(c. 2008 – presente)
Introdução
A partir da crise financeira global de 2008, a ordem liberal internacional entrou em um processo de desgaste estrutural que vai muito além de flutuações econômicas conjunturais. O colapso dos mercados financeiros centrais, a desaceleração prolongada do crescimento, o aumento das desigualdades e a perda de legitimidade política das instituições multilaterais corroeram os pilares de um sistema que, desde o fim da Guerra Fria, se apresentava como universal e estável. Para a China, esse momento não marcou uma ruptura súbita, mas a transição para um novo ambiente histórico no qual sua posição no mundo deixou de ser a de um participante integrado e passou a ser a de um ator capaz de influenciar, tensionar e remodelar a ordem global.
Nesta parte, a história da China é analisada a partir da crise do próprio sistema que possibilitou sua ascensão nas décadas anteriores. A globalização liberal, baseada na abertura de mercados, na centralidade financeira do Atlântico Norte e na promessa de convergência institucional, mostrou-se incapaz de absorver o deslocamento do eixo econômico mundial para a Ásia sem gerar conflitos. A China, ao mesmo tempo em que continuou profundamente entrelaçada às redes globais de produção, tornou-se o principal ponto de condensação das contradições do capitalismo contemporâneo: interdependência e rivalidade, cooperação e contenção, integração econômica e fragmentação política.
A Parte IX examina esse período como uma fase de transição hegemônica em aberto, caracterizada por crises sobrepostas — financeiras, sanitárias, tecnológicas e geopolíticas — e pela reconfiguração das formas de poder global. Mais do que narrar eventos recentes, trata-se de compreender como a trajetória chinesa se entrelaça com o declínio relativo da hegemonia liberal e com a emergência de um sistema internacional mais instável, competitivo e plural em seus centros de decisão.
9.1. A crise financeira global e o deslocamento do centro de gravidade econômico
(2008–2012)
A crise financeira global de 2008 marcou uma ruptura histórica na ordem econômica internacional construída ao longo das décadas finais do século XX. Originada no coração do sistema financeiro dos Estados Unidos e rapidamente difundida para a Europa, a crise expôs fragilidades estruturais do modelo liberal baseado em desregulação, financeirização e endividamento. Para a China, profundamente integrada ao comércio mundial, o colapso representou um choque externo significativo, mas também uma oportunidade histórica de redefinir sua posição no sistema global.
A contração da demanda nos mercados centrais atingiu diretamente o setor exportador chinês, provocando fechamento de fábricas, desemprego entre trabalhadores migrantes e queda no ritmo de crescimento. Diante desse cenário, o Estado chinês respondeu de maneira rápida e contundente, mobilizando instrumentos fiscais, financeiros e administrativos em escala sem precedentes. O amplo programa de estímulo lançado em 2008, centrado em investimentos públicos, expansão do crédito e apoio a governos locais, sustentou a atividade econômica e evitou uma desaceleração abrupta.
Essa resposta contrastou fortemente com as políticas adotadas em muitas economias ocidentais, onde a crise foi enfrentada por meio de resgates financeiros combinados, em seguida, com políticas de austeridade que aprofundaram desigualdades e limitaram a recuperação. A experiência chinesa reforçou a percepção de que o Estado continuava a ser um ator central na coordenação econômica em momentos de crise sistêmica, desafiando pressupostos centrais do consenso neoliberal.
No plano global, o impacto da crise acelerou o deslocamento do centro de gravidade econômico para fora do eixo euro-atlântico. Enquanto Estados Unidos e União Europeia enfrentavam crescimento lento, instabilidade política e crises de legitimidade, a China manteve taxas de expansão relativamente elevadas e ampliou sua influência sobre mercados de commodities, fluxos comerciais e investimentos internacionais. Países exportadores de recursos naturais passaram a depender ainda mais da demanda chinesa, reforçando laços econômicos Sul–Sul e reconfigurando padrões tradicionais de dependência.
A crise também revelou o grau de interdependência entre a China e as economias centrais. A China continuou a financiar déficits externos por meio da compra de títulos, especialmente dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que buscava reduzir vulnerabilidades associadas à dependência excessiva das exportações e das reservas denominadas em moeda estrangeira. Essa relação paradoxal — simultaneamente cooperativa e tensionada — tornou-se uma das marcas da ordem internacional pós-crise.
Do ponto de vista da História Global, o período entre 2008 e 2012 pode ser interpretado como um momento de inflexão sistêmica. A crise financeira não apenas enfraqueceu a legitimidade da ordem liberal, como também evidenciou a emergência de novos polos de dinamismo econômico. A China não substituiu imediatamente a hegemonia existente, mas passou a ocupar uma posição central em um sistema cada vez mais multipolar e instável.
Assim, a crise financeira global funcionou como catalisador de transformações de longo prazo. Para a China, representou o início de uma nova fase, na qual sua ascensão deixou de ser apenas quantitativa e passou a assumir um significado estrutural. O deslocamento do centro de gravidade econômico mundial, iniciado nas décadas anteriores, tornou-se inegável, abrindo caminho para disputas mais amplas em torno de poder, normas e liderança na ordem internacional do século XXI.
9.1. A crise financeira global e o deslocamento do centro de gravidade econômico
(2008–2012)
A crise financeira global de 2008 representou um ponto de inflexão histórico na ordem econômica internacional e marcou o início visível do deslocamento do centro de gravidade do capitalismo mundial. Originada no sistema financeiro dos Estados Unidos e rapidamente disseminada para a Europa, a crise revelou fragilidades profundas de um modelo baseado em financeirização, desregulamentação e endividamento crescente. Para a China, já plenamente integrada ao comércio global, o colapso não foi apenas um choque externo, mas um momento decisivo de redefinição de seu papel sistêmico.
No curto prazo, os efeitos da crise foram severos. A contração da demanda nos mercados norte-americano e europeu atingiu diretamente o setor exportador chinês, provocando fechamento de fábricas, queda nas exportações e desemprego entre milhões de trabalhadores migrantes. Diante desse cenário, o Estado chinês respondeu com rapidez e escala inéditas. O pacote de estímulo lançado em 2008 mobilizou investimentos públicos maciços em infraestrutura, expansão do crédito por meio dos bancos estatais e apoio financeiro a governos locais e empresas estratégicas. Essa intervenção não apenas evitou uma desaceleração abrupta, como manteve o crescimento em níveis elevados em comparação com as economias centrais.
A resposta chinesa contrastou de forma marcante com a trajetória das economias ocidentais após a crise. Enquanto Estados Unidos e, sobretudo, países europeus oscilaram entre resgates financeiros e políticas de austeridade, com recuperação lenta e aprofundamento das desigualdades sociais, a China reafirmou a centralidade do Estado como coordenador econômico. Esse contraste teve efeitos simbólicos e políticos relevantes, ao enfraquecer a legitimidade do consenso neoliberal e reforçar a percepção de que modelos alternativos de organização econômica eram não apenas possíveis, mas eficazes em contextos de crise sistêmica.
No plano global, o impacto da crise acelerou tendências já em curso. O dinamismo econômico deslocou-se ainda mais em direção à Ásia, com a China desempenhando papel central na sustentação da demanda global, especialmente por commodities e bens intermediários. Países da África, da América Latina e da Ásia passaram a depender crescentemente do mercado chinês, aprofundando novas redes de interdependência Sul–Sul e reduzindo, em termos relativos, a centralidade dos mercados europeus. A China consolidava-se como um polo estruturante da economia mundial.
Ao mesmo tempo, a crise expôs a natureza ambígua da interdependência sino-americana. A China continuou a financiar déficits externos dos Estados Unidos por meio da compra de títulos, contribuindo para a estabilidade do sistema financeiro global, enquanto buscava, internamente, reduzir sua vulnerabilidade à dependência das exportações e das reservas denominadas em dólar. Essa relação, simultaneamente cooperativa e tensionada, tornou-se um dos eixos centrais da ordem internacional pós-2008.
