica

(1957–1965)

A partir do final da década de 1950, a relação entre China e União Soviética entrou em um processo acelerado de deterioração, marcando uma inflexão decisiva na posição chinesa dentro do sistema global da Guerra Fria. A ruptura sino-soviética não foi apenas um conflito diplomático ou ideológico, mas a expressão de tensões profundas sobre modelos de desenvolvimento, liderança do movimento socialista e autonomia nacional. Para a China, esse rompimento inaugurou uma fase de busca deliberada por autonomia estratégica em um mundo polarizado, reforçando a desglobalização relativa iniciada após a Revolução.

As divergências emergiram em múltiplos níveis. No plano ideológico, a liderança chinesa criticava o que percebia como o revisionismo soviético, especialmente após as reformas promovidas por Moscou no período pós-Stálin. A defesa soviética da coexistência pacífica com o Ocidente foi interpretada em Pequim como sinal de acomodação ao imperialismo, incompatível com a experiência chinesa de dominação estrangeira. Para os dirigentes chineses, a revolução não era apenas um episódio histórico, mas um processo contínuo, particularmente necessário nas sociedades periféricas ainda submetidas a pressões imperialistas.

No campo econômico e tecnológico, as tensões tornaram-se rapidamente concretas. A retirada de técnicos soviéticos e a suspensão de projetos conjuntos expuseram a dependência chinesa em áreas-chave da industrialização. Infraestruturas inacabadas, escassez de equipamentos e dificuldades na formação de quadros revelaram os limites de uma integração intra-bloco baseada em assimetrias. A resposta chinesa foi intensificar a ênfase na autossuficiência, redefinindo prioridades produtivas e reorganizando o planejamento econômico para reduzir a vulnerabilidade externa.

Essa busca por autonomia estratégica teve consequências diretas na política externa. Isolada tanto do campo capitalista quanto, em grande medida, do mundo socialista liderado por Moscou, a China passou a se posicionar como um polo revolucionário independente. Pequim procurou estabelecer relações com países recém-descolonizados da Ásia e da África, apresentando-se como exemplo de revolução bem-sucedida em um país agrário e periférico. Essa estratégia ampliou a influência política e simbólica da China, mesmo em um contexto de limitada integração econômica.

Internamente, a ruptura sino-soviética reforçou tendências à mobilização ideológica e à centralização política. A defesa da autonomia nacional foi articulada a campanhas que enfatizavam a vigilância contra influências externas e a necessidade de confiar nas próprias forças. O debate sobre o caminho do socialismo chinês ganhou intensidade, preparando o terreno para experiências mais radicais de transformação social e econômica. A autonomia estratégica, nesse sentido, não significava estabilidade, mas abertura para escolhas arriscadas em nome da independência.

No plano global, a divisão do campo socialista teve impactos profundos. A existência de dois centros rivais de referência revolucionária fragmentou alianças, redes de apoio e fluxos de ajuda internacional. Para os Estados Unidos e seus aliados, a ruptura abriu oportunidades de explorar fissuras no mundo socialista, ao mesmo tempo em que complicava a geopolítica asiática. A China, por sua vez, passou a ser vista como um ator imprevisível, capaz de desafiar tanto o capitalismo quanto a hegemonia soviética.

Entre 1957 e 1965, a China redefiniu sua inserção no sistema internacional a partir da lógica da autonomia estratégica. Ao romper com a tutela soviética, o país aprofundou sua desglobalização econômica, mas ampliou sua projeção política como liderança alternativa do socialismo e do anticolonialismo. Essa escolha fortaleceu a soberania nacional e a identidade revolucionária, mas também expôs o país a isolamento, escassez e tensões internas que marcariam de forma decisiva os anos seguintes.

