1 de janeiro de 2026

Parte 8 — Reintegração controlada à globalização e ascensão sistêmica

Parte 8  Reintegração controlada à globalização e ascensão sistêmica

(1978 – c. 2008)

Introdução

A Parte 8 examina um dos processos mais decisivos da história mundial contemporânea: a reintegração da China à economia global e sua rápida ascensão como potência sistêmica entre o final da década de 1970 e os primeiros anos do século XXI. Após um longo período de ruptura relativa com o mercado mundial, a China iniciou, a partir de 1978, uma estratégia singular de abertura controlada, na qual a integração à globalização não foi concebida como um fim em si mesmo, mas como instrumento de desenvolvimento, fortalecimento estatal e recuperação da posição histórica do país no sistema internacional.

Diferentemente das experiências de liberalização rápida observadas em muitas economias periféricas, a abertura chinesa foi gradual, experimental e fortemente mediada pelo Estado. Reformas internas, inserção seletiva nos fluxos globais de comércio e investimento, e manutenção do controle político pelo Partido Comunista Chinês formaram os pilares de um modelo que combinava mercado, planejamento e soberania nacional. Essa trajetória ocorreu em um contexto global marcado pela hegemonia do neoliberalismo, o que torna a experiência chinesa ainda mais significativa como alternativa histórica.

Ao longo dessas três décadas, a China deixou de ser um ator marginal da economia mundial para se tornar um de seus eixos centrais. Essa transformação não apenas redefiniu a sociedade chinesa, mas também reconfigurou cadeias produtivas, padrões de consumo, relações Norte–Sul e os próprios fundamentos da globalização contemporânea. A Parte 8 analisa esse percurso como um processo histórico global, no qual decisões internas e dinâmicas externas se entrelaçam de maneira inseparável.

8.1. Virada reformista e redefinição do socialismo chinês

(1978–1984)

Após quase três décadas marcadas por mobilizações políticas intensas, rupturas externas e experimentações radicais, o fim da década de 1970 representou um ponto de inflexão decisivo na história chinesa. A morte de Mao Zedong, em 1976, e o esgotamento econômico e social do ciclo da Revolução Cultural abriram espaço para uma reavaliação profunda do caminho seguido desde 1949. A partir de 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping, a China iniciou uma virada reformista que não significou o abandono do socialismo, mas sua redefinição estratégica em um contexto global profundamente transformado.

O ponto de partida dessa reorientação foi o reconhecimento de que o isolamento econômico relativo e a rigidez do planejamento central haviam limitado a capacidade de crescimento, inovação e melhoria do padrão de vida. A nova liderança chinesa passou a enfatizar o desenvolvimento econômico como prioridade política central, sintetizado na máxima de que “o desenvolvimento é a verdade absoluta”. Essa mudança não implicava uma conversão ao capitalismo liberal, mas a adoção de uma abordagem pragmática, orientada por resultados, na qual os instrumentos econômicos eram avaliados por sua eficácia e não por sua origem ideológica.

Nesse contexto, emergiu a formulação do “socialismo com características chinesas”, conceito que marcou uma inflexão teórica e prática. Ele afirmava que a China se encontrava em uma “fase primária do socialismo”, na qual o uso limitado de mecanismos de mercado, incentivos materiais e abertura externa não apenas era permitido, como necessário para fortalecer as bases do próprio socialismo. Essa concepção rompeu com a ideia de uma transição imediata ao igualitarismo pleno e legitimou a coexistência entre propriedade estatal dominante e formas diversas de organização econômica.

As primeiras reformas concentraram-se no mundo rural, onde vivia a maioria da população. O desmantelamento progressivo das comunas populares e a introdução do sistema de responsabilidade familiar permitiram que os camponeses passassem a tomar decisões produtivas mais autônomas, mantendo obrigações com o Estado, mas podendo comercializar excedentes no mercado. O resultado foi um aumento rápido da produção agrícola, da renda rural e da segurança alimentar, criando uma base social e material para a continuidade das reformas.