Do ponto de vista da História Global, o período entre 2008 e 2012 pode ser compreendido como um momento de transição sistêmica. A crise não significou o colapso imediato da hegemonia norte-americana, mas marcou o enfraquecimento estrutural da ordem liberal construída no pós-Guerra Fria. A China emergiu desse episódio não como substituta automática da liderança existente, mas como ator central em um sistema cada vez mais multipolar, instável e contestado.
Assim, a crise financeira global funcionou como catalisador de uma transformação mais ampla. Para a China, ela sinalizou a passagem de uma ascensão baseada sobretudo na integração econômica para uma fase em que sua escala, capacidade estatal e peso internacional passaram a influenciar diretamente os rumos do sistema mundial. O deslocamento do centro de gravidade econômico, acelerado entre 2008 e 2012, abriu o caminho para disputas mais profundas em torno de poder, normas e hegemonia que definiriam a década seguinte.
9.2. Reequilíbrio interno e limites do crescimento exportador
(início da década de 2010)
No início da década de 2010, a China passou a enfrentar de forma mais explícita os limites do modelo de crescimento baseado em exportações, investimento intensivo e expansão urbana acelerada. Embora esse arranjo tivesse sustentado taxas elevadas de crescimento por mais de três décadas, a crise financeira global e suas consequências revelaram vulnerabilidades estruturais que exigiam uma reorientação estratégica. O chamado “reequilíbrio interno” emergiu, então, como eixo central do debate econômico e político, articulando crescimento, estabilidade social e sustentabilidade de longo prazo.
A desaceleração da demanda externa após 2008 reduziu a capacidade das exportações de funcionar como principal motor do crescimento. Ao mesmo tempo, o estímulo maciço adotado durante a crise aprofundou desequilíbrios já existentes, como excesso de capacidade produtiva em setores industriais, endividamento de governos locais e dependência crescente do investimento financiado por crédito. Esses fatores tornaram evidente que a reprodução do modelo exportador-inversionista enfrentava retornos decrescentes e riscos sistêmicos crescentes.
Nesse contexto, as lideranças chinesas passaram a enfatizar a necessidade de fortalecer o consumo interno como base mais estável do crescimento. Isso implicava não apenas aumentar a renda disponível das famílias, mas também reformar estruturas institucionais que limitavam o consumo, como a desigualdade regional, o sistema de registro domiciliar e a insuficiência de redes de proteção social. A expansão gradual de políticas de seguridade, saúde e previdência buscou reduzir a necessidade de poupança excessiva das famílias e estimular a demanda doméstica.
O reequilíbrio também envolveu uma mudança na composição setorial da economia. Serviços, inovação tecnológica e atividades de maior valor agregado passaram a ser incentivados como alternativas à indústria pesada e às exportações de baixo custo. Esse movimento refletia tanto pressões internas quanto a necessidade de responder a um ambiente internacional mais competitivo e politicamente sensível à presença chinesa. Ainda assim, a transição mostrou-se complexa, marcada por resistências institucionais, interesses consolidados e desafios regionais.
Do ponto de vista social, os limites do modelo exportador tornaram-se cada vez mais visíveis. Desigualdades persistentes, conflitos trabalhistas, problemas ambientais e tensões urbanas exigiam respostas estatais mais abrangentes. O crescimento econômico continuava a ser condição fundamental de legitimidade política, mas já não podia ser perseguido a qualquer custo. A noção de “desenvolvimento de melhor qualidade” passou a ganhar centralidade no discurso oficial, sinalizando uma preocupação crescente com estabilidade e coesão social.
No plano global, o reequilíbrio interno chinês teve implicações significativas. A redução relativa do peso das exportações e o fortalecimento do mercado doméstico alteraram fluxos comerciais e afetaram economias dependentes da demanda chinesa por bens industriais ou commodities. Ao mesmo tempo, a busca por inovação e autonomia produtiva intensificou disputas tecnológicas e comerciais, especialmente com os Estados Unidos e outros países desenvolvidos.
Assim, o início da década de 2010 marcou uma fase de transição crítica. O reequilíbrio interno não representou uma ruptura imediata com o modelo anterior, mas um esforço gradual de adaptação às novas condições internas e globais. Ao enfrentar os limites do crescimento exportador, a China buscava preservar estabilidade e continuidade, ao mesmo tempo em que se preparava para um cenário internacional mais competitivo, fragmentado e politicamente tensionado.
9.3. Da integração à iniciativa: a Belt and Road e a projeção global chinesa
(2013–)
A partir de 2013, a China deu um passo qualitativo na sua inserção internacional ao passar de uma postura predominantemente reativa ou adaptativa à globalização para uma estratégia mais propositiva de reorganização dos fluxos econômicos, infraestruturais e políticos em escala global. A Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative, BRI) tornou-se o principal símbolo desse movimento, articulando interesses domésticos, projeção externa e uma leitura estratégica das transformações do sistema mundial no pós-crise de 2008.
A BRI surgiu em um contexto marcado por desaceleração do crescimento interno, excesso de capacidade industrial e busca por novos vetores de expansão. Ao promover investimentos em infraestrutura, logística, energia e conectividade em dezenas de países da Ásia, África, Europa e América Latina, a China procurou simultaneamente criar mercados para suas empresas, internacionalizar capitais e tecnologias e garantir acesso mais seguro a recursos estratégicos. Dessa forma, a iniciativa funcionou como uma extensão externa do processo de reequilíbrio interno, convertendo problemas estruturais domésticos em oportunidades de projeção internacional.
Ao contrário das formas clássicas de imperialismo formal, a Belt and Road não se baseou na conquista territorial direta nem em dominação política explícita, mas em redes de financiamento, parcerias estatais e acordos bilaterais flexíveis. Bancos públicos chineses, empresas estatais e governos locais desempenharam papel central nesse processo, reforçando a característica híbrida do modelo chinês, no qual Estado e mercado operam de forma articulada. Ainda assim, a iniciativa despertou debates intensos sobre endividamento, assimetrias de poder e dependência econômica, especialmente em países com menor capacidade institucional.
No plano geopolítico, a BRI expressou a ambição chinesa de reduzir vulnerabilidades associadas à ordem liberal liderada pelos Estados Unidos. Ao diversificar rotas comerciais, fortalecer corredores terrestres euroasiáticos e investir em portos e infraestruturas estratégicas, a China buscou mitigar riscos ligados a gargalos marítimos e a pressões políticas externas. A iniciativa também dialogou com a criação de novas instituições financeiras, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, sinalizando uma tentativa de complementar — e em alguns aspectos contornar — os mecanismos tradicionais de governança econômica global.
A projeção global chinesa nesse período não se limitou à economia. Ela foi acompanhada por uma presença diplomática mais assertiva, maior participação em fóruns multilaterais e crescente envolvimento em questões de segurança regional e global. A China passou a se apresentar como defensora do multilateralismo e do desenvolvimento, ao mesmo tempo em que afirmava seus próprios interesses estratégicos. Essa combinação reforçou percepções ambíguas: para alguns, a BRI representava uma oportunidade de desenvolvimento; para outros, um desafio à ordem internacional existente.
Internamente, a Belt and Road também cumpriu uma função política e simbólica. Ao vincular a expansão externa a uma narrativa de revitalização nacional e de “retorno” da China ao centro dos assuntos mundiais, o projeto contribuiu para reforçar a legitimidade do Partido e do Estado. A ideia de conectividade histórica, evocando antigas rotas da Seda, ofereceu uma moldura cultural que suavizava a imagem de ascensão de poder e a apresentava como continuidade histórica e cooperação ganha-ganha.
Assim, desde 2013, a China deixou de ser apenas um dos principais beneficiários da globalização para se tornar uma de suas arquitetas parciais. A Belt and Road marcou essa transição da integração à iniciativa, evidenciando que a ascensão chinesa já não se limitava à adaptação às regras existentes, mas incluía a tentativa de moldar, disputar e reconfigurar o próprio funcionamento do sistema mundial em um contexto de crise da ordem liberal.