7.4. Experimentos radicais de transformação social e econômica

(1958–1962)

Entre 1958 e 1962, a China viveu um dos períodos mais intensos e controversos de sua história contemporânea, marcado por experimentos radicais de transformação social e econômica que buscaram acelerar a construção do socialismo em condições de isolamento internacional e escassez de recursos. Esses experimentos, sintetizados no Grande Salto Adiante, devem ser compreendidos em chave global: como resposta à ruptura sino-soviética, à pressão da Guerra Fria e à ambição de demonstrar que uma sociedade periférica poderia alcançar rapidamente a modernidade socialista sem depender dos centros industriais do mundo.

O Grande Salto Adiante partiu da ideia de que a mobilização política das massas poderia compensar limitações materiais e tecnológicas. A coletivização extrema da agricultura, com a criação das comunas populares, visava integrar produção, administração e vida social em uma mesma unidade, dissolvendo fronteiras entre campo e cidade. Ao mesmo tempo, a industrialização descentralizada, simbolizada pelos fornos de aço de pequena escala, buscava transformar cada comunidade em um núcleo produtivo, reduzindo a dependência de grandes complexos industriais e de insumos externos.

No plano econômico, esse projeto rompeu com os princípios do planejamento gradual adotados anteriormente. Metas excessivamente ambiciosas, estatísticas infladas e competição política entre quadros locais produziram uma desconexão crescente entre planejamento central e realidade produtiva. A extração forçada de excedentes agrícolas para financiar a industrialização urbana e sustentar compromissos internacionais agravou a pressão sobre o campo, justamente no momento em que a reorganização das comunas desestruturava práticas agrícolas consolidadas.

As consequências sociais foram profundas. A combinação de políticas mal calibradas, desorganização administrativa e adversidades climáticas resultou em uma grave crise alimentar, com custos humanos elevados. A experiência expôs os limites da mobilização voluntarista como substituto de capacidades materiais e institucionais, revelando fragilidades estruturais do Estado socialista em construção. Ao mesmo tempo, a crise abalou a legitimidade de lideranças e provocou debates internos sobre o rumo do desenvolvimento e o equilíbrio entre ideologia e pragmatismo.

Do ponto de vista global, os experimentos de 1958–1962 reforçaram o isolamento da China. A ausência de aliados dispostos ou capazes de fornecer ajuda significativa, somada à hostilidade do mundo capitalista e ao distanciamento da União Soviética, deixou o país dependente quase exclusivamente de seus próprios recursos. Essa situação aprofundou a desglobalização econômica, mas também fortaleceu a narrativa de autossuficiência e resistência, que se tornaria central na identidade política do período maoísta.

Após 1961, a liderança chinesa iniciou um recuo tático. Medidas de correção foram adotadas para restaurar a produção agrícola, reduzir a pressão sobre as comunas e reintroduzir elementos de planejamento mais flexíveis. Esse ajuste não significou abandono do socialismo, mas reconhecimento dos limites impostos pelas condições internas e pelo ambiente internacional. O período de experimentação radical deixou, assim, um legado ambíguo: revelou tanto a capacidade de mobilização do novo Estado quanto os riscos de uma ruptura acelerada com a economia mundial e com os próprios mecanismos de coordenação social.

Entre 1958 e 1962, a China tentou encurtar o caminho histórico entre a revolução e a modernidade industrial. O fracasso parcial desses experimentos não encerrou o projeto socialista, mas redefiniu seus parâmetros, reforçando a tensão entre autonomia, desenvolvimento e inserção global que continuaria a marcar a trajetória chinesa nas décadas seguintes.

7.5. Reequilíbrio interno e pragmatismo econômico controlado

(1962–1965)

Após os abalos provocados pelos experimentos radicais do Grande Salto Adiante, o período entre 1962 e 1965 foi marcado por um esforço deliberado de reequilíbrio interno e pragmatismo econômico sob controle político estrito. Sem abandonar os fundamentos do socialismo, a liderança chinesa buscou restaurar a capacidade produtiva, estabilizar a sociedade e recuperar a autoridade administrativa do Estado, reconhecendo implicitamente os limites de uma mobilização voluntarista em um contexto de isolamento internacional e escassez estrutural.