Paralelamente, iniciou-se uma cautelosa abertura ao exterior. A criação das primeiras Zonas Econômicas Especiais, em áreas costeiras como Shenzhen, simbolizou a estratégia chinesa de experimentar a integração ao capitalismo global de forma controlada e territorialmente limitada. Essas zonas funcionaram como laboratórios institucionais, atraindo investimento estrangeiro, tecnologia e know-how gerencial, sem que o conjunto da economia fosse submetido a uma liberalização abrupta. A China reinseria-se, assim, nos fluxos globais de comércio e produção, mas sob termos definidos pelo Estado.

No plano político, a virada reformista manteve a centralidade do Partido Comunista Chinês como eixo do poder. As reformas econômicas não foram acompanhadas por liberalização política, mas por um esforço de reconstrução institucional, racionalização administrativa e profissionalização da gestão estatal. A experiência traumática da Revolução Cultural reforçou, entre as elites dirigentes, a convicção de que a estabilidade política era condição indispensável para o desenvolvimento econômico e para a preservação da soberania nacional.

Vista em perspectiva global, a virada reformista chinesa ocorreu em um momento de crise e reconfiguração da ordem econômica internacional. Enquanto o mundo capitalista avançado entrava na era do neoliberalismo, com desregulamentação e retração do Estado, a China seguiu um caminho inverso: utilizou a abertura ao mercado mundial para fortalecer a capacidade estatal, acelerar a industrialização e reconstruir sua posição no sistema internacional. Entre 1978 e 1984, consolidaram-se, assim, os fundamentos de um modelo singular, que combinava socialismo político, pragmatismo econômico e reintegração seletiva à globalização, inaugurando um novo ciclo histórico cuja amplitude só se tornaria plenamente visível nas décadas seguintes.

8.2. Abertura externa gradual e experimental

(década de 1980)

Ao longo da década de 1980, a reintegração da China à economia mundial avançou de forma deliberadamente gradual e experimental, seguindo uma lógica que contrastava tanto com os processos de liberalização rápida observados em outras regiões quanto com o fechamento característico do período maoísta. A abertura externa não foi concebida como um pacote uniforme de reformas, mas como um processo escalonado, no qual o Estado testava políticas em espaços e setores específicos antes de ampliá-las. Essa estratégia refletia tanto o aprendizado histórico chinês quanto uma leitura atenta das assimetrias do sistema capitalista global.

As Zonas Econômicas Especiais desempenharam um papel central nesse processo. Localizadas majoritariamente no litoral sul, próximas a Hong Kong, Macau e Taiwan, essas áreas foram escolhidas por sua inserção prévia em circuitos comerciais regionais e por sua distância relativa dos centros políticos do país. Nessas zonas, o governo permitiu maior autonomia empresarial, incentivos fiscais, regimes trabalhistas mais flexíveis e a entrada direta de capital estrangeiro. O objetivo não era apenas atrair investimentos, mas absorver tecnologias, práticas gerenciais e padrões produtivos capazes de acelerar a modernização econômica.

A experiência das zonas costeiras foi acompanhada por uma reconfiguração das relações comerciais da China. O país passou a ampliar suas exportações de manufaturas leves e bens intensivos em trabalho, ao mesmo tempo em que importava máquinas, insumos industriais e conhecimento tecnológico. Esse movimento marcou a transição de uma economia relativamente autocentrada para uma economia cada vez mais articulada às cadeias regionais e globais de produção, ainda que de forma subordinada e seletiva. A abertura, portanto, não significou perda de controle estatal, mas redefinição dos instrumentos de intervenção.

No plano diplomático, a década de 1980 consolidou a normalização das relações da China com as principais potências capitalistas e com organismos internacionais. A reaproximação com os Estados Unidos, iniciada no final da década anterior, abriu portas para fluxos comerciais, cooperação científica e acesso a mercados. Simultaneamente, a China buscou diversificar seus parceiros, evitando dependência excessiva de um único polo e afirmando sua autonomia estratégica em um sistema internacional ainda marcado pela Guerra Fria.

Internamente, a abertura externa teve efeitos desiguais e contraditórios. As regiões costeiras passaram a crescer a ritmos muito superiores aos do interior, aprofundando disparidades regionais que o socialismo havia, em certa medida, contido. Novas formas de desigualdade social emergiram, associadas à renda, ao acesso ao emprego industrial e à integração aos circuitos globais. Ainda assim, o crescimento econômico sustentado e a expansão das oportunidades materiais fortaleceram a legitimidade do projeto reformista aos olhos de amplos setores da população.