9.4. Disputas tecnológicas e a centralidade da inovação
(anos 2010)
Ao longo da década de 2010, a inovação tecnológica passou ao centro das disputas econômicas e geopolíticas globais, e a China emergiu como um dos principais polos dessa transformação. Se nas décadas anteriores sua ascensão estivera fortemente associada à industrialização intensiva em trabalho e à integração às cadeias globais de valor em posições subordinadas, nesse período o país passou a disputar segmentos estratégicos de alta tecnologia, desafiando a divisão internacional do trabalho consolidada sob a hegemonia das economias centrais.
Esse movimento foi impulsionado por uma estratégia estatal explícita de redução da dependência tecnológica externa e de ascensão nas cadeias de valor. Políticas industriais, investimentos maciços em pesquisa e desenvolvimento e a articulação entre empresas estatais, privadas e universidades sustentaram a expansão chinesa em áreas como telecomunicações, inteligência artificial, energias renováveis, biotecnologia e semicondutores. A inovação deixou de ser vista apenas como instrumento de crescimento econômico e passou a ser tratada como questão de segurança nacional e soberania.
A centralidade da tecnologia redefiniu as relações da China com o sistema capitalista global. A partir de meados da década, intensificaram-se tensões com os Estados Unidos e seus aliados, especialmente em torno de empresas chinesas de ponta e do controle de infraestruturas digitais. Restrições comerciais, sanções, controles de exportação e disputas regulatórias passaram a fazer parte do cenário, evidenciando que a competição tecnológica havia se convertido em eixo estruturante da rivalidade entre grandes potências.
Ao mesmo tempo, o mercado interno chinês desempenhou papel decisivo nesse processo. A escala demográfica, a rápida digitalização da sociedade e a integração entre plataformas digitais, consumo e serviços financeiros criaram um ambiente favorável à experimentação tecnológica. Esse ecossistema permitiu avanços rápidos em setores como comércio eletrônico, pagamentos digitais e aplicações de dados em larga escala, fortalecendo empresas nacionais e ampliando sua capacidade de competir globalmente.
As disputas tecnológicas também expuseram limites e contradições do modelo chinês. A dependência de insumos críticos estrangeiros, sobretudo em tecnologias de ponta como semicondutores avançados, revelou vulnerabilidades estruturais. Em resposta, o Estado intensificou esforços de substituição tecnológica e de fortalecimento de cadeias produtivas domésticas, mesmo ao custo de maior tensão com parceiros comerciais e de um ambiente internacional mais fragmentado.
Do ponto de vista global, a ascensão tecnológica chinesa contribuiu para a crise da ordem liberal baseada na circulação relativamente aberta de capitais, bens e conhecimento. A tecnologia deixou de ser apenas vetor de integração e passou a ser instrumento de poder, controle e exclusão. Nesse cenário, a China tornou-se simultaneamente beneficiária e catalisadora de um processo de “desglobalização seletiva”, no qual interdependência econômica e rivalidade estratégica coexistem de forma instável.
Assim, nos anos 2010, a inovação consolidou-se como eixo central da projeção chinesa e das disputas sistêmicas em curso. Ao buscar autonomia tecnológica e liderança em setores estratégicos, a China não apenas redefiniu sua posição na economia mundial, mas também acelerou a transição para uma ordem internacional marcada por competição tecnológica, fragmentação regulatória e crescente politização do desenvolvimento científico e industrial.
9.5. Rivalidade sino-americana e o fim do consenso liberal
A crise financeira global de 2008 representou um ponto de inflexão histórico na ordem econômica internacional e marcou o início visível do deslocamento do centro de gravidade do capitalismo mundial. Originada no sistema financeiro dos Estados Unidos e rapidamente disseminada para a Europa, a crise revelou fragilidades profundas de um modelo baseado em financeirização, desregulamentação e endividamento crescente. Para a China, já plenamente integrada ao comércio global, o colapso não foi apenas um choque externo, mas um momento decisivo de redefinição de seu papel sistêmico.
No curto prazo, os efeitos da crise foram severos. A contração da demanda nos mercados norte-americano e europeu atingiu diretamente o setor exportador chinês, provocando fechamento de fábricas, queda nas exportações e desemprego entre milhões de trabalhadores migrantes. Diante desse cenário, o Estado chinês respondeu com rapidez e escala inéditas. O pacote de estímulo lançado em 2008 mobilizou investimentos públicos maciços em infraestrutura, expansão do crédito por meio dos bancos estatais e apoio financeiro a governos locais e empresas estratégicas. Essa intervenção não apenas evitou uma desaceleração abrupta, como manteve o crescimento em níveis elevados em comparação com as economias centrais.
A resposta chinesa contrastou de forma marcante com a trajetória das economias ocidentais após a crise. Enquanto Estados Unidos e, sobretudo, países europeus oscilaram entre resgates financeiros e políticas de austeridade, com recuperação lenta e aprofundamento das desigualdades sociais, a China reafirmou a centralidade do Estado como coordenador econômico. Esse contraste teve efeitos simbólicos e políticos relevantes, ao enfraquecer a legitimidade do consenso neoliberal e reforçar a percepção de que modelos alternativos de organização econômica eram não apenas possíveis, mas eficazes em contextos de crise sistêmica.
No plano global, o impacto da crise acelerou tendências já em curso. O dinamismo econômico deslocou-se ainda mais em direção à Ásia, com a China desempenhando papel central na sustentação da demanda global, especialmente por commodities e bens intermediários. Países da África, da América Latina e da Ásia passaram a depender crescentemente do mercado chinês, aprofundando novas redes de interdependência Sul–Sul e reduzindo, em termos relativos, a centralidade dos mercados europeus. A China consolidava-se como um polo estruturante da economia mundial.
Ao mesmo tempo, a crise expôs a natureza ambígua da interdependência sino-americana. A China continuou a financiar déficits externos dos Estados Unidos por meio da compra de títulos, contribuindo para a estabilidade do sistema financeiro global, enquanto buscava, internamente, reduzir sua vulnerabilidade à dependência das exportações e das reservas denominadas em dólar. Essa relação, simultaneamente cooperativa e tensionada, tornou-se um dos eixos centrais da ordem internacional pós-2008.
Do ponto de vista da História Global, o período entre 2008 e 2012 pode ser compreendido como um momento de transição sistêmica. A crise não significou o colapso imediato da hegemonia norte-americana, mas marcou o enfraquecimento estrutural da ordem liberal construída no pós-Guerra Fria. A China emergiu desse episódio não como substituta automática da liderança existente, mas como ator central em um sistema cada vez mais multipolar, instável e contestado.
Assim, a crise financeira global funcionou como catalisador de uma transformação mais ampla. Para a China, ela sinalizou a passagem de uma ascensão baseada sobretudo na integração econômica para uma fase em que sua escala, capacidade estatal e peso internacional passaram a influenciar diretamente os rumos do sistema mundial. O deslocamento do centro de gravidade econômico, acelerado entre 2008 e 2012, abriu o caminho para disputas mais profundas em torno de poder, normas e hegemonia que definiriam a década seguinte.
9.2. Reequilíbrio interno e limites do crescimento exportador
(início da década de 2010)
No início da década de 2010, a China passou a enfrentar de forma mais explícita os limites do modelo de crescimento baseado em exportações, investimento intensivo e expansão urbana acelerada. Embora esse arranjo tivesse sustentado taxas elevadas de crescimento por mais de três décadas, a crise financeira global e suas consequências revelaram vulnerabilidades estruturais que exigiam uma reorientação estratégica. O chamado “reequilíbrio interno” emergiu, então, como eixo central do debate econômico e político, articulando crescimento, estabilidade social e sustentabilidade de longo prazo.
A desaceleração da demanda externa após 2008 reduziu a capacidade das exportações de funcionar como principal motor do crescimento. Ao mesmo tempo, o estímulo maciço adotado durante a crise aprofundou desequilíbrios já existentes, como excesso de capacidade produtiva em setores industriais, endividamento de governos locais e dependência crescente do investimento financiado por crédito. Esses fatores tornaram evidente que a reprodução do modelo exportador-inversionista enfrentava retornos decrescentes e riscos sistêmicos crescentes.