No campo, as políticas agrícolas foram ajustadas para reduzir a pressão sobre as comunas populares. Embora a coletivização não tenha sido revertida, houve maior flexibilidade na organização do trabalho e no uso da terra, com a reintrodução de incentivos materiais e a tolerância a parcelas de produção familiar. Essas medidas contribuíram para a recuperação da produção agrícola e para a mitigação das tensões sociais herdadas do período anterior. O objetivo central era garantir segurança alimentar e restabelecer um mínimo de previsibilidade econômica, condição essencial para a estabilidade política.

Na indústria, o planejamento tornou-se mais cauteloso e seletivo. Projetos excessivamente ambiciosos foram suspensos ou redimensionados, e a prioridade passou a ser a consolidação do que já havia sido construído. A gestão econômica ganhou maior racionalidade técnica, com ênfase na eficiência e na coordenação entre setores, ainda que sempre subordinada à autoridade do Partido. Esse pragmatismo não implicava abertura ao mercado global, mas uma tentativa de tornar a economia planificada funcional em condições adversas.

O reequilíbrio interno também teve uma dimensão institucional. A administração estatal foi parcialmente reorganizada, buscando corrigir distorções criadas pelas campanhas anteriores e fortalecer mecanismos de tomada de decisão. Técnicos e quadros especializados recuperaram espaço relativo, ao mesmo tempo em que se mantinha a vigilância ideológica. Essa coexistência entre competência técnica e controle político refletia a tensão permanente entre eficiência econômica e fidelidade revolucionária.

No plano internacional, a China permaneceu amplamente isolada, mas iniciou contatos limitados e pragmáticos com alguns países fora do eixo soviético e capitalista central. Essas interações, ainda modestas, indicavam uma disposição cautelosa de evitar o isolamento absoluto, sem, contudo, comprometer a autonomia estratégica. A desglobalização econômica continuava sendo uma escolha estrutural, mas não significava completa autarquia diplomática.

Socialmente, o período foi marcado por uma relativa normalização da vida cotidiana após anos de mobilização intensa e crise. A redução das campanhas políticas permitiu alguma recomposição das relações sociais e uma diminuição das tensões mais agudas. No entanto, os debates sobre o rumo do socialismo chinês permaneceram latentes, especialmente em torno do risco de “restauração capitalista” e do papel das elites técnicas e administrativas.

Entre 1962 e 1965, a China buscou consolidar os ganhos da revolução e evitar novas rupturas desestabilizadoras, sem abrir mão do projeto socialista ou da soberania nacional. Esse pragmatismo econômico controlado representou uma tentativa de síntese entre ideologia e realidade, mas também preparou o terreno para conflitos internos posteriores, quando a liderança mais radical interpretaria o reequilíbrio como ameaça aos princípios revolucionários.

7.6. Revolução Cultural e politização extrema da sociedade

(1966–1976)

Entre 1966 e 1976, a China atravessou um período de intensa convulsão política e social conhecido como Revolução Cultural. Longe de ser apenas um episódio de radicalismo ideológico, esse movimento deve ser compreendido como parte das tensões estruturais do socialismo chinês em um contexto de isolamento internacional, disputas internas de poder e incertezas quanto ao rumo da revolução. A politização extrema da sociedade foi, ao mesmo tempo, uma tentativa de redefinir o projeto socialista e uma resposta às contradições acumuladas desde a fundação da República Popular.

A Revolução Cultural foi lançada com o objetivo declarado de combater o que se percebia como tendências burocráticas e “revisionistas” no interior do Partido e do Estado. Para seus promotores, a estabilização e o pragmatismo econômico do início da década de 1960 haviam criado novas hierarquias e distanciado a liderança das massas, ameaçando os ideais igualitários da revolução. A mobilização direta de estudantes, trabalhadores e camponeses buscava reativar o impulso revolucionário e reafirmar a primazia da política sobre a técnica e a administração.