Do ponto de vista da História Global, a abertura externa chinesa dos anos 1980 deve ser entendida como parte de uma reconfiguração mais ampla da divisão internacional do trabalho. Empresas transnacionais, pressionadas por custos crescentes no Norte Global, encontraram na China um espaço privilegiado para a transferência de etapas produtivas. O Estado chinês, por sua vez, soube explorar essa dinâmica para acelerar sua industrialização, sem abrir mão do controle político e estratégico do processo.

Assim, a abertura externa gradual e experimental da década de 1980 não representou uma simples adaptação da China às regras do capitalismo global, mas uma negociação ativa com elas. Ao combinar pragmatismo, cautela e capacidade estatal, a China construiu uma forma própria de inserção internacional, que ampliou sua dependência dos mercados externos, mas também lançou as bases para sua ascensão como ator central da economia mundial nas décadas seguintes.

8.3. Industrialização exportadora e reconfiguração do trabalho

(anos 1980–1990)

A partir do final da década de 1980 e ao longo dos anos 1990, a abertura externa e as reformas internas convergiram para um novo padrão de crescimento baseado na industrialização orientada à exportação. Esse modelo marcou uma inflexão estrutural na economia chinesa e redefiniu profundamente o mundo do trabalho, articulando a China de maneira inédita às cadeias globais de valor. O país deixou de ser apenas um espaço experimental de reformas para se tornar um eixo central da reorganização produtiva do capitalismo mundial.

A industrialização exportadora chinesa apoiou-se em vantagens específicas construídas historicamente: uma vasta força de trabalho oriunda do campo, baixos custos salariais, forte disciplina social e um Estado capaz de coordenar investimentos em infraestrutura, energia e logística. As regiões costeiras consolidaram-se como polos industriais dinâmicos, especializando-se inicialmente em bens de consumo de baixo valor agregado — têxteis, vestuário, brinquedos, eletrônicos simples — destinados sobretudo aos mercados da América do Norte, da Europa e do Leste Asiático. Esse padrão permitiu à China absorver rapidamente tecnologias produtivas e ampliar sua capacidade manufatureira.

O investimento estrangeiro direto desempenhou papel crucial nesse processo, mas sempre mediado por políticas estatais. Empresas multinacionais transferiram etapas intensivas em trabalho para a China, enquanto o Estado chinês preservava o controle sobre setores estratégicos e utilizava a concorrência externa como instrumento de aprendizado tecnológico. Essa relação assimétrica, porém funcional, inseriu a China em uma posição subordinada, mas cada vez mais indispensável, no sistema produtivo global.

A expansão industrial provocou uma das maiores migrações internas da história. Milhões de camponeses deslocaram-se do interior para as cidades e zonas industriais costeiras, formando um novo proletariado urbano. Esse movimento reconfigurou profundamente a sociedade chinesa, rompendo padrões tradicionais de vida e trabalho. O sistema de registro domiciliar (hukou) manteve distinções legais entre população urbana e migrante, produzindo um mercado de trabalho segmentado, marcado por alta rotatividade, precariedade e limitada proteção social.

Ao mesmo tempo, o antigo sistema de emprego vitalício nas empresas estatais — o chamado “tigela de arroz de ferro” — entrou em declínio. Reformas nas estatais, especialmente nos anos 1990, introduziram critérios de eficiência, reestruturações e demissões, ampliando a insegurança laboral e transformando a relação entre Estado, empresa e trabalhador. A lógica do mercado passou a ocupar espaço crescente na organização do trabalho, ainda que sob a vigilância política do Partido.

Do ponto de vista global, a industrialização exportadora chinesa contribuiu para uma profunda reconfiguração da divisão internacional do trabalho. A transferência de capacidade manufatureira para a China pressionou salários e empregos industriais no Norte Global, alimentando debates sobre desindustrialização e globalização desigual. Ao mesmo tempo, a oferta de bens baratos produzidos na China tornou-se um dos pilares da expansão do consumo global nas últimas décadas do século XX.