Nesse contexto, as lideranças chinesas passaram a enfatizar a necessidade de fortalecer o consumo interno como base mais estável do crescimento. Isso implicava não apenas aumentar a renda disponível das famílias, mas também reformar estruturas institucionais que limitavam o consumo, como a desigualdade regional, o sistema de registro domiciliar e a insuficiência de redes de proteção social. A expansão gradual de políticas de seguridade, saúde e previdência buscou reduzir a necessidade de poupança excessiva das famílias e estimular a demanda doméstica.
O reequilíbrio também envolveu uma mudança na composição setorial da economia. Serviços, inovação tecnológica e atividades de maior valor agregado passaram a ser incentivados como alternativas à indústria pesada e às exportações de baixo custo. Esse movimento refletia tanto pressões internas quanto a necessidade de responder a um ambiente internacional mais competitivo e politicamente sensível à presença chinesa. Ainda assim, a transição mostrou-se complexa, marcada por resistências institucionais, interesses consolidados e desafios regionais.
Do ponto de vista social, os limites do modelo exportador tornaram-se cada vez mais visíveis. Desigualdades persistentes, conflitos trabalhistas, problemas ambientais e tensões urbanas exigiam respostas estatais mais abrangentes. O crescimento econômico continuava a ser condição fundamental de legitimidade política, mas já não podia ser perseguido a qualquer custo. A noção de “desenvolvimento de melhor qualidade” passou a ganhar centralidade no discurso oficial, sinalizando uma preocupação crescente com estabilidade e coesão social.
No plano global, o reequilíbrio interno chinês teve implicações significativas. A redução relativa do peso das exportações e o fortalecimento do mercado doméstico alteraram fluxos comerciais e afetaram economias dependentes da demanda chinesa por bens industriais ou commodities. Ao mesmo tempo, a busca por inovação e autonomia produtiva intensificou disputas tecnológicas e comerciais, especialmente com os Estados Unidos e outros países desenvolvidos.
Assim, o início da década de 2010 marcou uma fase de transição crítica. O reequilíbrio interno não representou uma ruptura imediata com o modelo anterior, mas um esforço gradual de adaptação às novas condições internas e globais. Ao enfrentar os limites do crescimento exportador, a China buscava preservar estabilidade e continuidade, ao mesmo tempo em que se preparava para um cenário internacional mais competitivo, fragmentado e politicamente tensionado.
9.3. Da integração à iniciativa: a Belt and Road e a projeção global chinesa
(2013–)
A partir de 2013, a China deu um passo qualitativo na sua inserção internacional ao passar de uma postura predominantemente reativa ou adaptativa à globalização para uma estratégia mais propositiva de reorganização dos fluxos econômicos, infraestruturais e políticos em escala global. A Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative, BRI) tornou-se o principal símbolo desse movimento, articulando interesses domésticos, projeção externa e uma leitura estratégica das transformações do sistema mundial no pós-crise de 2008.
A BRI surgiu em um contexto marcado por desaceleração do crescimento interno, excesso de capacidade industrial e busca por novos vetores de expansão. Ao promover investimentos em infraestrutura, logística, energia e conectividade em dezenas de países da Ásia, África, Europa e América Latina, a China procurou simultaneamente criar mercados para suas empresas, internacionalizar capitais e tecnologias e garantir acesso mais seguro a recursos estratégicos. Dessa forma, a iniciativa funcionou como uma extensão externa do processo de reequilíbrio interno, convertendo problemas estruturais domésticos em oportunidades de projeção internacional.
Ao contrário das formas clássicas de imperialismo formal, a Belt and Road não se baseou na conquista territorial direta nem em dominação política explícita, mas em redes de financiamento, parcerias estatais e acordos bilaterais flexíveis. Bancos públicos chineses, empresas estatais e governos locais desempenharam papel central nesse processo, reforçando a característica híbrida do modelo chinês, no qual Estado e mercado operam de forma articulada. Ainda assim, a iniciativa despertou debates intensos sobre endividamento, assimetrias de poder e dependência econômica, especialmente em países com menor capacidade institucional.
No plano geopolítico, a BRI expressou a ambição chinesa de reduzir vulnerabilidades associadas à ordem liberal liderada pelos Estados Unidos. Ao diversificar rotas comerciais, fortalecer corredores terrestres euroasiáticos e investir em portos e infraestruturas estratégicas, a China buscou mitigar riscos ligados a gargalos marítimos e a pressões políticas externas. A iniciativa também dialogou com a criação de novas instituições financeiras, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, sinalizando uma tentativa de complementar — e em alguns aspectos contornar — os mecanismos tradicionais de governança econômica global.
A projeção global chinesa nesse período não se limitou à economia. Ela foi acompanhada por uma presença diplomática mais assertiva, maior participação em fóruns multilaterais e crescente envolvimento em questões de segurança regional e global. A China passou a se apresentar como defensora do multilateralismo e do desenvolvimento, ao mesmo tempo em que afirmava seus próprios interesses estratégicos. Essa combinação reforçou percepções ambíguas: para alguns, a BRI representava uma oportunidade de desenvolvimento; para outros, um desafio à ordem internacional existente.
Internamente, a Belt and Road também cumpriu uma função política e simbólica. Ao vincular a expansão externa a uma narrativa de revitalização nacional e de “retorno” da China ao centro dos assuntos mundiais, o projeto contribuiu para reforçar a legitimidade do Partido e do Estado. A ideia de conectividade histórica, evocando antigas rotas da Seda, ofereceu uma moldura cultural que suavizava a imagem de ascensão de poder e a apresentava como continuidade histórica e cooperação ganha-ganha.
Assim, desde 2013, a China deixou de ser apenas um dos principais beneficiários da globalização para se tornar uma de suas arquitetas parciais. A Belt and Road marcou essa transição da integração à iniciativa, evidenciando que a ascensão chinesa já não se limitava à adaptação às regras existentes, mas incluía a tentativa de moldar, disputar e reconfigurar o próprio funcionamento do sistema mundial em um contexto de crise da ordem liberal.
9.4. Disputas tecnológicas e a centralidade da inovação
(anos 2010)
Ao longo da década de 2010, a inovação tecnológica passou ao centro das disputas econômicas e geopolíticas globais, e a China emergiu como um dos principais polos dessa transformação. Se nas décadas anteriores sua ascensão estivera fortemente associada à industrialização intensiva em trabalho e à integração às cadeias globais de valor em posições subordinadas, nesse período o país passou a disputar segmentos estratégicos de alta tecnologia, desafiando a divisão internacional do trabalho consolidada sob a hegemonia das economias centrais.
Esse movimento foi impulsionado por uma estratégia estatal explícita de redução da dependência tecnológica externa e de ascensão nas cadeias de valor. Políticas industriais, investimentos maciços em pesquisa e desenvolvimento e a articulação entre empresas estatais, privadas e universidades sustentaram a expansão chinesa em áreas como telecomunicações, inteligência artificial, energias renováveis, biotecnologia e semicondutores. A inovação deixou de ser vista apenas como instrumento de crescimento econômico e passou a ser tratada como questão de segurança nacional e soberania.
A centralidade da tecnologia redefiniu as relações da China com o sistema capitalista global. A partir de meados da década, intensificaram-se tensões com os Estados Unidos e seus aliados, especialmente em torno de empresas chinesas de ponta e do controle de infraestruturas digitais. Restrições comerciais, sanções, controles de exportação e disputas regulatórias passaram a fazer parte do cenário, evidenciando que a competição tecnológica havia se convertido em eixo estruturante da rivalidade entre grandes potências.
Ao mesmo tempo, o mercado interno chinês desempenhou papel decisivo nesse processo. A escala demográfica, a rápida digitalização da sociedade e a integração entre plataformas digitais, consumo e serviços financeiros criaram um ambiente favorável à experimentação tecnológica. Esse ecossistema permitiu avanços rápidos em setores como comércio eletrônico, pagamentos digitais e aplicações de dados em larga escala, fortalecendo empresas nacionais e ampliando sua capacidade de competir globalmente.