Na prática, essa mobilização desorganizou profundamente as instituições existentes. Escolas e universidades foram fechadas ou tiveram seu funcionamento interrompido, órgãos administrativos paralisados e autoridades locais desafiadas por movimentos de massa. A violência simbólica e física contra quadros do Partido, intelectuais e representantes da antiga ordem social refletiu a intensidade do conflito político. O Estado, em vez de atuar como mediador, tornou-se parte ativa da luta, incentivando confrontos que corroeram sua própria capacidade de governar.

Do ponto de vista econômico, a Revolução Cultural teve efeitos contraditórios. Embora não tenha provocado um colapso produtivo comparável ao do Grande Salto Adiante, a instabilidade institucional comprometeu o planejamento e a eficiência. Projetos industriais foram interrompidos, cadeias de comando fragmentadas e a formação de quadros técnicos seriamente afetada. Ao mesmo tempo, a ênfase na igualdade e na crítica às elites contribuiu para a expansão de serviços básicos e para a disseminação de uma cultura política fortemente igualitarista, especialmente em áreas rurais.

A politização extrema da sociedade alterou profundamente as relações sociais. A participação política deixou de ser mediada por instituições estáveis e passou a se expressar por meio de campanhas, slogans e alinhamentos ideológicos voláteis. Para muitos, esse período representou uma experiência de empoderamento e ruptura com hierarquias tradicionais; para outros, significou perseguição, deslocamento forçado e perda de segurança material e simbólica. A Revolução Cultural, assim, produziu uma sociedade simultaneamente mobilizada e traumatizada.

No plano global, a China manteve sua desglobalização econômica, mas não esteve ausente da cena internacional. A retórica revolucionária chinesa exerceu forte influência sobre movimentos radicais em diferentes partes do mundo, da Ásia à América Latina, projetando uma imagem de desafio à ordem capitalista e à hegemonia soviética. Ao mesmo tempo, o radicalismo interno limitava a capacidade de engajamento econômico e diplomático mais amplo, reforçando a singularidade da experiência chinesa na Guerra Fria.

Ao final da década de 1970, a Revolução Cultural deixou um legado ambíguo. Se, por um lado, reafirmou a centralidade da política e da soberania popular no imaginário socialista, por outro revelou os custos elevados da politização extrema e da instabilidade institucional. Entre 1966 e 1976, a China viveu uma tentativa radical de reinventar a revolução a partir das massas, cujas consequências moldariam de forma decisiva os debates e as escolhas do período pós-maoísta.

6.7. Reposicionamento diplomático e fim da desglobalização rígida

(1971–1978)

Entre 1971 e 1978, a China iniciou um processo gradual, porém decisivo, de reposicionamento diplomático que marcou o enfraquecimento da desglobalização rígida vigente desde 1949. Sem abandonar o socialismo nem a centralidade da soberania nacional, a liderança chinesa passou a redefinir sua inserção no sistema internacional, reconhecendo os limites do isolamento prolongado em um mundo estruturado pela Guerra Fria e por uma economia global cada vez mais integrada.

O ponto de inflexão simbólico desse processo foi o reconhecimento da República Popular da China como representante legítima do país nas Nações Unidas, em 1971. Esse gesto não apenas rompeu o isolamento diplomático imposto pelas potências ocidentais, como também sinalizou uma reconfiguração do equilíbrio geopolítico global. A entrada na ONU consolidou a China como ator estatal pleno no sistema internacional, com capacidade de influenciar debates políticos e estratégicos em escala mundial.

Paralelamente, a aproximação com os Estados Unidos representou uma mudança pragmática de grande alcance. Em um contexto de rivalidade sino-soviética, Pequim passou a explorar as fissuras do sistema bipolar para ampliar sua margem de manobra internacional. O diálogo sino-americano não implicou convergência ideológica, mas expressou uma diplomacia guiada por interesses estratégicos e pela busca de autonomia. Esse movimento redefiniu a posição da China na Guerra Fria, afastando-a do isolamento extremo sem submetê-la à órbita de nenhuma das superpotências.