Internamente, o crescimento acelerado conviveu com novas contradições sociais. Desigualdades regionais e sociais se ampliaram, conflitos trabalhistas emergiram e o Estado foi obrigado a desenvolver novos mecanismos de regulação, controle e acomodação. Ainda assim, a industrialização exportadora consolidou a China como “fábrica do mundo” e redefiniu sua posição no sistema internacional, transformando o trabalho chinês em um dos elementos centrais do funcionamento do capitalismo global no final do século XX.

8.4. Estado desenvolvimentista, mercado e planejamento híbrido

(1990–2001)

Durante a década de 1990 e o início dos anos 2000, a trajetória de reformas chinesas entrou em uma nova fase, marcada pela consolidação de um modelo econômico híbrido que combinava mecanismos de mercado, planejamento estatal e forte capacidade de coordenação política. Longe de representar uma transição linear para o capitalismo liberal, esse período evidenciou a emergência de um Estado desenvolvimentista adaptado às condições da globalização tardia, capaz de utilizar o mercado como instrumento de fortalecimento nacional e não como princípio organizador exclusivo da economia.

A partir das reformas aprofundadas após 1992, o Estado chinês passou a redefinir seu papel: menos gestor direto de todas as unidades produtivas e mais planejador estratégico do desenvolvimento. As empresas estatais foram submetidas a processos de reestruturação, fusão e racionalização, com o objetivo de criar conglomerados capazes de competir em escala nacional e internacional. Muitas unidades menores foram fechadas ou privatizadas, enquanto setores considerados estratégicos — energia, transportes, siderurgia, telecomunicações e finanças — permaneceram sob controle estatal. Esse movimento redefiniu a relação entre Estado e mercado, sem abdicar da centralidade política do Partido.

Ao mesmo tempo, o planejamento econômico não desapareceu, mas foi transformado. Os planos quinquenais deixaram de estabelecer metas detalhadas de produção para cada setor e passaram a funcionar como instrumentos de orientação macroeconômica, definindo prioridades, setores-chave e objetivos de longo prazo. O planejamento tornou-se mais flexível, incorporando sinais de mercado e adaptando-se às dinâmicas globais, ao mesmo tempo em que preservava a capacidade estatal de intervir em momentos de instabilidade.

O sistema financeiro foi outro eixo fundamental dessa arquitetura híbrida. Bancos estatais desempenharam papel decisivo no direcionamento do crédito para projetos considerados estratégicos, especialmente em infraestrutura, urbanização e industrialização pesada. Mesmo diante de problemas como endividamento e ineficiências, o controle estatal do sistema financeiro permitiu à China sustentar elevados níveis de investimento e amortecer choques externos, diferenciando sua experiência daquela de países que liberalizaram rapidamente seus mercados financeiros.

No plano global, a década de 1990 foi marcada pela hegemonia do neoliberalismo e pela expansão das instituições multilaterais que promoviam liberalização, privatização e desregulação. A China, embora se integrasse progressivamente a esse sistema, seguiu um caminho distinto. Em vez de reduzir o papel do Estado, fortaleceu-o; em vez de abrir mão do planejamento, redefiniu-o; e, em vez de submeter-se passivamente às regras do mercado global, buscou moldar sua inserção de acordo com interesses nacionais de longo prazo.

Essa combinação permitiu ao país sustentar altas taxas de crescimento ao longo de um período marcado por crises financeiras em outras regiões, como a Ásia em 1997–1998. A resposta chinesa à crise regional — manutenção do controle cambial, estímulo ao investimento interno e recusa em desvalorizar abruptamente a moeda — reforçou a percepção de que o modelo híbrido oferecia maior resiliência diante das volatilidades do capitalismo global.

Socialmente, porém, o fortalecimento do mercado trouxe custos significativos. O desemprego urbano cresceu com a reestruturação das estatais, as desigualdades se aprofundaram e novas formas de exclusão emergiram. O Estado respondeu com políticas graduais de seguridade social, urbanização e investimento público, buscando administrar tensões sem comprometer a trajetória de crescimento.