As disputas tecnológicas também expuseram limites e contradições do modelo chinês. A dependência de insumos críticos estrangeiros, sobretudo em tecnologias de ponta como semicondutores avançados, revelou vulnerabilidades estruturais. Em resposta, o Estado intensificou esforços de substituição tecnológica e de fortalecimento de cadeias produtivas domésticas, mesmo ao custo de maior tensão com parceiros comerciais e de um ambiente internacional mais fragmentado.
Do ponto de vista global, a ascensão tecnológica chinesa contribuiu para a crise da ordem liberal baseada na circulação relativamente aberta de capitais, bens e conhecimento. A tecnologia deixou de ser apenas vetor de integração e passou a ser instrumento de poder, controle e exclusão. Nesse cenário, a China tornou-se simultaneamente beneficiária e catalisadora de um processo de “desglobalização seletiva”, no qual interdependência econômica e rivalidade estratégica coexistem de forma instável.
Assim, nos anos 2010, a inovação consolidou-se como eixo central da projeção chinesa e das disputas sistêmicas em curso. Ao buscar autonomia tecnológica e liderança em setores estratégicos, a China não apenas redefiniu sua posição na economia mundial, mas também acelerou a transição para uma ordem internacional marcada por competição tecnológica, fragmentação regulatória e crescente politização do desenvolvimento científico e industrial.
9.5. Rivalidade sino-americana e o fim do consenso liberal
(anos 2010–presente)
Ao longo da década de 2010, a relação entre China e Estados Unidos deixou de ser estruturada majoritariamente pela complementaridade econômica e pela expectativa de convergência liberal para se transformar em uma rivalidade estratégica aberta. Esse deslocamento marcou o esgotamento do chamado “consenso liberal”, segundo o qual a integração econômica, a abertura de mercados e a difusão institucional conduziriam gradualmente à harmonização política e à estabilidade sistêmica. A ascensão chinesa, longe de confirmar esse horizonte, passou a ser percebida em Washington como um desafio estrutural à ordem internacional construída no pós-Guerra Fria.
A rivalidade sino-americana não emergiu de um único evento, mas de um acúmulo de tensões econômicas, tecnológicas, militares e ideológicas. A partir da segunda metade da década, os Estados Unidos passaram a redefinir sua estratégia em relação à China, abandonando a lógica do “engajamento construtivo” em favor de políticas de contenção seletiva. Tarifas comerciais, restrições a investimentos, sanções tecnológicas e disputas em organismos internacionais tornaram-se instrumentos centrais dessa nova fase, sinalizando uma ruptura com a ideia de neutralidade econômica.
No plano econômico, o comércio deixou de ser visto como espaço de ganhos mútuos automáticos e passou a ser interpretado em termos de segurança nacional. Cadeias globais de valor foram reavaliadas, e a dependência de insumos chineses passou a ser tratada como risco estratégico por diversas economias centrais. Em resposta, a China intensificou políticas de autonomia produtiva, diversificação de parceiros e fortalecimento do mercado interno, aprofundando uma dinâmica de desacoplamento parcial e assimétrico.
A dimensão tecnológica tornou-se um dos núcleos mais sensíveis da rivalidade. A disputa pelo controle de padrões, dados, plataformas digitais e tecnologias emergentes evidenciou que o poder no século XXI está cada vez mais associado à capacidade de definir normas e infraestruturas. Nesse contexto, a competição sino-americana ultrapassou a esfera bilateral e passou a pressionar aliados e parceiros, fragmentando o espaço global em zonas de influência tecnológica e regulatória.
No campo geopolítico e militar, a rivalidade também se intensificou. O Indo-Pacífico consolidou-se como principal teatro estratégico, com disputas em torno do Mar do Sul da China, de Taiwan e das alianças regionais. Embora o confronto direto tenha sido evitado, o aumento da presença militar, a retórica de dissuasão e os exercícios estratégicos revelaram uma crescente militarização das relações, elevando os riscos de escalada e instabilidade.
Do ponto de vista ideológico, o fim do consenso liberal refletiu-se na perda de centralidade da narrativa de universalização de valores políticos e institucionais. A China passou a afirmar com maior clareza a legitimidade de caminhos alternativos de desenvolvimento, baseados em forte protagonismo estatal, soberania nacional e controle estratégico de setores-chave. Essa postura encontrou eco em diversas regiões do Sul Global, ao mesmo tempo em que reforçou percepções de antagonismo nas democracias liberais.
Assim, a rivalidade sino-americana tornou-se um eixo estruturante da crise da ordem liberal contemporânea. Mais do que um conflito entre dois Estados, ela expressa a transição para um sistema internacional marcado por competição entre modelos, fragmentação institucional e erosão das regras que sustentaram a globalização nas últimas décadas. Nesse cenário, a China emerge não apenas como potência ascendente, mas como um dos principais vetores de reconfiguração — e contestação — do consenso liberal que organizou o mundo desde o final do século XX.
9.6. Crises globais, pandemia e governança internacional
Ao longo da década de 2010, a relação entre China e Estados Unidos deixou de ser estruturada majoritariamente pela complementaridade econômica e pela expectativa de convergência liberal para se transformar em uma rivalidade estratégica aberta. Esse deslocamento marcou o esgotamento do chamado “consenso liberal”, segundo o qual a integração econômica, a abertura de mercados e a difusão institucional conduziriam gradualmente à harmonização política e à estabilidade sistêmica. A ascensão chinesa, longe de confirmar esse horizonte, passou a ser percebida em Washington como um desafio estrutural à ordem internacional construída no pós-Guerra Fria.
A rivalidade sino-americana não emergiu de um único evento, mas de um acúmulo de tensões econômicas, tecnológicas, militares e ideológicas. A partir da segunda metade da década, os Estados Unidos passaram a redefinir sua estratégia em relação à China, abandonando a lógica do “engajamento construtivo” em favor de políticas de contenção seletiva. Tarifas comerciais, restrições a investimentos, sanções tecnológicas e disputas em organismos internacionais tornaram-se instrumentos centrais dessa nova fase, sinalizando uma ruptura com a ideia de neutralidade econômica.
No plano econômico, o comércio deixou de ser visto como espaço de ganhos mútuos automáticos e passou a ser interpretado em termos de segurança nacional. Cadeias globais de valor foram reavaliadas, e a dependência de insumos chineses passou a ser tratada como risco estratégico por diversas economias centrais. Em resposta, a China intensificou políticas de autonomia produtiva, diversificação de parceiros e fortalecimento do mercado interno, aprofundando uma dinâmica de desacoplamento parcial e assimétrico.
A dimensão tecnológica tornou-se um dos núcleos mais sensíveis da rivalidade. A disputa pelo controle de padrões, dados, plataformas digitais e tecnologias emergentes evidenciou que o poder no século XXI está cada vez mais associado à capacidade de definir normas e infraestruturas. Nesse contexto, a competição sino-americana ultrapassou a esfera bilateral e passou a pressionar aliados e parceiros, fragmentando o espaço global em zonas de influência tecnológica e regulatória.
No campo geopolítico e militar, a rivalidade também se intensificou. O Indo-Pacífico consolidou-se como principal teatro estratégico, com disputas em torno do Mar do Sul da China, de Taiwan e das alianças regionais. Embora o confronto direto tenha sido evitado, o aumento da presença militar, a retórica de dissuasão e os exercícios estratégicos revelaram uma crescente militarização das relações, elevando os riscos de escalada e instabilidade.
Do ponto de vista ideológico, o fim do consenso liberal refletiu-se na perda de centralidade da narrativa de universalização de valores políticos e institucionais. A China passou a afirmar com maior clareza a legitimidade de caminhos alternativos de desenvolvimento, baseados em forte protagonismo estatal, soberania nacional e controle estratégico de setores-chave. Essa postura encontrou eco em diversas regiões do Sul Global, ao mesmo tempo em que reforçou percepções de antagonismo nas democracias liberais.