No plano econômico, o reposicionamento diplomático abriu espaço para uma reconsideração gradual da autarquia. Ainda que a economia permanecesse majoritariamente fechada e planificada, ampliaram-se os contatos comerciais, científicos e tecnológicos com países capitalistas e do chamado Terceiro Mundo. Essas interações iniciais foram seletivas e cuidadosamente controladas, mas indicavam o reconhecimento de que o desenvolvimento econômico exigia algum grau de inserção externa, sobretudo no acesso a tecnologias e conhecimentos especializados.

Internamente, o fim da desglobalização rígida coincidiu com o esgotamento da Revolução Cultural e com uma crescente percepção, entre as elites políticas, da necessidade de estabilidade e reconstrução institucional. A política externa passou a ser vista como instrumento de fortalecimento interno, e não apenas como extensão da luta ideológica global. A diplomacia chinesa, assim, tornou-se mais profissionalizada e menos dependente da retórica revolucionária, ainda que esta não tenha desaparecido por completo.

O reposicionamento também teve impacto simbólico e cultural. A ampliação dos contatos internacionais alterou gradualmente a percepção chinesa do mundo exterior e reabriu debates sobre desenvolvimento, modernização e o lugar da China no sistema mundial. Sem romper com o socialismo, o país começou a se pensar novamente como parte ativa de uma ordem global em transformação, e não apenas como exceção revolucionária.

Entre 1971 e 1978, a China deu os primeiros passos para superar o isolamento que marcara as décadas anteriores. Esse processo não significou uma integração plena ao capitalismo global, mas encerrou a fase de desglobalização rígida e preparou o terreno para a reorientação estratégica do período seguinte. O reposicionamento diplomático foi, assim, um elo de transição entre a era da revolução permanente e a fase de reformas que redefiniriam profundamente a relação da China com o mundo.

Conclusão

O período entre 1949 e 1978 consolidou uma das experiências mais singulares do século XX, na qual a China buscou romper com a dependência estrutural herdada do imperialismo e afirmar um caminho próprio de desenvolvimento. A desglobalização relativa foi um elemento central dessa estratégia, permitindo a reconstrução do Estado, a formação de uma base industrial e a redefinição das relações sociais sob a égide do socialismo. Ao controlar seletivamente suas conexões externas, o país procurou proteger-se das assimetrias do sistema capitalista global enquanto construía capacidades internas.

Entretanto, essa trajetória foi marcada por contradições profundas. Os experimentos radicais de transformação social revelaram os limites da mobilização política como motor exclusivo do desenvolvimento, enquanto os momentos de pragmatismo evidenciaram a necessidade de estabilidade institucional e eficiência econômica. A Revolução Cultural, em particular, expôs os custos sociais e políticos da politização extrema, ao mesmo tempo em que reafirmou a centralidade da soberania popular no imaginário revolucionário.

No plano internacional, a China passou de um isolamento rígido a um reposicionamento diplomático estratégico, encerrando gradualmente a fase de fechamento extremo. A reentrada seletiva no sistema internacional, especialmente a partir da década de 1970, não significou abandono do socialismo, mas a percepção de que a autonomia nacional exigia novas formas de interação com o mundo. Esse movimento preparou as condições políticas e diplomáticas para as transformações posteriores.

Ao final da Parte 7, a China emerge como um Estado soberano, socialmente transformado e consciente tanto de suas conquistas quanto de seus limites. A experiência de revolução, socialismo e desglobalização relativa deixou um legado ambíguo, mas decisivo: ela encerrou o ciclo de submissão imperialista e abriu o debate sobre como articular soberania, desenvolvimento e inserção global em um mundo cada vez mais interdependente.

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