Entre 1990 e 2001, portanto, a China consolidou um arranjo institucional singular, no qual Estado, mercado e planejamento não se excluíam, mas se articulavam de forma pragmática. Esse modelo não apenas sustentou a ascensão econômica chinesa, como também preparou o terreno para sua integração plena às estruturas formais do comércio global no início do século XXI, ao mesmo tempo em que desafiava as narrativas dominantes sobre desenvolvimento e globalização.

8.5. Entrada na OMC e integração plena às regras do comércio global

(2001–c. 2008)

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, marcou um dos momentos mais decisivos de sua reintegração à economia mundial e simbolizou a passagem de uma abertura experimental para uma integração mais ampla às regras formais do comércio global. Após quase duas décadas de reformas graduais, o país assumiu compromissos institucionais que aprofundaram sua inserção no capitalismo global, ao mesmo tempo em que buscava preservar margens de autonomia estatal e estratégica. Esse movimento redefiniu tanto a economia chinesa quanto o próprio funcionamento do sistema mundial de comércio.

A adesão à OMC exigiu da China uma série de reformas legais e regulatórias: redução de tarifas, abertura de setores ao investimento estrangeiro, maior previsibilidade jurídica e adaptação às normas multilaterais de comércio. Essas mudanças ampliaram o acesso de produtos chineses aos mercados globais e aceleraram a transformação do país em um dos principais exportadores do mundo. A combinação de grande escala produtiva, custos relativamente baixos e crescente capacidade tecnológica impulsionou um crescimento sem precedentes do comércio exterior chinês.

No plano interno, a integração plena às regras do comércio global intensificou a reestruturação econômica iniciada nos anos 1990. Setores menos competitivos enfrentaram pressão crescente, enquanto regiões e indústrias voltadas à exportação se expandiram rapidamente. A urbanização acelerou-se, a migração interna atingiu novos patamares e o mercado de trabalho tornou-se ainda mais dinâmico e desigual. O Estado, por sua vez, ampliou investimentos em infraestrutura, educação e logística, buscando sustentar a competitividade nacional em um ambiente internacional mais exigente.

Do ponto de vista da economia política global, a entrada da China na OMC teve efeitos sistêmicos profundos. A incorporação de centenas de milhões de trabalhadores ao mercado mundial alterou a distribuição global da produção e do trabalho, pressionando salários industriais em diversas regiões e contribuindo para a reconfiguração das cadeias globais de valor. Empresas transnacionais reorganizaram suas estratégias em torno da China, transformando o país em nó central da manufatura global e em parceiro indispensável do comércio internacional.

Ao mesmo tempo, a China não se limitou a aceitar passivamente as regras existentes. O Estado continuou a desempenhar papel ativo na orientação do desenvolvimento, utilizando políticas industriais, controle cambial e instrumentos financeiros para proteger setores estratégicos e estimular a ascensão tecnológica. Essa combinação de conformidade formal com intervenção prática alimentou tensões crescentes com parceiros comerciais, especialmente os Estados Unidos e a União Europeia, que passaram a questionar os limites entre economia de mercado e controle estatal no modelo chinês.

Entre 2001 e 2008, a China acumulou vastas reservas internacionais, tornou-se credora líquida do sistema financeiro global e ampliou sua influência econômica muito além de suas fronteiras. A dependência das exportações, contudo, também expôs vulnerabilidades: desigualdades regionais persistentes, degradação ambiental e sensibilidade às flutuações da demanda externa. Ainda assim, o período consolidou a China como pilar estrutural da globalização contemporânea.

A crise financeira global de 2008, que encerra simbolicamente essa fase, evidenciou tanto a profundidade da integração chinesa quanto os limites da ordem liberal internacional. Para a China, a experiência da OMC não representou o fim de sua estratégia desenvolvimentista, mas uma etapa decisiva em sua transição de economia integrada de forma subordinada para ator central capaz de influenciar, tensionar e, progressivamente, reconfigurar as regras do comércio global.

8.6. Ascensão sistêmica e limites do modelo de crescimento

(anos 2000)

Ao longo dos anos 2000, a trajetória de crescimento acelerado e integração comercial consolidou a China como uma potência sistêmica da economia mundial. O país deixou de ser apenas um grande exportador de manufaturas de baixo custo para se tornar um dos principais motores do crescimento global, com impacto direto sobre fluxos comerciais, investimentos, preços de commodities e padrões de desenvolvimento em diversas regiões. Essa ascensão, no entanto, trouxe à tona limites estruturais e contradições internas que passaram a desafiar a sustentabilidade do modelo adotado desde o início das reformas.