Assim, a rivalidade sino-americana tornou-se um eixo estruturante da crise da ordem liberal contemporânea. Mais do que um conflito entre dois Estados, ela expressa a transição para um sistema internacional marcado por competição entre modelos, fragmentação institucional e erosão das regras que sustentaram a globalização nas últimas décadas. Nesse cenário, a China emerge não apenas como potência ascendente, mas como um dos principais vetores de reconfiguração — e contestação — do consenso liberal que organizou o mundo desde o final do século XX.
9.6. Crises globais, pandemia e governança internacional
(2020–2022)
Entre 2020 e 2022, a sucessão de crises globais — sanitária, econômica, logística e política — aprofundou a instabilidade da ordem internacional e expôs de forma aguda as fragilidades dos mecanismos de governança global. A pandemia de COVID-19 funcionou como catalisador desses processos, acelerando tendências já em curso, como a fragmentação do multilateralismo, a politização da interdependência econômica e a intensificação das rivalidades entre grandes potências. Nesse contexto, a posição da China tornou-se central tanto como epicentro inicial da crise quanto como ator-chave nas respostas globais.
A gestão da pandemia evidenciou contrastes profundos entre modelos de organização estatal e capacidades institucionais. A China adotou uma estratégia de contenção rigorosa, baseada em controle territorial, mobilização administrativa e uso intensivo de tecnologias de vigilância e rastreamento. Essa abordagem permitiu, ao menos nos primeiros momentos, limitar a propagação do vírus e retomar a atividade econômica mais rapidamente do que em muitas economias centrais. Ao mesmo tempo, suscitou críticas relacionadas a transparência, liberdades civis e circulação de informações, intensificando disputas narrativas no plano internacional.
No plano econômico, a pandemia interrompeu cadeias globais de produção e circulação, revelando a profundidade da dependência mundial da indústria chinesa. A rápida recuperação produtiva da China contrastou com a recessão prolongada em outras regiões, reforçando seu peso relativo na economia global. Contudo, esse papel central também alimentou debates sobre resiliência, diversificação e segurança das cadeias de suprimentos, incentivando estratégias de relocalização parcial e de redução de riscos em países desenvolvidos.
A crise sanitária também reconfigurou a atuação chinesa na governança internacional. Por meio do fornecimento de equipamentos médicos, vacinas e assistência técnica, a China buscou projetar uma imagem de responsabilidade global e solidariedade, especialmente junto ao Sul Global. Essa “diplomacia da saúde” ampliou sua presença em espaços multilaterais e bilaterais, mas também foi interpretada por críticos como instrumento de influência política, evidenciando a crescente desconfiança que permeia as relações internacionais contemporâneas.
Ao mesmo tempo, a pandemia expôs limites estruturais do sistema de governança global. Organizações internacionais mostraram-se fragilizadas por disputas entre Estados, falta de coordenação e escassez de recursos. A incapacidade de articular respostas equitativas, sobretudo na distribuição de vacinas, reforçou desigualdades globais e minou a legitimidade de instituições multilaterais. Nesse cenário, a China defendeu retoricamente o multilateralismo, mas também operou de forma pragmática, priorizando acordos bilaterais e regionais que servissem a seus interesses estratégicos.
Entre 2020 e 2022, crises adicionais — como tensões geopolíticas ampliadas, instabilidades financeiras e choques energéticos — aprofundaram o clima de incerteza. Para a China, esse período consolidou a percepção de que o ambiente internacional se tornara estruturalmente mais hostil e imprevisível. Em resposta, reforçou-se a ênfase em segurança, autonomia e capacidade estatal, tanto no plano interno quanto na projeção externa.
Entre 2020 e 2022, a sucessão de crises globais — sanitária, econômica, logística e política — aprofundou a instabilidade da ordem internacional e expôs de forma aguda as fragilidades dos mecanismos de governança global. A pandemia de COVID-19 funcionou como catalisador desses processos, acelerando tendências já em curso, como a fragmentação do multilateralismo, a politização da interdependência econômica e a intensificação das rivalidades entre grandes potências. Nesse contexto, a posição da China tornou-se central tanto como epicentro inicial da crise quanto como ator-chave nas respostas globais.
A gestão da pandemia evidenciou contrastes profundos entre modelos de organização estatal e capacidades institucionais. A China adotou uma estratégia de contenção rigorosa, baseada em controle territorial, mobilização administrativa e uso intensivo de tecnologias de vigilância e rastreamento. Essa abordagem permitiu, ao menos nos primeiros momentos, limitar a propagação do vírus e retomar a atividade econômica mais rapidamente do que em muitas economias centrais. Ao mesmo tempo, suscitou críticas relacionadas a transparência, liberdades civis e circulação de informações, intensificando disputas narrativas no plano internacional.
No plano econômico, a pandemia interrompeu cadeias globais de produção e circulação, revelando a profundidade da dependência mundial da indústria chinesa. A rápida recuperação produtiva da China contrastou com a recessão prolongada em outras regiões, reforçando seu peso relativo na economia global. Contudo, esse papel central também alimentou debates sobre resiliência, diversificação e segurança das cadeias de suprimentos, incentivando estratégias de relocalização parcial e de redução de riscos em países desenvolvidos.
A crise sanitária também reconfigurou a atuação chinesa na governança internacional. Por meio do fornecimento de equipamentos médicos, vacinas e assistência técnica, a China buscou projetar uma imagem de responsabilidade global e solidariedade, especialmente junto ao Sul Global. Essa “diplomacia da saúde” ampliou sua presença em espaços multilaterais e bilaterais, mas também foi interpretada por críticos como instrumento de influência política, evidenciando a crescente desconfiança que permeia as relações internacionais contemporâneas.
Ao mesmo tempo, a pandemia expôs limites estruturais do sistema de governança global. Organizações internacionais mostraram-se fragilizadas por disputas entre Estados, falta de coordenação e escassez de recursos. A incapacidade de articular respostas equitativas, sobretudo na distribuição de vacinas, reforçou desigualdades globais e minou a legitimidade de instituições multilaterais. Nesse cenário, a China defendeu retoricamente o multilateralismo, mas também operou de forma pragmática, priorizando acordos bilaterais e regionais que servissem a seus interesses estratégicos.
Entre 2020 e 2022, crises adicionais — como tensões geopolíticas ampliadas, instabilidades financeiras e choques energéticos — aprofundaram o clima de incerteza. Para a China, esse período consolidou a percepção de que o ambiente internacional se tornara estruturalmente mais hostil e imprevisível. Em resposta, reforçou-se a ênfase em segurança, autonomia e capacidade estatal, tanto no plano interno quanto na projeção externa.
Assim, a pandemia e as crises associadas não representaram apenas um episódio excepcional, mas um ponto de inflexão na governança internacional. Elas aceleraram a transição para uma ordem mais fragmentada, competitiva e politizada, na qual a China ocupa posição central e ambígua: simultaneamente indispensável à gestão de problemas globais e alvo de desconfiança crescente. O período de 2020 a 2022 consolidou, portanto, a crise do paradigma liberal de governança e abriu caminho para disputas mais intensas sobre os princípios, instituições e lideranças do sistema internacional.
9.7. Fragmentação da globalização e novos blocos geoeconômicos
9.7. Fragmentação da globalização e novos blocos geoeconômicos
(2020–presente)
A partir de 2020, a globalização entrou em uma fase marcada menos pela expansão de fluxos do que por sua reorganização seletiva e politizada. A combinação entre pandemia, rivalidade sino-americana, guerras comerciais, sanções econômicas e conflitos geopolíticos acelerou um processo de fragmentação da economia mundial que já se esboçava desde a crise financeira de 2008. Nesse novo cenário, a interdependência não desaparece, mas passa a ser reconfigurada em torno de blocos geoeconômicos, cadeias regionais e critérios de segurança nacional.
Para a China, essa fragmentação representou simultaneamente um desafio estrutural e uma oportunidade estratégica. O país continuou profundamente integrado ao comércio global, mas passou a operar em um ambiente em que mercados, tecnologias e investimentos se tornaram cada vez mais condicionados por alinhamentos políticos. Restrições impostas pelos Estados Unidos e seus aliados em setores considerados sensíveis — como semicondutores, telecomunicações, inteligência artificial e energia — evidenciaram que a globalização liberal, baseada na neutralidade dos mercados, havia sido substituída por uma lógica de competição sistêmica.
Em resposta, a China intensificou estratégias de reorientação econômica e diplomática. No plano interno, ganhou centralidade a ideia de “dupla circulação”, que busca fortalecer o mercado doméstico e reduzir vulnerabilidades externas sem abandonar a inserção internacional. No plano externo, Pequim aprofundou vínculos com regiões e países menos alinhados ao eixo atlântico, promovendo acordos comerciais, financeiros e de infraestrutura que reforçam circuitos alternativos de integração. Iniciativas como a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) e a ampliação do uso de moedas locais no comércio refletem essa tentativa de mitigar riscos associados à fragmentação.
A emergência de novos blocos geoeconômicos não implica uma divisão rígida do mundo em esferas isoladas, mas uma sobreposição de regimes, acordos e alianças. A China participa ativamente dessa recomposição, articulando-se com economias asiáticas, países do Sul Global e organizações multilaterais alternativas ou reformadas. Ao mesmo tempo, enfrenta limites impostos por dependências tecnológicas, barreiras regulatórias e resistências políticas em mercados centrais. A fragmentação, portanto, não elimina a assimetria de poder, mas a redistribui de forma mais complexa e instável.
Esse processo também tem implicações profundas para a governança global. A proliferação de blocos regionais e arranjos ad hoc enfraquece normas universais e dificulta respostas coordenadas a problemas globais, como mudanças climáticas, crises financeiras e pandemias. A China, ao defender um multilateralismo “mais inclusivo”, busca ampliar seu espaço de manobra institucional, mas opera em um contexto no qual a confiança entre grandes potências é reduzida e a cooperação é frequentemente subordinada à competição estratégica.
Entre 2020 e o presente, a fragmentação da globalização consolidou um mundo caracterizado por interdependências seletivas, cadeias de valor politizadas e blocos geoeconômicos em formação. Nesse ambiente, a China não é apenas afetada pela transformação do sistema mundial, mas um de seus principais agentes. A transição em curso sinaliza o fim definitivo da globalização como projeto homogêneo e a emergência de uma ordem econômica internacional mais segmentada, na qual poder, segurança e economia tornam-se indissociáveis.
9.8. A China e a transição hegemônica em aberto
(encerramento do período)
O período que se estende do final da década de 2000 até o presente não se encerra com a consolidação de uma nova hegemonia, mas com a abertura de uma transição histórica ainda em disputa. Nesse contexto, a China ocupa uma posição singular: não é mais uma potência em ascensão periférica, tampouco um ator plenamente dominante, mas um polo central de um sistema internacional marcado pela erosão da ordem liberal liderada pelos Estados Unidos e pela ausência de um consenso alternativo estável. A transição hegemônica em curso é, portanto, incompleta, contraditória e profundamente instável.
Diferentemente das transições hegemônicas clássicas, associadas à substituição relativamente clara de uma potência líder por outra, o cenário contemporâneo combina elementos de continuidade e ruptura. Os Estados Unidos mantêm superioridade militar, financeira e cultural em várias dimensões, enquanto a China expandiu de modo acelerado sua capacidade econômica, tecnológica e diplomática. O resultado não é um deslocamento linear do centro do sistema, mas uma sobreposição de poderes, regimes e esferas de influência, na qual a China atua simultaneamente como beneficiária e contestadora da ordem existente.
A estratégia chinesa diante dessa transição tem sido marcada pela ambiguidade calculada. Por um lado, o país evita apresentar-se explicitamente como hegemon substituto, reafirmando o respeito à soberania estatal, ao multilateralismo e à diversidade de caminhos de desenvolvimento. Por outro, promove ativamente reformas nas instituições internacionais, cria mecanismos paralelos de cooperação financeira e de infraestrutura e amplia sua presença normativa em áreas como tecnologia, comércio e governança digital. Trata-se menos de uma ruptura frontal com a ordem vigente do que de uma tentativa de moldá-la gradualmente a partir de uma posição de força crescente.
Essa postura reflete limites objetivos e escolhas políticas. Internamente, a China enfrenta desafios estruturais — desaceleração econômica, desigualdades regionais, envelhecimento populacional e tensões sociais — que restringem sua capacidade de projetar poder de forma irrestrita. Externamente, encontra resistências coordenadas de outras potências, desconfiança quanto às suas intenções e um ambiente internacional mais fragmentado e securitizado. A transição hegemônica, nesse sentido, não depende apenas da ascensão chinesa, mas da interação entre múltiplos atores e crises sistêmicas.
Para o sistema mundial, a centralidade da China nessa fase não significa estabilidade, mas reconfiguração contínua. A disputa não se limita à liderança econômica, estendendo-se a modelos de desenvolvimento, formas de governança, regimes tecnológicos e narrativas sobre modernidade e progresso. A China apresenta-se como evidência de que a integração ao mundo global pode ocorrer sem a adoção plena das instituições liberais ocidentais, o que amplia seu apelo simbólico em partes do Sul Global, ao mesmo tempo em que intensifica temores nos centros tradicionais de poder.
Como encerramento deste período, a China aparece não como ponto final da história global contemporânea, mas como um dos principais vetores de sua transformação. A transição hegemônica permanece em aberto porque o sistema internacional atravessa não apenas uma mudança de liderança, mas uma crise mais profunda de regras, expectativas e formas de coordenação global. Nesse cenário, a trajetória chinesa — marcada por pragmatismo estratégico, afirmação estatal e inserção seletiva na globalização — ajuda a definir os contornos de um mundo em transição, no qual o futuro da ordem internacional permanece indeterminado.
Conclusão
Entre 2008 e o presente, a China deixou definitivamente de ser apenas um produto da globalização para se tornar um de seus principais agentes de transformação. A crise da ordem liberal não significou o colapso imediato das estruturas existentes, mas sua progressiva perda de capacidade de organizar consensos, regular conflitos e oferecer horizontes compartilhados de desenvolvimento. Nesse contexto, a ascensão chinesa não se traduziu em substituição hegemônica clássica, mas em uma disputa prolongada por influência, normas e legitimidade em um sistema cada vez mais fragmentado.
Ao longo desse período, a China respondeu à instabilidade global combinando aprofundamento do papel do Estado, busca por autonomia estratégica e ativismo internacional seletivo. Ao mesmo tempo, enfrentou limites claros: dependências tecnológicas, pressões externas, desaceleração econômica e um ambiente internacional mais hostil. A transição hegemônica permanece aberta justamente porque nenhuma potência isolada é capaz de reconstruir, sozinha, uma ordem global estável nos moldes do passado.
Do ponto de vista da História Global, a Parte 9 evidencia que o presente não pode ser compreendido como simples passagem de liderança entre Estados, mas como uma crise mais profunda do próprio modelo de globalização que estruturou o mundo desde o final do século XX. A China emerge como símbolo e protagonista dessa transformação: sua trajetória desafia a universalidade do liberalismo, revela a centralidade do Estado na organização econômica e reintroduz a política de poder no coração da economia global.
Assim, o período contemporâneo não se encerra com respostas definitivas, mas com questões em aberto. O futuro da ordem internacional dependerá da capacidade — ou incapacidade — de articular cooperação em um mundo de rivalidades estruturais, interdependências seletivas e múltiplos centros de poder. A história recente da China, longe de oferecer um modelo acabado, ilumina as tensões fundamentais de um sistema mundial em transição, no qual o equilíbrio entre integração, soberania e hegemonia ainda está por ser definido.
A partir de 2020, a globalização entrou em uma fase marcada menos pela expansão de fluxos do que por sua reorganização seletiva e politizada. A combinação entre pandemia, rivalidade sino-americana, guerras comerciais, sanções econômicas e conflitos geopolíticos acelerou um processo de fragmentação da economia mundial que já se esboçava desde a crise financeira de 2008. Nesse novo cenário, a interdependência não desaparece, mas passa a ser reconfigurada em torno de blocos geoeconômicos, cadeias regionais e critérios de segurança nacional.