O peso crescente da China no sistema mundial tornou-se visível em múltiplas dimensões. A demanda chinesa por energia, minerais e alimentos redefiniu economias da África, da América Latina e da Ásia Central, estimulando ciclos de crescimento baseados em exportações de commodities e aprofundando novas relações de dependência. Simultaneamente, a capacidade manufatureira chinesa reconfigurou mercados globais, intensificando a concorrência industrial e reforçando a centralidade do país nas cadeias globais de valor. A China passou a ocupar uma posição intermediária estratégica: ainda dependente de tecnologias avançadas importadas, mas cada vez mais indispensável à produção global.

Internamente, o crescimento manteve-se fortemente apoiado em investimentos elevados, exportações e expansão urbana. O Estado continuou a desempenhar papel central na mobilização de recursos, direcionando crédito, promovendo grandes obras de infraestrutura e sustentando o dinamismo econômico mesmo em momentos de desaceleração externa. Esse padrão garantiu estabilidade macroeconômica e altas taxas de crescimento, mas também gerou desequilíbrios, como excesso de capacidade produtiva em alguns setores, endividamento de governos locais e dependência crescente de estímulos estatais.

No plano social, as contradições do modelo tornaram-se mais evidentes. As desigualdades regionais persistiram, com o litoral avançando mais rapidamente do que o interior, e a disparidade entre áreas urbanas e rurais continuou significativa. O mercado de trabalho, embora capaz de absorver grandes contingentes de migrantes, permaneceu marcado por precariedade, informalidade e acesso desigual a direitos sociais. Conflitos trabalhistas, protestos locais e tensões sociais multiplicaram-se, exigindo do Estado novas estratégias de regulação e controle.

Os limites ambientais do crescimento também se tornaram inescapáveis. A rápida industrialização e urbanização produziram níveis elevados de poluição do ar, da água e do solo, além de pressionar ecossistemas e recursos naturais. A China passou a enfrentar o dilema clássico do desenvolvimento tardio: conciliar crescimento econômico, estabilidade social e sustentabilidade ambiental em um contexto de integração profunda ao capitalismo global.

Do ponto de vista da História Global, a ascensão sistêmica chinesa dos anos 2000 expôs fissuras na ordem econômica internacional. Enquanto a China se beneficiava das regras do comércio global, seu sucesso evidenciava as assimetrias e tensões dessa mesma ordem, alimentando reações protecionistas e debates sobre “competição desleal” e papel do Estado na economia. A dependência global da produção chinesa tornou-se, paradoxalmente, fonte de insegurança e conflito.

Assim, a década de 2000 representou simultaneamente o auge do modelo de crescimento baseado em exportações, investimentos e integração profunda, e o momento em que seus limites estruturais se tornaram visíveis. A China emergiu como ator sistêmico central, mas carregando contradições que exigiriam, nos anos seguintes, ajustes estratégicos, reorientações internas e uma redefinição de sua relação com a globalização e com a ordem internacional em transformação.

8.7. Da reintegração à transformação do sistema mundial

(encerramento do período)

Ao final dos anos 2000, a trajetória chinesa ultrapassava claramente o horizonte da simples reintegração à economia mundial. O país já não podia ser compreendido apenas como um grande espaço de produção inserido nas regras existentes do comércio e das finanças globais, mas como um ator cuja própria dinâmica passava a influenciar o funcionamento do sistema internacional. A crise financeira global de 2008 funcionou como catalisador desse deslocamento histórico, revelando tanto a profundidade da integração chinesa quanto a fragilidade da ordem liberal liderada pelo Ocidente.