Para a China, essa fragmentação representou simultaneamente um desafio estrutural e uma oportunidade estratégica. O país continuou profundamente integrado ao comércio global, mas passou a operar em um ambiente em que mercados, tecnologias e investimentos se tornaram cada vez mais condicionados por alinhamentos políticos. Restrições impostas pelos Estados Unidos e seus aliados em setores considerados sensíveis — como semicondutores, telecomunicações, inteligência artificial e energia — evidenciaram que a globalização liberal, baseada na neutralidade dos mercados, havia sido substituída por uma lógica de competição sistêmica.
Em resposta, a China intensificou estratégias de reorientação econômica e diplomática. No plano interno, ganhou centralidade a ideia de “dupla circulação”, que busca fortalecer o mercado doméstico e reduzir vulnerabilidades externas sem abandonar a inserção internacional. No plano externo, Pequim aprofundou vínculos com regiões e países menos alinhados ao eixo atlântico, promovendo acordos comerciais, financeiros e de infraestrutura que reforçam circuitos alternativos de integração. Iniciativas como a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) e a ampliação do uso de moedas locais no comércio refletem essa tentativa de mitigar riscos associados à fragmentação.
A emergência de novos blocos geoeconômicos não implica uma divisão rígida do mundo em esferas isoladas, mas uma sobreposição de regimes, acordos e alianças. A China participa ativamente dessa recomposição, articulando-se com economias asiáticas, países do Sul Global e organizações multilaterais alternativas ou reformadas. Ao mesmo tempo, enfrenta limites impostos por dependências tecnológicas, barreiras regulatórias e resistências políticas em mercados centrais. A fragmentação, portanto, não elimina a assimetria de poder, mas a redistribui de forma mais complexa e instável.
Esse processo também tem implicações profundas para a governança global. A proliferação de blocos regionais e arranjos ad hoc enfraquece normas universais e dificulta respostas coordenadas a problemas globais, como mudanças climáticas, crises financeiras e pandemias. A China, ao defender um multilateralismo “mais inclusivo”, busca ampliar seu espaço de manobra institucional, mas opera em um contexto no qual a confiança entre grandes potências é reduzida e a cooperação é frequentemente subordinada à competição estratégica.
Entre 2020 e o presente, a fragmentação da globalização consolidou um mundo caracterizado por interdependências seletivas, cadeias de valor politizadas e blocos geoeconômicos em formação. Nesse ambiente, a China não é apenas afetada pela transformação do sistema mundial, mas um de seus principais agentes. A transição em curso sinaliza o fim definitivo da globalização como projeto homogêneo e a emergência de uma ordem econômica internacional mais segmentada, na qual poder, segurança e economia tornam-se indissociáveis.
9.8. A China e a transição hegemônica em aberto
(encerramento do período)
O período que se estende do final da década de 2000 até o presente não se encerra com a consolidação de uma nova hegemonia, mas com a abertura de uma transição histórica ainda em disputa. Nesse contexto, a China ocupa uma posição singular: não é mais uma potência em ascensão periférica, tampouco um ator plenamente dominante, mas um polo central de um sistema internacional marcado pela erosão da ordem liberal liderada pelos Estados Unidos e pela ausência de um consenso alternativo estável. A transição hegemônica em curso é, portanto, incompleta, contraditória e profundamente instável.
Diferentemente das transições hegemônicas clássicas, associadas à substituição relativamente clara de uma potência líder por outra, o cenário contemporâneo combina elementos de continuidade e ruptura. Os Estados Unidos mantêm superioridade militar, financeira e cultural em várias dimensões, enquanto a China expandiu de modo acelerado sua capacidade econômica, tecnológica e diplomática. O resultado não é um deslocamento linear do centro do sistema, mas uma sobreposição de poderes, regimes e esferas de influência, na qual a China atua simultaneamente como beneficiária e contestadora da ordem existente.
A estratégia chinesa diante dessa transição tem sido marcada pela ambiguidade calculada. Por um lado, o país evita apresentar-se explicitamente como hegemon substituto, reafirmando o respeito à soberania estatal, ao multilateralismo e à diversidade de caminhos de desenvolvimento. Por outro, promove ativamente reformas nas instituições internacionais, cria mecanismos paralelos de cooperação financeira e de infraestrutura e amplia sua presença normativa em áreas como tecnologia, comércio e governança digital. Trata-se menos de uma ruptura frontal com a ordem vigente do que de uma tentativa de moldá-la gradualmente a partir de uma posição de força crescente.
Essa postura reflete limites objetivos e escolhas políticas. Internamente, a China enfrenta desafios estruturais — desaceleração econômica, desigualdades regionais, envelhecimento populacional e tensões sociais — que restringem sua capacidade de projetar poder de forma irrestrita. Externamente, encontra resistências coordenadas de outras potências, desconfiança quanto às suas intenções e um ambiente internacional mais fragmentado e securitizado. A transição hegemônica, nesse sentido, não depende apenas da ascensão chinesa, mas da interação entre múltiplos atores e crises sistêmicas.
Para o sistema mundial, a centralidade da China nessa fase não significa estabilidade, mas reconfiguração contínua. A disputa não se limita à liderança econômica, estendendo-se a modelos de desenvolvimento, formas de governança, regimes tecnológicos e narrativas sobre modernidade e progresso. A China apresenta-se como evidência de que a integração ao mundo global pode ocorrer sem a adoção plena das instituições liberais ocidentais, o que amplia seu apelo simbólico em partes do Sul Global, ao mesmo tempo em que intensifica temores nos centros tradicionais de poder.
Como encerramento deste período, a China aparece não como ponto final da história global contemporânea, mas como um dos principais vetores de sua transformação. A transição hegemônica permanece em aberto porque o sistema internacional atravessa não apenas uma mudança de liderança, mas uma crise mais profunda de regras, expectativas e formas de coordenação global. Nesse cenário, a trajetória chinesa — marcada por pragmatismo estratégico, afirmação estatal e inserção seletiva na globalização — ajuda a definir os contornos de um mundo em transição, no qual o futuro da ordem internacional permanece indeterminado.
Conclusão
Entre 2008 e o presente, a China deixou definitivamente de ser apenas um produto da globalização para se tornar um de seus principais agentes de transformação. A crise da ordem liberal não significou o colapso imediato das estruturas existentes, mas sua progressiva perda de capacidade de organizar consensos, regular conflitos e oferecer horizontes compartilhados de desenvolvimento. Nesse contexto, a ascensão chinesa não se traduziu em substituição hegemônica clássica, mas em uma disputa prolongada por influência, normas e legitimidade em um sistema cada vez mais fragmentado.
Ao longo desse período, a China respondeu à instabilidade global combinando aprofundamento do papel do Estado, busca por autonomia estratégica e ativismo internacional seletivo. Ao mesmo tempo, enfrentou limites claros: dependências tecnológicas, pressões externas, desaceleração econômica e um ambiente internacional mais hostil. A transição hegemônica permanece aberta justamente porque nenhuma potência isolada é capaz de reconstruir, sozinha, uma ordem global estável nos moldes do passado.
Do ponto de vista da História Global, a Parte 9 evidencia que o presente não pode ser compreendido como simples passagem de liderança entre Estados, mas como uma crise mais profunda do próprio modelo de globalização que estruturou o mundo desde o final do século XX. A China emerge como símbolo e protagonista dessa transformação: sua trajetória desafia a universalidade do liberalismo, revela a centralidade do Estado na organização econômica e reintroduz a política de poder no coração da economia global.
Assim, o período contemporâneo não se encerra com respostas definitivas, mas com questões em aberto. O futuro da ordem internacional dependerá da capacidade — ou incapacidade — de articular cooperação em um mundo de rivalidades estruturais, interdependências seletivas e múltiplos centros de poder. A história recente da China, longe de oferecer um modelo acabado, ilumina as tensões fundamentais de um sistema mundial em transição, no qual o equilíbrio entre integração, soberania e hegemonia ainda está por ser definido.
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