A resposta chinesa à crise evidenciou a singularidade de seu modelo. Enquanto economias centrais enfrentavam colapsos financeiros, desemprego e retração do Estado, a China mobilizou rapidamente instrumentos fiscais, financeiros e administrativos para sustentar o crescimento. O massivo programa de investimentos públicos, centrado em infraestrutura, urbanização e crédito direcionado, não apenas amortizou os efeitos da crise interna, como também contribuiu para estabilizar a economia mundial, mantendo a demanda por commodities e bens intermediários. Esse episódio reforçou a percepção de que o Estado chinês dispunha de capacidades que haviam sido progressivamente desmontadas em outras partes do mundo.

Nesse momento, a China consolidava sua transição de participante adaptativo para agente transformador da globalização. Sua escala produtiva, capacidade financeira e peso comercial passaram a influenciar preços, fluxos de capitais e estratégias empresariais em nível global. Países e regiões passaram a ajustar suas políticas econômicas em função da demanda chinesa, enquanto empresas globais reorganizavam cadeias de valor considerando a centralidade do mercado e da produção chinesa. A globalização, que por décadas fora moldada sobretudo a partir de centros euro-atlânticos, começava a adquirir um eixo cada vez mais asiático.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico, essa transformação também teve implicações profundas. O sucesso chinês questionou pressupostos centrais do consenso neoliberal, especialmente a ideia de que desenvolvimento sustentável exigiria liberalização política e retração do Estado. Sem propor um modelo universal explícito, a experiência chinesa ampliou o espaço de possibilidades para trajetórias alternativas de modernização, particularmente no Sul Global, onde passou a ser observada com crescente interesse.

Ao mesmo tempo, as tensões latentes desse reposicionamento tornaram-se mais visíveis. A dependência mútua entre a China e as economias centrais convivia com desconfianças crescentes, disputas comerciais e debates sobre segurança, tecnologia e soberania econômica. O encerramento desse período, portanto, não representa um ponto de chegada estável, mas a abertura de uma nova fase histórica, marcada por disputas em torno da liderança econômica, das regras do comércio internacional e do futuro da globalização.

Assim, entre 1978 e o final dos anos 2000, a China percorreu um arco histórico singular: da reintegração cautelosa ao sistema mundial à condição de ator capaz de tensionar e transformar suas estruturas fundamentais. O encerramento da Parte VIII marca, portanto, não o fim de um processo, mas a transição para um novo ciclo, no qual a China deixa de ser apenas objeto da globalização para se tornar um de seus principais sujeitos históricos.

Conclusão

Entre 1978 e aproximadamente 2008, a China percorreu um arco histórico extraordinário, passando de uma economia relativamente fechada e empobrecida para uma potência industrial integrada ao núcleo do sistema mundial. Essa ascensão não foi resultado de uma simples adaptação às regras do capitalismo global, mas de uma estratégia consciente de reintegração controlada, na qual o Estado utilizou a globalização como recurso para promover industrialização, acumulação e fortalecimento nacional.

O período analisado revela a consolidação de um modelo híbrido, que combinou abertura externa, industrialização exportadora e planejamento estratégico. Esse arranjo permitiu à China explorar as oportunidades oferecidas pela reorganização global da produção, ao mesmo tempo em que evitou muitas das vulnerabilidades associadas à liberalização irrestrita. A entrada na OMC, o crescimento acelerado dos anos 2000 e a resposta à crise financeira global evidenciaram tanto o sucesso quanto as contradições desse caminho.

Do ponto de vista da História Global, a ascensão chinesa transformou a própria globalização. A incorporação de centenas de milhões de trabalhadores, a centralidade produtiva da China e sua crescente capacidade financeira deslocaram o eixo do capitalismo mundial e expuseram os limites da ordem liberal construída no pós-Guerra Fria. Ao final desse ciclo, a China já não era apenas um espaço de produção integrado às cadeias globais, mas um ator capaz de influenciar regras, fluxos e expectativas em escala planetária.

A Parte 8, portanto, encerra não apenas uma fase da história chinesa, mas também um capítulo da história da globalização contemporânea. Ela prepara o terreno para o período seguinte, no qual a China deixa de se mover principalmente dentro de uma ordem internacional preexistente e passa a participar ativamente de sua contestação e reconfiguração, em um mundo marcado por crises, disputas hegemônicas e transições sistêmicas profundas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem divulgado conteúdo socialista em ritmo acelerado desde 2010. Eis aqui um guia prático para algumas das obras mais importantes ...